domingo, julho 29, 2007

Lígia

O sol ardente de fevereiro tornava ouro as lindas serras da Tijuca. Que manhã encantadora. O céu descia do mais puro azul; o verde da relva e da folhagem sussurrava entre gotas de orvalho, refletindo toques de luz. Flocos de névoa, restos da cerração da noite, envolviam ainda as escarpas mais altas da montanha como renda flutuante ao sopro da brisa; tal qual a montanha, a neblina também me envolvia, como manto único e quase transparente.

Havia alguns anos que começáramos a guiar até onde a serra permitia; abeirávamos o caminho de terra e nos agarrávamos primeiro dentro do automóvel, mais tarde fora dele, sobre a vegetação já fria e úmida de sereno. Embrenhávamos inteiramente nus por trilhas e veredas seguras para nós, sítios ocultos no meio da mata, conhecedores que éramos dos espaços às vezes exíguos entre árvores e arbustos. Sentíamo-nos parte do lugar. Vivíamos o ardor da paixão; não perdíamos qualquer oportunidade para nos engolirmos mutuamente. Freqüentadores da floresta em hora tardia, temíamos que alguém nos descobrisse; mas acho que na verdade nos excitávamos ante tal perspectiva. Quando avistávamos outro veículo, ou outro casal que também namorava, tentávamos espioná-lo. Divertíamo-nos.

Até então estivéramos sob o véu da noite, tendo como contorno luminoso apenas os vaga-lumes estelares, piscar alternado de explosões celestes em eras distantes.

Durante o dia, entretanto, era a primeira vez.

Eram sete horas. Apostávamos no amanhecer ainda deserto daquele domingo. Subimos por um atalho novo; pensávamos conhecer todos os caminhos e eis que havia surgido um novo. Tudo incentivava à aventura: a luz forte do sol, a névoa que se dissipava veloz abandonando-nos em pele e pêlo e a vereda recém descoberta.

Caminhamos durante uns bons quinze minutos; adentramos um campo florido, de árvores baixas, tendo ao fundo uma pequena cabana.

Contornamos a rústica construção; íamos cuidadosos. Num primeiro momento, parecia desabitada. Caminhamos para o lado sul e percebemos através de uma das janelas um casal que dormia. O homem e a mulher estavam nus. Os minutos que ficamos a observá-los foram longos e intermináveis. Eu, intempestiva, forcei a porta da sala. Estava aberta. Entrei; procurava ir em silêncio; sentia-me borboleta primaveril que mergulha límpida no ar rarefeito da manhã, sem fazer ruído algum. Deslizei lépida por pequeno corredor. Atravessei a sala e logo me vi no quarto onde dormiam. Tudo era silêncio; podia ouvir a respiração de ambos. Sobre o encosto da cadeira, junto à penteadeira, tomei nas mãos um vestido curto, de cor vinho; parecia roupa própria para noite. Senti a fazenda macia, o corte perfeito, tive vontade de vesti-lo.

Caiu-me na medida. A bela roupa fora cortada e costurada para mim. No corpo, percebi ser um autêntico Versace. Corri a Alberto que me esperava temeroso; não entrara à casa. Surpreendeu-se ao me ver vestida.

– Que roupa linda!

– A mulher tem bom gosto.

– Vai levá-la?

– Claro que não; nunca fui ladra, não haveria de sê-lo agora.

– E por que a veste?

– Para que você me coma vestida com um autêntico Versace.

Alberto encostou-me a uma das paredes externas, levantou o vestido e penetrou-me. Trepamos durante um bom tempo. Trememos quando ouvimos alguém se mover sobre a cama. Quis despir-me e atirar o vestido sobre a mesma cadeira; não queria ser surpreendida naquele estado. Mas, de repente, o silêncio se estendeu de novo; nos mexemos então com mais furor. Tive o cuidado de não sujar a peça valiosa.

– Quem são eles? – perguntou Alberto depois que acabamos.

– Não sei; mas a mulher não me é estranha; e esse vestido não é de qualquer uma.

– Vai ver que aproveitaram a noite e agora dormem.

– Isso – disse eu –, ela não parece com aquela modelo e atriz que se chama Juliana?

– Isso mesmo, bem lembrado, acho que é ela! e então, vai deixá-la nua?

– Já disse que não, vou devolver.

Descemos o trecho da montanha tendo todo o cuidado de não cruzarmos com os primeiros caminhantes. Abaixávamos junto ao córrego que nos acompanhava ou atrás de alguma árvore maior sempre que nos ameaçava algum grupo de jovens que ia aos pontos mais elevados da serra. Mais adiante, seguimos por dentro da mata. Ao chegarmos próximos ao nosso automóvel, reparamos um casal que namorava encostado nele. Fiz voar uma pedra que se chocou contra o solo dez metros à frente. Os namorados se assustaram e partiram.

Como disse, foi a nossa primeira aventura diurna.

E o meu primeiro Versace.

marg_57a@yahoo.com.br

quarta-feira, julho 04, 2007

Carinhosa

Tudo que existe em mim de grave e carinhoso te digo aqui como se fosse ao teu ouvido; nas ondas da praia, nas ondas do mar, quero ser feliz; quero banhar-me nas águas límpidas, quero banhar-me nas águas puras, que apenas me vestem original; como me deixaste na madrugada que ainda ia escura, o corpo a reluzir explosões astrais; minha pele é dourada e vou sob céu de estrela única, à espera de que voltes e deslizes sobre meu ventre teus dedos, pincéis de cores quentes; as ondas do mar me cobrem, são trajes de festa, roupa feita de espumas compridas, véus que se estendem por areias antigas, brancura transformada em diadema real; mas que, súbito, escapam-me, deixam-me nua, tornam plebéia à princesa, loura encoberta apenas por respingos de sal; não demoram as ondas, outra vez são generosas e se apressam a me dar prumo, a lavar-me, a vestir-me noiva generosa que aguarda algum tipo de deus; talvez Apolo a me deixar lívida, ou Marte a me tornar trêmula; mas aí vem Vênus ciumenta que, sem poder roubar-me o namorado toma-me, ainda que por empréstimo, o vestido real.

domingo, junho 17, 2007

Eu e Lu comemos todos eles

Ao entrarmos no carro ainda olhei para Luciana, queria lhe dizer que um mal presságio alfinetava-me. Mas a manhã ia alta, era de sol, o tráfego lento, nada melhor do que uma carona até a praia. Os rapazes eram bonitos, viris, corpos bronzeados pelo sol. Não gostei quando um deles me abriu a canga; alegava querer ver meu biquíni. Depois nos mostrou dois biquínis mínimos. Traziam-nos no porta-luvas. Desconfiei; como dois homens tinham dois biquínis no carro? Não perguntei. Luciana se assanhou. Gostou da cor e do modelo. Ele ofereceu, que o vestisse, não iria olhar. E não é que ela, muito rápida, fez a troca. Me falou em voz baixa:

"Entra todo atrás, na frente foi a conta."

Ela entregou o outro, o que viera no próprio corpo. Ele tomou nas mãos as duas peças e sussurrou:

"Bonito."

Guardou no mesmo lugar de onde tirara o novo. Olhou então para mim. Fiz que não com a cabeça. Luciana me beliscou.

"Eles querem nos fazer um agrado."

Estava decretada a sentença. As duas, na verdade, nuas com aqueles trajes.

Ao escolhermos um pouso na praia, não fiz menção em desamarrar a canga. Minha amiga dançou natural, era bailarina nativa envolta em névoa de sal.

"Lu, isso pode não dar certo, não os conhecemos."

"Deixa disso, é tudo um grande divertimento."

Ela aceitou o convite do que viera dirigindo e voltou com ele para o carro. Eu e o outro nos estabelecemos num pedaço de areia que parecia esquecido pelas outras pessoas. Não demorou minha amiga e seu par voltaram.

"Não dá para namorar no carro; além do calor, sempre surge alguém, nem nos pudemos tocar."

"Você não acha que é cedo para essas coisas?"

"Não. A proposta dele é irrecusável, e olha que inclui você!"

"Quanto a mim, deixa que eu decido."

"Dá um chute; quanto você acha que eles nos ofereceram?"

"Lu, não somos prostitutas."

"O que é que tem?, é apenas um faz de contas. Mas vai, dá um palpite, fala um valor", ela continuava, sua expressão tinha ar de ironia.

"Olha, Lu, eu vim com a intenção de aproveitar a praia..."

"Posso dizer o valor?"

"Está bem, diz."

"Quinhentos, mesmo que você não queira, caso aceite, a proposta é mil."

Suspirei surpresa.

"Mil?, tem certeza?, eles devem estar de brincadeira."

"Não é brincadeira nem mentira, mil só para começar, ainda podemos ganhar muito mais. Já pensou, a gente vem à praia para tomar sol, dar um mergulho e consegue ganhar ainda essa grana toda."

Um deles se aproximou e sugeriu:

"Que tal um mergulho?"

"Só um momentinho", falou minha amiga.

Ele entendeu e se afastou alguns metros.

"Há um porém", continuou Luciana.

"Um porém?"

"Isso."

"Qual?"

"Não são só os dois."

"Há mais rapazes?"

"Três ou quatro."

Luciana acabou me convencendo, sobretudo quando disse que o que viera ao volante era um parente distante de uma amiga dela e que tinha certeza de que eles não iriam nos fazer mal algum. Me assegurou também que eram ricos.

Mergulhamos e fomos para onde estavam os dois. Começaram a nos tocar de forma sugestiva. Meu par tateou-me a cintura, percorreu a lateral do meu corpo com a ponta do dos dedos, depois deslizou as mãos pelas minhas costas. Segurei-o de forma carinhosa, correspondendo a seus afagos. Não é preciso dizer que logo senti seu membro ereto, que avançava entre minhas pernas. O rapaz puxou meu biquíni por baixo e me penetrou. Reparei que seu pênis estava com camisinha e isso fez a penetração se tornar mais fácil.

"Não seria melhor namorarmos à noite?", sussurrei em um de seus ouvidos, enquanto ele se movia e tentava sentir com mais intensidade meu corpo.

"Por que não agora e também à noite?"

As pessoas que estavam nas proximidades não eram muitas e não se ocupavam conosco. A água estava quente e o mar calmo. Foi uma trepada demorada. O pênis escorregava devido a lubrificação da camisinha e devido à água, o que fazia a fricção um tanto frágil. Ele só gozou quando segurei seu membro pela base e o puxei na direção contrária a que ele me penetrava. Com essa estratégia, ele sentiu intenso prazer.

"Você agora espera um pouco; faz parte do trato."

"Espero".

"Só que tem mais uma coisa", ele falava um tanto sem jeito.

"O quê?"

"Você tem que me dar o biquíni."

"Você vai me deixar nua?"

"Não só você, mas ela também", e apontou a Luciana, que naquele momento se soltara do seu par, "é apenas por algum tempo, depois a gente devolve, sua amiga já sabia disso."

Olhei assustada para Lu. Ela procurou me tranqüilizar.

"É sobre aquilo que eu disse a você", falava e fazia movimentos com os olhos, tentava pedir que eu facilitasse as coisas.

Ela tirou o próprio biquíni e entregou ao rapaz que transara com ela. Como eu hesitava, ela própria avançou sobre mim, desfez meus laços e me deixou nua.

Eles se foram.

"Lu, se esses caras não voltam, nós vamos passar a maior vergonha", falei desesperada.

"Fica calma, tudo vai dar certo."

Logo chegaram outros dois. Depois descobri que os primeiros fizeram uma grande aposta com os amigos e nós, nuas, éramos parte de tudo aquilo.

Trepamos com mais três, cada uma. Todos eles vieram de camisinha, foram trepadas limpas. A cada um que gozava e partia, eu perguntava pelo meu biquíni. Eles não sabiam dizer.

Houve um que me proporcionou muito prazer. Descobriu em meu corpo sutilezas difíceis a um homem comum. Me fez gemer, me fez atingir altitudes impensadas, orbitar em torno de estrela cintilante e só não me perdi porque prendia-me o corpo eixo rígido mas confortável. Quando gozei me arrependi, porque voltei a lembrar que estava inteiramente nua numa praia, num dia de sol.

"Lu, estou exausta, se vier mais alguém acho que desmaio", sentia minhas pernas bambas após a partida do quarto homem."

"Eu acho que os primeiros estão voltando, olha lá."

Voltei-me para a direção a que ela apontara e reparei os rapazes que nos trouxeram de carro.

Ao chegarem, perguntei ao que ficara comigo:

"Cadê meu biquíni?"

"Calma, não vamos deixar vocês nuas", ainda perguntou: "está tudo bem?"

"Só vai estar bem quando eu me sentir vestida e puder descansar um pouco."

Luciana riu das minhas palavras. Nos deram de volta os biquínis, estavam dentro de suas sungas.

Um deles ainda falou com ar de deboche:

"Será que você, laçada por esse biquininho, se sente tão vestida assim?"

Permanecemos deitadas sobre nossas cangas durante um bom tempo. Depois, o que viera ao volante falou:

"Nós vamos pegar vocês às nove da noite, combinado?"

Olhei mais uma vez sem entender para Luciana.

"Combinado", ela disse.

Um deles ainda acrescentou:

"Não precisam se preocupar quanto às roupas; nós vamos vestir vocês.

Deixaram uma parte do dinheiro e se foram. Escreveram num pedaço de papel o endereço onde deveríamos encontrá-los.

Luciana virou-se para mim e falou:

"Não disse?, não precisamos ter medo; hoje é nosso dia de sorte!"

"Só falta eles querem que andemos nuas à noite pela cidade."

O bar principal do Peró estava cheio às nove horas. Esperamos durante algum tempo junto à entrada. Um dos garçons nos chamou e indicou uma das mesas ao lado esquerdo. Os dois estavam lá. Perguntaram o que queríamos comer. Feitos os pedidos, conversamos os quatro. Eles pareciam bastante entusiasmados.

"Quando acabarmos o lanche, vamos levar vocês duas a um lugar que com certeza vão gostar muito."

Eu e Lu insistimos em ficar algum tempo por ali. Tomei uma caipirinha e ela uma taça de vinho. Comemos salada de palmitos e alguns pedaços de carpaccio. Estava tudo muito gostoso.

Eles pediram a conta e depois caminhamos para o carro deles. O que entrou junto ao volante falou:

"Agora, vamos vesti-las."

"Não estamos nuas", falei, "e até que estamos bem vestidas."

"Mas nós temos alguma coisa mais excitante", disse ele.

Fomos até a casa deles. Uma casa imensa, bonita, com gramado e piscina na parte de trás. Ensaiamos um início de namoro. Começamos a correr para que nos pegassem. Desta vez quem me perseguia era o que ficara com a Lu pela manhã. Ao me alcançar, segurou-me com força e me levou para a grande sala. Ali havia um sofá espaçoso. Ele não me despiu, arrancou minhas roupas com violência. Trepamos. Ele mordia-me os seios, apertava-me as costas. Abri as pernas para recebê-lo. Fazíamos movimentos compassados, um balé exato, ensaiado desde tempos imemoriais. Quando íamos adiantados, lembrei-o da camisinha... Ele foi pouco a pouco diminuindo os movimentos, parecia que ia gozar, mas em gestos também lentos, sem me abandonar, dobrou o corpo e tirou não sei de onde o tal objeto. Fez que eu abrisse a boca, quis saber se me era possível conseguir aquela proeza. Rápido, soltou-se e trouxe o pênis à altura de minha cabeça. Eu, com a camisinha à boca, numa posição transversal, vesti-o, de forma exuberante, sem usar as mãos. Voltou então a trazer seu pênis por entre minhas pernas. Gozamos juntos, jorrando fogos de artifícios.

Ainda nua, de bruços sobre o sofá, senti leve tapa nas nádegas. Era Lu, também nua, rindo para mim. " Você precisa ver a roupa que eles vão nos fazer vestir!" , não é preciso dizer que ela não continha o próprio entusiasmo.

Após tomarmos banho, Lu vestiu um tomara-que-caia preto, justíssimo no corpo. Deixava-a com as pernas toda de fora; o comprimento mal ia além da virilha. A mim, cobriu-me um vestidinho de corte camiseta na parte da frente, prateado, também curtíssimo; atrás, a cava era funda, deixava minhas costas despidas; o tecido só se juntava poucos centímetros acima do bumbum, cobrindo-o de forma ainda que precária. As sandálias altas que eu usava destacavam minhas pernas com agressividade. Eram roupas boas, de grife, próprias para modelos. Ofereceram-nos também alguns acessórios, como dois braceletes quadrados para mim e um colar corrente para minha amiga.

Lu falou-me, tinha os olhos brilhantes:

"Você está gostosíssima com essa roupa."

"Roupa, que roupa?", brinquei, "estou pelada."

Ao nos chamarem para sair, fiz um gesto aos rapazes.

"Vocês não acham que falta alguma coisa ?"

Não quis ser deselegante, mas queria dizer que me sentia nua com apenas aquele leve tecido roçando-me o corpo.

Minha amiga riu e fez sinal para que eu não fosse além daquelas palavras. Eles entenderam e o mais desinibido falou:

"Faz parte do trato", e depois de alguns segundos completou: "e da aposta."

Luciana encerrou o diálogo:

"Fique calma, vamos sair ganhando."

Eu queria entender por que os outros não vinham àquela casa e trepávamos ali mesmo, por que tanto deslocamento. Entramos no carro, rodamos durante algum tempo pela cidade e depois pela orla.

"Já está tudo arranjado, vocês não precisam temer, as coisas vão se dar como pela manhã. Os rapazes são os mesmos, invertem-se as mulheres."

Ao saltarmos, deram-nos longos beijos e um até breve.

"Como vamos saber quem são os rapazes?", perguntei um tanto confusa, enquanto segurava a barra do vestido.

"Calma, amiga, não tenha tanto pudor, deixe o vestido solto; quanto aos rapazes, já os conhecemos, não lembra?"

" Nem faço idéia, estava tão nervosa."

Não se atrasaram os dois primeiros. Deitaram sobre a areia da praia, fizeram que agachássemos e nos mexêssemos sobre eles. Depois, meu par levantou-me o vestido até o pescoço e apertou meus seios; queria me fazer gozar, mas eu estava muito nervosa.

"Relaxe, meu amor, por que tremes tanto?", ouvi sua voz e acho que enrubesci; sorte que a noite ia escura.
Ao terminar, acendeu um baseado e me ofereceu. Dei dois tragos seguidos e profundos. Creio que foi o que me acalmou. Dali em diante, tive domínio sobre mim e o temor era alguma coisa distante, quase impossível de me atingir.

O segundo que apareceu era muito carinhoso. Mas já não era na praia que transávamos. Levaram-nos de carro até um campo aberto, o edifício mais próximo parecia o de uma igreja.

"Não precisa se benzer, está desativada", falou enquanto percorria minha pele por baixo do vestido.

Foi um namoro lento. Dali ainda fomos para uma pedra num dos pontais distantes, na orla novamente; ao longe viam-se pescadores, mas não deram por nós. Ele tirou toda a minha roupa. Como estava ventando, procurou uma pedra para que o vestido não se perdesse. O namorado da vez queria me beijar na boca quase sem parar. Tocava-me o corpo, os seios, meus poucos pêlos e tornava a me beijar. Depois de muito tempo, tirou o pênis, cobriu-o com uma camisinha e me penetrou; não demorou, soltou-se, virou-me de costas.

"Não, não, não combinamos isso", falei nervosa e olhei para Lu.

Ela, sem vergonha, já havia muito ia de dorso para cima.

Deixaram-nos no centro. Só dei por minhas roupas curtas quando reparei que as pessoas nos olhavam com insistência. Mas não liguei, fingia que era a mulher mais vestida do mundo.

Pararam dois motociclistas. Descobrimos que eram os dois que faltavam. Subimos. Levaram-nos para um bairro de casas baixas. Quando pararam em uma das ruas, puseram-nos inteiramente nuas. Abri as pernas encostada a um muro branco. Eu e Luciana. Foi uma trepada violenta. Ele se movimentava de modo ríspido, não respeitava minhas limitações; acho que seu pênis era muito grande para mim. Mas suportei tudo com o ardor de uma atriz experiente. Lu também sofreu nas mãos de seu homem, e, mais tarde, quis saber se quando transara comigo pela manhã aquele seu par havia me machucado. Eu disse que não, fora o mais agradável e carinhoso.

Quando terminaram, fizeram-nos subir nuas na garupa. Não tivemos alternativa. Qualquer argumento poderia nos levar ao fracasso. Talvez fizesse parte da aposta, duas mulheres apenas com os sapatos e a pequena bolsa a tiracolo.

Cruzaram o centro duas vezes. À primeira, em alta velocidade; à segunda, mais lentos, atraindo olhares. Pararam enfim no que parecia ser os fundos de um galpão. Abriram a porta e nos instruíram.

"Sigam toda a vida e entrem rápidas na última porta à esquerda. Não dêem atenção a qualquer pessoa que apareça, finjam que ela não existe."

"Mas e nossas roupas?", perguntei.

Lu me puxou pelo braço.

Fizemos o que ordenaram.

Um senhor tentou no deter. Duas mulheres nuas seguindo por um corredor comprido. À medida que chegávamos à tal porta, ouvíamos intenso som. Abrimos e entramos. O senhor que tentara nos impedir a passagem ficou pelo meio do caminho. Nosso percurso terminou no mezanino de uma boate. As luzes convergiam para a pista, onde muitas pessoas dançavam alucinadas. O local reservado a nós era exíguo, e logo que nos situamos, a luz nos acertou em cheio.

"Dance, dance!", gritou Lu para mim.

Dançamos vigorosas e sensuais. Os homens, no piso inferior, deliravam. Saltavam, queriam nos alcançar, mas não conseguiam. Expusemo-nos por três ou quatro músicas, cerca de vinte minutos. Quando as luzes se apagaram, sentimos que alguém nos puxava pelos braços. Eram os rapazes da primeira hora. Chegavam para nos salvar, traziam os vestidos curtos que haviam ficado com os motociclistas.

Nos deixaram no mesmo bar do início da noite. Eu e Luciana nos despedimos deles. Pagaram-nos além do combinado. Após partirem, lembramo-nos de nossas roupas que ficaram na casa deles; mas era tarde.

Estávamos famintas. Olhamos o cardápio e pedimos um jantar para nós duas. Um prato que vinha com frango, batatas cozidas e salada de alface.

A comida estava boa. Bebemos dois chopes. Ao acabarmos, no momento em que vinha retirar pratos e talheres, a garçonete deixou um bilhete junto a mim.

Tomei-o nas mãos. Estava escrito num inglês confuso, mas entendi do que se tratava. Numa mesa mais adiante, sentavam-se dois homens, que mais tardes viríamos a descobrir serem dinamarqueses. Quando os olhei, um deles me fez sinal. Com alguma dificuldade traduzimos o que estava escrito. É lógico que queriam sair conosco, nos levar a algum lugar e dar uma boa trepada. Mas havia uma exigência.

"Queremos levar de lembrança suas calcinhas."

A frase fez que eu me sentisse mais uma vez inteiramente nua.

"E agora?", perguntei à minha amiga; acrescentei com voz insegura: "você não acha que já ganhamos o suficiente?, não demora amanhece e nós estamos quase nuas, vai ser outro escândalo."

"Calma, hoje é nosso dia de sorte, não podemos perder a oportunidade. Se houver algum problema, deixa que eu resolvo. Vou combinar para que nos deixem em casa depois que lhes prestarmos o serviço", falou com certo sarcasmo, seus olhos brilhavam.

Vi minha amiga fazer sinal para que aguardassem um pouco. A seguir, ela disfarçou e se dirigiu a uma mesa onde três moças adolescentes conversavam. Após alguns minutos, levantou-se e foi seguida por uma delas em direção ao banheiro.

Não passou muito tempo, Lu apareceu junto a mim.

"Está tudo resolvido, levante-se e vá até o banheiro, uma das moças seguirá você."

"E por quanto saiu isso, Lu?", não era hora para perguntas, mas me escapou.

"Não saiu caro, garanto, e elas até acharam tudo muito divertido."

sexta-feira, junho 01, 2007

Sol de outono

O sol da tarde perdia-se em afagos sobre nossos corpos. As areias brancas se estendiam até encontrarem dois rochedos onde, ora com fúria ora com desleixo, ondas faziam-se espumas. À esquerda, a praia dava num costado de vegetação marinha, cordões de restinga. Mais adiante percebiam-se as últimas casas de uma vila, casario de veranistas, pareciam desertas quando fora de estação. Pedíamos que a luz quase crepuscular nos fosse generosa; queríamos a pele dourada e o corpo aquecido, apesar do vento de outono.

Foi então que ele apareceu. Surgiu sorrateiro, sem que o percebêssemos, e só demos por sua presença quando estava próximo aos rochedos. Trazia as mãos às costas, destacava-se nele o casaco marrom. Caminhava como se não tivesse visto viva alma, depois parou e pôs-se a olhar um ponto no oceano. Permaneceu assim durante longos minutos. E nós, ali, quase nuas...

Já havíamos estado naquele lugar em uma noite de verão, eu e Cecília, bêbadas e acompanhadas de dois homens. Entramos nuas no mar. Ao voltarmos à areia, com o corpo ainda a escorrer água salgada vestimos a mesma camisa de um deles. Devia ser engraçado e estranho a visão de duas mulheres dentro de um camisão: ora ficávamos frente a frente, seios contra seios; ora uma costeava a outra fingindo um sarro gostoso; ora roçávamos nossas nádegas. Braços e pernas faziam-se em dobro pelas mangas e barra da camisa; às vezes eu levantava a parte que a cobria deixando seu bumbum de fora; depois ela revidava fazendo o mesmo comigo. Fingíamos então um pudor que não tínhamos. A cabeça de cada uma escapulia pela mesma fresta apertada. Transformamo-nos em pequeno monstro. Mas monstro que não perdia o poder sedutor. Quando me atirei nos braços de um deles, pedi que me penetrasse com esmero e plenitude, queria senti-lo rígido. Depois, sussurrei que guardasse o gozo, deixasse para despejá-lo em minha boca; queria comer aquele homem como num ritual indígena, quando o bravo oponente é ingerido para tornar mais forte o herói vencedor; seu sêmen seria parte de meu sangue.

“Tô morrendo de vergonha, só de calcinha...”, a voz de Cecília chegou a meus ouvidos e continuou adiante, levada pelo vento. “Deixa de frescura, vai dizer que você não está gostando?”, redargüi. “Eu não estava preparada”, ainda teve tempo de dizer. Levantei-me, também seminua, meus seios saltaram, foi a única vez que o vi olhar em nossa direção. Depois, como chegou, desapareceu, enquanto nos refazíamos do ligeiro tremor, rastro de sua presença.

No final da tarde, ainda os afagos do sol, mas menos tácteis, distantes, não mais se importando conosco; assim como o estranho, que fez pouco caso de nossa nudez.

marg_57a@yahoo.com.br

sexta-feira, maio 25, 2007

Piano

Visitei uma amiga que mora num desses prédios imensos, em Copacabana, construção típica do bairro. Ao nos despedirmos, ela falou em voz baixa:

"Quando você dobrar o corredor e passar na frente do apartamento que fica logo à direita, não olhe nem pare, o homem que mora ali é perigoso."

"Como assim?" quis saber.

"Já tentou agarrar várias mulheres."

"Ah, que besteira; segrede-me, será que você não gostaria de ser agarrada?"

"Sim, só que não por ele; é nojento."

Segui em direção ao elevador. Ao passar pela porta proibida, fisgou-me intensa curiosidade. Dizem que nas despedidas não se deve olhar para trás, e que, da mesma forma, deve-se passar ao largo de algo que nos tenta. Mas, como gosto de aventuras, quis mergulhar em mais uma.

Na verdade, o que pude ver em primeiro plano foi um piano. Estaquei junto à porta e admirei o nobre instrumento musical. A seguir, percebi que a casa era arrumada ao extremo: um pequeno sofá, uma mesa, dois quadros na parede de fundo. Pensei não haver ninguém. Quem sabe o perigoso ser masculino saíra e esquecera a porta aberta, ou mesmo armara o alçapão.

"Que deseja a belíssima senhora?"

Apareceu-me o homem. E era belo. Alto, um tanto desgastado na face pelos anos, mas os cabelos eram branquíssimos e limpos. Refiz-me da surpresa.

"Desejo uma música."

"Tenha a bondade", conduziu-me aposento adentro, ofereceu-me cadeira confortável.

"Alguma preferência?", perguntou sério.

"Comecemos pelos clássicos: Chopin!", pronunciei com entusiasmo.

"Comecemos?", repetiu, "então teremos um tipo de concerto".

"És um cavalheiro", completei.

As teclas soaram graves, seus dedos percorreram a parte baixa do instrumento para depois se esmerarem nos sons mais altos. Reparei que as mãos do pianista eram grandes e largas, pareceriam grosseiras se fossem admiradas longe dali. Mas sobre marfim quase níveo, intercalado de bemóis e sustenidos, corria ligeira, hábil, percebia-se que ele fora talhado para tal arte. Ouvi com prazer a primeira peça. Ao terminá-la, sugeri:

"Que tal fecharmos a porta? Assim o concerto se torna mais reservado."

"Oh, queira me desculpar", de pronto levantou-se, fechou a porta e voltou à banqueta. Espraiou as mãos e esperou nova sugestão.

"Beethoven", sussurrei.

"Não seria um tanto trágico?"

"Depende do momento e da peça", sentenciei.

Suas mãos deslizaram de novo, lançando-me à deriva, imersa num mundo de som e cor.

Quando terminou, perguntou:

"Que tal Evans?"

"O Bill?"

"Sim, ele; as big bands eram compostas de pessoas alegres, viviam em estado de contínuo êxtase", fez a observação enquanto investiu com rapidez no teclado.

Executou uma série de peças de jazz; ao terminar, ensaiou uma de Jobin.

Não hesitei em aplaudir aquele homem, que tocava com honestidade.

"Quero oferecer à senhora um café", lembrou-se a tempo: "à senhora que nem mesmo sei o nome..."

"Ah, queira me desculpar, não me apresentei. A seu dispor e ao dispor de sua arte: Margarida."

"Oh, uma flor!"

"E talvez das menos nobres", completei.

Caímos na gargalhada.

"Não diga isso, todas as flores são nobres."

Desapareceu em direção à pequena cozinha. Fiquei a admirar a cortina e a paisagem exterior. Daquele décimo andar via-se uma floresta de edifícios. Pude perceber também os ruídos externos que a música deixara escondidos.

"Cara Margarida", pronunciou com ligeiro sorriso enquanto me entregava uma xícara de porcelana. Acompanhava o café, prato de sobremesa com alguns biscoitos champanha.

"Seu apartamento é muito aconchegante."

"Agradeço a sua boa vontade, sei que as coisas por aqui precisam ser melhoradas, mas, a senhora me entende, vida de aposentado...", e fez um gesto vago com as mãos. Acompanhou-me no café.

Após alguns segundos de silêncio e expectativa, sua voz, como música melodiosa, soou suave:

"A senhora me entende, não leve a mal a maledicência dos vizinhos; talvez algo de negativo a meu respeito já tenha chegado a seus ouvidos", repousou a xícara e por fim sorriu.

"Não se preocupe, também segundo alguns não tenho boa fama."

"Veja", continuou "estou velho; o que me resta? Talvez a música e a companhia de poucos amigos."

"Se tens tudo isso, és um felizardo; a música e amigos. É tudo que muita gente deseja."

"Tenho alguma tristeza, pois pouca gente me dá atenção."

"Pois não acabaste de dizer que tens amigos?"

"Poucos, na verdade, coisa de dois ou três."

"É tudo e, se pensas bem, não precisas de atenção, és um concertista, as pessoas é que perdem por não atentarem em ti."

"Mas vez ou outra sou abatido por intensa melancolia, aí fico sem tocar, às vezes até esqueço algumas peças."

Voltei-me à parede, percebi um bonito diploma emoldurado. Levantei, queria ver seu conteúdo.

"Oh, bons tempos, toquei com a orquestra sinfônica."

"A do teatro?", perguntei.

"Esta; entre outras; mas o diploma é da do teatro."

"Não há razão para sofreres, és músico, és feliz."

"E a respeito das mulheres..."

"Que tem as mulheres?", interrompi.

"São raras e distantes."

"Como as flores...", falei e ri de novo. Ele gostou do argumento.

"Como a senhora me inspira!"

"Não sou eu, tens fonte de inspiração própria."

Demonstrei intenção de partir.

"Oh, não vá, sua presença me causou extremo ânimo e felicidade."

"Podemos nos ver mais vezes; virei visitá-lo."

"Deixe que eu lhe ofereça mais uma música."

"Então eu canto", falei.

"Que surpresa!, também cantas?"

"O que não faço nessa vida?", atalhei, "mas... deixa que eu começo."

Pus-me a cantar Smile, aquela velha canção imortalizada por Sinatra, que tem entre seus autores Charles Chaplin. Iniciei à capela, logo depois seguida pelo correr suave de suas mãos sobres as teclas. Confesso que foi o ponto alto do fim de tarde. Ao terminarmos a canção ele, contagiado, aplaudiu-me.

Ao levantar-me para partir, pronunciou em voz baixa, quase um segredo:

"Não demore a voltar, sofro muito."

"No seu lugar, eu não sofreria. És um artista, tocas de modo maravilhoso, vestes-te bem, podes freqüentar bons lugares."

"Sabe, a presença da senhora me fez pensar em algo novo. De agora em diante, tentarei encarar a vida de modo positivo. Veja o que me aconteceu em pleno sábado à tarde; surge-me, não sei de onde, a senhora, que é tão bonita, que parece demonstrar intensa paixão pela vida, alguém que possui luz interior, e que ainda canta maravilhosa, na verdade uma flor..."

"A vida é boa, é bela, basta que se saiba viver; muitas pessoas perdem essa oportunidade; quando se tem esse espírito, as outras coisas vêm como acréscimo", eu disse e lhe beijei a face. Deixei sobre a pequena mesa o número do meu telefone.

Dali em diante, encontramo-nos várias vezes. Em algumas ocasiões, sob o som do piano; em outras, em restaurantes aconchegantes, na Zona Sul.

Nunca pude comprovar o que minha amiga dissera. Se havia alguma pessoa perigosa nessa história não era ele, mas eu. Um verdadeiro vulcão.

sexta-feira, maio 11, 2007

Sobre a poltrona

Certa vez arranjei um namorado empolgante. Saímos para jantar várias vezes. Ele era culto, tinha uma conversa fascinante, mas tive de esperar um tempo enorme para que me levasse para cama. Cheguei a pensar que ele não gostasse de mulher. Quando me convidou à sua casa, adorei. Ele era aquele tipo de homem que adora fantasiar; como também amo uma fantasia... Logo que entramos, atirei-me sobre o grande sofá da sala de estar e lhe disse "deita comigo". Ele retrucou "você vai ficar toda amarrotada". Sentei-me, tirei o vestido e lhe entreguei para que o colocasse sobre a poltrona próxima. Foi a vez de ele investir "sabe o que senti vontade de fazer?" e sem esperar resposta continuou "vou amarrar você!" Então repliquei "pode amarrar, eu adoro". Atou-me com um cordão forte, acho mesmo que já o tinha usado outras vezes, quem sabe com outras mulheres. Arrepiei-me de corpo pleno. Ao sentir os laços fortes, apareceu em suas mãos uma fita adesiva grossa, e sem que eu pudesse reagir, grudou-ma à boca. Consegui manter o controle, queria saber aonde ele pretendia chegar. Desapareceu então por alguns momentos, retornando com uma enorme faca. Gelei. "Não se preocupe, não vou partir você ao meio" falou sarcástico, em voz baixa. Desejei correr dali, mas estava amarrada também ao estofado. Daí em diante, ele passou a lâmina sobre meu corpo, em alguns pontos chegou a me beliscar com a ponta, tocou-me o clitóris e viu que me excitava. A seguir deixou a faca de lado e pulou sobre meu corpo; primeiro livrou-me os lábios "quero te beijar" foi o que ouvi, pensei em mordê-lo com força, mas arrefeci; o corpo dele estava tão quente... Não só aceitei o beijo, como sussurrei em um de seus ouvidos "liberte minhas pernas, também quero gozar". Foi uma trepada e tanto, gozei com o perigo. Passei a freqüentar a casa dele uma vez na semana. E sempre havia novidades. Uma outra vez, prendeu-me os braços, laçou-me o pescoço, colocou-me sobre um pequeno banco e ameaçou durante todo o tempo derrubá-lo, caso eu não me mostrasse úmida por inteiro. Tremi, mas mantive a pose. Então ele subiu no mesmo banco e trepamos ali mesmo. Eu de pernas abertas e ainda com a corda no pescoço, temendo que o banco virasse ou se partisse. Mas ele gozou antes que isso acontecesse. Uma semana depois, ardeu-me as pernas com pequeno candeeiro. Eu imóvel, ele fazendo que me queimava, aquecendo-me as entranhas. Apesar do calor, eu tinha de me manter molhada; se não o conseguisse, queimaria-me todos os pêlos. Gozamos também a tempo. Da última vez que o encontrei, não preparou ardil algum. Desconfiei. Antes de recebê-lo nos braços, porém, vi que meu vestido ia em suas mãos. Recuou dois passos e escutei o rasgar da roupa fora do alcance dos meus olhos, em seguida vi que ele segurava uma tesoura e uma nesga da fazenda. Enquanto gozávamos, ele sussurrava "hoje, vou deixar você peladinha, vou guardar de lembrança algumas tiras da sua seda". Eu suspirei, ele ainda continuou "não adianta choramingar, agora já está feito". Deve haver uma saída, pensei. Mas não demorou e reagi: tomara que desta vez não haja saída alguma; senti que a fantasia me excitara. Voei por sobre o corpo dele e tentamos mais uma escalada sobre camadas de lava incandescente. Transamos maravilhosamente. Eu nada dizia, ele soprava episódios delirantes em meus ouvidos. Confesso que jamais conheci outro homem de tamanha imaginação. A iminência de estar nas mãos de alguém desconcertante sempre me excitara. Gozei descontrolada. Ao acabarmos, corri ao banheiro. O ardor mais brando, imaginei o que seria de mim dali em diante, nua na madrugada. Enquanto me ensaboava e me lavava com água quente, calculava minhas chances.

"Karina, minha filha (ai, ela só tem dezessete anos, que vergonha!), venha urgente e com algum vestido dobrado dentro da bolsa, depois explico o que aconteceu; anote o endereço; isso, pode ser, serve a canga; e corra que já amanhece, ou você e outros tantos verão a mãe louca chegando nua em casa. Não fale pra ninguém, viu; e, por favor, não demore!"

Seria a última vez que o veria, tinha de partir, aquelas brincadeiras já estavam ficando perigosas demais e eu sabia aonde tudo aquilo iria chegar...

Mas como a tentação sempre é maior, o desfecho teria sido outro se não acontecesse o que vai a seguir.

Ao sair do banheiro, voltando ao quarto, que decepção! Minha aventura noturna acabara. E cedo. Meu vestido jazia fácil sobre a mesma poltrona do começo da noite! Intacto. O que ele rasgara? Até hoje não sei.

sexta-feira, abril 20, 2007

Amores físicos em tempo real

Hoje vamos à aventura em tempo real. Munida dos mais recentes avanços da tecnologia, tento viver experiências de amor físico e relatá-las ao mesmo tempo. O local é Copacabana. Apesar de a praia ser muito iluminada, há um trecho onde a areia é comprida e permite a quem fica próximo ao mar algum esconderijo. É bem ali, por contraditório que possa parecer, diante do Meridien. Vou daqui a pouco, em torno da uma da madrugada. Quero viver fantasias, correr riscos. Algumas amigas chamam-me louca; talvez o seja, ao menos em parte, quem sabe...
posted by Margarida57 at 12:03 am

Já estou no local que, como ensaiei, me deixa anônima. Os encontros já foram agendados; são três os candidatos; que tenham sorte e sucesso. É possível ver as pessoas que andam sobre o calçadão, mas creio que não conseguem avistar-me. Sobre o corpo, trago apenas ligeira canga, que também há de me servir de forro, pois não quero grãos de areia pregados a meu corpo. Desenrolo o pano e sento-me sobre. Vento fresco alisa-me a pele enquanto espero amante que não tarda. O marulhar suave embala-me em doce modorra. Céu de estrelas fugidias derrama luz azulada. Ao me aconchegar nas sombras, surpreende-me voz masculina. Boa noite. Boa noite, respondo; morango?, dou a senha. Com chantilly, ele devolve. É este. Transamos. Antes me unta o corpo com óleo que diz afrodisíaco, depois desliza a ponta dos dedos sobre meu ventre, acaricia-me os seios, morde meus lábios e não demora a penetrar-me. Sinto-o quente, vibrante. Ele demora sobre meu corpo, pulsa pesado e enfim despeja-me líquido de homem pleno, viril. Beija-me uma das faces, toca-me o queixo; quer me pagar. Não sou prostituta, transo por prazer, às vezes por amor. Ele se vai; antes pergunta por outro encontro, talvez num apartamento suntuoso. Digo que vou pensar; não sei, não é bom repetir. Agora espero o próximo, virá às duas e meia.
posted by Margarida57 at 1:01 am

À hora marcada, descortino um vulto. Não cumprimenta. Morango?, pergunto. Com chantilly. É ele. Apresenta-se violento. Atira-me sobre a areia. Pega-me pelo meio das pernas, estica meus poucos pêlos, morde-me um dos ombros. Vaca, me xinga. Quero rir, mas não consigo. Acerta-me tapa vigoroso. Dou a outra face. Salpica-me areia, penetra-me áspero, me arranha. Perco a pele, sou carne viva. Sinto que não demora a explodir. A violência, porém, arrebata-me. Quero acompanhá-lo; sou amazona que cavalga atrasada sobre potro bravio, percorro terreno pedregoso, penetro densas florestas, salto obstáculos, protejo-me de galhos salientes, de armadilhas ocultas; quando o alcanço, arremesso-me, assalto-lhe as rédeas, emano meu rastro sobre seu corpo luzidio, lava de mulher madura, raras e provisórias pérolas violáceas que logo se dissolvem em líquido prateado, rio caudaloso que reflete o gozo das estrelas. Depois de satisfeito, parte abrupto. Leva-me a canga. Ei, volte aqui, não foi esse o combinado. Combinado?, só o preço. Lança as notas e foge. Não faço sexo por dinheiro, tento dizer, mas ele não escuta; como surgiu, desaparece. Às três e meia tenho outro. Espero? Não tenho alternativa.
posted by Margarida57 at 2:37 am

Às três horas vejo aproximar-se um jovem; deve ter pouco mais de vinte anos. Boa noite. Boa noite, digo. Morango? Ele parece não entender. Você gosta de morango?, insisto. Oh, prefiro abacaxi. Tento me conter; trata-se de um visitante imprevisto. Você está nua, diz. Parece, tento ser natural. E o que você faz aqui, nua? É melhor você não saber, vá embora, caso contrário a coisa pode ficar feia para o seu lado. Feia, como?, quer saber. Não vou dizer, aqui não é o seu lugar, espero um homem terrível, e tenho de estar assim, pelada, se ele descobrir algum estranho a meu lado é capaz de matá-lo, por favor, vá embora, não quero que você corra riscos. Ele olha amedrontado, vira-se tentando descobrir alguém que lhe venha pelas costas. Ainda insisto: vá, saia, agora; e fique calado. Ele se afasta.
posted by Margarida57 at 3:02 am

Transo com o terceiro da noite após as identificações de praxe. Ele sua. Parece que o fato de me ter encontrado nua o tornou mais excitado. Nada comenta sobre os arranhões ou a vermelhidão de meu rosto. Escala-me e permanece longo tempo. Gostou de me encontrar melada e suja de areia. Faz movimentos lentos, parece estar cavalgando. Sorri. Depois que goza, escorrega. Acende um cigarro, chega a chama do isqueiro próxima à minha cabeça, arranja-me os cabelos em desalinho. Quer pagar, chega a tirar o dinheiro. Não aceito, transo por paixão à vida, às vezes por amor a algum homem. Do jeito que você está, vai precisar de algum dinheiro. Sou rica, respondo. Sorri. Peço-lhe a camisa. A camisa?, não posso. Não tenho outra; arremessa longe o cigarro e parte. Não sei se o assustei.
posted by Margarida57 at 3:47 am

A madrugada se esvai. Não tenho mais ninguém programado. Sinto frio o estômago. Como faço para ir embora? Não posso voltar para casa andando nua pelas ruas de Copa, nem correr em direção ao calçadão e gritar aos caminhantes que já esporádicos aparecem: meu reino por uma calcinha! O jeito é não me desesperar; já saí de situações piores. Respiro fundo, tento controlar-me, ainda tenho algum tempo.
posted by Margarida57 at 4:27 am

Eis que reaparece o garoto das três horas. Ei, diz, quero falar com você. Você de novo?, finjo surpreender-me. Ele já se foi, você espera mais alguém? Não, venha cá. Ele se aproxima e eu o abraço, beijo-lhe a boca; sinto sua temperatura alta, seu coração se acelera. Você quer namorar comigo? Quero, responde animado. Então venha. Excito-o, solto-lhe o cinto, tiro-lhe as calças e agarro seu pinto. Está mais do que duro. Brincamos, esfregamo-nos. Ele quer me penetrar a todo custo. Deixa eu botar, quero gozar, diz. Seguro seu membro com firmeza. Sinto que ele não demora a ejacular; prendo-lhe então a extremidade com o polegar e tapo-lhe o canal por onde jorrará o seu prazer. Não posso deixar que ele goze, caso isso aconteça estarei perdida. Você quer ter uma transa completa comigo?, pergunto melosa. Quero. Então vamos lá pra casa, faço o convite. Eu já estou quase gozando e com você assim, nua, fico ainda mais louco. Sou sua pelo tempo que você quiser, mas vamos lá pra casa; minhas palavras soam imperiosas. Concorda. Onde estão suas roupas?, pergunta. O gato comeu, digo e lhe mordo carinhosa o lábio inferior. Ele treme mais excitado e avança sobre meu corpo. Minha destemperança quase põe tudo a perder; tento equilibrá-lo, disfarço. Me empresta a camisa, vai, me empresta e vamos. Ele, enfim, atende. Estou salva. Vamos, amor, guarde sua excitação, digo já vestida enquanto espero que ele abotoe as calças; depois, levo-o pelo braço. Não demoramos. No horizonte, já é possível notar que o amanhecer, róseo, se anuncia.
posted by Margarida57 at 5:23 am

Em meu apartamento, tentei conter-lhe o ímpeto viril e pedi que me ajudasse no banho. Ensinei a ele como uma mulher deve ser acariciada, como torná-la ferina, como levá-la ao máximo delírio. Pedi que me percorresse a pele, que ajudasse na remoção dos grãos de areia e que cuidasse da vermelhidão de meu rosto. Depois lhe dei as costas, as nádegas à flor d'água, pedi que me massageasse. As partes que me ardiam foram pouco a pouco se tornando entradas vulneráveis, portais por onde trafegavam a sensação de bem-estar e gozo. Sobre a cama, ao desfazer-me de toalha rica em algodão, rolamos juntos; ele inteiramente nu recendendo a macho voraz; eu, exalando perfume original, embebida em seiva que me amenizava as feridas. Tateou-me então por entre as pernas e encontrou aquele filete sempre em carne viva. Mergulhamos em oceano vasto e profundo, povoado de peixes inomináveis, mar abundante em cores sutis, cortinas translúcidas possíveis a olhos de amantes e poetas. Quando partiu, deixou-me em sonhos de menina recatada.

Acordei apenas no meio da tarde. Sobre a mesinha, largou poema original: o nome, endereço e telefone.

sexta-feira, abril 13, 2007

Desata-me

"Ah, sabes como eu sei, a dor é tão saborosa...
mais a ampulheta eu via fatal se esgotar,
mais sentia a tortura áspera e deliciosa"
Baudelaire

Tens meus braços atados, algemas prateadas, presos por sob meu dorso. Assim não me dás chance alguma. Exibes-me nua, mulher ainda encoberta, mas por manto que é apenas a noite que foge, sombra que se apressa a ocidente. Desata-me, prometo que não fujo; quero os braços para cobrir-me; se houver luz, tenho minhas vergonhas; se quiseres posso usá-los para te abraçar. Ah, por que me queres nua, por que tomas meu vestido curto? Tenho apenas essas duas peças. Na verdade não as desejas? É só para utilizá-las contra mim? Para ter razão ao me prenderes? Sei que me proíbes andar nua sob céu de estrelas, sobre areias prateadas; mas, vê, uma coisa é ser nua provisória, mesmo que estreitos os panos e a poucos metros das mãos; outra, é ter como capa apenas o lampejar dos vaga-lumes, tecido de gotas nervosas que transpiro toda trêmula ante o porvir. Põe-te no meu lugar, imagina o vexo que vou passar. Queres-me prisioneira, e depois? Nada roubei, apenas instantes de prazer em uma praça que à noite é deserta. Dizes que terei como castigo uma cela, mulheres estranhas em companhia, rolarei nua entre suas mãos, como troféu; deverei luzir sob sol revelador, sob dia que me haverá de roubar a fantasia, que mostrará as marcas em minhas nádegas avantajadas. Levar-me-ás nua ao distrito, mas não poderei de lá sair sem fibra a me cobrir o corpo; caso o faça, cometerei nova infração. Se tiver sorte, poderei ligar a alguém – é o que dizes –, tentativa vã de obter seda escarlate alugada, porque a que vai em tuas mãos já não mo pertence, deporá contra mim. Vai, desata-me, deixa que eu parta; prometo que te darei prazer maior, moro só; prometo que sempre serei perfume para que me sorvas, licor para que te embriagues... Permito que me tortures, sei que gostas de ouvir o estalar do açoite sobre o corpo níveo, mas não me deixes marcas; só a dor é saborosa... A dor e a ameaça de me levares prisioneira, mas apenas a ameaça. Vê meus seios: apontam intumescidos à espera de prazer maior. Vem, apalpa-me, sou úmida, sou portas abertas para teu desejo, escorrega... Se ainda quiseres, deixo em tuas mãos minhas duas peças; mas como lembrança. Vem, também transpiras, tens a respiração ofegante, o pescoço sangüíneo. Desata-me!

sexta-feira, março 30, 2007

Um passeio no Centro do Rio

Como é agradável ir pela avenida Rio Branco, no centro do Rio. No começo do dia há homens e mulheres a passos rápidos; não desejam perder a hora. Vestem ternos da moda, vestidos elegantes, altos os saltos. As calçadas vicejam, os automóveis e coletivos trafegam vagarosos, despejam aqui e ali pessoas sérias, que ainda guardam o sorriso para momento mais adiantado, talvez momento de maior descontração. Ando no trecho entre a rua da Assembléia e Sete de Setembro, faltam quinze para as dez. Resolvo entrar na Koppenhagen. Que casa comercial agradável! Sinto o perfume do chocolate e o aroma forte do café. Um homem sério, de meia-idade, em terno marrom e sapatos de verniz, olha-me com discrição, enquanto repousa a pequena xícara sobre o balcão. Sobre meu corpo, aperta-me os seios vestido vermelho tomara-que-caia, que desce justo até a cintura, para aí se soltar e me cobrir as pernas; nos pés, sapatos brancos finíssimos de meio-salto. Duas mulheres, uma de vestido cinza e outra de tailleur, tomam café. Peço o meu expresso com creme. Através do vidro, vejo uma menina e uma mulher, provavelmente mãe e filha, passam apressadas sobre o passeio; a pequena está de blusa branca e saia curta verde. Viro-me de novo para minha garçonete, ela atende alguns homens, talvez executivos do centro financeiro. Escuto deles algum gracejo, não dirigido a mim, mas ao amigo próximo, sobras de noturna aventura amorosa. Olho as embalagens de cherry brandy, o bombom molhado em licor. Sinto arrepios ao imaginar chocolate e líquido celestiais a percorrerem minha boca e mergulhar-me envolto em mel de amante recente... Madame, ouço-lhe a voz, é o senhor dos sapatos de verniz, reaparece e me oferece um presente. Madame, peço-lhe perdão, mas não pude resistir a impulso que há muito não me abate, aceite, por favor. E deixa-me nas mãos um coração de cherry. Quando penso em agradecer ou talvez recusar, meus olhos instintivos voltam-se para a caixa envolta em fita vermelha. Olho o homem de novo; ele faz ligeira reverência, sorri e sussurra: nunca vi mulher tão bela. Creio que percebi algum sotaque em sua voz. Ele entrega-me um cartão e se retira. Aventuro-me a seguir pelas ruas excitadas do Centro. Mas, neste dia, nada de extravagâncias. Às vezes, ligeiro frisson percorre meu corpo deixando-me trêmula; lembranças de artimanhas de amigas soltas por aquelas ruas, amores casuais: Maria da Glória nua num escritório; conhecera seu sedutor minutos antes, no elevador, durante o percurso de vinte seis andares; Fátima, de vestido justo, agarrada a um homem negro de quase dois metros, no subsolo de um desses velhos edifícios do Castelo, as pernas úmidas. Segundo ela, o garanhão além de lhe proporcionar prazer jamais experimentado, engolira-lhe a calcinha. Mas hoje, Margarida, apenas passeio, passeio e admiração. Entro na Dior; a vendedora já me é velha conhecida. Sorri e me beija as duas faces. Um pouco de conversa, depois me mostra as novidades. Cada peça de roupa exuberante, modelos lindíssimos. Deixo reservados vestidos, saias e um blazer listrado. Voltarei à tarde. Continuo em desfile: Elle e Lui, Office, Maria Zaida, Follic, etc. Visto, provo, me apaixono. Como é boa a vida, como é sábio aproveitá-la! Ao almoço, agora. Num edifício próximo a Maison de France há um restaurante elegante. É preciso subir à cobertura. Homens e mulheres quase todos em trajes de passeio completo assomam-se às mesas, servem-lhes garçons experientes. A vista é deslumbrante. É possível apreciar desde as aeronaves que pousam e decolam do Santos Dumont, a paisagem do outro lado da baía, até o Pão de Açúcar, passando pela enseada de Botafogo e os barcos do Iate Clube. O céu azul e o sol com seus raios amenos completam o quadro. Sento-me sozinha, seduzida. Sou servida conforme ritual tradicional. Tomo um cálice de vinho do Porto; depois, a entrada: carppacio de salmão, salada de palmito, pequenas folhas e molho à moda parisiense. Servem-me o prato principal dois antigos funcionários da casa; trazem-me arroz, champignon e posta de robalo; bebo água mineral. É possível fazer a refeição lentamente, saboreando as iguarias bem preparadas. O chef me vem à mesa, quer minha opinião. Não preciso dar meu parecer, querido, sabes tudo, aprendeste com os melhores de France. Ele sorri e me deixa de presente uma flor. De sobremesa não hesito: um häagen-dazs de macadâmia com bombons de chocolate belga, amoras e licor. Antes de partir, repouso durante quarto de hora no lounge do restaurante, ouço blue. Já à rua, aventuro-me no clima morno pós-uma da tarde. Deslizo por ruas apinhadas do Castelo, lembro-me então de uma exposição no Paço. Custa-me poucos segundos chamar um táxi. Ao descer, talvez três quadras adiante, avisto a construção que abrigou a família real. Viajo no tempo; vejo baronesas, princesas e um magnífico cavaleiro de farda azul sobre indômito potro negro. Ao cruzar o portal da construção, gravura de um filme de Almodóvar me traz de volta ao presente. No pequeno cinema, mulheres andaluzas desfilam. No salão do segundo andar, os quadros em exposição lançam-me em horizontes infinitos e em explosões de cores. Seguindo através de naves envoltas em silêncio quase sepulcral, guardadas por homens de terno negro, deleito-me num abrasivo mundo pictórico, envolta por ar frio que me tempera calor medieval. Talvez a digestão adiantada me faça avançar por espaços onde apenas minha silhueta se delineia. Desejo caverna secreta, gancho de ferro antigo em que possa pendurar a roupa provisória e, em seguida, saltar nua sobre o corpo de cavaleiro mascarado; delírios de mulher só em horas de nenhum pejo. Não sinto o tempo correr, a arte fascina-me. Às quatro horas lembro-me das compras e ponho-me em retirada; antes, tomo o café da tarde no bistrô do Paço. Volto às lojas, recolho os trajes que deixei em reserva. Apresso-me. As pessoas agora já são outras; algumas querem terminar o dia e voltar para casa, enquanto outras aguardam o momento de alegria e combustão, quando encontrarão, nos bares dourados, amigos, amigas ou amantes. Tenta-me ligeiro desejo de permanecer; atendo, no entanto, a chamado maior. Quero estar sozinha em casa, ouvir alguns CDs, ler um pouco, deitar lânguida à meia-luz. Embarco em um táxi. Zona Sul, Lagoa Rodrigo de Freitas. Quando abro a bolsa, encontro o cartão do homem da manhã, o dos sapatos de verniz; leio: serviço diplomático, consulado geral da Dinamarca. Será ele o cônsul em pessoa? Vou fazer charme, não ligo hoje. Amanhã, quem sabe, terei um namorado europeu.

quinta-feira, março 15, 2007

Águas do entardecer

O mar denunciava-me através do seu rugir milenar. Estava sentada sobre a pedra, as costas rijas, os braços como grosso cordão envolvendo as pernas, os joelhos encostados aos seios; tentativa vã e provisória de esconder minha nudez. À direita, algumas crianças corriam sobre as areias num jogo à péla; à esquerda, embarcação sem tripulantes tinha a popa sacudida pelo ir e vir das vagas. Ligeiro arrepio correu-me o corpo: ora o saliente respingar das espumas que explodiam num começo de maré alta, ora a incerteza dos momentos seguintes; brilho de pérola ao luzir do sol, imagem de marinheiro antigo a avistar-me, miragem de ilha perdida, voz plena de sal a desvendar mantos invisíveis. Frio intenso gelou-me o estômago, intenso ardor desceu-me ao baixo ventre, músculos vicejaram em descontrole, escorrer de água mais densa banhou-me. Por momentos desejei submergir e esconder-me sob a capa das águas do entardecer. Mas não tive tempo. Mão vigorosa tocou meu corpo. E num susto repentino, soltei os braços, afastei um pouco os joelhos e deixei meus seios explodirem. Eram duas rosas que desabrochavam, ou duas pequenas montanhas que convidavam à escalada. Tremi. Como um gigante que atemorizava navegantes doutros tempos e doutros mares, tomou-me nos braços e levou-me, incógnita e sob seda que era apenas sua pele curtida pelo sol. Fui colocada na embarcação fria e sacolejante. Ali mesmo, em meio ao cheiro forte de maresia e sobre chão banhado de pequenas línguas d'água que escorrendo de um lado a outro procuravam o caminho de volta ao oceano, abriu minhas pernas e penetrou-me. Meus gemidos, misturados aos estouros cada vez mais vigorosos da preamar, demoraram a se extinguir. Como a luz, que resistia às primeiras sombras da noite.

quinta-feira, março 01, 2007

Carnaval

"Oh, meus seios, sol em que te embriagas, bêbedo de líquido azul, calor da combustão em que te afogo...", e foi assim que começaste naquele sábado. A música levava a turba, os tambores ecoavam nossas trepidações interiores. Após desfilarmos alegria, descemos escondidos uma viela rústica; e foi entre um automóvel antigo e uma mangueira. Despiste-me cedo, bebeste-me rubra.

À noite, fui eu que te fiz vítima; algoz atroz, imperdoável. Enquanto nos levava a orquestra, salão à luz de séculos perdidos, minhas garras afiadas não te perdoaram; listras escarlates traçadas em dorso lívido, unhas de Penélope sôfrega vinte anos. Mas te vingaste a tempo: descoseste meus fios, desataste meus laços e me escondeste entre tuas pernas. Quando eu menos esperava, explodiste; jorraste vapores e lavas, tepidez trágica de amor a deusa olímpica proibida.

Na manhã seguinte, acordamos enquanto a maré baixa lavava nossos corpos, carícias plenas sobre tecido natural, afago perdido de lobo esguio. E caminhamos trôpegos, sob olhares avançados de foliões enfeitiçados pela nudez de havaiana de outros trópicos. Quando me livraste da exposição crua e me envolveste em seda de tear estrangeiro, fantasia roubada a sultana dançarina desatenta, conduziste-me sob afagos a desfile em que eu era estrela primeira.

Muitas vezes me despiste, outras tantas escalei-te; nos levaram blocos e cordões; gozamos intrépidos, mas sempre disfarçados.

Na segunda desapareceste. Foi, então, que te traí a tempo exíguo. Vaqueira. Chapéu e botas que me subiam os tornozelos. Mascarado, saído de filme mexicano, zorro esporádico, laço hábil sobre animal inquieto, minhas mãos por sobre as nádegas atou. Violento, arrancou-me o biquíni negro, amou-me na sombra, sob capa protetora. Às primeiras luzes, libertou-me; como recompensa, apenas as mãos soltas. Disse sobre a nova fantasia: "fada nua encabulada..."

Na terça ressurgiste; nada perguntavas ao me encontrares nua... Beijaste-me rubro, excitado, não mais me precisavas despir. Após explosões estelares, últimos acordes de sinfonia ligeira, de novo te tornaste invisível.

Quando na quarta a festa acabou, as amigas sussurram-me: "estás perdida, nua e abandonada." Mas foi aí que reapareceste e contigo me levaste; me querias mesmo nua, mesmo arranhada de outras unhas, exausta, a exalar suor apaixonado de quatro dias...

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Glorinha

Era uma daquelas manhãs que parecem suspensas no ar. Antônia virou-se na cama e manteve-se quieta. Sonolenta, preferia a imobilidade. Glorinha dormia na outra cama. Pôde percebê-la pelo leve respirar. Ah, que bom que existe a casa de Glorinha, uma casa tão simpática, o quarto acolhedor, sobretudo para os momentos de perigo. O que vivera na véspera não poderia ser classificado como momentos de perigo, mas era algo que a comprometia, que lhe deixaria abalada a reputação. Sentiu que naqueles primeiros momentos de languidez que seguem o despertar seria inútil procurar em si a urgência de ontem. Mas a amiga salvara-lhe a pele, o fato de terem combinado voltarem juntas do baile fora providencial. E a mãe nem implicara, pois conhecia a mãe de Glorinha. Ela, Antônia, ficara com uma marca, era verdade. Uma nódoa. Dependia, porém, dela mesma para ser eliminada. As outras pessoas divertiam-se, estavam mais preocupadas em aproveitar a noite o máximo que podiam. Apenas duas ou três voltaram-se e a repararam no momento mais crítico. E quem sabe não estavam do mesmo modo comprometidas? Poderiam rir se o que viam refletia a si mesmas? Apenas Glorinha mantivera a aura dourada ao lado do namorado. Pela amiga que a acolhia colocaria a mão no fogo.

Fora tomada por um tipo diferente de excitação desde que percebera a possibilidade de participar daquele baile. Como queria freqüentá-lo para depois contar às amigas todos os pormenores! E falavam cada coisa!, nos anos anteriores ouvira histórias de arrepiar. O clube tinha a fama de promover os melhores e mais picantes bailes de carnaval da cidade, e até mesmo nos dias que antecediam a grande festa realizava os pré-carnavalescos, que da mesma forma davam o que falar. Quando viu os convites e teve a aprovação da mãe, exultou. A mãe a aconselhava. Não devia dar confiança aos homens. Quanto menos atenção, mais eles a procurariam. Disse que mantivesse discrição, estaria lá para se divertir, e como é boa a vida quando se sabe aproveitá-la. O pai não precisava saber de nada. Ficaria em casa, veria televisão e quando perguntasse pela filha a resposta estaria pronta: foi passar a noite na casa de uma amiga, divertem-se juntas.

Antônia preparou a fantasia. Queria-a mínima. Glorinha a orientara. Vista-se com um tipo de manto. Faça uma fantasia que tenha capa larga e comprida. Lá pelas tantas, quando o calor estiver insuportável, a gente dá um jeito. Gostava das soluções práticas da amiga. E assim fez, um manto reluzente, trabalhado, de cetim, mas por baixo a surpresa: um biquíni que jamais vestira, tão mínimo que se perdia no próprio corpo, este com uma polegada a mais no bumbum e nas coxas, uma ponta de charme segundo as amigas.

Antônia mantinha-se quieta na cama. Ah, que vergonha, não queria nem pensar. Glorinha ainda dormia, mas o que diria ao despertar? A própria Antônia atribuía a culpa a uma taça de champanhe. Sim, o champanhe deixara-a excitada. Dançavam no camarote. Ela só, e Glorinha com o namorado. Mantinha-se fechada, envolta na capa, mas fazia tanto calor. E depois alguém já a paquerava, fizera sinal para que abrisse a roupa, que ficasse mais à vontade. E as outras meninas? Dançavam alucinadas, só de biquíni, algumas sem o top, não demonstravam vergonha nenhuma, às vezes abraçavam-se aos seus pares e permaneciam encobertas por eles. Glorinha lhe pediu licença, desceria um pouco com o namorado. Ela não queria vir?, então ficasse e aproveitasse. Foi então que aconteceu. Uma presença que na hora saudou como providencial. Um lindo homem, de juventude exuberante. E era louro. Dançou com ele no camarote largo. Ele se aproximava, mas não a tocava. Depois trouxe a taça de champanhe. Deu a ela. De novo dançavam, mas ele não a tocava. Depois de repousar a taça vazia em um dos cantos, ela própria o puxou para mais perto. Sentiu o corpo do homem. Foi aí que ele a tocou por debaixo do manto. A pele que deveria estar quente era fria, mas arrepio e calor súbito envolveram-lhe todo o corpo. Deixou a capa escorregar pelas costas e seu corpo brilhou, apenas o biquíni mínimo. O paquera percebeu que ela insinuava-se. Não mais se livraria dele.

E foi assim a noite toda. Suou, deixou gotículas de seu corpo no corpo do homem, o coração batia forte. Reparou que Glorinha a admirava e sorria. A fantasia da amiga era mais recatada, mas a deixava também muito sensual. Antônia dançou a madrugada inteira; tinha o calor das bacantes que traziam para a Grécia o culto a um novo deus. Só que as bacantes dançavam nuas... E por pouco ela também não dançara. Os seios escaparam algumas vezes; o top cedia nos momentos de maior euforia. E ela fingia não reparar. Mas só durante alguns segundos. Depois recompunha-se. Foi assim até os últimos acordes da orquestra. E era uma pena que o baile acabava. Essas festas nunca deveriam terminar. Quando deu por si alegre, prateada de suor, beijou na boca o namorado da noite. Chegou então a hora de partir. De repente, corou. Lembrou que viera coberta por uma capa, um manto largo e comprido. Mas onde estaria ele?

Quando Glorinha acordou e Antônia quis falar alguma coisa, a amiga tapou-lhe a boca. Esqueça. Acontecem coisas piores.

Laura

– Quem está aí?

– Sou eu.

– Eu, quem?

– Uma mulher.

Ele entreabriu a porta e reparou que eu estava nua. Afastou a tranca; escorreguei quarto adentro.

– A recepcionista?

– Não, a irmã dela.

– O que houve?

– Nada, ela me mandou em seu lugar – respondi quase envergonhada, sem saber onde colocar as mãos.

– Por que a máscara?

– Hoje é carnaval, lembra?

– Você não vai me roubar, vai?

– Só uma música – disse enquanto o abraçava.

– Música?

– O baile. Estão todos na cidade, vamos fazer o nosso.

Ele demorou mas, enfim, entendeu.

Quando o homem chegou sábado à tarde querendo se hospedar naquele lugarejo, experimentei sensação especial. Era um ator, já o tinha visto em algum filme na TV, e como era belo!, só não lembrava seu nome. A pousada ficava junto ao posto de combustível, o único na pequena cidade de Cianópolis, sudoeste de Goiás. Na verdade, eu fazia tudo naquela pequena hospedaria: varria, arrumava, lavava e passava a roupa de cama e servia o café da manhã. O local era freqüentado por motoristas de caminhões que seguiam para Mato Grosso. Nunca, porém, dera confiança a nenhum deles. Mas naquele dia... o homem era um ator, apesar de vir numa pequena camioneta, e era sábado de carnaval...

Tratei-o com cortesia e lhe ofereci o que havia de melhor.

– O quarto é simples, mas possui ventilador. Os dois banheiros são localizados na área externa; como hoje não há ninguém hospedado, creio que você terá mais conforto. Aqui no hall, você pode ver TV até a hora que desejar, e na geladeira há água à vontade. Se quiser, pode levar uma garrafa.

Ele demonstrou muita satisfação. Entreguei-lhe a chave.

– Devo ficar um ou dois dias – disse antes que eu o conduzisse ao aposento.

– Você deve pagar adiantado – avisei.

Ele tirou duas notas do bolso e me entregou, depois enfiou-se no quarto.

À noite, permaneceu vendo o carnaval pela TV até depois da uma da madrugada. Fiquei escondida na sala reservada a empregados; fiz como se não houvesse pessoa alguma na casa. Quando ele desligou o aparelho e foi para o quarto, eu já estava totalmente nua, apenas pequena máscara cobria-me os olhos. Aí fiz o que jamais pensara: fui primeiro até a entrada do pequeno hotel, pisei o passeio e senti no corpo o ar fresco da noite; depois, desliguei a luz externa e tranquei a porta. Então corri até ele.

Dançamos: músicas de um rádio de pilha. Após algum tempo, ele me segurou com força e me levou para cama. Era um homem rude, do jeito que eu gosto. Não lembro de ter transado com outro ator.
Só morri de vergonha, quando, sorrateiro, roubou-me a máscara!
De manhã, sussurrou alegre num de meus ouvidos:

– Hoje ainda é carnaval!

E me pediu que lhe servisse o café da manhã. Nua.

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Linda

O corpo de alguém que nos deseja é sol que aquece, mesmo à noite e em céu de poucas estrelas.

A madrugada envolvia minha nudez. Cheguei à sala, aproximei-me do sofá onde ele dormia e deitei a seu lado. A princípio mantive-me quieta, depois o envolvi em um abraço cheio de desejo. Num primeiro momento, ele se assustou e tentou desvencilhar-se. Então sussurrei carinhosa em um de seus ouvidos: "sou eu, Linda, não era isso que você queria?". Aí mergulhei sob o lençol, lhe tirei toda a roupa e o abracei de novo; meus lábios úmidos procuravam os seus.

Quando aquele homem chegou em minha casa numa tarde de dezembro, percebi sem demora que não o deixaria escapar. Talvez tenha sido esse meu pensamento que o manteve sempre com a atenção voltada para mim. Ele era de outro estado, veio com a prima de meu marido e uma criança, um menino de sete anos. Viajavam, vinham de Brasília e, no dia seguinte, iriam para o sudoeste de Goiás. Passariam a noite em minha casa, em Goiânia. Foram, havia algumas anos, marido e mulher, mas, segundo ela, não tinham mais relações. Eram grandes amigos. Ele sempre vinha no período de férias para ficar com o filho. Ela o hospedava e o levava de um lado a outro junto com o menino. Aquilo soava estranho para muitos familiares, mas eu acreditava nela. Não dormiam juntos.

Conversamos após o almoço. Ele olhava tudo e não se surpreendeu quando mostrei que trabalhava num anexo a casa, um salão de beleza que eu construíra para completar a renda familiar.

Minha vida até ali sempre fora cheia de problemas e sofrimentos: o marido, trabalhando à noite, dormindo de dia, ganhando pouco e com problemas de saúde, não tinha quase contato comigo; o dinheiro sempre curto, para se conseguir qualquer coisa era necessário um sacrifício enorme.

Aliás, esse era um assunto sobre o qual eu não gostava de falar. Mas eles eram discretos, não fizeram perguntas a respeito.

Por volta do entardecer, saíram. Na verdade eu os acompanhei. Fomos todos visitar uma tia bastante idosa e um pouco adoentada. Durante todo o trajeto, fui no banco da frente. Orientava o itinerário à prima, que dirigia. Ele ia atrás, com o filho. Notei que me olhava e fazia perguntas sobre a cidade, pois estivera ali havia alguns anos e não mais lembrava os locais que visitara. Eu procurava responder tudo que estava a meu alcance. Mostrou-se muito alegre e simpático.

Durante a visita, quando foi servido o café, reparei que ele me olhava sorrateiro. Mostrou certo embaraço quando o surpreendi. Depois saiu e brincou no quintal com o menino.

Na volta, continuamos a conversar animadamente. Acabei convidando a todos para visitar uma feira de artesanato que acontece todas as quartas nas imediações de minha casa, e onde há também comidas típicas. Andamos toda a rua, já apinhada de gente àquela hora. Compraram alguns produtos e insistiram em levar bolos, salgados e doces para o jantar.

Quando chegamos em casa, preparei a mesa e completei com refrescos e refrigerantes. Comemos e continuamos conversando. Depois de algum tempo, ele foi para a sala e, enquanto olhava a TV, falava e brincava com o filho. Mais ou menos às dez horas, a prima foi para o quarto e levou o garoto, que despediu-se do pai beijando-o e lhe desejando boa-noite. Entreguei a ele, que ficou na sala, a roupa de cama, também desejando que dormisse bem.

Ainda sob o lençol, procurei facilitar para que ele me penetrasse. Girei depois de algum tempo e permaneci sob seu corpo. Senti vontade de chorar, mas a necessidade de prazer era maior. Cheguei a emitir alguns gemidos. Ele tapou-me a boca, pois temia que eu acordasse uma de minhas filhas, que chegara tarde após o dia de trabalho e de aula na faculdade. Jamais gozei como naquela noite. No final, lhe pedi desculpas. Ele pareceu não entender. Mas, no fundo, acho que era eu que pedia desculpas a mim mesma por aquele ato intempestivo. Algum tempo depois, pensando melhor, passei a crer que eu mereci aquela noite. Permaneci ao lado dele até as primeiras luzes do dia. Antes de deixá-lo, agachei-me e o beijei. Um beijo untado por lábios e línguas, que durou longos segundos. Só então, ainda nua, corri para o meu quarto.

No café da manhã, olhei sem temor na direção de meu recente amante. Ele sorriu. Suspeitei que a prima tivesse desconfiado. Mas ao partirem, deduzi que não.

Ela me beijou com suavidade e afeto. Ele fez menção de apenas apertar minha mão, mas ofereci o rosto. Beijou-me.

Pedi a eles que voltassem sempre.

quinta-feira, janeiro 18, 2007

Dayse

O Park shopping estava movimentado naquela tarde de terça. Dayse saíra da loja havia vinte minutos. Trajava vestido muito curto, de fazenda leve. Era difícil haver alguém que não a observasse, mesmo do sexo feminino. Gostava de chamar a atenção e tinha certeza que causaria forte impressão na pessoa que aguardava. Não tinha dúvida de que, embora estivesse atrasada, quem a esperava não desistiria. Caminhava graciosa; a pequena bolsa a tiracolo. Olhou algumas vitrines, sobretudo a da joalheria mais famosa. Apreciou pulseiras e colares e se apaixonou por uma pequena medalha que se encontrava bem abaixo de um cordão de ouro reluzente.

Quando ainda trabalhava, antes das quatro, tentou não perder de vista o homem elegante que vestia impecável terno marrom e apreciava os perfumes. Quando ele entrou e se dirigiu a ela, perguntou se a loja tinha o Kenzo. Claro que temos, respondeu, e do tradicional. Esse mesmo, foi o que ouviu dele. Tentou ainda vender alguma coisa a mais. Ele, porém, relutou, disse que estava muito satisfeito com o produto e com a vendedora. Ela sorriu, entregou-lhe o cartão, não sem tocar com muita suavidade uma de suas mãos. O homem, sempre sorrindo, entendeu o que ela desejava. Deu também o seu cartão e falou que andaria ainda pelo shopping, tinha tempo. A moça deixou escapar a resposta antecipada: aceitava conversar, o mínimo que fosse. Ele saiu com o pequeno embrulho dentro da bolsa que estampava o nome da loja. Esperaria.

Dayse agora andava pelo shopping. Deslizava delicada. As outras vendedoras a conheciam, tinha colegas por toda a parte, não queria que elas desconfiassem. Mas a roupa curta e a necessidade de transitar através de corredores cheios de gente provocavam efeito contrário, colocando-a em evidência a quem ela não desejava. A vitrine da joalheria era um lugar impessoal, diante dela se manteria anônima; além disso, as funcionárias não a conheciam e eram mais discretas.

Quando menos esperava, sentiu alguém lhe tocar um dos ombros. Voltou-se convicta. Era ele. Beijou-a sobre uma das faces, sorriu. Ela também não escondeu ligeiro sorriso. Vamos, foi o que ouviu da voz do homem. Deixaram o shopping em um Corola cinza metálico. Ela não perguntou onde iam. O automóvel, silencioso, deslizou pelas avenidas largas de Brasília. Dayse reparava o fim de tarde. Seu admirador mais recente, enquanto guiava, girava às vezes a cabeça à direita e lhe dirigia a face sorridente.
Vamos beber alguma coisa? Café com creme, ela respondeu. Não bebe champanha?, ele sugeriu com naturalidade, enquanto contornava o estacionamento do Mercure. Não está cedo para tanto?, ela procurava ser autêntica.

Um dos funcionários do hotel veio abrir a porta do carro para a moça saltar. Agradeceu, enquanto o acompanhante a segurava por um dos braços e lhe aguardava os passos; ela equilibrava-se, ágil, sobre grandes saltos. Aqui há uma cafeteria ótima, ele disse em voz baixa. Entraram sem precisar tocar porta alguma. Subiram ao terraço panorâmico e se sentaram. Uma garçonete de uniforme azul veio atendê-los. Entregou dois grandes cardápios e esperou.

Dayse tomou seu café e saboreou um crepe de muzzarella, rúcula e tomates secos. Ele experimentou licor de amêndoas. Conversaram sobre banalidades. Nenhum deles revelou-se.

Avizinhava-se a noite, o clima era temperado e o vestido da moça mostrou-se um tanto inoportuno. Toda arrepiada, tornou-se sensual; mostrava-se mais nua do que nunca e sua pele reluziu aos últimos raios de um sol quase de outono. Simulou breve abraço ao próprio corpo; queria proteger-se do vento frio e ao mesmo tempo esconder a quase nudez. Vamos, foi o que ouviu mais uma vez.

A suíte presidencial do Mercure era algo inimaginável para uma moça como ela. Apesar de ser vivida, de já ter freqüentado outros hotéis, não contava com todo aquele luxo. O homem a acariciava, mostrava-se terno, percorria-lhe os ombros nus com a ponta dos dedos. Dayse ainda trajava o leve vestido. Então ele decidiu despi-la, mas com muito cuidado, como desembrulhasse algo frágil e precioso. Depois a conduziu até a cama de casal, bastante larga, e a depositou no centro, com toda a suavidade do mundo. Namoraram durante boa parte da noite. Ele preocupou-se com ela o tempo todo, quis proporcionar-lhe o máximo prazer. A moça, por sua vez, o achou maravilhoso. Às onze da noite, abriram uma garrafa de champanha e, para acompanhar, comeram queijos gorgonzola e camembert. Em seguida, tiveram mais uma sessão de intenso amor. Dayse jamais sonhara com dia e noite tão esplêndidos, parecia conto de fadas.

No dia seguinte e no outro, não foi trabalhar. Ligou alegando doença. Ficou em casa lembrando aqueles momentos que acreditava mágicos e que dificilmente se repetiriam; ao menos com alguém de tal educação, como aquele homem.

Não esqueceria o momento de despedida. Amanhecia, ele a beijou dentro do automóvel. Um beijo longo e elegante; a seguir, a surpresa: o homem envolveu-lhe o pescoço com o cordão e a medalha que ela apreciara na joalheria. Sentiu-se tão feliz que quis retribuir o presente. Então teve a idéia...
Dayse desceu na quadra de casa. O único momento de aflição foi quando se apressou para não ser percebida: ia na verdade nua e com o corpo ainda quente.

quinta-feira, janeiro 04, 2007

Peixes

No verão de 99, aluguei uma casa no alto de Ponta Negra, em Natal. A localização permitia-me ver toda a extensão da praia, cerca de seis quilômetros, onde predominava apenas areia, mar, e o céu. Era possível apreciar, nas madrugadas, a partida silenciosa dos pescadores, homens que enfrentam o mar bravio em embarcações rústicas, frágeis; homens que seguram firme o leme enquanto o vento intrépido infla as velas. De madrugada eu descia e, escondida – não queria causar alarde ou mal-estar entre eles –, observava o momento em que começavam a deslizar os barcos desde a parte superior das areias até entrarem n'água e se atirarem, rudes, em busca do peixe de cada dia. Depois – apenas a pele morena, tingida pela luz impetuosa dos trópicos – descia sozinha e caminhava debaixo de uma noite quase sempre pesada em estrelas. Então eles já iam longe, mas não perdia de vista suas velas, e me impressionava o saltar constante e corajoso dos barcos contra vagas ricas em espumas. Para aqueles pescadores, o mar era razão de vida, talvez cometa azul em céu de desventura. Enquanto eu, turista de estação, tentava me familiarizar com o local e fazer dele minha morada natural; depois de algumas semanas, já me sentia parte dali, como se tivesse sempre vivido ante aquele mar bravio e sob céu que refletia namoros estelares na paisagem marinha. Andava então longa extensão de areia, respirava o ar úmido de sal, de mar. Envolvia-me o êxtase da estação quente, mas tépida à noite. Gostava de estar sozinha, em estado de total deleite. Era pérola que desprendia faíscas, diálogo luminoso entre astros prateados. Certa vez notei que uma das naus voltava antes do previsto. Quis correr, esconder-me, procurar arbusto que me cobrisse. Mas não há mal maior do que emboscada vil que nos surpreenda, lanterna invasora que nos revele nua. Permaneci estática, nem me dei ao luxo de recostar sobre a areia convidativa; o máximo que me permiti foi cobrir os seios, recurso ineficaz: como as águas de preamar, transbordavam fartos às minhas mãos exíguas. Embora a noite fosse clara, consegui permanecer envolta nas sombras. Dois homens, um deles parecia ser bem jovem, desembarcaram e empurraram o barco areia acima; depois, desprenderam as velas. Ouvi a voz do mais velho: "vá agora". O garoto ainda tentou algum argumento para permanecer ali, mas o outro impôs sua autoridade. O remanescente desembarcou os peixes e, por meio de uma grande faca, começou a limpá-los. Vi que era hábil. Abria a parte inferior, tirava as vísceras e as enterrava na areia; ia amontoando os peixes limpos em um cesto. Foi então que me chamou. Surpreendi-me. Voltei a ouvir sua voz; pedia para que me aproximasse. Obedeci. Mas ele continuou seu trabalho; a princípio, não me dirigiu o olhar. Após algum tempo a seu lado, estática, foi a vez de ele se por de pé; tirou então a camisa e a colocou em uma de minhas mãos. Vesti-a; estava úmida, cheirava a mar, mas sobretudo ao corpo de homem em constante movimento. Seu odor de suor, que poderia causar repugnância a pessoas mais sensíveis, deixou-me excitada; e não consegui esconder o que me acontecia. Talvez o mesmo prazer sintam as rosas no momento em que desabrocham. Disfarcei. Agachei-me e lhe pedi a faca. Pus-me a limpar-lhe os peixes. Assistia a tudo impávido, como se minha presença fosse algo natural, rotineiro. O tocar nos peixes deixou-me ainda mais ruborizada. Era o momento de união entre a ação do pescador, seu cheiro que se espalhava sobre meu corpo e o fruto de seu trabalho. Cortei o último em pequenos filetes; mordisquei um deles enquanto olhava o homem do mar. Ele voltou-se para o suporte de madeira. Peguei outro filete e lhe ofereci. Comemos juntos. O sabor era como licor em noite de fantasias; o calor me assaltava, minhas entranhas ardiam... Foi então que aconteceu. Uma de suas mãos tocou-me por sob a blusa e misturou-se ao mel do meu desejo. Amamo-nos com toda a rudeza dos navegantes que há muito desejam aportar...

Antes de partir, ainda lhe disse: "amanhã volto; quero lhe devolver a blusa".

sexta-feira, dezembro 15, 2006

Rita

Sei que está frio e ventando, mas não posso sair de dentro d’água agora, ou melhor, não quero. Se você quer conversar comigo tem que ficar. Apesar de entardecer, a praia ainda está boa e até há sol. Escute, daqui a pouco eu saio, passeio um pouco com você, mas deixe antes eu contar uma coisa. Sou de Minas, sabe, por isso quero aproveitar o mar. Vim ao Rio a convite de um namorado que conheci pela net. Coloquei o endereço num desses sites de relacionamento e ele me fisgou, ou eu o fisguei, depende do ponto de vista. Cheguei há dois dias, passeamos bastante. Conhecemos juntos todas as praias deste litoral, de Búzios a Atafona. Conto um segredo: até fiquei nua em uma delas!, e agora estou aqui nesta praia, em Rio das Ostras, não é mesmo este o nome da cidade? Não sabia que esta região é tão linda. Você vai me perguntar: onde está ele?, respondo: não sei, talvez por aí. Meu namorado tinha tudo para ser o homem da minha vida; quer dizer, ainda tem, mas... agora estou achando-o esquisito em alguns aspectos. Em Barra de São João, passeamos de barco. Foi ótimo; apenas eu, ele e o barqueiro. Fomos tão longe que pensei que não mais voltaríamos. E à noite, que beleza, freqüentamos os melhores restaurantes, comemos maravilhosamente e bebemos até champanha. Depois de tantas extravagâncias, namoramos intensamente, fizemos cada coisa surpreendente. Coisas que eu jamais havia imaginado. Não me leve a mal, não sou nenhuma mulher à toa, foram coisas normais. Veja só, ele gosta de me deixar nua, tanto mais a céu aberto. No início tive medo, mas logo fiquei excitadíssima. Você deve estar se perguntando por que falo tanto de mim e de alguém que deveria estar aqui comigo, por que estou contando intimidades a alguém que acabo de conhecer, não?, mas não creio que ele volte. E se isso acontecer, não sei se vou aceitá-lo. Mas escute. Tomamos banho de mar numa praia chamada Cavaleiros; fica aqui perto. Foi ótimo, depois fomos a um bar maravilhoso, na orla. Hospedamo-nos no Sheraton. Veja onde ele me levou, no Sheraton!, chique, não?, sua única exigência foi que, após o jantar, eu o acompanhasse nua. Perguntei: como vou sair nua do hotel?, ele disse: “dou um jeito”. E não é que deu?, foi muito engraçado. Rodamos a cidade inteira. E eu pelada no carro, ao lado dele. Pensei: ai, se a polícia pára a gente? Mas nada aconteceu. Hoje ele me trouxe aqui. O quê? ah, o sol está se pondo? Tô vendo, lindo, não?, mas escute. Nem sei mais onde eu estava. Lembrei. Aí ele me trouxe a esta cidade. Fomos a todas as praias. Eu sou chata, falo demais, você não acha?, ah, ainda bem. Quis que ele me mostrasse todas as praias. Acho que da Joana, Águas Lindas, Areias Negras, Costa Azul e outras que não recordo o nome. Escolhi uma quase deserta àquela hora da manhã. Sim, chegamos aqui pela manhã. Depois foram chegando as pessoas e a praia ficou repleta. Então fomos almoçar. Comida baiana. Eu só de biquíni, fazendo o maior sucesso, e ele ao meu lado. Todos me olhavam. Quando entrei no carro, olharam mais, porque o carro dele é uma Mercedes. Almoçamos e bebemos caipirinha. Que delícia!, bebi demais, sabe?, e a bebida me deixou excitadíssima. A ele creio que também. Não, agora não estou bêbada; parece, não?, estou apenas um pouco alegre. Viemos parar aqui nesta praia depois do almoço, depois de duas ou três caipirinhas. Brincamos à vontade. Só que ele sumiu. Veja, sou bonita, você não acha?, e ele me deixou aqui. Sou de Minas, de BH, não tenho ninguém aqui no Rio. Vim pra encontrar com ele. Saímos, passeamos, comemos e bebemos, namoramos, fizemos mil e uma extravagâncias e ele me deixa aqui... Confesso que essa água fria, esse vento e outras circunstancias até me deixam excitada. Que circunstâncias?, vou contar. Sabe, já disse, sou de BH, não conheço ninguém aqui, todos os meus pertences estavam no carro dele e ele foi embora. Há mais uma coisa, mas deixo que você mesmo descubra. Venha, chegue mais perto, me abrace. Pode vir, sei que você está morrendo de vontade. Isso, assim, assim. Ah, você não tinha percebido? Nunca lhe aconteceu sair uma mulher nua do mar? Vai, me aperte; está frio, vamos aquecer nossos corpos. Quero sobretudo sentir. O resto é fácil resolver.

sexta-feira, dezembro 01, 2006

Renque acolhedor

Numa rua de um bairro da zona sul, havia um renque de árvores particularmente acolhedor. Por trás, em uma das casas que se alinhavam espaçosas, descobri uma senhora não tão jovem, mas ainda bela. Era uma daquelas pessoas que se mostram por dentro mas se escondem por fora. Gostava de conversar, na maioria das vezes ao entardecer, quando me contava tudo sobre si enquanto ouvíamos o canto dos pássaros e tomávamos, na varanda, uma chávena de chá. Narrava suas aventuras amorosas com entusiasmo. Mas jamais a vi fora de casa, ou vestida como quem vai a uma festa. Suas histórias soavam-me, à época, verossímeis. Hoje, no entanto, creio que tal verossimilhança devo creditar mais à maneira como ela as contava.

Certa vez, como eu demonstrasse dúvida, perguntou-me se aceitaria representar não papel principal, mas de coadjuvante em uma de suas aventuras. Confesso que ligeiro arrepio percorreu-me o corpo. Como eu hesitasse, ela se pôs a relatar o que se passava. Arranjara um namorado sem sair de casa. Dizia que ele estava apaixonado por ela. O namoro ia bem até que ele lhe pediu um favor surpreendente. Daria tudo que ela quisesse para levá-la nua a um passeio através da fileira de árvores, bem diante da casa. Sentira-se excitada no momento da proposta. Mas dizia que seu tempo de loucuras já havia passado. Embora não pretendesse fazer-lhe a vontade, não queria desapontá-lo, disse que pensaria no assunto. Ele cobrava-lhe a resposta e ela protelava. "Quem sabe você pudesse fazer o meu papel na aventura externa?", atirou-me a proposta. Recompensaria-me regiamente. "Ele vai descobrir, deve conhecer bem seu corpo", foi tudo que eu disse. "Deixa que isso eu resolvo", ligeiro sorriso entrecortou suas palavras.

Combinou o dia com o namorado e depois me comunicou: "está tudo acertado, a única exigência é que você esteja nua às onze da noite, na varanda. Vou deixar o portão encostado. Lógico que você virá vestida, mas tire toda a roupa e a deixe numa mochila que vai estar num dos cantos". "Mas como ele vai acreditar que a mulher nua é você?" perguntei. "Ele não poderá olhar para o seu corpo, estará de olhos vendados, vai apenas tatear sua pele para certificar-se da nudez, depois lhe tocará um dos ombros e você o guiará através das árvores. Ele também não poderá ver o momento em que eu vou sair de casa. Finjo que saio, e quando for a vez dele, já vai dar com você nua no meu lugar". Achei o plano engenhoso, mas apenas trejeito sinuoso ou emissão de som imprevisto de minha parte e a montanha ruiria estrepitosa. Mesmo assim concordei.

Na noite da aventura eu tremia muito. No momento de tirar toda a roupa tive vontade de desistir, mas consegui controlar-me. Tudo ocorreu com perfeição. Apenas um detalhe nos surpreendeu: quando voltamos, a porta estava trancada. Ele percebeu que eu demorava a abri-la. Então perguntou o que estava acontecendo. Como eu hesitasse responder, tirou a venda e deu com a nua errada. "Quem é você?" inquiriu assustado. "Uma atriz". "Atriz?" "Sim, uma atriz." "Então vamos", tomou-me nos braços e me colocou dentro de seu carro, "nossa representação ainda não terminou", falou em voz baixa. Deu a seguir a partida e me levou dali. No outro dia, quando a visitei de novo, ela ria alto como eu nunca vira. Depois, ainda muito alegre, disse-me: "eu quis dar a você um presente, vai dizer que não gostou?"

sexta-feira, novembro 17, 2006

Em Roma

Numa viagem a Roma em companhia de uma tia, há alguns anos, vivi momentos inesquecíveis. Acordávamos cedo e saíamos para descobrir a cidade. Confesso que tive predileção por lugares singelos, ruas simpáticas, lojas que vendiam pequenas bugigangas, algum apetrecho que ecoasse a simplicidade e alegria de um povo de muitos séculos.

Titia queria visitar todas os monumentos e ruínas do antigo império. Acompanhei-a ora com curiosidade, ora com um pouco de enfado, ora até mesmo assustada. Confesso que fiquei atemorizada ante à arena do Coliseu; imaginei a agonia de gladiadores ensangüentados e de todos os que eram devorados por leões; também não me foi difícil visualizar a multidão que há quase dois milênios gritava alucinada na assistência.

Nada semelhante a Roma dos dias de hoje, cidade até certo ponto tranqüila – apenas o ligeiro tráfego de automóveis nos assusta -, seu povo alegre, suas casas e prédios elegantes, a citá colorida, com lojas e butiques de marcas conhecidas.

Também admiramos os cafés; sim o café expresso é de invenção italiana e são muitas as cafeterias que se espalham pela cidade, plenas de gente bonita, principalmente ao entardecer, momento em que parávamos para tomar um capuccino.

Fora às visitas históricas e ida e vindas a restaurantes, onde não deixamos de saborear todo o tipo de prato típico, fizemos diversas compras. Era freqüente chegarmos ao hotel apinhadas de bolsas; um dos porteiros vinha então até o táxi, abria a porta do automóvel e nos ajudava a carregar todos aqueles objetos.

Fiz amizade com umas meninas italianas, ou melhor, umas jovens. Eram muito atiradas. Certa noite, convidaram-me para ir a uma boate que ficava nas proximidades do hotel. Falei com titia; ela decidiu descansar, já que o dia fora um dos mais movimentados.

Às nove horas, elas apareceram e a funcionária da recepção ligou para nosso apartamento. Desci rápida e embarcamos num pequeno automóvel.

Na verdade, era uma comemoração. Uma das amigas fazia aniversário e eram muitos os convidados. Logo apresentaram-me à maioria das pessoas. Percebi que muitos admiravam minha beleza e a roupa que eu vestia. Trajava vestido rosa tomara-que-caia, bem justo ao corpo e bem curto. Despertei os olhares de todos os homens e rapazes.

A festa transcorreu animada e sem incidentes. Predominava música americana; todos dançamos alegres e entusiasmados. Alguns rapazes aproximaram-se e queriam estar grudados a mim durante todo o tempo. É que no calor da música, meu vestido subia, as coxas ficavam de fora e por pouco não aparecia a calcinha; acho que em alguns momentos até apareceu, mas a aglomeração das pessoas, a dança, o piscar incessante de luzes coloridas não permitiram que os curiosos a percebessem mais do que durante breves segundos. Ao mesmo tempo, eu não podia esticar a parte de baixo do vestido, porque corria o risco de os meus seios saltarem. Só sei que foi tudo muito divertido. Deixei os italianos, que não demoraram a se tornar meus fãs e amigos, excitadíssimos.

No final da noite, quando as meninas me deixavam no hotel, tentava compreender o que uma delas me perguntava: queria saber onde eu comprara o vestido. Disse que o trouxera do Brasil.

Enquanto entrava no apartamento e observava titia dormindo, lembrei-me que estava num país que ditava a moda, mas que, naquela noite, eu tinha sido a pessoa que mais brilhara.

sábado, novembro 04, 2006

Seios nus

Desloco-me no mundo, ando a passos mínimos e tenho gestos e olhos convenientes. Deslizo sobre areias úmidas, vou com os pés banhados vez ou outra em fios fugidios de mar prateado. Largo e protetor chapéu isola-me de calor que desejo apenas como amante suave, pleno de desejos submersos. Arrepio ligeiro percorre minha pele branca, indício de explosão que se avizinha. Os olhos, quero aguá-los de claridade, perdem-se nas vagas nada perscrutadores; vou trêmula só de pensar em possível ser vivente, homem ou doutra espécie. Quero-me só, sob sol desnudo. Tenho a idade das ostras maduras, prenhes de sabor, que escorrem licor exótico, ocultas em praias milenares plenas de algas, festa entre as espumas, rendas desfiadas que me vestem e ao mesmo tempo me revelam. Quando transpiro sou sal, visco atrativo, suspiro original. Recosto-me na brancura de areias intermináveis, percebo horizontes múltiplos, miragens de além-mar. De repente o susto: alguém prepara o desembarque. Avisos, sinais, premonições. Calculo minhas possibilidades. Descubro a cabeça, meus cabelos voam; com uma das mãos comprimo contra os seios o chapéu; mas ele encolhe, o tamanho menor rouba-lhe a elegância, a altivez; torna-se minúsculo e enfim desaparece deixando-me nua. Qualquer presença estrangeira impede-me a fuga. Meus passos miúdos trouxeram-me distraída cinco quilômetros de costa azul, de costa sul; e agora, sereia fora d’água em corpo inteiro de mulher, Eva plena de pejo.

sexta-feira, outubro 20, 2006

Margareth

Margareth adorava que os homens encostassem em seu corpo quando viajava em ônibus cheio. Fingia nada sentir, mas se deliciava. Era jovem, dissimulada. Como a maioria das pessoas, trabalhava e freqüentava os coletivos na hora do rush. Enquanto muitos reclamavam da demora e da superlotação, ela se excitava. Usava roupa curta, provocante. Fazia-se assim alvo mais fácil.

Nos finais de semana, não deixava de ir à praia. A Copacabana. Vestia biquíni de lacinhos e camiseta curta. Mal cobria parte do bumbum arrebitado. Estátua viva da beleza pura, convidava a um beliscão, ou mesmo a alfinete macio.

Num domingo, voltava da praia. Já passava das quatro. Calor forte, sol ainda quente. O ônibus vinha mais apinhado do que nunca. Preferia voltar de pé. Nada melhor do que o esfrega-esfrega após um dia quente de verão: o corpo suado, a pele rosada ardendo. A pouca roupa a fazia arder ainda mais. Deixou-se encostar. Cada curva era uma nova oportunidade de se apoiar no corpo do desconhecido. A viagem prosseguiu assim até Bonsucesso. Ela morava em Olaria. Quando o ônibus deixou para trás a praça das Nações, Margareth tinha o espaço livre às suas costas. Alguns assentos até já iam vazios. Não reparara quem lhe viera por trás durante a viagem. De repente, ouviu voz próxima e grave:

– Ei, moça, deixa eu lhe falar uma coisa.

Virou-se e deu com homem corpulento.

Ele continuou:

– Notei que você gosta da brincadeira.

Tentou ser séria, mas lhe escorreu uma ponta de sorriso.

– Então, peço mais uma coisa.

Olhou-o de lado, com ar indagativo.

– Pra completar a brincadeira, queria lhe dar um presente.

Tirou do bolso pequeno objeto. Desenrolou-o. Era uma pulseira de ouro.

Margareth olhou a jóia com interesse.

– É sua – depositou ligeiro em uma das mãos da jovem, acrescentando a seguir – mas com uma condição.

Ela deu ao rosto graciosa feição de curiosidade.

– Vamos fazer uma troca – sugeriu esticando-lhe os olhos na direção do biquíni.

Margareth, sem demonstrar surpresa, curvando a cabeça, continuou a examinar a pulseira.

– Você ainda tem tempo pra decidir – como os bons comerciantes, fingia desinteresse pela transação.

Ela, então, encostou os antebraços no corpo e fez subir parte da camiseta. Exibiu discreta as pontas dos laçarotes que sustentavam o biquíni.

Sem mais palavras, o desconhecido a envolveu num abraço voluptuoso, mas teatral.

Foi então que Margareth ofertou-lhe moeda maior: febre interna tornou mel encantado a fada nua, e três tremores anunciaram a rosa lúbrica.

sexta-feira, outubro 06, 2006

Paletó azul

O paletó azul me separou da multidão. Felina de fauna estrangeira, arguta e silenciosa, destaquei-me alguns metros. Optava por inexistente praia deserta entre eufóricos sopros de turba levada ao delírio por metais e cordas. Deslizava sob o forro de cetim, os sentidos aguçados, a pele nua submersa transbordando-me. Eu era palavras de povo romano que se equilibravam tênues à beira de abismo povoado de línguas nórdicas, de sons bárbaros mas plenos de volúpia. Meus pés tocaram espumas de águas mornas, leve acariciar sobre planta que se levanta, veludo que se desfibra. Subiu-me contra-senso de vapores violáceos, aromas de outros tempos, tepidez prenhe de pré-gozo. Vigiei ao redor. Tentava ocultar mão invisível que me acarinhava, que me despia, que me separava do mundo físico. A multidão, ainda sussurrei, a multidão... É cega, é cega a prazeres gotejados em outras vias, foi o que ouvi, uma espécie de sussurro em mi menor. E continuaste enquanto me descobrias: oh, as rosas, são flores doutras plagas, e são duas. És poeta?, minha voz era gemido bom, dor de amor, canto de fado longínquo. Quase, disse a mão que me subia o ventre. E fingi escapar. Mas era seta que desejava a corda do arco rompida. Caí enfim sôfrega, sem resistência, arquejando. Entregava-me no intervalo silencioso de farol em mar bravio, sobrevida de navegantes; arfava: ora dor, ora prazer. Alegria de me sentir presa, imóvel, encaixe rígido sob peso redobrado, náufraga sob casco de ferro, navio interminável; embaraçava-me a algas que me serviam de algema e mordaça. Mas tentava o gozo: meus lábios trêmulos denunciavam, minha pele derramava camada de líquido translúcido, salpicado de odores viscerais, atrativo de aves oceânicas. Já era noite, espaço de cem anos de um cometa, quando me abordaste num dos quarteirões da praia; querias as horas. Interstícios estelares, momento de erupções em sóis noturnos de outras lácteas. Salpicavam astros fantasistas sobre a avenida, distavam vinte a vinte. E em silêncio trabalhaste, sulcaste a terra, desbastaste ervas imprestáveis, achaste atalho que te levou às portas de cidade encantada, povoada de silêncios e prazeres. Quando embuçado violaste a cidadela, te equilibraste sobre meus tremores. O paletó, o paletó, não mo leve, não possuo outras fibras. Teceste então renda fina: tens algodão invisível que te oculta a céu, a mar, a clarões abertos a sol a pino ou sob penumbra quase prata. E me deixaste nua, apenas águas de salinas escorrendo, a pele diáfana, os seios a palpitarem, estátua viva. Mas ao partires descobri que me mentias...