terça-feira, julho 20, 2021

Na vontade

Já que você gosta de me deixar de sobreaviso, quero te contar o final da história, fica paga a hora, já é madrugada, daqui a pouco amanhece. Fique nua mais um pouco, sei que você gosta. É sobre o que aconteceu comigo na quinta-feira passada, não acabei de te contar. Não, não falei com ele de imediato. Eu estava dentro d’água, e você sabe que a praia de manhãzinha é vazia. A água estava fria, eu teimando em entrar e me agachar. Sempre quando entro num mar frio assim, lembro-me daquela vez, eu já te contei, faz séculos, mas lembro, eu pulei da pedra, mergulhei, uma água fria que doía, e aconteceu a tal sensação gostosa, na época nem sabia como se chamava. Depois, mesmo tentando outras vezes, não mais consegui. Quando vou a uma praia, lembro, acabo rindo comigo mesma. Outro dia, pensei e se eu tentasse de novo, já não há a pedra, a praia é outra, mas eu sou a mesma, a temperatura da água está baixa, entro e fico lá um pouco. Então, tentei, mas não deu, acho que pra conseguir agora é preciso algum treino. Resolvi depois de um tempinho, fazer o velho truque, transformei o biquíni numa pulseira, fiquei só te top dentro d’água, dá maior arrepio, uma amiga me ensinou. Agora, gozar mesmo, nada feito. Apesar de vestir um biquíni mínimo, achei que estava muito vestida, então o jogo, a pulseira de pano no braço direito. De repente, um homem pertinho de mim, e eu nem o tinha visto se aproximar. Que susto. Experimente você, está sozinha, ninguém na praia e, quando menos se espera, um homem imenso ao teu lado. Depois do susto, tive de rir. Ele notou meu sorriso e disse bom dia, desculpe se eu te assustei, não era a intenção, e foi nadando pra mais longe, cada vez mais. E eu no mesmo lugar. Envolvida pelo susto, até esqueci que estava nua. Ele não notou!, refleti. Como minha amiga me tinha contado, eles não notam não, são afoitos, estão sempre preocupados com eles mesmos. Quando dei conta da situação disse a mim mesma é preciso manter o sangue frio, Soraya. E se ele voltar não vai me encontrar vestida, acrescentei corajosa. Não vou morrer por causa disso. Tenho amigas que adorariam ser surpreendidas nuas, mas eu... Quem sabe, até role alguma coisa boa?, me perguntei. Não, é melhor marcar para outra hora, o homem vai pensar que sou piranha, e pra trepar é preciso clima. Mas é só não querer o tal duas vezes, me disse certa vez Ana. Como, nesta cidade? E se ele ficar me assediando? Mas foi nadando, nadando. Não mais vi o homem. À noite, no Ilhote, eram onze da noite, me lembrei dele. E se aparece agora, pensei, se me convida pra sair? Senti um arrepio, tive vontade de ir ao toalete, tirar a calcinha, guardá-la enroladinha num papel, dentro da bolsa. Eu estava com uma amiga, não comentei nada. E, como é muito comum acontecer comigo, fiquei apenas na vontade. A amiga ficou toda assanhada, cheia de sorrisinhos, quando um desconhecido veio falar com a gente, perguntou se queríamos alguma coisa, porque só estávamos bebendo. Ela, interesseira, soltou um quem sabe... Mas achei que o tal demonstrou interesse mesmo por mim. Fomos para a mesa dele. Em algum momento, a amiga sussurrou depois do bar vamos com ele, não vejo mal nenhum nisso. Mas o homem, no final, nos deixou em casa, pegou nossos números de telefone e ficou de ligar. Investimento, não?, dirá você. Como é bom investir, não é mesmo? Minha amiga sorria, depois de duas taças de vinho. E você, telefonando pra pedir um vestidinho, e tão tarde, ou melhor, quase manhã, pelo menos não ficou na vontade, não é mesmo? Onde você está? Ih, esse lugar fica longe, acho que vou ter de te deixar pelada.

terça-feira, julho 13, 2021

Meu biquíni nas mãos dele!

Naquela manhã de praia e sol, eu sentia um intenso frisson, alguma coisa quase inexplicável me penetrava os poros, estendia-se pelo interior do meu corpo, me agitava o coração e me despertava arrepios. Vestia um biquíni mínimo que instigava aos homens e a mim mesma, me provocava quase um gozo. Os rapazes se aproximavam, queriam estar perto das mulheres bonitas, nos tocavam, falavam alto, alegres, observavam as gotículas de água salgada a brilhar sobre nossa pele. Quando eu mergulhava na água fria, sentia a sensação ainda maior. Uma das vezes cheguei a gozar, a mesma sensação que se tem no clímax de uma relação sexual bem gostosa com o homem dos sonhos.

Inspirei, o ar ainda fresco, mais frisson. Como me controlar diante de tamanha felicidade?

Avistei Jorge, sabia que não demoraria a vir para perto de mim. Apesar de vez ou outra dar uma saidinha com ele, deixei bem claro, não quero namorar. Ele me adorava, e acho que ainda me adora. Quando ligava, vinha rápido. Ao me encontrar na praia, podia estar com quem fosse, corria a me abraçar e me beijar. Seu abraço misterioso me deixava a mil. Certa vez, na mesma praia, ao entardecer, ninguém dentro d’água, apenas nós dois, ele me deixou peladinha. O abraço foi o mesmo, envolvente. mas quando me soltou levou o biquíni junto. Volte aqui, gritei taradinha. Notou ele o meu ardor. Ao me abraçar de novo, imaginem o resultado. Que amor gostoso aquele dia!

O corpo cura todas as angústias. Basta um pouco de nudez e frisson que tudo passa, tanto mais quando vamos nas mãos de um homem volumoso.

Havia  mulheres que desejavam muito Jorge. Acho que ele trepava com todas, não sei. Mas nada de comentários, cada uma com o seu gozo. Acho que ele ficaria comigo, quem sabe casaria. Eu mesma, porém, descartei tal hipótese. Mais valia minha liberdade.

Naquela manhã, no entanto, todas nós estavam a mil por hora, e nem precisávamos de bebida alcoólica. Uma embriaguez causada pela pulsação do dia.

Anita me veio dizer que estava ardida. Aconselhei a passar o protetor solar. Não é nesse sentido que estou falando, contrapôs. Abraçou-se, acariciou-se, deu uma queda de quadris, fechou os olhos e deu uns passinhos à frente. Mas aqui?, perguntei, espere pela noite, todos eles vão disputar você. À noite, será outra história, desejo agora, reafirmou. E não é que conseguiu. Depois de apenas vinte minutos, já ia agarradinha a um rapaz. E não praticaram somente abraços e beijos. Conhecia minha amiga, era capaz de tudo por um homem. Fiquei a imaginar onde treparam.

Vez ou outra, uma de nós não resistia; partíamos, então, ao principal, entendem? Onde? Este era o problema. Mas a praia era, e ainda é, bem extensa. Havia também a possiblidade de amar dentro d’água, embora não gostássemos. Certa vez, um dos rapazes armou um tenda à beira da lagoa, logo no final da praia. Caramba, acho que teve até fila. Claro, éramos discretas, mas é o modo de falar. Sempre estava ocupada. Vamos colocar uma toalha separando os compartimentos. Ficou melhor, e não se precisava esperar muito tempo. Derramávamos, carinhosas, todo o nosso tesão, corpo contra corpo, fricções, cheirinho de perfume, secreções a nos escorrer.

Ah, que vida boa, que arrepio. Vinha lá o Jorge. Você está maravilhosa, me falava antes do beijo. Eu sempre me lembrava do meu biquíni nas mãos dele, do seu pênis grosso e comprido. 

quinta-feira, julho 08, 2021

Ainda escurinho

Gosto de sair madrugada ainda, escuro o anteceder do dia, e ir à praia para um banho de mar, principalmente se se avizinha a estação mais quente. O que me provoca é entrar nua na água. A praia, perto de onde moro, é muito iluminada, por isso caminho até onde a luz é menos intensa. Não quero ser descoberta, ou mesmo espionada. Abaixo-me um pouquinho na areia, espero, depois forro-a com a própria blusa e deixo sobre ela o restante da roupa. Então corro e entro n’água. Nada de medir a temperatura antes. Desde adolescente gosto de mergulhar e sentir na pele o súbito frio da água do mar. Fico quietinha dentro d’água, às vezes desapareço, submarina. Sei que caso conte isso a alguém, a pessoa dirá que sou louca, mergulhar só, num momento em que não há ninguém à praia é perigoso, caso você sinta um mal estar não há quem te possa socorrer. Não penso, porém, nessas coisas. Quero o meu prazer. Mergulho e deixo que o mar tome a mim por inteira, nada a obstruí-lo, nem mesmo o biquíni. Mergulhada no mar e na noite, o prazer, o gozo. As pessoas não sabem o arrepio que me envolve em tais circunstâncias, sério, chego ao orgasmo, por isso volto sempre. Mas tenho de tomar minhas precauções, não posso deixar que alguém me descubra. Nem que me observem a sair àquela hora do prédio onde moro, nem à beira d’água. Meus movimentos precisam ser lentos, nada de precipitações. Às vezes penso que alguém está a me observar de alguma janela, através de um binóculo. Caso seja verdadeira minha suposição, esse alguém poderá descer e sair ao meu encalço. Não sei o que pode, então, acontecer. Esperar-me-á silencioso ou se precipitará atrás de mim? O que você quer comigo?, deixe-me em paz, por favor, terei de dizer. Mas a pessoa poderá não me atender. Outro evento, para muitos homens, é ir até onde deixei minhas roupas e furtá-las. Como poderei voltar nua para casa?, ponho-me a pensar. Mas, até hoje, tudo deu certo. De concreto, apenas minhas idas à praia, o mergulho e o gozo intenso. Quanto ao perigo, fico a achar que em pensamentos ele me provoca ainda mais arrepio. Lembro que certa vez, faz muito tempo, ainda não era dada à prática que acabei de contar, percebi ao amanhecer uma mulher entrar na água do mar vestindo apenas a calcinha e uma camisa, descobri depois que ela acabara de transar com seu homem e entrara na água para se lavar; ele a esperava junto ao muro da orla. Ambos não repararam que alguém os observava, acharam-se protegidos pela horário ainda cedo e pela praia vazia. Há outras histórias, como as de carícias e namoros dentro d’água, com alguém que conhecemos momentos antes, há mulheres que deixam o biquíni durante alguns minutos nas mãos do recente namorado, dizem que também vale o orgasmo, mas aí já é outra história. Agora vou descansar, porque daqui a algumas horas, ainda escurinho, vou a mais um mergulho. E quero estar preparadinha.

terça-feira, junho 29, 2021

Imobilizada

Ele cisma de me dar dinheiro.  Verdade. Toda vez que o encontro, estende a mão com um envelope. É um presentinho, pra ajudar em alguma coisa. Fico tão sem graça, acabo aceitando. Por enquanto, estamos apenas conversando. Ele me convida, saímos para lanchar ou jantar. Depois me pergunta se quero que me deixe em casa. Digo que sim. Ele é devagar nas coisas do amor, gosta de conversar, uma conversa comprida, centopeia, e gosta de me ouvir falar também, pede que eu conte alguma coisa. É lógico que não falo quase nada de mim.

Outro dia, em casa, sozinha, ao mesmo tempo que pensava nele, lembrei a viagem a Cabo Frio, onde fiquei durantes uns quinze dias. Conheci então um homem muito parecido com ele. Me convidava para todo o lado e gostava de me dar presentes. Só que não me dava dinheiro. Íamos ao shopping e ele dizia para eu escolher o que quisesse. Você fala sério?, perguntei na primeira vez. Claro, foi sua resposta. No início, tive cuidado para não assustar o homem, escolhi umas roupas que eu estava precisando, mas nada muito caro. Na segunda, foi diferente, além de roupas, o homem disse que eu podia escolher uma joia! Mas joia é perigoso de se usar nos dias de hoje. Que nada, a gente sai de carro, vamos a um restaurante chique. Escolhi um cordãozinho discreto, lindo demais. Mas ele agiu diferente desse que namoro agora. Logo me chamou para um hotel, ou para a casa dele. Afirmou que num hotel seria mais interessante. Demorei um pouco a aceitar, mas diante de tantos presentes não podia decepcionar o homem. Acabamos passando um final de semana em Búzios, nos hospedamos numa pousada super incrementada. Todas as noites, então, rolou um amor gostoso entre nós. Num dos dias, quando chegamos da praia, era umas quatro da tarde, fui tomar banho de chuveiro. Ele quis vir junto comigo. Assim que fiquei nua, começou a lançar o jato de água do chuveirinho sobre o meu corpo. A água estava muito fria, do jeito que eu gosto. Não lhe disse nada, mas água fria me dá tesão. Ele ficou mirando a mangueirinha bem naquele lugar, me deixou desarmada. Foi um ótimo passeio, foi um namoro e tanto.

Mas agora, este último, não sei por que o homem gosta tanto de me presentear com notas de cem e, por enquanto, nada me pede em troca, apenas que eu o acompanhe a bares e restaurantes. Daqui a pouco, acho que serei eu a convidá-lo à minha casa. Mas não sou uma mulher de tomar inciativas. Por falar no ex que me levou a Búzios, que me enchia de presentes do shopping, por que o namoro acabou mesmo? Eu estava de férias, em viagem, mas não significa que o fim das férias seja fim de relacionamento. Depois, ainda tivemos contato, ele veio uma ou duas vezes à minha cidade, mas, de repente, sumiu. Talvez tenha se transferido de trabalho ou, quem sabe, até mesmo conhecido outra, se casado, sei lá. A vida é assim. 

O importante, agora, é o atual namorado descobrir o meu segredo. A tal água fria. Fico imobilizada. Em estado de orgasmo absoluto. Será que falo qualquer coisa a respeito?

terça-feira, junho 22, 2021

Banho-maria

“Você não está casada?”, ele perguntou.

“O que isso tem a ver?, sempre saí com você também casado?”, repliquei um tanto malcriada.

Era uma quinta-feira de Fevereiro, fazia alguns minutos que eu resolvera telefonar a ele, meu antigo patrão. Gostava dele, às vezes precisava dele, alguém que não deixava de resolver minhas dificuldades. Mas o problema era que ele não telefonava havia dois meses, uma quantidade de tempo enorme para quem deseja manter um relacionamento, mesmo que em banho-maria. À ultima vez houve um probleminha. O homem me ligou bem na hora que meu marido estava próximo ao meu celular. O que eu iria fazer? Não podia sair correndo com o aparelho como se nada tivesse acontecido. Cínica que sou, pedi atende pra mim, amor. Ele atendeu, e era o meu ex-patrão. Ao ouvir voz de homem, deve ter levado um susto. Este telefone não é da Márcia?, perguntou. Sim, respondeu o marido, quer falar com ela?, e me passou o aparelho. O que eu podia dizer. Oi, Sr. Jaques, como vai sua esposa? Ele, no entanto, insistiu, queria saber quem era o homem que atendeu ao telefone. Não pude negar, disse com a voz alta, clara: meu marido. Agradeceu, despediu-se e desligou. Depois, dois meses em silêncio. Como vou retomar a relação?, pensei.

“Preciso falar com o senhor”, continuei, não consegui perder o modo de tratá-lo, sempre chamando o homem de senhor.

“Pode falar.”

“Sabe”, continuei, “é melhor marcarmos em algum lugar, é uma conversa um tanto pessoal, não dá pra falar assim, ao telefone.”

Ele aceitou. Foi ao meu encontro. Sabia que, para ser atendida, não ia sair de graça.

“Quinhentos?”, pareceu assustar-se.

“Estou passando por um probleminha, achei que pudesse me ajudar.”

“Vamos ver”, coçou a cabeça. Estávamos num café, no subsolo de uma galeria comercial, no centro.

Tomamos os cafés, às vezes em silêncio, às vezes um assunto engraçado. Perguntei pela esposa. Ele respondeu de pronto, sem tremores, vai muito bem.

“O Senhor gosta dela”, afirmei.

“Quem sabe”, sorriu, olhou pra cima, depois me encarou nos olhos. “E então?”

Eu já sabia do que se tratava. Levantamos e saímos pela Rio Branco, entramos na Treze de Maio, depois na Senador Dantas. Trinta minutos e eu nua num quarto de hotel, fresquinha, saída do banho. O homem a babar por mim. Comecei a colocar em ação minhas habilidades.

“Sabendo que você está casada, fico mais excitado”, comentou.

“Não ligo pro meu marido, um casamento formal.”

“Ele não tem quinhentos reais?”

“Está desempregado.”

“Ah, sim, a crise”, sussurrou.

“É, a tal crise”, concordei.

“Além do dinheiro, trouxe um presentinho pra você”, ofereceu-me a bolsa de uma loja famosa.

Abri. Era um biquíni de praia.

“Quero que você vista”, pediu.

Vesti, amarrei os lacinhos.

“Que gracinha”, falou com seu sorriso sempre pronto, “deixa desamarrar”.

E assim foi, ótima a tarde pra namorar. Eu peladinha, na cama, todas as posições. Como adoro falar sacanagem, ainda contei uma história no ouvido dele.

No final, insistiu:

“Quero você de biquininho, mais uma vez.”

“Espere”, pedi.

Fui ao banheiro, me lavei e voltei vestidinha, o biquininho como uma luva, eu um tanto molhadinha, como que saída da água da praia. Me aproximei do ouvido dele e falei:

“Sabe de uma coisa, vou voltar pra casa vestida apenas de biquininho.”

O pênis do homem ficou duro de novo. Desfez meus laços, fomos a mais uma boa trepada.

Assim vai o meu relacionamento extraconjugal, a fogo baixo, em banho-maria. Só não posso deixar que passem mais dois meses.

terça-feira, junho 15, 2021

Não estica a corda

Tenho um namorado que é fogo, acaba conseguindo de mim tudo que deseja. Como gosto muito dele, é difícil recusar suas propostas. Desde que o conheci, diz que sou muito bonita, que jamais namorou uma mulher parecida comigo. Elogia meu corpo, fica admirado como consigo praticar uma alimentação tão equilibrada e sentir tanto prazer pela vida. Um dia desses, veio com a história de que meu biquíni é muito grande, eu devia usar um mais ousado, mais curtinho, que mostrasse as belezas que vivo escondendo. Não sei se vou me sentir bem com um biquíni mais curto, repliquei.

Contei a ele uma peripécia minha numa praia de Búzios. Como moro em M, que fica a quarenta minutos da tal praia, não me preocupei à época e usei um biquíni mínimo, deixava tudo de fora. Não acredito, ele falou, você tão cheia de pudor, com tudo de fora... Sério, tudo de fora, afirmei, me senti nua por inteiro com o tal biquíni, e não foi coisa de namorado, mas de uma amiga, ela criou a situação; além disso, apareceram dois homens; foi aí que a coisa pegou. O que aconteceu?, perguntou, muito curioso. Ah, não é coisa pra contar pra namorado, você também já fez das suas.

Insistiu pra eu trocar de biquíni, disse que ia comigo a uma loja onde vende cada um ótimo, pagaria tudo. Não se passaram duas semanas, estava eu na praia com o biquíni mais curto que já vesti, todo entrado atrás. Ai se encontro alguém, vou morrer, disse assustada. Você não está nua, mas numa praia onde as mulheres não têm vergonha alguma, e é normal se vestir assim no litoral, ele rebateu. Você está errado, nós morremos de vergonha, não deixamos transparecer porque sabemos representar, caso alguém pudesse fotografar o que sentimos num momento de nudez, ficaria surpreso, sussurrei no ouvido dele.

Depois dessa do biquíni, ele veio com outra história, aliás, com duas histórias, só que uma depois da outra. Meu namorado é mestre nisso, sabe fazer as coisas por partes, dosar o seu desejo, avançar na hora certa, e me deixar sem saída. Sempre namoramos muito à vontade, tanto na minha casa, como na dele, quando lá não tem ninguém. Às vezes, vamos a um hotel aqui na cidade, ou a uma pousada na cidade vizinha. Outro dia, eu estava nua nos braços dele, num tremendo roça roça (eu já não mais podia). Coloca a camisinha, pedi. Ele ficou embromando, e me apertava, e me beijava, e fez que eu abrisse as pernas, e roçou ainda mais, e eu cada vez mais doidinha... Bota a camisinha, supliquei. Espere mais um pouquinho, pediu, vamos pele com pele, só um minutinho. Eu, tão equilibrada, deixei o tal pele com pele. Estava toda molhada, ele escorregou pra dentro de mim. Ai, por favor, está tão bom, mas não vai perder a cabeça, viu, pedi, a equilibrada, que já ia mal no barbante. Num determinado momento, cheguei a soprar não tira, por favor, está muito gostoso, mas não perde a cabeça, viu, por favor. Naquele momento, lembrei a amiga de Búzios, do biquíni, eu e tudo de fora, a mesma coisa a acontecer, logo comigo. Ui, não goza, não, viu, eu falava pro homem, a gente naquela praia, uma barraquinha que eles tinham, eu e a amiga, as duas peladinhas, não goza, não, viu. E eles perdendo a cabeça, nós duas já vencidas fazia horas. Voltei pra M desesperada, minha amiga nem ligou.

O namorado já estava suando frio, suspirando, você está por um triz, pronunciou, acho que hoje não escapa; então, eu, equilibradíssima que só, disse vem aqui, despeja na minha boca. Tudo aconteceu numa fração de segundos. E foi a festa!

Agora, a segunda história. Você tem um bumbum lindo, acaricia, elogia, quer uma coisa que nunca fiz. A camisinha chega a brilhar vestida no peru dele, e ele me encosta, me roça por todos os lados. Por trás, não, por favor, não insiste. Eu não querendo dizer nunca fiz uma coisa dessas, acho que não vou gostar. Ui, devagar, me beije primeiro, suba o meu corpo, veja, é todo teu. Mas o namorado é tão convincente. Acuada, me pergunto se vou gostar, ou se vou gozar. Primeiro me deixa subir na corda, me ajuda, isso, agora a vara, por favor, assim mesmo, está muito bom, ótimo, sou equilibrada, muito equilibrada mesmo. Equilibradíssima. Com a vara, um tanto melhor.

segunda-feira, junho 07, 2021

Só em sonho

O ônibus vinha com poucas pessoas, passava das dez da noite. Parou no ponto e eu subi. Tomara que não me olhem de frente. Não é normal, numa situação dessas, alguém olhar de frente. Além disso, tudo depende de mim, caso eu faça de conta que sou a pessoa mais vestida do mundo, ninguém vai reparar que estou nua. Já vivi a mesma situação outras vezes, e me saí salva, porque sã sempre fui. Uma pessoa que adora namorar é sempre sã. Minha amiga Aldinha é sujeita a escândalos. Você é boba, digo a ela, discrição, as pessoas gostam de discrição, os homens sobretudo, você pode namorar todos eles, basta que não conte segredos seus, segredos de mulheres pertencem a nós, boca fechada, aberta apenas para beijar e para algo mais, e mais uma coisa, mesmo que você saia nua, se não se precipitar ninguém nota, e dá enorme prazer! Entrei no ônibus, como imaginava, as pessoas me olharam, mas nada notaram, continuaram nos seus pensamentos, no meio sono de noite alta, enquanto o coletivo já ia pela rodovia estadual e se preparava para pegar a serra. Uma viagem à meia luz, era o que vivíamos. Num determinado ponto, o motorista deixa apenas poucas lâmpadas, já tarde da noite, melhor sempre o descanso. Cruzo as pernas, procuro na bolsa a chave de casa. Mas ainda estamos tão longe, por que penso numa chave? Talvez, a segurança, é preciso ter uma casa, um lugar onde se abrigar, entrar e sair sem ser percebida, deixar minhas coisas seguras. Às vezes, em meio ao caminho, sinto alguma inquietação. Alguém me perceberá?, alguém desvendará meu segredo. Até agora, não. Tudo corre bem. Houve certa vez o motorista. Seu sorrisinho debochado foi revelador; apenas nós dois no ônibus, parou num local que apelidaram recanto da onça. desceu na frente, sabia quem era a fera. Ainda bem, não contou a ninguém, e não aconteceu de novo. Ficou feliz com uma única vez. Este agora, já o conheço. Nesses distritos das alturas todos se conhecem, e ele  não gostaria de se ver envolto em problemas, pois tem mulher, filhos e vizinhos vigilantes. Todo homem sonha conhecer uma mulher discreta e silenciosa, que lhe dê prazer, que nada comente, sempre pronta ao amor, ou ao sexo, caso ele nunca tenha experimentado algo maior. Desço um ponto antes do final da linha, uma escuridão, a prefeitura não colocou iluminação nos postes de entrada. Melhor para mim, envolta em sombras, mais fácil o disfarce, desço rápida, a porta traseira ajuda, se ninguém notou minhas verdades na entrada, não notará na saída. Junto as pernas, a bolsa a tiracolo, a sandália de fivela. Dou o sinal, ele vai parar, não sei, dou mais uma vez, antes da entrada?, ele grita? Isso, sorrio de longe. Ele para. Eu corro e desço. Ainda bem, ninguém, como das outras vezes. Corro para casa e penso como foi possível a tal experiência, de embarcar nua em M, subir a serra dentro de um coletivo com meia dúzia de pessoas e ninguém nada notar, nem um sussurro, mesmo o chofer... Talvez, seja possível  apenas num sonho. Verdade. Muitas vezes sonhamos que andamos nuas pela cidade e ninguém nos repara, andamos e andamos, sentimos vergonha, mas ninguém olhando. Outras tantas vezes, pensamos que é sonho e está lá a pura realidade, nuinha. Como fui viver esta situação, onde deixei minhas roupas? Não sei.

terça-feira, maio 25, 2021

Durinhos

Quando vi o homem, o bico dos meus seios ficaram duros. Verdade. Fazia tempo que não acontecia. Ele tinha acabado de me olhar de um modo invasivo, e eu que nem sou tão bonita assim, nem estava vestida para ser admirada ou paquerada, ainda era de manhã. Não sei o que despertou nele sentir tanta atração. Seu olhar me deixou nua, fiquei morta de vergonha, mas representei. Em geral, nós, quando sentimos ainda que uma ponta de vexo, sabemos dissimular. Tenho certeza que ele nada notou, consegui manter certa frieza. Como vou fazer agora, será que vai tomar a inciativa? Fiquei interessada, não queria perder o momento. Na nossa vida, em muitas ocasiões, deixamos passar as oportunidades. Ficamos sem ação, como que paralisadas por algo difícil de nomear. Mas, naqueles poucos segundos, sabia que não devia agir assim. Soltei o ar vagarosamente, olhei-o com um sorrisinho. O homem compreendeu. Ele precisava falar, contar uma história, perguntar, pedir uma informação. E logo atrás ficava um café, seria fácil, diria que era de fora, que procurava alguma coisa. Como nada falava, e eu já ia quente dentro da roupa, perguntei você quer alguma informação, não? Ele sorriu pela primeira vez, mas ainda permaneceu em silêncio durante alguns segundos. Esta cidade é quente ou fria? Achei graça. Você faz tanto mistério para propor uma questão de geografia. Pensei em voz alta. O homem pareceu surpreso. Depende da época do ano, agora é quente, veja, as pessoas vestem bermudas, shorts, ou mesmo trajes de banho, a praia fica do outro lado e vem muita gente de fora. Obrigado. Você quer sugestão para se hospedar?, tive a ousadia de perguntar. Sim, estava pesando nisso. Então, falei sobre a pousada. Não gastaria muito dinheiro e seria confortável, um lugar realmente bom.

Certa vez tive um namorado que ficou hospedado na tal pousada, por isso passei a conhecer a proprietária. No começo, eu ia esperá-lo enquanto se vestia para sairmos. Depois de alguns dias, em vez de ficar na sala de entrada da pousada, a proprietária me indicava a escada e dizia que subisse. Passamos então a fazer amor no local, antes ou depois de nossos passeios. Certa vez, cheguei a dizer no ouvido dele se essa mulher me pega nua aqui não vai me deixar mais por os pés na pousada, trata-se de uma hospedagem familiar, ela afirma. Ele ria, enquanto me acariciava e procurava me fazer feliz com uma boa trepada. Ela vai ficar contente, arranjei um hóspede para ela. Depois do namorado, passou-se muito tempo, quando a gente se encontra na rua ela para pra conversar, sempre pergunta pelo ex-namorado, se ainda o vejo. Às vezes falo com ele, mas sabe como são os homens que vêm trabalhar aqui, não demora transferem-se para outras cidades, essa indústria do petróleo...

Eu não ia dizer à mulher que arranjei outro namorado, mas que alguém estava perdido, procurando uma pousada, lembrei então a dela. E era verdade, o homem estava deambulando pelo centro, perto do supermercado, até que me dirigiu o olhar invasivo. Nesta cidade, há muitos homens, mas eles são casados, vêm para trabalhar, quando conversam com a gente contam histórias inacreditáveis, que estão livres, que querem ficar por aqui, se casar... No final, acabam partindo. Nós não podemos acreditar no que dizem. Caso tenhamos alguma relação com algum deles, é preciso ter consciência de que a coisa é passageira. O ideal é aproveitar o momento, nada de amor nem de paixão.

Um fato engraçado aconteceu com Léa, uma amiga da Riviera. Ela contou que estava na praia, era à tarde, estava ventando, já pensava em juntar as coisas para ir embora quando viu um homem lindo, jeito de artista de cinema, pensou que estavam fazendo algum filme na cidade. Você já molhou o biquíni ao ver um homem bonito?, ela me perguntou. Não, nunca. Eu também, antes, jamais. Estava já mesmo ficando frio, eu arrepiada, o homem me olhou e molhei o biquíni. Foi tão bom, ah, se isso me acontece sempre, vai ser ótimo, falou. O tal parou pra conversar. Ela acabou rindo tanto, ele perguntando qual era o motivo de tanta alegria. Não posso contar, vai ser ridículo. Ela voltou pra casa no final daquela tarde quase nas nuvens, pois se deixara nas mãos do homem por umas boas duas horas. Vocês treparam na praia, Léa, e logo de primeira, ele, um desconhecido. Demos um jeitinho, ela riu, e ele não era tão desconhecido assim, artistas sempre são populares; não fala pra ninguém, viu, o mais gostoso mesmo foi molhar a calcinha só em reparar o olhar dele! Depois, também foi bom, mas a primeira experiência eu ainda não conhecia.

E agora esse, eu caminhando ao seu lado, levando-o à pousada. O bico dos meus seios durinhos.

terça-feira, maio 18, 2021

Não queria ficar nua

Não queria ficar nua, mas estava morrendo de vontade de trepar com ele. Se pelo menos me abraçasse, e me apertasse junto ao seu corpo, eu teria coragem de tirar a roupa. Mas é dever do homem despir uma mulher. Tive um namorado que me abraçou num canto da sala e me soltou a saia. No momento, senti-me plena de excitação, mas depois, já nua, fui tomada por uma ponta de vergonha. Mas agora, na estação de férias, nós dois dentro do quarto, sem contar o que já se passou na praia, acho que o vexo ficará para trás. Tomamos sol juntos, mergulhamos, eu vestindo meu menor biquíni, ele fazendo de conta que não reparava, ou que aquele mínimo traje de banho era a coisa mais normal do mundo. Depois do dia de calor, da bebida e do almoço, depois do descanso, estamos lado a lado, beijamo-nos; eu, de shortinho. Nada de precipitação, os homens são afoitos; as mulheres, delicadas. Gosto de deixar a iniciativa para eles. Levanta e acende um cigarro, pergunta se aceito. Não, agora não, quero namorar, digo com uma ponta de atrevimento. Ele me abraça, o cigarro numa das mãos, seu corpo me provoca frisson. Por que não faço como Suzy, minha irmã; quando sai com um homem e fica a sós com ele num quarto de hotel, é a primeira a se despir, deixa apenas a calcinha para ele tirar. Certa vez, numa praia do nordeste, ela e o namorado alugaram um barco e acabaram perdendo-se no mar. Encontraram uma ilha e aportaram. O homem estava preocupado, como faria para voltar?, o mar cada vez mais agitado. Ao olhar a mulher, viu-a nua; mas você não se preocupa, logo fica noite; nada de preocupação, ela rebateu, virão nos buscar, enquanto isso façamos amor, agarrou o namorado. Mas Suzy é Suzy, sempre a contar vantagens. É certo que enfrentou alguns tropeços, mas deles jamais lembra, apenas enumera as vantagens, os homens lindos, artistas de cinema, ela nua atrás de uma pedra, brincando de esconde-esconde com o namorado, ou procurando o biquíni comprado em Paris. Meu namorado solta a fumaça do cigarro, solta-me do abraço, mas segura-me pelo short. Não leva tempo para abaixá-lo, leva junto a calcinha! Eu, apenas de camiseta, que não passa muito do umbigo. Venha, me penetre, me faça sonhar, é lógico que não falo, são meus desejos. Vem-me a lembrança da água gelada do mar, de algumas horas atrás. Por que nesta região a água é tão gelada? Não disse a ele, mas a água me excita. Tive um namorado que trepava comigo dentro d’água; sabendo da minha excitação pelo mar frio, procurava as praias mais geladas. Mas onde o tal namorado? Não mais o vi, não sei por que desapareceu. As pessoas são assim, vez ou outra desaparecem. O quarto é pequeno para o amor quando ampliado pela riqueza das sensações, procuro o sexo do meu homem. Não aguento, mete, por favor, estou muito excitada, quero revelar. As palavras, sempre as palavras, são difíceis. Qual o verdadeiro idioma do amor? Deixa o cigarro e leva-me para a cama. Tateia-me e acho que chega a conclusão de que é melhor me colocar por cima. Trocamos sensações, linguagem dos corpos. Caso me sussurre uma história no ouvido, vou preferir a do dia quando me deixou nua por doze horas! E não foi dentro de um quarto. Foi numa praia de nudismo?, quis saber uma amiga atrevida. Nada. Eu que era a nua e sou tão envergonhada, não sei o que me deu no tal dia. Foi uma curtição. Isso mesmo, a todos os lugares onde íamos, eu nua, ora dentro do carro, ora nas areias da praia, ora ao banho de mar! Você está com o corpo quente, meu amor, bem quente, é disso que mais gosto, ele diz. O que eu poderia desejar mais? A ida à boate à noite? Os passeios pela orla das praias depois do escuro da noite? O sexo do homem que me acompanha? Sei que a vida não é apenas sexo, mas quando este nos satisfaz, mais da metade dos nossos problemas estão resolvidos. Será que tenho algum problema? Quem sabe.

sexta-feira, maio 14, 2021

Madurinha

Meu amigo pediu para encontrar com ele num domingo de manhã. Queria tomar café comigo. Quando acordei, de madrugada, aproveitei para gravar uma mensagem dizendo que não iria, marcaríamos uma próxima vez. Horas depois, ele me escreveu, adorou minha voz sexy, de alguém que acorda no meio da noite e fala por sussurros. Durante o dia fiquei pensando no que ele falou. Ele não ficou aborrecido, sabe que qualquer dia desses apareço e a gente sai para passear. Meu amigo gosta de encontrar comigo, sempre temos uma porção de coisas para conversar.

Certa vez, quando viajei à Mangaratiba, vejam que coincidência, conheci um homem num domingo de manhã, e ele me convidou para tomar café. Fomos a um Café local, muito incrementado, ele pediu um verdadeiro breakfast. Nunca tinha experimentado um tão legal. Só que depois... Bem, depois, aconteceu algo inesperado. Quero dizer, inesperado para um domingo pela manhã. Porque quando o homem veio falar comigo, eu estava indo para a praia e eram nove horas. Depois do café, eu o acompanhei até a sua casa - pelo menos era o que eu imaginava. Me falou que precisava se preparar para a praia e que eu o esperasse um pouco. A casa era uma tremenda mansão, com tudo do bom e do melhor, inclusive piscina, sauna e um jardim lindo, todo florido.

“Essa casa é tua?”, eu, curiosa.

“Não, mas é como se fosse”, era de um amigo, ele complementou, mas deixava com ele, podia ficar o tempo que quisesse, alguém muito próximo.

Dentro de uma casa com tanto requinte, eu acabei sem... Vocês compreendem, não? Me entusiasmei. Pelo homem e pelo lugar. Tempos depois, descobri que corri um grande perigo. A casa era de uma das pessoas mais importantes da cidade, mas ficava sempre vazia. O tal enamorado de então ocupava-a ilegalmente. E eu nua, indo de um cômodo a outro, namorando com o homem. Ainda bem que não apareceu ninguém por lá naquele dia.

Meu amigo, que me convida para passear e tomar café aos domingos pela manhã, também já me namorou. Mas foi uma relação de ocasião. Me convidou e me levou a um hotel, no centro da cidade, onde passamos uma tarde. Depois disso, não sei o motivo, não mais nos encontramos. Tempos depois, quando isso aconteceu, acabamos nos tornando amigos. Não digo que não sairia com ele de novo. Acho que falta é oportunidade. Quem sabe num desses domingos vindouros o convido para passar lá em casa depois do café da manhã? Então, ele poderá me abraçar, me beijar, tirar toda a minha roupa e fazer como da outra vez no hotel no centro da cidade.

O homem de Mangaratiba soube me paquerar e me namorar, tinha um pênis enorme, e eu, uma saída de praia curtinha, biquíni mínimo, tudo de fora. Não poderia ser outro o resultado.

Meu amigo de Copacabana gosta de me convidar para um café da manhã, não fala em segundas intenções. Mas sempre há o dia em que a gente, madurinha, cai nas mãos de quem a gente mais gosta!

quinta-feira, maio 06, 2021

Cuidado com as abelhas

Fico quietinha no meu canto . Ele me telefona, ou me envia uma mensagem e diz que me deu um presente. Olho o saldo da minha conta bancária, lá está o depósito que ele fez. O segredo é o silêncio, não posso falar pra ninguém. Nesta cidade, há muita gente invejosa. Caso alguém saiba da história, vai colocar areia. Lembro a Salete, era doidinha, vivia pra lá e pra cá atrás de namorado. Quando arranjou um, ele pagava tudo, lhe comprava roupas e presentes dos mais caros. Mas bastou aparecer à noite na orla com uma roupa nova, que ficou todo mundo de olho. Sabe como é, Gil, você me conhece, é minha amiga, eu não devia ter aparecido vestida com aquelas roupas de marca, melhor ter deixado pra quando eu viajasse, assim ninguém ia ficar colocando olho grande, ele me contou. Não demorou, deram tanto em cima do namorado dela, que o homem passou a ter duas ou três namorados, depois se mudou, dizem que foi transferido. Gil, não conta pra ninguém, mas ele continua me dando uns presentinhos, nada é pra sempre, eu sei, mas aproveito. Acho que era uma desculpa inventada por ela para disfarçar que fora traída. Nada de dar com a língua nos dentes, como dizia minha avó, com silêncio você vai longe. O que meu namorado quer em troca? Ah, assim já é querer saber demais. Posso dizer, acho que não tem problema, como escrevo, a possibilidade de fofoca é menor. E uma história sempre pode ser considerada ficção. Ele pede que eu o namore, que eu seja sempre criativa. Daí, preciso pensar o que vou dizer, como vou tocá-lo. Fico mesmo imaginando um modo de prendê-lo, diferente de todas as outras mulheres. Assunto sério, quando converso com alguma amiga sobre namoro, é sempre a mesma coisa, quase um feijão com arroz. Então eu penso que as coisas funcionam como numa receita de comida. Caso a gente consiga descobrir uma maneira de acrescentar algo que combine, que ressalte o sabor, que dê certa beleza ao prato, ele vai se apaixonar cada vez mais. Vera, outra amiga, acha que o homem precisa se preocupar com a mulher, é ele a peça chave na conquista, segundo suas palavras. Por causa de concepções assim, muitas de nós não temos namorados, maridos, nem mesmo amigos. É preciso que se pense como se tornar surpreendente. É como na literatura. Quando lemos algum romance que aborda um assunto sobre o qual jamais pensamos, dizemos é isso, que legal.

Não são todos os homens que gostam de mulheres nuas ao seu lado. Por aqui, há muitas que gostam de sair peladas quando arranjam namorado. Muitas vezes, é um erro. Muitos gostam de mulheres bem vestidas. E, quando as têm como namoradas, compram roupas e mais roupas para elas. Uma maluquete daqui da cidade, ao ouvir de uma conhecida que caso quisesse ficar nua poderia subir a serra e tomar banho na cachoeira, porque lá é tranquilo, não aparece ninguém, rebateu: gosto de ficar nua para que os homens me vejam, não vou tirar a roupa onde não aparece ninguém! Sobre relacionamentos amorosos, é frequente acontecer o contrário do que a gente pensa. Se você vai nua, alguém te quer vestida; caso vá vestida, o homem te quer nua. Acredita que já houve um que me quis num vestido de mel? Sério. Existe mesmo uma história sobre isso. Ele trouxe uma garrafa cheia, pediu que eu tirasse a roupa e me lambuzou toda; depois colou umas tiras de papel laminado. Ainda gritei cuidado com as abelhas! Mas o bom mesmo é o meu atual. Ele me enche de dinheiro, diz que prefere assim, ninguém melhor do que eu para escolher os presente que desejo. Vou continuar quietinha.

quarta-feira, abril 28, 2021

Ganhei mas não fui buscar o prêmio

Uma coisa, Tatiana, é ficar de biquíni na areia; outra, no calçadão; ainda outra, nas ruas internas de Copacabana. Você é louca, eu não tenho coragem. As pessoas dizem que as mulheres que andam de biquíni fora da praia não são daqui da cidade, são de fora, pensam que aqui é sempre férias, que tudo é praia. E você, com esse biquíni mínimo, de lacinhos, todo entrado atrás, a andar pelas ruas movimentadas, pessoas indo ao trabalho, ônibus circulando, vendedores, lojistas, etc. Uma loucura. Tenho uma amiga que é igual a você. Se quiser, te apresento. Ela anda quase nua. Mora sozinha, não tem parente nenhum, a única amiga sou eu. Ela conheceu um cara na praia, assim como você costuma fazer. Ficou com ele, namorou, passou a confiar nele. Um dia o cara deixou ela peladinha, sem ter o que vestir, em plena luz do dia. Diz ela que namoravam aqui na praia e ficavam juntos o dia inteiro, depois costumavam ir a um apartamento que ele dizia ser dele, ela sempre de biquíni. Como era gostoso o homem, segundo ela. Um dia a história foi parecida com a que você acabou de me contar. Ficou namorando o cara dentro d’água, ele tirou o biquíni dela, treparam. Aliás, não sei como se pode trepar dentro d’água, é um estorvo. Você diz que gosta, ela adora; e com o tal namorado, melhor. A água fria a envolver as partes, como você também diz. Ela não sabe o que aconteceu naquele dia. O cara sumiu, e deixou ela nua dentro d´água. Se ele morreu? Não, ela disse que viu o cara uns dias depois. Não estou inventando pra criar terror em você, não, ela mesma me contou. Como foi? Você é curiosa. Imagina, Tatiana, imagina. Não, ela não saiu correndo de dentro d’água, esperou pra ver se ele voltava.  Eu já estava com ele há um mês, tudo tão bom, não sei como um homem como ele pôde fazer isso comigo, ela disse. Vá lá saber. Quando viu o cara algum tempo depois, ele nem se aproximou. Como ela se virou? Disse que teve sorte, encontrou um senhor e ele resolveu a situação. O mesmo que ganhar na loteria. Já pensou? Também não sei se é verdade, pode ser invenção, você sabe como são as pessoas, ninguém gosta de contar seus fracassos. Uma mulher sozinha, sem poder recorrer a ninguém... Ainda bem que apareceu o tal senhor, repetiu. E ele deu um jeito. Acha que ninguém notou ela nua o tempo que ficou a ver navios (e a expressão cai tão bem!) dentro d’água. Depois, foi com o seu salvador, ainda ficou com ele naquele dia. Veja que piranha, em vez de agradecer e ir embora, pedir o telefone para um possível futuro contato, trepou com ele ainda naquele dia, e no apartamento dela. Júlia, ela narrava, eu não podia ir embora, o cara me salvou, tinha de transar com ele, mas eu não quis namorá-lo depois, não seria boa uma relação com um homem que conheci naquelas circunstâncias; já pensou quando a gente brigasse, ele podia me dizer “te conheci nua, se não fosse eu você estava perdida, piranha”.  Conclusão, ele é bonito, tem dinheiro, mas ela não ficou com o homem, apesar de ele ter procurado por ela várias vezes. Ganhaste na loteria, não?, insinuei. Ganhei, mas não fui buscar o prêmio, afirmou categórica. Você, Tatiana, tome cuidado, não é sempre que aparece alguém pra ajudar. Andas a cada dia ou a cada dois dias com um homem diferente, vai que um deles seja louco; você sentiu um friozinho na barriga, Tatiana?, então tá, goza, goza bastante, goza com o friozinho na barriga.

segunda-feira, abril 19, 2021

Gênero de amor

Acho o maior barato o passeio que meu amigo faz todas as manhãs de sábado. Como ele mora na zona sul, anda por toda a orla de Ipanema e do Leblon. Durante a caminhada, me envia mensagens sobre o dia, sobre como está a praia, conta alguma coisa engraçada e me deseja bom fim de semana. Muitas vezes, tais mensagens vêm acompanhadas de uma foto. Elas alegram o meu dia e me dão energia, torno-me então uma mulher cheia de otimismo e bom humor.

Numa dessas semanas precedentes, marquei come ele um encontro para um café, no centro da cidade, numa confeitaria bonita. Conversamos durante mais de uma hora e meia. Contei-lhe alguns episódios da minha vida. Quando tinha vinte e poucos anos, viajei à Bahia, fiquei hospedada numa pousada, onde conheci um canadense. Apesar de eu ter ido com duas amigas, acabei ficando o tempo todo com o homem. Namoramos. Foi ótimo. Nas minhas férias seguintes, resolvi ir ao Canadá, ao encontro dele. Mas, quando cheguei lá, as coisas não deram muito certo, não saíram como eu esperava. Ele, tão afetuoso aqui, tão desprendido; no seu país, não agiu da mesma forma. Não teve o mesmo afeto, até mesmo me fez pagar tudo o que consumi. Será que, ao estarmos no nosso país, somos mais severos com as pessoas? Não sei, mas foi o que aconteceu. E, olha, caso ele tivesse desejado, eu teria me casado com ele, teria largado tudo e partido ao Canadá, mais precisamente a Montreal. Lembro-me de que, no aeroporto, no momento de eu voltar, ele me cobrou três dólares, que havia me emprestado horas antes para eu tomar um café. Meu amigo ouviu a história e disse foi uma pena, poderia ter dado certo. Não sei por que há homens que são assim, agem de um jeito quando são turistas e de outro quando não, tornam-se autoritários, afirmei. Quando acabamos o café e as torradas, pagamos a conta e saímos, era a rua do Ouvidor. Caminhamos na direção da Uruguaiana, meu amigo me acompanhou durante o trajeto e conversamos mais um pouco. Depois que se foi, fui a uma loja de roupas, onde, mais cedo, algo me interessou. Quando voltei para casa, pensei muito na tarde agradável que tivera. Ele até quis pagar a conta, mas não aceitei. Eu inventei esta história de virmos tomar um café, logo tenho de pagar, ele disse. Aceitei o convite, portanto também preciso contribuir, respondi. Ele riu.

É bom ter amigos; quanto a esse então, nem se fala. Quando ele envia suas mensagens, coloco o fone de ouvido e vou para o meu quarto escutar, sozinha, longe da minha filha adolescente. A seguir, respondo, na maioria das vezes, gravo também a mensagem, e assim vamos vivendo. Sou apaixonada pelas pessoas e por muitas coisas, dei a entender. Ele parece gostar de mulheres assim, como eu.

Quando conheci o tal canadense, eu vivia outra realidade. Minha ousadia foi tanta, que entreguei-me totalmente a ele. Uma das extravagâncias daquelas férias foi ficar nua na praia. O litoral onde a gente estava, naquele tempo, não era tão frequentado, e eu quis agradar o recente namorado aceitando tudo o que pedia. Quando senti a água morna do mar envolver todo o meu corpo, confesso que a experiência me elevou à milésima potência. Depois, ele veio me abraçar, e ficamos os dois dentro d’água, agarrados um ao outro, eu esquecida de que ia nua tanto era o gozo. Ao visitar seu país, minha intenção era a mesma. Quem sabe, ele me tenha achado uma mulher vulgar. Quanto a dinheiro, jamais fui interesseira. Sempre tive o meu trabalho para poder comprar o que desejasse.

Hoje, vivo sozinha. Fico feliz quando tenho amigos, e este que me manda mensagens é de uma alegria e tanto. Os seres humanos são complicados. Melhor assim, o  encontro num café, o prazer de uma boa conversa, a troca de ideias. Uma aproximação saudável. À noite, deitada, ouvindo música, penso nele durante muito tempo. Sinto intenso prazer. Há quem diga que se trata de prazer sexual. Se for, tanto melhor. E vamos vivendo tal gênero de amor.

terça-feira, abril 13, 2021

Trepadeira

Deixe guardar no meu bolso, ele disse, notando meu desconforto. Não gosto dessas coisas, falei sem alternativa, foi você que teve a ideia. Estávamos no seu carro, um veículo largo, bonito, ele ao volante, tinha parado junto ao último poste da orla, de onde se podia descer à beira do mar ou caminhar à direita, para um local da praia que se mostrava quase selvagem. Nós temos minha casa, a tua, não entendo por que você quer aqui, no meio do nada, um desconforto. É a oportunidade, você não acha um tanto excitante?, ele. Nada disso, sou conservadora, você me conhece. Então, voltou ele à iniciativa, por que você tirou a calcinha? Ah, fiz uma fisionomia de vítima, foi você quem pediu, você sempre a me desafiar, a dizer que eu gosto de situações extravagantes, mas não é verdade.

Arrastou-me para perto de si, o vestido subiu mais um pouco deixando minhas coxas de fora. Espera, espera, por favor, assim vai estragar minha roupa, custou caro. Pronto, está satisfeito?, eu disse depois de tirar o vestido e colocá-lo no banco traseiro. Deslizou as mãos sobre o meu ventre, tentou beijar o bico dos meus seios, um após o outro. Assim, está bom, falou. Já pensou se surge alguém?, expressei meu temor olhando para um lado e para o outro. Está escuro,  já é tarde, pareceu entender minha preocupação. O homem era forte, levantou-me, como se eu fosse uma pena, e posou-me atravessada, sobre seu colo, ele ainda vestido. Você não tem coragem de ficar pelado, ri depois da última palavra. Homem nu é muito feio, rebateu. Não acho, adoro homens nus. Ah, sabia, você gosta de todos os homens nus, não apenas eu. Claro, gosto de me divertir, você é mais um deles. Riu, beijou-me. Vá entender as mulheres, acabou sussurrando no meu ouvido enquanto deslizava uma das mãos descendo as minhas costas. Põe o peru para fora, vai, você está me deixando a mil. Meu peru desapareceu, ele disse, e apertou minhas nádegas, fez que meus seios roçassem sua blusa. Oh, desapareceu, como isso é possível, fiz ar de surpreendida, então vou sair correndo pela praia, quero um homem que tenha um peru, e um peru bem grande. Desci a mão direita para o fecho da sua calça e o abri, afastei-me de seu colo e mergulhei a boca sobre seu seu pênis, que cresceu mais ao sentir minha língua. Lembrei Olga, uma amiga que já não morava na cidade. Certa vez, para criar surpresa, enquanto chupava o sexo do namorado, numa situação muito parecida com a que eu estava, abriu de repente a porta do automóvel e pulou fora. O homem quase morreu do coração. Venha me pegar, ela gritou. E desceu à areia da praia. Ele demorou a pegá-la. É o que dá namorar mulher quinze anos mais nova. Eu ali, no entanto, não agiria destemperada. O que desejava mesmo era aquele peru imenso dentro de mim. Amor, vamos para casa, você tem razão, vamos trepar numa cama, alertou. Nada disso, agora quero aqui, você inventou isso, tem de assumir. Abri as pernas, um tanto desajeitada sobre ele, o volante a roçar minha bunda. Deve ser bom dirigir com o traseiro, deixei escapar, enquanto tentava fazê-lo penetrar minha xereca. Às vezes tenho vontade de algumas ações perigosas, como fez Olga ao correr nua. Você já saiu nua da garagem com um namoradinho de ocasião, ele disse, enquanto eu saltava sobe seu peru. Garagem?, fiz que não entendia. Manobra direitinho, vai, manobra e estaciona o teu Mercedes dentro da minha buceta; já viu garagem mais confortável? Não demorou, o homem gozou. Que mela mela! Saltei pela porta do passageiro e fiquei agachada, ao lado do carro, esperando a porra do namorado escorrer para o chão terroso da parte alta da praia. Depois de alguns segundos, falei: me dá, amor, está no teu bolso, vai ajudar resolver a situação. O que está no meu bolso? Não lembra? Minha calcinha.

terça-feira, abril 06, 2021

Traição, um conceito, apenas

Outro dia um amigo apareceu e me convidou para tomar um café. Aliás, não era bem amigo, mas colega de trabalho. Conversei com ele várias vezes sobre um projeto, ele achou muito interessante, depois me convidou para tomarmos um café numa cafeteria próxima. Disse a ele que seria melhor convidarmos outras pessoas, irmos juntos e conversarmos sobre o próprio projeto. Ele concordou, mas a ida ao café acabou não acontecendo.

Faz uma semana, o mesmo amigo estava no metrô, voltava para casa. Encontrei-o na plataforma. Conversamos um pouquinho e embarcamos na mesma composição. Quando estávamos quase chegando à estação onde devia saltar, quase esqueci, foi ele quem me lembrou e, por fim, saltou junto comigo. O que você vai fazer aqui, perguntei. Vou andar um pouco com você, convidar você a um café, há um lugar ótimo aqui perto. Ele me convenceu a acompanhá-lo a uma cafeteria. Entramos numa que fica na Santa Clara. Que lugar bonito, eu tinha apenas passado pela rua e observado. Depois de sentarmos e fazermos nossos pedidos a uma garçonete de gravatinha borboleta, olhei meu amigo e senti uma ponta de prazer. Fazia muito tempo que eu não tinha um amigo homem, com quem pudesse conversar e trocar ideias. Ele parecia estar gostando muito da minha companhia. Depois que vieram nossos cafés e dois sanduíches, pensei jamais saí sozinha com um homem depois que me casei, acho que estou traindo meu marido.

Mudemos de parágrafo, para eu falar dele. Meu marido é uma pessoa importante, gerente de uma agência do banco do Brasil. É lógico que não é santo, conhece muita gente, inclusive muitas mulheres. Mas é a profissão dele, precisa encontrar quem compre os produtos do banco, como ele mesmo fala. Às vezes viaja, fica vários dias fora, e não sei o que ele esta fazendo. Mas, quanto a mim, não sei agir da mesma forma. Sou uma mulher fiel, jamais o traí. Sei que toda mulher acha alguns homens atraentes. Mas o que meu marido me proporciona, tenho certeza de que nenhum deles é capaz.

Meu amigo diante de mim, no café, sorria, sorria e bebia seu expresso. Falava alguma coisa, poesia e romances, sei que as pessoas dizem ah isso é literatura, não é verdade, mas o que é a verdade, ele perguntava. O que é a verdade?, e eu não tinha pensado nisso. A verdade precisa das palavras, ele continuava e ninguém melhor do que os escritores para manipulá-las, sobre tudo os ficcionistas. A ficção não tem compromisso com a verdade, por isso os romancistas se sentem bastantes confortáveis com suas histórias, já os historiadores, os memorialistas, os escritores da área do direito sentem vontade de inventar alguma coisa para acertar suas ideias, no momento em que escrevem, porque nenhuma formulação linguística é capaz de dar um sentido completo, apenas a do romancista, porque a formulação deste não tem essa intenção. Comecei a lembrar das histórias contadas por meu marido, histórias oriundas de suas viagens, muitas lacunas, etc. e tal e o que aconteceu depois? Estamos esperando resposta dos superiores, ele diz. Mas jamais ouvi o complemento. Meu amigo falava da incerteza da linguagem, de que somos seres incompletos porque a linguagem é incompleta. Nossa, vou enlouquecer, disse a ele, isso me apavora. Ele segurou minha mão, tome mais um gole de café, o café é a realidade fora da linguagem. Fiz o que me pediu. Ficamos a pensar, eu a querer voltar para a minha realidade com todas as explicações e enunciados. Mas seria possível? Toquei uma das mãos de meu amigo. Elas, tão suaves. Eu, meu marido, meu amigo, somos todos construções linguísticas, porque nos tratamos com as palavras. Impossível sair deste círculo. Talvez a saída seja quando nos tocamos. Aí, a traição pode se tornar também uma construção linguística. Aliás, pode nem ser mais traição, depende de como se conceitue o ato. Ah, meu amigo veio para me embaralhar. Agora, já não sei onde a porta que dá para a rua.

terça-feira, março 30, 2021

Não quis incomodar

Dortothy deve ter sido uma mulher apaixonante. Depois que partiu, muitos homens vêm perguntar se eu tenho alguma informação sobre ela. O que posso dizer é que se mudou para os Estados Unidos. Ela morava no mesmo prédio que eu, ou melhor, no apartamento ao lado. Sempre quando alguém vem procurá-la, como não recebe resposta (seu apartamento está vazio), chama pelo interfone o apartamento mais próximo, que é o meu. Você há de convir, a gente esta aqui neste bar conversando, a cinquenta metros de onde moro, posso afirmar que jamais a vi nestes restaurantes da vizinhança, ou mesmo que tenha trazido namorados para seu apartamento. Aliás, uma vez apenas a vi com um homem. Ela entrava no prédio, era mais de meia-noite, enquanto eu saía. Conversamos algumas vezes, o que sei é através de sua própria voz. Sempre estava sorrindo e falava que os homens viviam atrás dela: veja só, há mulheres que desejam arranjar namorado, enquanto eu tenho de despachá-los, não sei por que tantos homens atrás de mim. Tal conversa pessoal só aconteceu uma vez, nas outras conversamos banalidades, como o preço do aluguel, o que se tinha para fazer num sábado à noite, uma receita de comida espanhola, coisas do gênero. Você pode me fazer um favor?, perguntou certa vez. Claro, respondi. Você pode me dar o número do seu telefone?, você entende, não?, pode acontecer alguma coisa, sou uma mulher sozinha, é bom ter alguém como contato, ela pediu. Deixei meu número. Mas ela nunca me incomodou, nem pessoa alguma me telefonou procurando-a. Sei de mulheres que, quando saem com um homem pela primeira vez, pedem para alguém ficar de sobreaviso. Não sei se era a sua intenção, não perguntei, nem nunca ligou pedindo a mínima coisa que seja. Você sabe, muitas mulheres se aventuram com homens de vários tipos, temem cair nas mãos de um malfeitor. Também não sei o que eu poderia fazer caso me telefonasse de madrugada pedindo qualquer tipo de ajuda. Vá que seja uma roupa pra voltar pra casa, tudo bem, aí posso ir até onde a pessoa está e ajudar, mas mais do que isso, impossível. Acho que existem mulheres que se sentem mais seguras quando tem alguém com quem podem contar. Mas Dorothy jamais me telefonou. Fico impressionada com a quantidade de homens procurando por ela depois que se foi, penso no que poderia ter de excepcional. Não consigo descobrir. Tive uma amiga, faz tempo, que tinha também muitos namorados. Ela não era daqui do Rio, foi numa outra cidade onde trabalhei. Certa vez, ao sair com ela, perguntei o que tinha de mais pra ter tanta audiência. Ela riu, deu de ombros e acabou me contando que os homens a achavam gostosa. E a mulher não era bonita, nem usava roupa curta. Certa vez, alguém me contou algumas coisas sobre ela, mas não acreditei. Em cidade pequena, existe muita fofoca, e o que me contavam não era possível. Acho que tinha um jeito especial de trepar que atraía todos eles. Cheguei a insinuar por que minha amiga não escolhia um deles para ter uma vida regular. Ela riu e disse que assim perdia a graça. Agora, voltando a Dorothy, até ela ir embora, não notei nada de extravagante. No final, veio me falar vou me mudar para os Estados Unidos, conheci um americano que está apaixonado por mim. Você vai mesmo?, ainda perguntei com a entonação de dúvida, de que poderia ser alguma coisa arriscada acreditar num homem e partir tão de repente. Ela disse agora acertei, tive mais de cem namorados, sabe quando você conhece um homem e diz é esse?, então, aconteceu. No dia de partir, perguntei se queria que eu a levasse ao aeroporto. Não, obrigada, já combinei tudo com um motorista. Na despedida, pediu caso alguém me procure, diga que me mudei para os Estados Unidos, só isso. Afirmou que manteria o meu contato, que eu poderia enviar mensagens, mas que não desse o número pra ninguém, agora ela estava comprometida. Riu após suas últimas palavras, antes de me beijar. Recebi uma mensagem dela logo nos primeiros dias, quando chegou, disse estar tudo bem, às mil maravilhas. Depois, silenciou. Quanto a mim, não quis incomodar.

terça-feira, março 23, 2021

O tal vazio

Que boa a sensação! Às vezes é positivo ser pouco lida, posso contar segredos. Ontem, aconteceu algo alucinante. Eu que sempre gostei de vestir-me... Não, melhor contar no final. Estava no centro, tomava um café, sentada numa mesa digna, de cafeteria conhecida. Olhava as pessoas, tão belas, quando vislumbrei o tal homem. De início, não fiz menção de pensar bobagens, principalmente a de me entregar cega nos braços de um homem. Ele passava como as outras pessoas, eu tinha um livro à mesa, acho que ainda permeava minha mente rastros do tal romance. E era bom o livro. Mas o homem voltou. Acho que reparou a tal mulher aérea, diva à espera de sua glória. Fez que iria ao balcão, depois escolheu a mesa, quase ao meu lado, pediu enfim o café. Ouvi sua menção ao garçom. Pouco a pouco, voltou-se para mim, sorriu; depois, tentou cumplicidade através do livro sobre a mesa. Arregalou os olhos como alguém que tenta adivinhar o título. Talvez pensasse numa possível pergunta minha sobre se o tinha lido. Mas permaneci plácida, perdida em minhas questões, distante, acho que do outro lado da rua, onde passava uma mulher de vestido vermelho. O homem insistiu, tomou o café, parecia querer irmanar-se às mesmas minhas atitudes.

Tenho uma amiga que sai de primeira com os homens que conhece. Não podemos ter alguém para algo aquém do sexo?, talvez uma conversa sobre livros (na certa, haverá alguém a dizer que não há nada mais sexual do que este tipo de relação). Existem tão poucas pessoas que falam sobre livros nos dias de hoje. Não, não é possível, ela me afirmou, podemos até mesmo lembrar que elas existam, mas não acaba aí. Ri-me da lembrança.

O homem notou o sorriso, o rosto aberto, desvendou meus pensamentos. Talvez não a conversa com a amiga, mas minha necessidade de conversar sobre livros. Livros são o céu inatingível, disse em voz baixa, por mais que os leiamos jamais conseguiremos alcançar sua totalidade, mesmo escolhendo apenas um ramo do conhecimento. Inteligente ele. Tinha capacidade de levantar véus. Não precisou de muito tempo para me seduzir. Falou sobre literatura. Aliás, não gostava da palavra literatura, preferia livros. Tinha seus motivos.

Minha intenção, a princípio, era conversar no próprio café e, quem sabe, entraria na livraria em frente. A literatura tem o seu peso, concluiria eu depois. Não me bastaria o café e a conversa sobre os escritores preferidos. Não sei se ele estava sendo sincero ou se empregava diversos de seus ardis. Mas sabia de cor alguns trechos de romances, estrofes perdidas de epopeias antigas. Saímos do café; a seguir, como previsto, a livraria. Tão bonita, não? Chegou a encontrar algumas capas atraentes, pérolas de design. Fez de conta que partiria, em dado momento. Acho que me reparou a face triste. Ficaria desprovida de companhia tão interessante. Você tem compromisso, cheguei a afirmar de modo interrogativo. Talvez não, sorriu. Pronto. Depois das poucas palavras, um acordo tácito. Percorremos algumas bancadas, encontramos o livro Se houvesse sol. Bom livro, começou a discorrer, uma escritora promissora; a princípio parece lugar comum, mas pouco a pouco a história vai avançando em duas frentes: batalha pela escrita e contra a solidão; já reparou como há escritores que escrevem sobre a solidão; talvez escrever seja um meio de vencer a solidão; há neste livro uma mulher que parte em busca de um homem, verdadeiro trabalho de detetive; ela, porém, encontra o vazio; isso mesmo, o vazio produzido pela escrita; quanto mais escreve, tanto maior o vazio incontornável; não digo mais, é bom você mesma ler, concluiu.

Há momentos em que uma mulher tem o desejo de se atirar nos braços de um homem. Talvez um caminho de fuga fácil, talvez o instinto suicida, no fundo uma tentativa de equilíbrio sobre corda frágil, dois prédios altíssimos, desertora de uma família de equilibristas. Já tínhamos bebido café, o que eu poderia sugerir, além de andarmos a esmo pelo centro velho, a observar prédios de um ou dois séculos?

O homem se mostrava mais forte, não me convidaria a ir com ele. Em algum momento, parou e olhou, talvez para o mesmo vazio que encontrara no livro apontado momentos antes. Eu não podia convidá-lo, seria mulher vulgar, sobretudo após um passeio cultural. Convidei-o para mais um café, naquele momento houve uma cafeteria que pareceu abrir-se apenas para nós dois. Pedimos mais dois cafés e continuamos nossa história, preenchida por mais silêncios do que palavras. Descobri, então, o segredo. Não o que ameacei revelar lá no começo, mas o segredo de um relacionamento saudável: muitos os silêncios, poucas as palavras. E fomos assim, como dois cães que se cheiram sem nada dizer, circundam-se sem conhecer o círculo, separam-se sem pensar na saudade, sabem que se encontrarão no semelhante próximo. Estávamos condenados a fazer como estes pequenos animais. E fizemos. De quem a iniciativa? Mais uma vez nossos silêncios ajudaram.

Mas não era esse o segredo. Naquele dia, eu vestia um vestido muito curto. Quanto mais a presença dele crescia, tanto eu me sentia nua. Ele reparou. Mas, no fundo, gostei. Fiquei a pensar como conseguia conciliar literatura e alguma libertinagem. Arrependi-me, há namorados que desejam mais do que a pele por baixo das nossas saias.

O vazio colocado por ele, entretanto, era de outra natureza.

terça-feira, março 16, 2021

Bem fundo

Amor, por favor, não, você sabe que gosto dos meus textos bem escritos, revisados à exaustão, não posso escrever agora, nesta situação. Eu sei que você tem muitas fantasias, inclusive a de me ver escrevendo peladinha uma história, mas é difícil ficar sentada aqui em frente ao computador cheia de tesão, doidinha pra trepar com você, a tentar escrever uma história. Tanto mais com você nu ao meu lado, com esse pinto durinho, eu a dar beijinhos na ponta. Não, por favor, amor, vamos deitar, amanhã escrevo. Lembra aquela vez, contei a você, dois homens me pediram a mesma coisa, era uma aposta, fiquei exausta, acabei escrevendo e publicando na mesma hora, pra interesse deles. Mas foi uma exceção, eu tinha um amigo que morava na Dinamarca, ele me dava tantos presentes, e ganharia a aposta. Acabei cedendo. Tenho uma amiga que me diz Célia, relaxe e goza, os homens estão sempre a te paparicar, a te dar presentes, se eu fosse você não pensava duas vezes. Mas, para quem está do outro lado, em frente ao teclado, não é a mesma coisa. Estou tão excitada. Não, amor, sei que você já me dá mil presentes, não precisa me pagar pra escrever. Não é assim que funciona. As coisas caminham assim nas editoras. Muitas mulheres aceitam qualquer coisa pra publicar um livro. É como na TV, pra conseguir uma vaga tem o teste do sofá, e agora está armado este circo todo, com as atrizes processando os homens por abuso sexual, assédio e até estupro. Amor, compreende, vem, vamos deitar, pronto dei mais um beijinho na ponta do teu pinto, você chega estar quente, e quer me ver escrevendo. Devia me comer, imediatamente, sem perder um minuto. Você gosta de fazer tudo com calma, nada de gozar logo, sei, tanto melhor para as mulheres. Fico pensando nas namoradas que você teve, não souberam aproveitar o homem que tinham junto a si. Ah, adivinhei, elas não era escritoras, caso o fossem e escrevessem peladas às duas e trinta da madrugada estariam com você até hoje! Você só quer namorar escritoras, e vê-las escrevendo nuas, e vendo-as publicar imediatamente após terminar o texto. Mas, amor, um texto nunca está terminado, tanto mais a gente lê, mais encontra algo que não agrada, precisando ser modificado. Quando se publica um conto ou um romance, é porque é preciso sair o livro, caso permitissem a gente ficaria revisando a vida inteira, e sempre acharia ainda o que modificar. Mais um beijinho, abaixe aqui, viu, isso, quero a tua língua, bem gostosa, está quentinha também. É por que você espera pelo meu texto? Não, amor, você precisa ceder, não pode fazer isso com uma mulher, obrigá-la a algo que ela não quer, é como um estupro. Você não entende assim? Verdade. Nada disso de relaxe e goza, comigo não funciona, aliás, só funcionou uma vez, e eu não gosto de falar sobre. Não, claro que não, amor, não vou escrever sobre o que aconteceu. Acho que já até escrevi, não lembro. Talvez se procurar entre todos os meus textos, há alguma referência. Agora quero namorar. Caso escrevesse alguma coisa hoje, seria sobre vir à casa do namorado pra trepar com ele. Escreveria é ótimo ter um namorado que nos convide para ir ao seu apartamento, por isso é importante arranjar namorado que não seja comprometido. Então, no apartamento, ele me serve uma taça de vinho tinto, coloca música; sento, cruzo as pernas e fico olhando a ele. Assanhada. Mas nada de tirar a roupa logo, aguardo. Seria uma história delicada, de amor e carinho. Sem chances de ser diferente. Acho que já escrevi sobre uma vez que deitei na cama de um namorado vestida inteirinha e ele me disse você vai ficar toda amarrotada, deitei mesmo assim, depois de uns apertos e uns beijos fiquei toda amarrotada mesmo! Começamos então a rir, ele disse tenho ferro elétrico se você quiser passar, ou empresto uma roupa minha, as mulheres adoram roupas de homem. Amor, já falei demais, nada de escrever agora, vamos pra cama, já estou levantando, me abraça, adoro quando você me abraça apertado, me encosta na parede, eu nua. Isso, amor, assim, assim, vamos deitar, amor, estou ficando toda molhada, não posso mais resistir. Amanhã. logo ao acordar, escrevo a história pra você, prometo, também publico imediatamente, vou vencer minhas neuras de revisar um texto ao infinito. Agora vem, amor, isso, amor, um carinho bem gostoso, assim, é como gosto, a literatura fica pra depois. Ai, amor, ai, você sabe que gozo várias vezes, não para, não, não para, mete, mete bem fundo...

segunda-feira, março 08, 2021

Não me deixa faltar

Ele me enviou uma mensagem dizendo teu aniversário passou mas não esqueci, ainda é tempo de te dar um presente. Tal namorado (nomeio namorado porque sempre está cheio de amor por mim) só tem uma exigência, que eu vista um vestidinho de tecido fino, minha pele lisa por baixo, apenas, deixando-o cheio de tesão. Outro dia pensei não posso atender seu pedido, tenho minha personalidade, não é meu modo costumeiro de vestir. Além disso, acabo sendo objeto de admiração de todos os outros homens. Às vezes vêm atrás de mim! Mas ele me paga de duzentos a trezentos, apenas para ir com o vestidinho e lhe dar um beijinho na hora de ir embora. O envelope, tira-o do bolso do blazer, branco que só. Abro quando estou sozinha, em casa. Fico numa tremenda dúvida, vou ou não? Leio a mensagem no celular. Houve uma vez quando usei um macaquinho, as pernas morenas de fora, as costas, os ombros morenos leitosos, o homem não aguentou, pude reparar direitinho. Tenho uma amiga que não vê problema nenhum aceitar estes pedidos, diz que tem uma conta no Instagram, entra em contato com os homens, não demora a declarar que está apaixonada, passa uma semana diz que no banco sua conta vai no vermelho, alguém a assedia por causa de uma dívida, será que ele não pode lhe depositar quinhentos reais? De início, o recente namorado se assusta, mas acaba depositando se não o total, pelo menos a metade. Ela envia uma porção de fotos para ele, deitada, sentada, de pé, sempre nua. Outro dia disse vou tomar uma ducha, e logo mandou duas fotos dela nua no banho. O homem esperou com impaciência. Mas quanto a mim, tenho certo receio. Não abri conta no Instagram, me basta o Zap, o Facebook, a quantidade de homens atrás de mim é alta, mas adivinhem o que eles querem. Não posso dar pra todo mundo. Fica chato. E olha que gosto à beça de transar. Este que me gosta de vestidinho leve e fino é tão delicado, tem conversa boa, me leva pra lugares agradáveis. Pena que só trepei com ele uma vez. Não sei por que não saímos mais vezes, acho que falta de oportunidade. Não é tão bom de cama como outros homens que conheci e que conheço, mas adora minhas histórias. No dia em que trepamos, contei uma sacanagem no ouvido dele, o homem ficou logo de pau duro, pediu que eu o chupasse nos intervalos da narração, (contei uma história louca, do dia em que fui à praia em Mangaratiba com um biquíni mínimo do mínimo) acabou gozando dentro da minha boca. Não tive coragem de cuspir sua porra. Até que estava gostoso, tudo no fim me rendeu 500 reais. E o saborzinho pareceu de chocolate! Agora, foi meu aniversário, deixa de bobagem, Zilda, falo comigo mesma, tudo se resolve em quarenta minutos.  Mas dessa vez, se além do presentinho pudermos ir de novo a um hotel, quero que meta lá dentro, bem fundo. Conto a história da Juliana, biquíni de lacinhos, amarradinho no tornozelo do namorado, na praia de Muriqui, os dois dentro d'água, mas pela minha voz a protagonista sou eu e o homem este sobre a cama comigo! O namorado é mais velho que eu doze anos, mas, depois de minhas historias, não vai me deixar faltar.

segunda-feira, março 01, 2021

Pelas próprias mãos

Deitada, penso nele. Melhor assim, a imaginação tem asas, voos diversos e muitas vezes de longo curso. Meu amigo, ouço ainda sua voz, tom de afeto. Quem não vive situação semelhante? Na verdade, os homens são problemáticos. Ter relação estável com algum deles é sinônimo de alguns percalços. O principal é que tendem à infidelidade. Sei que o admirador que me sopra palavras doces não as faz voar apenas a mim. No entanto, escuto-as, finjo que acredito, solto um tantinho a corda. Quando quer marcar encontro, não sei se vou. São sedutores demais. Por mais que digamos não vou me apaixonar, ou tenho domínio sobre mim, não há garantias. Alguns deles parecem dominar os segredos de linguagem, trejeitos complicados, difíceis de perceber. Quando dou por mim, estou cativa. Ou jamais dou por mim – recurso falacioso de negar a captura. Digo que se trata de resultado do meu charme, ou de uma construção voluntária, longa, estudada. Passam-se alguns dias, ou algumas semanas, e pergunto ainda uma vez quando e como me deixei convencer: nua, agarrada a ele. Ana Maria, amiga de longa data, diz que nunca se deu conta de nada. E tantos são os homens. A maioria trepa muito bem, e é isso o que desejo. Pois é, rebato, ou seria melhor dizer replico (sua atitude). Rebato, primeiro. O problema é que me apaixono. O homem diz apaixonado, jamais encontrou uma mulher tão sensível. Sim, sensível, não resisto ao seu tato, sua mão deslizando-me sob a saia; eu, presa insensata a ficar nua pelas próprias mãos. Ana Maria diz que a calcinha deve ser retirada pelo homem. Nua a esperar pelas mãos fugidias que vão lhe fazer desaparecer a derradeira peça. Mas eu não tenho vergonha de confessar, tanta é a paixão que acabo por tirar, além do vestido, calcinha e sutiã. Mas, agora, deitada na minha cama, a coberta a roçar-me o corpo, sinto-me protegida. Longe a paixão súbita, melhor o pensamento. Mexo-me e sinto suas possíveis mãos. Ele disse que tenho alma de artista, que minha voz é suave, jamais um grito. Ah, sim, nada de gritos. Tenho uma filha pré-adolescente, às vezes dou uns gritos a ela. Não sei se é esse tipo de grito a que ele se refere. Como ainda não transamos, acho que não pode ser o grito de orgasmo. Mas, caso ele o espere, não o terá. Não grito na hora agá, ou, explicado: no momento do gozo. Faz alguns anos tive um namoradinho, ele me pedia para gritar. Faça de conta que está num palco. Mas não sou atriz, rebatia eu. Não faz mal, faça de conta. Dei, então, um grito intenso. Assustei a vizinhança. Eu havia saído do banho, o corpo fresco, as mãos do jovem a me acariciar, horas antes estivéramos na praia, nossos corpos traziam ainda o calor do dia de verão, do sol imperial. A vizinha veio bater à porta. Não, não foi aqui, não, retruquei, a porta entreaberta, ela a observar meus ombros. Você está nua, minha filha, vai pegar uma pneumonia. Voltei ao namoradinho. Ele ria e ria, não precisava um grito de tal envergadura. O tal era aprendiz de escritor. A tal envergadura. Vai ver lançou livro e vou, sem saber, como personagem. Tomara que não me tenha largado nua na mão de seus leitores. Deitada ainda, agora de manhãzinha, friozinho, a coberta, edredom fofo, ainda a lembrança do admirador. O tom de voz precisa ser baixo; o namoro, verbal. Do verbo fez-se a vida, lembro. Portanto, o verbo é perigoso, muito perigoso, capaz de gerar mundos. Um mundo meu corpo, maiô inteiriço, cavado atrás. O namorado goza ao me ver de costas, na praia. Assim, arrefece. Não se apresse, dispo-me pelas minhas mãos.