quinta-feira, agosto 20, 2009

Eu conto como tudo aconteceu

Eu conto tudo como aconteceu. Já que estamos aqui apenas nós duas e a senhora não está me deixando constrangida, narro todos os pormenores. Posso até falar bem devagar para que a digitação se dê de forma satisfatória. Não há necessidade? A senhora consegue digitar independente de minha maneira de relatar? Melhor. Então, vamos. Começo. Sei que sou a responsável pelo que aconteceu; não transfiro a culpa pra pessoa alguma. Tudo começou da seguinte maneira. Fui ao Rio duas vezes encontrar esse meu namorado. A senhora deve conhecer o Rio, é uma cidade tentadora. Normalmente sente-se um calor terrível e uma sensualidade à flor da pele. Meu namorado é do Rio. Fui encontrá-lo. Passeamos muito. E, lá mesmo, já fizemos essas coisas; na verdade, nunca houve problema algum. Caso alguém repare o que está acontecendo, é até normal que vire o rosto e finja não ver; talvez o Rio seja a melhor cidade do mundo pra se viver, principalmente na Zona Sul, onde as pessoas parecem não se interessar pela vida alheia. Lá, saí com ele nessas mesmas circunstâncias; também cheguei na casa dele do mesmo modo. Foi adorável, nosso relacionamento sempre melhorou com isso. Aconselho as minhas amigas a trilhar esse caminho para melhorar o namoro. Assim, não há relação que caia na rotina. Mas aqui em Belo Horizonte, a situação é outra. As pessoas são... Bem, não quero entrar no mérito de julgar a população de toda uma cidade. Vamos ao que realmente aconteceu. Ele veio me visitar pela segunda vez. Já que estávamos acostumados a esse jeito liberal na cidade dele, resolvemos fazer o mesmo aqui. Lembro-me que antes de sair à noite, me fez um pedido: “você pode sair de vestido apenas, mais nada?” A senhora entende o que quero dizer com isso, não? Concordei com ele. Enfiei-me no quarto e procurei uma roupa bem provocante. Demorei, confesso. Quando surgi na sala, vestia um vestido inteiriço, comprido, fechado por botões de cima abaixo, e de mangas compridas. Um vestido de tecido grosso, apropriado para o frio que pode fazer à noite e, mais, de madrugada. Ele ficou fascinado. Não sei se pelo vestido, pelos botões, ou pela possibilidade de desabotoá-los. Saímos. Demos umas voltas pelo centro. Recordo-me que passamos por uma boate. Ainda era cedo e havia jovens sentados no chão, próximos à entrada. Continuamos; passeamos por algumas ruas escuras, desertas, mas atrativas. Paramos em um bar em que havia apenas um casal. Tomamos uma cerveja. Eu nem gosto muito de cerveja, mas o acompanhei. Estava um pouco frio, e a bebida me fez ficar arrepiada. Depois saímos do bar, de novo sem destino. Andamos mais um pouco. Confesso que senti vontade de encontrar um buraco, quer dizer, um vão. Queria me enfiar num lugar escondido e que ele me desabotoasse o vestido inteiro. Talvez a senhora me pergunte se eu não tenho casa para fazer essas coisas. Claro que tenho; além de tudo, moro sozinha. Mas confesso mais uma coisa, não sei se isso chega a ser considerado uma doença, mas a sensação de perigo me excita. Certa vez contei isso a uma terapeuta. Esperei que ela me desaconselhasse, ou me censurasse, mas acabou por me dizer que eu devia realizar o meu desejo. Então acho que ele captou meu pensamento. Primeiro, começamos a nos agarrar entre um muro e a entrada de um desses prédios antigos, de três andares. Minutos depois, acreditamos ter encontrado a desejada saliência. Era uma discreta e silenciosa avenida, cheia de casas enfileiradas. As moradias estavam escuras, apenas a luz exterior, que era baixa, iluminava o local. Falei a ele: “é aqui”. Daí ele me desabotoou. O vestido se abriu e ele começou a percorrer com as mãos o meu ventre, depois os meus seios, e,enfim, pôs-se a beijá-los. De certo modo, temi pegar um resfriado, mas o calor do seu corpo me bastava naquele momento. Passado um tempo, achei melhor ficar totalmente nua. Deixei que ele me despisse. Mas o desejo foi meu, isso é importante dizer. Preocupei-me apenas onde iríamos pendurar o vestido, para que não se sujasse. Acabei por encontrar uma ponta de portão, que serviu como uma espécie de cabideiro. Estava tão bom: eu nua nos braços dele, na minha cidade, numa noite silenciosa, morrendo de desejo, nunca pensei que isso fosse possível aqui, era um sonho. Até que, com o que aconteceu, descobri que realmente essas coisas não são possíveis numa cidade como a nossa. Quando me voltei ainda de olhos fechados para o meu lado direito, reparei um vulto que se afastou muito rápido. Pensei que fosse uma ilusão minha em meio àquela relação de imenso prazer. Mas quando abri os olhos, reparei que o vestido havia desaparecido; o vulto tinha sido de alguém que furtivamente o apanhara e correra. Nada falei, continuei entregue ao amor. Meu namorado nada reparara. Algum tempo depois, ao perceber o que o ocorrera, perguntou: “o que vamos fazer agora?”, sua voz soou um tanto trêmula. Ele não sabia que iniciativa tomar. “Vamos pegar um táxi, sugeri”, confesso que estava mais segura que ele, como ainda estou agora. Ele foi até a esquina, permaneci agachada, junto ao muro. Logo veio o táxi, e ele dentro. Só que o motorista era um senhor. Em vez de me levar para casa, trouxe-me para cá. Caso isso acontecesse no Rio, creio que o final seria outro. Mas aqui em Minas as pessoas são conservadoras. Agora estou aqui, sentada ante a senhora. Ainda bem que o pessoal neste lugar foi legal comigo, todos foram muito discretos, logo alguém arranjou esse pano para eu me enrolar. Só que meu bumbum está doendo, e a cadeira está tão dura...
O quê? Se tenho alguma amiga que pode me ajudar? A senhora vai me dar uma chance? Que bom! Tenho. Permite-me um telefonema? É pra já, agradeço. Não sabia que encontraria num lugar desse tipo uma pessoa tão generosa. Mas a senhora impõe uma condição: quer que eu escreva essa história de próprio punho e lhe dê autografada? Ok, dez minutos! Posso fazer duas perguntas? Faço a segunda, porque a primeira...: a senhora ficou excitada, não?

sexta-feira, agosto 07, 2009

Ele voltou outras vezes

O homem, que eu mal sabia o nome, movia-se sobre mim. No escuro da sala, sobre um colchão estreito, descobrira-me seminua. Puxara a coberta de algodão e reparara minha blusa curta e a calcinha. Entendera minha linguagem. Eu fingia dormir, mas estava ávida que compreendesse meus sinais. Suas mãos grossas deslizaram sobre meu ventre; a boca roçou meu rosto e procurou meus lábios. O beijo, úmido, temperado pelo ar frio da madrugada, revelou nossos corpos à procura de calor. Virei-me sem abrir os olhos e o abracei. Minhas mãos percorreram suas costas, afagaram-no até encontrar pouso em algum ponto em que os músculos recheavam nosso contato. Deslizou as finas tiras que me atravessavam os ombros. Minha blusa não demorou a desaparecer, envolta por outros panos que nos cercavam. A calcinha, eu mesmo a tirei. Mantivemo-nos abraçados; nossos sexos se encontraram por instinto; não precisamos de mais esforços.

Eram dez horas quando começou a reunião. Um encontro entre amigos. Eu era a única que não conhecia quase ninguém. A dona da casa, minha amiga, apresentou-me ao grupo.
O olhar de um homem alto, de cabelos escuros, não se desprendeu de mim durante boa parte da noite.

Amigos chegavam, saíam, comiam os canapés que minha amiga preparara. Bebiam vinho, cerveja, ou mesmo uísque. A música não demorou a se espalhar pelo ambiente. Houve quem trouxera um violão. Foi uma noite de arte. Não precisávamos de muitas palavras. Apenas sons em harmonia, alguns olhares, breves diálogos, sorrisos provocantes.

Na varanda havia um grupo que fumava; fumava e olhava para o mar. Quando as vozes se calavam, era possível ouvir o ligeiro bramir das ondas.

Alguém lembrou um namoro de outros tempos na faixa de areia lá embaixo; outro, uma história engraçada sobre uma namorada nua dentro de um automóvel estacionado; alguém falou sobre um banho de mar noturno ao mesmo tempo em que havia homens pescando.

De repente, uma poesia; isso, uma voz declamou Bandeira. Já na madrugada, alguns pares haviam se formado. Moços e moças que vieram juntos também trocavam afagos. Meu pretendente não lançou palavras em minha direção. Apenas o sorriso; bebia coquetel de frutas, às vezes comia uma pequena torrada com pasta; acompanhava a música quando havia alguém no violão.

Depois das três a casa foi-se esvaziando. Ficou a anfitriã, o marido, mais um casal, meu admirador e eu.

Mais alguns quartos de hora, ela falou:

“Fiquem à vontade, aqui há mais um quarto, e mesmo a sala, caso queiram pernoitar”, sorriu.

Pouco a pouco fomos aconchegando-nos. A sala escura, os últimos lampejos do que fora uma festa, um resto de alegria, o cumprimento de boa noite. Uma noite que já quase se esvaía.

No meio tom das sombras, fingimos adormecer. Como ele nada falara, tirei a saia e a deixei sobre uma das cadeiras. Enfiei-me seminua, ou semivestida, sob a coberta. Depois soube que a saia vazia sobre a cadeira o excitara; que uma mulher que insinua a pele branca, a nudez inesperada, faz um convite impreterível ao amor.

Naquela noite, não trocamos palavras. Apenas nossos dedos percorreram os abismos que tentamos fazer transponíveis. Construímos pontes sobre as sutilezas do amor e do gozo. E quando exaustos, após arfarmos e gemermos sob prazer inclemente, voltamos ao nosso chão. Cada qual a seu canto.

Quando amanheceu, acordei sozinha. E ainda nua.

Mas ele voltou outras vezes.

sábado, agosto 01, 2009

Anos 80

Vi uma matéria num desses cadernos femininos de jornal: uma atriz famosa posava para uma sessão de fotos de moda, com trajes anos 80. Uma maravilha. As roupas eram, na maior parte, de couro. Na foto maior, ela estava recostada numa caixa acústica, daquelas que se usavam nas festas da época, e trajava apenas uma jaqueta, meia-calça Wolford transparente com tonalidade negra e botas Fórum. Em outra pose, apresentava-se de frente, corpo inteiro, com um vestido curtíssimo, atravessado de cima abaixo por um longo zíper; o que havia de comprido eram as mangas, iam até os punhos, o zíper fechava na altura dos seios, deixando entreaberto o tanto de tecido que terminava sob o pescoço. A mulher tinha os braços esticados, as mãos fechadas; essas atingiam comprimento maior do que o vestidinho. Estava com a mesma meia da foto anterior e sandálias Constança. Na terceira foto, ainda de pé, tinha a perna direita voltada para fora, trajava um top Via Flores negro, de couro, calças legging, também de couro, e botas Diesel. Por alto, tudo que ela vestia nas três poses, excluindo o preço dos anéis, beirava cinco mil reais.

Não resisti. Uma vez que há muito tempo não cometo tal extravagância, procurei saber onde ficavam as lojas e comprei todas as roupas.

Escolhi o vestido curtíssimo, com seus complementos; vesti-o e fui a uma boate no Leblon. Dancei durante toda a noite. Os homens não pararam de me assediar. Fiz um terrível sucesso. Não pude sentar, como vocês imaginam; caso o fizesse... Aliás, no escurinho até que dava, cruzando as pernas, bebendo uma dose de uísque, ou uma caipirinha. As amigas me disseram: “Nos anos 80 se saía assim depois das vinte e três e tentava-se chegar em casa antes das cinco, ainda no escurinho da madrugada". Mas – sabem como sou – saí de casa em torno da meia-noite e voltei já o dia estabelecido, depois de tomar o café da manhã num hotel da orla marítima! Aluguei um automóvel com motorista; quis que me conduzisse a meu bel prazer, mesmo após a festa. Mas foram tantos os candidatos que se ofereceram a conduzir-me, amigos e aventureiros, admiradores de mulheres noturnas, amantes de mulheres nuas ou mesmo de roupa exígua (houve até mesmo candidatas), que quase me dei por vencida. Mas resisti. Mantive minha decisão: um automóvel com motorista, inteiramente à minha disposição. E por doze horas consecutivas. Foi uma extravagância feliz. Surpreendi os incautos. Cheguei no banco traseiro, única passageira. O motorista saiu do veículo, abriu a porta e fez uma mesura para que eu descesse. A cor negra do comprido automóvel combinava com toda a minha roupa, também negra. Muitas pessoas me olharam, mostraram-se surpresas. Caminhei de maneira natural, como se tudo aquilo fosse a coisa mais comum do mundo. Dentro da casa de espetáculo, havia um lugar especial, reservado apenas para mim. Não quis a presença de pessoa alguma nas outras cadeiras. A mesa era só minha, com os quatro lugares. Ao sair para a pista, notei o olhar estendido de muitos homens e mulheres. Dancei de início só, com a indiferença das estrelas. Quem quer que se aproximasse para tentar alguns passos diante de mim, eu, aparentemente, correspondia; mas, em seguida, meus olhos frios apontavam a lugar nenhum. Não me exibia para o outro, mas para mim mesma. Qualquer um podia chegar, mas também partir, no mesmo anonimato. Não dei primazia à pessoa alguma. Lá pelas três, até que tive vontade. Quando voltava do bar, olhei com insistência a um homem de meia-idade. Ao perceber meus olhos negros, minha face soturna e minhas sobrancelhas baixas, apertou-me a um canto, deslizou as mãos por sob meu tecido, tocou-me a meia, acima das coxas, já quase na virilha. Permiti-o durante poucos segundos. Larguei-o, de repente, e escorreguei para a pista novamente; agi como se nada houvesse acontecido. Assustou-se; ou sentiu-se desprezado. Perto do final, a pista estava plena, apertada. Levei alguns esbarrões e senti outros tantos toques. Mas minha pele fria e minha indiferença fizeram seus autores escapulirem. Muitos me dirigiram a palavra, mas não obtiveram resposta.

Quando ousei partir, às quatro e trinta, meu motorista encostou. Entrei no automóvel. Senti que, naquela madrugada, fora eu a estrela máxima. As próprias mulheres invejaram-me; os homens tremeram ante meu corpo esguio e minha roupa avançada, embora do passado recente.

No hotel, bem no hotel a história foi outra... Depois, o café da manhã estava uma delícia. É preciso dizer que os escandinavos são homens discretíssimos. Mesmo ante a uma mulher nua. E que encosta à porta de sua suíte ao amanhecer. Depois de tudo terminado, meu motorista não me deixou em apuros. Sob minhas ordens, e sem dirigir-me a vista direta, resgatou-me em torno das sete e trinta. Ainda com as mesmas mesuras da noite recente. Dirigiu o automóvel com a postura de um criado inglês. Devolveu-me, a casa, incólume.

sexta-feira, julho 24, 2009

Nós, mulheres, gostamos de coisas que os homens sequer imaginam

“Temos de dar um jeito nisso, você vai acabar me causando um problema sério. Sua namorada já não me olha com bons olhos.”

“Mas diga: o que aconteceu naquela noite pra você chegar nua em casa?”

“Ah, já falei, você passou a freqüentar minha casa, faço amor com você, ensino uma porção de coisas interessantes, só não me faça essa pergunta.”

“Você assim me deixa curioso, não aguento, e mesmo trepando com você quase sempre, quando chego em casa ainda me masturbo só em pensar no motivo que fez você chegar nua em casa naquele final de noite.”

Guido estava deitado comigo, passava a mão sobre os meus seios, depois se pôs a beijá-los. Deslizou a ponta da língua sobre meu ventre, parou sobre o umbigo e tentou dar-lhe umas mordidinhas; escorregou de novo a boca até o início dos meus pêlos, umedeceu-os ainda com a língua e continuo em direção às minhas pernas, estacionou por alguns segundos junto ao meu clitóris, procurou-o com os lábios, depois deu nele também uma suave mordida, permanecendo ali durante alguns minutos.

Então falei:

“Suba, venha beijar minha boca.”

Atendeu-me, agarrou meu cabelo, deixou que seu pênis deslizasse por entre minhas pernas, então procurei encaixá-lo entre meus grandes lábios.

Tudo começou quando num final de noite, ou início de madrugada, cheguei nua no prédio onde moro. Acontecera um problema, mas consegui safar-me. Havia deixado o carro na garagem – àquela hora nunca encontrei viva alma –, mas justo aquele dia, Guido estava com a namorada junto à entrada do elevador do meu andar. Mal a porta abriu para que eu saísse, a garota gritou:

“Ah, que horror! O que houve, a senhora foi assaltada?”

Respondi de pronto:

“Claro que não.”

E caminhei altiva para o meu apartamento. Tirei a chave da bolsa, abri a porta e entrei. Tudo sob o olhar surpreso dos dois adolescentes.

Nos dias seguintes me preocupei se aquele flagra não me traria problemas. Temi que eles contassem para o prédio inteiro e eu fosse obrigada a mudar. Meus temores, porém, não se concretizaram. Aconteceu que passei a perceber o rapaz constantemente a me vigiar, principalmente durante a madrugada.

“Você não namora mais até aquela hora tardia, quando vocês dois deram comigo?”, perguntei a ele.

“Não, não costumamos ficar juntos até quase de manhã. Naquele dia fomos a uma festa e estávamos nos despedindo quando você chegou.”

Uma vez que chego duas ou três vezes na semana muito tarde – ou muito cedo, não sei –, ele passou a me espreitar. Até que no escurinho do corredor me pregou um grande susto. Acabei por aceitá-lo em meu apartamento. Passamos a fazer amor. Ele, jovem como era, não demonstrava experiência alguma. Ensinei algumas coisas que passaram a deixá-lo louco. No começo, achei que era maldade de minha parte; em seguida, acabei por lhe dizer que ele era homem e mais cedo ou mais tarde aprenderia tudo aquilo; até serviria para deixar as garotas apaixonadas.

“Você não trepa com sua namorada?”, perguntei de surpresa.

Ele enrubesceu e tentou responder com evasivas:

“Trepo, mas não muito frequentemente. Ela é um pouco chata nesse ponto. Morre de vergonha e acha que a mãe pensa que ainda é virgem.”

“Onde vocês fazem amor?”

“Esse é outro problema. Ainda somos muito jovens para frequentar hotéis. Outro dia roubei a chave do carro de minha mãe e trepamos na garagem. O carro tem vidros escuros, não dá pra ninguém notar quem está lá dentro. Mas só o fato de percebermos as pessoas do lado de fora, fez Clara morrer de medo. Ainda aconteceu de eu arrancar a calcinha dela com fúria; a pequena peça se desfez. Ela ficou aborrecida comigo por vários dias. Cheguei a pensar que não me queria mais.”

“Nada disso. Nós, mulheres, gostamos de coisas que os homens sequer imaginam. Nessa situação, ela sentirá mais prazer caso você faça amor segurando-a com firmeza. Você ainda deve dizer: ‘não te mexas, podes provocar uma explosão’; se ela estiver no período fértil, vai ficar quietinha, mas louca de prazer por estar correndo perigo. Depois tudo vai acabar com um longo beijo na boca; então é a sua vez de manter o controle. Na verdade, nesse momento, a mulher está totalmente vencida.”

“Como você sabe tantas coisas assim?”

“Olhe bem pra mim, calcule quanto anos eu tenho. Mas não precisa dizer.”

Trepei com ele por dois longos meses, várias vezes na semana.

Numa certa noite, eu disse:

“Conto o que aconteceu naquela madrugada em que você e sua namorada me surpreenderam nua, mas com uma condição.”

“Qual?”

“De que você não mais me procure.”

“Mas você não gosta mais de mim?”

“Gosto, gosto muito, mas vou acabar tendo problemas. As pessoas já estão desconfiadas. E você é menor de idade.”

“Não, não faça isso, por favor.”

“Você não gosta da sua namorada?”

“Gosto, mas o que isso tem a ver?”

“Escute: você gosta dela, está ensinando-lhe muitas maneiras de fazer amor. Ela não mais se mostra tão temerosa como antes. Conto a você o que aconteceu e você vai. Não quero dizer que nunca mais vou fazer amor com você. Mas não na frequência em que estamos.”

“Está bem, então conte. Mas vou ficar triste.”

“Tristeza não dura muito; tanto mais quando se é jovem e se têm todas as possibilidades.”

“Todas?”

“Sim. Na sua idade não se reconhece a possibilidade de perdas.”

Contei a o que acontecera naquele final de noite.

Depois disso, ele voltou mais duas vezes, num espaço de três meses.

Hoje não moro mais lá. Tive o cuidado de que não descobrisse meu novo endereço.

E fico atenta para que, sobretudo os jovens, não me surpreendam nua!

quinta-feira, julho 16, 2009

Numa noite ardente

“Quando, cerrando os olhos, numa noite ardente,

Respiro a fundo o odor dos teus seio fogosos,

Percebo abrir-se ao longe litorais radiosos

Tingidos por um sol monótono e dolente.”

“Oh, é Baudelaire!”

“Conhece-o?”

“Como, não?”

“Não tinha ideia de que ao sair de uma boate, às 4:30, ainda a bruma nos cobrir, a mulher com quem dancei boa parte da noite conhecesse o poeta francês.”

“Tens idéias desrespeitosas sobre as mulheres daqui.”

“Oh, perdão! Não foi essa minha intenção.”

“Estás perdoado.”

“Acompanha-me?”

“Não, deixo a uma próxima vez?”

“Haverá próxima?”

“Oh, claro. O mundo não é tão extenso e a noite a todos abarca.”

“Queria vê-la nua, em meu quarto de hotel.”

“Permite a mim, em primeiro lugar, sonhar; depois, talvez vá.”

“Oh, o sonho, acho que você tem razão.”

“O sonho deve vir primeiro; não deixemos que a realidade se lance sobre nossos rastros.”

“Mas você está tão bela; o vestido pouco, a seda transparente...”

“Logo vem o sol; não quero que o astro loiro me desnude e me exponha a desconhecidos.”

“Mas tenho como cobri-la, possuo tecidos sóbrios e prateados. Basta escolhê-los.”

“Prefiro o tempo exíguo que me resta e correr a casa. Tal expectativa também me excita.”

“Teme a luz?”

“Não propriamente a luz; também sou ser diurno; às vezes cora-me a súbita nudez.”

“Deixe-me tocá-la, ainda.”

“Com a ponta dos dedos quentes e com a borda dos lábios úmidos... Oh, roubas-me o echarpe, deixas-me seminua!”

“Já percebi que você gosta da própria pele despida e lisa; ama o minuto em que se vê à beira do abismo.”

“Do abismo do amor e de mais um: o da possibilidade de ser surpreendida sem nada a cobrir-me o corpo!”

“Posso levá-lo como sinal de um encontro vindouro?”

Oui. Mas me deixa só, tomo condução própria.”

“Mas vai nua, sem homem a escoltá-la?”

“Não preciso de batedor. Oferto-te o mimo. Resolvo-me. Os motoristas noturnos olham apenas as ruas e os faróis.”

“Beijo-a mais uma vez?”

“Beijo-te. Parto e suspiro. Assim, amar-te-ei além da conta.”

sexta-feira, julho 10, 2009

Cris e o amor (2)

A história que vai a seguir já apareceu por aqui. Mas a protagonista – Cris – já há algum tempo vem me pedindo para contá-la com mais clareza. Daí, publico-a de novo. Beijos a vocês, leitoras e leitores. Ah, outro dia descobri: as mulheres estão vibrando mais do que os homens, com meus contos.

Não se surpreenda, não me olhe desse jeito, eu conto o que aconteceu. Não sei por que os homens ficam tão excitados quando encontram uma mulher assim... Bem, quando encontram uma mulher mais à vontade. E tanto mais quando ouvem da voz dela uma história do tipo da que vou contar. Não olhe para o meu corpo agora, por favor, olhe apenas para o meu rosto. Permite que eu entre? Ah, obrigada; obrigada também pela poltrona. Escute.

Encontrei um homem lindo, parecia ainda rapaz, mas já entrava pelos quarenta; elegante, jovial. Fui eu quem o abordou.

“Você não é da Filosofia, da UFRJ?”

“Não”, respondeu, “sou da UFRJ, mas da Letras.”

“Você é muito parecido com um antigo amigo meu da Filosofia; pensei que fosse ele.”

Continuamos a conversar. Estávamos no Espaço de Cinema, era uma tarde de domingo. Ele tinha ido assistir a um filme espanhol; eu, apenas para sair um pouco de casa.

Não olhe pro meu corpo, por favor, olhe pro meu rosto. Isso. Assim.

Comentou sobre o que fazia na universidade. Concluíra um mês antes o mestrado. Falou sobre o tema da pesquisa. Acabou me convidando para assistir ao filme. Aceitei. Era uma comédia, nem lembro o nome, mas naquele momento até que nos divertimos.

Quando o filme acabou, ele queria lanchar; acompanhei. Conversamos mais um pouco. Falei sobre mim, sobre o que faço na vida. Ouviu com interesse.

Ao nos despedirmos, ofereceu uma carona. Contra-argumentei:

“Você vai ter que dar muita volta, vou de ônibus, não quero incomodar.”

“Não incomoda, a gente aproveita e conversa mais um pouco.”

Aceitei.

Uma semana depois estávamos namorando. Comecei a freqüentar a casa dele. Um apartamento pequeno, no Centro, muito arrumadinho, cheio de CDs e de livros.

O namoro, porém, não durou. Havia um mulheril terrível atrás dele e aquilo me incomodou.

Ele dizia:

“Não se preocupe, não vou trair você; elas são apenas minhas amigas; não se pode viver sem amigos, não é mesmo?”

Já pedi, por favor, esqueceu? Olhe pro meu rosto. Isso. Obrigada.

Mas não me acostumei com o jeito dele. A maior parte de suas amizades era de mulheres. Fui eu que terminei o namoro.

Um dia, estou sozinha de novo no Espaço de Cinema, quando o vejo. Mas dessa vez com uma mulher muito bonita. Me escondi, não deixei que ele descobrisse que eu estava ali. Ele não deu por mim. Então fui tentada a procurá-lo. Telefonei. Marquei. Saímos mais uma vez e depois de tomarmos algumas taças de vinho fomos para o apartamento dele.

“Vi você com aquela sua namorada”, eu disse.

“Namorada?”

“Sim, aquela de cabelo castanho curto.”

“Ah, sim, é a Rita. Mas não chega a ser uma namorada. Veio de BH, ficou aqui em casa alguns dias, acabou acontecendo alguma coisa entre nós, mas não posso dizer que seja namorada.”

A existência daquela mulher pôs fogo nas minhas entranhas. Acabei por abraçá-lo, beijá-lo e por tirar toda a roupa. Quando já ia nua, falou:

“Vou contar a você uma coisa que aconteceu. A mineira que esteve aqui é um tanto louca. Numa das noites, eu bebi bastante. No momento em que ela acabou de tirar a roupa, pedi: vai até lá fora e toca a campainha, faz de conta que você está chegando nua pra me namorar. Ela ainda perguntou: nuazinha? Sim, respondi, nuazinha. Não é que ela foi?”

Então, perdi a cabeça:

“Vou também. Sou tanto louca quanto ela.”

“Você?”, ainda duvidou.

Saí duas vezes, deixei que ele trancasse a porta. Eu estava pelada no corredor do quinto andar. E o corredor era tão iluminado...

Toquei a campainha. Ele demorou a abrir. Cheguei a pensar, um pouquinho arrepiada: será que ele vai me deixar pelada aqui fora? Mas ele abriu. Entrei, me agarrei a ele e trepamos imediatamente. Eu que sou difícil pra gozar, naquela noite gozei primeiro. Foi isso. Ele acabou despertando em mim algo que eu nunca tinha imaginado. Concluí: agora já sei como fazer para me satisfazer em termos de sexo.

Veja só a maluquice que dá na gente quando se está apaixonada. Sou uma pessoa importante, diretora de uma escola técnica federal. Já pensou se uma pessoa maldosa me flagra nua, se sou presa?, sei lá. Na hora, esses perigos não me vieram à cabeça.

Antes eu era muito envergonhada, pouco a pouco me tornei uma mulher mais desinibida. Quando eu conto essa história a qualquer namorado de ocasião, ele se excita bastante. Também acaba pedindo para eu ir pelada lá fora. De início, reluto, mas depois acabo aceitando. Não sei se é por paixão ou se porque gozo melhor com o risco. Na hora me entusiasmo tanto, que nem me dou conta dos perigos que corro. Mas às vezes ainda tenho umas recaídas: morro de vergonha.

Agora pode olhar pro meu corpo, pode me apreciar nua. Só não me peça para ir lá fora de novo, por favor. Por hoje, minha cota já está esgotada.

quinta-feira, julho 02, 2009

Que blusa bonita, obrigada!

Que blusa bonita, obrigada! É curtinha, adorei; vou sair com ela hoje. Me lembrei de certa vez que tive uma parecida, me deu até sorte, vou contar a você. Mas primeiro quero vesti-la. Espere um instante. Oh, veja como ficou ótima. Tenho vontade de sair só de blusa, estou achando-a linda. O quê? Não entendeu? Isso, sair apenas de blusa. Você não acredita? Olha que eu vou. Ficou excitado? Então vai ficar ainda mais; espere um pouquinho só! Já saí nua, não me custa entrar no seu carro e passear só de blusa. Será que você consegue dirigir com uma mulher nua no banco do carona? O quê? Você me acha louca? Posso ser meio amalucada, mas você adora namorar comigo, não? Veja, vesti. Está ótima. O que você acha? De blusa nova, calcinha e sandália meio salto? Não acredita? Você está quase tremendo. Quer me agarrar, agora? Não, espere um pouco. Vamos sair primeiro. Na volta eu deixo. Na volta você tira minha blusa curtinha. Está temeroso que alguém me veja assim? Acho que você está muito nervoso. Não seria eu que deveria estar um pouquinho nervosa? Sou eu que estou saindo seminua de casa! Já sei, não quer que eu vá assim. Tem medo de que alguém me surpreenda sem a saia. Não faz mal; coloco uma saia, então. Quer que eu vá com aquela também curtinha? Foi presente seu. Ah, já sei, prefere a comprida, de tecido bem fino, de cintura baixa. Vou com ela. Assim você fica mais tranquilo. No carro posso tirá-la? Que ótimo. Vou pegá-la, aguarde. Pode olhar, agora. Gostou? Assim estou completa, não? Você prefere uma mulher bem vestida. Vamos.

Quer saber a história da outra blusa curtinha que tive e me deu sorte? Ouça. Foi a Marilda e a Ana que inventaram aquela festa. Fui com elas. Havia quatro ou cinco mulheres no salão. Alguns rapazes. Lá pela madrugada apagaram todas as luzes e só se ouvia a música alta. A gente dançava. Vez ou outra um spot piscava. Mas o que contagiava era a música. De repente, vi que Ana dançava só de blusa e de calcinha. Pensei que a saia tinha se perdido sem ela se dar conta. Quando tentei falar com ela, vi a Marilda também nua. Apontou pra mim e disse “tira, tira, os rapazes estão pedindo”. Aí tirei, fiquei só de blusa, como estou agora ao seu lado. A única diferença é que, aqui, minha saia está no banco de trás. Naquela festa, sumiu. Fingi que não reparei; agi com toda naturalidade, dancei a noite inteira sem ela. Vez ou outra, um dos rapazes me abraçava, me apertava. Eu permitia, mas depois me soltava e dançava só. As músicas eram agitadas, a gente se entusiasmava. Quando a festa parou, lá pelas quatro, quase todas as mulheres estavam nuas: algumas de blusa e calcinha, como eu; outras, só de calcinha; duas, que chegaram por último, estavam peladinhas. Sei que acabamos ficando lá até de manhã. Dormimos num dos quartos. Quando acordamos, foi o maior cata-cata. Rodamos toda a casa. Uma encontrava a blusa, mas não a saia; outra tinha a saia, mas estava com os peitos de fora. Minha blusa estava no meu corpo, curtinha, como já disse, mas a saia não apareceu. Sei que acabei entrando no carro da Marilda e falei “vou assim mesmo”. Ela quis saber como eu faria pra entrar em casa. “Dou um jeito, você sabe que adoro andar nua, vamos assim mesmo”. E fomos embora, ela dirigindo, vestida. A Marilda conseguiu dar um jeito, jamais sairia de lá pelada. Apenas eu sou capaz dessas coisas: seminua e morrendo de tesão. Não sei por quê, depois daquela festa eu fiquei com muita vontade de fazer amor com algum dos rapazes. Mas as mulheres eram muitas; eles, nem tanto. Sei que quando cheguei em casa – naquela época eu morava na Riviera – olhei para um lado, para outro, corri e entrei pela garagem. Me escondi no quintal. Pra minha sorte, tinha uma saia minha na corda. Vesti-a. Dei a volta pela frente e entrei em casa como se nada tivesse acontecido. Sabe por que falei que a blusinha me deu sorte? Não, não foi porque consegui chegar em casa seminua sem que ninguém percebesse. Ainda houve mais uma coisa; e boa. À noitinha, meu telefone tocou. Era um dos rapazes que estiveram na festa. Disse que tinha uma coisa pra mim. Marcamos um breve encontro. Ele trouxe, então, minha saia. Aproveitei pra satisfazer meu desejo, que estava à flor da pele. Foi ótimo. Além de ter a saia de volta, ele era muito gostoso; gozei muito. Onde trepamos? No carro dele, ora.

Você está gostando de eu estar nua ao seu lado? Quer que eu tire a calcinha? Eu tiro, mas continue dirigindo. Agora estou só de blusa, blusa lindíssima que você me deu. Quando você parar o carro, acho que vou sair, dou a volta e beijo você através de sua janela. Depois corro de volta e sento de novo ao seu lado. O resto é com você...

sábado, junho 20, 2009

Sou estrela nua que treme no ar frio

As estrelas tremem no ar frio. Eu tremo, mas não apenas devido à temperatura baixa da noite de junho: estou nua sob um céu que há pouco dissolveu seus borrões vermelhos.

Tudo começou com uma brincadeira de meu homem. Como gosto dele! Gosto também de suas brincadeiras. Trouxe-me à praia. Uma praia distante e deserta. Ficamos num quiosque. Bebi duas cervejas, das pequenas. Ai!, sou fraca pra bebida. Começamos a nos amar, a nos beijar. Não demorou para que me levasse pra perto do mar e me deitasse sobre um pequeno manto. Minhas roupas pareciam seres vivos, soltaram por si mesmas de meu corpo e espalharam-se no imenso areal. A noite, pouco a pouco, chegou sorrateira, envolveu os dois amantes em seu véu de Via - Láctea. Apesar do vento, dos respingos da maré, queimavam-me as entranhas. Até que não pude mais. Deixei escapar perfumes de gozo e de desejo. Nos espaços brancos do silêncio, contei – nada de muitos verbos – orgasmo em que agachada despejara jorro extático nas mãos de um namorado voraz, borrifara-lhe o corpo, engolira-lhe o pênis. A princípio, ele não quis acreditar, mas logo viu que sou fêmea vibrante, alguém que torna o desejo cor de vinho. Pediu então que eu repetisse o feito; agora, em suas mãos.

“Não sei se ainda posso.”

Apostou. Apostei. Quem perdesse, o que pagaria? Hei de me importar? Já pagamos ou perdemos tantas coisas.

Agachei. Fiz que beijasse meus seios, que deslizasse a língua sob meus cabelos, na altura do pescoço; que descesse – equilibrado na ponta dos dedos dos pés – lambuzando-me pelas costas, que me atravessasse as nádegas e, mergulhando sob minhas pernas, me mordesse o grelo. Talvez assim esguiche mais uma vez, pensei. Quando tocou a língua à beira dos meus abismos, gritei:

“Estou solta, vou levitar, plane a pele alva sob meu sexo.”

Foi a vez de ele ter prazer maior. Na pequena poça que transbordei cintilaram, sobre suas mãos, as estrelas. Lambuzou-nos. Primeiro sua face; depois, a minha. Sussurrei:

“Procure minha malha – eu viera tal qual esportista –, amasse-a bem pequena e a lance ao mar.”

“Estás louca? Como vais voltar nua pra casa?”

“Não, não estou louca; vai, cumpre o que desejo; assim gozo mais rubra.”

“Mas como vais voltar nua?”

“Não sei, arremesse-a; depois, o resto, a gente vê.”

Arremessou.

“E agora?”

“Não sei. Sou toda arrepio. Agache mais uma vez; estenda a palma; rápido. Isso, assim, que bom, que gostoso, ah... ah..., agora me penetre, assim, assim, flexione, isso, mais um pouco, mais, mais, mais, rápido, rápido, assim, estou por um triz, vai, vai, ah... ah... ah... vou gozar... vou gozar... ahhh... ahhh... Que bom, que gostoso. Beije-me, hum... hum... Adoro sua língua, adoro sua boca.”

“Gozou?”

“Precisa perguntar?”

“É sempre bom.”

“Gozei, sim; mas agora vá.”

“Para onde?”

“Embora.”

“Como? Deixá-la só?”

“Isso mesmo, sozinha e nua.”

“Não posso!”

“Vá. Estou pedindo, por favor, deixe-me sozinha.”

“Estás louca? Acaso não me queres mais?”

“Não estou louca e te quero muito; mas, agora, prefiro ficar só.”

“Como vais fazer pra voltar?”

“Não sei, mas vá. Eu me safo. Já saí ilesa outras vezes.”

“Então, vou. Mas estás tremendo.”

“Estou.”

“Como te sentes?”

“Por favor, vá!”

“Depois me contas como te saístes?”

“Conto”.

“Juras?”

“Juro.”

“Um beijo.”

“Outro.”

Sou estrela nua que treme no ar frio, que cintila; sou mar que respinga; sou princesa em pele, sou mendiga
plena.

sábado, junho 13, 2009

Terapia

Doutora, procurei você por um motivo muito simples. Posso chamá-la por você, não? Obrigada. Uma amiga, que indicou a terapia. Disse que resolveu aqui quase todos os seus problemas. Veja, vem acontecendo comigo algo que de início parecia uma coisa à-toa, mas agora me tem atrapalhado. Como deve ocorrer a muitas mulheres que aparecem aqui, meu problema é sobre relacionamento. Entende? Isso, sobre a dificuldade de me relacionar com os homens. Por isso, fico sozinha a maior parte do tempo. Não é que eu não goste de ficar só; às vezes, fico feliz por não ter ninguém que me aborreça, por poder andar nua dentro de casa, sem vergonha alguma. De repente, aparece algum homem; me paquera, me deseja; passa a me fazer convites. No começo recuso, mas em algum momento acabo aceitando. Sabe quando se sai com alguém pela primeira vez? Bate aquela curiosidade. Tudo é novo, repara-se nos menores detalhes. Todos, eu inclusive, tentam de toda a forma não decepcionar o outro. Acho que apenas nessas poucas vezes é que se pensa realmente no “outro”. Um dia desses me aconteceu tal caso. Conheci um homem que se separou havia pouco, uma pessoa muito bacana, gentil, bem-sucedida por sinal. A apresentação se deu através de uma amiga. Ela mantém um relacionamento estável com um homem também muito legal, e esse que me apresentou é amigo do companheiro dela. Foram amigos de faculdade e trabalharam juntos. Encontram-se até hoje. Na primeira vez que saí com ele, perguntou aonde eu queria ir. “Ao cinema”, falei. Não tem nada de mais ir a um cinema quando se sai com alguém pela primeira vez. É até bom, porque há o que se conversar depois. Assistimos ao filme. Gostamos muito. Depois fomos lanchar. Nenhum de nós pediu bebida alcoólica. Ficamos conversando na praça de alimentação do shopping durante muito tempo; depois, ele perguntou se eu queria ir a mais algum lugar. Lógico que eu disse não; falei que, na verdade, estava cansada e queria ir para casa. Levou-me em seu carro, com muita gentileza. Ficamos de telefonar alguns dias depois. Marcamos então outro encontro. Nesse encontro, ele me convidou para jantar. Num restaurante lindo, no Leblon; acho que na Dias Ferreira. Ali há cada restaurante maravilhoso. Jantamos, bebemos vinho, conversamos mais. Quando acabamos, percebi que ele queria me levar para outro lugar. Talvez à casa dele, ou mesmo a um hotel. Não fez o convite abertamente, mas era o que ele queria. O que podem querer duas pessoas adultas, que começam um relacionamento? Querem se tocar, se beijar, trepar, não é mesmo? Mas relutei, disse que naquela semana não tinha me sentido bem, talvez uma virose. Tudo mentira, é claro. Não insistiu, conduziu-me em seu automóvel, com muita amabilidade. Agradeci e me despedi. No dia seguinte, telefonou para perguntar como eu estava. Fiquei radiante por ele ter se preocupado comigo. No final de semana seguinte, saímos de novo. Dessa vem, um espetáculo teatral. Ótimo, no Shopping da Gávea. Lá é tão bonito, não é mesmo? Depois jantamos num restaurante que eu não conhecia, em Ipanema. Lindo. Comi pouquinho, mas estava ótimo. Bebemos uns coquetéis, uma delícia. Quando acabamos e partimos, perguntou se não desejava conhecer o apartamento dele. Ali mesmo, em Ipanema. Disse que tinha vista para o mar, que poderíamos ouvir umas músicas, conversar mais, que o ambiente lá era muito agradável e coisa e tal. Relutei, mas acabei aceitando, Chegando lá, mostrou-me todo o apartamento. Um sonho e tanto para quem mora sozinho. Depois ficamos numa ampla sala, conversando. Em certo momento, ligou o aparelho de DVD e a TV; assistimos ao show de uma cantora famosa. Conversamos mais um pouco. Achei que ele não tinha intenção de fazer amor comigo naquela noite. Mostrou-se muito gentil, como era seu costume. Qualquer mulher que tivesse aquele homem não o largaria mais. Mas eu relutava. Não sabia o que fazer. Logo pensei: “para ele é fácil, basta ir lá embaixo que arranja alguém para trazer para cá”. Naquela noite ficamos durante duas horas e meia sentados num dos estofados da sala, ouvindo música. Ele não se aproximou de mim para me abraçar, como eu temia. Também não tomei iniciativa alguma. Quando passava da meia-noite, pedi que me levasse em casa. Levantou-se sem fazer objeção. Saímos. Comentei o caso com a minha amiga, a que me apresentou o homem. Ela disse que estou perdendo tempo, que não temesse, que ele é boa pessoa. “Nem chegamos a nos agarrar”, falei a ela. “Demos apenas um ou dois beijos”. Duas semanas depois, encontramo-nos de novo. Levou-me a uma festa. Muito agradável a festa; freqüentada por pessoas bonitas e simpáticas. Acabou tarde. Quando se preparava para me levar em casa, eu disse que queria ir para o apartamento dele. Pensei: “hoje me entrego, vou agir como disse minha amiga”. Já tinha tomado dois coquetéis de frutas com vodca, estava até um pouco excitada. Seu rosto abriu-se num sorriso largo quando ouviu meu desejo. Ligou o carro e dirigiu até aquela rua bonita de Ipanema, onde mora. Entramos no apartamento. Larguei-me primeiro sobre o estofado, enquanto ele foi fazer alguma coisa. Depois, ligou o aparelho de som, colocou um CD instrumental e veio para sala. Mas não me encontrou ali. Procurou-me. Eu estava no quarto, sobre a cama dele. Falei: “deita aqui ao meu lado”. Ainda vestido, deitou-se. Então o abracei e lhe dei um longo beijo na boca. Trouxe o homem para cima de mim. Agarramo-nos. Nossas roupas se roçavam umas nas outras. Quando me soltou, tirei o vestido e deixei que escorregasse para o chão, num dos lados da cama. Ele também despiu-se. Gostou, doutora? Despiu-se. Ficamos ali, juntinhos. Então aconteceu. Mas você deve estar se perguntando o que me trouxe aqui. Porque até agora parece que tudo está dentro da mais perfeita normalidade. Mas ouça o que aconteceu depois. De um extremo, fui ao outro. Foi algo que já havia ocorrido outras vezes, com outros homens que tive. No momento em que me percebi próxima daquela satisfação que toda mulher gosta de sentir numa boa trepada, não me contive. Comecei a gritar assustadoramente. O homem ficou desesperado. Acho que não estava acostumado com isso. Gritei e gritei com toda minha energia. Falei cada coisa... O quê? Ah, dizer agora é difícil. Mas disse coisas que nem a mais reles prostituta diria. E tudo num volume altíssimo. No final, ainda esbravejei que me mandasse embora nua, porque eu era a maior puta da cidade. Pensei que ele fosse levar tudo na esportiva, fantasias de uma mulher de quarenta anos. Mas, depois que tudo acabou e que me levou pra casa, notei que já não era o mesmo. Dali pra cá, não mais me ligou. Fiquei sem o namorado. Então, doutora, o problema que quero resolver é esse. Quando conheço alguém, estou num extremo, sou super tímida; ao entrarmos pelo relacionamento, no momento em que acontece a primeira transa, vou ao outro extremo. A maioria dos homens se assusta e não mais me procura. Devem pensar que sou louca. O que você me aconselha, doutora? Como a sua terapia pode me ajudar?

sábado, junho 06, 2009

No estacionamento...

Havia extravagância em minhas roupas. Desfilava pelo shopping e sabia que os homens me apreciavam. Caso eu os encarasse, via seus olhos na direção das minhas pernas. Evitava que descobrissem que eu investigava suas fisionomias. Para uma mulher, é sempre bom fazer-se a pessoa mais inocente do mundo.

Em todos os lugares a que fui pela manhã, houve quem me espreitasse. E não foram apenas os homens. Dentro de um toalete, uma jovem se dirigiu a mim com as seguintes palavras: “você está linda com esse vestido, aceita um convite para andar um pouco ao meu lado? Tenho coisas ótimas para fazer, inclusive ir a uma festa.” Delicada, declinei. Pedi o número do telefone, quem sabe amanhã ou depois.

Num restaurante, na hora do almoço, duas adolescentes vieram a mim: “por favor, seu vestido é tão bonito, em que loja você o comprou?” Dei as informações, de muito boa vontade, sempre sorrindo.

Quem quer que fosse, eu conquistaria. Se não para namorar, ao menos para segurá-lo por alguns minutos; tempo em que me apreciaria. Sabia também que demoraria a desaparecer-lhe da lembrança. Por falar em namoro, caso essa fosse a minha vontade, bastava sentar-me numa cafeteria, cruzar as pernas e fingir um olhar distante, como se não quisesse nada com pessoa alguma. Logo surgiriam homens que não me deixariam por nada desse mundo.

À tarde, entrei no carro e dirigi até o Park Shopping. Quando caminhava já no primeiro piso, reparei dois jovens que me olharam, riram e comentaram alguma coisa. Os jovens poderiam ser muito mais bem sucedidos com as mulheres, mas eles não sabem o que falam; acabam perdendo boas oportunidades. Eram grandes, bonitos, simpáticos; mas não havia razão para fazer o que eu vou contar a seguir.

Continuei meu passeio; olhava as vitrines; vez ou outra me encantava com alguma roupa. Ao parar durante alguns minutos em frente a uma loja de lingerie, senti um ligeiro sobressalto. Um daqueles jovens soprou a seguinte frase no meu ouvido: “você fica linda quando sai sem calcinha!”

Numa primeira reação, qualquer mulher educada nada falaria; poderia reagir através de um leve movimento no rosto. Talvez houvesse quem se virasse na direção oposta e deixasse o local. A mais esquentada talvez soltasse um palavrão, mesmo que em voz baixa. Mas mantive-me incólume. Uma vez que tenho o pleno domínio de todo o meu corpo, mesmo em situações imprevistas, agi como se nada houvesse acontecido.

Continuei a admirar as peças, os tecidos, os detalhes das roupas, as quais eu considero um tipo de obra de arte.

Ele tentou outro golpe: “você ficou excitada, os bicos de seus seios estão rijos”.

Continuei como se ele fosse invisível e eu nada percebesse.

“Você gostou, não? Seus seios continuam me correspondendo.”

Decidi então reagir, mas de forma totalmente inesperada: beijei-lhe os lábios.

Desconcertou-se, não esperava pelo gesto.

Continuei a apreciar as vitrines.

Após recuperar-se, falou: “que tal sairmos um pouco?”

“Sairmos?”, resolvi embarcar na fantasia dele.

“Isso, sairmos, namorarmos...”

“Agora, às três da tarde?”

“Não tem problema, estou de carro, os vidros são escuros, está no estacionamento coberto.”

“Você acha, amor, que eu tenho cara de namorar em estacionamentos?”

“Não sei. Há garotas que adoram. Tiram toda a roupa, até ameaçam sair nuas do automóvel.”

“Não sou uma garota.”

“Tem razão.”

“Você quer fazer amor comigo?", eu o excitava.

“Claro!”

“Então me leve ao Mercure, ou ao Confort, no setor hoteleiro.”

“É muito caro!”

“Cada coisa tem o seu preço. Você não gosta de coisas boas?”

“Gosto, mas...”

“Encontre comigo em frente ao Pátio Brasil, às 20:30h, caso você decida.”

“Fala sério?”

“Falo. Mas não dentro de seu carro, no estacionamento...”

Segui em frente. Ele ficou.

E é claro que, caso tenha me procurado à noite, permaneceu só.

No estacionamento...

quinta-feira, maio 28, 2009

Barriguinha, biquininho

Olhava-me, esperando que eu dissesse algo, mas eu não sabia o que dizer. Sei que o sol sobre meu corpo bronzeado, refletindo a água do mar, tornava-me uma verdadeira tentação.

Ainda uma vez foi ao assunto:

“Você, com esse corpo quase escultural, vestindo esse biquíni mínimo, mata qualquer um de tesão. Essa barriguinha que você diz estar saliente acentua a pequenez de seu biquíni, faz os homens sentirem mais desejo.”

“Achas meu biquíni tão pequeno?”

“Claro, menor não poderia ser.”

“Poderia.”

“Não acredito.”

“Se eu ficasse sem, não seria melhor?”

“Mas aqui na praia?”

“Já fiquei tantas vezes.”

“Estava a praia deserta?”

“Nem tanto, mas as pessoas nem repararam.”

“Como, não?”

“Fiquei nua dentro d’água.”

“Ficou então com a calcinha na mão...”

“Nada disso, ela ficou aqui, na areia, junto ao guarda-sol.”

“Como você fez para caminhar nua até o mar e depois voltar?”

“Ah, estás querendo saber demais. Vem cá, me abraça.”

“Assim morro de desejo.”

“Não morres, não. Já estive em teus braços mais de três vezes. E nua!”

“Não fale assim! Vou levá-la para dentro d’água e lhe roubar as duas peças.”

“Vou adorar!”

“Jura?”

“De pés juntos. Mas me responde uma coisa: gostaste mesmo da minha barriguinha?”

“Claro.”

“Que bom. Estava fazendo ginástica para perdê-la, mas depois de teu elogio acho que vou deixá-la. Vem, percorre com a mão aqui do meu umbigo até dentro do biquíni.”

“Gosto do seu jeito de mulher atirada, de fêmea que logo quer prazer...”

“Mas não te esqueças de fazer bastante carinho primeiro na minha barriguinha; depois, caso queiras, podes me deixar nua!”

sábado, maio 23, 2009

Pulseira

– A água do mar está tão boa, que não dá vontade de sair.

– Está muito agradável.

– Chegue aqui juntinho de mim.

– Assim?

– É, assim, assim.

– Você é muito bonita, sabia?

– Sim, eu sei, mas desça as mãos pelas minhas costas, vai.

– Tá bom assim?

– Está, mas desça mais um pouquinho; até abaixo do cóccix.

– Você quer que eu apalpe seu bumbum?

– Isso, apalpe!

– Ai, você está nua!

– Estou...

– Cadê seu biquíni?

– Está aqui, enroladinho no meu pulso, fiz dele uma pulseira.

– Me deixe ver.

– Olhe só de relance.

– Ah, quero usar essa pulseira um pouquinho.

– Não, nada disso, fique quieto.

– Você me pede para descobrir você nua e ainda me quer quieto?

– Calma, se você continuar assim, eu me visto e acabo com a brincadeira.

– Sou tarado por biquínis, principalmente quando escapam para as minhas mãos.

– Eu sei disso...

– Enrole-o no meu braço um instantinho só.

– E se você me deixar nua aqui dentro d'água, como é que eu vou fazer?

– Eu não vou deixar, não, juro.

– Não, nada disso, fique quieto, me abrace bem apertado e me beije.

– Hum...

– Isso, assim, assim... Me faça carinho.

– Então me dá o seu biquíni.

– Você prefere uma mulher nua ou um biquíni? Parece criança...

– É. Uma mulher nua é bem melhor.

– Então, aproveite! Você já encontrou alguma mulher nua na praia?

– Não.

– Então, vá, me agarre, me aperte com força, me beije, me faça carinho, depois eu dou o biquíni.

– Jura?

– Juro.

– Jura mesmo?

– Já não falei que sim?

– Tá bom, vamos lá...

– Isso, aí, aí, nesse ponto eu adoro...

– Assim?

– Isso, continue, continue que está gostoso.

– Então me de o biquíni, estou fazendo carinho, você jurou.

– Não pare, não pare, eu já estava quase lá...

– Só continuo se você me der o biquíni.

– Está bem, segure, enrole no braço, cuidado pra não perder, mas não pare.

– Ficou bem assim?

– Ficou, mas continue, não pare, por favor...

– Assim?

– Isso, como estava antes...

– Você vai gozar?

– Não fale nada, fique quieto e continue. Não pare... Isso, isso, agora, ah, ah... Ei, aonde você vai? Volte aqui!

Filho da puta, me deixou nua. Não devia ter dado o biquíni a ele.


– Marg, estou aqui.

– Ah, graças a deus, é você! Você me deixou de molho já há uns dez minutos. Cadê meu biquíni?

– Está bem guardadinho.

– Onde você o colocou?

– Lá na sua bolsa.

– Vá buscá-lo, por favor, alguém pode descobrir que estou nua, vai ser um vexame...

– Quem mandou você brincar de pulseira?

– Não faça isso. Alguém pode reparar que estou nua...

– Está bem, espere um pouco.

– Não demore, por favor!


Ai, que ele não vem...

– Ei, moça, sabe as horas?

– Não.

– A praia aqui é boa, não é mesmo?

O homem, um quarentão, quer conversa. Temo virar-me na direção dele. Quero fugir, mas estou nua e meu namorado pode não me achar; ai, que demora...

Quando mal percebo, o homem está quase grudado em mim. Muito rápido ele me taca um beijo molhado, um beijo longo com gosto bom de mar.

Não resisto, relaxo e entrego-me lânguida.

– O que houve com seu biquíni?

– O bicho comeu? – sorrio.

– E como você vai fazer?

– Dou um jeito.

– Você está sozinha?

– Não – surpreendo-o –, meu namorado vem lá – aponto na direção da faixa de areia.

– Como faço pra ver você de novo?

– Digite "margarida nua" em qualquer sítio de busca; escreva pra mim.

O desconhecido se afasta.

Meu namorado se aproximava mesmo, e me trazia o biquíni.

– Você não vai vestir?

– Lembra que era uma pulseira? – dou duas voltas no mesmo braço onde estivera.

– Eu vi um estranho junto a você. Demorei de propósito; você nem mais está tremendo...

– Como você gostaria que eu estivesse?

– Assustada, pelo menos.

– É mesmo?

– Deixa eu te abraçar.

– Pra quê?

– Adivinha; agora eu quero; você nua me mata de tesão...

– Negativo; você não viu o homem que conversava comigo?

– Vi, e daí?

– E daí... E daí aconteceu...

– Aconteceu o quê?

– O que pode acontecer quando um homem encontra uma mulher nua?

– Mas assim, tão rápido?

– E foi tão bom!

domingo, maio 17, 2009

Nua!

Sempre temi escrever em tempo real. Mas aí vai. Tenho recebido alguns e-mails com esse pedido. Os leitores também querem saber como eu escrevo. Respondo: escrevo nua. Isso, nuazinha. Antes escrevia de calcinha, mas depois decidi tirá-la. Assim fico mais confortável. Alguém reparou que tenho escrito coisas sérias ultimamente. Deve ser por causa do romance De olhos vendados. Mas será que minhas histórias não são sérias? Acho que tudo é sempre muito sério. Essa história é de meados do ano passado. Resolvi colocá-la no blog agora porque é um desperdício mantê-la guardada; tive tanto prazer em escrevê-la. Maria Zilda, apesar de importante, é uma mulher como qualquer outra, alguém cheia de desejo; e não perde tempo para satisfazê-lo. Será que está convincente? Olhem, Zilda existe mesmo.

Um leitor de Belém quis saber se eu me excito ao escrever. Claro, quem não se excita? Até mesmo se a gente escreve coisas sérias, como vai acima. Mas me excito. E muito. Só tenho que me cuidar para não (não gosto de dizer assim) gozar na hora em que estou escrevendo, porque fico morrendo de vergonha.

Quando tinha vinte e dois anos, tive um namorado que falava: “Margarida, vou tirar o teu gozo hoje.” Naquele tempo, eu não era tão desinibida. Abria o armário e pegava a toalha mais comprida. Fazíamos amor. Eu, quase pudica. Ao gozar, me enrolava no espesso tecido e só saía de dentro dele duas horas depois.

Mas, agora, se sinto aquela estremecimento lá dentro, seja apenas um tantinho, mas o prenúncio de todas as explosões, o lampejar de todas as estrelas, o espocar de fogos de artifícios, largo tudo e cubro os seios. Isso mesmo, quando morro de vergonha cubro os seios. Fico pelada na frente de cem pessoas, não tenho problema algum com a nudez, só não posso gozar; caso aconteça, cubro os seios. Com as mãos, é lógico. Assim, disfarço!

Vai aí uma história que já burilo há algumas semanas.

Longos beijos, queridos.


Duas adolescentes pararam-me na rua.

“Hei, moça, onde você comprou esse vestido?”

Olhei para elas e sorri. Estavam ávidas pela informação. Vestiam saias curtíssimas.

“É tão lindo”, falou espontânea a que tinha aspecto de ser a mais jovem.

“Eu mesma cortei, era uma camisa masculina.”

Olharam-me com fisionomia de espanto.

A que fizera a primeira pergunta ainda tocou no tecido na parte próxima ao ombro.

“Aqui está perfeito, um pouco caidinho sobre o braço esquerdo.”

“Em baixo também não é reto, você conseguiu cortar o tecido de um modo que ficou um tanto oblíquo.”

“Se vocês quiserem posso ensinar, mas não agora; deixo o meu número; basta ligarem que marcamos um horário.”

“Quanto você cobra?”

"Não, nem cobro; quero apenas ver vocês com esse sorriso maravilhoso. Agora, permitam-me ir porque tenho um compromisso e estou atrasada."

Deixei um cartãozinho; dei dois beijos em cada uma e escapuli. Elas ficaram radiantes de alegria.

Na noite anterior eu saíra com um namorado. Desses namorados que vez ou outra telefonam e dizem que estão morrendo de saudade e querem um encontro. Depois, como se mostram tão agradáveis, acabam acontecendo coisas boas, como beijos abraços e toques sutis.

Bebemos em um bar muito aconchegante. Ai, caipirinha... Na hora foi ótima, mas depois a bebida me excitou tanto que acabei fazendo besteira, ou melhor, algo prazeroso: sexo; só que o dia (ou a noite?) não era dos mais convenientes. E ainda esse meu namorado quis me pregar uma peça. Até que gosto das extravagâncias dele, mas o dia seguinte seria importantíssimo para mim: uma entrevista a respeito da edição do meu próximo livro. Não podia deixar de comparecer à editora.

Na saída à noite, não vestia ainda essa roupa que surpreendeu as duas meninas, mas um vestido vermelho, de alcinha e nem tão curto. Bebemos e comemos alguns petiscos naquele bar estilo 1930. Depois fomos para casa dele.

“Olha, vou embora no meio da noite, viu? Amanhã tenho que acordar cedo”, repeti.

“Você vai se casar amanhã?”, sorriu com ironia.

“Mais ou menos. Na verdade é mais do que um casamento, mas prefiro não falar agora, pode dar azar. Depois conto.”

No apartamento dele, namoramos muito. Logo me deixou peladinha; depois escondeu o meu vestido. Aquilo me excitou. Daí em diante nos agarramos com mais ímpeto.

Apertava-me os seios, beijava-me apaixonado e sussurrava coisas que me deixavam de cabelo em pé. Por fim, pedi que se aconchegasse dentro de mim e que demorasse bastante.

“Não sei se vou conseguir, já estou a ponto de uma explosão”, disse, mas fazia tudo para se manter naquele estreito limite em que, numa relação carnal, beiramos o abismo.

A explosão com todos os fogos e ainda com o tempo de um longo rescaldo se deu lá pelas três da madrugada. Eu estava que não me agüentava. Gozamos os dois e permanecemos agarrados um ao outro. Ainda pensei: daqui a pouco vou-me embora. Mas estava tão cansada, que dormi profundamente.

Acordei às oito e trinta. Levantei com aquela preguiça de sempre, ainda bêbada de sono. Fui ao banheiro. Quando voltei, dei pelo que eu tinha a fazer naquela manhã.

“Meu Deus, como estou atrasada, perdi a hora.”

Procurei meu parceiro da noite. Mas não o encontrei. Ele não estava no apartamento. Sai à cata de minhas roupas. Mas também não as encontrei. Vejam que situação. Num dia de semana, eu pelada na casa de um homem, sem ter o que vestir e sem nenhuma solução à vista. Liguei para ele.

“Antônio, onde você está?”

“No trabalho.”

“Por que não me acordou, Antônio?”

“Você estava dormindo com um ar tão angelical, que não tive coragem.”

“Onde você guardou minhas roupas?, preciso ir embora.”

“Suas roupas estão aqui comigo, na minha pasta. Sempre quis deixar você nua, esperando por mim em casa; é uma velha fantasia.”

“Antônio, bem que eu ia gostar se fosse num outro dia, mas hoje tenho um compromisso...”

“Margarida, você sempre dá um jeito. Deixe isso pra outro dia, espere por mim...”

Desliguei o telefone e comecei a pensar o que ia fazer.

Abri o guarda-roupas. Vi apenas roupas masculinas. Foi então que tive a idéia. Peguei uma camisa dessas de malha, de listras grossas. Não sei se de algum time de futebol. Primeiro, vesti-a. Não caiu bem do jeito original. Despi-me, peguei uma tesoura e fiz uma abertura maior na parte do pescoço; depois, cortei na parte de baixo, um corte numa inclinação de mais ou menos trinta graus. Achei linha e agulha – esse meu namorado é organizado com suas coisas – e fiz uma ligeira bainha.

Vesti. Ficou um vestidinho ótimo.

Corri para a editora depois de me despedir das duas adolescentes.

A secretária recebeu-me surpresa. Ainda a ouvi da outra sala, comentando com alguém:

“Essas artistas são umas figuras, precisa ver como está vestida.”

Entrei. O editor recebeu-me em pessoa. Nem precisei falar. Foi ele quem me cumprimentou, pediu para que eu sentasse. Acho que nem reparou se eu estava vestida ou pelada.

“Muito interessante o que você escreve. Acho que vai fazer muito sucesso. E vamos ganhar muito dinheiro!”, deu um imenso sorriso.

Ah, esses homens, só pensam em dinheiro!

sábado, maio 09, 2009

Crêperie

A entrada do prédio estava deserta à meia-noite e meia. Clara saltou do carro do namorado, deu alguns passos e ouviu o ruído que destravou a porta de vidro. Olhou para a guarita do porteiro noturno e agradeceu com um leve movimento de cabeça. Entrou e em três passos alcançou o elevador.

Ao atravessar a porta de casa, no sexto andar, acendeu a luz da sala, largou a bolsa sobre a mesa e caminhou até a varanda.

A noite lá fora era silenciosa; a cidade, adormecida, tinha suas luzes habituais e o ar estava úmido. Sentou numa das poltronas da sala, recostou a cabeça, deslizou largando-se à vontade, fechou os olhos e recordou o recente encontro com o namorado.

Ficara junto dele desde as sete da noite. Passearam de automóvel pela cidade, pensaram onde iriam parar para comer alguma coisa; decidiram por uma creperia numa das quadras finais da Asa Norte.

O lugar era convidativo e as pessoas elegantes. Havia grupo de rapazes e moças, pares de namorados. Em outras mesas, marido e mulher; adiante dois casais estavam acompanhados por crianças pequenas. Os garçons eram jovens e atenciosos; a decoração atraente; os crepes, uma delícia,

Clara apreciou o namorado enquanto ele cortava alguns pedaços. Via-o como pessoa de poucas palavras. Ele a amava, ela tinha certeza, mas não sabia transformar o sentimento em palavras.

Isso, segundo ela, era problema de muitos homens, porque, principalmente, não sabem expressar-se. E o fato não dizia respeito apenas ao amor, acontecia também em relação a outras coisas. Apenas no trabalho eles, muitas vezes, destacavam-se, sobretudo quando lidavam com cálculos ou com idéias que poderiam gerar muito dinheiro.

Numa das últimas mesas, junto à parte externa do pequeno restaurante, reparou uma jovem, não deveria ter mais do que dezesseis anos. Estava largada no ombro do namorado. Enquanto esperavam os pedidos, beijavam-se como se nada mais houvesse no mundo.

Clara pensou na espontaneidade dos jovens. Para eles não importa o que há ao redor, suas existências lhes bastam e nada melhor e maior do que o prazer proporcionado pelos sentidos; não suportariam talvez uma existência que proporcionava a ela muito prazer: estar sozinha.

Por que não trouxera o namorado para casa? Não sabia a resposta. Mas achava que estragaria tudo. Gostava de entrar em casa de madrugada, com o apartamento às escuras, observar a amplidão de um dos lados da cidade, os outros edifícios; gostava de ver os espaços vazios, esquecer que existiam pessoas. Tudo era tão silencioso, que não conseguia imaginar os outros prédios abrigando homens, mulheres e crianças; até mesmo imaginá-los dormindo era difícil.

Foi à cozinha e tomou um copo d’água. Pouco a pouco sentiu necessidade de deitar-se. Desfez-se das roupas por etapa; lavou as mãos; deixou-se escorregar nua na cama. Suas mãos tocaram o ventre; a esquerda deslizou até o seio direito e assim permaneceu enquanto seus olhos puseram-se semicerrados. Mas ainda não dormia.

Lembrou o dia em que o namorado tivera-a nos braços pela primeira vez.

“Calma”, dissera ela, “não somos mais crianças, você não descobrirá por baixo de minhas saias nada do que já não conhece.” E deixou que ele lhe percorresse o corpo, vez ou outra mostrou-se um tanto sôfrego.

Na cama, gostava de namorar a si mesma, sentia prazer com o calor da própria temperatura.

Não traria o namorado para casa. Lógico que ele já estivera ali. Já haviam passado várias noites juntos no apartamento; viram filmes; ouviram música. Mas ela não queria dormir ao lado dele todos os dias, esbarrar-lhe o corpo fora da hora do amor, acordar na manhã seguinte pensando nas obrigações e esquecendo o prazer que tiveram durante a noite.

Era preferível que ele partisse depois do amor. Sempre que alguém parte há a possibilidade de um reencontro. E esse é mais prazeroso do que estar continuamente lado a lado.

Quando se foram da creperia, o casal de adolescentes ainda se mantinha abraçado, os beijos continuavam prolongados. Os dois abrigavam-se sob a discrição das outras pessoas. Teria a menina o desejo de casar com ele? É normal entre os jovens esse desejo, é normal que queiram eternizar o momento. Ainda não viveram, ainda não experimentaram a liberdade, não descobriram outros aspectos inerentes ao amor; só deram conta até ali do corpo a corpo recíproco.

O domingo ia ficando para trás, distanciava-se. O namorado era uma mancha que se desfazia. Só os prédios permaneciam firmes, construções sólidas, duradouras, mas não pareciam ter habitantes. As luzes noturnas não eram suficientes para tornar o céu mais claro; na verdade, acentuavam-lhe a escuridão. As lâmpadas tornavam alguns lugares soturnos, plenos de mistérios. As sombras em uma rua, o movimento lento dos galhos maiores de uma árvore sob um ar mais agitado, a imagem de um automóvel estacionado, tudo dava a impressão de um imenso vazio; não pareciam pertencer ao mundo dos homens.

Clara muitas vezes teve vontade de percorrer de madrugada os lugares desertos, experimentar-lhes a solidão. Como no sonho em que ia envolta numa capa larga, uma capa que lhe roçava o corpo, uma capa úmida das gotículas de sereno. Teve vontade de esgueirar-se junto a uma árvore, pendurá-la num dos galhos baixos e ainda andar alguns minutos ante as portas cerradas do setor comercial, sob o brilho frágil de uma lâmpada de mercúrio, o corpo a refletir o brilho baço da noite, a pele a não lhe negar o calor, reagindo ao ligeiro frescor do fim de primavera. Um amante a despedir-se.

quinta-feira, abril 30, 2009

De olhos vendados: capítulo 8 - Final

Zilda retomou as saídas com Roberto. Ora era ela mesma, ora pregava uma peça e aparecia de surpresa, como se fosse outra pessoa. Algumas vezes ele realmente ficava na dúvida de quem se tratava. Jamais conseguiu entender como uma jovem de dezessete anos, vestida como quem vai para um ensaio de balé, pudesse ser aquela juíza, vinte anos mais velha do que ele.
Roberto tomava um suco num quiosque, na Vieira Souto. De repente se viu envolvido com alguém de menos idade do que ele, o cabelo amarrado com duas tranças. Ela perguntou:
“Moço, paga um suco pra mim?”
“Mas você é tão bonita, bem tratada, como pode querer que eu pague um suco?”
“Moço, por favor, as aparências enganam.”
“Onde você pratica balé?”
A jovem disse o nome de uma famosa academia de dança, situada no mesmo bairro.
“Como você tem dinheiro para pagar a mensalidade de uma academia caríssima e não tem para comprar um suco?”
“É que eu achei você bonitinho.”
“Bonitinho pra pagar um suco?”
“Bonitinho pra namorar”, falou e caiu na gargalhada.
Entendeu o que ela queria.
A moça o pegou pelo pescoço e beijou-o no rosto, depois procurou a boca do escritor.
Ele aceitou o afago, mas viu-se embaraçado num beijo escandaloso às três da tarde, em plena rua.
Ficou com a moça durante algumas horas. Ela pediu que a levasse à casa dele. Roberto sentiu algum temor.
“Qual a sua idade?”
“Não se faz essa pergunta para as mulheres.”
“Levar você ao meu apartamento pode me trazer problemas.”
“Você é casado?”
“Não, não se trata disso; é que você é muito jovem.”
“Você não gosta de garota nova?”
“Gosto, mas você parece que é menor de idade.”
“Acho que vou ter de mostrar a minha identidade.”
Tirou de dentro das roupas uma carteira. Tinha dezessete anos e se chamava Daniele.
“Dezessete anos ainda não é maior de idade.”
“Como não, se posso votar pra presidente?”
Roberto riu da argumentação; acabou ficando com a menina.
Ela fez apenas duas exigências quando já estavam no apartamento do rapaz: uma camisinha e que o quarto estivesse muito escuro.

No dia seguinte, ao encontrar Maria Zilda, ele não acreditou quando ela disse que representara para ele uma personagem chamada Daniele. Apesar de ter contado todos os pormenores, ele não se convenceu.
“Você contratou alguém para me seduzir”, disse.
“Seduzir você?”
“Isso, seduzir.”
Maria Zilda riu alto.
“Não pode ser verdade, não vou acreditar de modo algum nisso, você vai acabar me enlouquecendo.”
“Você me traiu”, disse Zilda.
“Como, traí?”
“Me traiu com essa Daniele.”
“Mas você não está dizendo que essa moça era você?”
“Mesmo que fosse, você me traiu, saiu com outra pessoa; sabia que você não abriria mão de uma mulher mais jovem.”
“Mas foi você que instigou, que criou essa situação. Ninguém ficaria imune a uma moça daquele tipo.”
“Você me traiu”, foi a sentença de Zilda.

Ficaram sem se falar dali em diante. Ela não mais telefonou. Roberto passou a enfrentar um terrível dilema. Toda mulher que conhecia, temia que fosse Maria Zilda.
Depois de um ano de análise psicanalítica, porém, passou a não se preocupar mais com isso. Se fosse Zilda, azar o dela. Um dia contratou duas mulheres para fazer amor com ele. Foi assim que resolveu a questão. Se Zilda estivesse ali, seria apenas uma.

Em setembro, lançou seu terceiro livro. Escritor já famoso, festejado, premiado nos dois livros anteriores. A intelectualidade carioca compareceu em peso numa quarta à noite, na livraria Argumento. Atendeu a leitores, a fãs e a jornalistas. Autografou muitos exemplares.
No final, quando se preparava para ir embora, uma anciã entrou na livraria.
“Sei que já passou da hora, mas será que o senhor Roberto ainda se encontra?”
“Alguém apontou para onde ele estava.”
A velha foi até ele.
“Poderia autografar esses dois exemplares?”
“Sim, qual o seu nome?”
“Maria Zilda.”
Roberto a olhou incrédulo. Autografou rápido e entregou os exemplares.
“A juíza que é sua personagem faz parte de algum tribunal inferior?”, quis saber a mulher.
“Tribunal inferior? Que tribunal inferior?”
“Oh, o senhor nunca leu O processo, de Franz Kafka?”
“Oh, Kafka, Kafka...”, repetiu mecanicamente.
A senhora guardou os exemplares na bolsa, agradeceu e se foi. Se alguém caminhasse a seu lado, ainda poderia ter ouvido uma última frase, num tom quase melancólico:
“Oh, esses jovens escritores...”

sábado, abril 25, 2009

De olhos vendados: capítulo 7

Enquanto Roberto esteve em Brasília, Maria Zilda saiu com um velho amigo, no Rio. Ele trabalhava como analista de judiciário, uma função importante nesse ramo do poder. Ela o conhecia de longa data, desde antes de tornar-se juíza. Marcaram encontro no bar do Sofitel.
Na noite de quinta-feira, não há show ao vivo no local. Aproveitaram para conversar e beber uísque. Poucas pessoas freqüentavam o bar; a música de fundo era baixa.
Maria Zilda vestia-se de modo elegante, um tailleur de cor clara. João Carlos, seu amigo, trajava terno, como de costume. Ele tinha a aparência de alguém em constante estado de angústia, mas quando sorria mostrava uma face jovial. A bebida fez logo que ele se soltasse. Tinha uma forte queda pelas mulheres, porém nunca tentara nada em relação à Zilda, temia perder sua amizade.
“Quer dizer que agora você tem passeado com um escritor?”
“Tenho, mas ele ainda é jovem, parece que vai lançar o terceiro livro.”
“Você já leu alguma coisa dele?”
“Sim, o primeiro livro dele é muito bom, fez sucesso entre a crítica.”
“Crítica?”, perguntou o amigo em tom de deboche.
“Isso. Os principais jornais falaram bem.”
João Carlos estava por volta dos quarenta e cinco anos, tinha a vida estabilizada financeiramente.
“E quantos anos ele tem?”, quis saber.
“Acho que trinta ou trinta e poucos, não tenho certeza.”
“E já faz tanto sucesso?”
“De certa forma, sim.”
“A imprensa quer rostos jovens e bonitos, celebridades, não está interessada no que eles escrevem.”
“Mas pelo que sei, não falaram do rosto dele, falaram do livro.”
“E não apareceu a foto no jornal?”
“Sim”, confirmou Zilda.
“Então?”
Maria Zilda olhou para o amigo, piscou os olhos, sorriu e levou à boca mais um gole de uísque.
O amigo foi quem falou:
“Sabe, já tentei ser escritor. Tenho até umas coisas escritas. Mas acabei desistindo. Acho que a minha vida organizada fez que eu perdesse o interesse pela literatura. Veja, fiz concurso, consegui um bom emprego público, ganho bem, nada me falta. Vou escrever sobre o quê? Hoje, bebo; é isso que sei fazer melhor.”
Levou o copo também aos lábios, sorveu um longo gole enquanto a amiga olhava para ele e não deixava de estampar um bonito sorriso.
João Carlos olhou para fora, pôde apreciar toda a orla marítima. Como era noite, não podia ver o mar até o horizonte. Mas a paisagem, possível de ser admirada da varanda do bar, permitia que se visse o céu escuro, a arrebentação com suas espumas claras e a iluminação noturna que ia até a beira d’água. Mais próximo de onde estavam, exibiam-se a avenida e os automóveis que transitavam àquela hora.
“Não sabia que você escrevia. Nunca tentou publicar?”
“Não, não tive ímpeto para isso; talvez nunca tenha acreditado no que escrevia. Certa vez, ganhei um concurso de contos. Mas isso já faz vinte anos.”
“Que pena; não se deve desistir dessas coisas.”
“E você? Fale-me um pouco sobre o que anda fazendo ultimamente.”
“O que uma juíza de uma vara trabalhista pode andar fazendo ultimamente?”
“Ah, não sei. Há coisas interessantes. E fora o trabalho?”
Maria Zilda olhou firme para ele, disse com convicção:
“Sou uma atriz.”
“Atriz?”, repetiu em forma de pergunta o homem e acabou por deixar escapar uma ligeira gargalhada.
“Por que as atrizes não merecem respeito?”
“Desculpe-me, claro que merecem”, tentou consertar. “Então explique. Você trabalha em que peça de teatro?”
“No momento, não atua em peça alguma. Mas sou um outro tipo de atriz.”
“Como? Então me explique.”
“Quer saber, mesmo?”
“Represento quando tenho vontade."
Ela tinha a intenção de lhe contar a verdade. Esperou que ele fizesse outra pergunta. Mas ele permaneceu durante longo tempo em silêncio.
Quando voltou a falar, foi para perguntar se ela se desejava comer alguma coisa. Zilda meneou a cabeça em negativa. Mas mesmo assim ele chamou o garçom e pediu um pequeno couvert. Queria acompanhamento para a bebida.
“Escritores, atrizes, poucos tem coragem para isso. Preferimos a bebida. Por frustração tornamo-nos alcoólicos.”
“Talvez”, não titubeou Zilda. “Mas mesmo assim a vida tem seus atrativos.”
“Oh, claro, o fato de estarmos aqui, de termos dinheiro para freqüentar um lugar requintado como esse, de podermos viajar nas férias, conhecer outros países, ver monumentos, museus e tudo mais são grande atrativos. Porém, ao ver um escritor, ao constatar que faz sucesso, ao me deparar com um deles, que geralmente são mais novos do que eu, sinto uma intensa frustração, ou mesmo inveja. Não sei ao certo a definição.”
“Eu não sinto inveja das atrizes. Represento melhor. E, quando represento, ninguém percebe que está no teatro. Falo sério, viu? E só estou contando isso a você.”
“E o seu amigo escritor gosta de você?”
“Claro que gosta, mas é meio burro. Não percebeu ainda o meu teatro. Quando falei com ele sobre isso, não entendeu e quase entrou em crise.”
“Os jovens são imaturos”, afirmou João, “mesmo que escritores. Já vi gente que criou personagens fabulosos; mas quando conheci o criador, nunca pensei que tanta mediocridade pudesse levar a personagens tão geniais.”
“Mas isso não é característica só dos jovens, muitos escritores de idade avançada também aparentam ser pessoas medíocres.”
“Acho que quando se é jovem, tanto pior.”
“Esse meu amigo alterna momentos de lucidez com momentos de extrema ingenuidade.”

Por que a vida vivida no dia-a-dia não satisfaz as pessoas? Por quê, para muitas delas, são necessárias ações extremas, que poderiam colocá-las em perigo?
Certa vez conversava com uma jovem que a procurara para uma questão judicial. Viera por intermédio de uma outra juíza que anos antes trabalhara com Maria Zilda. Conversaram sobre amenidades antes de entrar na questão que era o motivo da visita. A jovem tocou num assunto referente a um relacionamento conturbado que ainda vivia. De repente, falou:
“Conheci o rapaz numa boate, mas não saímos naquele dia.”
Então foi a vez de Zilda:
“Você sai com um rapaz no mesmo dia em que o conhece?”
“Saio apenas para conversar, mas tenho amigas que saem no mesmo ida, vão direto para o hotel, ou para algum lugar onde seja possível transar.”
“É mesmo?”
“Sim; tenho amigas que não pensam duas vezes.”
“E elas não têm medo?”
“Não sei”, continuou a moça, “acho que não. Eu tenho medo. Se não conheço o homem, não vou pra cama com ele logo na primeira vez. Às vezes demoro muito a aceitar a relação sexual. Então eles vão embora à procura de outra.”
“Mas você parece que conheceu alguém, se relacionou, e depois saiu muito prejudicada, certo?”
“Certo.”
“Então? Você não achava que o conhecia?”
“Conhecia-o, sim. Fui prejudicada, mas não trepei com ele na primeira noite em que o vi. Creio que caso o tivesse feito, não aconteceria nada demais. Mas não é sobre isso que falo. Acho que há homens que são malucos; são capazes de machucar, ou mesmo matar. Por isso, é melhor sair para fins sexuais com alguém já conhecido no nosso círculo de amizades; assim é mais seguro. Mas quanto a esse relacionamento que me causou e ainda me causa problemas, as razões são outras...”
“E já houve problemas com algumas de suas amigas que vão para cama com alguém logo no dia que o conhece?.”
“Acho que não, nunca perguntei. Certa vez ouvi falar de uma que foi agredida, ou coisa semelhante, mas não tenho certeza.”

Naquela mesma noite, Zilda enquanto caminhava pela Avenida Chile na direção da Rio Branco, avistou o homem que, tempos atrás, a seguira de dentro de um Citröen. Dentro do mesmo carro, ele dirigia procurando acompanhá-la. Vez ou outra algum motorista de outro automóvel tinha de reduzir a velocidade por causa dele; então buzinava, ultrapassava e escapava em velocidade, demonstrando todo descontentamento por ter sido atrapalhado. Maria Zilda continuou andando como se nada tivesse percebido. Mas o homem a seguiu. Quando ela se encontrava na cafeteria que costumava ir, lá estava ele, numa outra mesa, olhando para ela. O homem tinha nos olhos alguma alegria.
Ela lembrou da conversa que tivera com a jovem, sobre sair com alguém que se conhece no mesmo dia. A possibilidade de enfrentar aquele homem, proporcionou-lhe um certo frio na barriga. Quem sabe se o encontrasse numa outra situação, ela sendo outra pessoa?

A Barra da Tijuca havia muito não constava nos planos da juíza. Tanto mais à noite. Mas marcara com o homem. Conseguira fazer chegar a ele um pequeno bilhete, após sair da cafeteria. Agora, estava na varanda de um restaurante, na avenida Sernambetiba. A construção ficava longe do mar. Era possível ver a arrebentação, mas para ouvi-la, era necessário apurar os ouvidos. Zilda viera como ela mesma. Não tivera coragem de construir outra personagem. Sabia o risco que corria. O homem provavelmente a conhecia, sabia de seu cargo, tinha sua vida esquadrinhada. Ela achou que se arriscava. Mas já fizera o mesmo outras vezes. Já saíra com alguém no mesmo dia em que travara conhecimento? Bem, era melhor não levantar a questão no momento...
Ela chegou antes da hora. Gostava de se antecipar. Ele chegou na hora marcada. Olhava para os lados e não se surpreendeu ao vê-la.
Sorriu, estendeu a mão. Ela levantou-se e ofereceu o rosto.
O que poderia conversar com um homem daquele?
De inicio, a conversa foi travada. Muitas mesuras e considerações. Mas, depois, ele começou a falar mais abertamente.
“Pensei em procurá-la no seu gabinete, mas não tive coragem. Achei que seria uma afronta.”
Sorriu. Ia dizer que não achava nada demais, porém apenas mexeu com os olhos e procurou o copo sobre a mesa.
Ela quis saber se não se aborrecera durante o tempo todo em que esteve tentando encontrá-la.
“Algumas vezes pensei em desistir. No outro dia, logo achava que não perderia nada em fazer mais uma tentativa.”
“E a tentativa foi essa última, na cafeteria?”
“Não, saí muitas vezes no seu encalço. Mas não tive sucesso.”
Via-se que era um homem formal. Não tinha conversa. Procurara-a apenas por atração física, ou mesmo porque poderia ser interessante se relacionar com uma mulher importante.
“Você gosta de livros?”, perguntou a ele.
“Oh, gosto.”
“O que está lendo ultimamente?”
Demorou tanto para citar alguma coisa, que logo percebeu que ele não lia; ou lia apenas jornal. Pois citou um livro que despertou uma polêmica entre alguns críticos de literatura, cuja discussão aparecera no último sábado, num jornal diário.
Quis saber como funcionava a justiça.
Maria Zilda, para encurtar a conversa e não trazer os aborrecimentos do dia-a-dia para aquela hora, foi ao ponto certo quando disse:
“Simplesmente não funciona.”
Ao acabarem de jantar, Zilda embarcou no automóvel dele.
“Você sabe, um homem e uma mulher juntos, não pode haver apenas isso...”
“Isso, o quê?”, perguntou Zilda.
“Um jantar.”
Ela não quis perguntar o que poderia haver a mais. Sabia a resposta. Apenas falou baixo:
“Não nos apressemos; temos todo o tempo do mundo.”
Ele não perdeu a oportunidade:
“Será?”
A juíza disse que morava em Copacabana. Mas seu recente enamorado insistiu em permanecer um pouco mais ao lado dela. Maria Zilda jamais contou a alguém o que aconteceu naquele intervalo de três horas, desde a saída do restaurante até pisar o passeio da principal avenida do bairro onde dizia morar.
Deixou-a na entrada de um prédio bonito, na avenida Atlântica. Zilda deu adeus e ele se foi. Entrou a seguir num táxi e rumou para o Leblon.

sexta-feira, abril 24, 2009

De olhos vendados: capítulo 6

O aeroporto internacional Tom Jobim tinha um movimento digno de uma quinta-feira; um número médio de pessoas transitava por suas dependências. O local onde havia mais movimento era o terceiro piso, onde fica um pequeno shopping e a praça de alimentação. Roberto chegara cedo, faltavam em torno de duas horas para o seu vôo. Dirigiu-se ao restaurante Domoiselle, o mais luxuoso do lugar. Ele vinha puxando uma pequena mala e trazia no ombro uma pasta, em que guardava alguns livros, documentos e o notebook. Um funcionário do restaurante acompanhou-o até uma das mesas e disse que ficasse à vontade. Roberto olhou ao redor, reparou os dois salões, um deles ainda quase vazio, com mesas cobertas por toalhas muito brancas, sobre elas talheres de prata; poltronas acolchoadas rodeavam as mesas. Optou pelo salão central, onde várias pessoas já almoçavam. Havia um longo corredor com as iguarias arranjadas artisticamente. As pessoas podiam transitar por ali e escolher o que bem desejassem. Pousou as malas sobre uma das poltronas, tendo a preocupação de avisar a um dos garçons que iria até o self-service. O funcionário atendeu-o e falou que não se preocupasse. Roberto segurou um grande prato e colocou um pouco de salada, alguns legumes cozidos e um pedaço de frango grelhado. Decidiu que faria uma alimentação frugal. Voltou à mesa e encomendou um suco de laranja sem gelo. Enquanto comia, reparou as pessoas que se espalhavam pelas outras mesas. Havia muitos homens de terno; alguns usavam crachás que indicavam quem eram e em que trabalhavam. Reparou na mesa ao lado dois homens que deveriam ter trinta e poucos anos. Suas identificações mostravam que se tratava de funcionários da Polícia Federal. Seus ternos eram muito elegantes e os dois se portavam com desenvoltura e naturalidade. Conversavam animados e em determinado momento acenaram para um senhor mais velho que eles. O de aspecto mais jovem disse:
“É meu amigo, trabalha na Receita.”
Apresentou-o ao outro. O recém-chegado juntou-se a eles e a conversa tornou-se ainda mais animada.
Roberto gostou de apreciar aqueles três. Irradiavam um ar de felicidade e satisfação pelo local em que estavam e provavelmente pelos cargos que ocupavam na vida profissional.
Em outras mesas havia senhores dos mais variados tipos, mas a frquência do local primava por aqueles que tinham mais de quarenta anos. Algumas mulheres também almoçavam, sempre junto a dois ou três daqueles homens, todos tinham o aspecto de pessoas bem sucedidas. Em uma das mesas, uma jovem falava ao telefone, seu cabelo castanho descia sobre o ombro esquerdo numa enorme mecha.
Quando acabou a refeição principal, o garçom veio perguntar-lhe se estava satisfeito. Agradeceu. Disse que se sentia muito feliz por estar ali. O empregado apontou-lhe a mesa das sobremesas. Roberto levantou-se e rodeou o local. Decidiu comer um pequeno doce de cor amarela. Depois agradeceu muito, pagou a conta e saiu.
Já fora do restaurante, caminhou pelo salão onde ficam os cafés e as lanchonetes. Olhou uma coisa e outra, deu-se com as lojas que vendiam lembranças do Brasil, como café, cachaça, perfumes e outras miudezas. Depois olhou a livraria. Deu alguns passos mudando de direção e viu a grande lanchonete do Café Palheta. Sentiu vontade de tomar chá preto. Perguntou a uma das funcionárias se a casa servia chá. Ela disse que sim. Ele dirigiu-se ao caixa e pediu a bebida. Quando se encontrava em uma das mesas, observou uma mulher muito bonita, que vinha descontraída; ela sentou-se em uma das mesas próximas. Destacava-se das outras pessoas porque usava vestido preto curto, que saía por baixo de uma jaqueta branca de algodão; a jaqueta ia aberta. A mulher provavelmente ouvia música; era possível observar os fones que tinha no ouvido. Ela sorriu, talvez para ela mesma, tomou nas mãos o telefone e fez uma ligação. Soltou um dos fones, sua voz fez-se ouvir; abriu um sorriso ainda maior e pareceu falar com alguém a quem chamava de amor. Enquanto se manteve sentada, cruzara as pernas; apareceram-lhe as grossas coxas nuas. Roberto ficou a observá-las e achou-se pequeno para uma mulher daquele tipo. As pernas compridas dela com a sandália alta nos pés ressaltavam a elegância da jovem. Ele pensou um pouco mais e concluiu que, na verdade, nada tinha que o diminuísse perante uma mulher daquele tipo. Viu que ela virou-se e olhou para ele algumas vezes; mantinha o sorriso. Como ainda estava ao telefone, não sabia se o sorriso era para ele ou para a pessoa com quem falava. Quando desligou o aparelho, sua primeira ação foi colocar novamente os fones no ouvido. Ainda permaneceu à mesa durante alguns segundos, depois se levantou e partiu em direção a uma das lanchonetes. Trazia uma bolsa dependurada a um dos ombros e via-se um casaco de malha grossa amarrado elegantemente à própria bolsa. Depois que ela se foi, Roberto levantou-se e deu mais uma volta pelas lojas; caminhou até a proximidade dos caixas eletrônicos; quando voltou e dirigia-se à escada rolante, deu-se mais uma vez com a mulher; ela caminhava em sentido contrário. Roberto olhou mais uma vez para o seu rosto, depois para o vestido curto e, por fim, para suas coxas nuas. Foi a última vez que a viu.
Durante o vôo para Brasília, Roberto leu uma revista de poesia. Na verdade, ela aparentava mais um livro, devido ao formato e tamanho. Muitos autores escreviam nela, poetas, sobretudo, e de vários países. O exemplar que ele portava tinha o autógrafo do organizador, um poeta conhecido. Roberto comparecera ao lançamento.
Ao seu lado, a poltrona ia vazia, mas na seguinte havia uma jovem, talvez tivesse dezoito ou dezenove anos. Ele sorriu algumas vezes; aqueles sorrisos que as pessoas expressam muitas vezes em viagens, quando não tem o que dizer. Sempre há alguém que é solidário durante um espaço de tempo em que se tem de conviver juntos, mas, ao mesmo tempo, não se deseja conversar, apenas um sorriso de simpatia. A moça lia a revista Seleções. Interessante, pensou ele, não via ninguém ler essa revista havia muito. Voltou-se para o livro de poesias. A comissária passou rápida e sorriu também. Ele reparou que ela usava nos braços uma espécie de manga comprida, mas que não dependia de blusa alguma, vinha desde acima do cotovelo e terminava nos punhos. Era bonita a mulher, como quase todas as comissárias. Roberto a imaginou nua, trajando apenas aqueles panos elásticos brancos que lhe cobriam os braços.
Ao chegar à capital federal, ainda era cedo para apresentar-se na Universidade. Faria uma palestra em que o tema era a literatura e os jovens autores. Um táxi que o aguardava levou-o a um hotel elegante no Setor Hoteleiro Norte. Reparou a vasta recepção, a elegância dos funcionários e o modo como o receberam. Ficou hospedado no décimo quinto andar. Ao chegar ao apartamento, já com as duas malas repousando junto à mesa lateral, deu alguns passos até a janela e pode reparar a vasta paisagem. O prédio era alto para o nível de construção da capital; podia ver algumas quadras, o eixo monumental, e mesmo os automóveis que circulavam distantes.
A palestra não foi o principal acontecimento para ele. Encontrara diversos amigos, conversara com todos sobre cultura e literatura. Foi procurado por alguns jovens que queriam estrear no mercado editorial; autografou alguns exemplares de seu último livro; aceitou examinar, mais tarde, algum manuscrito. Mas o principal foi a ida a um restaurante a convite de um amigo que viera de São Paulo. Beberam e comeram à vontade. O amigo era muito mulherengo e já marcara um encontro com duas jovens, daí o convite para que Roberto o acompanhasse.
Elas chegaram às dez e trinta, uma hora depois desde a chegada dos dois Vestiam roupas curtas. Roberto achou as moças um tanto extravagantes.
“Não gosto de falar de literatura, gosto de beber e de mulheres”, dissera-lhe o amigo.
Roberto, depois de ter tomado duas doses de uma cachaça interiorana, bebida boa, artesanal, começou a achar que Ramon tinha razão. A que levavam as conversas sobre literatura? Debatiam-se livros que quase ninguém lia; a seguir, as pessoas queriam saber particularidades da vida do autor. As mulheres, sim, elas eram sempre falsas, mentiam; mas nisso, ao menos, existia uma verdade; até mesmo um cego a enxergaria. Apesar de todo o fingimento, de toda a maquiagem material e espiritual, eram pessoas indispensáveis.
Roberto, porém, descobriu que elas eram prostituas.
“E quem não é?, disse o amigo no momento em que as duas pediram licença para ir ao toalete. E repetia para ver se Roberto acordava para aquela verdade: “E quem não é?”
Em seguida, o garçom chegou com mais duas doses. Uma de Black Label para Ramon e a cachaça para Roberto.
“As pessoas se vendem por qualquer preço; veja, o próprio capitalismo tornou ético tudo que antes era denominado prostituição. Você pode trabalhar para alguém, caso encontre outra pessoa que lhe pague mais, você muda imediatamente. Mas essa já é uma conversa antiga, vamos prestar atenção nas mulheres, e elas já estão voltando.”
Elas sorriram e sentaram-se. Evitavam bebidas alcoólicas. Eram bonitas, apesar de as prostitutas não terem muito essa qualidade. Uma delas tinha o cabelo preto, ele descia pesado até a metade das costas. Sorria sempre. A outra tinha o cabelo mais claro e mostrava-se séria. Bastava, porém, algum elogio partido de um dos homens para que ela abrisse um meio sorriso. Quase não falavam; esperavam a iniciativa deles.
Roberto e Ramon evitaram assuntos intelectuais. Preferiam conversar sobre o que viam no cardápio. As duas mulheres não fizeram questão de pedir algo para comer, pareciam não ter fome. De soslaio, Roberto olhou para as pernas da morena; cruzara-as talvez sem intenção de mostrar parte das coxas. O vestido não era muito curto, mas na posição em que ela se encontrava, ele subira.
Talvez um dos problemas de sair com prostitutas seja esse, pensou Roberto. Elas quase não falam, talvez apenas se interessem pelo ganho financeiro que terão durante a noite. O fato de elas nada falarem o incomodava. Seu amigo, porém, não se afetava com isso. Ele logo perguntou se elas estavam acostumadas a vir àquele restaurante. A reposta foi dada imediatamente pela morena, dizendo que iam com mais frequência aos restaurantes que se situavam do outro lado, após a terceira ponte. A de cabelos mais claros chamava-se Letícia; ela pôs-se a comentar sobre os restaurantes mais badalados da capital. Roberto ficou a ouvi-la; então notou que Angélica, a morena, descruzara as pernas, mas o vestido permaneceu no mesmo nível, deixando agora as duas pernas da mulher de fora. Letícia era a mais simpática. Acabou aderindo totalmente à conversa, comportando-se como uma pessoa que os conhecesse havia muito. Bebia seu coquetel sem que deixasse perceber para que estava ali.
Em determinado momento, Roberto pensou em Maria Zilda. Preocupou-se com o que ela poderia estar fazendo àquela hora. Não via o momento de voltar ao Rio para procurá-la e tê-la nos braços. Temeu que ela estivesse encenando mais uma de suas representações. Maria Zilda era uma mulher que lhe escapava totalmente do controle.
Ramon envolvera-se na conversa. Descobrira que uma delas era de Belo Horizonte. Não suspeitava que houvesse alguém de BH que pudesse exercer a profissão que as duas escolheram. Depois, sem que perguntasse, Letícia falou que viera a Brasília para estudar e que na verdade nunca deixara de fazê-lo. Estava numa faculdade do DF, cursava jornalismo.
Roberto ouviu parte da conversa e duvidou que ela soubesse escrever alguma coisa, ao menos a nível profissional, mas ocultou o que ele e o amigo faziam quando ela perguntou em que trabalhavam.
“Para o governo”, foi a resposta que haviam combinado.
“Oh, atendemos muita gente do governo.”
“Que bom, vocês então já estão acostumadas”, falou Ramon.
“De certo modo, sim; mas há alguns clientes que são extremamente desagradáveis. A proximidade do poder faz muitos pensarem que podem tudo.”
“Não é o nosso caso”, apressou-se Roberto, “depois, nem temos tanto poder assim.”
Deixaram o restaurante por volta da meia-noite e foram para o hotel. Não tiveram problemas ao subir com as mulheres. Por coicidência, estavavam hospedados no mesmo andar, cada um em um apartamento. Ranon escolheu Letícia.
Divertiram-se. Elas também gostaram. No meio da madrugada os dois falaram-se pelo telefone e combinaram trocar de mulheres. Angélica e Letícia saíram rápidas e mudaram de apartamentos; percorreram a pequena distância que separava os dois, sem vestir roupa alguma.

quarta-feira, abril 22, 2009

De olhos vendados: capítulo 5

Errou de modo escandaloso. Foi ela quem ligou. E marcou para saírem numa quarta-feira à noite.
Esperou-a durante quarenta e cinco minutos numa adega no Largo do Machado. O lugar não era mal, mas estava mais para botequim do que para um restaurante em que teria um encontro com uma juíza. Achava que magistrados gostassem apenas de lugares requintados. Ali não havia quase requinte, apesar de lhe terem dito que o chope era digno. Quando já não podia esperar e pensava que ela não apareceria, pediu a soma do pouco que consumira. Ao preparar-se para sair, deu-se com uma mulher jovem; deveria ter uns vinte três anos, ou até menos.
“Moço, o senhor pode me dar um pouco de atenção.”
Olhou-a da cabeça aos pés. Ela usava mini-saia e as pernas eram brancas e compridas. Ele assustou-se. Apesar de ser jovem e de atrair mulheres também jovens, achara a figura feminina um tanto vulgar. Não estava acostumado a conversar com mulheres semelhantes a bonecas de luxo.
“Moço, você não me respondeu.”
“Ah, é que eu esperava uma pessoa e...”
“E ela não veio?... Não faz mal, estou aqui, quero diverti-lo.”
“Divertir-me? Mas como?”
“Existem muitas maneiras”, disse dengosa.
Roberto a olhou de modo penetrante. Tinha a maquiagem forte, estava um pouco borrada e seus cílios eram longos. Não deixou de demonstrar desaprovação pelo estilo da jovem.
“Mas estamos de pé, não vamos nos sentar?”, ela emitiu uma voz fraquinha e de tom agudo.
“É que eu já estava de saída...”
“Mas não vai esperar pela pessoa que você mencionou?”
Roberto levantou um dois braços como se não soubesse o que dizer.
“As mulheres se atrasam, são pessoas diferentes”, sua voz quase de menina pareceu incomodar o escritor.
Ele queria dizer que já esperara demais, que na certa ela não viria.
“Você precisa de dinheiro, ou mesmo quer que eu pague alguma coisa para você comer?”
“Pagar?”, fez cara de choro. “Assim você me ofende; não fale para ninguém, mas sou uma mulher rica.”
“Rica?” Roberto repetiu a palavra, riu de modo debochado e chegou a levantar a cabeça mostrando-se surpreso.
“Surpreso você vai ficar quando souber quem eu sou.”
“Quem você é?”
“Uma acrobata.”

Maria Zilda ficou sem ligar durante duas semanas e também não atendeu telefonema algum. Quando Roberto conseguiu falar-lhe, não se desculpou nem deu satisfação. Agiu como se nada houvesse acontecido.
Saíram mais uma vez. Escolheram um restaurante na orla, em Copacabana. Conversaram.
“Você representa bem”, disse Roberto, “poderia ser uma atriz; ou melhor, é uma atriz.
“Você precisa saber que a representação na verdade pode não ser uma representação, pode ser a verdade.”
“Como assim?”
“O que faz você crer que eu represento?”
“Durante o dia você não representa, você é uma juíza...”
“Quem disse que a função de juíza não é uma representação?, e pode ser tanto maior do que a de uma atriz de verdade. A atriz representa somente no horário da peça. No meu caso, posso representar de modo mais autêntico. Posso estar representando o tempo todo, em nenhum momento eu seria eu, ou melhor, não existiria esse eu exclusivo, mas sim todos ao mesmo tempo, ou se não todos, ao menos um de cada vez.”
“E quem seria você, afinal?”
“Aí é que está a questão. Eu poderia ser todas e, ao mesmo tempo, nenhuma.”
“Mas isso seria enlouquecedor...”
“Não, não seria, pode-se dizer que isso seja a representação total.”
“Mas quem seria você afinal, como eu lhe chamaria?”
“Por que você se desespera tanto com isso? Você precisa de que eu seja uma, a verdadeira? Você precisa de uma certeza, precisa de alguém que o ancore a um terreno seguro?”
“Isso na verdade é ameaçador!”, sua voz mostrava desespero.
“Ouça, é você o romancista. Você poderia pensar sobre essas coisas melhor do que eu. Sou apenas uma mulher que anda por aí, cada dia sendo uma diferente. E pelo fato de eu ter um nome, um cargo ou uma profissão, não significa que essa representação que você diz não ser representação seja mais verdadeira do que as outras.”
“Mas você tem documentos...”
“Oh, documentos...”
“Você tem uma carteira de identidade, um CPF...”
“Oh, um CPF! O CPF e a carteira de identidade nos salvam da esquizofrenia; os documentos que instauram a legalidade são um modo de dar sentido a essa loucura toda! Que escritor é você? O que você escreve nada vale? Também não é documento? Não criam uma outra legalidade, ou mesmo um outro mundo?”
“Eu já pensei nisso e pensei muito. Os documentos além de serem um meio de dar sentido dão poder às autoridades, não permitem a loucura, afastam-na para bem longe, encerram-na em hospícios ou prisões. A loucura é uma forma de desorganização, ou organização da desorganização, mas cada qual organizando-a a seu jeito, logo não seria suportável; seria um meio de fala por metáforas e não é possível falar por metáforas o tempo todo.”
“E a legalidade não é uma metáfora?”
“Talvez, mas sob a toga do poder, tal qual a sua; se você não a veste, está ameaçando a vida social”, disse Roberto com segurança. “Você não pode abandonar um julgamento para sair por aí fantasiada de drag queen!” Ele mostrara certa violência nas palavras, dava por vencida a discussão.
“Sei que tenho limites, mas uma mulher como eu tem prerrogativas.”
“Os magistrados sempre têm prerrogativas.”
“Não falo nesse sentido; sou uma mulher rica, tenho minhas vantagens.”
“A representação estaria mais próxima da riqueza, então?”
“De certa forma, sim. É preciso que exista dinheiro para que a representação seja possível, e que seja levada a sério, tão a sério que soaria como uma verdade.”
“E o talento? Onde entra nessa história?”
“Dinheiro e talento. E, veja, você é um escritor, seria difícil sê-lo caso fosse uma pessoa extremamente pobre.”
Os dois silenciaram por algum tempo. Roberto olhou para as outras pessoas que se espalhavam pela parte da frente do restaurante. O mar estava longe, mas ouvia-se a arrebentação. Depois seus olhos encontraram os de Zilda. Ela sorriu.
“Deixemos essas bobagens”, ela disse e pegou-lhe uma das mãos. “Vamos namorar”, sorriu mais uma vez, “talvez isso faça mais sentido.”
“Hoje vou levar você para minha casa”, disse Roberto. “Quero ver a nudez de uma juíza.”
“Não vai ver nada diferente do que há nas outras mulheres.”
“Nunca namorei uma juíza.”
“Será que é a juíza que você vai namorar?”
Ambos acabaram sorrindo.

Acostumaram-se àquele jogo. Passaram a encontrar-se uma ou mesmo duas vezes na semana. Às vezes voltavam ao assunto da representação. Nada concluíam em definitivo, mas ficava o sabor amargo de não ser possível uma representação que excluísse os papéis sociais que os dois ocupavam; ele, de escritor; ela, de juíza. Às vezes desejavam ir a conseqüências extremas, mas percebiam que os papéis vividos por amabs durante algumas horas do dia eram os fios que os ligavam à realidade e proporcionavam a lucidez de que precisavam para não serem chamados de loucos. Ainda assim encontravam-se e gostavam de representar. Maria Zilda, principalmente, era a mais extravagante. Roberto preferia adotar a representação apenas no mundo romanesco.

Dois sábados depois, quando foi ao encontro de Zilda, deparou-se com uma mulher de meia idade que dizia ser uma turista viciada em jogo e que estava perdida na cidade. Falava português, mas seu sotaque era estranho. Não podia dizer que era Maria Zilda disfarçada, pois a estatura da senhora era menor, um tanto titubeante no andar e tinha olheiras profundas.
Ele tentou saber de onde ela vinha.
“De que isso importa?”, foi a resposta que a mulher deu. Ele demorou para entender.
De repente começou a pensar o porquê de estar ali ao lado de uma estranha, num lugar em que marcara o encontro com aquela de quem gostava. Fora a mulher que lhe fizera sinal, lembrava. Mas, em seguida, começou a pensar que poderia estar sofrendo algum tipo de golpe.
“A senhora me desculpe, mas não posso ficar a seu lado.”
“Não espera alguém?”
“Esperava, mas acho que a pessoa desistiu. Trata-se de uma mulher difícil e intempestiva.”
“O que vem a ser intempestiva?”, a mulher soletrou os fonemas, teve dificuldade em pronunciar a palavra.
“É uma palavra que vem de tempestade.”
“Oh, tempestade?”
“Isso mesmo, fenômenos da natureza, às vezes devastadores.”
“Como um tufão?”, ela arremessou o vocábulo com um som final quase terminado em "om".
“Exato, a senhora entendeu.”
Roberto achou melhor partir. Foi para casa e lá se deitou. Achou que tinha de deixar Zilda. Seria a loucura total permanecer ao lado dela. O telefone tocou, mas ele não atendeu. Sentou-se à mesa, encontrou algumas folhas e pôs-se a escrever. As palavras seguidas organizavam-lhe o pensamento. Não se tratava de nenhuma frase com sentido completo, eram palavras soltas, que começavam com as mesmas letras; primeiro, a mesma consoante e a mesma vogal, depois criava uma série delas que era puxada pela primeira palavra. Quando o encadeamento se dava por esgotado, partia para outra consoante e outra vogal, dali continuava. Enumerou várias colunas que, entre si, levavam apenas a objetos isolados. No final tentou uma série de sons que já não tinham significado algum; pouco a pouco perdeu-se num universo de ecos sem sentido. Adentrava um mundo apenas de sons imaginários; vez ou outra parava e tentava pronunciar fonemas esparsos, até que resolveu escrever uma frase. “Uma mulher nua bate à minha porta”, era uma fantasia, mas não deixava de ter sentido completo. Lembrou que certa vez escrevera um conto em que se dava a cena, ficou a imaginar a história e pensou de novo que ela poderia acontecer-lhe; e caso acontecesse, qual seria sua reação. O telefone tocou. Foi atender. Era Zilda.
Depois de alguns segundos em silêncio, ouviu que ela perguntava quem era. Continuou sem responder. Bateu o telefone. Mais alguns segundos e nova ligação. Era ela de novo. Escutou-lhe a voz, a respiração pesada. Desligou mais uma vez. Foi até o bar, tomou nas mãos uma garrafa de uísque, encheu meio copo, atirou a bebida goela abaixo, entrou no quarto, atirou-se na cama. Tudo estava escuro. Dormiu em poucos minutos.

Nos dias que se seguiram não mais atendeu o telefone. Sabia que ela o procurava, mas tinha medo de encontrá-la; desenvolveu uma intensa resistência a ela. Para esquecê-la, saía a esmo pela cidade, entrava em bibliotecas, pegava livros de filosofia, história, algum romance. Esquecia-a e também esquecia a conversa que tiveram. A questão da representação doeu-lhe fundo; tratava-se de um enigma, e ela queria vivê-lo ao máximo, aquilo para ele não era possível, precisava de lucidez, precisava ter uma identidade. Era um romancista, construía mundos, estabelecia ordens, mas essas ordens não podiam ser mutantes como queria a mulher, tinham que ter alguma estabilidade. Tinha consciência de que a literatura, mesmo que utilizando a metáfora, estabelecia uma ordem, uma ordem tão conservadora como a do mundo em que se vivia, portanto o que Zilda queria extrapolava todos os limites da razão. Certa vez ela o alertara que se a literatura não suportasse tal experimento, não teria capacidade alguma de resistência ou de contra-ataque. A literatura tornava-se, sob esse ponto de vista, mais um instrumento da ideologia, mesmo que se apresentasse como contra-ideológica. Lembrava que era como querer procurar uma nova nota musical, um som inexistente nas escalas da voz e dos instrumentos. O que queria aquela mulher? Queria enlouquecê-lo; era o que ele achava.
Num dos dias seguintes, a campainha soou enquanto lia um romance. Esquecera a mulher já fazia algumas semanas. Interrompeu a leitura e foi até a porta. Estranhou que ninguém ligara da portaria. Como é que a pessoa passara sem identificar-se? Poderia ser então alguém do próprio prédio. Mas não conhecia ninguém ali, nunca emitira mais do que um ligeiro cumprimento. As pessoas nem sabiam o que ele fazia, e muito menos que era um escritor com um futuro promissor. Foi até a porta e olhou no pequeno orifício que apresentava o lado externo. Mas estava escuro, não conseguiu ver coisa alguma. Teria imaginado o som? Quando analisava tal alternativa, escutou dois dedos que lhe batiam à madeira da porta. Olhou mais uma vez.
“Quem é? Diga quem está aí?”, a voz dele soou insegura, tentava alcançar a pessoa lá fora. De repente percebeu um papel que era enfiado por debaixo da porta. Tomou-o nas mãos. Leu as letras trêmulas.”
“Abra, por favor, estou em apuros. Não deixe que me descubram.”
Abriu a porta com as mãos ainda hesitantes.
Era Maria Zilda nua.
Acabou por namorá-la terrivelmente durante boa parte da noite. Ela gemeu de prazer o tempo todo. Mostrou-se quase que insaciável. Quando ele quis saber onde estavam suas roupas e como conseguira subir daquele jeito, ela nada falou.