domingo, fevereiro 26, 2012

Por favor, não faça isso

Meu marido levou-me para trepar com um travesti. Isso mesmo, um travesti. É bom dizer com todas as letras. É uma mulher aparente, muito bonita por sinal, mas tem um pênis enorme por debaixo da minissaia.

Não sei como funciona a mente das pessoas nem tentei estudar tal assunto, mas ele, meu marido, sempre me envolveu em suas fantasias. Tudo o que se possa imaginar em termos de sexo, já praticamos. Sexo em casa, sexo ao ar livre, fetiches diversos. Caso desejem, depois conto, mas agora não quero perder o fio da meada. Embora meu marido não quisesse outro homem envolvido na nossa relação, queria me ver penetrada por um pênis alheio. Então, optou pelo travesti.

Quando tocou no assunto, assustei-me. Mas convidou o rapaz. Ou melhor, a moça. Verdade, ninguém pode dizer que se trata de um homem. Meu marido afirma que Bárbara nasceu homem por acidente.

Fomos os três a um bar. Bebemos, comemos e conversamos. Muito simpática a Bárbara. Afável, risonha, culta e bela. Ainda não foi naquela noite que tiramos nossas roupas e nos aventuramos numa cama a três. Demoramos mais dois encontros. Todos marcados no mesmo bar. Depois do terceiro, entramos num táxi e desembarcamos na porta de um prédio na Domingos Ferreira, em Copacabana.

No apartamento dela, bebemos mais alguns drinques. Não vou contar os pormenores, mas apenas como tudo começou. Fizemos um jogo para que o fogo pouco a pouco nos queimasse. Ficamos de costas e tentávamos adivinhar de quem era a mão que nos acariciava. Quem errava, tirava uma peça de roupa.

Fui a primeira a ficar nua. Não sei se eles mentiam sobre as mãos ou se eu já estava embriagada. Dali para acabarmos nus, os três, não foi difícil. Enquanto trepávamos, eu não soube distinguir de quem era o pênis que me penetrava.

Saímos mais duas vezes, os três. Já na segunda, acertei todas as mãos no nosso jogo. Bárbara foi a primeira a perder toda a roupa. Pude então admirar seu pênis.

Na semana seguinte, telefonei para ela:

“Quero estar sozinha com você.”

“Mas e o Marcos?”

“Não sabe de nada; por favor, não fale com ele.”

Marcamos. Recompensei Bárbara regiamente. Ela gostou da ideia de sairmos também apenas as duas dali em diante, em segredo. No mais, continuaríamos nossos encontros, os três.

Nas transas de nós duas, sempre fiz questão de que ela trepasse comigo como se fosse homem. Apesar de ter o corpo de mulher, não me decepcionou. Tudo o que eu desejava ela prontamente correspondia. Jamais trepei com tamanho ardor.

Comecei a gostar dela. Além de ser muito carinhosa, ficava sobre mim, ou eu sobre ela, o tempo que eu quisesse. Cheguei a gozar cinco ou seis vezes, e gozaria mais. Já que sente prazer principalmente no ânus, Bárbara conseguia evitar o orgasmo. Para ela ejacular, eu teria de fazer o papel de homem e usar um desses pênis que são vendidos nos sex shops.

A razão de contar toda essa história não é simplesmente para que as pessoas saibam o que é namorar um travesti. O fato inusitado descobri no último encontro. Apaixonei-me por ela. E ela apaixonou-se por mim.

Gosto de fazer várias brincadeiras antes de chegarmos ao principal. Uma delas é deixá-la nua, sem possibilidades de esconder o pênis. Ou vesti-la com uma saia curtíssima e fazê-la desfilar tendo que esconder sua masculinidade. Cada vez que lhe escapa o pênis, ela tem de me pagar um bolo. E adivinhem como isso acontece? Precisa me levantar bem junto à parede, segurar-me sem que eu toque o piso, abrir minhas pernas e me penetrar até que eu goze aos gritos.

Outro dia, um fato me deixou excitadíssima. Convenci Bárbara a sair nua no meu carro, no banco do carona. Levei-a para um passeio por toda a cidade. Não deixei que tivesse por perto roupa nem tecido algum que a cobrisse. Apenas o vidro escuro do automóvel ombreava sua nudez. E passeamos por lugares de intenso movimento.

Mas na última vez, assim que me penetrou, senti um jorro quente explodir dentro de mim. A seguir seu pênis amoleceu. Ela, envergonhada, afastou-se e o cobriu com as duas mãos. Enfim, falou:

“Perdão, isto aconteceu porque estou apaixonada por você.”

“Apaixonada?”, perguntei enquanto agachava e deixava escorrer seu sêmen.

“Ou apaixonado, não sei. Você, com todas essas fantasias, com esse carinho...”

“Será que daqui pra frente você vai gozar sempre rápido assim?”

“Não sei se vou conseguir fazer como antes. Agora sinto prazer, e quando isso acontece não consigo me controlar.”

“Que chato”, suspirei, “acho que vou ter de arranjar outro travesti.”

Ela, desesperada, olhou para mim:

“Não faça isso, por favor! Vou tentar fazer sexo com você como antes. Se for preciso, vou à terapia. Me dê pelo menos um tempinho.”

quinta-feira, fevereiro 23, 2012

Deixo que me roube a fantasia

(Este é mais um conto de autoria da minha amiga Rosalinda. Ela se entusiasmou tanto com o carnaval...)

Clara, como está se sentindo com o término do carnaval?

Estou ótima, Ana. Antes da escola pisar na avenida, Joel fez a parte dele. Como sou rainha da bateria já faz cinco anos, não fico ansiosa com o desfile, consigo gozar tranquilamente. Joel chegou ao camarim da escola, eu estava com o meu corpo purpurinado, já me arrumando para a grande festa. Como sempre, ele nem pergunta se quero, com aquelas mãos macias começou a acariciar meus seios. Eu não resisti. Trancamos a porta, Joel percorreu todo o meu corpo com beijos provocantes. Penetrou com classe na minha estação primeira e gozamos ao som dos primeiros batuques da escola. E com você, Ana?

Eu te invejo, Clara, por isso perguntei. Meu parceiro predileto, o Gilson, que toca punheta ao som do pandeiro, não deu as caras. As mulatas sambam até o chão perto dele e ele aproveita o embalo. Semana que vem sei que vai aparecer por aqui, então mando pastar em outro pasto. Estou pensando seriamente em aceitar os assédios do Lauro. Lauro é magro, e dizem que homem magro tem pau comprido e duro. Se ele não rechear essa relação com beijos, linguadas e outras carícias, me encarrego disso; afinal, será um investimento que com certeza me dará lucro.

Nossa, Ana, você está decidida. Também quando chega o carnaval ninguém é de ninguém. O que vale é satisfazer o corpo.

Nesse momento entra Gilson. Ana, larguei tudo e vim aqui. Quero ter você, afinal é com você que tudo se concretiza.

A conversa acontecia na varanda que rodeia a casa de Ana. Clara entendeu a mensagem e se afastou para que os dois ficassem juntos, aproveitou o tempo em que eles com certeza dariam uma boa trepada para olhar os patinhos no lago bem ali próximo.

Gilson, assim sem esperar é muito mais gostoso. Meu corpo agora está bastante quente, estou a mil. Mas vê se não desaparece mais. Se isso voltar a acontecer, quando eu ficar nua no camarim da escola, passo no corpo aquele creme que uso antes de salpicar a purpurina e dou pro primeiro passista que aparecer. Você sabe, tem um monte de homem querendo me comer; no final do desfile, ainda deixo que me roube a fantasia.

segunda-feira, fevereiro 20, 2012

Retiro de carnaval

Este conto é de autoria de uma amiga que se chama Rosalinda. Como ainda não criou o seu blog, pediu que eu o publicasse. Espero que vocês gostem!

Enfim, cheguei!

Carlos! Vamos pro nosso cafofo?

Nossa, Sabrina, a dosagem dupla de ontem não te satisfez? Aqui é um lugar santo, vê se você se comporta. O carnaval para as pessoas do mundo é puro sexo. Nos clubes as mulheres colocam fantasias extravagantes, e os homens aproveitam para se esfregarem nelas.

Olha, Carlos, você sabe que eu ainda tenho ranços do mundo. Ainda sou pecadora. Entrei nessa para ficar com você nesses quatro dias, já que você vive rezando. Tudo bem que você nunca deixa a desejar, mas estou louca de tesão, e aqui estamos longe da igreja.

Sabrina, aos olhos de Deus todos os lugares são santos. Num retiro de carnaval, a gente quer uma convivência também com o nosso Criador.

Sabrina aquietou-se aparentemente.

Vamos, mulher, a equipe escolheu uns louvores agitados para alegrar um pouco a vida de quem ainda não se desgrudou totalmente da vida mundana.

Veja, Carlos, estou fantasiada de Nossa Senhora, você se fantasia de São José?

Ainda bem que ele aceitou. Dançaram ao som de bandeira branca e, depois, da letra: “Só Jesus Cristo salva, eu acredito. A sua vida se renova para Deus, você é cristão...”

Sabrina, com seu corpo fumegando de desejo debaixo daquelas saias santas, vê outro cristão também empanado de atitudes santas e fantasiado de anjinho. Deixa Carlos e engata no bonde do anjinho.

Josué, vamos caminhar um pouco por aí? O início de noite por esses campos nos fará bem. Olha, Josué, aquela gruta! 

Nunca vim aqui, estou amando!

O anjinho sem nada de anjo aproxima-se de Sabrina e...

Nossa, Josué, nunca pensei que com você poderia render um romance.

Sabrina, a carne é fraca, e sempre gostei de novelas de época porque fico excitado só em pensar o que as mulheres têm por baixo de tantas saias.

Josué, tenho uma preciosidade que precisa ser explorada. Para Carlos tudo é pecado.

As mãos do Josué tocam uma xereca preparada para o abate. Escorregando feito quiabo, os dois se deliciam numa gostosíssima transa.

sábado, fevereiro 18, 2012

Nuas no baile

Essa história que vocês contam não é nova. Faz pelo menos vinte ou trinta anos que a nudez já acontece em inúmeros bailes, principalmente nos de carnaval. Às vezes, ficávamos nuas pelas mãos dos homens; outras tantas, nós mesmas tirávamos a roupa. Muitas de vocês gostam de ficar nuas nessas festas de hoje que são chamadas de bailes funk. Vocês são muito jovens para saberem das histórias de carnaval, a não ser que alguém de idade superior a quarenta ou mesmo cinquenta anos lhes tenha contado. Havia aqui no Rio alguns clubes que no carnaval promoviam bailes que se tornaram famosos. Os mais conhecidos eram os do Monte Líbano e os do Sírio Libanês, este último clube nem existe mais. Vejam a ironia, as festas eram em clubes de origem árabe, países onde as mulheres são oprimidas até hoje. Mas os bailes daqui nada tinham a ver com isso. Lembro dos pré-carnavalescos e dos outros que ocorriam durante o carnaval. Nós, que os frequentávamos, já sabíamos o que nos poderia acontecer. Vestíamos sempre roupas sumárias, como biquínis mínimos ou fantasias que nos deixavam praticamente nuas. Posso enumerar alguns tipos que representávamos naqueles bailes. Ora íamos para pular carnaval, como se dizia na época; ora procurávamos camarotes de homens ricos e famosos, queríamos tirar proveito; ora enlouquecíamos diante das câmeras, queríamos notoriedade. Tirávamos o top quando o baile esquentava. Não faltavam mulheres que iam por curiosidade, mas que topavam o que viesse pela frente. Me lembro de uma amiga que foi pela primeira vez. Ao sentir que um homem tentava lhe desatar o biquíni, disse: “você deve saber o que está fazendo”. Às vezes a nudez total era problemática. Ser focalizada nua pelas câmeras era sinônimo de escândalo junto à família e à vizinhança onde se morava. O segredo era estar sempre vestida, ainda que com quase tudo de fora. Havia também aquelas que diziam: "estou para o que der e vier", e ficavam no escurinho, apertadas pelo primeiro que aparecia. Nesses bailes, não acontecia o que acontece agora nos bailes de vocês. Reparo que muitas moças hoje em dia ficam nuas mas têm o que vestir quando a festa acaba. Naquele tempo, caso você deixasse seu biquíni escapar nas mãos de um folião mais excitado, quando o baile acabava você se via em apuros. Era preciso encontrar um cavalheiro que lhe tivesse a generosidade de ceder a camiseta. O que a gente temia era acabar nua na delegacia. Vi muitas mulheres saírem peladas dos bailes daquele tempo, na maioria das vezes sob a proteção de grupos de homens ou rapazes. Eu mesma passei por essa situação. Mas não voltei para casa, fomos todas, eu e mais duas ou três, terminar a madrugada na casa de um rapaz que morava na Gávea. Nesses bailes era bom não ter namorado. Caso você estivesse acompanhada, dava confusão. Era também problemático ir ao banheiro feminino. Havia grupos de rapazes que ficavam à espreita nas proximidades. Quando saíamos do toalete, eles avançavam e começavam a nos bolinar. Era impossível resistir; nossas frágeis fantasias, tampouco. Não quero dizer com essa história, que a nudez nos bailes de hoje não tenha valor, mas como vivíamos num ambiente de menos liberdade, o frisson era bem maior.

domingo, fevereiro 12, 2012

Ensaios de Montaigne

Trabalhar numa cidade dessas, de praias paradisíacas, para onde na alta temporada vem gente de todos os lugares, ninguém merece, tanto mais se durante horas seguidas nada se vende. Chego à papelaria às dez da manhã. Se a patroa ainda abrisse a loja depois do almoço, como fazem os outros comerciantes locais... Mas, não, abre todo dia às dez em ponto, diz que precisamos aproveitar os meses de verão porque a loja vende utensílios para praia. Vá acreditar nesse nome, utensílios. Quais são? Baldinho e brinquedinhos para as crianças, guarda-sol, óleo de bronzear. Sou a primeira a chegar, além de tudo o que tenho a fazer durante o dia inteiro (varrer, tirar o pó, arrumar as mercadorias), tenho o dever de abrir a loja. Assim que levanto a porta o telefone toca. É a patroa perguntando se já cheguei. Tenho vontade de responder que não, que ainda estou no 15º sono. Ninguém entra na primeira hora, a loja é festa para as moscas. Até arranjei um livro. Um sebinho que fica aqui perto vende livros de bolso. Acho que o rapaz que trabalha lá gosta de mim, me vendeu um livro por três reais. De início me surpreendi com o nome: Ensaios de Montaigne. Mas, depois, me acostumei. Como nunca entra ninguém na parte da manhã, fico eu com o livro sobre o balcão a ler os tais ensaios. Esse Montaigne viveu em outra época, um tempo em que as pessoas eram mais sensatas, viviam recolhidas, não havia tantas coisas para se fazer. Mas, como diz o homem, morria-se muito cedo. De doenças, e devido a muitas guerras. Quanto às doenças, ainda não havia remédios, acho que as pessoas se curavam pela filosofia. Continuava na leitura, quando entrou uma pessoa na loja. Levantei os olhos, na verdade não era cliente, mas uma amiga.

“Oi, Marissol, bom dia, como vai?”, falei ao vê-la.

“Olá, Jane, vim só pra te ver.”

“Você que é feliz, pode ir à praia sempre a essa hora.”

“Sou feliz, sei disso, mas queria perguntar a você uma coisa?”

“Uma coisa?”, fiz ar de intelectual com meu livro do Montaigne sobre o balcão.

“Isso, tenho uma dúvida.”

“Então, pergunte”, fechei o livro, ajeitei os óculos e olhei Marissol.

“É sobre um rapaz.”

“Quem? Sobre rapazes não sei muito bem.”

“Não diga, Jane, sempre você está na Bay’s, e lá é cheio de rapazes.”

“Às vezes vou lá, mas só sábado à noite, você sabe, esse trabalho aqui não me dá muitas opções.”

“É sobre um rapaz que frequenta a boate, ele me falou para aparecer.”

“Aparecer, onde?”, perguntei, me abanei com as mãos, estava calor, olhei para o ventilador, parecia jogar o vento em todas as direções, menos na minha.

“Aparecer na Bay’s, Jane.”

“Qual é o nome dele?”

“Esse que é o problema, esqueci de perguntar.”

“Marissol, me poupe, por favor, você vem aqui na loja e quer informação sobre um rapaz de quem nem mesmo sabe o nome?”

“Mas você sabe, Jane, ele sempre está lá, usa um cavanhaque curtinho.”

“Cavanhaque curtinho? Me deixa pensar. Ah, deve ser o Marcelo. É um de cabelo curto preto, que quando está na praia usa sempre bermuda vermelha?”

“Isso, bermuda vermelha, deve ser ele mesmo. Me convidou para aparecer na Bay's, parou na praia, no trecho onde eu tomo banho de mar, para me paquerar, me chamou de sereia porque fico o tempo todo dentro d’água.”

“Então, e o que você quer saber dele?”

Marissol olhou como se investigasse tudo que loja tem para vender, depois se voltou para o meu livro, chegou a pegá-lo nas mãos, mas o pousou sobre o balcão.

“Será que posso encontrar com ele? É boa pessoa?”

“Marissol, nunca ouvi ninguém falar nada de mal sobre ele, apenas que é namorador, acho que se for por uma noite, tudo bem, o difícil é ele ficar com alguém por muito tempo.”

“Obrigada, Jane, era isso que eu queria saber. Então, posso ficar com ele por uma noite.”

“Acho que sim. Se ele quiser...”

“Ok, obrigada mais uma vez, agora vou à praia, já que ele me chamou de sereia”, arremessou um beijinho para mim e se foi. Na porta, virou e disse: “vê se você também aparece na Bay’s, vou lá no próximo sábado.”

“Vou tentar,” falei. Assim que ela saiu, voltei ao meu livro velhinho e amarelado, mas tão gostosinho.


Na segunda seguinte, de manhã, Marissol entra na loja como um furacão.

“Olá”, sorri para mim.

“Oi, como vai? E aquele dia hein?”

“Vim pra te contar.”

“E então?” mostro-me curiosa.

“Foi legal.”

“Apenas legal?”, pergunto.

“Sabe, sempre pode ser melhor, não é mesmo?”

“Não sei, pode?”

Marissol olha os produtos que estão nas estantes de cima, depois volta os olhos para a vitrina que dá para rua principal, vira-se de novo ao balcão e surpreende-se mais uma vez com os meus Ensaios de Montaigne.

“O que diz esse Montaigne?”

“Muitas coisas”, respondo.

“É mesmo? Um dia peço a você esse livro. Mas ouça, vim pra te contar.”

“Então conta.”

“Sabe”, fala Marissol, começa tudo com um “sabe”, “você viu quando eu e o Marcelo passamos a ficar juntos, não?”

“Vi, estava dançando, mas pude perceber.”

“Dali em diante, ficamos. Beijei ele muito, mas o principal foi depois que a festa acabou.”

“O que houve de importante?”

“O de sempre, sabe como é, não se pode ir além do ponto a que estamos acostumadas a ir.”

“Como assim?”, faço-me de desentendida.

“Ah, fomos para a praia. Aí, aconteceu.”

“Aconteceu?”

“Isso, namoramos verdadeiramente, entende? Namoramos, não preciso dizer mais, não é?”

“Já entendi”, falo e dou um suspiro.

“Apenas pedi a ele que forrasse a areia com a camisa, não queria estragar o vestido.”

“Sei, quando vamos à praia para isso odiamos areia no corpo e na roupa”, deixo escapar.

“Ah, esqueci de te dizer, ele falou que eu estava com roupa de piriguete.

“Piriguete?”

“Conhece essa palavra, não? É quando a gente sai com esses vestidos curtinhos, coladinhos ao corpo, como o que eu vesti.”

“E ele gostou?”

“Parece que sim, só não gostou quando lhe perguntei se tinha um punhal.”

“Punhal?”, assusto-me com a palavra. “Pra que um punhal?”

“Aí é que está, pra tornar as coisas mais emocionantes.”

“Marissol, você esteve aqui pra perguntar como era o Marcelo, parecia sentir medo dele, agora me fala em punhal? Você é louca?”

“Não sei, Jane, mas te peço um favor, não conta pra ninguém, tá?”

“E o punhal?”

“Você quer saber, está curiosa também?”, pergunta com ironia.

“Você não perguntou se ele tinha o punhal?”

“Perguntei. Mas ele não tinha. Então, tirei o meu de dentro da bolsa e emprestei a ele.”

“Jura, Marissol? Você agora anda com um punhal? E o que ele fez com o teu punhal?”

“Ah, Jane, você é tão ingênua. E não cansa de ler esses... Como é mesmo o nome do livro?” Pega-o em uma das mãos e lê em voz alta: “Ensaios de Montaigne. Só te peço uma coisa, amiga, não conte pra ninguém. Nem do Marcelo nem do punhal, ok? Um beijo, porque agora vou à praia, obrigado e até logo.”

Na saída, acompanhada pelo som das pedrinhas penduradas que se chocam ante o abrir e o fechar da porta, ela vira-se para mim e manda mais um beijo.

Olho para o balcão, tomo o livro nas mãos e digo em voz alta: Ensaios de Montaigne. Esse Montaigne era um sujeito sensato, agora veja só a Marissol, roupa de piriguete e punhal, era tudo o que me podia acontecer nessa segunda de manhã.

quinta-feira, fevereiro 09, 2012

Banquete

Meu telefone tocou, eram quase cinco horas da manhã.

“Joubert? Venha até aqui, traga uma camisa de homem, ou um pano comprido. Melhor mesmo uma camisa de homem.”

“Alô”, respondi, “quem está falando?”

“É o Edson.”

“O que houve, Edson, algum acidente?”

“Não, não aconteceu nenhum acidente, mas venha até aqui e traga o que estou pedindo.”

“Você não falou aonde devo ir, Edson.”

“Na rodovia, na altura do Morro Grande. Venha de carro. Depois da curva, você vai logo avistar o ônibus da empresa. Estou do lado de fora.”

“Por que não fala o que aconteceu?”

“Aqui você vai saber. Mas não esqueça de trazer a camisa, precisa ser de homem e comprida”, pediu mais uma vez. “Venha sozinho.”

Acendi a luz do quarto, abri o armário e peguei uma camisa. Minha mulher acordou. Ainda sonolenta, perguntou: “o que está acontecendo?”

“Preciso sair pra ajudar um amigo?”, falei baixo, não queria acordar as crianças. Elas dormiam na sala.

“Quer que eu vá com você?”

“Não, é melhor você ficar.”

Me vesti rápido e saí de casa. Nem sinal do amanhecer. Liguei o carro, engatei a primeira e peguei a estradinha que leva à rodovia estadual.

Ao me ver, Edson acenou com os dois braços. Parei na frente do ônibus que ele costuma dirigir todas as manhãs.

“Alguém está ferido?”, eu quis saber, preocupado.

“Não é nada disso, Joubert. Trouxe a camisa?”

Fui ao banco traseiro do carro, peguei a camisa e entreguei a ele.

Edson subiu no ônibus pela porta da frente. Entrei depois dele. Quando pisei no corredor vi, num dos bancos, um passageiro, quer dizer, na verdade era uma mulher. E ela estava nua. Permanecia sentada, com as pernas cruzadas. Com um dos braços, feito uma faixa em meia diagonal, tentava cobrir os seios. Mas não parecia envergonhada. Acho que até sorria. Edson lhe entregou a camisa. Mas a mulher ainda ficou na mesma posição durante alguns segundos. Só depois é que se levantou, enfiou a camisa pela cabeça e ameaçou sentar de novo no mesmo lugar.

“Não, você não vai aí, precisa sair do ônibus e ir com ele”, Edson apontou para mim. “Joubert, deixa ela em casa.”

“O que houve? Foi assaltada?”, perguntei assustado.

“Não, não foi, não. Depois te conto”, ele falou.

A mulher me seguiu. Abri a porta e ela entrou no carro. Nada conversamos, apenas disse seu endereço. Às vezes, esticava a barra da camisa para esconder melhor as coxas. Minutos depois, saltou à porta de casa.

Na sexta à noite encontrei Edson num bar, na Aroeira.

“O que foi aquilo, homem, me conta, encontrou uma mulher nua?”

“Pois é, quem vai acreditar nisso além de você?”

“Mas fala, homem, o que aconteceu ali?”

Começou, então, a contar.

“Você sabe que saio com o carro todo dia às quatro, quatro e dez da madrugada” (os motoristas costumam chamar ônibus de carro).

“Sei, você é um dos primeiros a sair, mora perto da garagem da empresa.”

“Isso. Por eu morar perto, sempre me escalam pro primeiro ônibus. Mas a história não começa aí. Antes, tem uma outra coisa.”

“O quê?”, perguntei um tanto curioso.

“Todos os dias levo uma passageira, é uma professora. Ela faz sinal mais ou menos ao meio dia, quando trafego pelo Visconde. Sorri, me cumprimenta muito gentil e toma o seu lugar. Demonstra muita simpatia. Sempre acho que me dá bola. Aí eu pisco pra ela, que corresponde com mais um sorriso. Já pensei várias vezes em dar um jeito de marcar um encontro, convidar pra uma cerveja ou, se não bebe, pra um refrigerante. Mas você sabe como é, sou um motorista, não acreditava que ela fosse aceitar.  E vai, encontro a mulher nua, às quatro da manhã, na rodovia...”

“Era ela a mesma, a que você acha que te dá bola, a professora?”

“Ela. Essa pra quem você trouxe a camisa e levou em casa.”

“Mas como aconteceu de ela aparecer nua na estrada?”, perguntei. Me sentia excitado com a história.

“Eu vinha da garagem, na direção do terminal. Ela estava na beira da estrada, inteiramente nua. Quando viu o ônibus, fez sinal pra eu parar.”

“Você não perguntou o que aconteceu?”

“Claro que perguntei.” Edson parou de falar e tomou um gole da cerveja. Olhou ao redor para se certificar de que as outras pessoas não prestavam atenção na nossa conversa. Ao perceber que cada um cuidava da sua vida, continuou: “Joguei o carro pro acostamento e abri a porta. Ela veio andando, subiu, sorriu pra mim, deu bom dia e sentou. Você acredita?”

“Acredito, mas e depois?”, eu já não tinha mais nervos para aguardar o desfecho.

Edson continuou: “Perguntei a ela: ‘o que aconteceu?’ ‘Um imprevisto’, foi a única coisa que respondeu.”

“O que você fez depois?”

“Primeiro fiquei paralisado durante algum tempo, olhava pra ela. Então, ela falou: ‘vai ficar aí parado?’”

“Quer dizer que você foi fundo!”, afirmei.

“Põe fundo nisso. Só não fiquei com ela mais tempo porque estava com o carro da empresa sob minha responsabilidade. Joubert, ela é muito gostosa, foi um banquete. Mas, por favor, lhe peço, não conte pra ninguém.”

Fui embora naquela noite com a cabeça quente. Jamais tive em toda a minha vida uma sorte assim. Pensei em seguir a mesma mulher, observar seus passos, ver se fingia encontrar ao acaso com ela. Quem sabe, com um pouco de sorte, ela também me desse o ar de sua graça?

Mas um mês depois tive de mudar com minha família para São Gonçalo. A empresa me transferiu. Outra obra começava. Era a construção da nova refinaria.

domingo, fevereiro 05, 2012

Na praia sobre um lençol

Você admira esta foto em que estou nua deitada sobre o sofá, de bumbum pra cima... Vou contar a você um segredo, ela não foi feita no ambiente do retrato, mas numa noite aqui mesmo na praia, quando arranjei um namorado paulista. Sabe como são esses homens, ele foi logo perguntando: “vocês transam onde nesta ilha?” Respondi: “Não é numa canoa, certamente, ela pode virar.” Ele riu, então continuei: “sabe que já aconteceu?, uma amiga namorava numa canoa, ela e o rapaz se entusiasmaram tanto, que esqueceram onde estavam. O problema principal não foi nadar até a praia, porque aqui quase todos nadam um pouco, mas encontrar a roupa que estivera no piso do barco, era noite, tudo se tornou mais difícil. A gente, aqui, namora na praia, sobre a areia, deixa ficar escuro e leva um lençol pra forrar.” Namorei com ele do jeito que tinha falado, sobre um lençol que tirei escondido de casa. Ele fez a fotografia e disse que ia me colocar num cenário mais chique, depois me mandou por e-mail. Foi assim que fiquei em cima deste sofá, com o quadro bonito atrás, na parede.

Os homens têm a cabeça muito cheia de fantasias, as mulheres não, elas são mais pele. Tive um namorado que adorava me levar nua no barco. Ele tinha um desses pequenos, com um motor de popa que fazia uma barulheira terrível. Me fazia tirar a roupa e pedia pra esconder em algum canto da praia; depois eu entrava no barco e ia passear com ele. Acho que na hora de trepar, os homens se animam mais com essas invenções do que com o corpo da gente. Mulher é diferente, gosta mesmo é de sentir o pênis grande e duro indo bem lá no fundo.

Às vezes, quem vem de outras cidades e fica uma noite com a gente, pergunta se nossos pais sabem que estamos saindo pra trepar. Lógico que sabem, mas fazem de conta que tudo é muito normal. Falar no assunto, não falam, basta que a mulher não apareça grávida. Sou muito jovem, vou fazer dezenove anos semana que vem, tenho amigas que nessa idade já tem dois e até três filhos. Um pedido que minha mãe me fez quando desconfiou que eu já era mulher: que eu trepasse por gosto, não por dinheiro. É isso o que faço, às vezes até aceito um presentinho, mas não sou prostituta. Quero conhecer alguém legal pra casar, ter filhos, levar uma vida normal, como todo mundo; enquanto não acontece, aproveito saindo com pessoas como você, pra me divertir.

Aqui foi engraçado quando a Sandy veio fazer um show. Naquela noite as mulheres da ilha estavam a mil, não se falava em outra coisa que não fosse paquerar, arranjar alguém de fora pra ficar, trepar ou até mesmo conhecer alguém pra um namoro sério. Quando o show terminou, lá pelas três e tanto da madrugada, só se via casal se arrumando aqui e ali, se apressando pra se agarrar, se beijar, as garotas foram ficando nuas nas mãos dos homens, ninguém olhava nem pro lado, só queria saber do seu par. Quando começou a ficar de manhã, a mulherada se pôs a correr pra se vestir, foi um tal de catar blusa, saia, toda a roupa que estava espalhada pela areia, um horror. Não sei se foi verdade, mas dizem que uma moça da praia da Florinda se escondeu nua num quiosque até que alguém lhe trouxesse uma camiseta. Conto essas coisas porque sei que vocês, homens, adoram imaginar as garotas peladas, não é mesmo?

Agora me abraça, já faz um tempão que estou falando de frente pra esse marzão, você tem também lá as suas, já me pediu pra eu fingir que lia um jornal nua aqui em cima do pano, já gozou uma vez dentro de mim, eu deixei, e olha que costumo exigir camisinha. Agora vem por trás, vem. Mas é pra meter na frente. Você não sabe o quanto eu gozo nessa posição. 

Isso, assim, bem assim, está gostoso, vai, vai... ai, que bom, não para, vai, demora bastante, viu...

domingo, janeiro 29, 2012

Americana

Prefiro sempre estar só, a paisagem me pertence. Às vezes algum barco navega rente à praia, são pescadores voltando após a madrugada no mar. Eles, porém, jamais incomodam. Fazem seu trabalho em silêncio. Desembarcam adiante, numa ponte que se estende da ponta da praia a um pedaço de areia. Carregam seus peixes em cestos de palha.

Nesta cidade, fora da temporada, são poucos os habitantes. Geralmente, de banhistas, apenas eu. Permaneço na praia boa parte da manhã.

Faz algumas semanas surgiu outra mulher. Também vinha para o banho de mar. De início, não se aproximou. Mas, depois, acho que por haver apenas nós duas na praia, cumprimentou-me. Após se apresentar, conversamos um pouco. Disse que ficaria na cidade durante um mês, estava a trabalho. Resumiu sua história.

“Escrevo para uma revista, viajo para experimentar novos lugares e descrever a beleza da paisagem. Às vezes narro alguma curiosidade, os costumes dos habitantes locais, outras vezes experimento acompanhá-los e descrever suas vidas. Muitos apreciam tais histórias e pedem mais detalhes.”

“Deve ser interessante a sua vida, sempre viajando, sempre lugares e pessoas diferentes”, falei.

“Lugares, sim; mas pessoas, nem sempre.”

“As pessoas são iguais, muda apenas a geografia?”, perguntei ao estranhar o que ela dissera.

“Quase sempre, sim; a natureza humana não é muito diferente.”

“Aqui, acho, você vai gostar de conhecer uma pessoa diferente, quero dizer, uma mulher.”

“Uma mulher? O que ela faz que a distingue das outras?”, perguntou curiosa.

“Ela chegou à cidade faz mais ou menos dois anos, sempre agiu de modo inaceitável para os nativos. Tanto é verdade, que a maioria das mulheres não fala com ela. Os homens, sim, estes a apreciam muito. Mas, apesar disso, procuram-se manter a distância. Não querem confusão com as esposas.”

“Ela é do tipo liberal, então”, afirmou com ar de pergunta.

“Não é apenas isso, ela sempre traz um ar misterioso. Na verdade, ninguém sabe ao certo do que vive ou o que faz. Às vezes, tal atitude provoca algum falatório, então surgem lendas a seu respeito.”

“Você disse que essa mulher não é daqui, sabe de onde veio?”

“Não sei, nunca perguntei. Mas não veio de cidade grande, não. Ela tem uns hábitos diferentes”, falei.

“Que hábitos são esses?”

“Quase não é vista no comércio local, dizem que pessoas estranhas frequentam sua casa, homens na maioria, e sempre diferentes. Algumas pessoas afirmam que já a viram nua na praia, de madrugada. Outras contam que ela é adepta de magia. Sabe como são os assuntos de cidade pequena. Sou a única que conseguiu manter certo diálogo com ela. Quando lhe contei o que ouvia a seu respeito, apenas riu.

“O que vocês conversam?”, quis saber.

“Ela tem muitos livros. Me levou até sua casa, mostrou e me ofereceu alguns, mas a gente aqui não é muito dada à leitura, você entende, não?”

“E o que tem os livros?”

“Acho que histórias, não sei, parece que textos para teatro. Ela, à princípio, é como você. Parece que chegou a escrever alguns, mas não tenho certeza.”

“Ela vem à praia, assim como você?”

“Vem, mas não agora, prefere o entardecer, ou mesmo a noite.”


Passaram-se dois dias e a mesma mulher encontrou-se comigo. Era de manhãzinha, como na primeira vez. Eu estava deitada sob o sol. Depois de me desejar bom dia, falou:

“Conheci a pessoa sobre quem você me falou. É uma americana.”

“Americana?”, surpreendi-me.

Começou a falar sobre a mulher.

“Ela diz ter sido jornalista e também bailarina. Mudou-se para este lugarejo – foi assim que me definiu a cidade – com o objetivo de descansar. Mas se apaixonou pelo local e não mais partiu.”

Fez silêncio durante alguns segundos, olhou para o mar como se a paisagem a surpreendesse; depois, continuou:

“Disse que antes tinha medo de não mais querer voltar para o seu país. Agora, sente alívio por ter ficado. Diz que o medo que sentia nada mais era do que o medo de ser feliz.”

“Que bom, ela então se encontrou, aqui nesta praia de fim de mundo”, observei.

“Isso, disse que foi um encontro com ela mesma. Mas existe mais uma coisa.”

“O quê?”, perguntei curiosa.

“Convidou a mim e mandou chamar também você. Numa noite dessas, quer apresentar um número de dança para nós duas.”

“Então é isso, alguns pescadores disseram certa vez que viram uma mulher dançando à noite, bem tarde, aqui mesmo nesta praia.”

“Parece que estudou balé clássico. A literatura e a dança são as duas coisas que lhe fazem sentido.”


Chegamos  à casa da americana em torno das nove horas numa noite de quinta-feira. Ela adotara nome brasileiro, pediu que a chamássemos de Regina. A construção ficava numa das muitas elevações existentes no lugar. A casa tinha sala ampla e dois quartos. Ao lado de um deles, o banheiro. A cozinha se ligava diretamente à sala. Na frente, havia a varanda com o pequeno jardim. Dali, era possível apreciar toda a costa. À noite, viam-se as luzes dos barcos que saíam para a pesca.

Cumprimentou-nos com muita polidez e ofereceu bebida. Minha recente amiga, cujo nome é Jane, aceitou vodca com limão. Eu preferi suco, que segundo a dona da casa, fora preparado por ela mesma. Enquanto bebíamos, Regina abriu uma gaveta e tirou um pequeno cigarro, acendeu-o, sorveu-o duas vezes seguidas e nos ofereceu. Era um cigarro de maconha. Jane o tomou entre dois dedos e deu uma tragada profunda. Então, passou-o a mim. Segurei o cigarro com o polegar e o indicador e dei um longo trago. A seguir, nós três saímos para a varanda.

Primeiro, olhamos longamente o mar lá embaixo, depois Regina falou:

“Vou colocar música.”

Voltou à sala, som de violino começou a se expandir pelo ambiente. Ficamos em silêncio. Era um famoso concerto para violino e orquestra de Beethoven. Eu ouvia de olhos fechados.

Após mais ou menos um quarto de hora, a música cessou. Regina desapareceu por instantes. Voltou vestida como uma bailarina clássica: sapatilha, a malha toda negra, saia curta e o cabelo preso em forma de coque. Logo a música voltou a soar. Ela, inicialmente com os olhos fechados, começou a fazer os primeiros movimentos, bem à nossa frente. Como cenário, a paisagem marítima ao fundo.

Regina pertencera a uma companhia de balé profissional. Era ainda uma exímia dançarina, embora não mais se apresentasse. Quis perguntar o motivo de ter abandonado a dança, mas não tive coragem. Ao terminar a apresentação, aplaudimos. Ela sentou ao nosso lado e pediu a Jane que buscasse outro cigarro. Acendeu-o e tragou com sofreguidão. Permanecemos ali por mais uma hora. Bebemos e fumamos. Mas nossa convivência foi de poucas palavras. A música continuava, só que não mais música clássica, mas o jazz de Chet Baker.

“Antes de partirem, vocês podem me fazer um favor?”, perguntou, só então reparei uma ponta de sotaque em suas palavras.

Eu e Jane olhamos para ela com sorrisos de consentimento. Levou-nos à sala e mostrou uma trave junto à parede que ficava na diagonal da janela que dava para o mar.

“Vocês podem me amarrar aqui?”

Sua proposta me surpreendeu. Jane conseguiu manter certa naturalidade. “Como a gente deve fazer?”, perguntou, enquanto eu disfarçava o espanto inicial.

Regina arrastou um pequeno banco que estava ao lado da mesinha lateral e o colocou sob a trave, deu alguns passos e entrou no segundo quarto. Voltou depois de menos de um minuto totalmente nua. Trazia nas mãos uma corda.

Jane manteve-se durante todo o tempo impassível.  Eu nada mais falei. Regina sentou no banquinho e levantou os braços. Orientou que devíamos amarrar seus punhos, depois atar a corda na trave. Apontou que, com o restante da corda, lhe imobilizássemos os tornozelos. Fizemos tudo como pediu. No final, mostrou um lenço branco, comprido, que jazia sobre um dos estofados. Pediu que tapássemos sua boca e o amarrássemos na parte posterior de sua cabeça com um forte nó.

Despediu-se emitindo um som grave e sorriu. Batemos a porta e partimos.

“Será que ela é louca ou está sob o efeito de alguma outra droga?”, perguntei a Jane. Eu estava assustadíssima, jamais vira alguém fazer tal pedido.

“Nada disso“, falou tranqüila a jornalista. “É uma fantasia, na certa espera algum namorado.“

“Vamos voltar para espionar?”, perguntei.

“Acho melhor não, vamos deixar secretos os seus prazeres.”

Descemos até a praia, despedimo-nos e cada uma seguiu o seu caminho.

Naquela noite, porém, não consegui dormir. Pensei o tempo todo na mulher nua amordaçada e amarrada.

Quando estava próximo o amanhecer, saí da cama, vesti roupas como se fosse à praia, mas o que fiz foi ir à casa da americana.

Durante o caminho, ou mesmo enquanto espreitei a casa, procurei-me manter oculta. Ainda não surgira o sol quando espionei através da janela a sala. O que vi não me surpreendeu. Tudo permanecia como na noite anterior, apenas ela não estava no local. Contornei toda a casa beirando as janelas dos outros cômodos. Não parecia haver ninguém. Destemida, girei a maçaneta da porta da sala. Entrei sem dificuldades. Caminhei furtiva, deixara a sandália no lado de fora. Vasculhei os quartos, vistoriei o banheiro, a cozinha. A casa estava vazia. Sobre a cama, em um dos quartos, encontrei a roupa que Regina usara quando dançou para mim e para Jane. A malha, a curta saia e as sapatilhas permaneciam no mesmo local em que se despira.

Ao me dirigir de volta à porta da sala com a intenção de ir embora, a americana apareceu. Não se assustou com a minha presença.

“Bom dia”, falou e sorriu. “Sabia que você voltaria.”

“Fiquei preocupada, achei que poderia ter acontecido o pior”, falei.

“Pensou que eu ainda estaria amarrada e amordaçada, como vocês me deixaram”, afirmou com certa solenidade nas palavras.

“Isso mesmo”, falei com um pouco de nervosismo.

“Sabia que você iria voltar, achei até que ainda na madrugada”, após falar, cruzou a porta e sentou sobre um dos estofados. Apontou para eu sentar ao lado dela. “Ficou excitada, não?”

“Eu?”

“Você”, falou resoluta.

“Bem, não foi bem assim...”

“Não se preocupe, é natural que isso aconteça. No fundo, muitas gostariam de viver a mesma situação.”

“Viver a mesma situação?”, as palavras escaparam contra a minha vontade. “Não sei, tenho  medo,” afirmei com tremor na voz.

“Medo? É tão bom. Espere aí”, levantou e foi à cozinha. Voltou com um pouco de café quente numa caneca, entregou-a nas minhas mãos. “Beba um pouco, você deve estar em jejum.”

O café estava gostoso. Senti um pouco de fome mas nada falei.

“Caso você queira passar por essa experiência, venha uma noite dessas”, sorriu mais uma vez após terminar a frase.

“E depois?”, eu queria saber como tudo se daria.

“Depois?”

“Depois, o que acontece?”

“Vem um cavaleiro mascarado namorar você.”

“Mascarado?”, surpresa no meu rosto.

“Se quiser, ele pode vir de rosto nu.”

“Na cidade, todos me conhecem, você entende...”, tropecei na última palavra.

“A gente dá um jeito. Quem sabe, você usa a máscara.”

“É normal que o cavaleiro seja de outra cidade, não?” perguntei. Foi minha vez de sorrir.

“Acertou. Resolvo essa questão para você. Mas me avise sempre que vier, preciso de dois dias.”

“Pode deixar, aviso.” Tomei mais um gole de café, “acho que agora vou até a praia”, levantei e a beijei. Ela retribuiu. Parti em seguida.


Naquela semana aconteceram fatos estranhos, acho que devido ao estado de excitação em que eu me encontrava. O primeiro, quando eu voltava da entrega de uma encomenda que precisei fazer na outra ponta da praia. Geralmente, faço entregas na parte da tarde, depois das quatro horas.

Já pedalava por mais de quarenta minutos quando decidi parar junto a uma pedra situada no extremo norte da cidade. Descansei a bicicleta e estendi as pernas, estava cansada devido a várias elevações que tivera de trilhar. Comecei a sentir, então, forte quentura entre as coxas, o calor foi subindo gradativamente até tomar-me todo o baixo ventre. Fiquei muito excitada. A seguir, enrijeceram-me os mamilos. Senti-me como se estivesse em pleno exercício sexual com parceiro atraente. Jamais, sozinha, tivera aquela sensação. Tornei-me, de repente, bastante trêmula. Depois de alguns segundos, atingi o orgasmo. Cheguei a me sentar numa beira do caminho de terra e olhar a praia lá embaixo. Preocupada, perguntei em silêncio a mim mesma: o que foi isto? No fundo, proporcionou-me prazer, mas meu coração batia de modo descontrolado. Após descansar, subi na bicicleta e pedalei até a casa. Entrei, atirei-me na cama e adormeci. Ao acordar, estava feliz, envolvia-me estado de êxtase jamais sentido. Comecei a achar ótimo se aquele momento se repetisse.

Dois dias depois, de manhãzinha, eu estava novamente na praia. Sempre me acostumei a mergulhar, mesmo com a água bastante fria. Primeiro deixei que as pequenas ondas me molhassem os pés e os tornozelos, depois caminhei mais alguns metros e me abaixei dentro d’água. Senti as pernas muito geladas, depois as coxas. Uma forte ânsia, no entanto, cercou-me na altura dos órgãos genitais. Fui tomada pelo ímpeto de arrancar o biquíni. Então, aconteceu a mesma sensação de dias atrás quando descera da bicicleta. Meu coração de novo disparou e atingi o orgasmo, só que desta vez bem mais demorado. Quando retornei à areia, onde deixara a saia, deitei-me rapidamente e permaneci longo tempo completamente exausta.

O principal de tudo, no entanto, ocorreu-me quando estava no pequeno centro da cidade. Notei que um homem me olhava de modo insistente. Tentei lembrar quem poderia ser. Acabei chegando à conclusão de que ele não era da cidade. A todo lugar que eu ia, ele ficava por perto. Quando parei junto à minha bicicleta, destravei-a e subi para partir, o estranho falou:

“Por favor, moça, você conhece dona Regina?” Era alto, esbelto, vestia calça comprida e camisa social de manga curta, traje um tanto solene para o local.

“Dona Regina?”, titubeei.

“A americana”, olhou para mim como se soubesse tudo ao meu respeito. “Ela me disse que você poderia me levar à casa dela.”

Naquele momento entendi o que estava por trás de suas palavras. Então era isso, a conversa que eu tivera com Regina na manhã seguinte à noite em que ajudara Jane a deixá-la amarrada e amordaçada.

Impaciente por causa do meu silêncio, retomou a pergunta: “como podemos fazer?”

Subi na bicicleta e pedi que me acompanhasse. Seguimos a trilha que leva à pequena elevação. Ao atingirmos o ponto mais alto, olhamos à direita, pudemos então apreciar toda a extensão da praia. Eu já havia descido da bicicleta e a empurrava com ambas as mãos.

Quando chegamos à casa, repousei a bicicleta na parede externa da sala, abri a porta e entrei. Ele me seguiu. Como eu previra, Regina não estava em casa. Num dos cantos, a trave junto à parede, o banquinho, a longa corda e o lenço que servira de mordaça, havia também um pequeno chicote, artefato que eu não lembrava ter visto quando ali estivera.

Voltei-me ao homem, ele sorria. Minhas coxas esquentaram, comecei a ser tomada pela mesma sensação que sentira dias antes na bicicleta e nas águas frias da praia.

sábado, janeiro 21, 2012

Encontros e desencontros

Sabia que era cedo para conhecê-lo pessoalmente, mas resolvi arriscar. Acordei às seis da manhã como de costume e fui à padaria. Comprei vários tipos de pães e os mais variados petiscos. De volta para casa, fiz café forte, fervi o leite e tirei da geladeira o suco natural. Olhei as horas no relógio da cozinha. Faltavam quinze para as sete! Era a hora que marcáramos. Corri até a rua, olhei o ponto de ônibus que fica a uns cinquenta metros de casa. Lá estava Amigo, era assim que se identificava no Facebook. Reconheci-o pela foto que colocara em seu perfil. Trazia uma pequena sacola, na verdade uma bolsa que se poderia chamar de bagagem de mão. Ao me ver, sorriu e correu para me dar um beijo.

Tomei Amigo por um dos braços e o puxei para dentro de casa. Depois de fechar a porta, virei para ele e nos beijamos mais uma vez.

Não conseguimos tomar logo o café. Caímos os dois no pequeno sofá da sala e nos agarramos de modo ardente. Parecia que éramos velhos amantes que não se viam fazia tempo.

Em poucos minutos, já estávamos totalmente nus. Ora eu escalava seu corpo, ora ele se virava e subia sobre mim. Demoramos no nosso amor.

Duas horas se passaram até que nosso ardor diminuísse. Corri então ao banheiro e tomei um banho. Saí enrolada na toalha. Ao passar pela sala, me abaixei junto ao sofá e o beijei de novo. Ele fez um gesto de que iria me roubar a toalha. Mas escapei, divertida, e corri para o quarto. Já era hora de me vestir. De lá, gritei: “Vou ter de colocar de novo o café e o leite no fogo, devem estar totalmente frios.”

Quando entrei na cozinha, escutei o a água do chuveiro escorrendo no banheiro. Amigo tomava banho. Sua bolsa estava aberta e jazia sobre o chão da sala. Ele pegara algumas roupas limpas para se trocar.

Depois que tomou banho e se vestiu, apareceu junto à porta da cozinha.

Então, falei: “Logo que vi sua foto no Face, fiquei alucinada. Sei que não lhe deveria dizer isso, mas não consigo.”

“Você também é muito bonita. A maioria das mulheres coloca fotos que não correspondem ao que realmente são, mas a sua não desmente você.”

“Deixe de lisonja, já não sou tão jovem, é bondade sua.”

“Verdade, por que eu iria mentir? Antes de qualquer coisa, quero dizer o meu verdadeiro nome. Me chamo Gilson, é assim que todos me conhecem.”

“Muito prazer”, dei-lhe mais um beijo. “O meu nome é o mesmo de sempre, Vilma, você já sabe. E quero lhe dizer mais uma coisa. Sabe qual foi o dia em que você me conquistou de verdade?”

“Qual?”, esperou curioso.

“Quando começou a me mandar poemas e letras de música.”

“Jura?”

“Será que você não acredita numa mulher apaixonada?”

Enquanto terminava os preparativos do novo café, pensei alto: “Que hora mais louca para marcar um encontro. Se eu contar, ninguém acredita.”

“Está arrependida?”, sua voz ecoou pela cozinha.

“Claro que não”, sorri e lhe joguei outro beijo.

“Sua face tem luz”, falou.

Tomamos café com leite e comemos todos os pães. Ele, por causa da viagem, parecia estar com fome. Comeu além de pães, biscoitos e salgados. No final, ainda ofereci um pedaço de bolo de laranja. Ele não recusou.

Voltamos para sala e recomeçamos a namorar. Mais uma vez nossos corpos esquentaram. Em menos de um minuto, ele tirou de novo toda a minha roupa.

Mais tarde, falou de sua vida. Gilson tinha duas filhas. Uma de doze anos e a mais de velha com vinte e dois. Esta já morava com o namorado. Ainda brincou quando disse que a filha já estava praticamente casada.

Como nem tudo pode ser perfeito, um fato me chocou. Gilson contou que ficara viúvo fazia dois meses, e que era muito cedo para arranjar uma namorada a sério. Na verdade, ainda sofria muito devido à morte da esposa, com quem fora casado por mais de vinte anos.

Acabamos conversando por muito tempo. Não consegui entender por que aceitara o encontro se ainda queria resguardar a imagem da esposa.

No final, falei: “Você não acha que com uma namorada será mais fácil esquecer a esposa?”

Ele nada respondeu.

Ao entardecer, despediu-se e se foi. Prometeu voltar um dia desses.

A partir daí, só escreveu sobre suas dores e sobre o tédio, que não o abandonava.

Ainda tentei reanimá-lo, mas concluí que essa relação iria me trazer muitos aborrecimentos. Com ele, eu não teria a companhia que havia tempo procurava.

terça-feira, janeiro 17, 2012

No bom sentido, é claro

“Adoro o Rio porque é uma cidade onde se vive muito à vontade, a gente pode andar nua que as pessoas nem reparam”, me falou uma amiga que esteve aqui do final de dezembro ao comecinho de janeiro.  Contou o que aconteceu: “Andava no Arpoador, estava de calça comprida e camiseta; quando vi o que as mulheres vestiam, tirei a roupa e fiquei apenas de top. Na verdade, nem era um top para banho mar, mas um bustiê. Uma amiga me acompanhava, caminhamos até a pedra e apreciamos o mar, ora virávamos para Copacabana, ora para Ipanema. Depois descemos e paramos num quiosque, pedimos água de coco. O vendedor nem chegou a observar como estávamos vestidas. Falei a mim mesma: quando voltar à minha cidade, vou fazer a mesma experiência, andar somente de top nos dias de calor.”

Ana já se foi faz uns dez dias. Ontem, recebi mensagem dela. Acho que a viagem a fez enlouquecer. No bom sentido, é claro. Assim que retornou (não digo qual a cidade para não ferir escrúpulos) foi a um parque e agiu como fizera aqui. Disse que lá, como há apenas um lago, que não é para o banho, as pessoas não costumam usar biquíni. Ela, no entanto, tirou a roupa, forrou a grama e deitou para tomar sol. Nem quis saber a reação das outras pessoas. Ocultou-se atrás de seus belos óculos escuros. No dia seguinte, retornou e reparou algumas meninas também de biquíni. Passaram-se algumas horas e pôde perceber adolescentes com os mesmos trajes. Ficou feliz ao perceber que levara novo costume para a cidade.

Mas, agora, conto o que realmente me surpreendeu. É melhor transcrever suas próprias palavras.

“Querida amiga, não sei o que deu em mim, mas sinto uma incrível felicidade depois que cheguei do Rio. É lógico que gostaria de ter ficado mais aí, junto a você e a outras pessoas com quem travei conhecimento, mas os compromissos sempre nos chamam de volta. Quem sabe, assim que puder volto. Ouça uma coisa muito divertida. Não fiquei nua apenas no parque, mas também em outros lugares, assim como vocês fazem aí. Lembra a canga que comprei naquela loja em Ipanema? Gostei tanto dela que a usei mais vezes. Outro dia marquei com alguns amigos num bar, ao entardecer, tomaríamos um chope. Então, vesti a tal canga. Sei que na sua cidade se sai enrolada no belo pano com o biquíni por baixo. Mas, aqui, como não há praia, imagine como saí de casa! É isso mesmo que você está pensando. Fiz de conta que nem era comigo. O sol ainda ia alto, o céu claro, eu de óculos escuros. No bar, meus amigos ao redor... Não sei o que pensaram, também não perguntei. Se ficaram a tentar olhos de super-homem, aquele que enxerga com raio x? Bem, pode ser. Sei apenas que aproveitei bastante. Quanto ao chope, bem o chope estava uma delícia. Acho que aqui é a única coisa que sabem fazer semelhante ao que vocês têm aí.”

E minha amiga vive feliz. Acho que para sempre. Tanto que qualquer dia desses apareça de novo. “Não deixe de vir”, falei, “aqui é o local certo para você recarregar as baterias.”

domingo, janeiro 15, 2012

Sem o biquininho e sem bateria

Meu namorado inventou uma fantasia que acabei adorando. Corro um pouco de risco, mas sinto melhor o arrepio. Faz alguns dias me pediu para sair à noite com ele vestida apenas de biquíni.

“Só de biquíni?”, fiquei assustada.

“Sim”, respondeu ele.

“Mas não posso levar nem uma blusinha?”

“No início, pode, desde que em algum momento você fique só de biquíni.”

Saímos então às onze da noite. Vesti um vestidinho curto que uso como saída de praia. Já que fomos de carro, não houve problema algum. Após rodarmos um pouco, ele parou num quiosque, na orla de Ipanema. Saltamos. Ninguém reparou minhas pernas de fora. Depois de fazermos um lanche, descemos até a praia.

“Vamos sujar os pés”, falei.

“Não faz mal, depois a gente limpa”, prático este meu namorado.

Caminhamos até quase à beira d’água. Não havia ninguém por ali. Ele me pediu:

“Tira o vestidinho.”

Olhei para um lado, para o outro e tirei. Fiquei apenas de biquíni. Meu namorado me abraçou e permanecemos grudadinhos um ao outro por muito tempo.

Na hora de ir embora me fez outro pedido:

“Você volta pro carro apenas de biquíni?”

“Será que consigo?”, respondi com a pergunta.

Caminhamos com tranqüilidade até o estacionamento, do outro lado da pista.

Ele abriu a porta para eu entrar. Quando estava no banco do carona, pedi minha roupa.

“Ih, acho que esqueci lá na praia”, falou.

“Não brinca, gosto tanto do meu vestidinho.”

“Brincadeirinha, escondi, devolvo daqui a pouco”, e pôs o carro em movimento.

“Quando passou pela Ataulfo de Paiva, perguntou:

“Você tem coragem de descer do carro de biquíni?”

“Não me peça isso, não. Acho que não tenho coragem nem num dia de sol, com as pessoas indo à praia.”

“Não se preocupe”, continuou, “não vou fazer você saltar nua.”

Passeamos muito. Mas não vesti mais minha roupinha naquela noite. Voltamos para casa, eu ainda de biquíni. O problema foi subir o prédio daquele jeito. Mas ainda bem que não apareceu ninguém.

Na semana seguinte, ele me deu de presente um biquíni tão pequeno como jamais usei. Mas ficou ótimo no meu corpo.

Continuamos praticando a fantasia, cada dia num lugar diferente. Ora me cobria com a canga, ora com o vestidinho, às vezes vestia uma minissaia, além destas roupas, podia usar um shortinho sobre o novo biquíni.

Então, chegou a noite de eu sair de casa só de biquíni, ou melhor, quase peladinha. Como me sentia mais corajosa, voltamos ao mesmo quiosque da primeira vez. Ele pediu uma cerveja. Como era verão e estava calor, as pessoas não prestaram atenção à minha nudez. Nas noites que se seguiram, apenas olhos arregalados de um ou outro assustado transeunte e, certa vez, à hora tardia, o apito estridente de um guarda, não para mim que ia nua, mas para o motorista que vencia o sinal vermelho.

Agora, vocês que me leem, preparem-se para a última. Depois de sair várias noites somente de biquíni, meu namorado me propôs novo desafio. Como já estou afiadinha, aceitei. Ele me deixou sozinha dentro de uma barraca de camping, acho que este lugar é a Prainha. Diz que só volta quando eu acabar de escrever essa historinha e postá-la no blog. Quer ser o primeiro a ler. Caso eu não o faça, ele me deixa aqui de castigo. E o pior, além de eu estar sem o biquininho (ele levou), estou quase sem bateria.

domingo, janeiro 08, 2012

Ah, esses homens!

Ah, esses homens! Vejam a minha situação. Estou na praia, nua, apenas a canga sobre o corpo, pedindo ao homem que conheci não faz dez minutos o biquíni. Cena esdrúxula? Nada disso.

“Não vá me deixar pelada”, falo baixinho.

Vamos do começo.

Estava deitada tomando sol quando Mário se aproximou. Naquele momento, ainda não sabia o seu nome. Chegou pertinho de mim e disse:

“Ei, psiu, abra os olhos lentamente.”

Levei um susto. O que fiz foi abrir os olhos de uma só vez.

“Não sei por que as mulheres nunca atendem os desejos dos homens”, ouvi sua voz.

Viera à praia para estar só, apenas o sol namorador a me aquentar a pele, o pensamento livre, o marulhar ao longe, quase um sonho. Mas, ao súbito aparecimento daquele homem de fisionomia simpática, mal disfarcei. Cheguei a sorrir.

“Trouxe um presentinho.”

“Presentinho?”, devolvi

“Ah, não faça desfeita, te vejo aqui na praia todos os dias, conheço você, mas pode ser que não me conheça.”

Permaneci muda. Queria valorizar o momento.

“Noto que você aprecia biquínis. Cada dia vem com um diferente. Não dá pra reconhecer você pelo modelo, sempre varia, e cada um mais lindo do que o outro. Então, trouxe o presente. Dê uma olhada, vai gostar”, e me estendeu a mão, uma minibolsa de alcinha, dentro dela o biquíni envolto em papel colorido e fitinha.

“Mas nem te conheço, como vou aceitar?”

Sou louca por presentes, alguém deve ter dito a ele, e por biquínis nem se fala...

Abri, era o mais recente modelo de uma grife famosa, nota dez em todos os desfiles. Naquele pedaço de praia, seria a primeira a usá-lo.

“É lindo”, deixei escapar. Sorri nua para o homem.

Foi o momento em que se apresentou.

“Posso ficar um pouquinho ao seu lado?”, e foi sentando.

“Já está”, constatei em voz alta.

Picada, não aguentei:

“Vou me enrolar na canga pra trocar de biquíni, você guarda o meu na bolsa e me passa o novo?

“Lógico, você é muito original”, sorriu enquanto eu levantava.

Tirei o biquíni e entreguei nas mãos dele. Agora espero, plena de felicidade, que me passe o presentinho.

terça-feira, janeiro 03, 2012

Estação de bicicletas

No Rio de Janeiro há um serviço da prefeitura que permite às pessoas transitarem de bicicleta quase de graça. Basta se cadastrar num site e comprar um passe, que pode ser diário ou mensal. O preço é praticamente simbólico. A cidade, do centro à zona sul, possui em torno de três dezenas de estações. Com uma ligação de celular, as bicicletas podem ser retiradas. Após o término do percurso, é possível devolvê-las em qualquer outra estação.

Eu havia retirado uma no Posto 6, em Copacabana, mais ou menos uma hora e meia antes. Após pedalar por toda a orla marítima, minha intenção era devolvê-la na estação da rua Aníbal de Mendonça, em Ipanema. Dali, voltaria a pé para o hotel.

Mas o local estava em manutenção. Precisaria procurar outra estação que ficasse nas proximidades. Então, uma grata surpresa me aconteceu, e minha estadia na cidade tornou-se inesquecível.

“Há uma estação na Nossa Senhora da Paz”, um homem jovial me avisou ao perceber que eu queria devolver a bicicleta e não conseguia.

“Já andei tanto, queria ficar perto do meu hotel”, falei.

Ele me olhou e sorriu. Era um típico carioca da zona sul. Explicou como eu tinha de fazer para chegar ao tal lugar.

A princípio, nenhum de nós suspeitou que a troca de informações pudesse evoluir para uma paquera. Acho que fui eu a deixar esta impressão. Ele se pôs a andar ao lado da ciclovia, na direção da pedra do Arpoador. Emparelhei com ele e mostrei minha face simpática.

“Está um dia muito bonito”, falou, também sempre sorridente.

“Como faço mesmo para chegar ao ponto das bicicletas?”, perguntei mais uma vez.

“Não se importa se eu guiar você até lá?”

Não preciso dizer o que respondi.

Continuamos os dois na mesma direção. A praia não estava lotada, mas havia muita gente. O ar úmido e o cheiro do mar me excitavam. Faltavam dois dias para o Réveillon.

Ele apontou o sinal luminoso. Pedalei vagarosa ao seu lado enquanto atravessávamos a Vieira Souto. Movia muito o guidon, do jeito que se costuma fazer quando se vai devagar sobre duas rodas.

Na Visconde de Pirajá, entramos à direita. Na calçada, uma porção de pessoas. Como tem gente bonita nesta cidade, cheguei a suspirar. Tanto os homens como as mulheres. E todos muito elegantes. Reparei algumas vitrines. Mostravam roupas de fim de ano: bermudas, saias, blusas e camisetas. Quase tudo branco. Algumas peças tinham cores suaves. Havia também muitos biquínis e cangas.

Do outro lado, ficava a praça que eles chamam de Nossa Senhora da Paz. Logo avistamos a estação. Atravessamos. Uma fila de ônibus e outra de automóveis aguardavam o sinal verde atrás da faixa de pedestre. Coloquei a bicicleta em um dos encaixes, depois me virei para ele e falei: “obrigada.”

“Não sei o seu nome”, lembrou que não nos apresentáramos.

“Ah, me desculpe, Martha.”

“Rubens, foi um grande prazer conhecer você.”

“Pra mim também.”

“Você é de que estado?”, perguntou.

“De Santa Catarina.”

“As pessoas costumam falar que Florianópolis é uma cidade muito parecida com o Rio.”

“Isso mesmo”, afirmei, “ você adivinhou o meu pensamento.”

Começamos a caminhar de novo pelo passeio da Visconde de Pirajá, agora no lado oposto ao que viéramos.

“Estou hospedada no San Marcos.”

“Quem bom, logo aqui, em Ipanema.”

“Isso, não pensei que fosse tão bom.”

“Você vai ficar na cidade por muitos dias?”

“Vou embora no dia 2.”

“Então, ainda vai poder passear bastante.”

“É o que desejo. Cheguei ontem, ainda não conheço quase nada.”

Tive a impressão de que se ofereceria para me acompanhar, mas perguntou outra coisa: “quer tomar alguma coisa?”

“Sabe do que mais gostei até agora na sua cidade?”

“Não”, esperou que eu falasse como se minhas palavras lhe fossem revelar uma grande surpresa.

“Do sorvete.”

“É mesmo? Pensei que os sorvetes fossem iguais em todos os lugares.”

“Nada disso, vocês aqui tem um sorvete ótimo”, apontei a sorveteria que estava próxima, numa rua transversal. “Aceito um sorvete.”

Ele me acompanhou. Pedimos dois sorvetes de manga.

Rubens ficou tanto a me olhar, que comecei a achar que o meu jeito de saborear o sorvete era saliente. Em determinado momento, senti vergonha de abrir a boca para mais um pedaço.

“Por que você está me olhando desse jeito?”, tive coragem de perguntar. Acho que estava vermelhinha.

“Você é muito bonita.”

Na porta do hotel, puxei-o para um canto, ao lado da entrada, mas ao invés de me despedir, falei:

“Quer subir?”

Ele olhou para cima como se medisse a altura de uma montanha antes de inicair a escalada. Depois, voltou-se para mim.

Antes que eu escutasse sua voz: “quero, sim”, caí na gargalhada.

terça-feira, dezembro 27, 2011

E o rapaz nem notou

“Você não quer ir a uma festa hoje à noite?”, meu coração acelera-se ante a aproximação inesperada do rapaz.

“Onde?”, disfarço.

“Na Bay’s.”

“Na Bay’s?”

“Isso mesmo, você não gosta de lá?”. ele fala.

“Gosto, mas tenho namorado, acho que ele vai querer fazer outra coisa hoje à noite.”

“Que pena.”

“Mas não estou dizendo que não vou, verei o que posso fazer”, faço cara de corajosa.

“Ah, que bom! Sempre vejo você aqui na praia a essa hora, pensei em convidá-la”, olha nos meus olhos e depois abaixa o olhar na direção dos meus seios. Faço um movimento como se fosse submergir. “Você está sempre dentro d'água, até parece uma sereia.”

Digo que tentarei dar um jeito para ir à sua festa. Ele é interessante, e eu já o observo faz tempo. Quanto a ter namorado, pura mentira. Neste momento, não o quero próximo a mim.

Depois de me chamar de sereia mais uma vez, despede-se e se vai. Continuo meu banho de mar no Remanso, agora mais tranquila.

Contaria mais tarde à Jane. Não sobre o susto, mas sobre o convite. Ela conhece melhor do que eu os rapazes deste lugar. Caso eu ache conveniente, vou.

Permaneço na praia, dentro d’água. Mal sabe ele que posso ser considerada uma sereia de verdade.

No verão passado, uma senhora cinquentona me revelou seu segredo, que também passou a ser o meu. Quando ainda era bem jovem...

“Sempre tive o costume de usar biquíni, e dos bem pequenos. Certa vez mergulhei numa praia, a água estava tão fria! Você acredita que o choque do meu corpo com a temperatura baixa da água do mar me provocou um orgasmo? Sério. Acredite. Foi uma sensação tão intensa que jamais esqueci. Repeti o mergulho muitas outras vezes, mas jamais consegui sentir a mesma coisa. Cheguei até a tirar o biquíni dentro d’água.”

“Você ficou nua dentro d' água?”, assustei-me.

“Fiquei e às vezes ainda fico.”

“E o biquíni?”

“Enrolo num dos braços, faço de conta que é uma pulseira.”

“Ninguém nunca notou?"

“Não! E já conversei nua com um ou outro homem. Eles não percebem. Mas não espalhe, viu. Agora quando tiro o biquíni é porque passei a gostar de tomar banho de mar nua, também é uma espécie de orgasmo...”

Depois que ela se foi guardei o segredo só para mim, bem escondidinho.

No dia seguinte, bem cedinho, vim à praia e, pela primeira vez, usei uma pulseirinha de pano no meu braço direito. Adorei. Passei a repetir a ação todos os dias.

Agora, acho que me viciei. Não há um dia em que venha à praia e não fique pelo menos uns dez minutinhos nua. Meu orgasmo!

E o rapaz, o do convite, nem notou...

segunda-feira, dezembro 19, 2011

Então tá, morena, então vamos

Esses homens daqui só querem saber de garota nova. Outro dia uma amiga me falou que um senhor do Córrego estava sozinho e queria arrumar uma namorada. Marquei com ele e fiquei esperando no ponto de Glicério. Quando ele chegou, bastou me olhar pra dizer que eu não era o seu tipo. Pensava que eu fosse mais jovem. Ele já está lá pelos 50, e só pensa em mulher nova. Falei que ao me conhecer melhor mudaria de opinião. Muitas garotas não sabem o que eu sei. Disse que podia proporcionar a ele muito prazer. Mas ele cismou que queria uma mulher jovem.

“Você quer uma mulher pra sustentar”, arrisquei.

“Pode ser que tenha um emprego, não vou precisar sustentar de todo”, falou com aquele ar de caipira que só os homens do Córrego têm.

“Não faz mal, não estou pedindo pelo amor de Deus”, falei.

“Você é bonita, se alguém quiser mulher da sua idade, está no ponto”, sorriu e soltou a fumaça do cigarro.

“Você gosta de usar chapéu”, apontei para a cabeça dele.

“É desde do tempo da montaria.”

“Montaria, que bom, me leva na garupa?”

“Agora só se for de moto”, parecia querer encerrar a conversa.

“Fiquemos amigos”, declarei.

“É sempre bom.”

“Você me leva até o Óleo?”

“Levo”, apontou a garupa. “Conhece alguém por lá?”

“O Genivaldo.”

“Ué, dizem, dizem que ele é doido.”

“É dos doidos que eu gosto”, insinuei.

“Não sabia que ele gostava de mulher.”

“E se gosta, precisa ver, ainda quer deixar a gente nua no sereno, no meio da noite.”

“Nua no sereno?”

“É, ideia dele”, tudo mentira, eu inventava pra conquistar o homem. Somente cumprimentava o Genivaldo.

“Ele gosta de namorar?”, quis saber.

“Oh, se gosta, e quer que a gente apareça nua, na porta dele.”

“É mesmo? Espertinho o sujeito.”

“Ele se faz de bobo, mas de bobo não tem nada.”

“O malandro consegue então as meninas.”

“Consegue. Diz que outro dia levou duas pra passear no Frade, tarde da noite, fez que tirassem a roupa, namorou ambas, depois falou quer só devolvia os vestidos no dia seguinte, na casa dele.”

“Verdade?”

“Verdade. E não é que elas foram?”           

“Não acredito”, disse ele.

“Como não acredita? Eu era uma delas.”

“Você?”

“Eu, Eu de Castro. Isto é, Isabel de Castro.”

“Se eu pedir você faz o mesmo, como fez pro bobo do Genivaldo?”

“Oh, se faço, basta querer me namorar.”

“Assim, com tanto estímulo, namoro.”

“Vai querer ainda garota nova? Elas nem tão pensando nessas coisas, só querem o dinheiro dos velhos”, ri pra ele e peguei na sua mão.

“Então, tá, morena, então vamos.”



Desejo a todos Feliz Natal, boas festas de fim de ano, e 2012 pleno de saúde, realizações e muita fantasia

quinta-feira, dezembro 15, 2011

Quatro ou cinco da manhã

O arrepio que sinto agora só não é maior do que outro que senti no final de um baile de carnaval no longínquo ano de 1989. Às portas do amanhecer, um generoso folião livrou-me de voltar nua para casa, emprestou-me a camiseta.

Desta vez estou também nua, mas em Copacabana, na praia. Faltam poucos minutos para as sete da manhã.

Tudo começou à noitinha, quando conheci um homem muito agradável. Chama-se João. Conseguiu me tirar da fila de um cinema e me levar para uma festa. Passamos três ou quatro horas dançando numa boate, no Arpoador. Foi ótimo, ele transbordava alegria e parecia amigo de todas as pessoas, comemos e bebemos de graça. Muita música, muito aperto, nada a reclamar da inesperada madrugada. E depois?

Saímos da boate e começamos a passear de carro. Pensei que ele me convidaria para um motel, ou mesmo para sua casa, que disse ser no Alto da Boa Vista. Mas parou o automóvel em Copa, aqui na altura do Othon Palace. A maioria das pessoas sabe que a praia de Copacabana tem vários trechos, ou postos, como são mais conhecidos. Em alguns deles a areia é comprida, anda-se muito até se chegar à beira d’água. Em outros, a faixa de areia é estreita, apenas vinte ou trinta passos e o mar já está a nos respingar a pele. Ficamos num trecho assim.

Ele me desceu para a areia, bem junto à parede que oculta o calçadão. Ali ninguém nos podia ver. Esperto o João, já conhece o pedaço da praia onde pode estar de madrugada com as mulheres que conquista, não precisa pagar hotel nem levá-las para a própria casa. Forrou a areia com o casaco e me deitou. Eu tinha bebido tanto que gostei do descanso. Ele, porém, tirou toda a minha roupa. Eu nuazinha, às quatro e pouco, quase cinco da manhã, na praia. Mas João sabe fazer sexo, sabe muito, como trepa bem. Deixei-me envolver pelos seus encantos. Gozei duas vezes, gritei de prazer, ainda bem que ninguém ouviu. Depois, adormeci.

Passou algum tempo, acordei, o dia claro. E eu nua!

Penso em me vestir, mas antes preciso me lavar. Corro até a beira do mar. A água fria invade-me primeiro os pés e os tornozelos, depois sobe até minhas coxas, a seguir sou eu que me enfio nela, até o pescoço.

Sinto-me limpa, purificada, longe os resíduos da noite, o excesso de bebida e o melado do sexo. A água gelada recupera-me a energia. Então, o arrepio! O carnaval de 89. Espero, eufórica, o cavalheiro que me vai livrar de voltar nua para casa.