sexta-feira, maio 25, 2007

Piano

Visitei uma amiga que mora num desses prédios imensos, em Copacabana, construção típica do bairro. Ao nos despedirmos, ela falou em voz baixa:

"Quando você dobrar o corredor e passar na frente do apartamento que fica logo à direita, não olhe nem pare, o homem que mora ali é perigoso."

"Como assim?" quis saber.

"Já tentou agarrar várias mulheres."

"Ah, que besteira; segrede-me, será que você não gostaria de ser agarrada?"

"Sim, só que não por ele; é nojento."

Segui em direção ao elevador. Ao passar pela porta proibida, fisgou-me intensa curiosidade. Dizem que nas despedidas não se deve olhar para trás, e que, da mesma forma, deve-se passar ao largo de algo que nos tenta. Mas, como gosto de aventuras, quis mergulhar em mais uma.

Na verdade, o que pude ver em primeiro plano foi um piano. Estaquei junto à porta e admirei o nobre instrumento musical. A seguir, percebi que a casa era arrumada ao extremo: um pequeno sofá, uma mesa, dois quadros na parede de fundo. Pensei não haver ninguém. Quem sabe o perigoso ser masculino saíra e esquecera a porta aberta, ou mesmo armara o alçapão.

"Que deseja a belíssima senhora?"

Apareceu-me o homem. E era belo. Alto, um tanto desgastado na face pelos anos, mas os cabelos eram branquíssimos e limpos. Refiz-me da surpresa.

"Desejo uma música."

"Tenha a bondade", conduziu-me aposento adentro, ofereceu-me cadeira confortável.

"Alguma preferência?", perguntou sério.

"Comecemos pelos clássicos: Chopin!", pronunciei com entusiasmo.

"Comecemos?", repetiu, "então teremos um tipo de concerto".

"És um cavalheiro", completei.

As teclas soaram graves, seus dedos percorreram a parte baixa do instrumento para depois se esmerarem nos sons mais altos. Reparei que as mãos do pianista eram grandes e largas, pareceriam grosseiras se fossem admiradas longe dali. Mas sobre marfim quase níveo, intercalado de bemóis e sustenidos, corria ligeira, hábil, percebia-se que ele fora talhado para tal arte. Ouvi com prazer a primeira peça. Ao terminá-la, sugeri:

"Que tal fecharmos a porta? Assim o concerto se torna mais reservado."

"Oh, queira me desculpar", de pronto levantou-se, fechou a porta e voltou à banqueta. Espraiou as mãos e esperou nova sugestão.

"Beethoven", sussurrei.

"Não seria um tanto trágico?"

"Depende do momento e da peça", sentenciei.

Suas mãos deslizaram de novo, lançando-me à deriva, imersa num mundo de som e cor.

Quando terminou, perguntou:

"Que tal Evans?"

"O Bill?"

"Sim, ele; as big bands eram compostas de pessoas alegres, viviam em estado de contínuo êxtase", fez a observação enquanto investiu com rapidez no teclado.

Executou uma série de peças de jazz; ao terminar, ensaiou uma de Jobin.

Não hesitei em aplaudir aquele homem, que tocava com honestidade.

"Quero oferecer à senhora um café", lembrou-se a tempo: "à senhora que nem mesmo sei o nome..."

"Ah, queira me desculpar, não me apresentei. A seu dispor e ao dispor de sua arte: Margarida."

"Oh, uma flor!"

"E talvez das menos nobres", completei.

Caímos na gargalhada.

"Não diga isso, todas as flores são nobres."

Desapareceu em direção à pequena cozinha. Fiquei a admirar a cortina e a paisagem exterior. Daquele décimo andar via-se uma floresta de edifícios. Pude perceber também os ruídos externos que a música deixara escondidos.

"Cara Margarida", pronunciou com ligeiro sorriso enquanto me entregava uma xícara de porcelana. Acompanhava o café, prato de sobremesa com alguns biscoitos champanha.

"Seu apartamento é muito aconchegante."

"Agradeço a sua boa vontade, sei que as coisas por aqui precisam ser melhoradas, mas, a senhora me entende, vida de aposentado...", e fez um gesto vago com as mãos. Acompanhou-me no café.

Após alguns segundos de silêncio e expectativa, sua voz, como música melodiosa, soou suave:

"A senhora me entende, não leve a mal a maledicência dos vizinhos; talvez algo de negativo a meu respeito já tenha chegado a seus ouvidos", repousou a xícara e por fim sorriu.

"Não se preocupe, também segundo alguns não tenho boa fama."

"Veja", continuou "estou velho; o que me resta? Talvez a música e a companhia de poucos amigos."

"Se tens tudo isso, és um felizardo; a música e amigos. É tudo que muita gente deseja."

"Tenho alguma tristeza, pois pouca gente me dá atenção."

"Pois não acabaste de dizer que tens amigos?"

"Poucos, na verdade, coisa de dois ou três."

"É tudo e, se pensas bem, não precisas de atenção, és um concertista, as pessoas é que perdem por não atentarem em ti."

"Mas vez ou outra sou abatido por intensa melancolia, aí fico sem tocar, às vezes até esqueço algumas peças."

Voltei-me à parede, percebi um bonito diploma emoldurado. Levantei, queria ver seu conteúdo.

"Oh, bons tempos, toquei com a orquestra sinfônica."

"A do teatro?", perguntei.

"Esta; entre outras; mas o diploma é da do teatro."

"Não há razão para sofreres, és músico, és feliz."

"E a respeito das mulheres..."

"Que tem as mulheres?", interrompi.

"São raras e distantes."

"Como as flores...", falei e ri de novo. Ele gostou do argumento.

"Como a senhora me inspira!"

"Não sou eu, tens fonte de inspiração própria."

Demonstrei intenção de partir.

"Oh, não vá, sua presença me causou extremo ânimo e felicidade."

"Podemos nos ver mais vezes; virei visitá-lo."

"Deixe que eu lhe ofereça mais uma música."

"Então eu canto", falei.

"Que surpresa!, também cantas?"

"O que não faço nessa vida?", atalhei, "mas... deixa que eu começo."

Pus-me a cantar Smile, aquela velha canção imortalizada por Sinatra, que tem entre seus autores Charles Chaplin. Iniciei à capela, logo depois seguida pelo correr suave de suas mãos sobres as teclas. Confesso que foi o ponto alto do fim de tarde. Ao terminarmos a canção ele, contagiado, aplaudiu-me.

Ao levantar-me para partir, pronunciou em voz baixa, quase um segredo:

"Não demore a voltar, sofro muito."

"No seu lugar, eu não sofreria. És um artista, tocas de modo maravilhoso, vestes-te bem, podes freqüentar bons lugares."

"Sabe, a presença da senhora me fez pensar em algo novo. De agora em diante, tentarei encarar a vida de modo positivo. Veja o que me aconteceu em pleno sábado à tarde; surge-me, não sei de onde, a senhora, que é tão bonita, que parece demonstrar intensa paixão pela vida, alguém que possui luz interior, e que ainda canta maravilhosa, na verdade uma flor..."

"A vida é boa, é bela, basta que se saiba viver; muitas pessoas perdem essa oportunidade; quando se tem esse espírito, as outras coisas vêm como acréscimo", eu disse e lhe beijei a face. Deixei sobre a pequena mesa o número do meu telefone.

Dali em diante, encontramo-nos várias vezes. Em algumas ocasiões, sob o som do piano; em outras, em restaurantes aconchegantes, na Zona Sul.

Nunca pude comprovar o que minha amiga dissera. Se havia alguma pessoa perigosa nessa história não era ele, mas eu. Um verdadeiro vulcão.

sexta-feira, maio 11, 2007

Sobre a poltrona

Certa vez arranjei um namorado empolgante. Saímos para jantar várias vezes. Ele era culto, tinha uma conversa fascinante, mas tive de esperar um tempo enorme para que me levasse para cama. Cheguei a pensar que ele não gostasse de mulher. Quando me convidou à sua casa, adorei. Ele era aquele tipo de homem que adora fantasiar; como também amo uma fantasia... Logo que entramos, atirei-me sobre o grande sofá da sala de estar e lhe disse "deita comigo". Ele retrucou "você vai ficar toda amarrotada". Sentei-me, tirei o vestido e lhe entreguei para que o colocasse sobre a poltrona próxima. Foi a vez de ele investir "sabe o que senti vontade de fazer?" e sem esperar resposta continuou "vou amarrar você!" Então repliquei "pode amarrar, eu adoro". Atou-me com um cordão forte, acho mesmo que já o tinha usado outras vezes, quem sabe com outras mulheres. Arrepiei-me de corpo pleno. Ao sentir os laços fortes, apareceu em suas mãos uma fita adesiva grossa, e sem que eu pudesse reagir, grudou-ma à boca. Consegui manter o controle, queria saber aonde ele pretendia chegar. Desapareceu então por alguns momentos, retornando com uma enorme faca. Gelei. "Não se preocupe, não vou partir você ao meio" falou sarcástico, em voz baixa. Desejei correr dali, mas estava amarrada também ao estofado. Daí em diante, ele passou a lâmina sobre meu corpo, em alguns pontos chegou a me beliscar com a ponta, tocou-me o clitóris e viu que me excitava. A seguir deixou a faca de lado e pulou sobre meu corpo; primeiro livrou-me os lábios "quero te beijar" foi o que ouvi, pensei em mordê-lo com força, mas arrefeci; o corpo dele estava tão quente... Não só aceitei o beijo, como sussurrei em um de seus ouvidos "liberte minhas pernas, também quero gozar". Foi uma trepada e tanto, gozei com o perigo. Passei a freqüentar a casa dele uma vez na semana. E sempre havia novidades. Uma outra vez, prendeu-me os braços, laçou-me o pescoço, colocou-me sobre um pequeno banco e ameaçou durante todo o tempo derrubá-lo, caso eu não me mostrasse úmida por inteiro. Tremi, mas mantive a pose. Então ele subiu no mesmo banco e trepamos ali mesmo. Eu de pernas abertas e ainda com a corda no pescoço, temendo que o banco virasse ou se partisse. Mas ele gozou antes que isso acontecesse. Uma semana depois, ardeu-me as pernas com pequeno candeeiro. Eu imóvel, ele fazendo que me queimava, aquecendo-me as entranhas. Apesar do calor, eu tinha de me manter molhada; se não o conseguisse, queimaria-me todos os pêlos. Gozamos também a tempo. Da última vez que o encontrei, não preparou ardil algum. Desconfiei. Antes de recebê-lo nos braços, porém, vi que meu vestido ia em suas mãos. Recuou dois passos e escutei o rasgar da roupa fora do alcance dos meus olhos, em seguida vi que ele segurava uma tesoura e uma nesga da fazenda. Enquanto gozávamos, ele sussurrava "hoje, vou deixar você peladinha, vou guardar de lembrança algumas tiras da sua seda". Eu suspirei, ele ainda continuou "não adianta choramingar, agora já está feito". Deve haver uma saída, pensei. Mas não demorou e reagi: tomara que desta vez não haja saída alguma; senti que a fantasia me excitara. Voei por sobre o corpo dele e tentamos mais uma escalada sobre camadas de lava incandescente. Transamos maravilhosamente. Eu nada dizia, ele soprava episódios delirantes em meus ouvidos. Confesso que jamais conheci outro homem de tamanha imaginação. A iminência de estar nas mãos de alguém desconcertante sempre me excitara. Gozei descontrolada. Ao acabarmos, corri ao banheiro. O ardor mais brando, imaginei o que seria de mim dali em diante, nua na madrugada. Enquanto me ensaboava e me lavava com água quente, calculava minhas chances.

"Karina, minha filha (ai, ela só tem dezessete anos, que vergonha!), venha urgente e com algum vestido dobrado dentro da bolsa, depois explico o que aconteceu; anote o endereço; isso, pode ser, serve a canga; e corra que já amanhece, ou você e outros tantos verão a mãe louca chegando nua em casa. Não fale pra ninguém, viu; e, por favor, não demore!"

Seria a última vez que o veria, tinha de partir, aquelas brincadeiras já estavam ficando perigosas demais e eu sabia aonde tudo aquilo iria chegar...

Mas como a tentação sempre é maior, o desfecho teria sido outro se não acontecesse o que vai a seguir.

Ao sair do banheiro, voltando ao quarto, que decepção! Minha aventura noturna acabara. E cedo. Meu vestido jazia fácil sobre a mesma poltrona do começo da noite! Intacto. O que ele rasgara? Até hoje não sei.

sexta-feira, abril 20, 2007

Amores físicos em tempo real

Hoje vamos à aventura em tempo real. Munida dos mais recentes avanços da tecnologia, tento viver experiências de amor físico e relatá-las ao mesmo tempo. O local é Copacabana. Apesar de a praia ser muito iluminada, há um trecho onde a areia é comprida e permite a quem fica próximo ao mar algum esconderijo. É bem ali, por contraditório que possa parecer, diante do Meridien. Vou daqui a pouco, em torno da uma da madrugada. Quero viver fantasias, correr riscos. Algumas amigas chamam-me louca; talvez o seja, ao menos em parte, quem sabe...
posted by Margarida57 at 12:03 am

Já estou no local que, como ensaiei, me deixa anônima. Os encontros já foram agendados; são três os candidatos; que tenham sorte e sucesso. É possível ver as pessoas que andam sobre o calçadão, mas creio que não conseguem avistar-me. Sobre o corpo, trago apenas ligeira canga, que também há de me servir de forro, pois não quero grãos de areia pregados a meu corpo. Desenrolo o pano e sento-me sobre. Vento fresco alisa-me a pele enquanto espero amante que não tarda. O marulhar suave embala-me em doce modorra. Céu de estrelas fugidias derrama luz azulada. Ao me aconchegar nas sombras, surpreende-me voz masculina. Boa noite. Boa noite, respondo; morango?, dou a senha. Com chantilly, ele devolve. É este. Transamos. Antes me unta o corpo com óleo que diz afrodisíaco, depois desliza a ponta dos dedos sobre meu ventre, acaricia-me os seios, morde meus lábios e não demora a penetrar-me. Sinto-o quente, vibrante. Ele demora sobre meu corpo, pulsa pesado e enfim despeja-me líquido de homem pleno, viril. Beija-me uma das faces, toca-me o queixo; quer me pagar. Não sou prostituta, transo por prazer, às vezes por amor. Ele se vai; antes pergunta por outro encontro, talvez num apartamento suntuoso. Digo que vou pensar; não sei, não é bom repetir. Agora espero o próximo, virá às duas e meia.
posted by Margarida57 at 1:01 am

À hora marcada, descortino um vulto. Não cumprimenta. Morango?, pergunto. Com chantilly. É ele. Apresenta-se violento. Atira-me sobre a areia. Pega-me pelo meio das pernas, estica meus poucos pêlos, morde-me um dos ombros. Vaca, me xinga. Quero rir, mas não consigo. Acerta-me tapa vigoroso. Dou a outra face. Salpica-me areia, penetra-me áspero, me arranha. Perco a pele, sou carne viva. Sinto que não demora a explodir. A violência, porém, arrebata-me. Quero acompanhá-lo; sou amazona que cavalga atrasada sobre potro bravio, percorro terreno pedregoso, penetro densas florestas, salto obstáculos, protejo-me de galhos salientes, de armadilhas ocultas; quando o alcanço, arremesso-me, assalto-lhe as rédeas, emano meu rastro sobre seu corpo luzidio, lava de mulher madura, raras e provisórias pérolas violáceas que logo se dissolvem em líquido prateado, rio caudaloso que reflete o gozo das estrelas. Depois de satisfeito, parte abrupto. Leva-me a canga. Ei, volte aqui, não foi esse o combinado. Combinado?, só o preço. Lança as notas e foge. Não faço sexo por dinheiro, tento dizer, mas ele não escuta; como surgiu, desaparece. Às três e meia tenho outro. Espero? Não tenho alternativa.
posted by Margarida57 at 2:37 am

Às três horas vejo aproximar-se um jovem; deve ter pouco mais de vinte anos. Boa noite. Boa noite, digo. Morango? Ele parece não entender. Você gosta de morango?, insisto. Oh, prefiro abacaxi. Tento me conter; trata-se de um visitante imprevisto. Você está nua, diz. Parece, tento ser natural. E o que você faz aqui, nua? É melhor você não saber, vá embora, caso contrário a coisa pode ficar feia para o seu lado. Feia, como?, quer saber. Não vou dizer, aqui não é o seu lugar, espero um homem terrível, e tenho de estar assim, pelada, se ele descobrir algum estranho a meu lado é capaz de matá-lo, por favor, vá embora, não quero que você corra riscos. Ele olha amedrontado, vira-se tentando descobrir alguém que lhe venha pelas costas. Ainda insisto: vá, saia, agora; e fique calado. Ele se afasta.
posted by Margarida57 at 3:02 am

Transo com o terceiro da noite após as identificações de praxe. Ele sua. Parece que o fato de me ter encontrado nua o tornou mais excitado. Nada comenta sobre os arranhões ou a vermelhidão de meu rosto. Escala-me e permanece longo tempo. Gostou de me encontrar melada e suja de areia. Faz movimentos lentos, parece estar cavalgando. Sorri. Depois que goza, escorrega. Acende um cigarro, chega a chama do isqueiro próxima à minha cabeça, arranja-me os cabelos em desalinho. Quer pagar, chega a tirar o dinheiro. Não aceito, transo por paixão à vida, às vezes por amor a algum homem. Do jeito que você está, vai precisar de algum dinheiro. Sou rica, respondo. Sorri. Peço-lhe a camisa. A camisa?, não posso. Não tenho outra; arremessa longe o cigarro e parte. Não sei se o assustei.
posted by Margarida57 at 3:47 am

A madrugada se esvai. Não tenho mais ninguém programado. Sinto frio o estômago. Como faço para ir embora? Não posso voltar para casa andando nua pelas ruas de Copa, nem correr em direção ao calçadão e gritar aos caminhantes que já esporádicos aparecem: meu reino por uma calcinha! O jeito é não me desesperar; já saí de situações piores. Respiro fundo, tento controlar-me, ainda tenho algum tempo.
posted by Margarida57 at 4:27 am

Eis que reaparece o garoto das três horas. Ei, diz, quero falar com você. Você de novo?, finjo surpreender-me. Ele já se foi, você espera mais alguém? Não, venha cá. Ele se aproxima e eu o abraço, beijo-lhe a boca; sinto sua temperatura alta, seu coração se acelera. Você quer namorar comigo? Quero, responde animado. Então venha. Excito-o, solto-lhe o cinto, tiro-lhe as calças e agarro seu pinto. Está mais do que duro. Brincamos, esfregamo-nos. Ele quer me penetrar a todo custo. Deixa eu botar, quero gozar, diz. Seguro seu membro com firmeza. Sinto que ele não demora a ejacular; prendo-lhe então a extremidade com o polegar e tapo-lhe o canal por onde jorrará o seu prazer. Não posso deixar que ele goze, caso isso aconteça estarei perdida. Você quer ter uma transa completa comigo?, pergunto melosa. Quero. Então vamos lá pra casa, faço o convite. Eu já estou quase gozando e com você assim, nua, fico ainda mais louco. Sou sua pelo tempo que você quiser, mas vamos lá pra casa; minhas palavras soam imperiosas. Concorda. Onde estão suas roupas?, pergunta. O gato comeu, digo e lhe mordo carinhosa o lábio inferior. Ele treme mais excitado e avança sobre meu corpo. Minha destemperança quase põe tudo a perder; tento equilibrá-lo, disfarço. Me empresta a camisa, vai, me empresta e vamos. Ele, enfim, atende. Estou salva. Vamos, amor, guarde sua excitação, digo já vestida enquanto espero que ele abotoe as calças; depois, levo-o pelo braço. Não demoramos. No horizonte, já é possível notar que o amanhecer, róseo, se anuncia.
posted by Margarida57 at 5:23 am

Em meu apartamento, tentei conter-lhe o ímpeto viril e pedi que me ajudasse no banho. Ensinei a ele como uma mulher deve ser acariciada, como torná-la ferina, como levá-la ao máximo delírio. Pedi que me percorresse a pele, que ajudasse na remoção dos grãos de areia e que cuidasse da vermelhidão de meu rosto. Depois lhe dei as costas, as nádegas à flor d'água, pedi que me massageasse. As partes que me ardiam foram pouco a pouco se tornando entradas vulneráveis, portais por onde trafegavam a sensação de bem-estar e gozo. Sobre a cama, ao desfazer-me de toalha rica em algodão, rolamos juntos; ele inteiramente nu recendendo a macho voraz; eu, exalando perfume original, embebida em seiva que me amenizava as feridas. Tateou-me então por entre as pernas e encontrou aquele filete sempre em carne viva. Mergulhamos em oceano vasto e profundo, povoado de peixes inomináveis, mar abundante em cores sutis, cortinas translúcidas possíveis a olhos de amantes e poetas. Quando partiu, deixou-me em sonhos de menina recatada.

Acordei apenas no meio da tarde. Sobre a mesinha, largou poema original: o nome, endereço e telefone.

sexta-feira, abril 13, 2007

Desata-me

"Ah, sabes como eu sei, a dor é tão saborosa...
mais a ampulheta eu via fatal se esgotar,
mais sentia a tortura áspera e deliciosa"
Baudelaire

Tens meus braços atados, algemas prateadas, presos por sob meu dorso. Assim não me dás chance alguma. Exibes-me nua, mulher ainda encoberta, mas por manto que é apenas a noite que foge, sombra que se apressa a ocidente. Desata-me, prometo que não fujo; quero os braços para cobrir-me; se houver luz, tenho minhas vergonhas; se quiseres posso usá-los para te abraçar. Ah, por que me queres nua, por que tomas meu vestido curto? Tenho apenas essas duas peças. Na verdade não as desejas? É só para utilizá-las contra mim? Para ter razão ao me prenderes? Sei que me proíbes andar nua sob céu de estrelas, sobre areias prateadas; mas, vê, uma coisa é ser nua provisória, mesmo que estreitos os panos e a poucos metros das mãos; outra, é ter como capa apenas o lampejar dos vaga-lumes, tecido de gotas nervosas que transpiro toda trêmula ante o porvir. Põe-te no meu lugar, imagina o vexo que vou passar. Queres-me prisioneira, e depois? Nada roubei, apenas instantes de prazer em uma praça que à noite é deserta. Dizes que terei como castigo uma cela, mulheres estranhas em companhia, rolarei nua entre suas mãos, como troféu; deverei luzir sob sol revelador, sob dia que me haverá de roubar a fantasia, que mostrará as marcas em minhas nádegas avantajadas. Levar-me-ás nua ao distrito, mas não poderei de lá sair sem fibra a me cobrir o corpo; caso o faça, cometerei nova infração. Se tiver sorte, poderei ligar a alguém – é o que dizes –, tentativa vã de obter seda escarlate alugada, porque a que vai em tuas mãos já não mo pertence, deporá contra mim. Vai, desata-me, deixa que eu parta; prometo que te darei prazer maior, moro só; prometo que sempre serei perfume para que me sorvas, licor para que te embriagues... Permito que me tortures, sei que gostas de ouvir o estalar do açoite sobre o corpo níveo, mas não me deixes marcas; só a dor é saborosa... A dor e a ameaça de me levares prisioneira, mas apenas a ameaça. Vê meus seios: apontam intumescidos à espera de prazer maior. Vem, apalpa-me, sou úmida, sou portas abertas para teu desejo, escorrega... Se ainda quiseres, deixo em tuas mãos minhas duas peças; mas como lembrança. Vem, também transpiras, tens a respiração ofegante, o pescoço sangüíneo. Desata-me!

sexta-feira, março 30, 2007

Um passeio no Centro do Rio

Como é agradável ir pela avenida Rio Branco, no centro do Rio. No começo do dia há homens e mulheres a passos rápidos; não desejam perder a hora. Vestem ternos da moda, vestidos elegantes, altos os saltos. As calçadas vicejam, os automóveis e coletivos trafegam vagarosos, despejam aqui e ali pessoas sérias, que ainda guardam o sorriso para momento mais adiantado, talvez momento de maior descontração. Ando no trecho entre a rua da Assembléia e Sete de Setembro, faltam quinze para as dez. Resolvo entrar na Koppenhagen. Que casa comercial agradável! Sinto o perfume do chocolate e o aroma forte do café. Um homem sério, de meia-idade, em terno marrom e sapatos de verniz, olha-me com discrição, enquanto repousa a pequena xícara sobre o balcão. Sobre meu corpo, aperta-me os seios vestido vermelho tomara-que-caia, que desce justo até a cintura, para aí se soltar e me cobrir as pernas; nos pés, sapatos brancos finíssimos de meio-salto. Duas mulheres, uma de vestido cinza e outra de tailleur, tomam café. Peço o meu expresso com creme. Através do vidro, vejo uma menina e uma mulher, provavelmente mãe e filha, passam apressadas sobre o passeio; a pequena está de blusa branca e saia curta verde. Viro-me de novo para minha garçonete, ela atende alguns homens, talvez executivos do centro financeiro. Escuto deles algum gracejo, não dirigido a mim, mas ao amigo próximo, sobras de noturna aventura amorosa. Olho as embalagens de cherry brandy, o bombom molhado em licor. Sinto arrepios ao imaginar chocolate e líquido celestiais a percorrerem minha boca e mergulhar-me envolto em mel de amante recente... Madame, ouço-lhe a voz, é o senhor dos sapatos de verniz, reaparece e me oferece um presente. Madame, peço-lhe perdão, mas não pude resistir a impulso que há muito não me abate, aceite, por favor. E deixa-me nas mãos um coração de cherry. Quando penso em agradecer ou talvez recusar, meus olhos instintivos voltam-se para a caixa envolta em fita vermelha. Olho o homem de novo; ele faz ligeira reverência, sorri e sussurra: nunca vi mulher tão bela. Creio que percebi algum sotaque em sua voz. Ele entrega-me um cartão e se retira. Aventuro-me a seguir pelas ruas excitadas do Centro. Mas, neste dia, nada de extravagâncias. Às vezes, ligeiro frisson percorre meu corpo deixando-me trêmula; lembranças de artimanhas de amigas soltas por aquelas ruas, amores casuais: Maria da Glória nua num escritório; conhecera seu sedutor minutos antes, no elevador, durante o percurso de vinte seis andares; Fátima, de vestido justo, agarrada a um homem negro de quase dois metros, no subsolo de um desses velhos edifícios do Castelo, as pernas úmidas. Segundo ela, o garanhão além de lhe proporcionar prazer jamais experimentado, engolira-lhe a calcinha. Mas hoje, Margarida, apenas passeio, passeio e admiração. Entro na Dior; a vendedora já me é velha conhecida. Sorri e me beija as duas faces. Um pouco de conversa, depois me mostra as novidades. Cada peça de roupa exuberante, modelos lindíssimos. Deixo reservados vestidos, saias e um blazer listrado. Voltarei à tarde. Continuo em desfile: Elle e Lui, Office, Maria Zaida, Follic, etc. Visto, provo, me apaixono. Como é boa a vida, como é sábio aproveitá-la! Ao almoço, agora. Num edifício próximo a Maison de France há um restaurante elegante. É preciso subir à cobertura. Homens e mulheres quase todos em trajes de passeio completo assomam-se às mesas, servem-lhes garçons experientes. A vista é deslumbrante. É possível apreciar desde as aeronaves que pousam e decolam do Santos Dumont, a paisagem do outro lado da baía, até o Pão de Açúcar, passando pela enseada de Botafogo e os barcos do Iate Clube. O céu azul e o sol com seus raios amenos completam o quadro. Sento-me sozinha, seduzida. Sou servida conforme ritual tradicional. Tomo um cálice de vinho do Porto; depois, a entrada: carppacio de salmão, salada de palmito, pequenas folhas e molho à moda parisiense. Servem-me o prato principal dois antigos funcionários da casa; trazem-me arroz, champignon e posta de robalo; bebo água mineral. É possível fazer a refeição lentamente, saboreando as iguarias bem preparadas. O chef me vem à mesa, quer minha opinião. Não preciso dar meu parecer, querido, sabes tudo, aprendeste com os melhores de France. Ele sorri e me deixa de presente uma flor. De sobremesa não hesito: um häagen-dazs de macadâmia com bombons de chocolate belga, amoras e licor. Antes de partir, repouso durante quarto de hora no lounge do restaurante, ouço blue. Já à rua, aventuro-me no clima morno pós-uma da tarde. Deslizo por ruas apinhadas do Castelo, lembro-me então de uma exposição no Paço. Custa-me poucos segundos chamar um táxi. Ao descer, talvez três quadras adiante, avisto a construção que abrigou a família real. Viajo no tempo; vejo baronesas, princesas e um magnífico cavaleiro de farda azul sobre indômito potro negro. Ao cruzar o portal da construção, gravura de um filme de Almodóvar me traz de volta ao presente. No pequeno cinema, mulheres andaluzas desfilam. No salão do segundo andar, os quadros em exposição lançam-me em horizontes infinitos e em explosões de cores. Seguindo através de naves envoltas em silêncio quase sepulcral, guardadas por homens de terno negro, deleito-me num abrasivo mundo pictórico, envolta por ar frio que me tempera calor medieval. Talvez a digestão adiantada me faça avançar por espaços onde apenas minha silhueta se delineia. Desejo caverna secreta, gancho de ferro antigo em que possa pendurar a roupa provisória e, em seguida, saltar nua sobre o corpo de cavaleiro mascarado; delírios de mulher só em horas de nenhum pejo. Não sinto o tempo correr, a arte fascina-me. Às quatro horas lembro-me das compras e ponho-me em retirada; antes, tomo o café da tarde no bistrô do Paço. Volto às lojas, recolho os trajes que deixei em reserva. Apresso-me. As pessoas agora já são outras; algumas querem terminar o dia e voltar para casa, enquanto outras aguardam o momento de alegria e combustão, quando encontrarão, nos bares dourados, amigos, amigas ou amantes. Tenta-me ligeiro desejo de permanecer; atendo, no entanto, a chamado maior. Quero estar sozinha em casa, ouvir alguns CDs, ler um pouco, deitar lânguida à meia-luz. Embarco em um táxi. Zona Sul, Lagoa Rodrigo de Freitas. Quando abro a bolsa, encontro o cartão do homem da manhã, o dos sapatos de verniz; leio: serviço diplomático, consulado geral da Dinamarca. Será ele o cônsul em pessoa? Vou fazer charme, não ligo hoje. Amanhã, quem sabe, terei um namorado europeu.

quinta-feira, março 15, 2007

Águas do entardecer

O mar denunciava-me através do seu rugir milenar. Estava sentada sobre a pedra, as costas rijas, os braços como grosso cordão envolvendo as pernas, os joelhos encostados aos seios; tentativa vã e provisória de esconder minha nudez. À direita, algumas crianças corriam sobre as areias num jogo à péla; à esquerda, embarcação sem tripulantes tinha a popa sacudida pelo ir e vir das vagas. Ligeiro arrepio correu-me o corpo: ora o saliente respingar das espumas que explodiam num começo de maré alta, ora a incerteza dos momentos seguintes; brilho de pérola ao luzir do sol, imagem de marinheiro antigo a avistar-me, miragem de ilha perdida, voz plena de sal a desvendar mantos invisíveis. Frio intenso gelou-me o estômago, intenso ardor desceu-me ao baixo ventre, músculos vicejaram em descontrole, escorrer de água mais densa banhou-me. Por momentos desejei submergir e esconder-me sob a capa das águas do entardecer. Mas não tive tempo. Mão vigorosa tocou meu corpo. E num susto repentino, soltei os braços, afastei um pouco os joelhos e deixei meus seios explodirem. Eram duas rosas que desabrochavam, ou duas pequenas montanhas que convidavam à escalada. Tremi. Como um gigante que atemorizava navegantes doutros tempos e doutros mares, tomou-me nos braços e levou-me, incógnita e sob seda que era apenas sua pele curtida pelo sol. Fui colocada na embarcação fria e sacolejante. Ali mesmo, em meio ao cheiro forte de maresia e sobre chão banhado de pequenas línguas d'água que escorrendo de um lado a outro procuravam o caminho de volta ao oceano, abriu minhas pernas e penetrou-me. Meus gemidos, misturados aos estouros cada vez mais vigorosos da preamar, demoraram a se extinguir. Como a luz, que resistia às primeiras sombras da noite.

quinta-feira, março 01, 2007

Carnaval

"Oh, meus seios, sol em que te embriagas, bêbedo de líquido azul, calor da combustão em que te afogo...", e foi assim que começaste naquele sábado. A música levava a turba, os tambores ecoavam nossas trepidações interiores. Após desfilarmos alegria, descemos escondidos uma viela rústica; e foi entre um automóvel antigo e uma mangueira. Despiste-me cedo, bebeste-me rubra.

À noite, fui eu que te fiz vítima; algoz atroz, imperdoável. Enquanto nos levava a orquestra, salão à luz de séculos perdidos, minhas garras afiadas não te perdoaram; listras escarlates traçadas em dorso lívido, unhas de Penélope sôfrega vinte anos. Mas te vingaste a tempo: descoseste meus fios, desataste meus laços e me escondeste entre tuas pernas. Quando eu menos esperava, explodiste; jorraste vapores e lavas, tepidez trágica de amor a deusa olímpica proibida.

Na manhã seguinte, acordamos enquanto a maré baixa lavava nossos corpos, carícias plenas sobre tecido natural, afago perdido de lobo esguio. E caminhamos trôpegos, sob olhares avançados de foliões enfeitiçados pela nudez de havaiana de outros trópicos. Quando me livraste da exposição crua e me envolveste em seda de tear estrangeiro, fantasia roubada a sultana dançarina desatenta, conduziste-me sob afagos a desfile em que eu era estrela primeira.

Muitas vezes me despiste, outras tantas escalei-te; nos levaram blocos e cordões; gozamos intrépidos, mas sempre disfarçados.

Na segunda desapareceste. Foi, então, que te traí a tempo exíguo. Vaqueira. Chapéu e botas que me subiam os tornozelos. Mascarado, saído de filme mexicano, zorro esporádico, laço hábil sobre animal inquieto, minhas mãos por sobre as nádegas atou. Violento, arrancou-me o biquíni negro, amou-me na sombra, sob capa protetora. Às primeiras luzes, libertou-me; como recompensa, apenas as mãos soltas. Disse sobre a nova fantasia: "fada nua encabulada..."

Na terça ressurgiste; nada perguntavas ao me encontrares nua... Beijaste-me rubro, excitado, não mais me precisavas despir. Após explosões estelares, últimos acordes de sinfonia ligeira, de novo te tornaste invisível.

Quando na quarta a festa acabou, as amigas sussurram-me: "estás perdida, nua e abandonada." Mas foi aí que reapareceste e contigo me levaste; me querias mesmo nua, mesmo arranhada de outras unhas, exausta, a exalar suor apaixonado de quatro dias...

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Glorinha

Era uma daquelas manhãs que parecem suspensas no ar. Antônia virou-se na cama e manteve-se quieta. Sonolenta, preferia a imobilidade. Glorinha dormia na outra cama. Pôde percebê-la pelo leve respirar. Ah, que bom que existe a casa de Glorinha, uma casa tão simpática, o quarto acolhedor, sobretudo para os momentos de perigo. O que vivera na véspera não poderia ser classificado como momentos de perigo, mas era algo que a comprometia, que lhe deixaria abalada a reputação. Sentiu que naqueles primeiros momentos de languidez que seguem o despertar seria inútil procurar em si a urgência de ontem. Mas a amiga salvara-lhe a pele, o fato de terem combinado voltarem juntas do baile fora providencial. E a mãe nem implicara, pois conhecia a mãe de Glorinha. Ela, Antônia, ficara com uma marca, era verdade. Uma nódoa. Dependia, porém, dela mesma para ser eliminada. As outras pessoas divertiam-se, estavam mais preocupadas em aproveitar a noite o máximo que podiam. Apenas duas ou três voltaram-se e a repararam no momento mais crítico. E quem sabe não estavam do mesmo modo comprometidas? Poderiam rir se o que viam refletia a si mesmas? Apenas Glorinha mantivera a aura dourada ao lado do namorado. Pela amiga que a acolhia colocaria a mão no fogo.

Fora tomada por um tipo diferente de excitação desde que percebera a possibilidade de participar daquele baile. Como queria freqüentá-lo para depois contar às amigas todos os pormenores! E falavam cada coisa!, nos anos anteriores ouvira histórias de arrepiar. O clube tinha a fama de promover os melhores e mais picantes bailes de carnaval da cidade, e até mesmo nos dias que antecediam a grande festa realizava os pré-carnavalescos, que da mesma forma davam o que falar. Quando viu os convites e teve a aprovação da mãe, exultou. A mãe a aconselhava. Não devia dar confiança aos homens. Quanto menos atenção, mais eles a procurariam. Disse que mantivesse discrição, estaria lá para se divertir, e como é boa a vida quando se sabe aproveitá-la. O pai não precisava saber de nada. Ficaria em casa, veria televisão e quando perguntasse pela filha a resposta estaria pronta: foi passar a noite na casa de uma amiga, divertem-se juntas.

Antônia preparou a fantasia. Queria-a mínima. Glorinha a orientara. Vista-se com um tipo de manto. Faça uma fantasia que tenha capa larga e comprida. Lá pelas tantas, quando o calor estiver insuportável, a gente dá um jeito. Gostava das soluções práticas da amiga. E assim fez, um manto reluzente, trabalhado, de cetim, mas por baixo a surpresa: um biquíni que jamais vestira, tão mínimo que se perdia no próprio corpo, este com uma polegada a mais no bumbum e nas coxas, uma ponta de charme segundo as amigas.

Antônia mantinha-se quieta na cama. Ah, que vergonha, não queria nem pensar. Glorinha ainda dormia, mas o que diria ao despertar? A própria Antônia atribuía a culpa a uma taça de champanhe. Sim, o champanhe deixara-a excitada. Dançavam no camarote. Ela só, e Glorinha com o namorado. Mantinha-se fechada, envolta na capa, mas fazia tanto calor. E depois alguém já a paquerava, fizera sinal para que abrisse a roupa, que ficasse mais à vontade. E as outras meninas? Dançavam alucinadas, só de biquíni, algumas sem o top, não demonstravam vergonha nenhuma, às vezes abraçavam-se aos seus pares e permaneciam encobertas por eles. Glorinha lhe pediu licença, desceria um pouco com o namorado. Ela não queria vir?, então ficasse e aproveitasse. Foi então que aconteceu. Uma presença que na hora saudou como providencial. Um lindo homem, de juventude exuberante. E era louro. Dançou com ele no camarote largo. Ele se aproximava, mas não a tocava. Depois trouxe a taça de champanhe. Deu a ela. De novo dançavam, mas ele não a tocava. Depois de repousar a taça vazia em um dos cantos, ela própria o puxou para mais perto. Sentiu o corpo do homem. Foi aí que ele a tocou por debaixo do manto. A pele que deveria estar quente era fria, mas arrepio e calor súbito envolveram-lhe todo o corpo. Deixou a capa escorregar pelas costas e seu corpo brilhou, apenas o biquíni mínimo. O paquera percebeu que ela insinuava-se. Não mais se livraria dele.

E foi assim a noite toda. Suou, deixou gotículas de seu corpo no corpo do homem, o coração batia forte. Reparou que Glorinha a admirava e sorria. A fantasia da amiga era mais recatada, mas a deixava também muito sensual. Antônia dançou a madrugada inteira; tinha o calor das bacantes que traziam para a Grécia o culto a um novo deus. Só que as bacantes dançavam nuas... E por pouco ela também não dançara. Os seios escaparam algumas vezes; o top cedia nos momentos de maior euforia. E ela fingia não reparar. Mas só durante alguns segundos. Depois recompunha-se. Foi assim até os últimos acordes da orquestra. E era uma pena que o baile acabava. Essas festas nunca deveriam terminar. Quando deu por si alegre, prateada de suor, beijou na boca o namorado da noite. Chegou então a hora de partir. De repente, corou. Lembrou que viera coberta por uma capa, um manto largo e comprido. Mas onde estaria ele?

Quando Glorinha acordou e Antônia quis falar alguma coisa, a amiga tapou-lhe a boca. Esqueça. Acontecem coisas piores.

Laura

– Quem está aí?

– Sou eu.

– Eu, quem?

– Uma mulher.

Ele entreabriu a porta e reparou que eu estava nua. Afastou a tranca; escorreguei quarto adentro.

– A recepcionista?

– Não, a irmã dela.

– O que houve?

– Nada, ela me mandou em seu lugar – respondi quase envergonhada, sem saber onde colocar as mãos.

– Por que a máscara?

– Hoje é carnaval, lembra?

– Você não vai me roubar, vai?

– Só uma música – disse enquanto o abraçava.

– Música?

– O baile. Estão todos na cidade, vamos fazer o nosso.

Ele demorou mas, enfim, entendeu.

Quando o homem chegou sábado à tarde querendo se hospedar naquele lugarejo, experimentei sensação especial. Era um ator, já o tinha visto em algum filme na TV, e como era belo!, só não lembrava seu nome. A pousada ficava junto ao posto de combustível, o único na pequena cidade de Cianópolis, sudoeste de Goiás. Na verdade, eu fazia tudo naquela pequena hospedaria: varria, arrumava, lavava e passava a roupa de cama e servia o café da manhã. O local era freqüentado por motoristas de caminhões que seguiam para Mato Grosso. Nunca, porém, dera confiança a nenhum deles. Mas naquele dia... o homem era um ator, apesar de vir numa pequena camioneta, e era sábado de carnaval...

Tratei-o com cortesia e lhe ofereci o que havia de melhor.

– O quarto é simples, mas possui ventilador. Os dois banheiros são localizados na área externa; como hoje não há ninguém hospedado, creio que você terá mais conforto. Aqui no hall, você pode ver TV até a hora que desejar, e na geladeira há água à vontade. Se quiser, pode levar uma garrafa.

Ele demonstrou muita satisfação. Entreguei-lhe a chave.

– Devo ficar um ou dois dias – disse antes que eu o conduzisse ao aposento.

– Você deve pagar adiantado – avisei.

Ele tirou duas notas do bolso e me entregou, depois enfiou-se no quarto.

À noite, permaneceu vendo o carnaval pela TV até depois da uma da madrugada. Fiquei escondida na sala reservada a empregados; fiz como se não houvesse pessoa alguma na casa. Quando ele desligou o aparelho e foi para o quarto, eu já estava totalmente nua, apenas pequena máscara cobria-me os olhos. Aí fiz o que jamais pensara: fui primeiro até a entrada do pequeno hotel, pisei o passeio e senti no corpo o ar fresco da noite; depois, desliguei a luz externa e tranquei a porta. Então corri até ele.

Dançamos: músicas de um rádio de pilha. Após algum tempo, ele me segurou com força e me levou para cama. Era um homem rude, do jeito que eu gosto. Não lembro de ter transado com outro ator.
Só morri de vergonha, quando, sorrateiro, roubou-me a máscara!
De manhã, sussurrou alegre num de meus ouvidos:

– Hoje ainda é carnaval!

E me pediu que lhe servisse o café da manhã. Nua.

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Linda

O corpo de alguém que nos deseja é sol que aquece, mesmo à noite e em céu de poucas estrelas.

A madrugada envolvia minha nudez. Cheguei à sala, aproximei-me do sofá onde ele dormia e deitei a seu lado. A princípio mantive-me quieta, depois o envolvi em um abraço cheio de desejo. Num primeiro momento, ele se assustou e tentou desvencilhar-se. Então sussurrei carinhosa em um de seus ouvidos: "sou eu, Linda, não era isso que você queria?". Aí mergulhei sob o lençol, lhe tirei toda a roupa e o abracei de novo; meus lábios úmidos procuravam os seus.

Quando aquele homem chegou em minha casa numa tarde de dezembro, percebi sem demora que não o deixaria escapar. Talvez tenha sido esse meu pensamento que o manteve sempre com a atenção voltada para mim. Ele era de outro estado, veio com a prima de meu marido e uma criança, um menino de sete anos. Viajavam, vinham de Brasília e, no dia seguinte, iriam para o sudoeste de Goiás. Passariam a noite em minha casa, em Goiânia. Foram, havia algumas anos, marido e mulher, mas, segundo ela, não tinham mais relações. Eram grandes amigos. Ele sempre vinha no período de férias para ficar com o filho. Ela o hospedava e o levava de um lado a outro junto com o menino. Aquilo soava estranho para muitos familiares, mas eu acreditava nela. Não dormiam juntos.

Conversamos após o almoço. Ele olhava tudo e não se surpreendeu quando mostrei que trabalhava num anexo a casa, um salão de beleza que eu construíra para completar a renda familiar.

Minha vida até ali sempre fora cheia de problemas e sofrimentos: o marido, trabalhando à noite, dormindo de dia, ganhando pouco e com problemas de saúde, não tinha quase contato comigo; o dinheiro sempre curto, para se conseguir qualquer coisa era necessário um sacrifício enorme.

Aliás, esse era um assunto sobre o qual eu não gostava de falar. Mas eles eram discretos, não fizeram perguntas a respeito.

Por volta do entardecer, saíram. Na verdade eu os acompanhei. Fomos todos visitar uma tia bastante idosa e um pouco adoentada. Durante todo o trajeto, fui no banco da frente. Orientava o itinerário à prima, que dirigia. Ele ia atrás, com o filho. Notei que me olhava e fazia perguntas sobre a cidade, pois estivera ali havia alguns anos e não mais lembrava os locais que visitara. Eu procurava responder tudo que estava a meu alcance. Mostrou-se muito alegre e simpático.

Durante a visita, quando foi servido o café, reparei que ele me olhava sorrateiro. Mostrou certo embaraço quando o surpreendi. Depois saiu e brincou no quintal com o menino.

Na volta, continuamos a conversar animadamente. Acabei convidando a todos para visitar uma feira de artesanato que acontece todas as quartas nas imediações de minha casa, e onde há também comidas típicas. Andamos toda a rua, já apinhada de gente àquela hora. Compraram alguns produtos e insistiram em levar bolos, salgados e doces para o jantar.

Quando chegamos em casa, preparei a mesa e completei com refrescos e refrigerantes. Comemos e continuamos conversando. Depois de algum tempo, ele foi para a sala e, enquanto olhava a TV, falava e brincava com o filho. Mais ou menos às dez horas, a prima foi para o quarto e levou o garoto, que despediu-se do pai beijando-o e lhe desejando boa-noite. Entreguei a ele, que ficou na sala, a roupa de cama, também desejando que dormisse bem.

Ainda sob o lençol, procurei facilitar para que ele me penetrasse. Girei depois de algum tempo e permaneci sob seu corpo. Senti vontade de chorar, mas a necessidade de prazer era maior. Cheguei a emitir alguns gemidos. Ele tapou-me a boca, pois temia que eu acordasse uma de minhas filhas, que chegara tarde após o dia de trabalho e de aula na faculdade. Jamais gozei como naquela noite. No final, lhe pedi desculpas. Ele pareceu não entender. Mas, no fundo, acho que era eu que pedia desculpas a mim mesma por aquele ato intempestivo. Algum tempo depois, pensando melhor, passei a crer que eu mereci aquela noite. Permaneci ao lado dele até as primeiras luzes do dia. Antes de deixá-lo, agachei-me e o beijei. Um beijo untado por lábios e línguas, que durou longos segundos. Só então, ainda nua, corri para o meu quarto.

No café da manhã, olhei sem temor na direção de meu recente amante. Ele sorriu. Suspeitei que a prima tivesse desconfiado. Mas ao partirem, deduzi que não.

Ela me beijou com suavidade e afeto. Ele fez menção de apenas apertar minha mão, mas ofereci o rosto. Beijou-me.

Pedi a eles que voltassem sempre.

quinta-feira, janeiro 18, 2007

Dayse

O Park shopping estava movimentado naquela tarde de terça. Dayse saíra da loja havia vinte minutos. Trajava vestido muito curto, de fazenda leve. Era difícil haver alguém que não a observasse, mesmo do sexo feminino. Gostava de chamar a atenção e tinha certeza que causaria forte impressão na pessoa que aguardava. Não tinha dúvida de que, embora estivesse atrasada, quem a esperava não desistiria. Caminhava graciosa; a pequena bolsa a tiracolo. Olhou algumas vitrines, sobretudo a da joalheria mais famosa. Apreciou pulseiras e colares e se apaixonou por uma pequena medalha que se encontrava bem abaixo de um cordão de ouro reluzente.

Quando ainda trabalhava, antes das quatro, tentou não perder de vista o homem elegante que vestia impecável terno marrom e apreciava os perfumes. Quando ele entrou e se dirigiu a ela, perguntou se a loja tinha o Kenzo. Claro que temos, respondeu, e do tradicional. Esse mesmo, foi o que ouviu dele. Tentou ainda vender alguma coisa a mais. Ele, porém, relutou, disse que estava muito satisfeito com o produto e com a vendedora. Ela sorriu, entregou-lhe o cartão, não sem tocar com muita suavidade uma de suas mãos. O homem, sempre sorrindo, entendeu o que ela desejava. Deu também o seu cartão e falou que andaria ainda pelo shopping, tinha tempo. A moça deixou escapar a resposta antecipada: aceitava conversar, o mínimo que fosse. Ele saiu com o pequeno embrulho dentro da bolsa que estampava o nome da loja. Esperaria.

Dayse agora andava pelo shopping. Deslizava delicada. As outras vendedoras a conheciam, tinha colegas por toda a parte, não queria que elas desconfiassem. Mas a roupa curta e a necessidade de transitar através de corredores cheios de gente provocavam efeito contrário, colocando-a em evidência a quem ela não desejava. A vitrine da joalheria era um lugar impessoal, diante dela se manteria anônima; além disso, as funcionárias não a conheciam e eram mais discretas.

Quando menos esperava, sentiu alguém lhe tocar um dos ombros. Voltou-se convicta. Era ele. Beijou-a sobre uma das faces, sorriu. Ela também não escondeu ligeiro sorriso. Vamos, foi o que ouviu da voz do homem. Deixaram o shopping em um Corola cinza metálico. Ela não perguntou onde iam. O automóvel, silencioso, deslizou pelas avenidas largas de Brasília. Dayse reparava o fim de tarde. Seu admirador mais recente, enquanto guiava, girava às vezes a cabeça à direita e lhe dirigia a face sorridente.
Vamos beber alguma coisa? Café com creme, ela respondeu. Não bebe champanha?, ele sugeriu com naturalidade, enquanto contornava o estacionamento do Mercure. Não está cedo para tanto?, ela procurava ser autêntica.

Um dos funcionários do hotel veio abrir a porta do carro para a moça saltar. Agradeceu, enquanto o acompanhante a segurava por um dos braços e lhe aguardava os passos; ela equilibrava-se, ágil, sobre grandes saltos. Aqui há uma cafeteria ótima, ele disse em voz baixa. Entraram sem precisar tocar porta alguma. Subiram ao terraço panorâmico e se sentaram. Uma garçonete de uniforme azul veio atendê-los. Entregou dois grandes cardápios e esperou.

Dayse tomou seu café e saboreou um crepe de muzzarella, rúcula e tomates secos. Ele experimentou licor de amêndoas. Conversaram sobre banalidades. Nenhum deles revelou-se.

Avizinhava-se a noite, o clima era temperado e o vestido da moça mostrou-se um tanto inoportuno. Toda arrepiada, tornou-se sensual; mostrava-se mais nua do que nunca e sua pele reluziu aos últimos raios de um sol quase de outono. Simulou breve abraço ao próprio corpo; queria proteger-se do vento frio e ao mesmo tempo esconder a quase nudez. Vamos, foi o que ouviu mais uma vez.

A suíte presidencial do Mercure era algo inimaginável para uma moça como ela. Apesar de ser vivida, de já ter freqüentado outros hotéis, não contava com todo aquele luxo. O homem a acariciava, mostrava-se terno, percorria-lhe os ombros nus com a ponta dos dedos. Dayse ainda trajava o leve vestido. Então ele decidiu despi-la, mas com muito cuidado, como desembrulhasse algo frágil e precioso. Depois a conduziu até a cama de casal, bastante larga, e a depositou no centro, com toda a suavidade do mundo. Namoraram durante boa parte da noite. Ele preocupou-se com ela o tempo todo, quis proporcionar-lhe o máximo prazer. A moça, por sua vez, o achou maravilhoso. Às onze da noite, abriram uma garrafa de champanha e, para acompanhar, comeram queijos gorgonzola e camembert. Em seguida, tiveram mais uma sessão de intenso amor. Dayse jamais sonhara com dia e noite tão esplêndidos, parecia conto de fadas.

No dia seguinte e no outro, não foi trabalhar. Ligou alegando doença. Ficou em casa lembrando aqueles momentos que acreditava mágicos e que dificilmente se repetiriam; ao menos com alguém de tal educação, como aquele homem.

Não esqueceria o momento de despedida. Amanhecia, ele a beijou dentro do automóvel. Um beijo longo e elegante; a seguir, a surpresa: o homem envolveu-lhe o pescoço com o cordão e a medalha que ela apreciara na joalheria. Sentiu-se tão feliz que quis retribuir o presente. Então teve a idéia...
Dayse desceu na quadra de casa. O único momento de aflição foi quando se apressou para não ser percebida: ia na verdade nua e com o corpo ainda quente.

quinta-feira, janeiro 04, 2007

Peixes

No verão de 99, aluguei uma casa no alto de Ponta Negra, em Natal. A localização permitia-me ver toda a extensão da praia, cerca de seis quilômetros, onde predominava apenas areia, mar, e o céu. Era possível apreciar, nas madrugadas, a partida silenciosa dos pescadores, homens que enfrentam o mar bravio em embarcações rústicas, frágeis; homens que seguram firme o leme enquanto o vento intrépido infla as velas. De madrugada eu descia e, escondida – não queria causar alarde ou mal-estar entre eles –, observava o momento em que começavam a deslizar os barcos desde a parte superior das areias até entrarem n'água e se atirarem, rudes, em busca do peixe de cada dia. Depois – apenas a pele morena, tingida pela luz impetuosa dos trópicos – descia sozinha e caminhava debaixo de uma noite quase sempre pesada em estrelas. Então eles já iam longe, mas não perdia de vista suas velas, e me impressionava o saltar constante e corajoso dos barcos contra vagas ricas em espumas. Para aqueles pescadores, o mar era razão de vida, talvez cometa azul em céu de desventura. Enquanto eu, turista de estação, tentava me familiarizar com o local e fazer dele minha morada natural; depois de algumas semanas, já me sentia parte dali, como se tivesse sempre vivido ante aquele mar bravio e sob céu que refletia namoros estelares na paisagem marinha. Andava então longa extensão de areia, respirava o ar úmido de sal, de mar. Envolvia-me o êxtase da estação quente, mas tépida à noite. Gostava de estar sozinha, em estado de total deleite. Era pérola que desprendia faíscas, diálogo luminoso entre astros prateados. Certa vez notei que uma das naus voltava antes do previsto. Quis correr, esconder-me, procurar arbusto que me cobrisse. Mas não há mal maior do que emboscada vil que nos surpreenda, lanterna invasora que nos revele nua. Permaneci estática, nem me dei ao luxo de recostar sobre a areia convidativa; o máximo que me permiti foi cobrir os seios, recurso ineficaz: como as águas de preamar, transbordavam fartos às minhas mãos exíguas. Embora a noite fosse clara, consegui permanecer envolta nas sombras. Dois homens, um deles parecia ser bem jovem, desembarcaram e empurraram o barco areia acima; depois, desprenderam as velas. Ouvi a voz do mais velho: "vá agora". O garoto ainda tentou algum argumento para permanecer ali, mas o outro impôs sua autoridade. O remanescente desembarcou os peixes e, por meio de uma grande faca, começou a limpá-los. Vi que era hábil. Abria a parte inferior, tirava as vísceras e as enterrava na areia; ia amontoando os peixes limpos em um cesto. Foi então que me chamou. Surpreendi-me. Voltei a ouvir sua voz; pedia para que me aproximasse. Obedeci. Mas ele continuou seu trabalho; a princípio, não me dirigiu o olhar. Após algum tempo a seu lado, estática, foi a vez de ele se por de pé; tirou então a camisa e a colocou em uma de minhas mãos. Vesti-a; estava úmida, cheirava a mar, mas sobretudo ao corpo de homem em constante movimento. Seu odor de suor, que poderia causar repugnância a pessoas mais sensíveis, deixou-me excitada; e não consegui esconder o que me acontecia. Talvez o mesmo prazer sintam as rosas no momento em que desabrocham. Disfarcei. Agachei-me e lhe pedi a faca. Pus-me a limpar-lhe os peixes. Assistia a tudo impávido, como se minha presença fosse algo natural, rotineiro. O tocar nos peixes deixou-me ainda mais ruborizada. Era o momento de união entre a ação do pescador, seu cheiro que se espalhava sobre meu corpo e o fruto de seu trabalho. Cortei o último em pequenos filetes; mordisquei um deles enquanto olhava o homem do mar. Ele voltou-se para o suporte de madeira. Peguei outro filete e lhe ofereci. Comemos juntos. O sabor era como licor em noite de fantasias; o calor me assaltava, minhas entranhas ardiam... Foi então que aconteceu. Uma de suas mãos tocou-me por sob a blusa e misturou-se ao mel do meu desejo. Amamo-nos com toda a rudeza dos navegantes que há muito desejam aportar...

Antes de partir, ainda lhe disse: "amanhã volto; quero lhe devolver a blusa".

sexta-feira, dezembro 15, 2006

Rita

Sei que está frio e ventando, mas não posso sair de dentro d’água agora, ou melhor, não quero. Se você quer conversar comigo tem que ficar. Apesar de entardecer, a praia ainda está boa e até há sol. Escute, daqui a pouco eu saio, passeio um pouco com você, mas deixe antes eu contar uma coisa. Sou de Minas, sabe, por isso quero aproveitar o mar. Vim ao Rio a convite de um namorado que conheci pela net. Coloquei o endereço num desses sites de relacionamento e ele me fisgou, ou eu o fisguei, depende do ponto de vista. Cheguei há dois dias, passeamos bastante. Conhecemos juntos todas as praias deste litoral, de Búzios a Atafona. Conto um segredo: até fiquei nua em uma delas!, e agora estou aqui nesta praia, em Rio das Ostras, não é mesmo este o nome da cidade? Não sabia que esta região é tão linda. Você vai me perguntar: onde está ele?, respondo: não sei, talvez por aí. Meu namorado tinha tudo para ser o homem da minha vida; quer dizer, ainda tem, mas... agora estou achando-o esquisito em alguns aspectos. Em Barra de São João, passeamos de barco. Foi ótimo; apenas eu, ele e o barqueiro. Fomos tão longe que pensei que não mais voltaríamos. E à noite, que beleza, freqüentamos os melhores restaurantes, comemos maravilhosamente e bebemos até champanha. Depois de tantas extravagâncias, namoramos intensamente, fizemos cada coisa surpreendente. Coisas que eu jamais havia imaginado. Não me leve a mal, não sou nenhuma mulher à toa, foram coisas normais. Veja só, ele gosta de me deixar nua, tanto mais a céu aberto. No início tive medo, mas logo fiquei excitadíssima. Você deve estar se perguntando por que falo tanto de mim e de alguém que deveria estar aqui comigo, por que estou contando intimidades a alguém que acabo de conhecer, não?, mas não creio que ele volte. E se isso acontecer, não sei se vou aceitá-lo. Mas escute. Tomamos banho de mar numa praia chamada Cavaleiros; fica aqui perto. Foi ótimo, depois fomos a um bar maravilhoso, na orla. Hospedamo-nos no Sheraton. Veja onde ele me levou, no Sheraton!, chique, não?, sua única exigência foi que, após o jantar, eu o acompanhasse nua. Perguntei: como vou sair nua do hotel?, ele disse: “dou um jeito”. E não é que deu?, foi muito engraçado. Rodamos a cidade inteira. E eu pelada no carro, ao lado dele. Pensei: ai, se a polícia pára a gente? Mas nada aconteceu. Hoje ele me trouxe aqui. O quê? ah, o sol está se pondo? Tô vendo, lindo, não?, mas escute. Nem sei mais onde eu estava. Lembrei. Aí ele me trouxe a esta cidade. Fomos a todas as praias. Eu sou chata, falo demais, você não acha?, ah, ainda bem. Quis que ele me mostrasse todas as praias. Acho que da Joana, Águas Lindas, Areias Negras, Costa Azul e outras que não recordo o nome. Escolhi uma quase deserta àquela hora da manhã. Sim, chegamos aqui pela manhã. Depois foram chegando as pessoas e a praia ficou repleta. Então fomos almoçar. Comida baiana. Eu só de biquíni, fazendo o maior sucesso, e ele ao meu lado. Todos me olhavam. Quando entrei no carro, olharam mais, porque o carro dele é uma Mercedes. Almoçamos e bebemos caipirinha. Que delícia!, bebi demais, sabe?, e a bebida me deixou excitadíssima. A ele creio que também. Não, agora não estou bêbada; parece, não?, estou apenas um pouco alegre. Viemos parar aqui nesta praia depois do almoço, depois de duas ou três caipirinhas. Brincamos à vontade. Só que ele sumiu. Veja, sou bonita, você não acha?, e ele me deixou aqui. Sou de Minas, de BH, não tenho ninguém aqui no Rio. Vim pra encontrar com ele. Saímos, passeamos, comemos e bebemos, namoramos, fizemos mil e uma extravagâncias e ele me deixa aqui... Confesso que essa água fria, esse vento e outras circunstancias até me deixam excitada. Que circunstâncias?, vou contar. Sabe, já disse, sou de BH, não conheço ninguém aqui, todos os meus pertences estavam no carro dele e ele foi embora. Há mais uma coisa, mas deixo que você mesmo descubra. Venha, chegue mais perto, me abrace. Pode vir, sei que você está morrendo de vontade. Isso, assim, assim. Ah, você não tinha percebido? Nunca lhe aconteceu sair uma mulher nua do mar? Vai, me aperte; está frio, vamos aquecer nossos corpos. Quero sobretudo sentir. O resto é fácil resolver.

sexta-feira, dezembro 01, 2006

Renque acolhedor

Numa rua de um bairro da zona sul, havia um renque de árvores particularmente acolhedor. Por trás, em uma das casas que se alinhavam espaçosas, descobri uma senhora não tão jovem, mas ainda bela. Era uma daquelas pessoas que se mostram por dentro mas se escondem por fora. Gostava de conversar, na maioria das vezes ao entardecer, quando me contava tudo sobre si enquanto ouvíamos o canto dos pássaros e tomávamos, na varanda, uma chávena de chá. Narrava suas aventuras amorosas com entusiasmo. Mas jamais a vi fora de casa, ou vestida como quem vai a uma festa. Suas histórias soavam-me, à época, verossímeis. Hoje, no entanto, creio que tal verossimilhança devo creditar mais à maneira como ela as contava.

Certa vez, como eu demonstrasse dúvida, perguntou-me se aceitaria representar não papel principal, mas de coadjuvante em uma de suas aventuras. Confesso que ligeiro arrepio percorreu-me o corpo. Como eu hesitasse, ela se pôs a relatar o que se passava. Arranjara um namorado sem sair de casa. Dizia que ele estava apaixonado por ela. O namoro ia bem até que ele lhe pediu um favor surpreendente. Daria tudo que ela quisesse para levá-la nua a um passeio através da fileira de árvores, bem diante da casa. Sentira-se excitada no momento da proposta. Mas dizia que seu tempo de loucuras já havia passado. Embora não pretendesse fazer-lhe a vontade, não queria desapontá-lo, disse que pensaria no assunto. Ele cobrava-lhe a resposta e ela protelava. "Quem sabe você pudesse fazer o meu papel na aventura externa?", atirou-me a proposta. Recompensaria-me regiamente. "Ele vai descobrir, deve conhecer bem seu corpo", foi tudo que eu disse. "Deixa que isso eu resolvo", ligeiro sorriso entrecortou suas palavras.

Combinou o dia com o namorado e depois me comunicou: "está tudo acertado, a única exigência é que você esteja nua às onze da noite, na varanda. Vou deixar o portão encostado. Lógico que você virá vestida, mas tire toda a roupa e a deixe numa mochila que vai estar num dos cantos". "Mas como ele vai acreditar que a mulher nua é você?" perguntei. "Ele não poderá olhar para o seu corpo, estará de olhos vendados, vai apenas tatear sua pele para certificar-se da nudez, depois lhe tocará um dos ombros e você o guiará através das árvores. Ele também não poderá ver o momento em que eu vou sair de casa. Finjo que saio, e quando for a vez dele, já vai dar com você nua no meu lugar". Achei o plano engenhoso, mas apenas trejeito sinuoso ou emissão de som imprevisto de minha parte e a montanha ruiria estrepitosa. Mesmo assim concordei.

Na noite da aventura eu tremia muito. No momento de tirar toda a roupa tive vontade de desistir, mas consegui controlar-me. Tudo ocorreu com perfeição. Apenas um detalhe nos surpreendeu: quando voltamos, a porta estava trancada. Ele percebeu que eu demorava a abri-la. Então perguntou o que estava acontecendo. Como eu hesitasse responder, tirou a venda e deu com a nua errada. "Quem é você?" inquiriu assustado. "Uma atriz". "Atriz?" "Sim, uma atriz." "Então vamos", tomou-me nos braços e me colocou dentro de seu carro, "nossa representação ainda não terminou", falou em voz baixa. Deu a seguir a partida e me levou dali. No outro dia, quando a visitei de novo, ela ria alto como eu nunca vira. Depois, ainda muito alegre, disse-me: "eu quis dar a você um presente, vai dizer que não gostou?"

sexta-feira, novembro 17, 2006

Em Roma

Numa viagem a Roma em companhia de uma tia, há alguns anos, vivi momentos inesquecíveis. Acordávamos cedo e saíamos para descobrir a cidade. Confesso que tive predileção por lugares singelos, ruas simpáticas, lojas que vendiam pequenas bugigangas, algum apetrecho que ecoasse a simplicidade e alegria de um povo de muitos séculos.

Titia queria visitar todas os monumentos e ruínas do antigo império. Acompanhei-a ora com curiosidade, ora com um pouco de enfado, ora até mesmo assustada. Confesso que fiquei atemorizada ante à arena do Coliseu; imaginei a agonia de gladiadores ensangüentados e de todos os que eram devorados por leões; também não me foi difícil visualizar a multidão que há quase dois milênios gritava alucinada na assistência.

Nada semelhante a Roma dos dias de hoje, cidade até certo ponto tranqüila – apenas o ligeiro tráfego de automóveis nos assusta -, seu povo alegre, suas casas e prédios elegantes, a citá colorida, com lojas e butiques de marcas conhecidas.

Também admiramos os cafés; sim o café expresso é de invenção italiana e são muitas as cafeterias que se espalham pela cidade, plenas de gente bonita, principalmente ao entardecer, momento em que parávamos para tomar um capuccino.

Fora às visitas históricas e ida e vindas a restaurantes, onde não deixamos de saborear todo o tipo de prato típico, fizemos diversas compras. Era freqüente chegarmos ao hotel apinhadas de bolsas; um dos porteiros vinha então até o táxi, abria a porta do automóvel e nos ajudava a carregar todos aqueles objetos.

Fiz amizade com umas meninas italianas, ou melhor, umas jovens. Eram muito atiradas. Certa noite, convidaram-me para ir a uma boate que ficava nas proximidades do hotel. Falei com titia; ela decidiu descansar, já que o dia fora um dos mais movimentados.

Às nove horas, elas apareceram e a funcionária da recepção ligou para nosso apartamento. Desci rápida e embarcamos num pequeno automóvel.

Na verdade, era uma comemoração. Uma das amigas fazia aniversário e eram muitos os convidados. Logo apresentaram-me à maioria das pessoas. Percebi que muitos admiravam minha beleza e a roupa que eu vestia. Trajava vestido rosa tomara-que-caia, bem justo ao corpo e bem curto. Despertei os olhares de todos os homens e rapazes.

A festa transcorreu animada e sem incidentes. Predominava música americana; todos dançamos alegres e entusiasmados. Alguns rapazes aproximaram-se e queriam estar grudados a mim durante todo o tempo. É que no calor da música, meu vestido subia, as coxas ficavam de fora e por pouco não aparecia a calcinha; acho que em alguns momentos até apareceu, mas a aglomeração das pessoas, a dança, o piscar incessante de luzes coloridas não permitiram que os curiosos a percebessem mais do que durante breves segundos. Ao mesmo tempo, eu não podia esticar a parte de baixo do vestido, porque corria o risco de os meus seios saltarem. Só sei que foi tudo muito divertido. Deixei os italianos, que não demoraram a se tornar meus fãs e amigos, excitadíssimos.

No final da noite, quando as meninas me deixavam no hotel, tentava compreender o que uma delas me perguntava: queria saber onde eu comprara o vestido. Disse que o trouxera do Brasil.

Enquanto entrava no apartamento e observava titia dormindo, lembrei-me que estava num país que ditava a moda, mas que, naquela noite, eu tinha sido a pessoa que mais brilhara.

sábado, novembro 04, 2006

Seios nus

Desloco-me no mundo, ando a passos mínimos e tenho gestos e olhos convenientes. Deslizo sobre areias úmidas, vou com os pés banhados vez ou outra em fios fugidios de mar prateado. Largo e protetor chapéu isola-me de calor que desejo apenas como amante suave, pleno de desejos submersos. Arrepio ligeiro percorre minha pele branca, indício de explosão que se avizinha. Os olhos, quero aguá-los de claridade, perdem-se nas vagas nada perscrutadores; vou trêmula só de pensar em possível ser vivente, homem ou doutra espécie. Quero-me só, sob sol desnudo. Tenho a idade das ostras maduras, prenhes de sabor, que escorrem licor exótico, ocultas em praias milenares plenas de algas, festa entre as espumas, rendas desfiadas que me vestem e ao mesmo tempo me revelam. Quando transpiro sou sal, visco atrativo, suspiro original. Recosto-me na brancura de areias intermináveis, percebo horizontes múltiplos, miragens de além-mar. De repente o susto: alguém prepara o desembarque. Avisos, sinais, premonições. Calculo minhas possibilidades. Descubro a cabeça, meus cabelos voam; com uma das mãos comprimo contra os seios o chapéu; mas ele encolhe, o tamanho menor rouba-lhe a elegância, a altivez; torna-se minúsculo e enfim desaparece deixando-me nua. Qualquer presença estrangeira impede-me a fuga. Meus passos miúdos trouxeram-me distraída cinco quilômetros de costa azul, de costa sul; e agora, sereia fora d’água em corpo inteiro de mulher, Eva plena de pejo.

sexta-feira, outubro 20, 2006

Margareth

Margareth adorava que os homens encostassem em seu corpo quando viajava em ônibus cheio. Fingia nada sentir, mas se deliciava. Era jovem, dissimulada. Como a maioria das pessoas, trabalhava e freqüentava os coletivos na hora do rush. Enquanto muitos reclamavam da demora e da superlotação, ela se excitava. Usava roupa curta, provocante. Fazia-se assim alvo mais fácil.

Nos finais de semana, não deixava de ir à praia. A Copacabana. Vestia biquíni de lacinhos e camiseta curta. Mal cobria parte do bumbum arrebitado. Estátua viva da beleza pura, convidava a um beliscão, ou mesmo a alfinete macio.

Num domingo, voltava da praia. Já passava das quatro. Calor forte, sol ainda quente. O ônibus vinha mais apinhado do que nunca. Preferia voltar de pé. Nada melhor do que o esfrega-esfrega após um dia quente de verão: o corpo suado, a pele rosada ardendo. A pouca roupa a fazia arder ainda mais. Deixou-se encostar. Cada curva era uma nova oportunidade de se apoiar no corpo do desconhecido. A viagem prosseguiu assim até Bonsucesso. Ela morava em Olaria. Quando o ônibus deixou para trás a praça das Nações, Margareth tinha o espaço livre às suas costas. Alguns assentos até já iam vazios. Não reparara quem lhe viera por trás durante a viagem. De repente, ouviu voz próxima e grave:

– Ei, moça, deixa eu lhe falar uma coisa.

Virou-se e deu com homem corpulento.

Ele continuou:

– Notei que você gosta da brincadeira.

Tentou ser séria, mas lhe escorreu uma ponta de sorriso.

– Então, peço mais uma coisa.

Olhou-o de lado, com ar indagativo.

– Pra completar a brincadeira, queria lhe dar um presente.

Tirou do bolso pequeno objeto. Desenrolou-o. Era uma pulseira de ouro.

Margareth olhou a jóia com interesse.

– É sua – depositou ligeiro em uma das mãos da jovem, acrescentando a seguir – mas com uma condição.

Ela deu ao rosto graciosa feição de curiosidade.

– Vamos fazer uma troca – sugeriu esticando-lhe os olhos na direção do biquíni.

Margareth, sem demonstrar surpresa, curvando a cabeça, continuou a examinar a pulseira.

– Você ainda tem tempo pra decidir – como os bons comerciantes, fingia desinteresse pela transação.

Ela, então, encostou os antebraços no corpo e fez subir parte da camiseta. Exibiu discreta as pontas dos laçarotes que sustentavam o biquíni.

Sem mais palavras, o desconhecido a envolveu num abraço voluptuoso, mas teatral.

Foi então que Margareth ofertou-lhe moeda maior: febre interna tornou mel encantado a fada nua, e três tremores anunciaram a rosa lúbrica.

sexta-feira, outubro 06, 2006

Paletó azul

O paletó azul me separou da multidão. Felina de fauna estrangeira, arguta e silenciosa, destaquei-me alguns metros. Optava por inexistente praia deserta entre eufóricos sopros de turba levada ao delírio por metais e cordas. Deslizava sob o forro de cetim, os sentidos aguçados, a pele nua submersa transbordando-me. Eu era palavras de povo romano que se equilibravam tênues à beira de abismo povoado de línguas nórdicas, de sons bárbaros mas plenos de volúpia. Meus pés tocaram espumas de águas mornas, leve acariciar sobre planta que se levanta, veludo que se desfibra. Subiu-me contra-senso de vapores violáceos, aromas de outros tempos, tepidez prenhe de pré-gozo. Vigiei ao redor. Tentava ocultar mão invisível que me acarinhava, que me despia, que me separava do mundo físico. A multidão, ainda sussurrei, a multidão... É cega, é cega a prazeres gotejados em outras vias, foi o que ouvi, uma espécie de sussurro em mi menor. E continuaste enquanto me descobrias: oh, as rosas, são flores doutras plagas, e são duas. És poeta?, minha voz era gemido bom, dor de amor, canto de fado longínquo. Quase, disse a mão que me subia o ventre. E fingi escapar. Mas era seta que desejava a corda do arco rompida. Caí enfim sôfrega, sem resistência, arquejando. Entregava-me no intervalo silencioso de farol em mar bravio, sobrevida de navegantes; arfava: ora dor, ora prazer. Alegria de me sentir presa, imóvel, encaixe rígido sob peso redobrado, náufraga sob casco de ferro, navio interminável; embaraçava-me a algas que me serviam de algema e mordaça. Mas tentava o gozo: meus lábios trêmulos denunciavam, minha pele derramava camada de líquido translúcido, salpicado de odores viscerais, atrativo de aves oceânicas. Já era noite, espaço de cem anos de um cometa, quando me abordaste num dos quarteirões da praia; querias as horas. Interstícios estelares, momento de erupções em sóis noturnos de outras lácteas. Salpicavam astros fantasistas sobre a avenida, distavam vinte a vinte. E em silêncio trabalhaste, sulcaste a terra, desbastaste ervas imprestáveis, achaste atalho que te levou às portas de cidade encantada, povoada de silêncios e prazeres. Quando embuçado violaste a cidadela, te equilibraste sobre meus tremores. O paletó, o paletó, não mo leve, não possuo outras fibras. Teceste então renda fina: tens algodão invisível que te oculta a céu, a mar, a clarões abertos a sol a pino ou sob penumbra quase prata. E me deixaste nua, apenas águas de salinas escorrendo, a pele diáfana, os seios a palpitarem, estátua viva. Mas ao partires descobri que me mentias...

sexta-feira, setembro 22, 2006

Noite púrpura

Os sobrados da rua dos Inválidos se alinhavam à meia luz na noite quente de quinta-feira. Subimos o de número 97. Nossos passos sobre os degraus de madeira ecoaram escada acima. Uma lâmpada pendurada por um fio pendia numa pequena sala onde, após serpentearmos, desembocamos. Reflexos de faróis de automóvel entraram através da ampla janela e deslizaram pelo teto. Ouvi choro de criança vindo do primeiro andar; a seguir, um grito de mulher, que o interrompeu; ao mesmo tempo, a violência do bater de uma porta se estendeu por todo o casarão. Adão deu-me uma chave comprida e num movimento com a cabeça apontou-me o cômodo. Disse depois com voz baixa: "espere lá, tenho que resolver um problema antes". Enfiei a chave e abri a porta. O teto tinha altura assustadora. O quarto estava dividido por tapumes de madeira; colei o ouvido junto a um deles e pude sentir a vibração do som da televisão vizinha. Por uma fresta bem acima de minha altura, reparei a luz acesa. O choro de criança ressurgiu como que trazido por vento inexistente. Precipitei-me à janela, mas não consegui abri-la. Não pude ver a noite. Sentei-me sobre uma cadeira simples. Na meia escuridão, percebi uma mesa de fórmica; adiante havia uma cama antiga, de madeira.

A porta se abriu vagarosa. Vislumbrei Adão; resolvera o problema. Entrou e disse: "tenho meia hora". Minhas roupas imediatamente se espalharam pelo chão. Em meio ao quarto escuro, tentando conter meus gemidos e a respiração ofegante, eu vibrava à medida que suas mãos percorriam-me o corpo. Por momentos deixou-me livre; desfilei então fazendo vez de modelo em pele e pêlo, fantasia de homem extasiado. Vestia apenas sapatos de salto; tentava tornar as pisadas leves, pegadas de anjo, disfarce sobre tábuas compridas e ressonantes a pulsações de amante em constante delírio. "Vista esta capa", atirou-me sobre a pele tecido negro e translúcido. Rodeou-me o corpo; apertava-me enquanto eu me desmanchava em seu abraço. "Não a deixe escorregar". Namoramos durante os trinta minutos. Depois disse: "vamos". Quando pensei em vestir-me, impediu que eu recolhesse as poucas peças: "você vai só com a capa". "Por que não ficamos aqui?", ainda perguntei. "Tenho mais assuntos a tratar".

Deixamos a porta trancada. Guardou a chave em um dos bolsos, enquanto eu descia a escada enrolada apenas no leve tecido, atemorizada. Quando já íamos no automóvel, reparei a noite cheia de estrelas.

Transitamos através de ruas e vielas do centro velho. Adão não me dizia qual seu trabalho. Mas rondávamos hotéis baratos, cortiços e outros sobrados. Reparei que ele carregava os bolsos cheios de notas de cinqüenta. Vi mulheres mal vestidas, algumas embriagadas, outras fumando alguma coisa que não era tabaco. Arrastamo-nos por quartos sórdidos, quase sempre com as luzes apagadas, mal podíamos distinguir as sombras nas paredes. Ele pedia que esperasse; depois voltava, me roubava o manto e me acariciava lentamente. No último edifício, num andar soturno, guardado na entrada por um negro de terno e com o rosto suado, meu homem piscou-lhe enquanto me dava passagem; o empregado fingiu que não me via. Quando atravessamos uma espécie de bar sofisticado, reparei mulheres em trajes mínimos. Havia uma nua por inteiro; era a mais alegre. Atirou-se em minha direção e roubou-me o tecido. "Puxa, que corpo!", sua voz partiu o silêncio enquanto eu, surpreendida, cobria os seios por instinto, como adolescente despida por primeiro amante. "Deixe a moça, ela está comigo". Num gesto displicente, ela ainda segurou o pano pelas costas, depois envolveu-me nele atando as duas pontas que se destacavam; beijou-me, suave, os lábios; sussurrou então palavras sem sons - apenas emanações de ar - enquanto apertava uma das metades de meu bumbum com a mão direita: "venha um dia sozinha, quero namorar você". Confesso que suas palavras deixaram rastros de alegria em minha alma; e, em meu corpo, uma ponta de excitação.

O quarto tinha pintura rubra nas paredes e dois abajures que deixavam entrever estrelas prateadas pintadas em teto azul; corpos de mulheres nuas, bem desenhados, eram temas de dois quadros grandes. Adão mordeu-me os seios, me fez cócegas em torno do umbigo e deixou a mão que me acarinhava escorregar, até tocar-me os poucos pêlos...

Terminamos a noite em um hotel de luxo; não digo o nome para não comprometer. Ainda insinuei: "esse hotel é de turismo, cinco estrelas..."; "eles também negociam conosco", foram suas únicas palavras. Ao voltar, tivemos o namoro completo: uma transa intensa e alucinante. Quando precisei ir ao banheiro, levei um grato susto: era lindo. Imagine o banheiro mais bem transado, confortável, aconchegante, que você ainda não vai acertar. Senti no ar odor de alguma erva exótica, talvez oriental. Deixamos o hotel às quinze para as três; ainda ia enrolada em meu manto. "Estou morta de fome", sussurrei sensual.

Dirigiu durante um quarto de hora. Paramos numa casa que depois descobri ser restaurante. Tinha pouca luz, funcionários discretos. Relutei, não queria sair nua do automóvel. "Pode descer, aqui não tem problema". Entramos e ocupamos uma das mesas do lado direito. Tudo era iluminado por luz de velas. Saboreei carpaccio de salmão, duas colheres de arroz à piamontese e salada de rúcula. O garçom, sem me dirigir o olhar, serviu-nos duas grandes taças de champanha. No final, meu namorado soprou-me quase em surdina: "tenho uma surpresa". Primeiro pediu café, depois sorvete de chocolate com amêndoas, chantilly e licor de amarula. Falou então num tom mais alto, mas sem que sua voz quebrasse o misterioso silêncio: "o chocolate é dinamarquês, experimente". A taça refletia a chama bruxuleante de uma vela. "Que delícia!", foram as palavras de uma mulher apaixonada e em êxtase permanente, surpreendida por paladar encantador.

Rodamos mais um pouco pela cidade. Ao perceber a hora avançada, assustei-me: "vamos!, não posso ser surpreendida pelo amanhecer..."

Ainda éramos presas das últimas sombras quando me deixou junto ao portão de casa. Cheguei à janela do automóvel para tocar-lhe a face com meus lábios úmidos e trêmulos. "Amanhã, vamos comprar mais roupas para você", falou. Sorri e soltei a capa; fiz que escorregasse janela adentro: "leve meu cheiro, é para não me esquecer". De olhos fechados, sorveu o tecido com volúpia.

Já ia entre o gramado e a porta principal, quando me voltei para lhe dar um último adeus.

sexta-feira, setembro 08, 2006

O ovo

Agachada, descalça, nua e plantada sobre chão frio, meu corpo era de contorcionista em evolução. Perdia-me em movimentos ora para dentro, ora em sentido inverso; tentava todo empenho numa façanha quase inexeqüível.

– O ovo, eu quero, você tem de fazê-lo –, a voz do homem explodia pela sala.

Tremia, arrepiava-me, suava.

– Por favor, dê-me mais uma chance, garanto que consigo.

– Ponha então o ovo!

Fechei os olhos. Concentrei-me. Tentava reunir todas as forças.

Foi aí que meu ventre num salto quase olímpico e em movimentos concêntricos anunciou algo expresso e frágil. De entre as pernas rolou coisa macia, sem cor, matéria visceral, que se aninhou atrás, sob minhas nádegas.

– Isso não é um ovo, e nem branco é.

– As mulheres põem-se ao labor de acordo com suas possibilidades; é um ovo sim; e, além disso, sei eu o que sai de mim –, anunciei séria.

Ele se aproximou, tomou-o nas mãos, levou-o próximo ao nariz. Fez expressão de dúvida. Sua cabeça pendeu um pouco para a esquerda; parecia tentar convencer-se de minhas palavras. Depois estendeu-o a mim:

– Se realmente é um ovo, experimente-o.

– Não posso provar o que produzo; o julgamento não cabe a mim, experimente-o você –, ainda agachada, sem me mover, falei resoluta.

– Você prometeu satisfazer todos os meus desejos; acho que esse você não vai conseguir. Não vejo a forma de um ovo.

– As mulheres dão forma vária. Você já olhou na direção do sol? Talvez pense que ele seja laranja!

– Sim, o sol, mas o ovo...

– Não precisa ser sempre branco, nem ter forma de ovo...

– Você quer convencer-me do que não vejo.

– Veja o que quiser; tenho certeza das coisas que faço.

– Você é esperta, não recua.

– Não há o que recuar ante evidência tão convincente – sentenciei.

– Evidências, evidências...

Ainda agachada, esforcei-me em posição fetal; juntei os braços, fechei as pernas, depois pronunciei em voz baixa, mantinha a calma e a convicção:

– Olhe-me, perceba: sou eu o próprio ovo. Veja minhas formas, toque minha pele; venha.

Ele pareceu hesitar.

– Teme aproximação maior? Toque-me, toque o ovo gerador.

– Ou a galinha...

– Sim, isso, ela também não deixa de ser ovo.

Resolveu-se. Agachou-se ao meu lado. Começou a tatear minha pele. Percorria ora vales que se moldavam à mão própria, ora montanhas, ora músculos rijos, intumescidos. Eu, pétrea, resistia a tremores internos; tentava não denunciar as batidas rápidas do coração; o fluir ligeiro de meu sangue; a fogueira que me ardia o baixo ventre. Avançou. Apalpou-me entre as pernas. Vagaroso. Qual cego que tateia caminho duvidoso. Então aconteceu. Deixei em uma de suas mãos mucosa translúcida e brilhante, cintilância reveladora de minhas ardências.

Não me poupou. Ovo ou ave, prendeu-me as curtas asas – não queria adorno sobre telhado alheio –; depois, untou-me de minha própria seiva e me penetrou com a violência do primeiro Homem. Proibia a fuga mas incitava o gozo. Eu tinha pressa. Agitava-me, sacudia sôfrega todo o corpo; não queria perder vôo interno e intenso, mergulho no inefável.

quinta-feira, agosto 24, 2006

Sobressalto e prazer

- Ah, você tem medo dele...

- Não se trata disso, Eduarda, mas veja o que aconteceu.

- Então me conta, vai.

- Tudo começou com um telefonema naquele sábado, às duas da tarde.

- E daí?

- E daí que ele me convidou para sair.

- Você não aceitou?

- De início, alguma coisa me dizia que era para não aceitar, mas depois, como não tinha o que fazer, acabei cedendo.

- Então, Marlen, não foi bom o passeio?

- Foi e não foi.

- Por que você chega a falar assim, até mesmo com tremor na voz?

- Escuta só, você também iria tremer, confesso que senti medo; depois, uma ponta de prazer, e, afinal, descobri algo em mim que de certa forma me atemoriza...

- Se você sentiu prazer, foi bom.

- Eduarda, isso é que me preocupa; apesar de tudo que aconteceu, ainda gostei, senti prazer, e marcamos um novo encontro, mas escuta, não interrompa mais.

- Ok, prometo!

- Então, depois do telefonema, continuei arrumando alguma coisa em meu quarto, ouvi um pouco de música, manuseei um livro e às oito e trinta estava lá, na entrada do meu prédio, esperando por ele.

- Vou pedir mais um chope, você quer?

- Quero.

- Garçom, por favor...

- Saímos, demos umas voltas pela orla, perguntou se queria ir a um cinema; como eu já tinha visto os principais filmes, disse que não; então rodamos mais, paramos no Leblon, caminhamos um pouco, entramos numa livraria, vimos algumas revistas, ele tomou um café. Até ali, nada aceitei.

- Hum, livraria? Sofisticado, não?

- Sim, parece.

- Uma hora depois, me convidou para jantar; não era um lugar como este onde estamos, mas um restaurante chique, em Copacabana, restaurante de um hotel; ficamos numa varanda, subimos por um elevador panorâmico, fomos recebidos por uma maitre muito bem vestida, nos indicou uma boa mesa; estava fresco o ar, como agora. De onde sentei, podia ver toda a praia.

- Que maravilha! Quisera eu arranjar um homem desses...

- Escuta, por favor!

- Fala.

- O garçom nos entregou um cardápio imenso; cada coisa sofisticadíssima, comida francesa e coisa e tal; havia também grande variedade de saladas; pedi uma. Deliciosa. Ele quis alguma coisa que não entendi e perguntou se eu gostaria de beber vinho. "Vinho?" repeti, "bebo uma ou duas taças". Escolheu então vinho francês, levemente seco. Que maravilha!

- Então, eu teria adorado...

- Adorei; ah, até que enfim que o garçom chegou com nossos chopes!

- Está bom, não?

- Está, mas deixa eu continuar; para resumir: comemos, bebemos, foi tudo muito bom; ele ainda pediu sobremesa, parece que um tipo de sorvete com calda de licor. Eu nada mais quis. Depois saímos. Então perguntou aonde eu queria ir. Confesso que o vinho me deixou um pouco alegre e excitada, mas procurava não demonstrar; respondi: "vamos passear mais um pouco". Passeamos de carro de novo pela orla, mais uma ou duas vezes.

- Por que você não o levou para sua casa?

- Antes tivesse feito isso, mas foi ele que me levou pra dele.

- Que legal! Logo na primeira vez...

- Eduarda, não sou louca, mas confiei nele. Como é amigo de alguém que conheço muito, achei que não seria nada demais.

- Pelo visto, a coisa foi boa.

- Foi, mas eu queria que não tivesse sido.

- Como assim, Marlen?

- Explico. Chegamos à casa dele, na verdade, uma gracinha de apartamento; ele colocou alguns CDs, Jazz, música instrumental, não sei bem, mas até que gostei; abriu mais uma bebida, me perguntou se queria, disse que não; ficamos no sofá de uma espécie de ante-sala, lugar bem decorado, agradável. A seguir, ele foi apanhar alguma coisa na cozinha; acho que aí é que cometi um erro, sabe qual?

- Nem imagino.

- Deitei no sofá!

- E daí?

- E daí foi que quando ele voltou, trazendo um pequeno prato, acho que com um pedaço de camembert, eu disse baixinho: "me abrace". Ele obedeceu. Depois continuei: "vou ficar toda amarrotada". Nada falou, mas me olhou com uma expressão de que "quanto a isso, apenas você pode resolver". Então tirei o vestido. Fiquei só de calcinha. Estava sem sutiã.

- E ele?

- Fingiu não se surpreender, mas depois me abraçou forte e deitou por cima de mim. Não demorou, a calcinha, oh!, evaporou. Ao fundo, apenas a luz do abajur e aquela música; creio que som de piano.

- Que maravilha!

- Maravilha? Ouça agora, Eduarda.

- Estou ouvindo.

- Começamos a transar; ele me tratou com maior carinho, mas pedi que não se apressasse, porque tenho dificuldade de chegar ao orgasmo. Foi aí que ele falou: "vou fazer você gozar, não se preocupe". Fingi não me preocupar, mas sabia que aquilo seria difícil. Fez, então, a proposta, e o pior que aceitei!

- Que proposta?

- Falou baixinho num de meus ouvidos: "vamos fingir, fantasiar, vamos fazer o seguinte..." então eu fiz... e gostei e gozei!

- Peraí, Marlen, me conta primeiro o que você fez, assim você me mata de curiosidade!

- Fiquei de pé, nuazinha. Enquanto pisava sobre saltos, ele ajeitou a tira da bolsa em torno de um de meus ombros. Depois abriu a porta do apartamento. Tinha de fazer de conta que chegava nua na casa dele. Caminhando em direção ao corredor, ainda disse: "se eu pudesse ao menos cobrir os seios...". Ele retrucou: "você nem veio de top...". Saí. Quando ele fechou a porta, confesso que gelei. Aquele pequeno obstáculo de madeira transformou-se em muralha gigantesca, intransponível. Eu era um ser minúsculo às portas de uma cidade adormecida; tinha de encontrar abrigo após haver perdido o último véu, e sem que habitante algum desse por meu vulto, mesmo que em sonho fugidio. Bati logo em seguida; uma batida fraquinha. Temia despertar hordas estrangeiras. Bati de novo. Ele não abriu. De onde eu saíra tudo estava escuro e vinha um silêncio aterrador. De repente fui tomada por vertigem: não conseguia me controlar, girava de uma lado a outro, tropeçava sobre degraus de escada lúgubre e escorregadia; os caminhos se misturavam, passagem secreta que se dissipava; sentia-me ora em fosso profundo, ora exposta a luz prateada e ofuscante. Ao dar novamente por mim, sem enxergar coisa alguma, pensei: ai, meu deus, ele vai me abandonar aqui. Comecei a imaginar o que faria, ali, nua; como sairia daquela situação. Suava frio quando ouvi giro de metal; depois, o movimento de maçaneta. Saltei entre os vãos da cidadela inimiga e me atirei nos braços de quem pensei ser meu salvador. Transbordei de um jato só: "por favor, moço, me dê abrigo, aconteceu um sério problema". Retrucou: "me conte, depende do problema; se não me convencer, você vai ter que sair como está, e nem tenho roupa de mulher pra emprestar". "Mas, moço," eu tentava continuar... "Me conte". Aí inventei uma história. Disse que costumava sair com alguém bem mais velho do que eu, que naquele dia fizemos um brincadeira que não deu certo; acabamos nos desencontrando e minhas roupas tinham ficado no carro do homem, na garagem. "Sua história é muito fraca, você não tem chance alguma". Comecei a chorar; cobria ora os seios, ora a parte de baixo. "Ainda há o caso do elevador...", entre soluços continuei. "Elevador, como assim?". "Ele me colocou nua no elevador e premeu o décimo segundo andar; a porta se fechou apenas comigo lá dentro, mas, no décimo, parou; já estava preparada para ser surpreendida quando vi somente o corredor escuro; o sensor captou minha presença e a luz se acendeu; mais um susto, meu coração disparou; depois a porta se fechou de novo e continuei o martírio; quando voltei, não encontrei nem ele nem o carro, por isso estou aqui, bati na primeira porta que encontrei". Aí foi a vez dele: "primeira, porta?, aqui é o décimo quarto!". Não disfarcei um ligeiro sorriso. "Está bem, eu ajudo", disse enfim, "mas quero algo em troca". "Peça, dou tudo que você quiser". "Quero sua virgindade". "Ah, isso não posso". "Por quê?". "Porque não a tenho", respondi, "já a deixei na casa de outro". "Mas deve haver algum outro lugar em que você ainda é virgem...". "Ah, isso há", falei, enfim, aliviada. Eduarda, transamos de todas as maneiras possíveis e durante muito tempo. Há mais uma coisa.

- O quê?

- Nunca gozei tanto em minha vida!

- E a virgindade?

- Ah, isso eu não conto!

- E o que você ainda teme ao se relacionar com um homem que parece ser maravilhoso?

- Com qual deles?

- Ué, com esse...

- Ah, acho que não fui clara, mas não faz mal; escute: primeiro, não acho normal gozar nessas circunstâncias.

- E o que é normal hoje, Marlen?

- Segundo: tenho certeza de que essa fantasia ainda vai se repetir muitas vezes. Então me vem o ligeiro sobressalto: o que me aguarda numa terceira porta? Mas quando penso nisso, me excito; e conto os dias para o próximo encontro!

sexta-feira, agosto 11, 2006

Chuva de algodão

Uma chuva dispersa, disposta, salpicava-me a pele. A noite descera súbita deixando-me desorientada. Sentia o corpo gelado, o vento cortava-me a alma. Não queria correr, procurar abrigo. Via apenas a linha de faróis que lá embaixo dividia a estrada. Permanecia paralisada; era porcelana chinesa que temia romper-se ao mais leve tilintar. A capa encharcara-se e a umidade já me chegara às roupas de tecido fino. Por breves momentos fiz dois giros com a cabeça; à esquerda e à direita tentei descobrir algum tipo de cobertura, abrigo furtivo ou fugidio. Ruídos de motor se aproximaram; na bruma, uma moto. Parou ao descobrir-me só e empapada pela chuva. O rapaz teve tempo de levantar o visor do capacete e me oferecer a garupa. Amazona resgatada em momento de desencanto, a retirada reavivou-me. Quando me perguntou o destino, surpreendeu-se com um ligeiro “não sei” que se perdeu junto à água que me corria pelos cabelos e rosto. O caminho percorrido em meio à tempestade tornou-se açoite violento. O motor zunia, o veículo saltava vencendo obstáculos em meio à estrada pedregosa. Ao atingirmos a via principal, fiz menção de saltar. “Você está encharcada”. Não via outra saída a não ser retornar a casa. Descobri o abrigo da parada de ônibus. Agradeci e corri. Foi então que tropecei e caí com espalhafato. Ele ainda não partira, deixou a moto e correu em minha direção. A capa enchera-se de lama e meu joelho gotejava; não água, mas sangue. Resgatou-me pela segunda vez. Colocou-me sobre a moto e batemos em retirada. Quando chegamos à sua casa, a chuva diminuíra. Caminhei com alguma dificuldade, amparada por um de seus braços. Senti-me vexada: a lama entranhara-me até nos cabelos.

Tomei banho quente e saí enrolada numa toalha. Os cabelos molhados ainda respingavam. Apesar de sozinha e trancada, continuava vítima de pudor nunca experimentado. “Minhas roupas, onde estão minhas roupas?", quis perguntar, mas me resignei.

Ainda envolta pelo pano felpudo que me cobria dos seios até parte das coxas e com os cabelos já penteados, enquanto tomava chá quente e forte, tentava não me mover nem descruzar as pernas; não queria que mínimo gesto partisse minha precária cobertura; de novo a porcelana chinesa. Meu amigo recente disfarçava, fingia nada ver. Ou melhor, tentava. Eu também tentava; mas a coragem de mulher nua, desafiadora de noites e madrugadas, naquele momento desaparecera. Eu tremia; e não era de frio.

segunda-feira, julho 24, 2006

Espumas de preamar

Quando ele me abraçou e depois deslizou um dos braços sobre minhas costas até atingir um ponto abaixo do cóccix, ainda segurei-lhe a mão, mas não consegui evitar que descobrisse que eu nada vestia sob o leve tecido. Levei um dos dedos a seus lábios pedindo-lhe silêncio e deixei que continuasse enroscado em mim. Caminhávamos rente à vegetação que margeava a estrada. Lá embaixo, o mar explodia. Como ainda não amanhecera, percebíamos apenas as espumas irregulares da preamar. Os outros rapazes iam à nossa frente; cantavam e dançavam, sinal de muita alegria. Joana caminhava no meio deles; vez ou outra um se aproximava, tentava abraçá-la. Ela de início permitia, mas logo o afastava com delicadeza; talvez ainda sentisse uma ponta de temor.

Eram dez da noite quando os dois desconhecidos nos ofereceram carona. O céu estava escuro mas estrelado, a noite era quente, convidativa. Não tínhamos o que fazer, acabamos aceitando. Entramos no carro e eles nos levaram para os confins da Barra. Naquele tempo o local era ermo, quase não havia casas nem edifícios. Acabamos a noite num camping, onde eles disseram que tinham uma barraca. A princípio, relutamos. Queríamos o passeio, mas sem que nos tocassem. Vimos que nosso desejo seria impossível ao descobrirmos que um deles tinha uma arma. Ainda sussurrei a Joana: “vamos fugir!”, ela não teve tempo de rebater. Mesmo se tivesse, a fuga era temerária. Coletivos não havia, automóveis rareavam e duas mulheres sozinhas a pedir ajuda ali seria apenas deslocar ou adiar o perigo. Mas eles queriam apenas se divertir, não nos fariam mal.

O rapaz deixou que os outros se afastassem. Quando olhei para Joana, ela estava abraçada a dois deles, um a cada lado. De repente, fui surpreendida por um precipitado beijo na boca. Sua língua tentava encontrar a minha; quando conseguiu, senti uma de suas mãos subir-me as pernas, tocar meus pelos. Encontrou-me úmida, talvez até melada, mas ele nada disse. Afastei um pouco as pernas e permiti que me tocasse com mais leveza. Depois, de modo brusco, desvencilhei-me do beijo, cerrei as pernas e tomei-lhe as mãos, beijando-o sobre uma das faces. Vi um automóvel antigo parado adiante e percebi que os jovens e Joana conversavam com um senhor de idade já avançada.

Já no carro, os dois nos deixaram nuas. Ao deslizarmos pela alameda que dava para o camping, reparamos que o local estava quase deserto. Saltamos no estacionamento e corremos até a barraca; éramos duas Evas surpreendidas pelo pudor. Não vimos viva alma. Transamos com ambos alternadamente. Eles abriram uma garrafa de uísque; beberam até a embriaguez. Quando demonstramos desejo de partir, um deles nos disparou: “só ao amanhecer”. Às quatro e trinta, fugimos. Com dificuldade, recuperamos parte de nossas roupas. Saltamos a cerca para escapar de um vigia. Alguns latidos de cão fizeram nossos corações dispararem. Na praia, encontramos o grupo de rapazes.

Joana gritou para mim: “este senhor diz que nos leva, ele vai para Copacabana”. Entramos no automóvel. Antes, os rapazes nos beijaram; e enquanto partíamos, puseram-se a pular e a gritar dando-nos adeus, fazendo enorme algazarra. Num ponto do horizonte, sobre o mar, o céu avermelhava-se.

quinta-feira, julho 06, 2006

Por volta do entardecer

Joana estava sentada numa pequena cadeira de ferro, na varanda de casa; cruzara uma perna sobre a outra, e, com o braço direito, como correia em meia diagonal, tentava tapar os seios. A postura não era de vexo nem de desdém, caía-lhe bem a inteira nudez; beleza e uma ponta de ousadia moldavam-lhe a silhueta. Sua face esboçava ligeiro sorriso.

- Vou pedir a você uma coisa – falou na direção do namorado, que despertou do encanto em que ela o mantinha até então -, quando estivermos em minha cidade, na casa de meu pai, não poderemos dormir no mesmo quarto.

- Como assim?

- É que para papai, como ainda não me casei, não posso dormir com um homem.

O namorado sorriu debochado:

- Será que seu pai acha que você, com quarenta e dois anos, ainda é virgem?

- Não sei; o que posso dizer é que na casa dele me porto como tal.

Ele riu de novo, agora alto.

Joana descruzou as pernas mantendo-as unidas durante breves instantes; ao perceber o olhar frontal do namorado, não demorou a cruzá-las de novo, quase de modo instintivo e em sentido inverso. Por segundos, deixou escapar um dos seios. Mas logo o recuperou, embora de forma precária.

- Se você deseja ir à minha cidade para conhecer minha família, tem de ser assim.

- Não vou poder namorar você em momento algum, durante nossa estada lá?

- Vai, a gente dá um jeito, mas teremos de dormir em cômodos separados.

- À noite, então, poderemos sair? – perguntou excitado -, já que a cidade é pequena, talvez existam lugares discretos para namorarmos...

- Quanto a isso, não se preocupe.

- Você já teve alguém, nessa cidade?

- Já, mas o que isso tem a ver?

- Você já namorou alguém pelos ermos da cidade, à noite?

- Ah! Você está querendo saber demais!

- Sim ou não?, responda...

- Se você quer saber mesmo, sim; e olha que já fiquei nuazinha, como estou agora.

- Nua?

- Isso, e ainda aconteceu uma coisa muito engraçada.

- Conta, então, vai – excitava-se cada vez mais.

- Depois, tá? Agora me abrace e me beije!

George se aproximou e lhe percorreu com a ponta dos dedos a pele sutil. Joana era roseira ao entardecer e o namorado, cedro protetor; ela subiu-lhe o tronco, envolveu os ramos mais salientes e exalou néctar original.

Após desprender-se e voltar à posição anterior, narrou o episódio:

- Você, que se excita tanto com histórias, vai adorar. O fato foi o seguinte: eu namorava o filho do dono da única farmácia da cidade. Quase nos casamos, sabe? Ele adorava me ver com os seios soltos; dizia que eram sinais de fartura e prosperidade. Numa determinada noite, seguimos um caminho que leva a um arraial que fica a dez quilômetros da cidade. É um local deserto, quase ninguém transita por ali, apenas os poucos moradores. Paramos e enfiamos o carro num atalho. Tirei toda a roupa e pedi que ele me seguisse. Entramos pelo mato. Quando atingimos as margens de um regato, ouvimos vozes e alguns gemidos. Pensei que fosse algum bicho. Senti medo. Reparamos, porém, que os ruídos vinham de um casal que namorava no local. Minas é um estado muito conservador, as pessoas vivem de aparências e, provavelmente, aqueles dois não tinham onde namorar. Abaixei-me para não ser vista; meu namorado fez o mesmo. Depois, percebi de quem se tratava. A moça era minha amiga e, assim como eu, estava nua. Resolvi, então, pregar-lhe uma peça. Descobri as roupas dos dois nas proximidades. Como ela tinha também os seios avantajados, furtei-lhe o sutiã.

- Logo o sutiã?

- As mulheres, ao contrário do que os homens pensam, valorizam muito os seios. Sabia que sem o sutiã ela ficaria desesperada. Saímos dali às escondidas e fomos em busca de um lugar mais tranqüilo. No dia seguinte, fiz-lhe uma visita. Lembro que ela tinha uma loja. De roupas íntimas! Fui até lá. Levei um embrulho de presente, muito bem arranjado. Disse ao vê-la: "tenho uma surpresa pra você!". "Surpresa?, mas por que será que mereço um presente?". Abriu o pequeno pacote e descobriu o sutiã que perdera na véspera. Realmente se surpreendeu. Olhou-me sem entender. Então, foi minha vez: "eu também estava lá; e sorte sua que só precisei do sutiã!". Caímos ambas na gargalhada. Ainda completou: "puxa, você me deixou em apuros!".