segunda-feira, outubro 26, 2020

Mascote

Vinha a Cíntia, com seu biquíni minúsculo, tão gostosinha, lá pelas bandas do Pecado, a praia mais reservada de M. Sou mulher, mas tive vontade de puxar o elástico da pequena peça. Confessei a ela, mulher com corpinho de modelo, vai lá pelos trinta e poucos. Deixe pro cachorro, respondeu. Cachorro?, assustei-me. Apareceu um cão enorme, negro, pelo rente, a correr e saltar na direção dela, fez a festa. Cachorro?, repeti. Sim, não está vendo?, chama-se  Mascote. Mas o cão já aprendeu essas coisas?, continuei. Que coisas, fez-se de desentendida. O biquíni, repeti. Que biquíni?, ela. Ah, deixa pra lá, tentei mudar o rumo da conversa. Aprendem rápido, são muito inteligentes, respondeu, dois compassos a baixo.

A praia era boa, ondas na arrebentação, a brisa e o sol de quatro da tarde. Lembrei-me, então, de uma época em que trabalhei fazendo palestras, viajava tanto, uma beleza. Certa vez, na hora do almoço, num pequeno grupo, alguém contou sobre uma mulher que trepava com o próprio cão. Verdade, dizia a tal, foi a diarista que me contou, a mulher se enfiava no banheiro com o animal, um cão imenso, e não saía tão cedo, escutava-se o ganido, não se sabia se dela ou do cachorro. É isso quase todo dia, repetia a tal diarista.

À época, duvidei, será que existe gente capaz disso? Depois, pensando melhor, achei possível o tal relacionamento. Seria apenas físico, capaz de proporcionar prazer – os cães demoram na conjunção sexual, e ainda são capazes de dar as costas para a parceira e continuar com o pênis lá dentro, duro que só. A mulher sentia-se feliz, realizada, nas palavras da empregada. Sim, era certo que saía ganhando, caso desejasse apenas sexo. Um cão não é capaz de aborrecer. E não sentiria ciúmes quando ela decidisse sair sozinha num sábado à noite.

A Cíntia de biquininho andando pela beira d’água. O sol ardendo nas nossas peles. Mascote ao seu lado, feliz, saltitante.

Cíntia, volte aqui, me empreste o Mascote.

segunda-feira, outubro 19, 2020

Nua por debaixo

Sempre fui aberta a desafios, tanto na vida profissional como na pessoal. Aos quarenta anos, apareceu-me um namorado entusiasmado, pronto a me propor performances cada vez mais estimulantes. Em M, cidade litorânea de porte médio, não há muito com o que me preocupar. É trabalho e, aos fins de semanas, alguma diversão, como praia pela manhã, visita a uma amiga à tarde, saídas à noite para passear na orla, ou ir a alguma festa. Já não tenho vinte anos, digo a ele. Mas insiste, você é jovem, tem saúde para muitas atividades, até mais do que as garotas de dezoito anos.

Os homens mais velhos da cidade saem com meninas jovens, mesmo menores de idade, como de dezessete anos. Tenho amigas que fazem de tudo para arranjar namorado, o máximo que conseguem é um amante, o que muitas vezes lhes traz problemas. Os homens livres estão com as meninas. Meu namorado teria vantagem entre elas, mas me preferiu, você é muito gostosa e, além disso, adora andar nua.

Frequentamos as praias mais retiradas, como as que ficam entre M e Rio das Ostras. Posso mergulhar ou ficar na areia, com os seios de fora, abraçá-lo sem ninguém por perto a nos incomodar, e houve um dia em que mergulhei pelada. Apesar de toda nossa excitação, sempre deixamos para transar em casa. Uma vez fizemos amor dentro do carro. Quais os desafios, em meio a uma vida tão cheia de prazeres? Os de me manter jovem, em corpo e em espírito.

Domingo à tarde, voltando de uma de nossas praias, ele me faz outro tipo de desafio. Dirigir nua! E lá vou eu, ao volante. Amor, é preciso ao menos cobrir os seios, é mais discreto. Cubro-os após contornar para entrar em M, para ser mais exata, após dobrar a rua que conduz à orla de Cavaleiros. Tem uma porção de gente na praia, tanto na areia quanto na calçada, os bares cheios. Bem que estou gostando, uma vontade louca de saltar. Não esqueça, você está nua!, adverte-me o namorado. Obrigado, amor, esqueci.

Tenho amigas que aceitam tudo o que os homens lhes pedem. Comigo não é bem assim, tenho princípios. E não dependo deles, ganho bem com meu trabalho. Por isso, tantos admiradores atrás de mim. Apesar do assédio, quase não namoro homens da cidade. Minhas amigas acabam desvalorizadas, no final não há quem as queira.

Amor, não repare, deixei marcado o estofado do banco do motorista, falo, tímida. Não faz mal, isso sai, deve ser o calor, e estou gostando, diz. Calor?, ah, sim, estou mesmo com muito calor, cheia de fogo. Rio enquanto faço a curva para entrar no estacionamento do Ilhote. Amor, está percebendo?, preciso saltar, quero beber alguma coisa.

Ele me entrega o biquíni, salto do carro, cumprimentamos a moça do estacionamento e bordeamos a calçada. Na parte descoberta do Ilhote, vejo minha amiga Nete. Ela e o namorado. Tão bonito o homem, adora quando ela passeia nua ao lado dele, de dia ou de noite. Ela veste uma canga bonita, colorida, cheia de desenhos. Ri para mim. Está bebendo espumante, a única bebida de que gosta. Essa minha amiga sai cara para os homens que arranja. Nete pisca, apontando com a face aos meus seios. Ah, sim, estou apenas de biquíni. Pra que preciso mais?, chego a sussurrar, em meio a um beijo que faço flutuar na sua direção. Já sei, quando for ao toalete, vai me pedir para acompanhá-la, quer trocar teu biquíni pelo meu? Só que vai abrir a canga e mostrar que está nua por debaixo! Vamos cair as duas numa grande gargalhada. Adoro todas essas tardes de domingo.

segunda-feira, outubro 12, 2020

Bizarra

Ivete telefonou fazendo escândalo. Disse que não me ajuda mais, que não adianta telefonar pra ela. Engraçado, ela é que me deve favor, já ajudei muito mais do que ela me ajudou. Fora os galhos que quebrei pra ela em matéria de namorado. Basta lembrar o baile de Carnaval, faz uns dez anos. Um homem veio falar comigo, muito bonito por sinal, estava fantasiado de Zorro. Moço, desculpe, espere um instante, e fui correndo procurar por ela. Ivete, arranjei um namorado pra você. Ela se deu bem. Ficou com ele, não só no baile, mas depois e ainda durante muito tempo. O tal era rico, ajudou-a um bocado, tudo graças a mim. Sem contar de eu já ter ficado de sobreaviso várias vezes quando saía com alguém pela primeira vez. Por isso, não é justo, ela me deu um esporro violento pelo telefone, e nem tinha motivo pra tanto. Estou acostumada a ajudar as amigas. Outro dia foi a Linda. Telefonou desesperada, pensei que fosse morrer. Corri à casa da dela. Quando cheguei, estava apenas de calcinha, deitada no sofá da sala, chorando terrivelmente, uma travessa de cuscuz sobre a mesa consumida pela metade. O que foi Linda? Ah, você nem imagina, não aguentei, comi a metade da bandeja de cuscuz, um amigo que trouxe. E soluçava. Fiz de tudo pra ele levar de volta, mas não adiantou, disse pra eu oferecer a um vizinho, acabou que não resisti, e você sabe que não posso engordar, tenho desfile, já ganhei um quilo e meio no último semestre, não sei o que faço, tentei colocar pra fora, mas não consigo, não adianta eu enfiar o dedo na garganta. E continuou a chorar. Tenho uma solução, falei. Olhou surpresa. Fui à cozinha, esquentei água. Antes que fervesse, enchi uma xícara grande e voltei à sala, disse que bebesse. O que é isso?, quis ela saber. Um segredo, não posso contar pra ninguém, bebe antes que esfrie. Bebeu. Corremos ao banheiro, fiz que se ajoelhasse diante do vaso, pressionei seu estômago. Colocou tudo pra fora, água quente e cuscuz. Vai, agora lava a boca. Linda fez o que mandei. Voltamos pra sala, segurei a mulher pelo ombro. Sentou no sofá, os peitos duros, as pernas finas, a calcinha branca. Pronto, agora descanse. Ajudei uma amiga, viu? Gosto de ajudar as pessoas. Algumas vão achar esta história bizarra, mas ela estava sofrendo. Quando deixei sua casa duas horas depois, minha amiga descansava feliz. E ganhei de presente a metade da travessa de cuscuz! Agora a Ivete, com essa história de que sou louca, de que não mais vem ao meu socorro. Tudo bem, não preciso dela. O que aconteceu, na verdade, foi uma bobagem, fruto de uma brincadeira com três rapazes. A gente saiu junto daquela boate, a da orla. Entrei no carro deles e paramos na junção de Cavaleiros com o Pecado. Me pediram algo. Aceitei. Uma espécie de aposta. Eu já tinha namorado os três, que são muito gostosos por sinal, mas não era esta a intenção naquela madrugada. Aqui é que entra a Ivete. Eu precisava telefonar a uma amiga e fazer um pedido especial. Que ela me atendesse àquela hora. Ela aceitou, foi ao meu encontro, levou o vestido, e ainda me deu uma carona de volta pra casa. Até ali, nada falou, mas o problema foi à tarde. Pedi que fosse me buscar em Rio das Ostras. Ivete disse que o carro dela não é Uber. Sei, Ivete, e contei mais ou menos a situação. Muito contrariada, às cinco da tarde, ela apareceu perto da Tocolândia. O problema é que ela viu o jovem, um dos que estavam comigo de madrugada. Ela me trouxe de volta, eu vestia apenas o biquíni, e era quase noite. Não falou nada naquele momento. No dia seguinte, telefonou, o maior sabão. Não ando nua por aí, jamais aconteceu de eu não ter o que vestir, foi apenas uma aposta, uma espécie de brincadeira. Mas Ivete esquece aquele Carnaval, eu lhe fiz um grande favor, ainda emprestei a fantasia, acredite, sério, porque o homem queria ficar comigo. Nós, então, trocamos de roupa pra ele pensar que ela era eu. Na troca, tive de ficar sem calcinha. O que aconteceu, Ivete? Me empresta a tua, o que ele vai pensar?, insistiu ela. Agora essa, não vou mais te ajudar, devia ter te deixado amanhecer nua, com a mão direita cobrindo os peitos e a esquerda a xereca, como te encontrei quando cheguei na frente da tal casa.

segunda-feira, outubro 05, 2020

Furiosa

Já te falei pra parar com esse fogo no rabo. Não vou mais vir te ajudar, você fica de brincadeira com esse monte de homens, depois me telefona pra te tirar da complicação. Por que você não tem um namorado como todo mundo? Por que tem de sair cada dia com um, e mesmo pedir dinheiro pra eles? Quem pede dinheiro é prostituta. Se você aceita, tem de fazer o que eles querem. E prostituta ninguém respeita. Principalmente do jeito que você se oferece. Logo alguém da polícia vai saber e vai vir te explorar. Você sabe como eles são, não suportam mulheres sozinhas, autossuficientes, tanto mais se são prostitutas. E sabe o que acontece com prostitutas com corpinho de modelo como o teu quando eles colocam no carro da polícia, não? Já te quebrei muitos galhos, mas não adianta me telefonar e dizer Ivete, por favor, preciso de você, agora, é urgente, não me abandone. Urgente, só bombeiro e ambulância. Não me meta nas tuas confusões, vai acabar sobrando pra mim. Lembra a história da Ana? A Sônia vivia atrás dela, Ana enchia o saco com aquele negócio de arranjar desculpa pra trair o marido. Veja o que aconteceu. Não quero pra mim a mesma coisa. Você ficou com os tais caras, eles pintaram e bordaram, depois você me telefona e eu vou te ajudar. Muito engraçadinha. Passa uma semana, a mesma coisa. No final, tu tá toda sorridente. Hoje, esse problema de não ter o que vestir. E ainda diz escolhe um vestidinho que não seja muito comprido, bem jeitosinho. Como tu tem coragem de, no telefone, final da madrugada, ainda descrever os detalhes da roupa? É pra não queimar o meu filme, você afirma toda serelepe, arteira. Eu devia ter te deixado amanhecer nua, com a mão direita cobrindo os peitos e a esquerda a xereca, como te encontrei quando cheguei na frente da tal casa. Horas depois, você ainda volta a ficar de gracinha com um deles. E me liga de novo pra eu ir te buscar. Se acontecer de novo, não adianta me telefonar, não vou aparecer, nem vou responder. Avisa também para aquela louca da tua amiga, a que fica com os peitos de fora na praia, que isso aqui não é uma cidade grande, fala-se muito por aí, vocês duas já estão desmoralizadas. Outra coisa, por que você não faz as coisas direito? Lembra da Jalva? Ela arranjava dinheiro com os homens, mas era tudo na maior discrição. Ninguém notava. E tinha três filhos. Até hoje acho que ela ainda consegue alguma ajuda, apesar de já não ser nova. Se tua escolha é ser puta, faz as coisas direito, planeja, vê quem é o homem com quem vai trepar, vai pra um hotel. Esse negócio de ficar nua na praia durante o dia atrás de homem e de noite na calçada do Ilhote não é bom. Quando acontecer de novo, não me telefone. Acho que você nem se incomodou, não é mesmo? No teu lugar, eu estaria morrendo de vergonha. E olha que não sou santa. Não conte mais comigo, você já está indo longe demais. Não adiante me dizer fico te devendo essa, depois te pago. Você me deve tanto, que não tem dinheiro que pague. E mesmo assim, não preciso de recompensa nenhuma, quero que não me aborreça. E o vestido que emprestei, quero de volta, viu, não é pra ficar desfilando por aí com as minhas roupas. Falo sério, estou dando um basta. Não me procure mais. Se acontecer de novo e depender de mim, me esquece. Vai achar outra pra te tirar das tuas complicações.

segunda-feira, setembro 28, 2020

Agora vem, deita aqui ao meu lado

Você sabe, estas histórias de gênero são complicadas. Ainda bem que existe a Margarida e ela me deixa escrever aqui, já que você quer em tempo real. Escute, cada homem tem a sua fantasia. A tua é me ver nua escrevendo ao vivo.

Mas sobre gênero, o ponto principal e saber separar. Uma coisa é sexo; outra, gênero. A pessoa ter nascido homem e depois se tornar mulher não significa que tenha se submetido a uma cirurgia. Você compreende, não? Grande parte dos transgêneros transforma o corpo, mas não significa que o masculino tenha que se tornar totalmente feminino, nem o feminino se tornar masculino. Hoje, é possível para quem nasceu homem tornar-se mulher no nome civil, mesmo que mantenha o pênis. Para quem nasceu mulher e deseja se torna homem, também tem o mesmo direito, é lógico, pode mudar de identidade sem precisar de exame médico para mostrar que passou a ter um pênis! Muitas vezes, porém, quando a gente arranja namorado, não é assim que ele entende. A compreensão geral ainda é muito antiquada, as pessoas nada sabem sobre isso e são cheias de preconceitos.

Quanto ao jeito de namorar, outro problema. Há trans, como eu, que se tornou mulher mas não retirou a principal marca masculina, o pênis. Tenho nome de mulher, está na identidade. Para que os homens entendam, em geral, preciso dar aula. Sério, já pensou, você nua, na cama de um hotel, a dar aulas do que é transgênero. Existem muitos livros, basta comprar e ler, muita literatura interessante. Mas ele quer escutar da minha própria voz. Depois quer ver, examinar. Não vim aqui pra isso, assim perco a tesão. Há travestis (vamos usar a palavra que os homens adoram, embora não signifique exatamente transgênero), bom, há travecos que levam faca, punhal, navalha, tudo na bolsa, dizem que é para se defender. Não trago tais objetos, não me acostumo com armas. Mas a violência acontece porque muitos homens querem fazer maldade ao trans. A primeira ação que muitos adoram é nos roubar a calcinha. Querem ver como vamos fazer para o peru não escapar por baixo da minissaia, ou do vestidinho. Sério, não são poucos os que têm esta fantasia. Outra coisa, alguns querem nos colocar objetos dentro do cu. Houve um que me enfiou um bombom. Sério, com celofane e tudo. O chocolate desapareceu. Deixa que eu procuro, ele disse. Tive de ficar agachada um tempo enorme, tremendo de medo de que não conseguisse e aquilo me fizesse mal. Quando encontrou, tirou o papel, ainda esfregou o chocolate no meu anus e o comeu. Que loucura, você deve estar pensando. Mas existem ainda coisas piores, não quero contar aqui. Outra ação é quererem tirar fotos da gente. Cruze as pernas, agache, levante, sente, mostre os seios, agora cubra-os, esconda o peru, mostra. Um transtorno. Para que você quer tantas fotos?, estou aqui com você. Trata-se de uma fantasia, e quando o assunto é fantasia é difícil tirá-la da cabeça dos homens. Só pra terminar, ainda faltou contar outro ponto. Na maioria das vezes, peço por favor, não toque no meu pênis. Mas os homens não se satisfazem, querem porque querem me ver de pau duro. Quase não tomo hormônios, sou feminina de natureza, mas quando insistem em me deixar de peru duro, meu organismo produz hormônios também masculinos e isso me desestabiliza. Gosto de fazer amor, mas que não toquem no meu pinto. Quando gozo, lógico que ejaculo, mas o pinto vai estar mole, sem problema algum. Não é dele que preciso pra gozar,

Então, gostou da minha história, você também tem fantasias, mas ela é soft. Agora, vem, deita aqui ao meu lado, teu peru parece ser muito gostoso.

terça-feira, setembro 22, 2020

Bom demais

Meu namorado me adora ver almoçando, jantando ou mesmo fazendo um breve lanche. Diz que demonstro muito prazer, parece que estou na plenitude de um orgasmo. Sério, não acredita? Outro dia me pediu algo surpreendente. Que eu almoçasse nua. Deixe-me, ao menos, cobrir os seios, não fica bem mastigar com os seios dependurados, à borda da mesa. Fui ao quarto e voltei vestida apenas com um top. Comecei a comer. Ele reparou meus movimentos da boca, meus olhos a demonstrarem o gosto pelo alimento. Nua, de pernas cruzadas, à mesa, a mastigar, sinto-me cavalgando sobre ele, num namoro à hora tardia. Ele imagina o mesmo, olha-me, boa a trepada. Quando vê minha garganta mover-se, o momento da deglutição, goza junto comigo. Um dia desses, não satisfeito apenas a me olhar, filmou-me, bem próximo; focou a cabeça, a boca, o pescoço, todos meus os movimentos que envolviam a mastigação e os traços que a alimentação deixa na gente. Engoli o último pedaço da sobremesa, um pudim de leite condensado. Foi então que molhei a cadeira, adivinhe por quê. Acho que por isso usamos calcinha, não é bom molhar os lugares por onde passamos. Agora, conta você, já que começou com a história de namorados, do que eles gostam e coisa e tal.

O meu me adora ver movendo os lábios, mas não é bem na hora da refeição. Quem me dera fosse assim, suave, de modos refinados, como o teu. Vou te pedir emprestado, viu. Meu namorado é selvagem. Não sei, mas acho que me acabei acostumando. Ele pega, me puxa pra junto dele, me levanta, enfia um peru imenso dentro de mim; eu grito, peço pra me colocar no chão, reclamo, mas tudo não passa de um faz de conta, finjo que estou furiosa. Mas doidinha pra abrir as pernas. Adoraria que ele me pedisse o mesmo, essa tal deglutição, inteiramente nua, afastado de mim, a me observar mastigando. Ele me quer ver engolindo, sim, mas é a porra que sai do pau dele. Você nunca engoliu porra, ou só engole pudim de leite condensado? Finjo que não gosto, mas o sabor passa a ser uma delícia depois da terceira vez, além disso, o líquido é quente, acho que tem a temperatura do corpo. Ainda bem que fazemos tudo dentro de um quarto, na minha casa, ou num hotel. Tenho uma amiga que anda nua por aí, a pedido do namorado. A gente não imagina o que as pessoas fazem para ter um namorado nos dias de hoje.

O meu não é só delicadeza, não, ele também é selvagem, tem os dois lado. Quer-me ver comendo, sim, mas quando eu encosto nele, ele desperta, parece que estou na selva. E quanto a esse negócio de sair nua por aí, ah, nem fala, você não imagina o que já me aconteceu.

Conta, gosto das tuas histórias.

Não, não posso contar, pelo menos hoje, não, quem sabe um dia desses.

Minha amiga... Espere, me deixa acender o cigarro. Hum, bom esse cigarro, depois não querem liberar pra fins recreativos, não sabem o prazer que é isso. Minha amiga, tenho uma conhecida que ficou nua numa estrada, saltou do carro nua e ficou no acostamento. O namorado foi dar umas voltinhas e ela a esperar por ele. Veja se isso é concebível, uma mulher tão instruída, professora universitária, nua numa estrada!

Prefiro falar sobre os doces, os doces que comi nua!

Há homens de todos os tipos. São sempre um pouco tarados. É bom que sejam assim, pelo menos tem interesse por nós e nos dão prazer. Imaginem se ficam vendo TV e depois vão dormir.

Imaginem se ficam vendo a mulher nua comer e depois vão dormir. Vão dormir com ela cavalgando por cima dele! Que tal mais um café?

Boa ideia. O café, esse cigarro e essas histórias. Bom demais.

terça-feira, setembro 08, 2020

Pastilha

Gosto de vestir apenas o pulôver, nada mais sobre a pele. Desce até às coxas, estico o tecido sempre a me escapar. O tal agasalho é do namorado, seu tecido quente sobre o meu corpo me excita bastante. Lembro uma amiga, faz algum tempo que não a vejo, gosta também de andar vestida assim, apenas o pulôver, mas o prefere curto. Gosto que me cubra até as virilhas, costuma dizer. Nossa, mas está tudo de fora, alerto. É assim mesmo, diz. Espera o namorado com a bunda de fora. Deixo o espelho e sento à beira da cama. O agasalho sobe, cruzo as pernas, dou a esticadinha. Vocês têm fogo no rabo, dirá ele, caso me veja assim. Não só no rabo, eu rebaterei. Que tal sair, vamos passear, você, só de pulôver. Ah, os homens e suas fantasias. Sério?, faço de conta que não acredito. Me abrace, vem. Seu braços me apertam, suas mãos correm sobre minha pele quente, sob o pulôver. Tire, vai, me deixe nua.

Queremos a vida independente, como a dos homens, profissão que nos dê autonomia. Mas na hora do sexo, somos cadelinhas a permitir o cão a montar. Tenho amigas que não os querem mais, os homens. Talvez seja por causa disso, a dita independência. Mas, no fundo, sei que o desejo de trepar não as abandona. Arranjam artifícios, modos diversos de fazer sexo, pretextos para gozarem mais e mais. Às vezes se pensa num homem que dá muito prazer, alguém com quem se tenha trepado e o gozo flui fácil. Fica-se, então, cheia de fogo, deita-se na cama e aguarda-se. Será que ele vem. A gente nua, esperando. Uma pastilha, instrumento erótico, para ser colocada dentro da xereca. Incendeia, crescem as chamas. O namorado vem, já está à porta, ouço o ruído da chave, seus passos adentram. Logo estará sobre o meu corpo. Minha temperatura sobe, escalada em etapas, até que gozo, após lânguido mexer das coxas, sutil roçar de entre pernas. O namorado imaginário já tendo partido, nenhum aborrecimento, a felicidade, a independência, o orgasmo certificado. Certa vez tirei uma foto, sério, uma foto do gozo, a fenda toda molhada. Acho que a tal pastilha dissolve e torna nossas secreções mais espessas. Enviei a foto a um antigo amante, vivia me pedindo uma foto nua. Na embriaguez do gozo, acabei indo além do que pedira. Depois, ai, que vergonha, minha xereca molhadinha guardada na gaveta dele, mesmo nas horas em que estou séria, no trabalho. A tal independência, o gozo, já vai no passado.

O pulôver sobre minha pele, eu nua, o namorado, desta vez real, preste a chegar. Mas onde a tal pastilha? Abandono o namorado, mas não a pastilha. Quando abrir a porta, já a terei engolido. Ainda bem, há vários modos de engolir uma pastilha.

terça-feira, setembro 01, 2020

Piruzão

Eu tinha um amigo que, quando queria transar, lhe telefonava. Logo eu estava na sua casa, uma beleza. E o homem tinha um piruzão muito gostoso, daquele tipo que faz uma curva na ponta e a gente se sacode para atingir o máximo de gozo. Ele morava num bairro próximo ao centro da cidade, fácil de chegar, melhor ainda para ir embora. Eu não passava a noite toda com ele. A gente trepava, conversava um pouquinho, e eu partia. Às vezes ele tinha um vinho, servia uma taça, uma delícia. Certa vez, no lugar do vinho, uma batida de maracujá, vou ficar com sono, eu disse; não foi o que aconteceu, fiquei doidinha, ainda com mais tesão. Vivemos assim durante vários anos, não havia compromisso, bastava telefonar e marcar. Assim como eu gostava do sexo com ele, ele gozava muito comigo. Eu entrava na casa dele, pedia para ir ao toalete, tomava um banho e já vinha nua para a cama; às vezes, antes abraçava-o, ainda de pé, ficávamos agarrados um ao outro durante um bom tempo, beijava-o na boca, ele então começava a me fazer carinho, não demorava e seu peru enorme já estava dentro de mim, eu molhadinha. Mas meu amigo se mudou, foi para outra cidade, não o encontrei mais, uma pena.

Os homens que arranjei depois jamais foram iguais. Havia uns que me queriam quando assim o desejassem. Com meu amigo, era eu que telefonava, eu que marcava. Outros inventam coisas mirabolantes, vou contar algumas. Mas antes, digo que houve um que me pediu em casamento. Qualquer uma teria aceitado, mas eu não gostava dele. Mesmo que gostasse, não sei se aceitaria um casamento, algo que prende muito, e eu gosto de ser uma mulher livre. E o homem tinha dinheiro. Alguns falavam muito, contavam vantagens, queriam primeiro ir a um bar, enchiam-se de bebida. Não sou assim, sinto vontade de trepar e já quero ir para cama, no máximo uma rápida taça de vinho antes. Há homens que são machistas, querem a mulher sob suas asas, desejam dar ordens. Houve um que me convidou para um pagode, entre ele e os amigos, depois a gente vai lá pra casa, aí faz o que você mais gosta, chegou a me dizer. Não fui ao pagode, aquele batuque repetido, uma porção de homens com bafo de cerveja. Depois que meu amigo se foi, tive um parecido com ele, sim, mais silencioso ainda, sempre com um livro dentro da bolsa, queria também falar de literatura. Não sou muito de ler, dizia eu, mas gosto de poesia. O homem se pôs a recitar poemas, e alguns eram até bonitos, fáceis de serem compreendidos. Mas um dia, disse que não viria mais, iria se casar. E casou mesmo. O que há de se fazer? Sempre esperei reencontrar meu amigo, de quem falo no começo, por isso acho que corri a cama de vários homens, quem sabe um se não igual ao menos parecido com ele. Dentre as loucuras pelas quais passeis, houve um que me deixou nua uma noite inteira, num hotel! Nada de anormal, alguém poderá dizer, mas a história não foi bem assim. Disse que já voltaria e sumiu, saiu do apartamento, eu desesperada, sem saber o que fazer.  Ai, meu Deus, será que terei que pagar a noite de hotel, não tenho um centavo? Mas ele voltou, enquanto eu cochilava e o sol nascia. Você não notou nenhuma falta?, perguntou. Sim, você, eu disse abraçando-o. Não é isso, uma falta além da minha pessoa. Não notei, o que me estaria faltando? Abriu a mochila e tirou minhas roupas de lá de dentro, todas as peças. Tive que me ausentar, mas levei tuas roupas, tive receio de que partisses. Valha-me, disse eu, ainda bem que nada notei, se já estava desesperada porque desapareceu, imagine se me descubro abandonada e pelada? Abracei o homem e quis que me comesse o quanto antes.

Mas estou investigando, vou descobrir o meu amigo, homem de quem gostei mais. Não porque tinha o peru maior do que todos os outros homens com quem já trepei, mas porque estou descobrindo o que é o amor.

Não é uma loucura todos esses homens, cada um com sua mania? Jamais contei a amiga alguma minhas aventuras, não confio nas mulheres. Além disso, há muita inveja. Outro dia uma me veio contar sobre o novo namorado, perguntou se eu conhecia o homem, já que a cidade é pequena. Quando reparei, era o tal que me convidou para o pagode. Não, jamais o vi, enganei-a. Deixa pra lá, já que gosta de desfilar de biquíni, acho que vai poder rebolar bastante. Quem sabe, para ela, seria mais vantajoso encontrar o tal que me surrupiou o vestido!

segunda-feira, agosto 24, 2020

Aula de inglês

Vou de metrô, direção centro, entrei no Largo do Machado, 13h45. Descubro um amigo num dos bancos, próximo à porta do meio do vagão. Me aproximo, ele lê um livro. Toco suas costas. Olha e se mostra contente pelo encontro inesperado. Quer me ceder o lugar. Não, por favor, não precisa, já vou saltar. Digo a estação. Você vai saltar na mesma estação que eu, fala com a face luminosa. Meu amigo já me paquerou faz dois anos, e bem que gostei. Sou pequena, magra, e ele parece gostar de mulheres do meu tipo. Trajo um vestidinho estampado, de alças, faz calor, desce até acima dos joelhos. Vou dar aula, trabalho no IBEU, no centro, já te falei, não?. Movimenta a cabeça, concordando. Lembro, sim, bom dar aulas de inglês. Ficamos na conversa possível. Pergunto onde trabalha. Ainda no mesmo lugar. Como vão as pessoas? – conheço algumas – pergunto o que faz no metrô àquela hora. À tua espera, ele poderia ter dito, ou, na esperança de te encontrar por aí e a gente dar um passeio, outra tirada de efeito. Não diz isso, mas alguma coisa que não entendo. Quando o trem entra estação Carioca, saltamos juntos.

Sou uma mulher quente, como dizem por aí. Quando era adolescente, os garotos adoravam me namorar, não conheciam uma menina tão cheia de fogo como eu. Enquanto andamos juntos, sinto calor. Isabela, você está indo para o curso, por favor, falo a mim mesma. Quando vamos nos despedir, em frente à Sete Setembro, diz que pena não podemos passear um pouco. De imediato, respondo sim, encontre comigo daqui a duas horas. Verdade?, sorri. Verdade, a gente toma um café, sugiro, ou faz outra coisa. Marcamos o lugar, beijo os dois lados de sua face, dou as costas e aperto o passo. Deve ter pensado que outra coisa poderemos fazer? Corro ao curso, começo a aula com dez minutos de atraso. Tenho um aluno engraçadinho, dezessete anos, não para de olhar minhas pernas.

Na saída, logo que passo a porta do prédio, um homem pisca para mim. Hoje, não se pode mais assediar as mulheres, um assovio ou uma piscadela podem levar à prisão. Uma pena, salve o novo admirador. Gosto que me admirem, mas jamais correspondo. Mesmo que esteja morrendo de tesão. Fico na minha, nada de extravagâncias. Certa vez, já faz uns dez anos, um homem me seguiu, me perturbou demais, acabei parando para conversar. Tudo porque ele tinha os olhos azuis. Mesmo foguenta, sair de primeira com um desconhecido sempre foi uma loucura, não ia me arriscar. Aceitei o café, ou coisa parecida, deixei o meu número, mas ele nunca telefonou. Caso tivesse continuado conversando, poderia tê-lo namorado. Há homens que querem a gente na hora, não sabem investir no futuro. O que tenho a dizer é: azar é o deles.

Meu amigo me espera na porta da Livraria da Travessa. Entramos e subimos ao segundo andar, onde há uma cafeteria. Posso pedir o que bem desejar. Jura?, sorrio, olha que dou despesa. Deve ser bom dar aulas de inglês, diz, você faz muitos conhecimentos. Não é bem assim, a maioria é adolescente, há um ou outro adulto, e dou aulas para as séries iniciais, fica-se repetindo sempre a mesma coisa, não é ruim, mas também não é tão agradável. Franze a teste, gosta do que falo. Sabe, continuo, certa vez arranjei um namorado. É mesmo?, mostra-se curioso. Sim, da minha idade, ainda bem que ninguém do curso notou, não é bom sair com aluno, e nosso namoro durou um tempinho. Faz cara de que entende. A garçonete aparece com os cardápios, um para cada. Quero mesmo um expresso, digo. Coma um sanduíche, os daqui são deliciosos. Olho o cardápio e vejo os preços, são incrivelmente altos, talvez dê para comprar um livro no lugar do sanduíche, mas como sou convidada, aceito. Ele carrega um livro, tomo a liberdade de virar a capa e ler o título. É francês, não sabia que você fala francês. Pra falar não sou tão bom, mas ler é comigo mesmo, e a literatura francesa é ótima, ressalta. Gostaria de ler assim como você, não em francês, mas em português ou em inglês, o problema é que sempre estou ocupada com alguma coisa; quando dou pela hora, já é tarde, estou exausta, acabo indo dormir, às vezes nem vejo TV. É assim mesmo, retruca, a vida de hoje é muito complicada, é preciso muita disciplina para se tornar um leitor ou uma leitora. Música instrumental serve de fundo ao nosso encontro, há duas outras mesas ocupadas. Numa delas, dois homens; na outra, duas mulheres e um rapaz. A garçonete não demora a chegar com o que pedimos. Serve-me primeiro, põe o café à minha frente e o prato com o sanduíche ao lado, queijo brie com ervas. Meu amigo fica só no café. Você me incentiva a pedir sanduíche e não vai comer nada, assim não vale, reclamo animada. Não tenho fome agora, almocei tarde. Avanço na conversa, acho que o último livro que li foi da Clarice Lispector, lembro que tive um professor que falava: os livros da Clarice são cheios de epifanias, odiava a palavra, agora compreendo o que ele queria dizer. Meu amigo fica a me ouvir, dá uma opinião ou outra, olha meu rosto. Será que adivinho seus desejos? Continuamos conversando sobre livros. Ele fala do romance que está lendo, diz que comprou vários livros na última vez que foi à França, faz seis meses.

Quando saímos do café da livraria, caminhamos pela Sete de Setembro. Antes de chegarmos à Rio Branco, puxo-o pelo braço, viro-me e me coloco à sua frente. Eu, menor, fico na ponta dos pés, beijo-lhe os lábios. Engraçado, não tenho outra palavra para o ato, agarrada a ele, beijando-lhe a boca, muitas pessoas cruzando a rua, nos ladeando. O beijo é longo. Quando o solto, ele diz teu corpo está quente. Rio, é assim mesmo, encosto o rosto no seu peito. Vou levar você a um lugar melhor pra gente namorar, escuto.

Meia hora depois, estou nua, na cama de um hotel, acho que na Senador Dantas. Um dia que me acaba bem.

Me aperta bem, vai, chupa os meus mamilos. Me rasga, me rasga. Ele me penetra, tento fechar um pouco as pernas. Mete bem fundo, mete, sou tua piranha, tá, uma piranha nua, quente, isso, chupa, chupa que vou gozar.

No final, sou eu a anotar seu telefone.

terça-feira, agosto 18, 2020

Pabllo

Tenho um amigo que é terrível, toda semana está com uma namorada diferente. Outro dia disse estar apaixonado, encontrou a mulher da sua vida. Mas como?, você que paquera todo mundo. Verdade, ele afirmou, agora é sério, vou apresentar a você.

Passaram alguns dias e ele veio com a pessoa amada. Oi, que prazer, uma mulher linda, vestido curtíssimo, não sei como consegue sentar com a tal roupinha. Depois, já a sós com ele, sussurrei-lhe desconfiada, a tua namorada... Deixe disso, eu a amo, e isso basta para mim. Você não acha um escândalo sair com alguém assim, essa extravagância toda, você vai ficar em evidência o tempo inteiro, completei. Nada disso, nem ligo, o importante é nossa relação, você não imagina com é estar na cama com ela.

Passou mais uma semana e ele apareceu com ela na minha casa. Oi, tudo bem, vamos ao cinema, viemos convidar você, ele disse. Mas como, eu do lado da mulher, um vestido soltinho, mais curto do que o do outro dia. Quando ela foi ao toalete, disse-lhe, em voz baixa, você quer me colocar também em destaque?, se encontro alguém do trabalho, já pensou, o que vou falar? Ela saiu logo do toalete, veio sentar ao meu lado, toda sorridente. Você é bonita, e sua casa demais, disse e me beijou. Meu amigo tem razão, ela é realmente carinhosa. Conversamos sobre vários assuntos, eu queria porque queria dissuadir a ida ao cinema, não poderia me expor daquele modo, o jeito foi puxar conversa. Servi uma taça de vinho, biscoitinhos salgados, pedacinhos de queijo. Quando a conversa girava em torno de algo excitante, ela dava gritinhos ui, ui, ui, e ria, delicada. Não tive escolha, acabei por acompanhá-los ao cinema. Fomos a um que passava filmes de arte, ainda bem que não encontrei ninguém conhecido. O público era de gente mais velha, e muitos franziam a testa quando nos descobriam.

Na saída, meu amigo convidou a um bar. Sentamos e conversamos sobre o filme. Ele não desgrudava da namorada. Não sei por que a conversa enveredou pelo tema do orgasmo. Ela recomeçou a dar seus gritinhos, ui, ui, depois de cada opinião. Nada falava. Quando pedi para dizer o que achava, disse pergunte a ele, por favor, não me faça falar disso. Meu amigo riu, ri também e não lembro mais a continuação do assunto.

A última vez que a vi, foi na praia, em Ipanema, defronte ao Country. Quis disfarçar, fazer de conta que não a reconheci, mas foi ela quem me chamou. Me beijou. Oi, como vai, cadê o namorado?, fiz-me curiosa. Ele já vem, disse pousando ao seu lado a revista, fique aqui perto de mim, um pouquinho. Você está nua!, exclamei. Não exagera, nua, nua, não. Meu biquíni, perto do teu, é um maiô que vem até o pescoço, eu disse e ri. Nada disso, você usa também um biquíni curtinho, sensual, chegou me tocar as coxas. Não sei como você consegue, continuei, não escapa nada, aí, não? Ah, às vezes escapa, mas o que se vai fazer?, é um orgasmo!, encontrou a palavra certa. Já que você fez a pergunta, continuou delicada, seu amigo adora me fazer gozar, pronunciou a palavra baixinho e com certo vexo, adora mesmo, viu, às vezes nem estamos em casa. Jura?, me fiz surpresa. Juro, imagine, ele já me quis em orgasmo (ela e sua forma especial de tratar as palavras), aqui mesmo, na praia!, que caos... Sorriu, virou ao lado e segurou de novo a revista. A capa trazia uma foto de Pabllo Vittar, de biquininho.

segunda-feira, agosto 10, 2020

Mar do Norte

Um ex-namorado me chamou  outro dia por vídeo, no Zap. Chamá-lo ex é contraditório, acho que é namorado mesmo, embora não mais nos encontremos. Sei que ainda gosta de mim, por isso o considero como tal. O homem ligou a mil, tesão completo. Além disso, eu estava nua, prestes a entrar numa ducha. Falei com ele, mostrava apenas o pescoço e o rosto, às vezes aparecia aquela parte do corpo entre os seios e o pescoço, revelando minha nudez. Ele nada comentou, mas percebi seu gosto. Vou tomar um banho, falei, aproveitei e peguei a toalha. A toalha vai cair, ele disse. Como poderia cair se eu nem mesmo me cobria com ela. Não vai cair, não, disse de brincadeira. Travamos uma longa conversa. Falei das coisas boas da minha vida, nada de problemas. Os homens, ou melhor, as pessoas se afastam caso contemos problemas. Represento. Sou a mulher mais feliz do mundo. Não ia eu conversar sobre homens, é claro, mas dei a entender que sou muito desejada. A toalha vai cair, falou de novo. Por que você quer me ver nua?, já cansou de me ver sem roupa, em situações mesmo mais extravagantes, soletrei. É, bons tempos, rebateu. Aliás, ele queria rebater mesmo, estava doidinho para estar ao meu lado, me virar de frente me rebater pelas costas, várias as posições, me sentir molhadinha.  Como estou de cabelos curtos, minha face se apimentou, cara de sacana, lábios sensuais. Então, disse, o banho me espera, a ducha aberta, água correndo, de graça. Sentei sobre a tampa do vaso. O teu telefone te mostra bem, é boa a imagem, disse porque não tinha mais o que dizer. Todos os telefones de hoje têm boa imagem, confirmei. Comprei um biquíni novo, assim que der praia vou usar. Queria ver se ele ia me pedir para vestir naquele momento. Nada falou, não quis se dar de graça. Bem, não sei, mas já não vou à praia faz tempo, afirmou. Vou sempre que posso, disse solícita, todos me conhecem naquele pedaço, perto do Country, tenho de procurar outro lugar, conhecer outras pessoas. Arregalou os olhos. Nesta tua cidade, conhecer novas pessoas... Sempre conheço, assegurei, não havia dúvidas nas minhas palavras. Outro dia um cara que veio trabalhar na Petrobrás, o mulheril todo em cima, veio valar comigo, me convidou para o Ilhote. Você foi?, ele curioso como sempre. Quem sabe, não dei certeza. Você está tão importante assim, tão rara, cuidado, não é sempre que aparecem essas oportunidades. Estava certo o homem, mas não queria eu lhe dizer a verdade, desejava criar ciúmes, fazê-lo vibrar mais de tesão. As pessoas são assim, tantos os homens como as mulheres, se criamos um entrave, se ficamos mais difíceis, interessam-se mais. Ciúme revelador: você está linda nua, falou como se me visse pelada naquele momento. Você acha?, entrei no jogo. Acho, uma delícia. Vieram as lembranças, as idas à praia, o agarra agarra dentro d’água, ele puxando as tiras do meu biquíni. Lembra no Mar do Norte, eu te deixei pelada dentro d'água, achou engraçada a lembrança. Ardiloso, ele. Continuei a fazer o jogo. Lá não era, com não é, praia de nudismo. Mas nós aproveitamos, sentenciou. Isso, aproveitamos, mas agora vou aproveitar o banho. Vai, bom banho, disse em tom de final de conversa. A toalha caiu, disse eu. Reparei, retrucou. é como no esgrima, um avança, outro recua. Recuo, sem a toalha, ri. Beijos, despediu-se. Beijos, até breve, eu. Quando ia entrando sob a ducha, veio a mensagem de voz, você esqueceu a toalha, como àquela vez voltando da praia, nua no banco do carona! Ah, deixara o vídeo ligado, nua no chuveiro. Não foi intencional. Mas quem vai ter certeza!

segunda-feira, agosto 03, 2020

Quietinhas quentinhas

As pessoas me acham quieta, incapaz de transbordamentos, de acessos de entusiasmo. Sônia não demonstra suas paixões. Verdade? A vida social é enganosa, não sou artista, mas consigo representar. Um dia desses recebi elogios de um amigo, ninguém imagina o tanto que vibrei. Num período difícil, quando a vida não é fácil para ninguém, receber um carinho como aquele me permitiu um voo e tanto. Mas é lógico que ninguém notou. Quem me viu nos dias que se seguiram me achou a mulher de sempre, discreta, guardada em cuidados, meus prazeres pelas pequenas coisas escondidos a sete chaves, nenhuma demonstração, o coração limpo, mas o corpo trêmulo de alegria. Tenho amigas que me narram atitudes extremas, me deixam surpresa. Como podem ser assim? Isso vale tanto sobre o modo de vestir como a reação ante a um homem, numa simples paquera ou mesmo na cama. Uma delas me contou coisas que não consigo escrever aqui, imaginem, por favor, principalmente no momento em que vai nua nos braços do amante. Jamais eu agiria assim, confesso que não sou insensível, mas não posso me descontrolar. Certa vez, um homem insistiu tanto que acabei saindo com ele, fomos a um restaurante. Sempre achei que, quando se começa um relacionamento amoroso, as palavras não são necessárias, cai-se como manga madura nos braços do outro. Ele, porém, resolveu conversar. Não falemos nisso, pedi, muito solícita, sorridente mesmo, mas o homem não entendeu. Não posso me relacionar com alguém que depende das palavras. Tal namoro jamais dará certo. Às vezes fico em dúvida e acho que preciso mudar de comportamento. Mas lutar contra a própria natureza é algo mutilador. Para muitas pessoas, é impossível chegar ao comportamento que beira o bom senso. Volto ao meu amigo, o elogio foi em relação às minhas fotografias, na verdade umas fotos que faço como amadora. Não sei se ele fala a verdade, mas estava me sentindo tão só, e num momento tão complicado, que me provocou uma alegria que não consigo transformar em palavras. Lembram as adolescentes fora de si ao verem o artista preferido num show aberto ou na porta do hotel onde está hospedado? Não quero ser deselegante, mas há quem diga que chegam a molhar a calcinha. O elogio me produziu a mesma sensaçãofez. Por outro lado, para quem quer me levar para cama, é preciso paciência. Não saio de primeira, nem de segunda. Espero, como a natureza, de novo a fruta que amadura. Houve uma exceção. Era mais jovem, estava com muita raiva naqueles dias. Andava pelo centro da cidade quando um homem me seguiu. Bonito, ele. Por isso, talvez a decisão intempestiva. É a primeira vez que falo nisso, daqui de onde escrevo não imagino o leitor, apenas o papel branco com minha experiência rubra. Isso mesmo, bem rubra. Parei na Sete de Setembro, esquina a uma rua pequena, próxima à Carioca. O homem veio falar comigo. Há uma escola de música ali perto, e ouvia-se som de trompete, alguém tentando talvez uma nota não digo impossível, mas difícil para um iniciante. Sim, o músico devia estar nas primeiras lições. E eu, qual meu grau nas lições de sexo? Minha experiência rubra foi num hotel da rua do Lavradio. Apague todas as luzes, feche todas as cortinas, por favor. Eu não queria me ver nua! Foi a única vez a tempestade. Voltei dias depois à calmaria, verão sem vento, mormaço no meu corpo dentro do maiô inteiriço. Bom que me achem quieta, tranquila, discreta. Os homens conhecedores de mulheres sabem a verdade, as caladas conhecem mais, sabem melhor, não precisam gritar mais alto nem botar a bunda de fora. Depois da minha experiência no centro do Rio, com vinte e um anos, tornei-me mulher experiente. Ações amorosas não precisam de espalhafato, basta o escurinho do apartamento, o carinho, o elogio. Bonitas as fotos. O protagonismo ou a independência da mulher começam nesta via, é a melhor resposta às queixas das amigas. O orgasmo completa a relação, degelo de início de primavera. Mas como chegar ao orgasmo, sem palavras? Não tenho fórmulas. Segure aquele que você deseja pela mão. Em silêncio. O tato é um sentido muito especial. Vamos ver então o que pode acontecer.

segunda-feira, julho 27, 2020

Coquetel azul

Meu biquíni estava sobre a cama, lá fora o sol brilhava. Engraçado a minúscula roupa de banho sobre a cama, tão pequenina, bem menor do que vestida no meu corpo. Tomei na mão a peça de baixo, levantei a perna direita, coloquei o pé, depois a esquerda, o outro pé, puxei-a coxas acima. Ajeitei-a olhando-me no espelho. Primeiro de frente, depois de costas. Puxei o elástico, esse tipo de biquíni precisa ficar bem entrado no bumbum. Vesti o top, tarefa mais fácil. A camiseta por cima. Onde o telefone?, ah, sim, na cadeira da sala, próximo à tomada. A bolsa com a carteira de dinheiro, o maço de cigarros, uma toalha de tamanho médio, óculos escuros. Pronta. Ah, sim, o livro, coisa leve, policial, Agatha Christie. Embora não tenha carro, saio pela porta da garagem.

Certa vez, um livro atraiu um namorado, quero dizer, um futuro namorado. Adoro mulheres que leem bastante, disse o até então desconhecido. Como sabes que leio bastante?, quis eu interferir. Antes tivesse ficado quieta. Ele queria conversa, tudo servia de motivo para avançar, não só na narrativa, mas na direção do meu corpo. Não é sempre que uma mulher com um biquíni mínimo desses dá papo a marmanjo. Não fui advertida por ninguém, só pelo meu alter ego. Narrou uma história longa, enredo do último livro lido por ele. Gosto de romance cerebral, compreendes?, nada de muito sangue. No máximo um morto. Um culpado. Pessoa importante, não pode ser a camareira nem o porteiro do hotel. O tal homem entendia de polar, como dizem os franceses, quem sabe o criminoso seria o assessor do ministro da economia, que estava hospedado no hotel. Um escândalo governamental. Olhei pela primeira vez o homem nos olhos, cabelos pretos, bronzeado, muito mesmo, não se deu ao desprazer de me convidar para tomar uma cerveja. Homens de luxo não bebem cerveja. Pelo menos na frente de mulheres que valham a pena. Também não convidam a mulher para deixar a praia, com segundas intenções, vamos a um restaurante, ou passear por aí, uma praia mais selvagem na cidade vizinha. Quem se garante, sabe que a presa cairá, mesmo que passem dois dias ou duas semanas. Precisa-se de poder de atração. E ele o tinha. Uma mulher veio falar-lhe, loura, de biquíni claro, também pequeno, mas acho que um pouquinho mais coberta do que eu. Deu um beijinho nele. Falou-lhe algo que não ouvi e partiu. Parou junto a duas amigas, vinte ou trinta metros adiante. Minha prima, chegou a dizer, um particular, namoradeira, não dispensa ninguém, mas não namoro parente. Pediu licença, disse que voltaria, caso a presença não fosse enfadonha. É lógico que não usou a palavra. Nada falei, peguei meu livro e continuei. Não se passaram muitos minutos, talvez vinte, ele veio com uma bebida de cor azul. Um coquetel, aceite, por favor, trata-se de uma surpresa. Coquetéis, cor azul, sabor de euforia que a praia proporciona. Estava indo bem. Onde se fazia o tal coquetel naquela praia. Logo acima, no restaurante, sempre atendem aos meus pedidos, sou um cliente antigo. Bebemos os dois. Ele o seu, eu, o presenteado por ele. Tem uma ponta de curaçau aqui, adivinhei. Isso, um pouquinho de cada coisa, tequila, curaçau, uma pontinha de limão, mínimo em mel e duas pedrinhas de gelo. Mas, segundo o barman, há ainda um segredo, que não diz a ninguém. Rimos e bebemos, devagar. Tão gostoso o coquetel, não queria que acabasse. Ficamos em silêncio durante alguns minutos. Gosto desses momentos, admiro os homens que sabem fazer o silêncio parte da conversa. Não é um silêncio que nos deixa de mãos abanando nem sem jeito por falta de conversa, mas o silêncio que nos permite sentir melhor o calor do sol sobre a pele, a beleza do mar com todo o brilho vigor que transparece, o vento brando que nos acaricia o ventre. A explosão das ondas sempre selvagem, indomável; por outro lado, nossos desejos, a vontade de ser civilizada, a vida em sociedade envolvendo as pessoas que frequentavam a praia. Quando me voltei a ele, sem ter o que dizer acabei rindo. Enfim, boa a tua bebida, soprei. Minha nada, do barman. Ele bebeu o tantinho que restava do seu copo comprido. Eu, comprida, minhas nádegas de fora, separadas pela tira elástica do biquíni, movi-me na cadeira, queria entrar n’água, arrefecer o princípio de incêndio que me tomava. O namorado (já posso chamá-lo assim)tomou os copos nas mãos, fez menção de devolvê-los ao restaurante. Espera, temos tempo, cheguei a dizer. Percebeu que eu o queria por perto, não se perdesse quem sabe em sabe outras mãos, outras mulheres nuas, mais e mais coquetéis. Vamos entrar n’água, levantei-me e o puxei com as duas mãos. Dentro d'água, abraçou-me por trás, cobriu-me, eu nua, nua, querendo mais.

segunda-feira, julho 20, 2020

Vorazes, muito vorazes

Nesta cidade acontecem coisas engraçadas e mesmo ridículas. Uma das histórias que circula em M é sobre as supostas façanhas de uma dentista bonita e famosa. Durante o dia, ela atenderia num consultório suntuoso, no centro da cidade; já à noite, no entanto, circularia pelos bares da orla marítima à procura de aventuras nos braços de homens de ocasião. 

Outra fábula é a respeito de uma mulher muito conhecida, ex-moradora de Glicério, que de um tempinho para cá vive no Visconde. Ela é entrada nos cinquenta anos, mas é bonita que só. Segundo as más línguas, ela andava com um namorado novo lá pela orla da lagoa, quando, sem mais nem menos, viu-se sem ter o que vestir. Calma, pessoal, eis o que teria acontecido. Uma jovem encontrou um vestido à margem da mesma lagoa. Pensando que a colorida e festiva roupa, um tanto úmida, tivesse escapado dos varais vizinhos sob o sopro saliente do vento, foi bater à porta de uma das casas circundantes crendo praticar uma boa ação. Diante da negativa daquela que a atendeu, levou o vestido ao local onde o encontrara. Mas, ao observar com mais atenção, descobriu que cairia muito bem no próprio corpo. Ficou com ele. Não sabia, porém, que deixava em apuros a tal mulher atirada e arteira. Tendo-se molhado nas águas do lago, esta tirou a roupa, não só para estendê-la a sol aberto, mas sim para aproveitar a tarde, mais confortável, nos braços do namorado! 

O povo gosta de narrativas, depois dizem que a literatura está morta. Essas histórias me trouxeram outra à mente. Mas fui eu que a protagonizei. Faz uns dez anos, eu ia muito ao Rio. Tinha lá um namorado. Aprontávamos façanhas inacreditáveis. Certa vez, decidi sair nua do apartamento onde ele morava. Era no centro da cidade o tal prédio de dez andares. Iria lá fora, ficaria alguns segundos no corredor e bateria para ele abrir. Encenaríamos um sketch. Saí mesmo do tal apartamento. Era um corredor comprido, acho que no sexto andar, um tanto escuro, com várias portas dos outros apartamentos nas proximidades. Fui nua mesmo, apenas a sandália de meio salto e a bolsa a tiracolo. Ele demorou a abrir. E as coisas não saíram conforme combinamos. Bati levemente com o nó de um dos dedos. Esperei. Como se passavam os segundos, ou os minutos, não lembro bem, bati de novo. De repente, ouvi abrir uma porta e aparecer uma mulher. Ela, ao me ver nua, deu um grito, voltou para dentro do seu apartamento e bateu a porta. Minha sorte foi que, logo depois, meu namorado abriu. Entrei e caímos na gargalhada. Como eu não era conhecida no local, nem me preocupei. Acho que você vai ter problemas, cheguei a dizer, a vizinha aí do lado me viu nua. Trepamos, vorazes, muito vorazes. Dias depois, ele veio me contar que foi chamado pela síndica do condomínio, queria saber que história era aquela. Ele esclareceu, de maneira convicta: sabe, Dona Manoela, é verdade isto que estão falando, aconteceu mesmo, mas não tenho culpa nenhuma. Como, não tem culpa, isto aqui é um prédio familiar, disse a responsável pela administração. Espere, vou acabar de contar, continuou ele, foi o seguinte: uma mulher nua bateu à minha porta e me pediu ajuda. Foi isso, eu não podia negar, podia? Seria desumano despachar a mulher por aí, sem o que vestir; acabei por lhe ajudar, concluiu. A síndica partiu, ameaçadora, desconfiada da tal história. Mas, ao mesmo tempo, nada pôde fazer. Rimos, rimos muito. E, mais uma vez, trepamos. Vorazes, muito vorazes.

segunda-feira, julho 13, 2020

A noite do Mustang

Já era tarde, quase uma da madrugada. Havíamos conversado muito, eu e minha amiga. Sua casa fica numa espécie de bosque, a três quadras da praia. Surpreendo-me quando penso como foi possível à natureza produzir um lugar tão arborizado próximo à praia. O tal bosque fica em R, cidade a vinte e seis quilômetros de onde moro, litoral norte. Às vezes marcamos de passar à noite juntas, bebendo um bom vinho, comendo queijos e conversando. Assunto não falta. A vida muitas vezes é um tédio, diz, o que salva são as amizades, as conversas e alguns namoros. Tem razão, principalmente quando fala em alguns namoros, apenas alguns mesmo. Preciso descansar, falei, amanhã é domingo, a gente pode passear, ou ir à praia. Ela sorriu. Bebemos o que restava da garrafa, minha amiga ainda se aventurou a mais um pequeno pedaço de camembert. Permanecemos alguns minutos em silêncio. Levantei vagarosa e comecei a recolher taças e louça para levá-las à cozinha. Não se preocupe, amanhã a gente arruma, vamos descansar. Sorri, abracei minha amiga, um abraço fraterno, pude sentir o calor do seu corpo, um calor perfumado, quase doce, caso seja possível defini-lo assim. Vou tomar uma ducha e vou me deitar, eu disse. Corri ao banheiro, tirei a roupa, um vestidinho que me vinha até os joelhos, estampado, justo ao corpo até a cintura com a parte inferior abrindo-se solto, nada extravagante. Entrei na ducha, aproveitei e lavei minha calcinha. Saí do quarto enrolada na toalha e entrei no quarto sempre reservado a mim durante as estadas naquela casa confortável. Ia fresco o tempo. Vesti uma camiseta, emprestada por ela, sempre me esqueço de levar roupas quando vou à sua casa, coloquei a calcinha para secar no parapeito da janela. Olhei o céu estrelado e respirei fundo.

Ao acordar, o sol já levantara e inundava nossas vidas. O terreno exterior da parte construída da casa recebia a visita de muitos pássaros, piados e cantos alegravam a manhã. Abri a janela e recebi em cheio o ventinho colorido e cheiroso da manhã. Minha amiga tinha jardim e horta, perfumes e aromas não nos abandonavam. Fui ao toalete, lavei o rosto, voltava ao quarto quando resolvi ir à sala. Jaziam sobre a mesa as sobras do nosso jantar. Recolhi pratos e talheres, fui à copa e coloquei tudo dentro da pia. Depois liguei a cafeteira. Todos ainda dormiam.  Sem que eu esperasse, apareceu um homem jovem, mais ou menos dez anos a menos que eu. Oi, você por aqui, não se lembra de mim?, perguntou. Franzi o cenho numa tentativa de mergulhar no passado recente. Como já namorara tanta gente, confesso que não conseguia me lembrar dele. O cara do Mustang? Mustang?, repeti. Sim, da exposição de colecionadores, completou. Lembrei e sorri para não perder a graça. A tal exposição fora ótima, mas a noite não me aconteceu como uma das melhores, bebi demais e não recordava o que fiz. Ao amanhecer, estava nua, num quarto, nos braços do homem que ia ali à minha frente naquele instante. Você conhece a Adélia?, perguntei. Sou filho dela, permaneceu estático, admirando-me. Como podia acontecer aquilo, a Adélia tinha um filho e eu já trepara com ele. Nem sei se só com ele, porque na noite do Mustang estava ele acompanhado de mais dois amigos. Daqui a pouco vai chegar o Marcos, disse gratuitamente. Marcos?, não sei quem é. Sabe sim, voltou à tona, é aquele meu amigo que veio no carro com a gente. Automóveis fascinantes, bebidas e mais bebidas, amigos, quarto de hotel, eu nua pela manhã, tudo muito confuso. Fingi que não me constrangia. Você contou alguma coisa sobre mim para sua mãe?, perguntei assustada. Nada, não conto pra minha mãe sobre a minha vida particular, afirmou peremptório. Ah, que bom, sorri, deixa eu te dar um beijo. Aproximei-me, abracei-o e beijei-lhe o rosto, nas duas faces. Correspondeu o abraço, cruzou as mãos sobre minhas costas e ficamos durante algum tempo no abraço, como se repousássemos. Depois deslizou as mãos sobre a camiseta até as minhas coxas e disse conheço esta camiseta, já foi minha, sabia? Você quer de volta?, perguntei provocadora. Quem sabe, riu. Ele era mais alto do que eu, a tal camiseta se transformara numa camisola sobre o meu corpo. Tomamos café juntos, comemos os pedaços de pão que restavam no cesto sobre a mesa. Depois, pediu licença, tinha um passeio para aquele dia, iria para o carro esperar o Marcos. Escreveu o número do telefone num pequeno pedaço de papel e fechou-o dentro da minha mão direita. Beijou-me, gosto de café, acariciou-me a cabeça, não esqueci a noite do Mustang, citou de novo o evento. Havia carros bonitos, quis eu completar. Não são os carros que me fazem lembrar a noite, sorriu e me abraçou mais uma vez. Despediu-se e se foi. Após sua partida, sentei-me no sofá, de onde estava era possível apreciar as árvores do jardim, vários pássaros continuava a festa. E eu não lembrava o que acontecera na tal noite. Ah, não vai ficar assim, reparei que, inconsciente, apertava numa das mãos o número do seu telefone.

segunda-feira, julho 06, 2020

Sisuda

Reparei a mulher de azul, piscou-me de novo. O que seria aquele sinal?, aparentemente eu não a conhecia. Levantou-se e deu a entender que iria ao toalete. Fez outro sinal. Preciso ir ao toalete, falei. Ele olhava a varanda. Levantei e segui a mulher.


Ele disse que sou sisuda. Sei o significado da palavra, mas fui ao dicionário procurar seu sentido perfeito. Sisudo (os dicionários são machistas, sempre o masculino) quem é muito sério, circunspecto. Depois, acrescentou o homem, você precisa ser pelo menos um tantinho transgressora. Ainda o dicionário. Transgredir: 1. ir além de, atravessar; 2. Não seguir determinação de ordem, lei etc. Tinha de me comportar de modo transgressor, isto é, extravagante, romper regras. O namoradinho de ocasião me queria nua, só podia ser.

Conheci-o na praia, vestia eu o menor biquíni. Mas ele não olhou meu bumbum, mas aos meus óculos grandes, redondo, a face, naquele momento, sem sorriso. Veio conversar. No primeiro contato, principalmente quando se trata de um estranho, não dou conversa, finjo mesmo que a pessoa não existe. Mas insistiu o homem. Um, dois, três dias, sempre comprimentos, uma semana, semana e meia e minhas resistências vencidas. Por isso, sisuda. Pagou-me um sorvete. Que ridículo, eu precisava que me pagasse algo? Quase não aceitei, mas, para ser polida, engoli a casquinha com duas bolas.

Semana seguinte. Se você tem interesse em mim, sou sisuda, não tenho como mudar. Pouco a pouco, acostumou-se. Vamos esta noite, sugeriu um dia na praia. Nesta não posso. Fiz mistério, amanhã, taça de ouro para a conquista.

Na noite seguinte, às vinte e uma horas, a sisuda, minissaia preta, blusa branca de mangas compridas com adereços em renda e botas que subiam aos joelhos, esperava o namorado na varanda. Enquanto isso, lembrava Adélia, amiga a quem contara o caso. Eu é que devia ter conhecido esse homem, não ia me chamar de sisuda nem transgressora, você conhece minhas peripécias. Ah, sim, Adélia tinha vasta fama, nem sempre positiva, entre tantas aventuras constava que, certa vez na praia, deixara o biquíni embaraçado nas mãos ágeis de um recente conhecido!

Quando o homem chegou, desci e fui a ele. Beijou-me e, muito gentil, abriu a porta do carro para que eu entrasse. Sobre minhas roupas, nada comentou, pelo menos naquele momento. Guiou até a orla e estacionou numa transversal. Caminhamos lado a lado, e entramos no Ilhote. Às 21h30 o restaurante já estava fervilhando, o vozerio alegre se espalhava pela varanda. Quando entramos, várias pessoas olharam minha saia curta, as botas negras também causavam frisson. Estava pagando para ver como seria a noite. Sentamos quase no meio do restaurante, no lado de dentro. Ele, pelo que pude perceber, adora chamar atenção, nada de cantos, quis o lugar mais chamativo. Tinha uma mulher bonita ao seu lado, era para ser visto, admirado, invejado. Eu me metamorfoseara em sorrisos. Quando o garçom veio perguntar o que iríamos beber, o namorado deu-me o privilégio da escolha. Sabia eu beber vinho? Já tomara algumas taças, as pessoas diziam que os melhores são os franceses. Quem sabe. O homem recebeu com interesse o meu desejo. E o garçom não demorou a aparecer com a garrafa e duas taças.

O que se pode conversar num tal momento, eu me perguntava, não queria tomar a iniciativa, já o fizera quanto ao pedido da bebida. Ele olhava o restaurante, queria mesmo ser observado, viera bem vestido, considerava-se bem acompanhado. Geralmente os engenheiros não têm muitos assuntos quando estão em companhia de mulheres, talvez refletisse, qual seriam as minhas preferências? Resolveu perguntar.

Preferências, repetiu a palavra, deixe-me ver, meu português cuidadoso. Tomei a taça com a mão direita e bebi um gole do vinho antes de responder.

Gosto de passear, de viajar.

Pensei que você gostasse de ler.

Gosto, sim, mas é um gosto particular. Ri pelo efeito que a frase causou. Não gosto da opinião de alguns homens de que a maioria das mulheres nada tem na cabeça, atitude machista e indelicada. Cheguei a mover-me na cadeira, mas não comentei o pensamento com o namorado.

Certa vez passei uma temporada em São Paulo, pesquisa sobre o solo, petróleo no litoral, como aqui. Ia aos bares, só havia homens. Aqui, pelo menos, há mulheres, e muito bonitas. Pareceu sem jeito, apontou a mim mas não deixou de mover os braços como se mostrasse as outras que frequentavam o local.

Uma gafe, as palavras dele, mas quem não as comete? Adélia e suas peripécias, suas gafes, a amiga era puro corpo, esses homens vem com muitas histórias para terminar a noite em cima da gente, por isso nada de muitas delongas. Será que eu deveria pensar do mesmo modo?, melhor os detalhes, as delongas, as pequenas histórias, como um livro bem elaborado, diálogos e descrições, expressões faciais, sustos e deslumbramentos. Por isso talvez chamasse-me sisuda, pouco ou nada transgressora. A voz do homem despertou-me.

Existem pessoas de todos os tipos, a gente conhece durante as viagens. Falava dos amigos, dos conhecidos, mas não se referia às mulheres. Lógico que não falaria de mulheres, nada mais deselegante do que trazer outra mulher para junto da que o acompanha, tanto mais no momento de conquista, não o faria, os homens podem não ter muita cultura, mas não cometem esse tipo de gafe. Saíra com outras mulheres, é claro, eu podia constatar. No restaurante, olhava a varanda, reparava a mesa só de mulheres, bem junto à mureta da calçada. Dali, podiam ser mais paqueradas, mesmo por aqueles que iam do lado de fora, que vinham nos carros; os homens às vezes paravam para vir falar com elas. Ele não era santo. Sozinho, também não as dispensaria, imagine em outras cidades, hospedado em hotéis, sozinho nos bares durante à noite, quantas e quantas na sua cama de hotel. Contar-me-ia mil vantagens, mas nada sobre mulheres, é claro. Sairíamos inúmeras vezes, um dia, de repente, iria embora, alguém o chamava em Curitiba, Santos, ou Vitória. Há petróleo por toda a parte. Não voltaria, quanto a isso tinha certeza. E não duvidava que tivesse mulher e filhos em outra cidade.

Você tem filhos, perguntei solene.

Seu olhar pareceu traí-lo. Filhos. Como ela descobrira?

Não, nem casado sou. Aliás, sou casado com o trabalho, riu depois de fazer uma fisionomia de que parecia alguém a carregar pesado fardo. Vamos pedir o jantar, sugeriu ao ver o garçom. Saiu-se bem do embaraço. Não ia perguntar se era casado, não se faz tal pergunta, estraga a noite. A gente aprende isso rápido.

Vamos de salmão ao molho de abacaxi?

Deve ser uma delícia, acompanhei.

Foi-se o garçom, em meio às outras mesas, uma mulher de vestido azul olhou-me e piscou.

O vinho ia descendo na garrafa, descendo através de nossos lábios, boca, garganta, circulava por nosso sangue tornando-nos soltinhos. Eu e ele.

Sabe que me enganei quando disse que você era sisuda. Senti que não gostou.

Nada, não precisa se preocupar. Acho que é por causa dos óculos, deviam ser mais discretos.

Nada. Foi a primeira impressão, depois passa. Tenho um amigo que não sai do hotel, nessas viagens, disse ele gratuitamente. Acho tão interessante conhecer a cidade, ter contato com outras pessoas. Caso fosse como ele, não teria conhecido você.

Não perdeu grande coisa, falei e caí na gargalhada.

Não fale assim, você é uma joia, e muito reluzente.

Cuidado, podem me sequestrar.

Não, não vou deixar.

Reparei a mulher de azul, piscou-me de novo. O que seria aquele sinal?, aparentemente eu não a conhecia. Levantou-se e deu a entender que iria ao toalete. Fez outro sinal. Preciso ir ao toalete, falei. Ele olhava a varanda. Levantei e segui a mulher.

Você é a Vânia, não?, ela falou.

Sim. Mas não estou me lembrando de você.

Acho que faz muito tempo, trabalhei numa escola com você, faz mais de dez anos, muita confusão naquele tempo.

Hum, já sabia de quem se tratava. Helena, o seu nome. Abraçou-me.

Por que você não foi até a mesa onde estou?, perguntei, curiosa.

Achei que não seria bom. Senti saudades da Vânia daquela época, aproveitamos bem uma ou duas vezes.

Sim, aproveitamos, retruquei, mas já não tenho relações com mulheres, você foi a única. E o homem está me chamando de sisuda. Disse e ri.

Sisuda? Helena caiu na gargalhada. Abraçou ainda uma vez. Tá bom, vá então para os braços do namorado.

É a primeira vez que saímos, andou me azarando na praia, vários dias.

Antes que saísse, puxou-me para junto de si e beijou-me a boca. Não tive como impedir. Seu beijo era doce e, antes que eu partisse, puxou um dos botões de minha blusa e enfiou um pequeno papel dentro do meu sutiã. Era um número de telefone.

Depois que se foi, olhei-me no espelho, ajeitei-me, retoquei o batom. Meu coração ia aos saltos.

Voltei à mesa, creio ter conseguido manter as aparências, nada acontecera, era eu a mulher mais calma do mundo.

Comemos com vontade o salmão. A garrafa de vinho chegou ao final. Que tal uma dose de licor?, ainda sugeriu. Dali em diante, perdemo-nos em conversas banais. Ainda falava sobre o trabalho.

Você não sente falta de livrarias em M?, perguntei.

Pareceu não entender, a enxurrada de casos que vivera pelo Brasil e pelo mundo soterrava-lhe a visão.

Vocês, que trabalham com petróleo, são pessoas importantes, não?, meu lugar comum, toquei sua mão por sobre a mesa.

Não trabalhamos com petróleo apenas, mas com energia. E é ela que move o mundo.

Quando saímos, ele estava eufórico. Todo homem quando está a ponto de levar uma mulher para cama pela primeira vez vem nas nuvens.

Ao chegar ao passeio, ainda olhei para dentro do restaurante, Helena piscou-me mais uma vez. Senti o papel com o seu número me fazer cosquinha na ponta de um dos seios.

segunda-feira, junho 29, 2020

Todos os homens vão querer

O uso de máscara causa situações hilárias. Acho que é a palavra certa. Num dia desses vinha eu caminhando do supermercado, carregava uma pequena bolsa, quando um homem aproximou-se e disse você tem os lábios lindos. Como já estou acostumada com muitas azarações, principalmente depois de participar da tal telenovela, continuei meu caminho. Ao chegar ao apartamento, pouso as compras na cozinha, lavo as mãos e corro ao espelho que me mostra de corpo inteiro. Olho-me, demoradamente. Não foi brincadeira, meus lábios marcam a brancura da máscara. Esqueci e passei batom antes de vesti-la. Por falar em vestir, lembro-me da Tânia, faz faculdade de comunicação, quer tornar-se repórter de vídeo. Mas por que a lembrança? A mulher usa um batom dos mais vermelhos inventados até hoje, e adora minissaias. Tânia, você não vai poder apresentar o telejornal vestida desse jeito. Claro que sim, no jornal a câmera pega dos seios para cima, nada de pernas, quanto ao batom, bom, deixa que eu maneiro. Outra dia não foi difícil descobri-la na praia, difícil foi encontrar seu biquíni. Minúsculo. O batom sempre vermelho. Como você faz para tomar banho de mar?, o batom..., quis eu saber. Segredo. Outro segredo, apontou-me um rapaz, disse que ele praticava artes marciais. E daí?, perguntei. E daí, pense na arte que ele praticou comigo ontem à noite, ainda estou toda arrepiada. Tânia, as pessoas de TV precisam de seriedade, adverti. Estou deixando de sê-lo? Ela e sua linguagem às vezes vetusta. Olhe, vai ter a festa do beijo, todos que adoram beijar na boca estão convidados, inclusive você. Mas, agora, este vírus, interpelo. Vamos encontrar um modo, nem que seja a um metro e meio do namorado, aliás, todos são nossos namorados. Deixei Tânia sempre nua debaixo de um sol morno de junho e continuei minha caminhada. Volto ao espelho de casa, minha face brilhante. Não posso perder a alegria. Tiro a máscara, a face rosada, quase branca, os lábios desejados. As mulheres adoram andar nuas, diz-me sempre um amigo de longa data, veja o tamanho dos biquínis, a exiguidade das saias. Verdade, a máscara nos torna mais vestidas. Tenho súbita ideia: nua, vestida apenas pela máscara. Sou rápida na arte de despir-me. Passo mais batom, visto minha única peça. O espelho, ou melhor, eu nuazinha diante de mim. Meus lábios vermelhos, a máscara. Todos os homens vão querer trepar comigo.

domingo, junho 21, 2020

No dia seguinte

Fazia uma semana que eu conhecera o homem e já estava no apartamento dele, nua, ou melhor, de calcinha e sutiã. Ele me apertava, me beijava. alisava minha pele. Por favor, pedi humilde, não vamos transar hoje, tenho dificuldade quando saio com alguém recém-conhecido, vamos deixar para a amanhã ou depois. Sorriu, beijou meus lábios, ligeiro estalo, depois passou a língua como se quisesse um tipo de porta aberta, meu lábios nervosos, queria vencer-me os limites da boca. Dei-me livre ao beijo, com sofreguidão. Por que somos tão brutos no ato do amor? Talvez herança ancestral, lá do começo, quando abandonamos a floresta, ou a selva, não sei. Demorou-se no beijo. Ao recuar e olhar meu rosto, admiração, como a uma estátua (eu percebia), disse sim, a gente espera até amanhã, ou até o dia quando você se sentir solta, soltinha. O diminutivo me beliscou o ventre, uma pontadinha de desejo. Mas quero uma coisa hoje, continuou, vou roubar-te a calcinha. Suspirei. Estaria o caminho aberto? Não me deu tempo de responder, repare, vou ficar vestido, assegurou, você não precisa temer. A calcinha desceu minhas coxas, deslizou sobre os joelhos, pelos tornozelos, e escapou vencendo-me os calcanhares. Onde a guardou, tive vergonha de perguntar. Abraçou-me forte, mas não me olhou nua. Morro de vexo sem sutiã. Ele pareceu entender.


Engraçada eu, conheci o homem no bistrô do cinema, ele esperava a hora do filme, perguntei se não estudara na tal faculdade, ou se fazia alguma pós. Respondeu não, a universidade é a mesma, mas sou de outro departamento, letras, afirmou vagaroso. Ah, sim, fiz confusão, tentei dar uma ponta de charme, face de mulher desatenta. Há homens que adoram. Conversamos, depois veio a vez do filme. Assistimos juntos. Era domingo, tarde da noite. Deixou o número do telefone, no final. Também ofereci-me, inteira, quase os mesmos números, ordens diversas. Levo você, já é tarde. Não se deve aceitar carona de um desconhecido, hesitei em pensamentos. Mas isso é para quando se é muito jovem, ou criança. Já passei dos trinta, quase quarenta. Vai ficar fora de mão pra você, tentei ser polida. Não, nada disso, é o carro que vai nos levar.


Investida ousada de minha parte naquela noite, agora, envergonhada sobre a cama, pedia que deixasse o sexo para o dia seguinte.


Rolamos sobre os lençóis. Eu o beijava, um tanto animal. Caso ele tirasse a roupa, eu acabaria abrindo as pernas, mas não tirou. Surpreendeu-me ao dizer que podíamos nos beijar com mais suavidade, teríamos todo o tempo do mundo.


Mais tarde, já em casa, como sou louca, refleti, mal o conheci aceitei a carona, uma semana depois já na cama dele, homem conhecido na rua, ao acaso, sem que alguém me apresentasse. Poderia estar perdida. Trepar teria sido o de menos, pior fosse um sádico, ou mesmo louco. Tive sorte, porém. Ele era gentil. Fiz tudo ao contrário do que aconselhamos às nossas filhas, às pessoas mais jovens. Deu certo. Treparia com ele, como trepei, no dia seguinte.

segunda-feira, junho 15, 2020

A aventura de um beijo

Como falei numa outra história, o confinamento deu o que falar. Aproveitei para uma aventura externa, de madrugada e às ocultas, como narrei num conto anterior. Agora, já na fase de abertura, tenho saído meio sonsa, ido à praia, ou mesmo a um passeio. É engraçado, sempre surgiu a oportunidade de travar novas relações, às vezes, mesmo, um namoro informal, mas depois desse problema da contaminação, todos a usar máscaras, o que acontecerá com os relacionamentos? Será possível beijar?

Outro dia fui à orla marítima, entardecia. Poucas pessoas passeavam. Guardavam a distância regulamentar e usavam máscaras. Vai ser difícil arranjar namorado, vou ter de me contorcer diante da tela do computador, relação sem tempero, requentada pelo circuito dos chips. E de máscara, já não uso batom.

Num determinado ponto do passeio, logo depois que passei o Country, um homem (seus olhos!) veio falar comigo. Aquela velha história: acho que conheço você, não trabalhou não sei onde, não estava na festa de não sei quem? Acho que não, tive a delicadeza de dizer. A obrigatoriedade de usar máscaras, era o que nos faltava, falou. Sempre usamos máscaras, mas nunca nos demos conta, caí na asneira de dizer. O homem saltou de barriga na conversa.

“Oh, você é uma mulher interessante, o que é raro por essas bandas.”

 Quis rebater, mas achei melhor me calar, assim terminaria ali.

“Você tem estilo, essa sua máscara florida...” Não pôde notar a risadinha irônica.

Uma das coisas desagradáveis desses novos tempos é que não podemos mostrar nosso sorriso, qualquer que seja. Despedi-me e continuei a caminhar. Pararia no Ilhote, mas na parte interna, não desejava a exposição.

Apareceu-me Ilana, no fim da praia.

“Agora essa”, falou, “não podemos beijar, se já era difícil arranjar namorado em M, imagine agora”, Ilana e suas costumeiras reclamações.

“Não é possível a transmissão do Covid pelo sexo”, adiantei-me.

“Sério?”, pareceu surpresa, “que bom, será que os homens sabem disso?”

Quando acabou de falar, completei:

“Meu amor, quando os homens querem trepar, não há Corona vírus que impeça.”

Sorriu: “tomara que você tenha razão, vou encontrar umas amigas adiante, na varanda do Ilhote.”

Despediu-se e partiu. Reapareceu o homem.

“Não me apresentei, falou, me chamo Elton, estava esperando sua amiga ir embora.”

“Muito prazer, Célia.”

“Então, conheço você, sim, de uma festa, você não está se lembrando de mim? As pessoas lhe elogiam muito na cidade, dizem que é famosa.”

“Eu, famosa?”, tive de rir, “deve ser porque durante algum tempo escrevi no New Yorker.”

“Isso, o New Yorker, não é pra qualquer um, ou qualquer uma. Vamos beber ou comer algo?”, ofereceu.

Queria ir sozinha ao Ilhote, mas o homem era tão bonito, acabei aceitando. Enquanto caminhávamos, perguntei-me: será que no passado recente já não nos esquentamos atrás de alguma árvore? Entramos no restaurante e ficamos na varanda. O garçom não demorou a surgir, com a amabilidade de sempre, não era dia de muito movimento. Elton pediu um chope de marca alemã, peculiar do local; eu, uma taça de vinho.

“Não, obrigada, não desejo comer por enquanto”, respondi à sua oferta para que eu olhasse o cardápio.

O começo de noite trazia um ventinho fresco, mas estava claro. Ainda bem que trouxe a echarpe.

“Faz algum tempo fui a uma festa numa mansão, acho que ficava na Lagoa, gostei muito, tinha piscina e tudo mais”, observou.

Lembrei-me, então, das festas organizadas por Maria Rita, tais acontecimentos provocavam frisson na cidade, vinham pessoas importantes, tanto daqui como de outros lugares. Mas não eram festas familiares.

“Ah, sim, eram boas as festas, participei também de algumas”, retruquei.

Sorriu, o garçom chegou com as bebidas.

“A epidemia tirou as pessoas das ruas, embora se possa sair atualmente; e quando vemos alguém caminhando, está usando máscara”, ele disse.

Era verdade, nós também as usávamos, mas as tiramos logo que entramos. Abaixara a sua à altura do queixo e deixou-a no local.

“Deve ser por pouco tempo”, tentei ser otimista.

“As festas ainda existem?”

“Não, já faz tempo que terminaram, boa época aquela; a organizadora mudou-se para São Paulo.”

“São Paulo?”, assustou-se.

“Entendo a surpresa, o espírito de Maria Rita combina melhor com o Rio.”

Tomei um gole de vinho, posei a taça sobre a mesa e olhei ao homem de soslaio. Ele não olhava para mim, mas passava a mão direita sobre um ponto da mesa, depois olhou para além dos limites do bar, como se procurasse alguém na rua.

Aquelas festas eram boas, homens bonitos, mulheres nuas, gente das empresas de petróleo, convidados selecionados. Nada de prostituição, mas muito divertimento.

“Lembro uma vez em que as mulheres vestiam biquínis. E era noite!”, observou.

“Normal, tudo acontecia muito à vontade, quase sempre era verão.”

Três mesas depois, próxima à entrada, estava Ilana. Olhou pra mim, deu um sorrisinho maldoso e fez pequeno sinal. Logo eu que disse não estar preocupada em sair com alguém estava bem ali, próxima a ela, com um homem de olhos azuis. Ilana também frequentara algumas das festas, mas era fofoqueira que só, e fazia o papel de mulher pudica. Na verdade, tudo encenação, ninguém mais fácil que ela na cidade, trepava até mesmo dentro de automóveis.

“Você escreve histórias”, trouxe-me de volta para junto de si, “histórias são sempre interessantes. Como elas surgem?”

“Difícil falar nisso. Sou uma autora que não sabe falar do que faz. Acho que surgem naturalmente.”

“Você tem talento”, afirmou, “muitos escritores dizem ter dificuldades diante da folha em branco.”

“Conversa, todo escritor escolheu a profissão porque tem o que dizer. Você quer sabe mesmo como descubro minhas histórias?”

“Adoraria”, seus olhos brilharam na minha direção, segurou a longa tulipa e bebeu mais um gole.

“Às vezes acordo de madrugada sentindo-me angustiada, acredita? Para aliviar a tal angústia, penso no que posso escrever no dia seguinte. Às vezes surgem ótimas histórias. Já aconteceu de acordar, pela manhã, e não lembrar a ideia da madrugada. Então, minha angústia é maior!”

Riu com intensidade, chegou a se balançar na cadeira.

“Você é engraçada, suas histórias devem ter humor.”

“Quem sabe, humor angustiante.”

“Numa cidade como M, você deve conhecer muita gente.”

“Às vezes finjo que não conheço, as pessoas me chamam por isso de besta.”

“Você tem amigas, amigos?”, estava curioso.

“Já tive mais. Hoje, quase sempre, prefiro sair sozinha.”

“Deve ser difícil aqui levar uma vida sozinha.”

“Verdade, melhor seria mudar para o Rio ou São Paulo, cidades onde é possível se viver no anonimato.”

Seu chope chegava ao fim, minha taça de vinho ia pela metade. O garçom aproximou-se e ele pediu mais um. Eu sentia a conversa um pouco travada, e não encontrava nele intenção maior do que ficar ali conversando durante boa parte da noite.

“Certa vez vi um filme sobre um professor de literatura. Ele fez amizade com um aluno. No final, o professor é abandonado pela mulher, perde o emprego e não tem onde morar. Mas encontra o então ex-aluno, ambos passam a andar juntos e sempre encontram motivos para contar histórias. Olham os apartamentos da vizinhança, imaginam seus habitantes e inventam infinitas histórias. Ao tal professor não importa a própria decadência. A literatura estava acima de tudo.”

“Acho que já vi o filme”, rebati, “se não vi, li em algum lugar, mas isso também é história. Na realidade, tal vida seria muito difícil, o homem seria um mendigo. No cinema e, nos maus livros, as coisas se resolvem.”

Pareceu decepcionado. Eu tirara a graça da sua narrativa, de seu pungente personagem. Tentei reverter a situação.

 “Sabe, um dia escrevi uma história em que havia uma mulher nua. Você gosta de mulheres nuas, não?, todos os homens gostam. Ela ia nua, de madrugada, aqui na praia. Acho que veio de casa nua dirigindo o próprio carro. Confesso a você, quando escrevi tive vontade de viver o mesmo; aliás, a história era um substituto ao meu desejo. Mas, imagine, caso eu resolvesse sair nua de casa. Poderia acabar em maus lençóis, ou sem lençol algum! Por isso a história. Entendeu?”

Ficamos conversando durante mais duas horas. Bebi duas taças, no final tomei um sorvete. Ele ficou nos chopes.

Ao sairmos do restaurante, colocamos nossas máscaras e voltamos ao nosso mundo. Ofereceu-me uma carona. Aceitei. Já na porta de casa, deixou-me o cartão, despediu-se e se foi.

Dá próxima vez, vamos à aventura de um beijo.

segunda-feira, junho 08, 2020

Minha amiga eu mesma

“Você é uma mulher muito elegante para dar aulas naquele tipo de escola.”

Escutei de um colega enquanto conversávamos, no começo do dia, numa das escolas onde leciono. O comentário versava sobre as más condições de trabalho no nosso meio profissional, mas senti que ele mostrava sua admiração por mim. Sorri, nada retruquei, nem sei o que fiz depois, devo ter ido até a sala dos professores pegar minhas coisas para a primeira aula.

Será que o tal colega me paquerava? Já não tenho homem faz tempo, minha vida é organizada, trabalho e tenho meus pequenos prazeres. Como já não sou jovem, admirei-me da iniciativa. Há tantas professoras de menos idade, bonitas e cheias de calor.

Faz alguns anos, quando trabalhei numa escola do litoral norte, vivi situações que me deixavam a mil por hora. A cidade era convidativa a muitas paqueras, à frequência à praia durante as horas vagas e a saídas noturnas a vários restaurantes e bares aconchegantes. Lembro que certa vez andava pela praia ao entardecer. Não sei o que me deu – a  acho que fui picada por um desejo recôndito –, tirei o top e passeei pela orla vestida apenas por uma camiseta larga. Um homem passou por mim e sentiu-se surpreso ao reparar meus seios nus!, chegou dar um sorrisinho com o canto da boca. Continuei minha caminhada como se aquela fosse a atitude mais normal do mundo. Na época tive uma amiga que era maluquinha, além de namorar vários homens ao mesmo tempo, ia à praia com um biquíni pequeníssimo, dizia adorar a praia da Joana, onde vez ou outra podia ficar com os seios de fora. Era solícita com todos que se aproximavam, dava seu número e, na maioria das vezes, marcava encontros. Gosto de tomar uma caipirinha, dizia, depois a gente vê o que acontece. E, segundo ela, só aconteciam coisas boas. Uma vez arranjei também um namorado. Você bebe uma taça de vinho?, perguntou. Claro, importado, ressaltei. Fomos a uma adega. Depois... Tenho vergonha de contar. Fiz coisas que ninguém imagina. Pude constatar que a tal amiga tinha razão. Mas nada falei a ela, não queria que me roubasse o namorado.

Volto à escola onde um colega chamou-me de mulher elegante. Fiquei interessada no tal. Quem sabe, seria tão bom a gente sair e passear, talvez uma taça de vinho. Mas levou um tempo enorme para eu estar com ele como gostaria. Toda vez que passávamos um pelo outro nos cumprimentávamos, sorríamos e seguíamos cada um seu caminho. As mulheres, no entanto, tem poderes especiais, não vai demorar ele cairá nas minhas malhas. Lógico que meus artifícios são discretos, mas o sucesso é garantido.

Você sabe, perto da minha casa abriu um bar de cervejas artesanais, uma delícia, disse eu a ele ontem. É mesmo, adoro cerveja artesanal. Caso você queira ir, eu acompanho você. Vamos marcar, então, vamos amanhã, pediu. Ok, ótimo, vamos sim.

Fiquei esperando, vestidinha, na porta de casa. Chegou de táxi, me beijou e fomos ao restaurante. Imaginem a noite mais animada do ano, pelo menos para nós dois. Não preciso dizer que não bebo muito, mas bastaram dois copos. Que calor. Lembrei a camiseta, os seios soltos por baixo, sorri para o homem. Ele, não custa, vai me ver nua!, pensei num momento. Ah, minha amiga professora lá no litoral norte, o namorado tinha uma Mercedes, e ela nua no banco do carona!

Quando a gente fala muito de amiga, quem sabe fala de si própria!