quinta-feira, abril 29, 2010

De sobreaviso

Eu não aceito, não, mas tenho amigas que dizem sim. Acho perigoso sair com um homem na primeira vez, tanto mais quando o conheço numa boate. Já sei para onde quer me levar e o que pretende. Mas tenho amigas que aceitam. Se você quiser, eu apresento uma ou duas a você. Caso achem você bonito, agradável, nem pensam duas vezes. É normal que, primeiro, queiram aproveitar a boate até a hora em que a festa acaba. Mas depois concordam em sair. Os homens de modo geral oferecem cerveja, colocam-se prontos para satisfazer o desejo de cada uma de nós, vão ao bar e voltam com uma porção de coisas. Tenho amigas que aproveitam. Vêm à boate, não pagam para entrar nem compram nada. Eles é que pagam. Mantenho certa reserva, porque você sabe como é; quando aceitamos, pode saber que vão querer algo em troca. No final, acham que já é certo nos levarem para cama. Às vezes, uma amiga que aceita sair com um desses tipos num primeiro encontro, diz: “Júlia, você fica de sobreaviso?” É lógico que fico. Para elas é uma questão de segurança. O que é ficar de sobreaviso? É ajudar, caso aconteça alguma coisa. Você tem razão, em situações que envolvam risco de vida, ou mesmo em caso de espancamento, não será possível nem a mim nem a pessoa alguma ajudar. Essas coisas, porém, dificilmente acontecem. E as mulheres, quando saem com alguém, não contam com isso. Acham que o homem que está diante dela quer apenas namorar. Então não pensam nessas coisas. Mas elas pedem esse favor porque às vezes pode acontecer que se vejam em apuros. Aí, a que ficou de sobreaviso é chamada. Já ajudei duas amigas em momentos diferentes. Faz algum tempo. Os rapazes agora estão mais comportados, mais solícitos. Uma vez uma me telefonou para ir apanhá-la num lugar distante. O homem com quem saíra a abandonou num trecho perigoso da cidade. Ela não conseguia pegar condução para casa. Uma outra me pediu para levar roupas num hotel. Seu recente amante, num momento de maior excitação, rasgou-lhe o vestido. Lá fui eu, então. Não posso deixar uma amiga voltar nua pra casa, não é mesmo? Mas, de modo geral, os tempos estão calmos; há muito que nada de mal acontece. Você está me convidando para sair? Ficou excitado com o que contei, não? Já falei, não costumo sair na primeira vez. Quem sabe, amanhã ou depois. Quer que o apresente a uma amiga? Não? Só serve eu? Nem sou tão bonita... Você quer ir a um lugar para bebermos? Mas já estamos bebendo aqui, no bar da boate. É melhor você não insistir. Vamos dançar e esquecer isso. Depois, perto do final, caso você ainda esteja comigo, prometo que faço uma surpresa. Qual? Não vou dizer agora. Se digo, deixa de ser surpresa. Aposto que você vai adorar. Se eu vou deixar alguém de sobreaviso? Esqueça isso. Vamos dançar!

quinta-feira, abril 15, 2010

Chocolate

Meu namorado adora me ver comendo chocolate. Ele traz bombons e mais bombons, uma delícia, todos das marcas mais caras e sofisticadas. Faz apenas uma exigência: que eu os coma nua. Isso, nuinha! É muito engraçado. Claro que aceito, ele é tão interessante, tão carinhoso, que não deixo de atender aos seus desejos. Como bombons ou pequenas barras de chocolate depois de tirar toda a roupa. Sento-me na cama, ou no sofá que há na sala, cruzo as pernas e me ponho a morder e mastigar as barras marrons. Lambuzo-me toda, mastigo demoradamente. Pelos movimentos do maxilar e dos músculos de meu pescoço, ele me observa comendo. Ao engolir o último pedaço, já sei o que devo dizer: “ah, que delícia”. Então, ele vem me beijar. Não importa se o interior de minha boca está escuro, com o sabor do presente que acabou de me introduzir. Depois me leva pra cama, ou me recosta ali mesmo no sofá...
Certa vez, trouxe-me chocolate importado, creio que suíço. Pediu que eu comesse a caixa inteira.
“Inteira?”, repeti assustada.
“Sim, todas as barras, faça isso por mim, amor, morro de tesão ao ver você morder e saboreá-las."
“Certo”, respondi, “mas não me responsabilizo pelo que possa acontecer depois.”
“Não vai acontecer nada.”
“Não? Será?”
Ainda insistiu:
“Não importa, estarei ao seu lado, aconteça o que acontecer.”
“Jura?”
“Juro."
E assim foi, comi a caixa inteira. Lógico que bem devagar, mordendo com delicadeza, mexendo com a boca, engolindo tudinho...
“Você não vai engordar por causa de uma caixa de bombons, vai?”
“O problema não é engordar; você sabe que não engordo. Faço exercícios e não é uma caixinha dessas que vai me deixar uns quilinhos mais gorda.”
“O que é então?”
“Chocolate é afrodisíaco, morro de tesão após comê-los, mas ainda há um outro probleminha...”
“Ah, então vou pedir para você comer duas caixas.”
“Duas?”
“A seguir vou deitar você e acariciar levemente seu ventre, bem no lugar para onde foram os chocolates.”
“Acaricie com cuidado, caso contrário...”
“Sei que morro de desejo vendo você nua antes, durante e depois dos chocolates. E caso aconteça alguma coisa devido ao excesso, não haverá problema, acho que até gozo duas vezes.”
“Jura?”
“Lógico.”
“Logo, como, mas...”
“Não há problema; quando lhe peço para comer bombons, conto com todas as possíveis consequências.”
“Ok, então vamos.”
“Ah, mais uma coisa, vou filmar você comendo.”
“Que bom, vai ficar ótimo. Mas me responda uma coisa. Vais me filmar nuinha, não?”
“Claro, nuinha, e comendo todos os chocolates!”
“Mas assim que eu acabar de comer o último, desligue a câmera, por favor!”
“Claro.”
“Você tem bom gosto, amor!”

sexta-feira, abril 02, 2010

Meu poeta me deixou nua!

Estava tomando o café da manhã no restaurante do hotel Ibis, no centro do Rio. Tinha viajado com a grife, de BH; durante dois dias participamos do Fashion Rio. Os desfiles atingiram incrível sucesso. Na última noite, arranjara um admirador. Não é de se espantar que eu sempre tenha muitos enamorados, mas o mais recente dizia ser poeta. Dali a pouco iríamos embarcar de volta para BH, mas enquanto o transporte para o aeroporto não chegava...

É Fábio o seu nome, diz ter assistido a todos os nossos desfiles, e que ficou apaixonadíssimo (foi essa a palavra usada por ele) ao me ver entrar e sair, cada vez com uma roupa diferente. É sua a canção: “a partir daquele momento já não consegui tirar-lhe os olhos, toda vez que deixava a passarela meu coração palpitava desejando vê-la mais uma vez, altiva e galharda”. Galharda? Há quanto tempo não ouvia essa palavra. Talvez num poema de Gregório de Matos, ainda nos bancos escolares.

Após o dia de desfile, enquanto aguardava o momento de voltar ao hotel, tal homem, digamos jovial, me abordou. Trazia em uma das mãos um ramalhete de flores amarelas. Desculpava-se por tê-lo comprado às pressas de um vendedor que cercava casais apaixonados. Aceitei o mimo. O extravagante poeta pôs-se a declamar veemente uns versos feitos em minha homenagem. Sou uma mulher desinibida, mas não nego que suas palavras cheias de ênfase me fizeram corar. A chegada do veículo interrompeu o idílio. Tivemos de entrar logo e partir, pois havia um enorme congestionamento nas cercanias.

Na porta do hotel, após saltar do automóvel, vi-me cercada de novo por ele. Apareceu não sei de onde. Disse em voz melódica: “Para tão longo amor tão curta a vida”. Apressou-se em completar: “é Camões, mas gostaria que fosse meu.” Enquanto a equipe e as outras modelos entravam no hotel, permaneci no passeio, sob um céu coberto de estrelas e uma lua em minguante. “Não vá se atrasar, Lena, amanhã partimos às 8;30h”, soltou melíflua uma das responsáveis pelo pessoal da grife. Seus olhos tinham uma ponta de escárnio. Oh, como se o assédio masculino aos nossos calcanhares e pernas já não nos fosse peculiar. Meu poeta, porém, era diferente. Seus olhos expressavam uma melancolia jamais vista; seu amor brotava de corações renascentistas apaixonados, homens que não tinham alternativa senão amar em silêncio suas senhoras, embora nem mesmo elas se soubessem muitas vezes objetos de ardores insuperáveis.

Em qualquer outro lugar, deixaria o apaixonado a ver navios, mas no Rio, apesar de cidade à beira mar, preferi navegar com ele em um mar liso, em que as estrelas nos apontavam o norte, ou o sul. Já não sei.

“O que propões? Não te demores, já que me custa o tempo, ainda que falemos ao modo do teu poeta maior, cantor de idílios e de viagens impossíveis.”

“Campos cheios de prazer, vós que estais reverdecendo, já me alegrei em vos ver; agora tenho a temer que entristeçais em me vendo.”

“Saiamos já daqui, leva-me, mas cuida, que sou louça fragílima.”

Entramos pela rua da Carioca. Meu poeta tomou de um táxi, embarque inesperado, visava estratégias inenarráveis.

Deslizamos, a princípio sem destino. O motorista, tal qual a guiar coche com moço disfarçado a ponto de tornar mulher moça última e breve, não ousou dizer palavra. Trafegava como navegante cordato e solitário.

“Se desejos fui já ter, serviram de atormentar-te?”, soou a voz apaixonada de meu raptor.

“Não me atormentas, embrutece-me o espírito a fome, e mancha-me a alma alguma vulgaridade.”

O veículo escorregava ligeiro por vias que nos levavam a céu aberto e com o mar à borda. Numa das transversais, meu poeta sinalizou, o homem entrou à direita, depois subiu uma rampa e nos deixou na antessala do que seria um restaurante. Feriram-me os olhos lustres altos e pingentes de cristal.

“A vida, si; que uma áspera mudança não me deixa viver tanto um coração”, atirou-me.

Devolvi-lhe:

“Se hei de viver, enfim forçadamente, para que quero a glória fugitiva duma esperança vã que me atormente?”

“Em mim podeis, Senhora, ir começando, que claro se conhece bem se entende amar-vos quanto devo e quanto posso”, ainda não foi aí que me tomou nos braços, mas o primeiro beijo fui eu a precipitar-lhe.

O jantar transcorreu ao tilintar vagaroso dos talheres. Coube a mim escolher apenas antepasto. Adoro salame, saboreei-o junto a poucos legumes em conserva. Molhou-me os lábios uma taça de champanha. Meu acompanhante, ainda ao gosto clássico, também comeu pouco e o que mais fez foi deleitar o olhar em direção à justa mulher.

Na saída, o mesmo automóvel veio a nos levar. Passeamos pela orla marítima. Relembramos raptos e piratas. Mas meu recente enamorado não me tocou. Em contrapartida, quis presenteá-lo com mais beijos. O vinho nos havia contaminado, mas disfarçávamos o desejo.

“Aflige-me, senhora, vossos olhos, esquecê-los não já me será amor.”

“Queres tocar-me?”, ainda arrisquei quase numa penumbra de silêncio.

“Desejaria-vos, por inteiro, entre meus braços e desejos.”

Sussurrei:

“Beija-me, pois não teremos muito tempo.”

“Levar-lhe-ei como clandestina.”

“Parto cedo, não ouso acompanhar-te, tens tempo ainda em movimento.”

Não devo relatar o que vivemos na noite curta. Mas foi intenso o ardor. Convenceu-me a pequeno apartamento. Após subirmos alguns degraus, deixei escapar a roupa, os braços, as pernas. Ele, pleno, contentou-me o desejo. Meu corpo era leite quente entre mãos trementes.

Às três e trinta entrei em meu hotel por porta de serviço, arquitetura de miragens. Não houve homem na vigia, dormia talvez, nem soou algum tipo de alarme. Antes, porém, na despedida, meu amante pediu-me mais um mimo.

“Já te ofertei todas as posses, pirata arredio, de que mais queres despojar-me?”

“A lembrança, senhora; sereis estátua de Afrodite em terra imerecida. Piedade! Antes, o mestre grego e seu ideário me contentavam; agora, já nada sei de meu triste fado.”

“Oferto-te minha pele rósea, fibra de puro algodão; experimenta-a; deposito-a sob tua guarda.”

“Não posso deixá-la desprotegida, minha senhora, nem pretendo-a em apuros.”

“Há quem pense que a uma mulher basta-lhe o corpo; mas é preciso que lhe sobre a alma.”

A seguir, soou sua voz de bardo:

“No mar, tanta tormenta e tanto dano,
Tantas vezes a morte apercebida.
Na terra tanta guerra e tanto engano,
Tanta necessidade aborrecida.
Onde pode ocultar-se o fraco humano?
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme e se indigne o céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?”

“Lena, só falta você, a bagagem já está embarcada”, ouvi a voz da nossa responsável enquanto ainda sorvia a xícara de café. Levantei-me, deixei sobre a mesa o gole derradeiro.

sexta-feira, março 19, 2010

Então tá!

“Ai, fiquei pelada!”, disse ao atravessar a Prudente de Morais, perto da Texeira de Melo. Um sopro de ar quente vindo da tubulação subterrânea me pegou de surpresa e levantou meu vestido. Na verdade ninguém teve tempo de prestar atenção nas minhas pernas de fora, mas a indiscrição na voz fez meu namorado sorrir.

“Até parece que você não gosta de ficar pelada...”

“Adoro, mas não de modo inesperado.”

“Lembra o início do nosso namoro?”

“Claro que lembro, amor”, respondi dengosa.

“Me conta então como foi.”

“Namorávamos muito à vontade, e algumas vezes cheguei à sua casa inteiramente nua.”

“E você nunca me contou como fazia para as pessoas não perceberem”, sua voz soou plena de desejo e curiosidade.

“É segredo”, sussurrei.

“Você me contou sobre um outro homem, disse que ele nunca viu você vestida, é verdade mesmo?”

“Já vem você de novo introduzindo outro homem entre nós dois.”

“É apenas curiosidade, nada mais; gostaria tanto que você me contasse.”

“Já contei”, sorri com certa malícia.

“Não contou o principal; nada falou sobre o dia em que você perdeu a hora. Queria tanto saber o final verdadeiro...”

“Conto, mas há um pequeno problema.”

“Qual?”, perguntou ainda mais curioso.

“Se de tanto falar nesse homem eu sentir falta dele, você sabe que vou procurá-lo, aí você não vai poder reclamar.”

“Sei que você me ama, isso não vai acontecer”, sentenciou como um magistrado.

“Vou contar mais uma vez, mas vamos do começo.”

“Mais uma vez e com o verdadeiro final.”

“Sobre o final, mais adiante decido. A história foi a seguinte. Escute, já que você sente tanto tesão nisso. Eu sempre passeava por aquela rua quando descobri aquele homem jovial e muito bonito. Pensei num artifício para tentar conquistá-lo. Em primeiro lugar observei-o chegar em casa durante uns dias; certifiquei-me sobre seu apartamento, investiguei se ele morava com alguém. Ao concluir que tudo ia a meu favor, comecei a investir. Certo dia, em torno da uma hora da manhã, vinte minutos após ele ter entrado em casa, subi pela escada e bati à sua porta. Quando abriu, pude notar que soube disfarçar a estupefação que ameaçou explodir em seu rosto. Houve uma ponta de vexo em seus olhos, enquanto era eu quem chegava nua. Vestia apenas botas pretas até os joelhos, um colar que imitava perolas e uma pequena bolsa de verniz. Mais nada. ‘Posso entrar?’, perguntei sorrindo. ‘Não se surpreenda, não vou lhe fazer mal’, completei. Permitiu que eu entrasse. Pegou uma bebida, acho que uísque, ofereceu-me. Já não lembro o que conversamos, mas o assunto foi animado. Em apenas um quarto de hora já estávamos excitadíssimos, apenas devido à conversa, porém. Não perguntou como nem por que eu chegara nua em seu apartamento. Naquele dia não fizemos nada. Nem nos tocamos. Aliás, beijei-o antes de ir embora, exatamente às quatro da manhã. Não se surpreendeu ao me ver sair da mesma forma que entrei. Nem me ofereceu roupa alguma. Não combinamos outro encontro. Dois dias depois, voltei. Tudo se deu de modo semelhante. Ele ficou muito feliz com o meu retorno. Voltei da mesma forma: nua. Você mesmo já disse, jamais apareci vestida na frente daquele homem. Na segunda visita, namoramos e fizemos amor. Parti às cinco, antes que o sol nascesse. E sempre nua. Os encontros se repetiram durante dois meses, mais ou menos duas vezes na semana. Nosso namoro entrou por um viés muito romântico. Bebíamos vinho, comíamos no mais alto requinte. Demonstrávamos estar apaixonadíssimos. Acho que adorou a minha invenção. O fato de chegar e partir nua, sempre no começo e no final da madrugada, fez que nosso namoro se mantivesse na sua casa. Jamais me convidou para ir a lugar fora dali, nem insinuei outro programa. Numa madrugada de sexta, lembro-me bem, adormeci em seus braços. Quando acordamos eram sete horas da manhã. Perdêramos a hora. ‘Como você vai fazer?’, perguntou apontando o meu corpo. Foi a única vez que fez esse gesto. ‘Não se preocupe’, respondi, ‘resolvo; e vou como vim’. Três dias depois ficou surpreso ao me ver chegar nua de novo. Namoramos muito naquela noite. Mas foi a última. Parti no horário costumeiro, ainda sob um restinho de sombras. Nem me perguntou como fizera para deixar sua casa com o sol já alto dias antes. Então conheci você, lembra? Apareci também nua, mas depois me vesti. E estou aqui, feliz e ao seu lado.”

Beijei-lhe uma das faces. Chegávamos à avenida Viera Souto. Atravessamos e sentamos num quiosque. Pedi à garçonete água de coco.

“Mas você não contou o principal”, lembrou insatisfeito.

“O principal?”, fiz-me desentendida.

“Como você fez para ir embora nua da casa dele às sete a manhã...”

“E como fiz nas outras vezes tanto para chegar como para sair?”

“Era de noite e, além disso, você também nunca quis contar.”

“Já não queres saber?”

“Quero, sobretudo o fato que se deu sob a luz do sol.”

“Agora nada posso dizer, é meu segredo, é assim que enfeitiço os homens.”

“Você iria lá de novo?”

“Sentes tesão nisso?”

“Sinto”

“E se eu não voltar?”

“Não tem problema. Acompanho você até as proximidades, tira a roupa e a deixa comigo.”

“Queres me deixar nua?”

“Quero você apenas com o pequeno cordão de ouro que vou colocar em volta do seu pescoço. O cordão, as botas negras e a carteira transparente.”

“Nua e com um cordão de ouro?" Pergunto mais uma vez: "e se eu não voltar?”

“Não faz mal, pode deixar que não vou atrás de você.”

“Jura?”

“Juro.”

“Então ta!”

quinta-feira, março 11, 2010

Arrepio

Vou contar a você. Na verdade, é um arrepio. No começo a gente fica meio temerosa, mas depois toma confiança. Chega um dia em que não se vive mais sem isso. Eles começam com algum tipo de galanteio e não demoram a fazer o convite. Primeiro, finjo que não entendi; mas, com o passar das horas, dependendo de como agem, aceito. Quando saí pela primeira vez com um homem que conhecera momentos antes, tremi de medo. Hoje, tremo, mas por outros motivos. O normal é eles nos levarem para um hotel, desses que nem são muito caros mas permitem o prazer. Ouça como é a primeira vez com um estranho, já que você diz não ter coragem. Deixei a boate às quatro. Me despedi das amigas. Beijei uma delas. “Não vai querer que eu fique de sobreaviso?”, perguntou arregalando um pouquinho os olhos.“De que adianta?”, perguntei, “salvarás minha vida?” Ela riu e insinuou: “às vezes não é a vida que corre perigo, mas outro imprevisto que se pode contornar com um simples telefonema.” Não pensei mais no que ela falou. Agarrei-me ao homem e fui com ele. Acho que todo ser humano tem tendência a confiar em alguém. Ninguém imagina que está ao lado de um fora da lei, de um tarado ou mesmo de um maníaco. Entrei com ele no hotel. Já no elevador, tacou-me um beijo na boca e apertou meus seios. Queria arrancar minha roupa antes de entrarmos na suíte. “Calma, vamos devagar”, falei preocupada. “Você vai fazer tudo o que eu pedir?”, perguntou ainda eufórico. “Não sei”, fiz charme, “só se não doer”. “Às vezes uma dorzinha é bom”, completou. Tremi um pouquinho. Será que me machucaria? Tirou toda a minha roupa. Nem me preocupei onde a colocou. Depois, ao contar para umas amigas, reparei que muitas têm preocupação com suas roupas, temem não encontrá-las após tudo acabar. Mas nem pensei nisso. Deixei que me envolvesse com seus grandes braços; permiti que fizesse tudo que desejava. Foi ótimo. Naquela noite nada se insinuou que me despertasse algum temor. Adorei seus afagos e beijos. Nas vezes seguintes, sempre que saía com alguém que conhecera momentos antes em alguma boate ou em outros lugares como restaurante, casa de espetáculo ou cinema, só sentia uma ponta de temor no começo, depois lhe depositava inteira confiança. Mas houve uma ocasião em que um deles rasgou minha roupa. Acho que fez aquilo porque vira num filme. A diferença é que, no filme, a mulher tinha um casaco comprido para sair do hotel. Eu, imagina, tive de sair nua. Se eu não deixara alguém de sobreaviso? Não, não deixara. Como fiz? Depois conto, mas ouça só. De início, jurei de pés juntos que a partir daquele dia (ou daquela noite, sei lá), não mais me deixaria seduzir por nenhum desconhecido. Mas quem disse que consegui cumprir o prometido? Não passou uma semana e já estava sentindo a maior falta. Confesso que o primeiro que apareceu me despertou temor. Mas, em seguida, senti uma certa atração pelo perigo. Hoje, continuo saindo, nunca mais me aconteceu nada de mal. O arrepio, porém, não deixa de estar presente. Ouça mais uma coisa, é sobre a Lurdinha, lembra dela? Com a Lurdinha aconteceu e continua a acontecer coisas muito engraçadas. Ela conheceu um fazendeiro, do interior de São Paulo. Viajou para a fazenda do homem. Parece que está apaixonadíssima. Ela não é como eu: é um pouco mais louca. Me contou que ele gosta de levá-la para passear inteiramente nua, à noite, calçada apenas de botas que vão até os joelhos. Aí ele pede a ela para dirigir o jipão deles até algum lugar deserto, manda-a saltar, passa ao volante e arranca com o automóvel deixando-a nua e só. Acaba sempre voltando para resgatá-la. Ela conta que certa vez pregou-lhe uma peça. Durante uma madrugada inteira escondeu-se no mato e não permitiu que ele a encontrasse. Voltou para a fazenda pela manhã, ainda nua e muito feliz. O homem a amarrou e ameaçou chicoteá-la caso não contasse o que fizera durante toda noite. Ela não abriu a boca. E diz que até gozou quando via a ponta do chicote prestes a estalar sobre seu corpo de mulher madura. Os dois continuam apaixonadíssimos. As brincadeiras não acabaram depois disso, não. Diz ela que até se multiplicaram!

quinta-feira, março 04, 2010

Um homem a me olhar

Em dias normais já gosto de andar nua, no Carnaval então nem se fala! Vou pelo Posto Seis, em Copacabana, atravesso a Joaquim Nabuco. Reparo um homem a me olhar, mira com insistência na direção das minhas pernas. São quase oito da noite, o sol ainda permanece, a claridade do dia insiste em nos iluminar. Em meio a um ambiente intensamente urbano, visto apenas um biquíni mínimo, cintura baixíssima, e o top. O restante vai numa minúscula carteira plástica transparente que trago amarrada num dos ombros. Sigo ao meu apartamento. Não para encerrar-me e terminar o dia. Apenas para descansar um pouquinho e depois me aprontar para sair de novo, pois a folia e um amor novo me esperam.

Na verdade, a surpresa instalou-se a partir das duas da tarde de hoje, sábado de Carnaval. Um estrangeiro aproximou-se e falou comigo, em inglês. Pensei que ele fosse americano, desses que desejam mulheres brasileiras fáceis. Mas tratava-se de um australiano. Reparei quando percorreu com um golpe de vista meu corpo magro, quase nu, e o desejou. Não me importei caso quisesse apenas o corpo, porque eu poderia fazer o mesmo em relação a ele. Duas estátuas louras em pé de igualdade sob um sol que não nos perdoava. Conversamos. Entendeu-me perfeitamente, apesar do longo silêncio a que meu inglês estivera confinado. Falou alguma coisa sobre seu país. Lá também há belas praias, bonitas mulheres, as pessoas são interessantes e bebe-se muito. Admirou-se do colorido do Rio; de Copa e de Ipanema; da alegria das pessoas; das faces juvenis sorridentes; e da quantidade de latas de cerveja que todos aqui consomem. Perguntou-me se não entraria na água. Respondi que preferia ficar sob o sol. Mergulhou mas não demorou a voltar. Comprou duas latas de cerveja e me ofereceu uma. Não aceitei; desculpei-me, mas não queria começar a beber àquela hora. Gostei da companhia dele. É bonito, chama a atenção, é possível perceber que é estrangeiro. As pessoas olhavam para ele e depois para mim. Às cinco horas me convidou a acompanhá-lo. Disse estar hospedado no Sofitel. Acenou com a perspectiva de comermos alguma coisa, bebermos, enfim. Ele disse que tinha tudo que precisava e que podíamos usufruir juntos. Acabei por acompanhá-lo. Na rua, ao me ver caminhar apenas com os mesmos trajes da praia, admirou-se de que em nossa cidade uma mulher pode andar nua sobre o passeio. “Não estou nua, estou de biquíni, assim você me deixa constrangida”, é lógico que falei em inglês. Ele riu e ajudou-me a lembrar a palavra “constrangida” em sua língua. Depois sorriu e se desculpou. Apontei outras pessoas que caminhavam vestindo somente trajes de banho. Também sorriu, mas descobri o que ele pensava: “você é mais nua do que todos as outras mulheres”.

Não tive dificuldade em subir com ele ao último andar do Sofitel. A gerência do hotel se ocupa com coisas mais importantes. A suíte em que está hospedado é de frente para a praia de Copacabana. Permanecemos um pouco na varanda. Foi até a geladeira e voltou com uma garrafa de uísque. Trouxe dois copos, apenas um com gelo. “Vocês não bebem uísque puro, não é mesmo?” Acenei que não movimentando a cabeça. Sorri. Bebemos contemplando a praia, o céu, todo o colorido da orla, as pessoas felizes lá embaixo.

Após encerrarmos a primeira dose, senti um de seus braços por trás do meu corpo. Abraçou-me, virou-me de frente e me beijou na boca. Com toda aquela paisagem paradisíaca às minhas costas, pegou-me no colo e me levou para cama. Acariciou-me demoradamente, percorreu grande parte do meu corpo com os lábios e a língua. De repente estava nua e subjugada à sua total vontade. Mordeu meus seios com tal impetuosidade que cheguei a tomar um ligeiro susto. Mais algumas carícias e procurou meu sexo, primeiro com a boca, num movimento vigoroso de sucção. Senti tudo que havia em meu ventre querer saltar e se transferir para dentro dele. Depois subiu vagaroso, até que defrontamo-nos rosto a rosto. Beijamo-nos mais uma vez; seu sexo procurou o meu, natural e confortável. Absorvi-o como uma das maravilhas da natureza. Meu australiano também era fã de mágicas e fetiches. Quando sacolejávamos à deriva, sem o anúncio de qualquer tipo de vela ou leme que nos levassem a porto seguro, reparei o meu raso biquíni em uma de suas mãos: num movimento rápido, levou-o por inteiro dentro da boca, mastigou-o com esmero. Fechei os olhos, o coração a bater mais acelerado; nada falei nem protestei, apesar de não ter nada mais do que aquele minguado paninho para voltar para casa. Namoramos durante mais uma boa meia hora, Ao acabarmos nossa dança sensual, pediu pelo telefone uma refeição para dois. O alimento requintado repôs todas as energias que deixáramos para trás tanto na praia como no exercício duplo do amor.

Agora atravesso a Joaquim Nabuco, caminho rápido, quero chegar logo em casa. Vou pegar algumas roupas, todas bem curtinhas e sensuais, entre elas mais alguns biquínis – exigências dele num inglês de sotaque asiático meridional. Vou ficar todo o Carnaval no Sofitel. Convidou-me. Vamos à praia, a diversos blocos e em tudo mais que aparecer. Sei que se trata de um amor de Carnaval. Mas, quem sabe, no mundo de hoje o longe é um lugar que não existe. Mesmo quando se trata da Austrália.

quinta-feira, fevereiro 18, 2010

Ah, o Carnaval!

Ah, o Carnaval foi ótimo! Cometi algumas loucuras, alternei entre sensações de arrepio e friozinho na barriga, mas nada tenho a reclamar. Na segunda-feira logo depois do desfile do bloco, subi ao apartamento do Rui. Meu telefone tocou no momento em que ele tinha acabado de me deixar nua. Vi a luz piscando, pensei em não atender, mas não me contive. Quando escutei a voz do Leonardo, pensei no que ele sempre me diz: “Você dá pra todo mundo, hem?” Assim que percebeu que eu dissera alô, me convidou pra tomar um chope e brincar na General Osório, defronte do Belmonte. Respondi: “agora não posso, daqui a duas horas talvez, telefono.” Desliguei e continuei nas mãos do Rui. Esse não perguntou nada. Já me conhece, o negócio dele é fazer amor comigo. Me acha muito gostosa. Às vezes, quando tomo algumas taças de vinho, fica mais apaixonado, porque ardo em brasas. Ainda se alguém telefona, algum namorado, ou mesmo amigo que sabe que estou nua e nas mãos dele, não tenho palavras para definir sua excitação. Cheguei com uma fantasia mínima, um biquíni raso, cintura baixíssima, quase nua. Pedi através de beijos e sarros que me deixasse pelada, que podia arrancá-lo com violência. Depois, trepamos com uma avidez... Não demorei a deixar que escorregasse para dentro de mim, úmida úmida; alternei todas as posições, nossa respiração ofegava, gozamos três vezes. Então perguntei: “Rui, você tem em casa roupa de mulher?” Respondeu: “de mulher, não”. Ainda complementou: “você não me disse uma vez que já terminou nua todas as noites de Carnaval? Quando perguntei como você fez para voltar pra casa, você falou: não estou aqui com você hoje? É sinal que dei um jeito.” O fato de eu ter ficado sem, excitava o homem. “Vejamos, podemos dar um jeitinho”, completou, “tenho uma camisa da banda, você quer?” Assenti, dengosa, movendo a cabeça. Vesti a camisa. “Você está ótima, a camisa está curta mas cobre seu corpo deixando você muito tesuda!” Descemos ainda nos agarrando no elevador. Na rua, entrei na multidão e me perdi dele. Uma hora depois, encontrei o Leonardo. Agarrou-me e me beijou. Estava tão bêbado que não notou que eu estava sem calcinha. Aliás, ninguém notou!

quinta-feira, fevereiro 11, 2010

Simpatia é quase amor

Ela:

O Rio de Janeiro é maravilhoso. E neste verão surgiu uma nova moda: a de tomar banho de mar à noite, já o sol posto. Mesmo após as oito horas, a praia continua cheia de gente. Muitos mergulham; outros namoram; há quem cante e batuque; e há também os que ficam simplesmente conversando. Como durante a noite não há calor excessivo, a estada à beira mar torna-se muito confortável.

A proximidade do carnaval com seus blocos que desfilam nos finais de semana (agora no Rio, o carnaval dura mais ou menos um mês) faz que muitos se divirtam e, depois, aproveitem para dar um mergulho. A brisa noturna e a água fresca acabam transformando-se numa rápida injeção de energia. Relaxa-se e já se está pronto para novos embalos, arrepios e aventuras.

Hoje, domingo, fui ao desfile do Simpatia, aqui na Vieira Souto. Assim que os tambores silenciaram, em torno das nove da noite, aproveitei e desci para a areia da praia. Surpreendi-me com a grande quantidade de pessoas que pensaram a mesma coisa. Mas não reclamei, gosto de companhia. Jovens, mulheres e até alguns idosos aproveitam para refrescar-se sob a luz do luar.

Estou no posto nove. Entrei na água com uma roupa de banho de apenas uma peça: um maiô estampado, vermelho e branco, o qual vesti para o desfile do bloco. Logo ao sentir a água fria, tive vontade de tomar banho nua. No escurinho não seria nada difícil. Acabei não resistindo. Tirei o maiô e o enrosquei bem pequenino em uma das mãos. Durante o desfile bebi duas ou três caipiríssimas, ainda estou queimando por dentro. Várias pessoas passam por mim, sorriem, mas nada reparam. A um rapaz simpático, talvez lá pela casa dos vinte e poucos anos, peço: “você pode me fazer um favor? Guarde isso junto àquela pequena sacola.” Aponto para o local, e ele prontamente me atende. Entrego-lhe o maiô bem enroladinho e mergulho virando-me na direção do oceano. O escurinho da noite, a água um tantinho gelada, a brisa marítima e o corpo nu me dão um prazer todo especial, difícil de descrever. É um fim de noite maravilhoso. Estou de molho. E nua. Aconteça o que acontecer, a sensação de prazer é inigualável.


Ele:

Que domingo maravilhoso! Encontro com os amigos, vôlei de praia, chope à beira mar, desfile de bloco, enfim, carnaval, e ainda, à noitinha, quando o final de semana parecia se despedir, a surpresa: uma mulher maravilhosa.

Pela primeira vez resolvi tomar banho de mar à noite. Durante o verão tenho passeado pela praia após o pôr do sol; observo aquele monte de gente que continua ali, sem arredar o pé. Permanecem por duas ou mesmo três horas, já a noite escura; mergulham com mais frescor e alegria.

A mulher maravilhosa que conheci não me disse seu nome. Chamou-me quando vim à tona após eu dar um mergulho quase ao seu lado. Pediu para que eu guardasse junto a seus pertences algo que segurava minimamente em uma das mãos. Após lhe atender e deixar o objeto onde apontara, perguntei a mim mesmo: “o que deve ser isso?” Pensei um pouco e não demorei a descobrir. Voltei para onde ela estava. Ela não se incomodou com a minha presença, até mesmo gostou. Não se vexou ao perceber que descobri o essencial: ela estava nua! Falou baixinho, um dos dedos junto aos lábios: “psiu, não fale pra ninguém.” Nada comentei, apenas sorri. Pediu para eu me aproximar dela. Aceitei. E foi ela quem me abraçou. Devo contar o resto? Vocês podem imaginar o que acontece quando um homem encontra uma mulher nua, tanto mais nessas condições. Namoramos, namoramos e namoramos. E quando duas pessoas adultas namoram, todos já podem imaginar o que acontece. No final, beijei-a longamente. Achei melhor não lhe perguntar o nome nem o número. Ela agiu da mesma forma. Despediu-se de mim como seu eu fosse seu velho amigo, ou mesmo o namorado efetivo. Ainda permanece dentro d’água após eu me retirar. Caminho para a areia, olho para trás e aceno. Ela sorri, sorri intensamente, agita um dos braços dando-me adeus, manda-me muitos beijos. Ao passar pelos seus pertences, vejo o objeto confiado a mim. Apaixonei-me tanto pela mulher... Abaixo-me, tomo seu maiô em uma das minhas mãos. Olho novamente em sua direção, mas ela está virada para o outro lado. Tenho um motivo para um dia desses procurá-la. Do jeito que ela é alegre, não vai se incomodar. Acho que nua, vai até ser mais feliz!

quinta-feira, fevereiro 04, 2010

No desfile da Banda de Ipanema

Todos sabem que se eu pudesse andaria a maior parte do tempo nua. Como o carnaval se aproxima, é o momento de sair bem à vontade. No sábado passado, cumpri a sina. Aproveitei um dos desfiles pré-carnavalescos da Banda de Ipanema e fui para a praça General Osório. Vesti apenas um levíssimo maiô. Isso mesmo, maiô. Alguém poderia perguntar: por que não fostes de biquíni, ou mesmo vestida com uma das suas saias curtíssimas? Mas aí é que está o segredo. Mais ou menos no início de janeiro, fui apresentada a um tecido que jamais vira. Tecido italiano. Uma amiga em viagem pela Europa o trouxe de presente, especialmente para mim. Disse-me: “Marg, você não vai acreditar, este tecido ainda se encontra em experiência, é criação recente, mas consegui uma peça para você. Quando soube de sua existência, pensei: é ideal para a Margarida. Veja como é fino; quando estamos envoltas por ele, não o sentimos no corpo, ou melhor, sentimo-nos nuas. Asseguro, porém, uma coisa: ainda não é possível comprá-lo em loja alguma.”

Com o tal fruto da mais moderna tecnologia nas mãos, não pensei duas vezes, pus-me a confeccionar um belo maiô. O pano é estampado, flores e listras, verde e vermelho, e alguns outros matizes. Não preciso dizer que ficou lindo. Minha habilidade de artesã – que ainda vigora plena – e a sutileza do tecido puseram-me entre as maravilhas da cidade.

E lá fui eu para a banda. Apenas o maiô, sandálias de salto e um chapéu bege largo cheio de charme. Ao descer do prédio em que moro, após dar os primeiros passos na rua, quase enrubesci (ao menos imagino), pois senti que não levava roupa alguma sobre a pele. Pouco a pouco, no entanto, acostumei-me. Ao chegar em meio à banda, caí no samba.

“Que maiô lindo, Marg”, diziam as pessoas, “que beleza, onde você o comprou?” Respondia que mais tarde revelaria.

Caso alguém tocasse meu corpo, percebia tanto quanto eu que aparentemente minha pele estava nua; não era possível sentir o pano. Se arranjo um paquera e ele me toca sobre o maiô, vou ter problemas, pensei sorrindo. Mas esse seria um problema que toda mulher bonita gostaria de ter.

Surgiu, então, o primeiro candidato. Em meio à multidão e à alegria geral, aproximou-se; exibia-se semelhante a experiente passista.

Dançamos, demos belo show durante muito tempo. As pessoas nos observavam, admiravam-nos, aplaudiam. Aconteceu depois de três quarto de hora, na mais completa exaltação e alegria: o homem tocou-me a pele junto ao ombro direito. Continuou nos seus passos afrodescendentes, mas senti que franziu a testa. Apenas sorri. Continuamos a nos esparramar pela larga rua interditada para o desfile, em meio a outros carnavalescos e sempre sob o som arrebatador da banda. Em algum momento, meu recente par aproximou-se de meu rosto, sem perder o ritmo, e tentou falar junto ao meu ouvido: “a madame está nua?” Apenas sorri e dei de ombros, como se nada pudesse fazer.

Diverti-me muito. Com ele e com outros. Encontrei vários amigos e amigas. Transitei por entre as pessoas. Fui focalizada e filmada pela TV; vejam só, apareci no jornal local. Nada me intimidou. Continuei em plena exaltação, sempre desejando que aquela festa não terminasse. Caso alguém me tocasse sobre o tecido, logo perguntava: “Marg, você está nua, o seu corpo está somente pintado, não? Sabia que ia aprontar uma surpresa para nós.”

Numa das calçadas da praça, vi uma menina vestida de fada que disse para mãe: “Olha, mãe, que moça feliz; não fala pra ninguém, mas acho que ela está pelada!” Mandei um beijinho para a garotinha. Ela me acenou com a varinha e também sorriu. Ouvi ainda a voz entusiasmada da mãe: é carnaval, é carnaval!

Surgiram, de presente, duas taças de champanha. Um dos presenteadores disse que abriu a garrafa especialmente para mim.

Tentei não me exibir demais, não chamar a atenção. A festa é do Rio, a festa é de todos. Quando o alvoroço se concentrava à minha volta, dava um jeito de sair dançando com alguém e desaparecer da curiosidade geral.

No final da festa, encontrei meu primeiro par. Ele, sim, portou-se como verdadeiro carnavalesco. Acompanhado ou só, não saía do tom, não perdia o ritmo; sua alegria não diminuía nem ele se cansava, apesar dos inúmeros copos de cerveja. Dançamos de novo. E dessa vez até o final. Não mais se preocupou com minha possível nudez; sua tarefa era levar avante toda essa tradição de samba que uma cidade inteira herdou. Pessoas como ele, caso encontrem uma mulher nua ou de maiô finíssimo, o que não deixa de ser quase a mesma coisa, têm como preocupação maior a música, a dança, enfim, a alegria geral.

Após extraviar-me, já de noitinha, entre pessoas fantasiadas, extasiadas, e carrocinhas que vendiam cerveja, reparei que o dançarino não me seguiu nem me pediu o endereço. Misturou-se entre os seus. Não abandonou sua arte.

Ele entende o que é o Carnaval!

quinta-feira, janeiro 28, 2010

Uma surpresa

Na primeira foto, como você pode ver, fiz uma pose junto ao portão de casa. Estou segurando na base do muro, antes da grade que permite antever a fachada. Meu corpo está inclinado para frente, os braços atrás, o que sobressai é o rosto. Repare a pele, os olhos azuis, as sobrancelhas e, principalmente, os cabelos. Estão caídos à minha esquerda, as mechas castanho claro que escorreriam à direita penteadas por cima da cabeça dando-me um charme todo especial. Olhe agora minhas roupas: blusa preta de mangas compridas e decote avantajado (nessa pose as mangas parecem três quartos); calça jeans de um azul bem claro; cinto de couro estreito. Ótimo, não? É possível ver o cordão de ouro que me envolve o pescoço e o enfeite retangular de madeira com metal incrustado ao centro, como se fosse uma espécie de medalha.

Veja essa outra foto. Estou um pouquinho inclinada para a direita. Os cabelos continuam sobressaindo, já que ficaram em primeiro plano; o penteado é o mesmo da foto anterior; também se destaca a coxa esquerda, é possível observar o contorno do meu bumbum, a calça é justa e, apesar de eu ser magra, ele ficou em relevo. Naquele momento não era minha intenção que isso acontecesse, mas gostei do resultado. Outra coisa que se pode reparar é o pequeno relógio quadrado com a pulseira estreita preta, no braço esquerdo, combina perfeitamente com o cinto; no braço direito, o bracelete dourado. Tudo muito bonito, não?

Nessa terceira estou de frente. Todas as fotos foram feitas no mesmo lugar. Ora virei para um lado, ora para outro, ora uma ligeira inclinação. Mas o que aparece em primeiro plano aqui é minha barriga, que está de fora. Levantei um pouquinho a blusa e mostrei o umbigo. A pele branquinha é bonita, não? Repare a cintura baixa da calça. Olhando para o meu rosto, preste atenção à posição de minha mão esquerda, o braço dobrado, a mão apoiando os cabelos por atrás da orelha esquerda.

Já nessa outra, uma surpresa: os braços cruzados sobre os seios; em destaque, o relógio e o bracelete. Mais uma vez sobressaem o cinto estreito, a barriguinha à mostra e a cintura baixa da calça. Talvez seja possível observar melhor o brinco dependurado na orelha esquerda ou, quem sabe, o cordão. Ele quase não aparece, não é mesmo? Sei que você não olha para nada disso, mas se fixa no fato de eu estar sem a blusa! Isso mesmo, nua da cintura para cima. Mais uma coisa: deixei escapar o bico de um dos seios. O fotógrafo, na verdade um amigo, sugeriu que eu me despisse. Hesitei a princípio; depois, porém, como não passava ninguém pelo local e as fotos iam ficar apenas entre nós, aceitei. Mas só tirei a blusa, viu? Mais nada. Visto a mesma calça e os mesmos adereços, mas estou abraçada a mim mesma, como querendo esconder o impossível de ser escondido. Ah, olhe ainda para o meu rosto, aprecie o ligeiro sorriso.

Aqui, mantenho o mesmo charme, mas há uma diferença. A foto foi feita privilegiando meu lado direito. Virei um pouco a cabeça também para a direita, pela primeira vez meus olhos escapam da câmera e atingem um campo externo. Minha expressão é de ligeira preocupação, como se à procura de alguém, um intruso talvez que pudesse às escondidas me vigiar, descobrir minha seminudez. Mas a foto ficou ótima, não?

Agora, pedi para que ele se aproximasse, uma espécie de zoom. Aparecem a barriga, os braços ainda cruzados, e meu rosto. Sobressaem os mesmos objetos das outras fotos: o relógio, o cordão, o bracelete Parece que estou nua por inteiro, não? Isso, no entanto, não aconteceu. Foi apenas um truque. E ainda continua a me escapar, lembra de quê? Um dos seios!

Eis a última foto. Repare as letras no cinto, uma fivela com as iniciais do meu nome: MNG. Posei a mão esquerda atrás da nuca, criativo, não? O braço esquerdo levantado mostra que estou depiladíssima. Mais uma surpresa entretanto: soltei os seios. Aparecem os dois, nus, por inteiro, e estão rijos, interessante, não é mesmo? Esbeltos, eretos e apetitosos.

Gostaria de experimentar meus seios? Você é incisivo, não? Ficou excitado? Acho que permito. Espere, porém, mais um pouco. Quer me deixar nua por inteiro? Calma. Nuazinha é demais, conheci você ontem. Vamos combinar uma coisa: faça como meu amigo, nua nua, não. Mas deixo – do mesmo modo que permiti a ele depois da sessão de fotos – roubar-me a blusa, combinado? Quer saber o que senti ao estar seminua à frente dele ainda por mais de uma hora depois que guardou a câmera? Ah, sou uma mulher corajosa, saiba. E, lembre-se, estava à porta de minha casa; apenas encenei alguns gestos, depois entrei. Você quer esta blusa? Mas ela é tão bonita... Gostou muito? Quer levá-la só por uma noite? Jura então que me entrega amanhã? Vou pensar um pouquinho. Ainda há de se levar em cota o seguinte: estou numa situação diversa, acho que até mesmo desfavorável: não estou à porta de casa, como na foto, mas distante dela quinze quilômetros!

Deixa pra lá. Apesar de todos os riscos, como já disse, sou uma mulher corajosa. E, além disso, você é tão convincente!

sábado, janeiro 23, 2010

Buenos Aires

Fui visitar meu namorado em Buenos Aires. Faz três anos que tenho esse homem maravilhoso. Duas vezes por ano ele vem ao Rio para me ver. Dessa vez, fui eu que decidi ir à sua cidade. O convite já era antigo, mas sempre dava uma desculpa adiando minha ida. Neste mês, aproveitei e viajei. Já no avião, pude observar o charme que é visitar uma cidade portenha. Várias pessoas elegantes mostravam-se sorridentes e felizes, porque estavam prestes a aterrizar num lugar maravilhoso. Quando saí da sala desembarque com minha bagagem, meu namorado surgiu junto às pessoas que aguardavam parentes e amigos. Beijou-me, um afago longo, em meio ao caminho. Os outros passantes só tiveram a desviar e a nos sorrir.

Adalberto tem um carro novo, grande. Tomou minhas malas e guardou-as cuidadoso. Pusemo-nos a trafegar em direção ao centro. Atravessamos a avenida Nove de Julio e a Corrientes. Mostrou-me alguns edifícios que dão imponência à capital. Levou-me depois direto ao seu apartamento; queria que eu descansasse e tomasse alguma bebida típica. Namoramos já na grande sala. Era possível, da janela do terceiro andar, ver grande parte do bairro, as avenidas largas, alguns ônibus, autos e ruas menores que cortam a principal.

Tirei o blazer, permitindo que me acarinhasse o ventre e os seios. Agarramo-nos um ao outro em longos beijos, como casal que há muito necessita da mútua presença. Aprontou-me uma bebida composta de laranja, rum e uma colherinha de açúcar. Que delícia! Serviu-me um pequeno sanduíche de salame. Do sofá onde estava, observei melhor o apartamento. Havia uma parede inteira com prateleiras, livros e mais livros. Adorei. Seus móveis e adornos despertaram minha atenção; senti atração pela sutileza dos detalhes. Havia cadeiras e poltronas antigas, mas suntuosas.

“Vamos a Caminito, à noite”, convidou-me.

Jamais pensei que o bairro fosse tão atrativo. Trata-se de uma quadra que fica no coração de La Boca, povoada por artistas de rua e casas de tango. Numa delas, também um bonito restaurante, pude aproveitar a música típica do país. Como pulsam os corações diante de tal espetáculo. Homens e mulheres exercitam-se em ritmo e movimentos alucinantes. Fomos muito bem servidos por garçons e maîtres. Bebe-se muito, e nós não éramos exceção. Ante a música envolvente, não perdíamos tempo e nos beijávamos constantemente. No escuro do local, meu namorado tocou-me primeiro nos joelhos; depois, um pouco mais acima. Eu vestia um vestido preto reluzente e meias finas.

“Quero sentir tua pele”, exclamou.

“Calma, daqui a pouco tiro a meia.”

Comemos pequenos e decorados quitutes, bebemos uísque. Não sei dançar tango, mas sob sua orientação e já entusiasmada por duas doses da bebida escocesa não foi difícil aventurar-me. Outros casais cruzavam o salão, numa maravilhosa sensualidade.

Era cerca de meia noite quando deixamos o restaurante. Desejávamos outras aventuras.

“Aonde vamos?”, perguntei.

“Ao Bosque de Palermo”, falou ao meu ouvido antes de mais um beijo.

Um bosque, a essa hora, pensei. Como que ouvindo meu pensamento, completou:

“É um local muito agradável, visita-se tanto durante o dia quanto durante a noite; também possui restaurantes e discotecas.”

Entramos com o automóvel, estacionamos e começamos a caminhar. A princípio, percebi jovens ruidosos. Iam às discotecas. Mais adiante, no entanto, próximo a alguns restaurantes de aparência luxuosa, o ambiente era mais discreto, com casais de meia idade ou grupos de homens e mulheres que pareciam comemorar alguma data especial. Como não estava frio, sentamos na varanda de um deles. Um homem de terno, muito solícito, veio-nos receber. Apresentou-nos suas saudações e nos trouxe dois aperitivos. Ficamos a ler os enormes cardápios. Pedimos, enfim, carne de carneiro. Não esquecemos de encomendar uma garrafa de champanha.

Poucas vezes comi num lugar semelhante. A luz era baixa, sentia-se o frescor da brisa noturna; a paisagem externa, composta de árvores e jardins, ficava na penumbra, mas sua presença anunciava-se através de pequenas luzes que cintilavam através dos diversos caminhos. Dentro do restaurante, um homem tocava piano. Permanecemos ali até às duas da madrugada. Meu namorado recitou-me alguns poemas: “Hay tanta soledad em ese oro. / La luna de las noches no es la luna / que vio el primer Adán. / Los largos siglos / de la vigilia humana la han colmado / de antiguo llanto. Mirala. Es tu espejo.” Eu não queria outra vida. Sussurrava-os ao meu ouvido, vez ou outra, beijando-me. Sabia de memória grande parte da lírica portenha. Senti uma paixão ainda maior por ele.

Quando nos retiramos e caminhávamos pelo bosque, quis fazer-lhe uma surpresa. Ele percebeu e falou:

“Já sei, vai tirar as meias.”

“Feche os olhos, sente-se aqui”, apontei-lhe um dos bancos em meio a uma grande árvore. “Abra-os apenas quando eu mandar”.

Voltei dois minutos depois.

“Não abra os olhos ainda, primeiro toque-me o ombro”.

Obedeceu-me.

“Não desça as mãos, espere. Isso, agora as deslize até meu ventre, devagar, atravesse meus seios.”

“Você está sem a blusa”, balbuciou.

“Calma, não fale nada, ponha as duas mãos nas laterais de minha cintura. Assim, isso mesmo. Deixe-as escorregar até minhas coxas”.

“Mas você está nua por inteiro.”

“Isso mesmo, pode abrir os olhos.”

Adalberto ficou excitadíssimo com minha ousadia. Agarrou-me, beijou-me, queria fazer amor comigo ali mesmo.

“Calma, vamos para dentro do carro”, falei.

“E o seu vestido, o que fez com ele?”

“Será que amanhã você me traz aqui para eu pegá-lo de volta?”

“Claro, mas será que não vão encontrá-lo?, é muito bonito.”

“Não se preocupe, acho que não; caso alguém o ache tenho muitos outros e, além disso, deixo a pessoa morrendo de tesão!”

Meu namorado pareceu não entender minhas últimas palavras. Corremos para o carro. Namoramos um pouco no estacionamento. Coloquei-me por cima dele e puxei seu sexo para fora. Depois de terminarmos, deixei que se ajeitasse e pedi que ele pusesse o automóvel em movimento.

Cheguei a seu apartamento peladinha. Muito rápido, livrei Adalberto de toda a roupa e fiz que se sentasse sobre uma das cadeiras estilo século XVIII; depois, sempre nua, sentei-me sobre ele, frente a frente; soltei o corpo, senti seu sexo escorregar fundo dentro de mim. Acho que esse homem jamais vai me esquecer. Imaginem o tanto que namoramos naquela madrugada.

À tarde, no dia seguinte, voltamos ao parque com a intenção de recuperar o meu vestido. Estava lá, escondidinho, como eu o guardara.
Minhas primeiras horas em Buenos Aires foram inesquecíveis. Qualquer dia desses, narro os dias restantes. Vocês sentirão muitos arrepios!

***
Hoje meu blog completa quatro anos de existência. Que bom que vocês estão presentes. Vou comemorar o aniversário com amigas e amigos. Sei que preparam uma festa: vamos a um bistrô que funciona até às duas da madrugada, depois me levam a um terraço. Continuem acompanhando minhas postagens. Obrigada a todos e muitos beijos!

sábado, dezembro 19, 2009

Sem as botas

Foi muito divertido. Só no final que fiquei um pouco apreensiva. Eu tinha de chegar nua naquele local, uma espécie de consultório. Uma porção de gente sentada: homens, mulheres, e uma recepcionista junto a uma pequena mesa observando alguns dados na tela do computador. Tinha de estar nua, mas na verdade não em pelo. Eu vestiria uma blusa curta, umbigo de fora, mas as mangas compridas; na mão esquerda, a bolsa segura por uma pequena alça; daí pra baixo a nudez, apenas a bota a cobrir de um ponto abaixo dos joelhos até os pés. Deveria agir com muita naturalidade, dirigir-me à recepcionista e dizer meu nome. Sabia que uma câmera se escondia em algum lugar da sala, mas não seria possível percebê-la. As pessoas, quaisquer que fossem suas reações, não deveriam me incomodar. Mesmo que falassem comigo, reparassem com palavras a minha nudez, ou mesmo me censurassem. Tinha de sentar após o aval da funcionária, pegar uma revista e aguardar a minha vez. Fora orientada a não dar conversa a pessoa alguma entre os que também aguardavam. Caso alguém inquirisse sobre qualquer assunto, deveria sorrir de modo delicado e nada comentar. Meu papel seria desconversar.

Percorri o corredor comprido do andar. Ao descobrir o número 508, empurrei a porta e entrei. Fiz o que estava previsto. A recepcionista perguntou meu nome, alguns dados e pediu que aguardasse apontando-me uma das poltronas. As pessoas estavam absortas. Algumas olhavam à tela da TV, outras liam, duas senhoras conversavam em voz baixa, uma jovem ao meu lado (devia ter uns quinze anos) lia um livro. Como todos se mantinham alheios, não quis esticar o braço até o console onde estavam as revistas, para não chamar a atenção. Fechei um pouco os olhos, concentrei-me nos exercícios costumeiros, inspirei vagarosa, ainda as pálpebras abaixadas. Foi quando um homem de meia idade me ofereceu uma revista. Agradeci e pus-me a folheá-la. Após cerca de dez minutos, a recepcionista chamou meu nome. Levantei-me e a acompanhei a uma antessala onde em um dos cantos um abajur lançava luz sutil, meio prata meio ouro. Ouvi mais uma vez a voz da mulher: “tire toda a roupa e me acompanhe”. Fiz o que mandou, permaneci apenas de botas. Num outro cômodo mais espaçoso e bem decorado fez-me sentar numa poltrona larga. “Fique à vontade”, falou mais uma vez. Olhei a mobília, os quadros, as luminárias, tudo se harmonizava. Mais alguns minutos e dessa vez um homem jovem veio me chamar. Acompanhei-o a um cômodo menor. Ficou atrás de uma mesa, como um médico a anotar o prontuário de um paciente. Mas não fez perguntas, disse apenas: “pode deitar”. Dirigi-me a um estofado branquíssimo. Só então percebi uma outra mulher. Estava vestidíssima, mas descalça. Aproximou-se, tirou-me as botas e vestiu-as. Levantou-se, olhou-se de perfil no espelho, segurou a bolsa com a mão direita e se foi. Ainda ouvi sua voz antes de fechar a porta: “obrigada”.

Depois alguém me cedeu sandálias de salto, fez que eu as calçasse, entregou-me a pequena bolsa como meus pertences e disse: “vai com Deus”.

Quando me vi do lado de fora, o céu já não estava tão escuro, tive de me apressar. Entrei no carro, dei a partida e desapareci no fim da rua.

Feliz natal, boas festas de fim de ano e muita saúde, realizações e fantasias em 2010.
Volto a publicar meus contos a partir do final de janeiro, quando esse blog completa quatro anos!
Beijos

sexta-feira, dezembro 11, 2009

Londrina

Hoje, dou voz a uma amiga rica, que gosta de viajar, frequenta o jet set internacional e sempre está cercada de gente importante.

“Vou contar apenas um episódio que me aconteceu, porque falar sobre tudo seria preciso mais de um livro.

Tenho paixões por sapatos, de salto, já que sou baixinha: 1,66m. Em qualquer lugar, caso encontre uma loja dessa especialidade e nela alguns interessantes, não deixo de entrar e imediatamente comprar alguns pares. Sou atualmente casada com um empresário nórdico, digamos assim para não definir de quem falo. Tenho também uma outra paixão além dos sapatos; digo-a apenas agora: gosto de homens jovens. Tenho 39 anos, reconheço que os namorados mais interessantes são os que são cinco ou até mesmo dez anos mais jovens que eu. Outro dia estava almoçando num famoso restaurante, em Londres, quando vi numa das mesas vizinhas um jovem ator. Ele já me conhecia de uma recepção beneficente, inclusive contribuiu de modo generoso para uma de nossas causas, uma ONG ambientalista. Fui até à mesa em que conversava com os amigos e cumprimentei-o com alegria. Apresentou-me as pessoas que o rodeavam. Disse que precisava falar-lhe, mas não queria ferir a etiqueta. Marcamos um encontro no foyer do hotel, uma hora e meia mais tarde. Ainda aproveitei o curto espaço de tempo depois do almoço para atravessar a rua e mergulhar nos sonhos que os sapatos da loja em frente me instigavam. A vendedora me adorou, disse que já tinha lido alguma coisa sobre mim nos jornais ingleses. Comprei três pares. Depois voltei para o hotel. O ator já me esperava. Perguntou por minhas amigas, chegou a dizer que tenho uma espécie de séquito, isto é, moças e rapazes que sempre viajam comigo, para me servirem. Respondi-lhe que dera uma espécie de folga a eles, e que estavam a fazer compras pela cidade. Reparou que eu calçava sapato belíssimo, de salto.

‘Posso dizer uma coisa você?’, perguntou.

‘Claro.’

‘Já que estamos nos tornando amigos íntimos, adoro uma mulher sobre saltos, e tanto mais se eles forem bem altos.’

‘Que bom’, respondi, ‘assim você vai me amar cada vez mais.’

‘Há mais uma coisa.’

‘Qual?’, aprontei-me curiosa.

‘Gosto que elas apareçam sobre os saltos inteiramente nuas.’

Não deixei de rir, mas desviei a conversa. Uma mulher importante como eu não poderia demonstrar vulgaridade.

Despedi-me após uns trinta minutos. Falou que ainda ficaria na cidade por dois dias e deu-me o endereço de seu hotel.

Foi então que eu e as amigas que sempre me seguem nas viagens resolvemos aprontar. Contei a elas a paixão dele por mulheres nuas sobre saltos.

Fomos ao seu hotel por volta da uma da madrugada. Não foi difícil entrar e nos acomodarmos na suíte onde ele se hospedava.

Chegou sozinho, em torno das duas horas, ligeiramente bêbado. Achamos que assim seria melhor. Quando se atirou sobre a cama, havia muito que eu e as outras três estávamos em pelo. E sobre saltos.

Ao nos ver, saltou assustado, sentou-se sobre a cama, pegou a garrafa de uísque e bebeu no gargalo. Sorrimos, fazendo poses especiais. Andamos sobre nossos saltos, para que ele gozasse toda a sua paixão.

Quando quis nos agarrar, sinalizei que esperasse. Saímos as quatro. Nuinhas. E desaparecemos no corredor comprido do hotel.

Dias depois o vi na TV. Narrou o episódio. Disse, num programa noturno de entrevistas da BBC, que estava em seu quarto de hotel quando três (enganou-se na conta) mulheres nuas e sobre saltos invadiram o seu apartamento. O entrevistador perguntou se ele tinha exagerado na bebida naquela noite.

Respondeu:

‘Sempre exagero, mas nunca me aconteceu de aparecer três mulheres nuas ao mesmo tempo.’

Todos caíram na gargalhada.

Ainda bem que ele não contou sobre a noite seguinte. Tudo aconteceu da mesma forma. Só que fui sozinha. E não me dissolvi nas sombras.”

sábado, dezembro 05, 2009

A natureza é nua

Quando morei em Estâncias do Vale, uma pequena cidade no noroeste do Rio, tive experiências fascinantes com a natureza. Minha casa ficava no meio de um bosque onde se podiam apreciar árvores diversas e acolhedoras. Sempre achei que há árvores que não desejam a proximidade de seres humanos. Mas, ao menos em relação a mim, elas se mostraram receptivas a partir do momento em que me estabeleci ali e passei a admirá-las. Ainda bem que minha casa ficava fora do perímetro urbano, e a residência mais próxima a mais ou menos quinhentos metros. Podia sair à vontade em qualquer hora do dia ou mesmo da noite que me sentia protegida por toda aquela exuberante natureza. O canto dos pássaros, os sons de animais de que eu nem mesmo sabia o nome não me intimidavam. Nada ali poderia me fazer mal. À noite, gostava de caminhar até um platô de onde eu observava todas as estrelas possíveis. Não havia luzes por perto, logo era mais escuro o céu e as estrelas brilhavam como diamantes. Não me lembro de, antes, ter apreciado um céu assim.

Quando chegou o verão, um vento morno soprava ao entardecer. Após as dez da noite, já se podia sentir a pele sendo acariciada por um sudoeste que vinha para nos arrepiar. Aí esquecia-se todo o calor do dia que findara para se mergulhar numa noite fresca, confortável.

Certo dia estava excitada. Não sabia o motivo. Meu peito arfava, queria sair, irmanar-me a toda aquela vegetação, acariciar o tronco das árvores, sentir o pulsar de suas seivas, recostar num arbusto que se mostraria irmão de uma mulher que não estava ali para destruí-lo nem tramar nada de mal contra ele. Na mesma noite, notei que me faltava algo. Observei mais acurada a natureza; tentava descobrir nela o que faltava em mim. Passeei por vários caminhos; andei sobre a relva; resvalei em árvores que até então não havia reparado; descobri a areia fofa das margens de um pequeno regato que eu escutava mas ainda não estivera com ele. Depois olhei de novo para o céu. Toda a imensidão desembocava numa confluência que é difícil traduzir em palavras. As palavras às vezes matam a experiência. Subitamente descobri o que me fazia diferente: a natureza é nua! Isso mesmo, nada a cobre, a não ser sua própria pele: cascas, folhas, resíduos diversos, frutos e flores. Descobri um galho que se sobressaía em uma árvore maior. Galho à meia-altura, convidativo a aparar as roupas de uma mulher que se embebia de um suco embriagador. Tirei toda a roupa. Que não era muita. Pendurei-a no galho saliente.

Passei então a andar entre as árvores, a fazer meu passeio noturno como vim ao mundo, exatamente como todo aquele bosque, com plantas, árvores pequenas e grandes, vegetação diversa, e pequenos bichos.

A natureza expõe sua beleza através de seus próprios traços; os homens e as mulheres convencionaram criar traços que vão além daqueles com os quais nasceram.

Depois de algum tempo, já não precisava do galho em que pendurara minhas roupas na primeira e na segunda vez. Saía nua de casa.

Então veio a estação das chuvas. Quis sentir a tempestade sobre a própria pele, quis viver a experiência das árvores maiores, que estão expostas ao tempo, que não têm onde se esconderem. A água escorria sobre meus cabelos, sobre meu corpo inteiro, até atingir a terra que alimenta todos nós. Observava os galhos maiores, os troncos úmidos, as folhas que jaziam já sem vida à sua volta. Tudo era amor e silêncio, cheiro de terra e vida que se acumulava.

Quando voltou o sol, saí nua em plena luz do dia. Fui mais longe do que nunca. Quando voltava reparei sons vizinhos, vozes estranhas ao local, ruídos que destoavam à natureza. Fiquei à espreita, procurei um tronco maior onde me abrigar. Escalei-o sôfrega. Protegi-me nos galhos mais altos. Nunca tinha subido numa árvore, mas percebi que aquela me ajudava. Eles passaram. Eram dois e traziam uma espingarda. Demoraram a partir. Apenas ao anoitecer pude sair do meu esconderijo. Então, já não se ouvia som humano. Perto de casa, recostei-me numa árvore que sempre me acarinhava, contei-lhe o sucedido.

Dali em diante, fiquei muito tempo sem sair nua. Ao mesmo tempo, tentei descobrir quem eram aqueles homens. O que pude saber é que não moravam na cidade nem em nenhum arraial próximo.

Quando tudo se tranqüilizou novamente, me expus como antes, agora em pleno júbilo, talvez devido ao desejo reprimido.

Foi aí que me descobriste. Nua! E eu morrendo de vergonha. Te aproximaste e pediste que eu não temesse, que tu já me espiavas de longa data e também querias viver a mesma aventura. Fingi acreditar, embora exigisse que tapasses os olhos para que eu escapasse incólume. Prometeste naquele momento que não me farias mal algum e que só tocarias meu corpo com minha permissão. Fiz-me afável, talvez tenha semeado algum tipo de esperança em teu coração.

Mas ao amanhecer do dia seguinte, antes que voltasses – porque eu sabia que voltarias –, parti. Deixei para trás minhas árvores, minhas flores, meu céu nunca antes visto. Concluí que minha vida era um sonho; que aos homens e às mulheres não é possível a mesma vida das árvores.

quarta-feira, novembro 25, 2009

Socorro!

“Senhora, senhora, por favor, me ajude!”

Uma jovem de mais ou menos vinte anos chegara junto a mim e fizera o pedido. Estávamos dentro d’água na praia da Joana, era sábado, devia ser quase uma da tarde.

“O que houve?”, perguntei.

“Preciso de sua ajuda.”

“Ajuda? Que tipo de ajuda?”

“Estou nua.”

“Nua?”

“Isso; sem a parte de baixo do biquíni.”

“Como aconteceu?”

“Ah, é tão difícil contar, preciso primeiro de sua ajuda, depois conto.”

“Como vou ajudar você?”

“Arranja um biquíni pra mim...”

“Um biquíni vai ser difícil, mas vou tentar ajudar, nem há muitas pessoas na praia...”

“Mas não posso sair assim daqui.”

“Calma, você não vai sair.”

“Então você vai arranjar um biquíni pra mim?”

“Vou tentar. Mas, me diga uma coisa, não foi esse mar que levou o seu biquíni, foi?”

“Não.”

“Então o que foi?”

“Um rapaz.”

“Rapaz?”

“O namorado.”

“Então ele volta; deve estar escondido em algum lugar pra ver o que acontece; há homens que se excitam mais com a fantasia do que com a realidade. Quando eu tinha mais ou menos a sua idade, já passei por isso.”

“Moça, por favor, ele não vai voltar; vai me deixar nua, aqui.”

“Calma! Veja só, ninguém está a nos olhar; se você se controlar, tudo vai se resolver. Uma mulher bonita atrai boas soluções; e você é bonita.”

“Mas estou tão nervosa...”

“Não fique assim; finja que nada aconteceu que tudo vai se resolver.”

“A senhora então vai me ajudar?”

“Senhora, que senhora?”

“Desculpa; você me ajuda?”

“Não tenho um biquíni reserva, mas vou ver o que posso fazer.”

“Traga qualquer coisa, que eu visto.”

“Vai ser pior; vai chamar a atenção. Vou dar um jeito.”

“Não demore, por favor, estou morrendo de medo.”

“Tenha calma, você não vai morrer por causa disso. Já passei por situações semelhantes, até mesmo piores.”

“Veja, vem alguém ali.”

“Fique tranqüila, ninguém vai reparar,”

“Ai, que medo...”

“Viu? Passaram adiante. A água está escura, não dá pra notar. Tudo depende da sua atitude mental; se ela
for correta, nada acontecerá.”

“Posso acreditar?”

“Claro. Agora fique aí quietinha que eu vou sair e ver uma solução. Mas aposto que você vai resolver sozinha.”

“A senhora, quer dizer, você não vai me abandonar aqui, não é?”

“Não.”

“E também não vai falar pra ninguém que eu estou nua, não é mesmo?”

“Lógico que não. Somos discretas. Aguarde aí. Não se desespere; não vá fazer a loucura de sair correndo até seus pertences.”

Depois de alguns minutos, quando eu já estava na areia, pensando o que ia fazer para ajudá-la, vejo a mesma moça vindo em minha direção; e vestidinha.

Ela sorria.

“Quero agradecer, ainda estou morrendo de vergonha.”

“Como conseguiu o biquíni?”

“Fiz o que você falou, me tranqüilizei; consegui esquecer que estava nua, comecei a sentir uma sensação incrível, não sei nem dizer de que, mas uma paz, uma felicidade... queria mesmo que aquele momento não acabasse. Então, ele voltou!”

“Seu namorado?”

“Isso.”

“Que bom; não disse que ele voltava? Você ainda vai ficar nua muitas vezes.”

“Você acha?”, ela quis saber.

“Acho. Você parece muito comigo quando eu era mais jovem.”

Ela me beijou, agradeceu mais uma vez e se foi.

quinta-feira, novembro 12, 2009

Com ele!

Era uma quarta-feira à noite, resolvi enganá-lo. Vesti-me com uma roupa nova e provocante, maquiei-me, aprontei o cabelo, calcei sapatos de salto-alto e me escondi no terraço de nossa casa.

Há muito que ele anda me deixando sozinha; vai jogar futebol com os amigos, depois para pra beber em algum bar; chega em casa lá pelas tantas.

Quando vi que apontava lá na esquina, agachei-me e deixei que entrasse em casa. Esperei uns quinze minutos. Percebi que me procurava; devia estar surpreso por encontrar-se só. Isso jamais ocorrera. Reparei que acendia as luzes, entrava por todos os cômodos; em algum momento, ouvi gritar meu nome.

A partir daí coloquei meu plano em ação. Desci até a entrada da casa e, sem que ele desse por mim, abri e fechei o portão. O rangido costumeiro provocou-lhe um sobressalto. Apareceu na janela.

Subi as escadas.

“Onde você esteve?”

Eu nada disse.

Insistiu.

Nada falei. Fui para o meu quarto e comecei a tirar a roupa.

Ele invadiu o quarto com sofreguidão, agarrou-me e arrancou o que restava sobre meu corpo. Começou a se esfregar em mim, tirou para fora da calça o pênis e deslizou-o por entre as minhas pernas.

Fizemos amor ali mesmo, ele me pressionando contra a parede. Quando deu a entender que ia gozar, disse excitado:

“Fale, fale onde você foi, fale com quem você esteve!”

Taquei-lhe um beijo na boca. Escapei de seu pênis. Disse também sôfrega:

“Sou eu quem gozo primeiro.”

Deitamos.

Depois que terminamos, ficamos longo tempo encostados um ao outro, ambos satisfeitos. Ainda me deu um longo beijo na boca. Sei que a paixão ardia em seu peito. O homem só beija a mulher após o sexo quando a ama muito.

Lá pela madrugada, desci e fui à cozinha comer alguma coisa. Estava faminta. Ele dormia um sono pesado, tinha o rosto banhado em uma alegria que havia muito eu não reparava.

Os dias se passaram. Nossa vida continuou a mesma. Ele não mudou nada. Continuava indo para o trabalho, de lá para o futebol e depois para o bar. Acho que desejava viver a mesma situação. Mas não se surpreendeu, encontrou-me todas as vezes sem nada dizer, vendo TV, ou mesmo dormindo.

Um mês depois, decidi colocar em ação a segunda parte do meu plano. Num dos dias em que ele joga futebol, fiz a mesma coisa. Subi ao terraço e me escondi. Esperei que ele chegasse e se descobrisse só.

Tudo ocorreu como eu previra. Senti que me procurava, ávido, e provavelmente muito excitado.

Comecei a agir. Ainda no terraço tirei toda a roupa. Corri até o portão, abri-o e fechei. O barulho despertou-o. Subi as escadas e ele se deparou com sua mulher inteiramente nua.

“O que aconteceu?”, sua voz não escondia deslumbre e expectativa.

Nada falei. Agarrei-o. Despi-o.

“Me diga, por favor, você chega nua em casa e vai ficar calada?”

Procurei seu pênis, beijei sua boca. Encostei meu homem na parede e fiz que ele me penetrasse ali mesmo, na sala, ainda no primeiro andar.

Quando eu estava prestes a gozar, sussurrei em seu ouvido:

“Dessa vez ele me deixou nua”, e fiz uma cara de que era a mulher mais feliz do mundo.

“Ele, quem?”

“Não pare, por favor, não pare, quero gozar, não pare..."

“Diga o nome dele pelo menos, por favor, diga!”

“Não pare, não pare, agora não pare, vou gozar, ai... ai ... isso, isso, não pare..."

Então gozei. Beijei-lhe a boca. Após alguns segundos, agachei-me e abocanhei seu pênis.

Surpreendi-o ainda uma vez logo que me desembaracei de seu corpo. Abri abruptamente a porta e corri nua para os fundos da casa. Encostei-me no muro, junto à latada de plantas.

Ele correu atrás de mim, agarrou-me e cobriu meu corpo com o seu.

“Foi tão bom”, falei.

“Você gostou? Quer mais uma vez?”

Desfiz o equívoco:

“Foi tão bom, foi ótimo. Mas com ele!”

quinta-feira, novembro 05, 2009

Fui parar na cama dele

“Adriana, você não imagina o que me aconteceu nesses dias.”

“Já sei, conquistou um homem lindo.”

“Isso não é novidade, é algo que vai além.”

“Trata-se de um membro da família real!”

“Não brinca, Adriana, não é nada disso, deixe-me contar.”

“Deixe-me? Então, deixo-te!”

“Escute só. Sabe aquele cara com quem eu tenho saído?”

“Ah, aquele último, que foi colega de trabalho de uma amiga nossa?”

“Esse mesmo.”

“Estou curiosa.”

“Num dia desses, eu ainda estava fazendo aquele jogo de esconde-esconde; não queria logo chegar ao ponto culminante; você me entende, não?”

“Entendo, mas isso pode ser dito sem tanto rodeio, Lara.”

“Permita-me os rodeios; sou uma mulher barroca.”

“Que bom, o barroco é dado a novelos.”

“Ainda bem. Então, Adriana, ele falou: ‘não podemos ficar nos agarrando assim em lugares públicos, como cinemas e restaurantes, não temos mais idade para isso’.”

“Acho que ele tem toda a razão.”

“Aceitei o convite para jantarmos num restaurante aconchegante; depois, fui parar na cama dele.”

“Então você aproveitou...”

“Ao chegarmos na sua casa, ele não tentou coisa alguma, nem mesmo me beijou. Foi à geladeira, apanhou uma cerveja, ofereceu-me. Recusei. Bebeu sozinho enquanto escutávamos uma música. De repente, levantei-me e fui até o quarto. Nunca havia estado lá. Deitei na cama dele. Chamei-o de lá do quarto. ‘Antônio, venha até aqui, por favor’.”

“E ele foi?”

“O que você acha? Claro. Quando entrou, me viu deitada na cama de casal. Fui eu quem disse: ‘deite aqui junto a mim’. Ele deitou e me deu um longo beijo na boca. Foi aí que tudo aconteceu.”

“O quê?”

“Não imagina?”

“Imagino, Lara, mas quero ouvir você contar.”

“Deixei que ele me tirasse toda a roupa. Eu nua, e ele ainda vestido. Então me beijou de novo. Depois começou a acontecer o principal.”

“E foi bom?”

“Foi ótimo, mas fiz uma loucura.”

“Qual?”

“Lembra que contei a você que fiquei grávida aos dezessete anos porque não resisti às carícias de um namorado?”

“Lembro; mas essa gravidez já fez mais de vinte anos.”

“Isso, mais de vinte anos, mas continuo a mesma louca, a mesma irresponsável.”

“Como assim, Lara?”

“Não resisti a tanta excitação. Deixei que ele me penetrasse sem camisinha.”

“Verdade?”

“Verdade. Na hora, não sei se foi uma vontade inconsciente de correr perigo ou tesão demais.”

“E como você ficou?”

“Fiquei e ainda estou preocupadíssima. Veja só, a minha filha é uma pessoa responsável, diz que só transa de camisinha, tem o maior cuidado com seu corpo, tem um grande controle sobre seus instintos. Pelo menos é assim que ela diz. E a mãe é totalmente irresponsável.”

“E agora, Lara, o que vai fazer?”

“Não há o que fazer.”

“E quando ele convidar você novamente?”

“Não sei. Acho que levo eu a camisinha.”

“Ele aceita?”

“Acho que aceitar, aceita; o problema não é ele Adriana; o problema sou eu. Sou completamente louca. Principalmente se estou nua e na cama de um namorado. Não fale pra ninguém, mas acho que trepo melhor com o perigo!”

quinta-feira, outubro 29, 2009

Tara

Sou bonita, saibam, sou muito bonita. Já fui convidada várias vezes para ser modelo. Mas não é o meu desejo. Tenho outros ideais, acho que mais amplos. Há uma coisa, porém, que gostaria de contar. É um segredo. Nunca disse a ninguém. Hoje vou revelar. Alguns que já me conhecem vão surpreender-se: tenho uma tara. Isso mesmo, uma tara. Será que cada um não tem a sua? Todo ser humano tem um ponto fraco, e esse ponto pode ser sua tara. Vamos à minha.

Outro dia arranjei um namorado. Há quanto tempo não tinha um! Não por falta deles, mas porque estava ocupada com outros afazeres. Ele, o namorado, apaixonou-se imediatamente. Vive telefonando-me, quer encontrar-me todos os dias. Faço seu desejo. É bom, não é mesmo? Quantos não almejariam ter seus desejos realizados por uma mulher excepcionalmente bonita. Mas voltemos à minha tara. Um dia desses tentei fazer que ele a percebesse. Não sei se consegui. Nada falei. Saímos. Passeamos. Era um dia de primavera. Vesti uma calça justíssima e tênis. Para fazer o coração dele bater mais forte, coloquei um top bem pequeno, quase um sutiã. Nada por cima. Queria meu homem vidrado nos meus seios. Fomos ao Pontal. Tinha pouca gente lá, o dia não estava ensolarado; um sol tímido, quase branquinho, um ventinho que arrepiava.

“Tire umas fotos minhas”, passei-lhe a máquina.

Fiz a pose e começou a clicar. Sou mestra em fazer poses, cada uma mais linda do que a outra, imaginem. Aquele top, a calça colada ao corpo e o tênis branco me deixavam exuberante. Fez mais algumas fotos, a maioria com o mar atrás. Então resolvi ousar, quis surpreendê-lo, ou mesmo assustá-lo. Virei de costa, desatei o top e voltei-me a ele com os seios nus. Arregalou os olhos:

“Olhe, há outras pessoas!”.

“Não há problema, elas não vão ficar aborrecidas por causa disso.”

Pedi que fizesse outras fotos. Sentei-me nas pedras, levantei-me, fiquei de perfil. Para as últimas, arremessei o sutiã a ele:

“Guarde na bolsa, por favor.”

“Mas...", tentou retrucar; apenas tentou, não conseguiu.

“Vamos, não esmoreça, continue clicando!”.

Tirou mais uma dezena de fotos. Quando acabou, abracei-o.

“Não vai vestir-se?”

“Espere, não há pressa, está tão bom assim.”

Fiquei coladinha a ele, beijei-o na boca; depois, apoiei-me em seu ombro. Ainda andamos um pouco lado a lado, fomos até a extremidade do Pontal, onde se sentem na pele alguns respingos do mar. Num momento de mais arrepio, grudava-me de frente ao meu namorado. Foi um domingo tão bom, tão gostoso, enfim, ótimo; nada a reparar. Mais uma coisa: não voltei ao top. Apenas à tardinha, na hora de descer do carro, já à porta de casa, recuperei-o ao corpo.

Ah, minha tara...

quinta-feira, outubro 22, 2009

Das duas às cinco da madrugada são as horas mais seguras

“A nudez é coisa para os jovens!”

Como ele gosta de me ver nua! Gosta mais de me deixar nua. É bom fazer amor depois das fantasias que ele inventa.

Eu e meu namorado descobrimos algo inusitado: das duas às cinco da madrugada são as horas mais seguras. Eu posso sair nua no carro, ao seu lado; não há ninguém para nos molestar. Apenas as sombras e o braço dele a me envolver, o tecido de sua blusa a roçar meu corpo. Na primeira vez, ainda trêmula, temendo algum imprevisto, levei uma canga; na segunda, deixei-a na garagem; na terceira, saí nua. Tranquei a porta de casa e pendurei o cordão com as chaves, no pescoço. Senti um friozinho na barriga, mas depois me tornei a mulher mais corajosa do mundo. Ele morria de tesão ao me ver naquele estado. Com o correr das semanas e dos meses, já não vivíamos sem aqueles momentos. Uma relação convencional, sobre a cama, eu envolta em lençóis, só se antes tivéssemos praticado nossa fantasia. Às vezes trepávamos na rua mesmo. Dentro do carro ou fora; eu, encostada numa árvore.
Nunca disse nada a ninguém. Acho que não acreditariam. Caso algum amigo tocasse em assunto mais ousado, dava a sugestão: “pergunte a sua namorada se ela não gostaria de sair nua, de madrugada?” Tenho certeza de que quase todas as mulheres vão se apressar em dizer não. Depois, no entanto, sentirão a pulga atrás da orelha. A pergunta vai martelar durante alguns dias, vai transformar-se num desafio. Enfim, ela mesma vai tocar no assunto. Caso tenha sido verdadeira a proposta do namorado, acabará aceitando. Primeiro timidamente, a seguir tomará coragem e será difícil detê-la. O romance passará a ter nova face; a mulher sentirá a paixão maior e estará sempre pensando nele; ele, nela.

Se me perguntam se já pratiquei minha própria sugestão, respondo com outra pergunta: “o que você acha?”, e não digo mais.

Um dia desses fomos um pouco além. Quando voltávamos, pedi para dirigir. Nua. Como foi bom! Ao parar defronte da garagem, quis que fizesse amor comigo ali mesmo, que subisse sobre meu corpo no próprio banco do motorista. Tento ser discreta, não posso, porém, negar: como senti prazer... Quando acabamos, saí do carro e fui abrir o portão da garagem.

Caso vamos a alguma festa, jantar, ou caso tenhamos assistido a algum espetáculo e ainda estamos na rua durante a madrugada, tenho uma sacola para guardar as roupas que sei que vou tirar. Coloco-as na mala do automóvel. Não quero pano algum junto a mim. Meu bumbum se esparrama no assento do carona, relaxo o corpo e deixo que as mãos de meu homem me percorram o corpo. Não há nada melhor.

Ia esquecendo: ainda há as fotos. Cada uma mais linda do que a outra. Eu sempre nua, poses sutis, de arrepiar. Ah, como são boas essas máquinas digitais!

quinta-feira, outubro 15, 2009

Obra de arte

Meu namorado, com essa mania de querer me ver nua em todo e qualquer lugar, falou:

“Agora, Margarida, pode tirar, não há ninguém por perto.”

Estávamos numa galeria de arte, em Ipanema, numa quinta-feira, às cinco da tarde.

“Mas aqui?”, ainda tentei contrapor.

“Aqui, e rápido.”

“Você não acha arriscado?”

“Não. E vamos fazer uma foto. Vai ficar ótima. Vamos distribuí-la para todos os jornais.”

“Ok, se é assim que você deseja...”

Rápida, tirei a saia.

Não satisfeito, retirou um dos quadros da parede e me deu para que eu o segurasse.

“Pegue-o apenas por uma das extremidades. Apesar de ser de um pintor famoso, ninguém precisa identificá-lo.”

Fiz o que me pediu.

O interessante não foi apenas meu corpo seminu, mas o cenário. Uma parede apenas em tijolos, sem reboco algum – fazia parte da decoração –, uma janela ao fundo deixava entrar um pouco de luz.

Por instantes, pensei que um dos seguranças pudesse entrar e me surpreender: blusa curta, salto alto, sustentando de modo frágil a pintura que vale milhões de euros. Mas, para minha sorte, ninguém apareceu. Meu namorado clicou e a foto é essa aí, muito interessante, acho que mais do que a pintura do famoso artista.

Todos acham que apareço exuberante, sensual. Perguntam: “onde você se deixou fotografar? Ficou tão bonito. Jamais vi alguém, nem mesmo uma modelo dessas famosas, em tão atraente situação.”

Não era minha intenção falar que posei nua numa galeria de arte, escondida, e morrendo de medo que aparecesse alguém.

Meu namorado, no entanto, resolveu dar o alarme. Não aquele que acusa roubo de obras de artes. Mas outro; enviou a foto para o Le Monde. Apareci nas páginas europeias. Um especialista sobre o pintor, cujo quadro eu sustinha pelas pontas dos dedos, identificou a obra. Era de um acervo francês. Como pôde acontecer aquilo? O quadro nas mãos de uma mulher irreverente, na galeria para onde fora emprestado através de um intercâmbio cultural?

Escândalo internacional. O quadro correndo o risco de ser roubado, ou mesmo destruído, uma perda para o patrimônio cultural da humanidade. E, ainda, a afronta: a mulher estava nua.

Aliás, depois que se salvaram todos, inclusive o patrimônio universal, acharam a mulher muito elegante, apesar de não tão jovem; até houve quem ressaltasse a delicadeza com que segurava o pintor famoso.

Puseram-se a discutir o que valia mais: a obra ou a mulher?