Eu o conduzi por um caminho que ele não conhecia. Atravessamos a ponte, só que por baixo
dela, equilibramo-nos sobre as pedras. A partir de determinada distância, era
possível apreciar a torrente de água que escorria de cima da montanha. No ponto onde estávamos, a
água passava por sobre as nossas cabeças, apenas alguns respingos nos atingiam. Quero uma frase especial para este momento, disse a ele. O ar quente de sua expiração aquecia o topo da minha cabeça. Sorriu. Uma frase?, chegou
a repetir. Isso, continuei, uma frase que impressionasse, assim como os
escritores; você sabe que alguns chegam a roubar frases de outros autores para
colocar nas próprias histórias?, lógico que não roubam as mais famosas, ia dar
na pinta, mas as medianas, aquelas que dificilmente alguém vai perceber que outro é o autor. Não sabia que você conhecia assim a literatura, contrapôs. Mas que aqui
é bonito não resta dúvida, não é mesmo?, inclinei a cabeça um pouco para cima
com a boca lhe pedir um beijo. Ele me abraçou, me beijou e falou a melhor frase
é você com toda essa sua beleza. Ao terminar, me beijou outra vez. Você conhece
este lugar faz muito tempo?, quis ele saber. Sim, vinha muito aqui quando tinha
dezessete ou dezoito anos. Hum, vinha com o namorado, não? Apenas sorri. Ele
entendeu. Puxei-o por um dos braços e atravessamos toda a ponte, ficamos ao
lado esquerdo da cachoeira. Pena não ser possível tomar
banho, falou. Quem sabe, interferi, caso esteja bastante quente... Mas é
proibido, alertou. Sempre houve proibições, e sempre houve quem as transgredisse,
retruquei. Daí em diante permanecemos em silêncio durante algum tempo. Acendi
um cigarro, dei duas tragadas seguidas e soltei a fumaça com a cabeça voltada
para cima, reparei quando ela se perdeu na escuridão. Caminhamos de volta, sob
a ponte. Na outra extremidade voltamos a ter a sensação de que a água passava
por sobre as nossas cabeças, sem nos molhar. Olhamos para cima, tentávamos
apreender aquele momento em sua totalidade. Você vinha aqui, então, quando
tinha dezoito anos, ele voltou ao tema. Vinha, afirmei, e ficava pelada. Olhou os
meus olhos, uma faca de ponta, estava surpreso. Como?, quis saber. Não liga,
não, brincadeirinha, esquece. Não posso esquecer, sei que você não ia brincar
com uma coisa dessas, insistiu. Você gosta de mim, não?, lembra aquela verão em
em Copacabana?, perguntei para ver se ele esquecia o assunto, você pediu que eu
saísse de casa com o vestidinho que usava para ir à praia, mas sem nada por
baixo; era uma saidinha de praia para usar sobre o biquíni, mas fiz a sua
vontade, não?, acrescentei. Verdade, confirmou. Então, faço tudo que você pede,
dou o maior prazer, está bem assim, não?, eu queria colocar um ponto final. Ele
nada mais falou, mas parecia não estar convencido. Tomei de novo um de seus
braços e seguimos o caminho acima, que nos deixou na rua de entrada da
floresta. Ao longe, estava o restaurante. Quero tomar uma dose de vodca, falei. Dei-lhe um beijo numa das bochechas. Caminhamos na direção do
estacionamento. À direita ficava a entrada do restaurante. Quando já estávamos
sentados a uma das mesas e o garçom já fora buscar nossas bebidas, ele voltou
ao assunto. Você gosta de ficar pelada, não é mesmo?. Eu?, acho que toda
mulher. A minha mãe não gosta, tentou contra-argumentar. Como você pode ter
certeza disso?, outro dia descobri uma senhora de oitenta e cinco anos que me
contou que quando está sozinha fica nua, dentro de casa, sua mãe é muito mais
jovem, deve gostar também. Você ficaria nua de novo, lá debaixo da ponte, sob
as águas da cachoeira?, afoito, perguntou. Ah, agora essa, não sei, quem sabe
depois da dose de vodca?, sorri ao dar a solução, reparei que o garçom chegava
com as nossas bebidas.
quarta-feira, novembro 26, 2014
quinta-feira, novembro 20, 2014
Sonata para piano
Ela havia sentido uma ponta de prazer. E o pior é que ele notara. Na certa, não a perdoaria...
Ou melhor, queria contar essa história em terceira pessoa,
mas a mulher era eu e, de verdade, já me havia aberto demais; ele, grudado às
minhas costas; eu sem me poder mexer.
Ia num ônibus repleto, um fim de tarde. Todos sabem como é a
condução nos arredores das grandes cidades. Em BH, então, nem se fala. Voltava
do trabalho. Vestia jeans, uma blusa branca de mangas curtas, curtinhas mesmo,
fazia calor, na cintura o tecido era larguinho, disfarçava qualquer ameaça de
barriguinha. Estava em pé, as pessoas passavam rente às minhas costas. Observei
algumas. Uma menina com a mãe, provavelmente voltava da escola; um rapaz
carregando uma mochila; uma mulher jovem, de óculos, com aspecto de secretária; depois passou um homem negro, achei sua altura exagerada, vestia
calça azul e camiseta marrom, sem gola, vinha de cara fechada. Daí em diante me
perdi em pensamentos, preocupações diárias, uma lembrança ou outra que nos assalta quando reparamos algo na rua, um portão, o letreiro de uma loja, o cheiro
de pão que vem de uma padaria. Ao saltar do ônibus, reparei que meu celular não
estava na bolsa. Fiquei desconfiada do homem negro, grandalhão. Não sei por quê,
mas sempre achamos que os ladrões têm cara de ladrões. Às vezes isso é um ledo
engano. Mas cismei. Apesar de sempre dizer não ao preconceito, cismei que o
negro roubara-me o telefone.
Passaram-se duas semanas e ia eu na mesma linha de ônibus.
Quase as mesmas pessoas, o empurra-empurra de sempre. Assustei-me ao descobrir,
entre os passageiros, o mesmo grandalhão suspeito. Agarrei a bolsa e tentei
olhar um ponto neutro na paisagem. Não mais procurei o homem, não mais olhei
pessoa alguma. Depois de saltar, reparei que faltavam vinte reais, apenas uma
nota, eu a levava no bolso de trás da calça.
Nas semanas que se seguiram, viajei no mesmo itinerário, mas
ele não apareceu. Eu olhava os passageiros em detalhes, procurava observar
neles algo que revelasse suas personalidades. Não me queria preconceituosa de
só achar o ladrão no corpo e na fisionomia do negro. Avistei uma senhora gorda,
estava sentada num dos bancos além da metade do coletivo. Apesar de aparentar
idade – entrava pelos quarenta, ou mesmo pelos cinquenta – seu rosto emanava
felicidade, mantinha a aparência de adolescente, quase infantil, trazia sobre o
colo duas bolsas de papel. Tentei em vão
descobrir o motivo de toda aquela felicidade.
Duas semanas adiante, quando já não pensava no homem,
avistei-o de novo. Num primeiro momento senti o corpo todo arrepiado. Não sei
se de medo ou se por outro motivo. Lembrei que trazia uma nota de dez num dos
bolsos da calça, mas dessa vez no dianteiro. Ainda pensei em, num movimento
rápido, esconder o dinheiro na palma da mão. Assim fazemos na infância, quando sob as ordens de algum adulto vamos ao armazém da esquina comprar o ingrediente que falta para completar
o prato do almoço. Mas acabei deixando o dinheiro no bolso, intocado. Senti o
homem passar suave às minhas costas. Esforçava-se para não me espremer na barra
do banco transversal, talvez tivesse certo pudor ao me esbarrar. Não o senti a me tocar o bolso em momento algum. Quando saltei, no entanto, a nota de dez me
faltava.
“Era uma época em que eu não conseguia escrever e me sentia
atormentada por aquela espécie inaudível de barulho.” A frase, copiei-a de um
livro. Às vezes descubro uma frase que gostaria de ter escrito. Espero, então,
o momento certo de usá-la. Mas emprego-a de modo disfarçado. Troco alguma
palavra ou aplico-lhe um desvio, porém de modo que não lhe roube a graça
original. Ela, a frase, representou exatamente o que eu sentia nos dias
posteriores a que vira o tal homem, ou o tal ladrão, melhor dizer assim. Aquela
espécie inaudível de barulho era a face sorrateira do homem que eu cismava
encontrar no rosto de outros negros que me cruzavam o caminho. Os dias se
demoravam. Eram tardes intermináveis. Eu sentava na poltrona da sala com um
livro nas mãos. As listras de sol, que atravessavam a janela, avançavam com lentidão
sobre o assoalho. Quando me atingiam os pés, eu já não encontrava nesse sol o
calor necessário para aquecer meu espírito. O crepúsculo trazia o vento frio,
que eu queria de um mar impossível.
Já na primavera, resolvi sair. Era setembro. Embarquei num
ônibus em busca de uma biblioteca pública. Não demorei a chegar ao centro da
cidade. As pessoas mergulhadas nos livros, o som inconfundível das bibliotecas,
o mundo do silêncio. Na volta, mesmo de pé, agarrada a uma as vigas, vinha
lendo o livro que apanhara de empréstimo. Foi então que ele apareceu. Entrou
imenso, percorreu grande parte do corredor e parou bem atrás de mim. O ônibus,
como sempre, pleno de pessoas. O homem estacado às minhas costas, bem seguro,
bem posicionado. Lembrei que desta vez não trazia dinheiro no bolso. Melhor,
nem bolsos tinha, viera de vestido, justo, que me deixava as pernas de fora. A
primavera já incendiava boa parte das mulheres. O que ele me roubaria? Numa das
mãos eu segurava uma pequena carteira. Dentro, duas notas de vinte, uma de
cinco e duas moedas. Trazia também o cartão do banco e a identidade. Fechei o livro
e sustentei sob o braço esquerdo todo o peso daquela história. Pensei em
abrir a carteira e lhe entregar o dinheiro. Que me deixasse em paz, de
volta à leitura. Mas fiquei apenas no pensamento. Depois, comecei a sentir
certo calor. Não tenho vergonha de confessar. Enfim, descobri o que ele me
queria roubar. Logo, ali, dentro do ônibus, em meio à multidão de sessenta passageiros, que escândalo... Suas mãos tatearem-me as coxas. Eu as sentia. Não
tinha a mesma habilidade de quando praticava seus furtos. Cheguei a pensar em
gritar, alertar quem estava à minha volta, quem me poderia ajudar? Mas nada
fiz. Depois acabei achando melhor assim. Levava o seu objeto de desejo
e eu mudava de bairro, ou de cidade. E não o encontraria mais. Apesar de ser
atirada, nunca vivera tal experiência. Vinha com mescla de medo e mais de
alguma coisa que, dias depois, descobrir ser prazer. No momento pensei,
faço de conta que sonho. E nos sonhos tudo é permitido... Ele avançava. Que
não me levasse o vestido, que não me deixasse toda nua. Surpreendi-me quando o vi sobre passeio, acabado
de descer. Ainda a multidão a me espremer, ainda suas mãos desajeitadas a
tentar uma sonata por baixo do meu vestidinho.
quinta-feira, novembro 13, 2014
Pezinho
Eu sabia que Newton gostava de circular de carro pelas
madrugadas de M. à cata de mendigas que dormiam pelas calçadas. O homem
tinha tara por mendigas. Elas, apesar de escoladas no perigo das ruas, não
conseguiam escapar. Ele as segurava com força, amarrava-as caso necessário e as
colocava na mala do carro. De início pensavam que seriam mortas. Mas quando
percebiam que o mesmo homem desatava os nós que lhes prendiam braços e pernas, dentro de
uma suíte de motel, tranquilizavam-se. Ainda desconfiadas não se mexiam quando
o desconhecido, com toda delicadeza do mundo, as banhava em água quente. Já na
cama, tudo mudava de figura. Newton proporcionava enorme prazer a todas.
Aos poucos as mendigas da cidade passaram a arrepiar-se ao ver
o automóvel do amante aproximar-se. Já não resistiam. A única exigência que
ele fazia é que haviam de ir dentro da mala. Uma vez que ainda exalavam o odor
fedorento das ruas, não poderiam ser transportadas no banco do carona. Algumas,
em má matemática, contavam nos dedos os dias que haviam passado desde a última trepada com o magnífico amante. Newton as tratava como rainhas muito
desejadas. Ninguém, no entanto, falava sobre isso na cidade.
As mulheres sempre são ardilosas. Eu, mais ainda. O segredo
chegou, enfim, aos meus ouvidos. Primeiro achei que fosse invenção. No entanto,
logo descobri a verdade. Bastou-me um dia seguir Newton em uma de suas saídas. Embora
sempre apaixonada por ele, jamais consegui sua atenção. A partir do que pude
observar, resolvi tornar-me uma das mendigas, na cidade. Ao menos durante
algumas horas na semana.
Fazer-se de mendiga não é tarefa fácil. A rua é um lugar
perigoso. Há homens que não livram a cara de mulher alguma, nem da mendiga mais
maltrapilha. Tive de fugir deles várias vezes. Nem sempre consegui. Numa
ocasião, depois de intensa resistência, tive de me largar nas mãos de um
desconhecido. Temi contrair doença maligna. E o homem, no final, não me deixou
vestida. Tive de rebolar para conseguir chegar nua em casa. Como meu objetivo
era Newton, aceitei privações e perigos.
Passaram-se algumas semanas desde que me deitara ao relento num
colchonete, pela primeira vez. O local, mais tranquilo do que os outros, era uma esquina no setor azul, da cidade. Sabia que Newton tinha bom faro. Vi o
seu automóvel rondar várias vezes o bairro. Fiz de conta que me escondia. Afinal,
numa noite sem lua, caí nas mãos do homem. Fingindo, esbocei grande
resistência. Ele amarrou-me os punhos e me jogou na mala do carro, como
costumava fazer com as outras. Bati-me, fiz barulho. Tudo em vão. Como eu
desejava, descobri-me no motel, assim como as outras.
Newton é um político influente na região, foi eleito duas
vezes prefeito e exerce o segundo mandato de deputado estadual. Eu fora
secretária de educação num dos seus mandatos de prefeito. Disfarcei-me ao
máximo para não ser desmascarada. Ele jamais vira mendiga tão enegrecida, tão
fedida como eu.
Já cheirosa e envolta em seda, trepei com ele. O homem levou-me
ao delírio.
Dali em diante, preparei-me para que o encontro se repetisse
outras vezes. Mas Newton demorou a voltar. Vivi com mendiga durante várias
semanas, atravessei várias madrugadas sob o sereno do outono e tive de escapar
tantas outras vezes de homens inescrupulosos. Deparei novamente com o
desconhecido que me despira, sobre quem já falei.
Na segunda vez que Newton me tirou da rua, numa noite fria,
consegui conversar com ele. Dizia não gostar de assunto com as mendigas, nada
tinham a acrescentar, apenas as fodia. Representei o estereótipo da mulher
rude, mas com alguma inteligência.
“Você seria capaz de casar com uma mendiga?”, perguntei.
Ele disse que não. “As esposas são muito limpas”, falou e
caiu na gargalhada.
“Você não gostaria de levar uma mendiga com você, quando vai
à capital como deputado?”
“Só se for uma mulher muito especial, na capital há também
mendigas interessantes.”
Minha esperança foi por água abaixo. Trepei com ele uma
segunda e terceira vez. Quando me deixou na rua, no final da madrugada, prometi
a mim que não mais representaria aquele papel.
Passaram-se dois meses. Reparei cartazes nos muros da cidade
com o desenho do rosto que era o meu quando me transformava em mendiga.
Já que não mais apareci, Newton procurava por mim. Havia um
telefone abaixo do desenho, na verdade um retrato falado. Liguei ao número
indicado. Um homem atendeu. Sou a mendiga que o deputado procura.
Não esperei doze horas. Um motorista particular me veio
buscar no local que indiquei. Quando encontrei Newton, ele disse que se
apaixonara por mim. Tive de rir.
“Não vai dizer que você quer casar com uma mendiga?”
“Casar, não”, afirmou categórico, “mas quero levar você ao
Rio de Janeiro.”
No Rio, essas coisas acontecem em outro patamar. Trata-se de
uma cidade perigosa. E o perigo excitava Newton. Ele constantemente me pedia
para contar como fiz para me livrar dos homens que me assediavam. Eu inventava
histórias. Ora dizia que escapara de todos, ora que um deles me deixara nua a
madrugada inteira e me comera de modo exemplar. Contava como eu gozara. Depois
Newton pedia que eu fizesse com ele da mesma forma. Certa vez contei do homem
que, em M., me fizera voltar nua pra casa. Não calculava que tal assunto excitaria tanto a Newton. Pediu para fazer comigo do mesmo jeito.
“Mas o quê?, vamos trepar na rua?”, assustei-me.
Ele não quis saber. Trepamos na rua. Ele, um homem tão
importante. Depois, deixou-me, do mesmo modo como o outro fizera.
"Ei, volte aqui."
Mas ele não voltou. Ou melhor, atirou-me algum dinheiro, três notas de cem. Eu, nua, com o dinheiro numa das mãos. Onde enfiaria as notas?
A cada encontro o homem oferecia-me uma quantidade maior de notas. Sou uma pessoa normal, gosto de dinheiro, portanto, a situação passou e me agradar. Logo arranjei um jeito de manter as notas e escapar ilesa, embora nua. Mulheres bonitas atraem sorte.
"Ei, volte aqui."
Mas ele não voltou. Ou melhor, atirou-me algum dinheiro, três notas de cem. Eu, nua, com o dinheiro numa das mãos. Onde enfiaria as notas?
A cada encontro o homem oferecia-me uma quantidade maior de notas. Sou uma pessoa normal, gosto de dinheiro, portanto, a situação passou e me agradar. Logo arranjei um jeito de manter as notas e escapar ilesa, embora nua. Mulheres bonitas atraem sorte.
Um dia ele resolveu levar-me a Brasília.
“Newton, lá há mendigas à vontade, você não precisa me levar”,
alertei.
Mas o homem me deu vestidos novos, maquiagem, tudo que eu
precisava. E lá fui com ele. Sempre mudando o rosto. Sempre temendo ser
desmascarada. Transamos no final da Asa Sul, sobre um gramado comprido. Ele
deixou-me nua com dez notas de cem. Nunca pensei que a vida na capital federal fosse tão fácil.
Após certo tempo, Newton passou a se interessar pelas
mendigas de Brasília. E não duvidei ao perceber no rosto de uma delas algum
disfarce.
Na última vez em que me vesti de mendiga no Planalto Central, acercou-me um automóvel. Não era Newton. Mesmo assim não demorei a
reconhecer o motorista. Era Mariano, marido de Pezinho, a deputada federal mais votada
de M. Antes de casar com ela, ele fora um mendigo de verdade. Mesmo assim o
homem não deixou de me reconhecer.
"Quero comer você, Elinete, a secretária de educação do prefeito Newton."
"Quero comer você, Elinete, a secretária de educação do prefeito Newton."
"Me coma à vontade, respondi convidativa, mas seja cavalheiro, a
mendiga aqui quer uma trepada bem dada numa cama de hotel."
quinta-feira, novembro 06, 2014
Do mesmo modo como me havia encontrado
Será que todas as pessoas que conhecemos têm alguma função
na nossa vida? Quando já morriam minhas últimas esperanças – eram quase cinco
da manhã –, ele chegou. Difícil usar o pronome “ele”, porque eu não sabia e nem
cheguei a saber quem era. Mas como pude observar de pouco em pouco, tratava-se
de alguém muito educado. Parou o automóvel e perguntou se eu precisava de algo.
Não me feriu com os olhos, manteve a suavidade das pessoas de bom coração. Nem desconfiou que fosse uma armadilha. Não sirvo de isca, sei bem disso. Entre
os inúmeros papéis que sei representar o de isca é o mais temerário. Acreditou
na minha sinceridade. Entrei e sentei no banco ao seu lado. O homem deu a partida
e manteve-se em silêncio por um bom tempo. Quando já seguíamos a rodovia,
talvez dois ou três quilômetros à frente, foi que perguntou onde eu desejava
ficar. Você acha que devo ficar em algum lugar?, falei e cruzei as pernas, a
direita sobre a esquerda. Sempre se tem um destino, respondeu. Continuou
seguindo, ainda estava escuro, os faróis delineavam a madrugada, que já não
custava a se abrir à claridade da manhã. E então?, onde você mora?, ele quis
saber. Disse o endereço. Mas não me leve agora, guie mais um pouco, cinco ou
dez minutos, vou ligar a uma amiga. Ele assentiu ao meu pedido. Fiz a ligação.
Mayra não demorou a atender. Contei em poucas frases a minha situação. Ela sugeriu
que eu subisse para Lumiar. Mas não falei logo ao meu afável recém-conhecido. Ele
teria de forçar o carro, desviar-se do caminho. Respondi apenas com um ok e
desliguei. Tudo bem, disse a ele com a voz baixa, você já entendeu,
acrescentei. Sim, sorriu e continuou olhando à estrada. Sabe em Casimiro, a
entrada para o Sana?, perguntei. Sei, sorriu de novo. Você não vai precisar me
levar até lá, alertei, logo na entrada está bom, depois me viro. Tem certeza?,
interpôs. Bem, caso você queira subir um pouquinho... Mas não é para ir ao
Sana, e também não é para lá que vou. Sua amiga mora na estrada?, sua voz soou
sonora, ao longe já se via o céu avermelhar-se. Lumiar, foi a minha vez de
sorrir, talvez um sorriso branquinho. É um pouquinho antes, ele assegurou.
Isso, às vezes passo um fim de semana ou outro com ela, eu mostro onde me
deixar, ela vem me pegar. O homem guiou até o local. Demoramos trinta minutos.
Quando parou, já clareava. Tudo bem?, eu disse antes de abrir a porta. Ele
olhou-me como alguém de bom caráter, no entanto uma ponta de decepção escorria
de seus olhos, acho que gostou de mim. Como qualquer homem, não queria perder a
oportunidade. Tudo, respondeu acentuando o sorriso. Beijei-o, peguei uma de
suas mãos e a coloquei sobre minha coxa direita. Ele compreendeu o que eu quis
dizer. Minha amiga ainda demoraria vinte ou trinta minutos, então?, insisti.
Então, completou. Daí, aconteceu. Mas mantivemo-nos discretos. Só não
conseguimos o beijo. No final, quando saí do carro, perguntou tenho uma
camiseta na mala, que tal? Não precisa, minha amiga já vem, lancei-lhe um beijo de despedida, pode ir, não precisa se atrasar por minha causa. Ligou o carro,
deu um adeusinho e se foi. Deixou-me, do mesmo modo como me havia encontrado.
quinta-feira, outubro 30, 2014
Sobreviver no Rio de Janeiro
Eu tinha visto um filme sobre um escritor que vai à França
para lançar um romance. E lá ele conhece a mulher de sua vida. Quem desejar
mais detalhes poderá encontrar o filme com certa facilidade. Não lembro o nome.
O que quero dizer é o seguinte. Fato semelhante aconteceu comigo. Passeava pelo
Rio e, ao acaso, conheci um homem. Não sei se o de minha vida, mas alguém
interessante. Tudo aconteceu quando faltavam três horas para eu deixar a
cidade.
Sou de Curitiba, estava no Rio pela primeira vez, para
passar um fim de semana e mais a segunda-feira, quando embarcaria para Congonhas.
Restava-me ainda três dias em São Paulo antes de retornar à minha cidade.
Andava na Visconde de Pirajá em busca de um supermercado.
Como não sabia onde ficava, perguntei à primeira pessoa que passou.
Um mercado?, repetiu a palavra e se pôs a pensar. Ah, sim,
já lembrei, vou passar na porta, levo você até lá.
E fomos nós. Acabamos conversando um pouco. Falei sobre a
cidade, disse que os cariocas são muito receptivos.
Receptivos?, perguntou, acho que são muito dados,
acrescentou.
Sorri.
É preciso saber sobreviver nesta cidade, ele falou e também
sorriu.
Sobreviver?
Isso. Sobreviver no Rio de Janeiro. Dá um conto, não?
Um conto, concordei, muito interessante. Você é escritor?
Quem sabe?, sorriu.
Ao chegarmos à porta do mercado, ele estava fechado. Era dia
do comércio. Suspirei sem esperanças. O homem tentava encontrar uma solução.
O que você deseja comprar?
Respondi que compraria uma garrafa de vinho. Queria levá-la
a São Paulo.
Vamos mais à frente, acho que há uma pequena loja, uma
espécie de Delicatessen, como funciona também como cafeteria pode ser que esteja aberta, sugeriu.
Andamos mais duas ou três quadras, a loja estava aberta.
Entrei e perguntei se vendiam vinho. A vendedora disse sim.
Escolhi o vinho. A mulher o colocou numa bolsa de papelão, a garrafa envolta em
papel fino.
Antes de me despedir do homem, ainda lhe perguntei sobre a
frase que dissera. Sobreviver no Rio de Janeiro.
Não repare, acho que falei bobagem, é porque nos últimos
anos a cidade tem fama de violenta.
Ah, deixei escapar e sorri. Onde fiquei não vi nada disso.
Então, você encontrou o seu paraíso. Não quer tomar um
café?, convidou,
Como ainda estava cedo, aceitei. Sentamos. A garçonete veio
nos atender.
O homem se chamava Ronaldo. Começou a tecer uma história
sobre um escritor argentino que residiu durante muito tempo em Paris. Tenho um amigo que diz que se deixamos alguém falar não
podemos prever o que pode nos acontecer. Ronaldo era mesmo envolvente. Contou a
história com tamanha paixão, que sua simpatia enredou-me.
Eu viera ao Rio sozinha, estava hospedada na casa de uma
amiga. Ela teve de trabalhar todos os dias enquanto estive na cidade. No último
momento, aparece alguém simpático, mas a pouco para eu partir. Não posso deixar
isso se perder, pensei.
Acabamos o café. Era tão bonitinho o lugar.
Você mora aqui perto, indaguei.
Um pouquinho mais adiante.
Você acha que as pessoas são sozinhas?, perguntei. Não
repare é uma dúvida, fruto de uma longa história.
Ele a princípio não respondeu.
Quero dizer, os seres humanos são incomunicáveis,
acrescentei.
De certa forma, sim. Estamos conversando aqui, neste
momento, mas não conseguimos nos comunicar como gostaríamos, não é mesmo?, ele
disse.
E se tentamos, podemos estragar tudo, completei.
Isso, arrematou, nesse caso é melhor deixar faltar do que
estragar por excesso.
Acho que consegui me comunicar com você, eu disse e sorri.
Nem tanto, talvez apenas um lampejo, acrescentou,
Ronaldo deu de ombros. Achei nele uma ponta de malícia.
Ronaldo deu de ombros. Achei nele uma ponta de malícia.
Bem, tenho de ir.
Você tem certeza de que precisa ir a São Paulo?, insistiu.
Não é que eu precise ir a São Paulo. É um complemento da
minha viagem.
E onde você vai ficar?, quis ele saber.
Falei o local.
Quem sabe apareço, aí a gente continua a conversa.
Será?, demonstrei satisfação, mas ficou o sinal de dúvida.
Nunca se sabe, afirmou meio solene. E você, não pensa na
possibilidade de desistir de partir?
Não respondi, apenas fiz um gesto de desalento.
Despedimo-nos.
Não esqueça a garrafa de vinho, alertou.
Segurei a pequena bolsa e acenei a Ronaldo mais uma vez. Na
calçada as pessoas iam de um lado para outro, e eram bonitas. Na rua os carros
e ônibus trafegavam com algum despeito.
quinta-feira, outubro 23, 2014
Sentadas no sofá
Apesar do meu corpo ter começado a dar ares de agitação,
fiquei quieta em casa. Era hora de ele sair. Gostava de encontrá-lo, dizer boa
tarde, sorrir. Mas achei melhor não exagerar. Olharia apenas pelo olho mágico
da porta de entrada do meu apartamento, tomaria cuidado para que meus pés não
dessem sombra ao lado de fora. Como não ouvia ruído algum, resolvi esperar mais
um pouco. Vi no portal direito uma marquinha, ligeiro descascado,
alguém poderia tê-la feito com a unha ou poderia ser ação do tempo.
Lembrei uma tarde quando ainda era menina, fiz uma marca semelhante na porta do
banheiro, queria deixar meu sinal naquela tarde chuvosa. Minha mãe saíra
e eu me sentia muito só. Apenas a empregada, que estava entretida com o serviço
da cozinha. A marca se foi, o apartamento ficou no tempo, mas a lembrança
permaneceu, talvez um modo de acentuar o momento de tristeza e solidão. Agora aquele
outro traço no portal de entrada e eu sem saber como aparecera. Será que eu
mesma fora a autora, numa atitude de impaciência enquanto aguardava alguém que
teimava não chegar? Não sabia responder. Vestia apenas uma camiseta de
malha, descia até um tantinho abaixo do bumbum, acho que deixava as beiradinhas de fora. Caso estivesse na rua, tal vestimenta só seria concebível para ir à praia. Escutei alguém se mover no corredor do andar.
Aproximei-me e olhei pelo buraquinho da porta. Um entregador de pizza. Alguém
abriu e recebeu a encomenda. Voltou alguns segundos depois e despachou o rapaz.
Ninguém recebe uma pizza, tanto mais daquele tamanho, para comer sozinho. Seria
eu a convidada? Voltei à sala e sentei na poltrona que fica a alguns passos da
janela. No prédio em frente um garoto apareceu de relance na janela, seu andar
era o sétimo, um acima do meu. Pensei em observar o que ele fazia,
mas logo desapareceu. O céu estava claro, faltava pouco para o anoitecer. De
repente escutei ruídos fora do apartamento. Corri e olhei de novo
pelo olho mágico. Duas moças, acho que ainda adolescentes, batiam à porta dele.
Usavam vestidinhos curtos, coladinhos ao corpo. Morri de inveja e fiquei
furiosa. Meu corpo ardeu, começou a dar mais sinais de inquietação. Não que eu
morresse de amor pelo homem, mas o fato de ter estado em seus braços duas vezes
e agora me sentir descartada tocava-me os brios. Corri até a janela e fechei
a cortina. O apartamento mergulhou num anoitecer antecipado. Tirei a camiseta e
deitei nua no chão, bem no meio da sala. Segurei os seios com ambas as mãos.
Tocaram a minha campainha. Quem seria?, pensei preocupada, não recebi nenhum
aviso da portaria. Levantei-me com cuidado, quis procurar a blusa, mas já não
sabia onde estava. A porta se tornara transparente, revelava com
mais intensidade a minha nudez. Senti-me despojada das roupas e da bagagem, num quarto
de hotel, abandonada pelo amante. Corri à porta e olhei o lado de fora. Era
ele. Vestia uma camisa de gola e calça jeans. Estava bem calçado.
Seus sapatos sempre me causaram admiração. Ele aguardava com certa ansiedade.
Movi o trinco e abri a porta, devagar. Oi, cheguei a dizer. Oi, revidou,
quero chamar você pra comer uma pizza. Uma pizza?, oh, estou gorda, suspirei. Um pedacinho apenas, insistiu. Ok, respondi. Saí do apartamento e o beijei.
Ele me abraçou, vamos, então. O homem sabia que junto a mim sempre se
surpreenderia. O que foi?, perguntei enquanto ele se mantinha enfeitiçado pelo
meu corpo, não vamos mais?, completei. Vamos, vamos, sim, depois explico às
minhas amigas que você é maluca mesmo. Beijou-me outra vez e colocou um dos
braços sobre o meu ombro. Sabe que já fiz o síndico do prédio onde morei se
masturbar por uma semana?, eu havia falado a ele na última vez em que nos
encontramos. Como?, tentava ele entender. O homem sempre me olhava de rabo de
olho quando eu passava, por isso num certo dia fui ao corredor nua, só pra ele
me ter no monitor de seu computador. E neste edifício aqui?, perguntou com
sinais de preocupação. Aqui, respondi, ainda não instalaram câmeras. As meninas
nos esperavam, as duas sentadas no sofá que há na sala.
quarta-feira, outubro 15, 2014
Gosto mesmo é de poesia
Você está me convidando para sair logo assim de primeira...
Foi você quem olhou pra mim e sorriu, correspondeu ao meu
aceno.
Sim, mas acho que cometi um erro, peço desculpas, me dê
licença.
Eu falava com um homem, no calçadão, em Ipanema. Saíra de
casa para deixar um pouco os livros, respirar o ar do entardecer, beber água de
coco num quiosque da orla. Um homem, no entanto, passou por mim. Sei que as
mulheres devem andar com os olhos baixos, não é bom encarar os homens. Mas
naquele momento acabei por espiá-lo de soslaio, não me controlei e sorri. Ele veio
atrás. Eu devia ter desconversado rapidamente, cruzado a avenida e partido. Continuei, porém, minha caminhada com ele ao meu lado. Andamos como
dois velhos amigos. Depois de alguns minutos, já entrara eu na conversa dele.
Todos sabem que há homens terríveis, basta escutá-los por pouco que seja e já
nos conquistam.
Você gosta de ler, não?, perguntou antes que eu atravessasse a rua.
Como descobriu?, respondi desarmada.
Intuição.
Aceitei a explicação de forma simpática. Ele, então, listou
uma quantidade enorme de autores, principalmente de romancistas.
Como sabe que leio romances?
Intuição, continuou. Mas você lê romances inteligentes,
tenho certeza.
Adivinhou de novo. E como faço para descobrir esses livros?,
queria testá-lo.
Você frequenta as boas livrarias.
Isso mesmo. Você é bom em adivinhações, falei.
Pronto, o caminho estava aberto. Continuamos andando, seguíamos na direção do Jardim de Alá.
Pronto, o caminho estava aberto. Continuamos andando, seguíamos na direção do Jardim de Alá.
Por aqui há uma livraria; como já entardeceu, que tal?,
propôs.
Ah, sim, na Visconde de Pirajá, conheço.
Acabamos os dois juntinhos dentro da livraria. Ele me
apontava os títulos. Parecia conhecer todos os livros.
Como você sabe sobre tantos autores?
Segredo, respondeu.
Você é crítico literário?
Segredo.
Se for não tem graça, falei, todo crítico é suspeito.
Sou médico.
Médico, que legal!, cheguei a exclamar. Duas pessoas olharam
na nossa direção.
Caminhamos para o centro da loja.
Mas gosto mesmo é de poesia, ele falou.
Você é um médico que gosta de poesia. Que legal, fiquei eufórica.
O que há de mal nisso? Os médicos além de serem grandes
leitores, também muitas vezes são escritores.
Já pensou que maravilha, frequentar um médico que antes da
consulta converse sobre literatura?
Então, essa é a chave, demonstração de bom gosto e de
cultura.
Ah, exclamei e sorri para ele, estou precisando tanto de uma
consulta assim.
Ele riu, continuou olhando os livros. Comprou dois e me
presenteou.
Foi assim que, dois dias após conhecer o homem, fui parar no seu
apartamento.
E lá pelas dez da noite, morta de vergonha, pedi: vamos hoje
ficar apenas na conversa, ok?
quinta-feira, outubro 09, 2014
Nudista anônima
Esse nosso mundo de hoje é movido pela imagem, e ninguém
consegue se libertar disso, muito pelo contrário, as pessoas cada vez mais se
tornam prisioneiras de fotografias e vídeos, desejam não só aparecer neles
mas também mostrá-los a amigos e conhecidos. Outro dia, meu namorado comprou
uma câmera nova, com ela é possível fazer todas as fotos ou vídeos que
a gente possa imaginar.
Amor, vou fotografar você, ele pediu.
Mas já tenho tantas fotos...
Não faz mal, quanto mais, melhor.
E começou. Clique daqui, clique dali, e veste isso, e veste
aquilo, de vestido, de short, de biquíni, até que... nua. Num primeiro momento
nada de nu frontal mas, pouco a pouco, chegamos lá.
Olha que essas fotos são salvas automaticamente numa nuvem,
a câmera está conectada, avisei.
Nada disso, está offline.
Jura?
Sentei diante do piano e toquei um pouquinho nua, para
ele me fotografar.
Acho que, ao todo, o namorado fez mais de trinta fotos. Também apareço no
sofá, na janela, na cozinha como se estivesse fazendo comida, entrando no
banheiro. E em todas elas nua.
Depois que ele foi embora, comecei a me preocupar. Já tive
tantos namorados e sei que os namoros não duram para sempre. Com alguns a briga
foi tão feia, que não fomos capazes nem mais de conversar. Como será com esse?
E se não caso com ele? Ai, ai, ai. E nem adianta amanhã pedir para ele eliminar
as fotos que estão na câmera. Como vou ter certeza se já não as descarregou em outro aparelho?
Não sei não, acho que me meti numa enrascada. Gosto muito
dele e ele de mim, mas todos sabem como são os homens.
Fiquei muito nervosa. Queria desfazer a situação. Mas como?
Lembrei-me de um namorado que me pedia para ir nua do lado de fora do seu apartamento e tocar a campainha para ele abrir. No começo, pensei que poderia me deixar nua lá fora pelo resto da noite. Mas com o tempo
fui acostumando a não ter medo, porque ele sempre abria e tudo acabava bem. Tive também outro namorado que adorava transar comigo na praia. Bastava entrarmos na água para ele desatar o meu biquíni. Permiti também que me fotografasse nua uma vez. Até hoje me dou com ele, é uma ótima pessoa, creio que um telefonema seria suficiente para trazê-lo de volta. Um relacionamento que acabou mas que deixou saudades. Vou torcer para que com o
atual namorado as coisas fiquem sempre bem.
Contei a uma amiga desse meu stress sobre o destino das fotos. Ela rebateu:
Você acostuma, não vai acontecer nada, não.
E se pôs a contar que também já se deixou fotografar sem roupa alguma. Nem se deu conta em que mãos foram parar as fotos.
Quem sabe, me acostumo, me acostumo tanto que amanhã me deixo fotografar nua de novo!, pensei comigo. Ai, não tomo jeito, será que existe alguma sociedade dos nudistas anônimos? Não sei, não. Mas mesmo que exista é capaz de eu aparecer lá peladinha!
Você acostuma, não vai acontecer nada, não.
E se pôs a contar que também já se deixou fotografar sem roupa alguma. Nem se deu conta em que mãos foram parar as fotos.
Quem sabe, me acostumo, me acostumo tanto que amanhã me deixo fotografar nua de novo!, pensei comigo. Ai, não tomo jeito, será que existe alguma sociedade dos nudistas anônimos? Não sei, não. Mas mesmo que exista é capaz de eu aparecer lá peladinha!
quinta-feira, outubro 02, 2014
De graça!
Seria talvez possível que a um ponto da vida o mundo se
tornasse óbvio? Vinha pensando nessa questão após sair com um paciente. Acho
paciente uma palavra ruim, porque sou dentista e não acho quem senta na cadeira do meu consultório paciente. Mas deixemos isso de lado. Ia com ele pela
rua. Fora o último naquela quinta-feira à tarde. Queríamos o café da livraria. Um ambiente agradável, acolhedor. Ele pediu que fôssemos antes ao caixa
eletrônico. Entramos numa agência do banco, na Treze de Maio. Esperei a certa
distância. Assim que saíram as notas da máquina ele as pegou e guardou na
carteira. Ao chegar junto a mim, disse guarda essas pra você, é um presente. Entregou-me
duas notas de cem. Não, o que é isso, cheguei a recusar. Mas ele insistiu compre
uma coisa bonita, Acabei segurando as notas. Fico aborrecida
com isso, sabia?, falei. É pra ajudar a pagar o condomínio, ele disse e começou a rir. Lembrei que uma ou duas semanas antes havia comentado que um
paciente me paquerara e dissera que podia me ajudar a pagar o condomínio, pois
tinha muito dinheiro e não via oportunidade para gastá-lo, mas o homem insinuou
certo namoro comigo. No entanto, este, que estava ao meu lado naquele momento,
completou não quero nada em troca. Ri e acabei guardando o dinheiro na bolsa.
Sei, é certo que você não queira nada em troca, ironizei, depois completei ah,
você é fogo, viu, isso não vai ficar assim não, vamos ver o que posso fazer pra
devolver esse dinheiro. Pensei no tratamento dentário que ele fazia comigo. O
mundo não se torna tão óbvio, refleti. As notas na bolsa. Aceitei enfim a
gratificação. Assim que nos despedimos, no metrô, na estação Largo do Machado,
beijei-o e senti um arrepio. Enquanto andava ao ponto do ônibus o arrepio intensificou-se, tocou-me ao fundo o corpo. O óbvio está no
meu comportamento, pensei, como mulher sempre gostei de me sentir um pouco
prostituta. Psiu, silêncio, disse a mim mesma, ninguém pode saber disso. Falo por mim, nada sei sobre outras mulheres. Mas ressalto, o gosto de me sentir
prostituta não me ocupa totalmente, apenas um centímetro. Na verdade, procuro justificativas. Portanto, a aceitação das notas de dinheiro endossava a obviedade do mundo e me levava a entregar-me mais afoita aos afagos daquele homem.
Na sexta seguinte encontrei com ele no mesmo café. Não marcara consulta alguma para aquele dia. Deixei o horário para o encontro. Depois do café permiti que me roubasse a
roupa num hotel próximo. Quatro da
tarde. Eu a rolar numa cama larga. E o homem dentro de mim. O mundo tornara-se óbvio. Mas teria problema o óbvio? Acho que o não óbvio será, uma madrugada dessas, ele me abandonar pelada num ponto de ônibus. Que fantasia excitante! Quem me contou foi uma paciente. Isso mesmo, uma mulher. Viveu a experiência na própria pele. E duradouro o arrepio. Ai, tenho de
disfarçar. Talvez devesse mudar o nome dela. Meu paciente deu-me outros duzentos reais, o óbvio. Eliete, minha paciente, fez de graça!
quinta-feira, setembro 25, 2014
A princesinha
Este conto tem como autora minha amiga de Glicério, Nuance Lewada. Ela volta ao blog com toda a força e promete muito mais. Para ler suas contribuições anteriores clique aqui.
Christina vem lutando para melhorar o sistema de ensino em sua cidade. Ela acredita que esta é a melhor ação para que o povo aproveite as oportunidades de emprego. Sua amiga Francisca, mais conhecida como Pezinho, há muito tempo saiu de lá para tentar ser deputada federal e conseguiu se eleger.
Lá em Brasília, Francisca saiu
do sério: conheceu pessoas de vários estados, mas a que mais se identificou foi
Mariano, um mendigo que no começo tentou ajudar, mas se apaixonou por ele,
porque o cidadão lhe apresentava as melhores propostas de posições para fazer
sexo. Um dia, Mariano propôs a Pezinho se deliciar sexualmente em todas as asas
de Brasília. Pezinho ficou encantada com as diversas chances de ir ao delírio.
Christina ficava sabendo da
felicidade de Pezinho. Trabalhando para a própria campanha, as conquistas na
saúde avançam. Capacita mais de 4 mil alunos para o mercado de trabalho. E
Christina fala, nas entrevistas: “O desenvolvimento continua em nossas mãos”. Em
seus pensamentos, vem à tona a vida que a amiga, Pezinho, leva em Brasília.
À noite, mesmo com o corpo
cansado, a candidata pensa: “Hoje vi nas ruas um mendigo ainda novo que pode dar um bom caldo”. Pegou o carro e rondou a cidade a procura da caça. Todos os
mendigos já dormiam em seus colchonetes e cobertores, nessa época do ano é
muito frio por lá, mas o Chico, um rapaz alto, cabelos lisos, olhos esverdeados, ainda vagava.
Christina parou perto dele e
ofereceu passeio. Mesmo sem entender nada do que estava acontecendo, Chico
entrou no carro. A candidata não foi reconhecida, pois estava de gorro.
Christina levou Chico pra um motel fora da cidade. Chegando lá pôde ver melhor
a pessoa de rua que ela havia pescado. Encheu a banheira com água morna, meio vidro
de sabonete líquido e uma porção máxima de álcool. Pediu pra ele tirar os
molambos que vestia e entrasse na banheira.
Chico concordou. Tomou
um banho de príncipe. Conversou muito com ele embrulhado nas toalhas do motel.
Ele havia vindo do Nordeste tentar a sorte na cidade e não tinha conseguido
nada até agora.
Encheu a banheira novamente com
sais de sua preferência e disse ter que tomar também um banho. Tirou as roupas
aos olhos de Chico, mostrando seus enormes e rechonchudos seios, além de uma
vagina espumando de vontades. Beijou o parceiro e o convidou a entrar na
banheira.
Os dois se divertindo e
conversando muito, Christina se declarou excitada com a presença e o
perfume dele. Chico também, que estava a seco por vários meses, se emaranhou
com Christina nas águas espumosas daquela banheira. Com um som romântico que
ela havia colocado antes da ideia do seu banho, Chico deslizou com o seu pênis
duro feito uma rocha no corpo de violão de Christina. Quando ele ia penetrar na vagina, Christina se lembrou de
uma camisinha que mantinha em sua bolsa, que por sinal estava na borda da
banheira. Acarinhou o pênis de Chico com sua boca, o que fez o companheiro ir
ao delírio, colocando a camisinha em seguida. Fez penetrar o pênis do Chico na
vala entre suas pernas e gozou até não poder mais.
Prometeu no outro dia levar
roupas limpas para ele e marcar outros encontros, até decidir como ajudar o
Chico.
Chico e Christina pareciam viver
um conto de fadas. Todos os dias eles se encontravam no mesmo motel. Christina passou a manter a alimentação de Chico, e assim viveram ainda por
muito tempo. A eleição chegou e Christina conseguiu ser eleita. Levou Chico pra
Brasília, e lá ele não foi mais de rua, e sim o marido de Christina, seu assessor sexual e importante na Câmara dos
Deputados. Como a vida tem seus mistérios!
quinta-feira, setembro 18, 2014
Que conquista, a minha
Antes eu procurava frases de efeitos para começar um conto.
Sempre achei importante e imprescindível ter estilo. E as tais frases, como me
davam prazer. Hoje já me sinto senhora de mim, isto é, do meu texto. Não mais
necessito copiar literatura alheia. Durante a noite penso no que vivi no dia
findo, coloco então certa ordem no caos. Quando acordo, vou direto ao
computador. Não tenho dificuldades para transformar a brancura da folha numa
obra de imaginação. Já depois de duas ou três frases, voo hábil, como a boa
cozinheira que sou acrescento o tempero certo, nem mais nem menos, sutil apenas,
nada que faça desandar o almoço, ou a janta, quem sabe.
Ah, meu patrão, como é encantador. Quando o conheci logo
pensei vou conquistá-lo, não posso deixar que escape. Passava junto dele, quase
a lhe roçar a pele, olhava-o de soslaio. Ele concentrado na leitura, na
escrita, no trabalho. Essa vida de escritor é de arrepiar, o homem não pensa em
outra coisa, lê e escreve o dia inteiro. Fui contratada como sua secretária.
Vocês sabem como isso funciona. Faço de tudo, até mesmo o serviço doméstico.
Visto uma bermuda de lycra, uma camisa de malha e mergulho no mar de tarefas que me espera. Sei que
ele me olha de rabo de olho quando entro no seu escritório. Já o surpreendi uma
ou duas vezes, ele bem sabe, mas o homem tem o poder do disfarce, consegue
manter-se frio, distante. No começo pensei se ele me agarra?, grito ou corro?
Um homem de seu quilate, porém, não vai partir para um expediente tão baixo,
adivinho. Lógico que minhas manifestações de possível desespero também se
encaixavam nas gavetas da representação, puro teatro. E demorou até acontecer
alguma coisa entre nós. Há aquele toque de mãos, quando fingimos esquecer que
estamos pele a pele. A mesma pele do ventre, das coxas, dos seios etc. Escorregamos
durante alguns segundos no corpo alheio. Eu mesma afasto as mãos. Tenho a
preocupação de não deixá-lo constrangido. Passam-se vários dias sem nos prestarmos
a toques mais íntimos, apenas o trabalho, sorrisos e algum meneio meu de
cabeça.
A iniciativa tem de ser minha, afirmaria a meus botões caso
me fosse tal a roupa. Se deixar ao encargo dele, jamais teremos uma relação
além da profissional. Passo a refletir sobre o que fazer, sobre como uma
mulher pode conquistar um homem sem se mostrar ridícula. O amor? Não sei, amor
como as pessoas o entendem parece enredo de telenovela, e meu patrão não é
chegado a elas. Coloco-me em prontidão, descubro a possível trilha a seguir,
observar-lhe as leituras. Qual o tipo de livro lê ele, qual o autor, qual o
tipo de personagem feminina o interessa? Tem às mãos na maior parte do tempo os
livros de Machado de Assis. Mas as mulheres de Machado são superiores aos
homens, vencem na inteligência, na astúcia; quando não podem vencê-los
abertamente se calam, reflito; com o tempo, percebe-se que ostentam o troféu da
vitória. Portanto, não me posso colocar como uma das personagens machadianas,
para tal empreitada precisaria de muita leitura, e isso levaria tempo. Descubro,
entretanto, outra coisa, um possível caminho para as minhas intenções. Não se
pode viver de tanta virtude, eis a verdade, quero dizer, não se pode viver de
tanta seriedade. Entre numerosas personagens complexas, muitas virtuosas e
outras nem tanto, encontro a vulgaridade. Não se trata de livro de Machado, mas
obra traduzida do francês (oh, sempre os franceses), se não me engano um livro
que logo depois de publicado foi levado às telas. Tomo o exemplar nas mãos e o
folheio. Não passa muito tempo para eu descobrir que se trata de um caso de
amor, ou seja, de relação sexual, melhor dizer assim. Um homem procura
apartamento e, em meio à visita a um deles, encontra ao acaso uma mulher, que
também busca onde morar. Não trocam palavras, apenas ligeiros gestos de
cumprimento e de tolerância um com outro. Ambos partem, mas voltam duas ou três
vezes, nos dias seguintes. Numa dessas visitas, acabam transando. Tudo acontece
com naturalidade. São corpos que se atraem por si sós, ambos necessitam do calor
recíproco. Na última visita, no entanto, há um pequeno pacote de manteiga. Acho
que trazido pelo homem. Não preciso dizer a que a manteiga se presta. A mulher goza
intensamente.
Deixo o livro de lado e continuo o meu serviço. Na manhã
seguinte vou ao mercado. Entre as compras trago a manteiga, a mais cara, a mais
bonita, a de nome atrativo, que dá asas à imaginação. Meu patrão olha o objeto
sobre a mesa e, creio eu, não faz a ligação imediata com o assunto do livro
encontrado por mim entre seus papéis. Come o lanche matinal e, apenas no final,
olha para mim e sorri. Nesse sorriso, encontro uma ponta de malícia. Digo
então... E curvo a cabeça. Começo a desfazer a mesa do café.
Duas horas depois, ao entrar no escritório para lhe levar um café puro, como sempre costumo fazer, ele pede a manteiga. O senhor quer
também torradas?, pergunto sem malícia. Não, por favor, apenas a manteiga.
sábado, setembro 13, 2014
Dentro da noite
A gente sempre é capaz de se surpreender.
Trabalhei em outra cidade durante um ano, mas todo final de
semana voltava para casa. Como a passagem era cara, procurei saber se havia
alguém que pudesse me dar uma carona. Assim, além de sair mais barata a viagem,
voltaríamos conversando. O tempo passaria mais rápido e chegaríamos mais depressa
em casa. Não é que quisesse apenas economizar dinheiro, pagaria o pedágio, ou
mesmo ajudaria na gasolina. Falando a verdade, uniria o útil ao agradável. E não
é que aconteceu? Soube de um homem que partia do Rio a tal cidade à mesma hora
que eu. E também voltava. Combinamos.
No primeiro dia, esperei por ele num posto de gasolina
próximo ao trajeto que fazia, queria facilitar as coisas e não ser taxada de
comodista. Escondi meu mau humor matinal por trás das lentes escuras dos
óculos. Sabia que, ao mesmo tempo, criaria um ar de mistério. Vestida para
matar?, quem sabe. Partimos. Ele apenas sorriu. Silencioso durante toda a
viagem, apenas um ligeiro sorriso e os cumprimentos convencionais. Como falo
muito, cuidei para não soltar a matraca. Policiei a voz e meus
modos. Não soube se o homem era solteiro ou casado. Também, o que me importava?
Queria eu alguém para casar?
Chegou o dia de voltar. A mesma atitude. Tanto por parte
dele quanto por mim. Já que se tratava de pessoa discreta, diminuí o repertório. No meio da viagem, que durava em torno de três horas, cheguei a
lembrar de um rapaz com quem saía quando morei em BH. Jamais foi meu namorado,
mas nos encontrávamos para transar.
Na semana seguinte, nova carona, mais duas viagens. Ida e
volta. Será que nada vou saber sobre ele? No trabalho, cheguei a perguntar. Mas
dele ninguém nunca soube coisa alguma, apenas que era um homem divertido.
Assim passamos a fazer parte um da vida do outro. Toda
semana ida e volta juntos. Acabei deixando escapar alguns segredos meus,
profissionais e pessoais. Quando falei sobre meus gostos, chegou a entortar a
cabeça e a mover a ponta de um dos lábios. Uma vez que dirigia, não lançava
olhar frontal a mim.
Comecei a achar que o homem era perigoso. Não
praticaria nenhum mal contra mim, mas o perigo é que qualquer mulher cairia apaixonada por ele. Era alguém pleno de mistério.
Às vezes eu perguntava sobre alguma possível atitude dele
num momento de trabalho. É preciso pensar, refletir, ele dizia. E sua voz
soava plena, como se através do pensamento ou da reflexão conseguisse realmente
o sucesso.
Certa vez, na volta, pedi que parasse, precisava fazer um
lanche. Assentiu. Parou o carro num restaurante famoso, desses em que param os
ônibus de luxo. Indicou-me o restaurante, onde os garçons esperavam pelos
clientes. Não, quero apenas um lanche. Mas o seu olhar foi tão generoso, que
aceitei o convite.
Vamos tomar uma cerveja?, minha a pergunta.
Concordou. Depois, eu mesma alertei, mas você está
dirigindo.
Tomou água mineral. Bebi a cerveja.
Acho que ri mais do que me era permitido. Não estava
acostumada a uma garrafa inteira, e das grandes.
No caminho, pedi pare, por favor, preciso fazer xixi, alertei.
Apontou que dali a quinze quilômetros havia um bar com banheiros limpos.
Não, por favor, pare em qualquer lugar, não aguento.
Será que eu já ia rubra?
Parou no acostamento de uma longa reta. Saí, fechei a porta
e agachei bem junto ao carro.
Quando voltei, não digo que estava morta de vergonha.
Vamos ficar aqui mais um pouco, não preciso chegar em casa
cedo, hoje, falei.
Mostrou adiante um local melhor, um esconderijo. Quem
passasse pela rodovia não seria capaz de nos perceber. Dirigiu por uma estrada
transversal à rodovia e parou num local que parecia perfeito para estacionar.
Você não quer voltar para casa hoje?, perguntou.
Dei os ombros. Demorei a responder.
Sabe o que é? Quando morei em BH saía com um cara parecido
com você. Eu não era namorada dele, mas a gente saía. Você entende, não?
Ele entendeu, e até muito bem. Já estava escuro. O céu
apresentava as primeiras estrelas. O silêncio era comprido, como a reta lá de
cima, onde se viam apenas os faróis dos automóveis a cortar a noite recente.
Sabe, já saltei nua numa estrada, e já também tomei banho nua numa cachoeira.
Jura?
Claro, juro.
Então, você vai la fora nua?, apontou a noite fechada.
Nua, nua?, fiz cara de inocente.
Sim.
Transamos duas vezes naquela noite. Uma antes de eu sair do carro e outra depois. Ainda pedi que ele dirigisse um pouco à frente e me deixasse esperando.
Por que você gosta assim?, quis ele saber.
Não respondi. Mas quando ele deu a partida, confesso que fiquei arrepiadíssima. Tudo meu dentro do carro e eu pelada do lado de fora...
Sabe, já saltei nua numa estrada, e já também tomei banho nua numa cachoeira.
Jura?
Claro, juro.
Então, você vai la fora nua?, apontou a noite fechada.
Nua, nua?, fiz cara de inocente.
Sim.
Transamos duas vezes naquela noite. Uma antes de eu sair do carro e outra depois. Ainda pedi que ele dirigisse um pouco à frente e me deixasse esperando.
Por que você gosta assim?, quis ele saber.
Não respondi. Mas quando ele deu a partida, confesso que fiquei arrepiadíssima. Tudo meu dentro do carro e eu pelada do lado de fora...
Continuamos indo e vindo juntos. Vez ou outra, sempre na
volta, parávamos no mesmo lugar, quase à mesma hora. E, para não perder o costume, eu sempre saía nua do carro. Ele gostava de admirar o prazer que eu sentia nisso.
Um ano depois me transferi para o Rio. Apenas comuniquei a
ele. Não demonstramos tristeza, nem deixamos transparecer que estávamos
perdendo alguma coisa.
Nada se perde, pensei. Ganhamos momentos de prazer, sobretudo
porque gozávamos juntos, gozávamos também com as primeiras estrelas, com a
estrada comprida, com os faróis dos automóveis que mergulhavam na noite como se
sempre estivessem prestes a entrar num longo túnel.
Mas que besteira, pensei. Nada se perde? No final das
contas, havia a minha casa. Telefonei então para ele.
quinta-feira, setembro 11, 2014
Você gosta de me telefonar, não é mesmo?
Você gosta de me telefonar, não é mesmo? Sabe que já me
casei, mas mesmo assim insiste, e ainda pergunta pelo meu marido. Ele está na
rádio, você já sabe sobre isso; desde que se mudou pra minha casa, aqui na
serra, se enfiou na rádio e quase não sai de lá, não recebe um centavo, mas não sai de lá. A rádio
é comunitária, ele diz que está ajudando. O que vou fazer?, deixo que ele vá. E
você aproveita para me telefonar. Outro dia, me lembro bem da tua pergunta, você
quis saber se tomo banho nua no rio que passa aqui atrás, quase dentro do
quintal. Não, não tomo não, a água está poluída, quando passa por aqui já
beirou várias vilas aqui de cima, portanto não pretendo contrair uma doença.
Mas vou dizer um segredo. Escute. Quando o telefone tocou, eu estava saindo do
banho, corri até a sala e peguei nas mãos o aparelho. Adivinha. Estou nua, isso
mesmo, nua, pelada, acho que você deve estar adorando me ouvir contar isso. Não
fiz de propósito. Como ia adivinhar que era você? Mas coincidiu. Como sei que
gosta de me ver nua, ou de imaginar que estou nua, digo a verdade, sentei
pelada na poltrona, cruzei as pernas e estou falando com você. Não, ele não vai
chegar agora, é quase certo; se chegar, o que tem?, a desculpa vai ser a mesma,
estava saindo do banho etc. e tal. Outra coisa, ele nada pode falar, atualmente
sou eu que pago as contas, o que ele ganha é muito pouco, e ainda se mete em
trabalhos voluntários. O quê? Ah, sim, lembro. Você não esquece isso, não é
mesmo? Acho que adorou. Lembro muito bem. Foram duas vezes. A primeira foi na
estrada. Era de madrugada e você me pediu que tirasse toda a roupa. Saí do
carro apenas de casaco, um casaco grosso mas curto. Se você não volta eu estava
perdida, com tudo de fora, o primeiro que passasse ia querer me comer. Bom que a brincadeira acabou bem. Você foi dar apenas uma voltinha e não
demorou. Ou, sei lá, na hora me pareceu uma eternidade, mas acho que não passou
de vinte minutos. Isso mesmo, quando entrei no carro, vestindo apenas o
agasalho, disse a você que estava molhadinha, e não era devido ao casaco, estava
molhada em baixo, bem entre as pernas. Está gostando de me ouvir falar
sacanagem? Acha que porque me casei eu não ia mais contar nada picante? O quê?
Ah, sim, pode ser, acho que você tem razão, já estou me sentindo mais aliviada
das dores nas costas, acho que quando tenho tesão, ou quando trepo, as dores
diminuem. Vai ver que eu devia andar sempre nua por aqui, assim ficava molhada
e aliviada das dores, acho que tesão e uma boa trepada resolvem tudo. Mas
escute, já que você tocou no assunto, outro dia li um daqueles livros que você
sugeriu, da mulher que viaja para outro país e arranja um namorado casado,
gostei da história, é boa, ela frequenta um bar com ele, acho que em Tel Aviv,
ou era em Jerusalém?, não lembro ao certo. Sei que a mulher veio da Rússia e
logo arranjou um namorado, um árabe. Ela estava certa. A irmã é que foi uma
idiota, casou-se com um mecânico que a traía e aceitou viver naquele fim de
mundo, na Rússia. As coisas não são muito diferentes por aqui. Em Glicério,
também está cheio de gente querendo arranjar problemas. Ainda há outra história
em relação a nós dois, lembra? Na praia, lá em Rio das Ostras. Você fez que eu
tirasse o biquíni dentro d’água e o entregasse nas suas você. E o que aconteceu depois?
Você levou o biquíni lá pra areia e o guardou dentro da minha bolsa. Me deixou
nua na praia. Sabe que também fiquei morrendo de tesão. E a menina, minha
ex-aluna, quando me viu veio me beijar, e nem notou que me faltava a parte de
baixo. Ainda bem que tudo acabou de modo satisfatório. Ou não? Na minha memória
sei que não voltei nua pra casa. Sabe, contei essa história pra uma amiga. Não
disse que aconteceu comigo, mas com uma pessoa próxima. Você sabe que existe
uma porção de gente que faz essas coisas por aqui, e mesmo em Macaé? Aqui na
serra, quando as mulheres namoram saindo de carro, elas acabam sempre nuas,
dizem que adoram namorar ao ar livre, sob a luz da lua. Há uma delas que
conhece um cara que contou que a namorada gosta de sair nua de casa e ir até o
portão. Você lembra que eu também já fiz isso? Desci as escadas pelada e
encontrei uma mulher lá embaixo, bem junto ao portão, ainda bem que ela não me
viu, cheguei a pensar que era Lídia. Você gostou..., adorou, e os apartamentos
do segundo andar estavam com inquilinos. Olha, acho que nem vou precisar tomar
remédio hoje, só o fato de estar aqui nua conversando com você já me aliviou
muito, me deu o maior ânimo, estou melhor. Não, não venha, não quero trair o
meu marido, e logo aqui, tão perto de casa, nada disso. Vamos fazer diferente.
Um dia desses eu vou aí e a gente arranja um lugar pra você me deixar nua. Hoje
acho que vou gozar sozinha, vou também pensar nas nossas histórias, acho que
até hoje você goza pensando em mim, não? Goza, sim; e acho que vou gozar
também, já mudei até a posição das pernas, sério, estou toda molhada...
quarta-feira, setembro 03, 2014
Caso do vestido
Todas temos um caso do vestido. Não se trata de amor
furtivo, ou mesmo de romance às escondidas com homem casado. Mas caso de vestido
mesmo, comprido ou curto, no corpo ou fora dele. Até Drummond teve o seu. No
caso de nosso poeta maior, fato narrado por ele em poema. Mas o meu caso de
vestido é mais simples, e ocorreu às custas de um admirador que veio de longe à
minha cidade só para me namorar. Foi num sábado à noite, inverno em
BH, apesar de final de junho nem tão frio. O namoradinho me pediu que saísse de
vestido. Apenas isso? Claro que não. Ele queria algo mais, ou algo de menos.
Todos compreenderam, não? Na verdade o seu desejo era apenas o vestido a me roçar a
pele. Vesti então um de tecido grosso, abotoado à frente. Os botões, dourados e convidativos ao despropósito, envolviam-me numa nebulosa de sensualidade. E lá fui eu e o rapaz a passear
pela noite, a parar em um ou dois bares e beber uma taça de vinho, ou mesmo uma
cerveja, não lembro ao certo. Depois de deixarmos o último bar, voltávamos ao
meu apartamento. Uma praça, no entanto, interpôs-se a nosso caminho. Duvida cruel: atravessá-la ou contorná-la? Acabamos escolhendo a
primeira opção. Caminhamos entre árvores, canteiros, parquinho infantil e bancos. De repente, o namoradinho
parou e abraçou-me. Confesso que o abraço provocou-me, ligeiro arrepio
percorreu-me o tronco. E, quando menos eu esperava, ele pôs-se a
desabotoar-me. Será que não vês que é inverno, posso contrair uma doença,
afirmei lícita. Mas era tal a artimanha do namorado e tal a minha sensação de
gozo que acabei por permitir. Não passou muito tempo para eu estar nua à
meia-noite e meia na tal praça, ao ar livre e sob o calor de tantas mãos que disputavam todas as partes do meu corpo. Não pude
sentir frio. Temos um apartamento aconchegante, alertei, não é possível que
queiras fazer sexo comigo em meio à noite aberta. Mas o jovem mostrava-se
impetuoso. Disse que não havia problema, pois seu apetite era suficiente para
dois jantares, um ali, o outro no meu
apartamento. Confesso que foi boa a refrega. Entreguei-me a um homem pela
primeira vez em meio a uma praça, em BH. Nem mesmo em minha cidade de origem,
quando ainda namorava às escondidas, despi-me entre árvores. Portanto, ia eu nua, em
plena capital de Minas. No final, quando já nos preparávamos para abandonar a
praça que nos servira tão bem ao amor, confessei, queria que encontrássemos um
buraco. Um buraco?, assustou-se. Isso mesmo, assegurei, um buraco. Mas
não te foi suficiente a praça? Foi, mas preferia um vão, uma abertura entre
dois galpões, ou mesmo um nicho entre sobrados, estaria mais exposta; tanto
maior o perigo, pleno o gozo. Pleno o gozo?, ele repetiu. Isso mesmo, eu disse.
Não queria te dizer, mas ainda estás nua, não reparaste?, ele apontou o meu
corpo. Eu, nua?, fingi surpreender-me, e agora, o que faremos?,
acrescentei. Não sei, foi a resposta
dele, a cidade é tua, conheces todos os vãos e desvãos, deves conhecer um que nos leve ao teu vestido! Só então reparei que ele falava sério. Meu
vestido?, onde? Ora, o teu vestido, repetiu mais uma vez, onde? Estava num galho de árvores, mas qual? são tantos... Recordei, para acalmar o namorado (ele parecia mais alarmado do que eu) uma amiga também mineirinha, mas de Muriaé. Ela é maluquinha, adora sair de madrugada, quando perde o sono, a dirigir pelada. Não tiveste medo de que te acontecesse algum imprevisto, perguntei-lhe, um pneu furado, ou outro qualquer enguiço, quem sabe o surgimento inesperado de um policial? Imprevistos podem acontecer, e não digo que tenha me livrado de todos, respondeu-me, um deles me foi até bom, e tão gostoso... Minha amiga mineirinha adora os homens, quer gozar com todos. Ela é que está certa. Amanhã te compro outra roupa, cortou-me a narrativa o namorado. Amanhã?,
retorqui, precisas comprar hoje, como subo dezoito andares nua? Ainda é noite e, apesar de curto,
empresto-te o casaco, ofereceu-me. Não, nada de casaco, toca-me mais uma vez, vai, faze aqui mesmo a tua segunda janta, vem que já faço a minha terceira, depois tomamos uma decisão; conto-te um segredo, tenho a sorte da mineirinha.
quarta-feira, agosto 27, 2014
Arlete perdeu a renda arrastão
A vida fora de casa é completamente outra. Foi isso que
Arlete pensou às duas da madrugada, numa estradinha lateral, que margeava o
quarteirão onde ficava a casa do homem com quem estava saindo. Dentro de casa
há o aconchego, chegou a refletir, há a privacidade. Pode-se, sim, sentir o
arrepio entre quatro paredes, a pele lisa, o sopro quente do verão vindo de uma
das janelas abertas, mas ao lado fora... Ela olhou o relógio. Sim, usava um
relógio. Apesar de tudo, tinha o pulso coberto. Trazia também a bolsa a
tiracolo, e ia sobre uma sandália baixa. Isso era outra coisa que a preocupava.
Por que não saíra de casa com uma das tantas sandálias de salto? Sempre gostava de mostrar-se elegante e, naquele momento, saltos altos
ajudariam muito. Dentro de casa houvera uma brincadeira. Do mesmo modo que se
portava na esquina de duas ruas desertas, também estacara numa posição sedutora, na confluência de duas paredes da sala. Mas estivera entre paredes,
apenas o seu homem a se encantar. Aliás, ela também encantara-se consigo, e
acontecera aquela sensação incontrolável. Lembrou-se das amigas e das festas.
Eles, os homens, adoram uma brincadeira depois que bebem, elas comentavam. Eles dizem uma mulher nua é adorável, e vocês encantam, apesar de tudo.
Apesar de quê?, ela agora se perguntava, pois não era mulher como as outras,
como as atrizes dos filmes, da TV? Uma mulher bonita jamais fica em
dificuldades, sempre haverá quem lhe estenda um manto bem cortado, um vestido
de desfile, e gostará de vê-la passear destemida. Arlete sabia que não é bom mostrar-se por inteira. Existe um jeito de disfarçar algo que poderia tornar-se
demais. Ereta, a bolsa, a sandália, tudo em harmonia. E já eram duas e quinze
da madrugada. Quem iria levá-la? Não se preocupe, dissera ele, tudo está
combinado em todos os detalhes. Mas não existe chance de algo dar errado?, ela
perguntara. Você quer que algo dê errado?, respondera ele com outra pergunta.
Não sei se a pessoa que vai parar e se aproximar será a do combinado, ela
temia. Não é sua função levantar essas questões, você ganhou para isso, está
lucrando, portanto cumpra o seu papel, a voz do homem soara uma ordem. Ela nada
mais dissera. O homem a conduzira de automóvel até a confluência das duas ruas e a fizera
saltar. Já passavam vinte minutos. Maria Rita. Ela, Arlete, lembrou-se de Maria
Rita. Maria Rita nada temia, gostava mesmo era de dinheiro. Caso o depósito
estivesse na conta, cumpria aquilo para que fora contratada. E boca fechada.
Existe um jeitinho, um disfarce, algo que é do seu próprio corpo, ela, Maria
Rita, afirmara, ninguém nota, e as mulheres adoram andar nuas, ainda acrescentara.
Nunca nada de mal lhe acontecera, nem no dia que fora descoberta com aquele
tecido vazado, que se usa em meias arrastão, tecido que lhe contornava o corpo inteiro, pernas,
tronco, braços e pescoço, tudo traçado pela renda preta transparente. Maria Rita nada
comentou, apenas contabilizou o ganho e dormiu tranquila, sabia que tudo se
resolveria. Mas Arlete não era Maria Rita, e alguma preocupação não lhe deixava
sossegada. Até que veio o táxi, parou e piscou os faróis. Por que não se aproximava?,
bastaria abrir a porta e entrar. Ter que caminhar mais vinte metros... Ou o
motorista queria vê-la desfilar. Isso, devia gostar de ver uma mulher
desfilando. E tanto mais nua! Será que tinha certeza de que ela era uma mulher
mesmo? Há muitas pessoas fofoqueiras por aí. De vestido, diria que apontava, o
corte, uma inovação. Mas só a pele e tudo por um triz, ainda tendo de fazer
movimentos... Ah, outra coisa, não podia transpirar. A transpiração colocaria
tudo a perder. O líquido que serve como adesivo é do próprio corpo, um segredo
que Maria Rita lhe revelara. Mas o líquido não pode entrar em conflito com outras
secreções. Ainda havia aquela história do namorado que esfregou um creme ao redor das duas coxas de Arlete. Esse creme vai lhe provocar, e muito. E provocou, provocou
uma... Não, isso não, mas neutralizou o adesivo por boas doze horas. Amanhã
tenho um desfile, Arlete pensou, nada de cremes, tenho que estar perfeita, as
impropriedades bem escondidas, ou disfarçadas, como sempre. Por que os homens gostam de nos colocar em perigo?, falou a si quando percebeu cintilâncias.
Estrelas também tremeluzem abaixo das nuvens. Correu e entrou no táxi. Após
sentar-se, sentiu umidade no acento. O creme? Arlete suspirou pela renda arrastão de Maria Rita.
sábado, agosto 23, 2014
E que incêndio!
É bom saber pensar e brigar. Não se pode ficar apenas no
pensamento e no desejo. Ganhar cinco mil reais me vai ajudar muito a resolver
alguns problemas. Se o que preciso comprar se pode chamar de problemas. Vi,
na praia, a garota. Devia ter entre os vinte e vinte e cinco anos, quem sabe
mais um pouquinho. Ela vinha com a mochila às costas e... de biquíni. Não
caminhava na areia, rente à beira-mar, mas no calçadão. Ou na rua, não sei bem.
Acho que era domingo e ela andava na rua. Um meio certo de arranjar namorado,
caminhar de biquíni na rua. Mas será que era isso o que ela desejava? Não sei, pode
ser que não. Tenho certeza de que ela ia de biquíni, calçava tênis, e a mochila
às costas. Isso me deu uma tremenda ideia. Sempre há aqueles que querem
sensações mais intensas, e eu conheci um desses. Um senhor agradável, simpático
e generoso. Gostou de mim à primeira vista. Foi num dia desses, de céu nublado,
quando se sai à tardinha em busca da última nesga de claridade e do sopro fresco
que vem do mar. Parei num quiosque, na orla de Copacabana. Queria água mineral.
Ele já estava lá, vestia calça comprida, uma camisa com a bandeirinha da França
no peito e sorria. À mesa, um coco; já havia terminado de saborear a água.
Sente aqui. O convite, dele. Aceitei, sentei e tomei toda a garrafinha de água
mineral. Conversamos. Uma conversa vazia, dessas que se estabelecem entre duas
pessoas recém-conhecidas. Depois que fui embora, esqueci-me do homem. Mas já no
dia seguinte o encontrei de novo. Dessa vez, de bermuda, mais informal. E o
encontrei também no domingo. Foi nesse dia que vi a moça de biquíni e mochila
às costas. Ele me convidou ao cinema. Vamos ver um filme logo mais, pode ser um besteirol,
apenas para espairecer. E lá fomos. Gentil o homem, pagou o cinema, o lanche. O
filme? Não importa. Como ele dissera, um besteirol. Ficou com o meu número. Não
custou a me convidar para jantar. À noite as coisas são mais sérias. Não sei de
quem a frase. Mas o homem seguiu-a à risca. Levou-me a uma cantina, ali na
Fernando Mendes. Boa a comida. Tomamos vinho. Escolhido por ele. Tudo sob
medida. Depois de tanto, o que me restava? Acabei no seu apartamento. Bonito, o homem, para quem já passa dos sessenta; um bom amante, apesar dos
sessenta. Nada comentamos sobre nossas diferenças, incluindo aí a idade. No
final, o homem perguntou se eu tinha conta em algum banco. Sabe como é, vivo
sozinho, não se sabe o dia de amanhã. Sorri. Voltei a casa, enlevada. Ganhara
eu na loteria? Seria verdade o que eu ouvira, ou ele mentia? Na semana
seguinte, deixei por escrito o número de uma conta de poupança que havia muito
esquecida. Até fora ao banco para saber se ainda existia. Sim. Existia. E o banco
estava pronto para acolher a parte do seu lucro. O homem depositou. Numa
primeira vez, um dinheirinho. Passaram-se alguns dias, dobrou (ou triplicou?) a quantia. Apareceram
dois mil. Não sou mercenária. Não arranjo namorado para ganhar dinheiro. Mas já
que surgiu, aproveitemos... E o homem é um conquistador nato. Fala como se sonhasse,
e logo o sonho torna-se realidade. Outro dia contou sobre umas fantasias,
coisas que a princípio pensei que viu no cinema. Depois, porém, achei que ele
mesmo pudesse ter inventado. Então, como sou sempre presenteada, não posso
deixar escapar o homem. E acho que agora até mesmo o amo. Não há quem não ame
uma bolsa plena de notas de cem acompanhada de um sorriso lisonjeiro. Não é
minha a frase, mas de uma diarista, e acho que não falou com essas palavras.
Mas a ideia é a mesma. E volto às fantasias do homem. Primeiro, amarrou-me nua
a uma cadeira. Amarrada e com a boca lacrada por um largo esparadrapo. No dia
que se seguiu, dois e quinhentos a mais na minha conta. E muitos beijos,
carícias, e nada de ejaculação precoce (ele sabe namorar). Hoje, talvez mais do
que amarrada, ou muito solta, não sei bem, eis-me nua, a bater à sua porta. A
condição para ganhar os cinco mil: preciso estar nua por inteiro, batendo à sua
porta. Não só vir e bater. Tenho de partir também nua. Então, o plano. A tal
moça de biquíni com a mochila às costas. Eu, nua, com a mochila às costas.
Agora, falta-me o desfecho. Escondê-la, a mochila. Nua, entro; nua, amo-o; nua,
vou-me. E a mochila... Ah, a caixa de incêndio. E que incêndio!
segunda-feira, agosto 18, 2014
Pergunta de adolescente
Você ainda com essas perguntas de adolescente, ele disse. Eu
estava de pé, em frente à sua porta. Olhei para o homem, com ligeiro sorriso.
Ele me observava, embora não se voltasse direto ao meu corpo. A pergunta era se
queria ir comigo à festa de uma amiga. Pergunta de adolescente? Não devia
convidá-lo, refleti, com tanta gente querendo a minha companhia. Ele tem vinte
anos a mais do que eu e a festa, segundo o entendimento dele, era para jovens. Sua
presença destoaria da maior parte das pessoas. Ainda tentei explicar que também
haveria gente mais velha, mais madura, quero dizer. Provavelmente são os pais
de algumas das meninas, completou. Entre, convidou-me e abriu um pouco mais a
porta. Vamos conversar um pouco, acrescentou. Na verdade, ele temia que algum
vizinho me descobrisse à porta. Eu vestia apenas uma camiseta, que me descia até
as coxas.
Esse vizinho já de alguns meses conversa comigo sobre livros.
É só me ver lendo alguma coisa que começa a relatar os autores que admira. Em
alguns pontos, o homem acha que sou muito madura; em outros, diz que me comporto
ainda como adolescente, sobretudo quando o convido para alguma saída noturna.
Certa vez chamei-o para ver Thor, o último filme escrito a partir de uma
história em quadrinhos. Mas esse tipo de filme é para adolescentes, afirmou.
Quis contra-argumentar, o que tem ser um filme para adolescentes?, se a gente
gosta... Mas o meu vizinho não gosta de se ver rodeado por moças e
rapazes, colegiais, como ele diz. Fui ao cinema sozinha. Arranjei um admirador
com quem acabei ficando mais de duas semanas. E rolou bons momentos. Mas meu
vizinho me veio oferecer Em busca do
tempo perdido.
Li o primeiro volume. Dias depois bati à sua porta com a
intenção de conversar sobre o livro. Ficamos duas horas discutindo. Ele falava
e olhava para as minhas pernas. No final, ofereceu o segundo volume.
Na semana seguinte fui eu que me ofereci a ele. Com o
pretexto de continuar conversando sobre Proust, voltei ao apartamento. Não
passou muito tempo e eu já estava nos braços do homem. Quando acabamos, não me
vesti. Sentei pelada no sofá e continuei a conversa, com a maior naturalidade.
Esse Swann não era muito esperto, ressaltei, fazer tanto por uma mulher e, apesar de ela ser uma prostituta, ele a tratava como uma dama de respeito. Meu vizinho contestou, não
se tratava de considerá-la prostituta, eram os costumes da época, e em meio à
nobreza ainda remanescente era assim que se vivia. Tudo bem, rebati ainda
sentadinha e de pernas cruzadas, mas acho que havia outras mulheres, ele não
precisava ter se submetido tanto. O homem ofereceu-me um refrigerante. Aceitei.
Depois trouxe um doce, sobremesa feita pela diarista durante à tarde. Comi de
bom grado. No final, levantei-me, beijei-o em sinal de despedida, abri a porta
e saí. Ei, espere, falou. Mas eu já entrava na porta em frente, a porta do meu
apartamento. Lancei-lhe mais um beijinho e fechei.
No dia seguinte, à mesma hora, dez da noite, bati de novo à
sua porta. Você?, pareceu surpreso, já acabou o livro?. Não, não vim falar sobre
livros, acho que esqueci alguma coisa aqui ontem, não? Ele foi lá dentro
buscar minha camiseta. Você ainda está agindo como uma adolescente, falou ao devolvê-la.
Vai dizer que não gostou? retruquei baixinho e sorri fingindo inocência. Percebi,
então, que ele tinha companhia. Não demorou a fechar a porta.
quinta-feira, agosto 14, 2014
Você gosta de fantasia
Você gosta de fantasia, não é mesmo? Mas venha devagar,
vamos nos concentrar, poucos os movimentos, ou mesmo nenhum, apenas você
pulsando dentro de mim. Isso, assim, vou por cima, sento, que tal nós dois paradinhos?,
eu mordisco; você me infla, ok? Ouça. Lembra a brincadeira. Você me quis pelada
lá fora, na estrada. Avisei. Se ele me encontra vai ser um banquete, ó, não escapo, você vai dançar, pois o homem é tarado por mim. Ele sempre me olhou de soslaio e, imagine, quando eu dava as costas ele me comia com os olhos. Era por causa da
minha bunda. Isso, você está pulsando direitinho, e eu, mordiscando, apenas
esses movimentos sutis, vamos tentar gozar assim; quanto mais demorarmos, tanto
melhor. Escuta. Então, ele me encontrou. A tal brincadeira; eu, pelada dentro
da noite. Tentei me esconder, mas ele me viu. Vinha dirigindo o primeiro carro
da madrugada. Acho que demorei a me abaixar. O homem reparou o vulto, freou e
desceu para conferir. Se fosse um ladrão?, perguntei depois; era um vulto de
mulher, afirmou. Mulher também pode ser perigosa, rebati. Ele disse estou
acostumado. Eu, na frente dele, na lateral do carro, a blusa tão curtinha, do
umbigo pra baixo tudo de fora, ideia tua, lembra?, levaste o restante contigo,
e demoraste, não foi?, o homem ali, me comendo com os olhos. O que houve?, ele
quis saber. Não é momento pra perguntas, eu contradisse. Como você vai fazer
pra voltar pra casa assim, nua?, ele. Será que penso em voltar?,
respondi. Você está pelada para mim?, o
tal motorista duvidava. Quem sabe, retruquei. Mas ele não sabe pulsar, assim
como você. Quanto a mim, nem tempo tive de mordiscar. O homem era bruto, quero
dizer, é bruto. Me segurou pelos ombros, foi descendo as mãos, e ainda me
deixou sem a pequena blusa. Lançou minha única roupa mato adentro, para além do
acostamento da rodovia. Como me apertou. Espera, não deve ser assim, falei. Não
tenho muito tempo, estou a trabalho, ele disse, e logo vão notar o veículo no
acostamento, vão querer saber o que aconteceu, tenho hora, na empresa tudo é
cronometrado. Mas não estou aqui pra isso, ressaltei. Como, não? Você aparece
nua na minha frente e agora vai fugir, insistiu. Quem sabe, posso estar aqui
apenas para provocar, lancei a questão. Eu queria ganhar tempo. Provocar?,
duvidou, uma mulher nua além de provocar quer algo mais, finalizou. Então colocou
o pênis fora da calça. Eu quis me livrar, mas ele me segurava com força. Você
está acostumado a estuprar as mulheres, insinuei. Estuprar?, a palavra fez que
enfraquecesse a força das mãos. Confesso que eu podia ter corrido, escapado, mas
estava tão nua. Isso não é estupro, tentou se convencer, você sempre se mostrou
pra mim, me deu confiança, me deu até esperança de um encontro, e não esqueça
que apareceu nua em frente ao local onde sempre passo às cinco da manhã, todas
essas suas ações não aconteceram por acaso, argumentou. Trata-se de uma
brincadeira, falei, brincadeira do namorado, ele me deixou aqui nua mas volta
para me pegar, eu disse cerimoniosa. Brincadeira?, não se brinca com essas
coisas, falou alarmado, não é possível que você tenha um namorado que te deixa
nua por aí. Mas fui eu que dei a ideia, falei, tentava salvar a situação, não
queria que ele pensasse mal de você. Se foi tua a ideia, continuou com a
argumentação, é porque pensava em mim, queria que eu te encontrasse. Será?,
sorri depois da interrogação. Lógico que sim, acrescentou, já tive várias namoradas, e muitas agiram como você; a mais recente vivia no carro atrás de mim, não saltava, esperava eu deixar o último passageiro pra ir comigo até a garagem; no caminho eu enfiava o carro num desses cantos da estrada e tirava a minissaia que ela usava pra me provocar, o pano não media um palmo, a pele já estava toda arrepiada, ela não demorava a se derramar em gozo. Ele, então, me apertou com força, puxou meu corpo
pra junto do seu, senti seu pênis entre minhas pernas. Espere, pedi, me leve pra
dentro do carro. Você quer no carro, repetiu, ok, vamos pro carro. Entramos,
me deitou num dos bancos, o carro todo escuro, assim como a noite. Aí
aconteceu. Foi tudo muito rápido, ele não demorou a gozar. Quanto a mim, saiba,
homens desse tipo não esperam pela mulher, não são como você, que agora pulsa
dentro de mim com mais intensidade enquanto te mordisco com a vagina, enquanto
conto toda a história. Vamos gozar os dois, juntos. Vamos explodir. E sei que
você não vai me levar a mal por ter estado nas mãos de outro, ou melhor, por ter dado pra outro. Você ainda quer que eu conte mais? Ele me deixou nua na
estrada, disse que tinha de ir, não podia se arriscar a perder o emprego, de
modo algum. Pediu que eu esperasse. Ligaria a um amigo, que me traria roupas.
Falei que podia ir, que não se preocupasse. Sei me virar sozinha, afirmei
segura. Sabe?, ainda ironizou. Então, partiu. Não sei se chamou alguém pelo
telefone. Aí você chegou, e me levou nua no carro, e já a manhã se anunciava. Gostou, não é mesmo?, está até a sentir maior o tesão! Agora goza, vai, despeja tudo dentro de mim, mas paradinho, viu, assim como eu, e aproveita, já estou soltinha...
quinta-feira, agosto 07, 2014
Você está tomando o momento de alegria
Você está tomando o momento de alegria, ele disse, e que
alegria!
Você acha mesmo?, perguntei, quem sabe, o meu forte é
representar.
Ajeitei a blusa, que me vinha até o umbigo. Verifiquei a
bolsa. Virei para a direita, depois para a esquerda, sorri mais uma vez. Estou
tomando o momento de alegria, repeti.
Eu chegara à casa dele às 7 da noite. Fazia calor, era
verão, tudo parecia transbordar, inclusive o nosso ardor. Ele me abraçou e me beijou. Olhou a minissaia que eu vestia. Sorriu.
Você está linda!, fez um longo gesto, como seu eu fosse uma
rainha.
Dei uns passinhos e me sentei na poltrona. Cruzei as pernas
e esperei por ele.
A casa estava arrumada, a janela aberta mostrava o mar ao
longe. Havia uma mesinha logo depois da poltrona e sobre ela um livro. Peguei-o
e comecei a folheá-lo. Era um romance de uma escritora americana.
Lendo romances, afirmei voltando os olhos a ele.
É para aprender a lidar com vários tipos de situações
amorosas.
Como a nossa, suspirei.
Isso, como a nossa.
Você está achando difícil?
Não, é um livro fácil.
Não falo do livro, mas da nossa relação.
Difícil, não, diferente.
Ele ficou parado junto ao braço da poltrona. Eu ainda
segurava o livro.
Lembrei que na praia ele às vezes ficava envergonhado, acho
que temia encontrar alguém que o visse ao meu lado.
Lembra a praia?, deixei escapar.
O que tem a praia?
Você sempre parece assustado. Já pensou, pode aparecer um
amigo seu, e você ao lado de um ou melhor, de uma... como devo dizer?
Nada disso, não concordo, até gostei, sabe; você é corajosa,
anda quase nua.
Nua?, você não sabe o que é andar nua.
Então, já que é você quem sabe, vou deixar você nua hoje...
Vai?, perguntei e me encolhi na poltrona, fiz de conta que
procurava uma proteção, mas sabia inexistente.
Vou!, fingia ser um lobo mal, abriu a boca como se fosse me comer
inteira.
Veja, mostrei a ele. Curta, a saia, não?
Já tinha reparado. Como você consegue?
Ah, isso é o que todos desejam saber. Acho que por isso é
que me namoram.
Todos descobrem que você vem apenas com essa sainha sobre a
pele?
Quase todos.
E o que eles fazem?
Querem me roubar a saia, afirmei e sorri.
Sério?, você acabou de me dar uma ótima ideia.
Se isso satisfaz você, tudo bem.
Ele me abraçou, e não demorou a me deixar nua.
No final, alta a madrugada, falou: vou fazer o que prometi.
O quê?, fiz-me de esquecida.
Você, nua...
Ri, num ligeiro arrepio. Vai sair um pouco mais caro,
retruquei.
Não ligo, pago.
E como vou esconder?
Ah, acho que você é muito boa nisso.
Desci no elevador de serviço. Lá embaixo, o táxi.
Moço, não repare, estendi-lhe a princípio uma nota de cem,
estou tomando o momento de alegria; o resto, resolvemos no caminho.
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