quarta-feira, novembro 26, 2014

Respingos

Eu o conduzi por um caminho que ele não conhecia.  Atravessamos a ponte, só que por baixo dela, equilibramo-nos sobre as pedras. A partir de determinada distância, era possível apreciar a torrente de água que escorria de cima da montanha. No ponto onde estávamos, a água passava por sobre as nossas cabeças, apenas alguns respingos nos atingiam. Quero uma frase especial para este momento, disse a ele. O ar quente de sua expiração aquecia o topo da minha cabeça. Sorriu. Uma frase?, chegou a repetir. Isso, continuei, uma frase que impressionasse, assim como os escritores; você sabe que alguns chegam a roubar frases de outros autores para colocar nas próprias histórias?, lógico que não roubam as mais famosas, ia dar na pinta, mas as medianas, aquelas que dificilmente alguém vai perceber que outro é o autor. Não sabia que você conhecia assim a literatura, contrapôs. Mas que aqui é bonito não resta dúvida, não é mesmo?, inclinei a cabeça um pouco para cima com a boca lhe pedir um beijo. Ele me abraçou, me beijou e falou a melhor frase é você com toda essa sua beleza. Ao terminar, me beijou outra vez. Você conhece este lugar faz muito tempo?, quis ele saber. Sim, vinha muito aqui quando tinha dezessete ou dezoito anos. Hum, vinha com o namorado, não? Apenas sorri. Ele entendeu. Puxei-o por um dos braços e atravessamos toda a ponte, ficamos ao lado esquerdo da cachoeira. Pena não ser possível tomar banho, falou. Quem sabe, interferi, caso esteja bastante quente... Mas é proibido, alertou. Sempre houve proibições, e sempre houve quem as transgredisse, retruquei. Daí em diante permanecemos em silêncio durante algum tempo. Acendi um cigarro, dei duas tragadas seguidas e soltei a fumaça com a cabeça voltada para cima, reparei quando ela se perdeu na escuridão. Caminhamos de volta, sob a ponte. Na outra extremidade voltamos a ter a sensação de que a água passava por sobre as nossas cabeças, sem nos molhar. Olhamos para cima, tentávamos apreender aquele momento em sua totalidade. Você vinha aqui, então, quando tinha dezoito anos, ele voltou ao tema. Vinha, afirmei, e ficava pelada. Olhou os meus olhos, uma faca de ponta, estava surpreso. Como?, quis saber. Não liga, não, brincadeirinha, esquece. Não posso esquecer, sei que você não ia brincar com uma coisa dessas, insistiu. Você gosta de mim, não?, lembra aquela verão em em Copacabana?, perguntei para ver se ele esquecia o assunto, você pediu que eu saísse de casa com o vestidinho que usava para ir à praia, mas sem nada por baixo; era uma saidinha de praia para usar sobre o biquíni, mas fiz a sua vontade, não?, acrescentei. Verdade, confirmou. Então, faço tudo que você pede, dou o maior prazer, está bem assim, não?, eu queria colocar um ponto final. Ele nada mais falou, mas parecia não estar convencido. Tomei de novo um de seus braços e seguimos o caminho acima, que nos deixou na rua de entrada da floresta. Ao longe, estava o restaurante. Quero tomar uma dose de vodca, falei. Dei-lhe um beijo numa das bochechas. Caminhamos na direção do estacionamento. À direita ficava a entrada do restaurante. Quando já estávamos sentados a uma das mesas e o garçom já fora buscar nossas bebidas, ele voltou ao assunto. Você gosta de ficar pelada, não é mesmo?. Eu?, acho que toda mulher. A minha mãe não gosta, tentou contra-argumentar. Como você pode ter certeza disso?, outro dia descobri uma senhora de oitenta e cinco anos que me contou que quando está sozinha fica nua, dentro de casa, sua mãe é muito mais jovem, deve gostar também. Você ficaria nua de novo, lá debaixo da ponte, sob as águas da cachoeira?, afoito, perguntou. Ah, agora essa, não sei, quem sabe depois da dose de vodca?, sorri ao dar a solução, reparei que o garçom chegava com as nossas bebidas.

quinta-feira, novembro 20, 2014

Sonata para piano

Ela havia sentido uma ponta de prazer. E o pior é que ele notara. Na certa, não a perdoaria...

Ou melhor, queria contar essa história em terceira pessoa, mas a mulher era eu e, de verdade, já me havia aberto demais; ele, grudado às minhas costas; eu sem me poder mexer.

Ia num ônibus repleto, um fim de tarde. Todos sabem como é a condução nos arredores das grandes cidades. Em BH, então, nem se fala. Voltava do trabalho. Vestia jeans, uma blusa branca de mangas curtas, curtinhas mesmo, fazia calor, na cintura o tecido era larguinho, disfarçava qualquer ameaça de barriguinha. Estava em pé, as pessoas passavam rente às minhas costas. Observei algumas. Uma menina com a mãe, provavelmente voltava da escola; um rapaz carregando uma mochila; uma mulher jovem, de óculos, com aspecto de secretária; depois passou um homem negro, achei sua altura exagerada, vestia calça azul e camiseta marrom, sem gola, vinha de cara fechada. Daí em diante me perdi em pensamentos, preocupações diárias, uma lembrança ou outra que nos assalta quando reparamos algo na rua, um portão, o letreiro de uma loja, o cheiro de pão que vem de uma padaria. Ao saltar do ônibus, reparei que meu celular não estava na bolsa. Fiquei desconfiada do homem negro, grandalhão. Não sei por quê, mas sempre achamos que os ladrões têm cara de ladrões. Às vezes isso é um ledo engano. Mas cismei. Apesar de sempre dizer não ao preconceito, cismei que o negro roubara-me o telefone.

Passaram-se duas semanas e ia eu na mesma linha de ônibus. Quase as mesmas pessoas, o empurra-empurra de sempre. Assustei-me ao descobrir, entre os passageiros, o mesmo grandalhão suspeito. Agarrei a bolsa e tentei olhar um ponto neutro na paisagem. Não mais procurei o homem, não mais olhei pessoa alguma. Depois de saltar, reparei que faltavam vinte reais, apenas uma nota, eu a levava no bolso de trás da calça.

Nas semanas que se seguiram, viajei no mesmo itinerário, mas ele não apareceu. Eu olhava os passageiros em detalhes, procurava observar neles algo que revelasse suas personalidades. Não me queria preconceituosa de só achar o ladrão no corpo e na fisionomia do negro. Avistei uma senhora gorda, estava sentada num dos bancos além da metade do coletivo. Apesar de aparentar idade – entrava pelos quarenta, ou mesmo pelos cinquenta – seu rosto emanava felicidade, mantinha a aparência de adolescente, quase infantil, trazia sobre o colo duas bolsas de papel. Tentei em vão descobrir o motivo de toda aquela felicidade.

Duas semanas adiante, quando já não pensava no homem, avistei-o de novo. Num primeiro momento senti o corpo todo arrepiado. Não sei se de medo ou se por outro motivo. Lembrei que trazia uma nota de dez num dos bolsos da calça, mas dessa vez no dianteiro. Ainda pensei em, num movimento rápido, esconder o dinheiro na palma da mão. Assim fazemos na infância, quando sob as ordens de algum adulto vamos ao armazém da esquina comprar o ingrediente que falta para completar o prato do almoço. Mas acabei deixando o dinheiro no bolso, intocado. Senti o homem passar suave às minhas costas. Esforçava-se para não me espremer na barra do banco transversal, talvez tivesse certo pudor ao me esbarrar. Não o senti a me tocar o bolso em momento algum. Quando saltei, no entanto, a nota de dez me faltava.

“Era uma época em que eu não conseguia escrever e me sentia atormentada por aquela espécie inaudível de barulho.” A frase, copiei-a de um livro. Às vezes descubro uma frase que gostaria de ter escrito. Espero, então, o momento certo de usá-la. Mas emprego-a de modo disfarçado. Troco alguma palavra ou aplico-lhe um desvio, porém de modo que não lhe roube a graça original. Ela, a frase, representou exatamente o que eu sentia nos dias posteriores a que vira o tal homem, ou o tal ladrão, melhor dizer assim. Aquela espécie inaudível de barulho era a face sorrateira do homem que eu cismava encontrar no rosto de outros negros que me cruzavam o caminho. Os dias se demoravam. Eram tardes intermináveis. Eu sentava na poltrona da sala com um livro nas mãos. As listras de sol, que atravessavam a janela, avançavam com lentidão sobre o assoalho. Quando me atingiam os pés, eu já não encontrava nesse sol o calor necessário para aquecer meu espírito. O crepúsculo trazia o vento frio, que eu queria de um mar impossível.

Já na primavera, resolvi sair. Era setembro. Embarquei num ônibus em busca de uma biblioteca pública. Não demorei a chegar ao centro da cidade. As pessoas mergulhadas nos livros, o som inconfundível das bibliotecas, o mundo do silêncio. Na volta, mesmo de pé, agarrada a uma as vigas, vinha lendo o livro que apanhara de empréstimo. Foi então que ele apareceu. Entrou imenso, percorreu grande parte do corredor e parou bem atrás de mim. O ônibus, como sempre, pleno de pessoas. O homem estacado às minhas costas, bem seguro, bem posicionado. Lembrei que desta vez não trazia dinheiro no bolso. Melhor, nem bolsos tinha, viera de vestido, justo, que me deixava as pernas de fora. A primavera já incendiava boa parte das mulheres. O que ele me roubaria? Numa das mãos eu segurava uma pequena carteira. Dentro, duas notas de vinte, uma de cinco e duas moedas. Trazia também o cartão do banco e a identidade. Fechei o livro e sustentei sob o braço esquerdo todo o peso daquela história. Pensei em abrir a carteira e lhe entregar o dinheiro. Que me deixasse em paz, de volta à leitura. Mas fiquei apenas no pensamento. Depois, comecei a sentir certo calor. Não tenho vergonha de confessar. Enfim, descobri o que ele me queria roubar. Logo, ali, dentro do ônibus, em meio à multidão de sessenta passageiros, que escândalo... Suas mãos tatearem-me as coxas. Eu as sentia. Não tinha a mesma habilidade de quando praticava seus furtos. Cheguei a pensar em gritar, alertar quem estava à minha volta, quem me poderia ajudar? Mas nada fiz. Depois acabei achando melhor assim. Levava o seu objeto de desejo e eu mudava de bairro, ou de cidade. E não o encontraria mais. Apesar de ser atirada, nunca vivera tal experiência. Vinha com mescla de medo e mais de alguma coisa que, dias depois, descobrir ser prazer. No momento pensei, faço de conta que sonho. E nos sonhos tudo é permitido... Ele avançava. Que não me levasse o vestido, que não me deixasse toda nua. Surpreendi-me quando o vi sobre passeio, acabado de descer. Ainda a multidão a me espremer, ainda suas mãos desajeitadas a tentar uma sonata por baixo do meu vestidinho.

quinta-feira, novembro 13, 2014

Pezinho

Eu sabia que Newton gostava de circular de carro pelas madrugadas de M. à cata de mendigas que dormiam pelas calçadas. O homem tinha tara por mendigas. Elas, apesar de escoladas no perigo das ruas, não conseguiam escapar. Ele as segurava com força, amarrava-as caso necessário e as colocava na mala do carro. De início pensavam que seriam mortas. Mas quando percebiam que o mesmo homem desatava os nós que lhes prendiam braços e pernas, dentro de uma suíte de motel, tranquilizavam-se. Ainda desconfiadas não se mexiam quando o desconhecido, com toda delicadeza do mundo, as banhava em água quente. Já na cama, tudo mudava de figura. Newton proporcionava enorme prazer a todas.

Aos poucos as mendigas da cidade passaram a arrepiar-se ao ver o automóvel do amante aproximar-se. Já não resistiam. A única exigência que ele fazia é que haviam de ir dentro da mala. Uma vez que ainda exalavam o odor fedorento das ruas, não poderiam ser transportadas no banco do carona. Algumas, em má matemática, contavam nos dedos os dias que haviam passado desde a última trepada com o magnífico amante. Newton as tratava como rainhas muito desejadas. Ninguém, no entanto, falava sobre isso na cidade.

As mulheres sempre são ardilosas. Eu, mais ainda. O segredo chegou, enfim, aos meus ouvidos. Primeiro achei que fosse invenção. No entanto, logo descobri a verdade. Bastou-me um dia seguir Newton em uma de suas saídas. Embora sempre apaixonada por ele, jamais consegui sua atenção. A partir do que pude observar, resolvi tornar-me uma das mendigas, na cidade. Ao menos durante algumas horas na semana.

Fazer-se de mendiga não é tarefa fácil. A rua é um lugar perigoso. Há homens que não livram a cara de mulher alguma, nem da mendiga mais maltrapilha. Tive de fugir deles várias vezes. Nem sempre consegui. Numa ocasião, depois de intensa resistência, tive de me largar nas mãos de um desconhecido. Temi contrair doença maligna. E o homem, no final, não me deixou vestida. Tive de rebolar para conseguir chegar nua em casa. Como meu objetivo era Newton, aceitei privações e perigos.

Passaram-se algumas semanas desde que me deitara ao relento num colchonete, pela primeira vez. O local, mais tranquilo do que os outros, era uma esquina no setor azul, da cidade. Sabia que Newton tinha bom faro. Vi o seu automóvel rondar várias vezes o bairro. Fiz de conta que me escondia. Afinal, numa noite sem lua, caí nas mãos do homem. Fingindo, esbocei grande resistência. Ele amarrou-me os punhos e me jogou na mala do carro, como costumava fazer com as outras. Bati-me, fiz barulho. Tudo em vão. Como eu desejava, descobri-me no motel, assim como as outras.

Newton é um político influente na região, foi eleito duas vezes prefeito e exerce o segundo mandato de deputado estadual. Eu fora secretária de educação num dos seus mandatos de prefeito. Disfarcei-me ao máximo para não ser desmascarada. Ele jamais vira mendiga tão enegrecida, tão fedida como eu.

Já cheirosa e envolta em seda, trepei com ele. O homem levou-me ao delírio.

Dali em diante, preparei-me para que o encontro se repetisse outras vezes. Mas Newton demorou a voltar. Vivi com mendiga durante várias semanas, atravessei várias madrugadas sob o sereno do outono e tive de escapar tantas outras vezes de homens inescrupulosos. Deparei novamente com o desconhecido que me despira, sobre quem já falei.

Na segunda vez que Newton me tirou da rua, numa noite fria, consegui conversar com ele. Dizia não gostar de assunto com as mendigas, nada tinham a acrescentar, apenas as fodia. Representei o estereótipo da mulher rude, mas com alguma inteligência.

“Você seria capaz de casar com uma mendiga?”, perguntei.

Ele disse que não. “As esposas são muito limpas”, falou e caiu na gargalhada.

“Você não gostaria de levar uma mendiga com você, quando vai à capital como deputado?”

“Só se for uma mulher muito especial, na capital há também mendigas interessantes.”

Minha esperança foi por água abaixo. Trepei com ele uma segunda e terceira vez. Quando me deixou na rua, no final da madrugada, prometi a mim que não mais representaria aquele papel.

Passaram-se dois meses. Reparei cartazes nos muros da cidade com o desenho do rosto que era o meu quando me transformava em mendiga.

Já que não mais apareci, Newton procurava por mim. Havia um telefone abaixo do desenho, na verdade um retrato falado. Liguei ao número indicado. Um homem atendeu. Sou a mendiga que o deputado procura.

Não esperei doze horas. Um motorista particular me veio buscar no local que indiquei. Quando encontrei Newton, ele disse que se apaixonara por mim. Tive de rir.

“Não vai dizer que você quer casar com uma mendiga?”

“Casar, não”, afirmou categórico, “mas quero levar você ao Rio de Janeiro.”

No Rio, essas coisas acontecem em outro patamar. Trata-se de uma cidade perigosa. E o perigo excitava Newton. Ele constantemente me pedia para contar como fiz para me livrar dos homens que me assediavam. Eu inventava histórias. Ora dizia que escapara de todos, ora que um deles me deixara nua a madrugada inteira e me comera de modo exemplar. Contava como eu gozara. Depois Newton pedia que eu fizesse com ele da mesma forma. Certa vez contei do homem que, em M., me fizera voltar nua pra casa. Não calculava que tal assunto excitaria tanto a Newton. Pediu para fazer comigo do mesmo jeito.

“Mas o quê?, vamos trepar na rua?”, assustei-me.

Ele não quis saber. Trepamos na rua. Ele, um homem tão importante. Depois, deixou-me, do mesmo modo como o outro fizera.

"Ei, volte aqui."

Mas ele não voltou. Ou melhor, atirou-me algum dinheiro, três notas de cem. Eu, nua, com o dinheiro numa das mãos. Onde enfiaria as notas?

A cada encontro o homem oferecia-me uma quantidade maior de notas. Sou uma pessoa normal, gosto de dinheiro, portanto, a situação passou e me agradar. Logo arranjei um jeito de manter as notas e escapar ilesa, embora nua. Mulheres bonitas atraem sorte.

Um dia ele resolveu levar-me a Brasília.

“Newton, lá há mendigas à vontade, você não precisa me levar”, alertei.

Mas o homem me deu vestidos novos, maquiagem, tudo que eu precisava. E lá fui com ele. Sempre mudando o rosto. Sempre temendo ser desmascarada. Transamos no final da Asa Sul, sobre um gramado comprido. Ele deixou-me nua com dez notas de cem. Nunca pensei que a vida na capital federal fosse tão fácil.

Após certo tempo, Newton passou a se interessar pelas mendigas de Brasília. E não duvidei ao perceber no rosto de uma delas algum disfarce.

Na última vez em que me vesti de mendiga no Planalto Central, acercou-me um automóvel. Não era Newton. Mesmo assim não demorei a reconhecer o motorista. Era Mariano, marido de Pezinho, a deputada federal mais votada de M. Antes de casar com ela, ele fora um mendigo de verdade. Mesmo assim o homem não deixou de me reconhecer.

"Quero comer você, Elinete, a secretária de educação do prefeito Newton."

"Me coma à vontade, respondi convidativa, mas seja cavalheiro, a mendiga aqui quer uma trepada bem dada numa cama de hotel."

quinta-feira, novembro 06, 2014

Do mesmo modo como me havia encontrado

Será que todas as pessoas que conhecemos têm alguma função na nossa vida? Quando já morriam minhas últimas esperanças – eram quase cinco da manhã –, ele chegou. Difícil usar o pronome “ele”, porque eu não sabia e nem cheguei a saber quem era. Mas como pude observar de pouco em pouco, tratava-se de alguém muito educado. Parou o automóvel e perguntou se eu precisava de algo. Não me feriu com os olhos, manteve a suavidade das pessoas de bom coração. Nem desconfiou que fosse uma armadilha. Não sirvo de isca, sei bem disso. Entre os inúmeros papéis que sei representar o de isca é o mais temerário. Acreditou na minha sinceridade. Entrei e sentei no banco ao seu lado. O homem deu a partida e manteve-se em silêncio por um bom tempo. Quando já seguíamos a rodovia, talvez dois ou três quilômetros à frente, foi que perguntou onde eu desejava ficar. Você acha que devo ficar em algum lugar?, falei e cruzei as pernas, a direita sobre a esquerda. Sempre se tem um destino, respondeu. Continuou seguindo, ainda estava escuro, os faróis delineavam a madrugada, que já não custava a se abrir à claridade da manhã. E então?, onde você mora?, ele quis saber. Disse o endereço. Mas não me leve agora, guie mais um pouco, cinco ou dez minutos, vou ligar a uma amiga. Ele assentiu ao meu pedido. Fiz a ligação. Mayra não demorou a atender. Contei em poucas frases a minha situação. Ela sugeriu que eu subisse para Lumiar. Mas não falei logo ao meu afável recém-conhecido. Ele teria de forçar o carro, desviar-se do caminho. Respondi apenas com um ok e desliguei. Tudo bem, disse a ele com a voz baixa, você já entendeu, acrescentei. Sim, sorriu e continuou olhando à estrada. Sabe em Casimiro, a entrada para o Sana?, perguntei. Sei, sorriu de novo. Você não vai precisar me levar até lá, alertei, logo na entrada está bom, depois me viro. Tem certeza?, interpôs. Bem, caso você queira subir um pouquinho... Mas não é para ir ao Sana, e também não é para lá que vou. Sua amiga mora na estrada?, sua voz soou sonora, ao longe já se via o céu avermelhar-se. Lumiar, foi a minha vez de sorrir, talvez um sorriso branquinho. É um pouquinho antes, ele assegurou. Isso, às vezes passo um fim de semana ou outro com ela, eu mostro onde me deixar, ela vem me pegar. O homem guiou até o local. Demoramos trinta minutos. Quando parou, já clareava. Tudo bem?, eu disse antes de abrir a porta. Ele olhou-me como alguém de bom caráter, no entanto uma ponta de decepção escorria de seus olhos, acho que gostou de mim. Como qualquer homem, não queria perder a oportunidade. Tudo, respondeu acentuando o sorriso. Beijei-o, peguei uma de suas mãos e a coloquei sobre minha coxa direita. Ele compreendeu o que eu quis dizer. Minha amiga ainda demoraria vinte ou trinta minutos, então?, insisti. Então, completou. Daí, aconteceu. Mas mantivemo-nos discretos. Só não conseguimos o beijo. No final, quando saí do carro, perguntou tenho uma camiseta na mala, que tal? Não precisa, minha amiga já vem, lancei-lhe um beijo de despedida, pode ir, não precisa se atrasar por minha causa. Ligou o carro, deu um adeusinho e se foi. Deixou-me, do mesmo modo como me havia encontrado. 

quinta-feira, outubro 30, 2014

Sobreviver no Rio de Janeiro

Eu tinha visto um filme sobre um escritor que vai à França para lançar um romance. E lá ele conhece a mulher de sua vida. Quem desejar mais detalhes poderá encontrar o filme com certa facilidade. Não lembro o nome. O que quero dizer é o seguinte. Fato semelhante aconteceu comigo. Passeava pelo Rio e, ao acaso, conheci um homem. Não sei se o de minha vida, mas alguém interessante. Tudo aconteceu quando faltavam três horas para eu deixar a cidade.

Sou de Curitiba, estava no Rio pela primeira vez, para passar um fim de semana e mais a segunda-feira, quando embarcaria para Congonhas. Restava-me ainda três dias em São Paulo antes de retornar à minha cidade.

Andava na Visconde de Pirajá em busca de um supermercado. Como não sabia onde ficava, perguntei à primeira pessoa que passou.

Um mercado?, repetiu a palavra e se pôs a pensar. Ah, sim, já lembrei, vou passar na porta, levo você até lá.

E fomos nós. Acabamos conversando um pouco. Falei sobre a cidade, disse que os cariocas são muito receptivos.

Receptivos?, perguntou, acho que são muito dados, acrescentou.

Sorri.

É preciso saber sobreviver nesta cidade, ele falou e também sorriu.

Sobreviver?

Isso. Sobreviver no Rio de Janeiro. Dá um conto, não?

Um conto, concordei, muito interessante. Você é escritor?

Quem sabe?, sorriu.

Ao chegarmos à porta do mercado, ele estava fechado. Era dia do comércio. Suspirei sem esperanças. O homem tentava encontrar uma solução.

O que você deseja comprar?

Respondi que compraria uma garrafa de vinho. Queria levá-la a São Paulo.

Vamos mais à frente, acho que há uma pequena loja, uma espécie de Delicatessen, como funciona também como cafeteria pode ser que esteja aberta, sugeriu.

Andamos mais duas ou três quadras, a loja estava aberta.

Entrei e perguntei se vendiam vinho. A vendedora disse sim. Escolhi o vinho. A mulher o colocou numa bolsa de papelão, a garrafa envolta em papel fino.

Antes de me despedir do homem, ainda lhe perguntei sobre a frase que dissera. Sobreviver no Rio de Janeiro.

Não repare, acho que falei bobagem, é porque nos últimos anos a cidade tem fama de violenta.

Ah, deixei escapar e sorri. Onde fiquei não vi nada disso.

Então, você encontrou o seu paraíso. Não quer tomar um café?, convidou,

Como ainda estava cedo, aceitei. Sentamos. A garçonete veio nos atender.

O homem se chamava Ronaldo. Começou a tecer uma história sobre um escritor argentino que residiu durante muito tempo em Paris. Tenho um amigo que diz que se deixamos alguém falar não podemos prever o que pode nos acontecer. Ronaldo era mesmo envolvente. Contou a história com tamanha paixão, que sua simpatia enredou-me.

Eu viera ao Rio sozinha, estava hospedada na casa de uma amiga. Ela teve de trabalhar todos os dias enquanto estive na cidade. No último momento, aparece alguém simpático, mas a pouco para eu partir. Não posso deixar isso se perder, pensei.

Acabamos o café. Era tão bonitinho o lugar.

Você mora aqui perto, indaguei.

Um pouquinho mais adiante.

Você acha que as pessoas são sozinhas?, perguntei. Não repare é uma dúvida, fruto de uma longa história.

Ele a princípio não respondeu.

Quero dizer, os seres humanos são incomunicáveis, acrescentei.

De certa forma, sim. Estamos conversando aqui, neste momento, mas não conseguimos nos comunicar como gostaríamos, não é mesmo?, ele disse.

E se tentamos, podemos estragar tudo, completei.

Isso, arrematou, nesse caso é melhor deixar faltar do que estragar por excesso.

Acho que consegui me comunicar com você, eu disse e sorri.

Nem tanto, talvez apenas um lampejo, acrescentou,

Ronaldo deu de ombros. Achei nele uma ponta de malícia.

Bem, tenho de ir.

Você tem certeza de que precisa ir a São Paulo?, insistiu.

Não é que eu precise ir a São Paulo. É um complemento da minha viagem.

E onde você vai ficar?, quis ele saber.

Falei o local.

Quem sabe apareço, aí a gente continua a conversa.

Será?, demonstrei satisfação, mas ficou o sinal de dúvida.

Nunca se sabe, afirmou meio solene. E você, não pensa na possibilidade de desistir de partir?

Não respondi, apenas fiz um gesto de desalento.

Despedimo-nos.

Não esqueça a garrafa de vinho, alertou.

Segurei a pequena bolsa e acenei a Ronaldo mais uma vez. Na calçada as pessoas iam de um lado para outro, e eram bonitas. Na rua os carros e ônibus trafegavam com algum despeito.

Fiquei com o número dele e ele com o meu. Quanto ao futuro, quem sabe.

quinta-feira, outubro 23, 2014

Sentadas no sofá

Apesar do meu corpo ter começado a dar ares de agitação, fiquei quieta em casa. Era hora de ele sair. Gostava de encontrá-lo, dizer boa tarde, sorrir. Mas achei melhor não exagerar. Olharia apenas pelo olho mágico da porta de entrada do meu apartamento, tomaria cuidado para que meus pés não dessem sombra ao lado de fora. Como não ouvia ruído algum, resolvi esperar mais um pouco. Vi no portal direito uma marquinha, ligeiro descascado, alguém poderia tê-la feito com a unha ou poderia ser ação do tempo. Lembrei uma tarde quando ainda era menina, fiz uma marca semelhante na porta do banheiro, queria deixar meu sinal naquela tarde chuvosa. Minha mãe saíra e eu me sentia muito só. Apenas a empregada, que estava entretida com o serviço da cozinha. A marca se foi, o apartamento ficou no tempo, mas a lembrança permaneceu, talvez um modo de acentuar o momento de tristeza e solidão. Agora aquele outro traço no portal de entrada e eu sem saber como aparecera. Será que eu mesma fora a autora, numa atitude de impaciência enquanto aguardava alguém que teimava não chegar? Não sabia responder. Vestia apenas uma camiseta de malha, descia até um tantinho abaixo do bumbum, acho que deixava as beiradinhas de fora. Caso estivesse na rua, tal vestimenta só seria concebível para ir à praia. Escutei alguém se mover no corredor do andar. Aproximei-me e olhei pelo buraquinho da porta. Um entregador de pizza. Alguém abriu e recebeu a encomenda. Voltou alguns segundos depois e despachou o rapaz. Ninguém recebe uma pizza, tanto mais daquele tamanho, para comer sozinho. Seria eu a convidada? Voltei à sala e sentei na poltrona que fica a alguns passos da janela. No prédio em frente um garoto apareceu de relance na janela, seu andar era o sétimo, um acima do meu. Pensei em observar o que ele fazia, mas logo desapareceu. O céu estava claro, faltava pouco para o anoitecer. De repente escutei ruídos fora do apartamento. Corri e olhei de novo pelo olho mágico. Duas moças, acho que ainda adolescentes, batiam à porta dele. Usavam vestidinhos curtos, coladinhos ao corpo. Morri de inveja e fiquei furiosa. Meu corpo ardeu, começou a dar mais sinais de inquietação. Não que eu morresse de amor pelo homem, mas o fato de ter estado em seus braços duas vezes e agora me sentir descartada tocava-me os brios. Corri até a janela e fechei a cortina. O apartamento mergulhou num anoitecer antecipado. Tirei a camiseta e deitei nua no chão, bem no meio da sala. Segurei os seios com ambas as mãos. Tocaram a minha campainha. Quem seria?, pensei preocupada, não recebi nenhum aviso da portaria. Levantei-me com cuidado, quis procurar a blusa, mas já não sabia onde estava. A porta se tornara transparente, revelava com mais intensidade a minha nudez. Senti-me despojada das roupas e da bagagem, num quarto de hotel, abandonada pelo amante. Corri à porta e olhei o lado de fora. Era ele. Vestia uma camisa de gola e calça jeans. Estava bem calçado. Seus sapatos sempre me causaram admiração. Ele aguardava com certa ansiedade. Movi o trinco e abri a porta, devagar. Oi, cheguei a dizer. Oi, revidou, quero chamar você pra comer uma pizza. Uma pizza?, oh, estou gorda, suspirei. Um pedacinho apenas, insistiu. Ok, respondi. Saí do apartamento e o beijei. Ele me abraçou, vamos, então. O homem sabia que junto a mim sempre se surpreenderia. O que foi?, perguntei enquanto ele se mantinha enfeitiçado pelo meu corpo, não vamos mais?, completei. Vamos, vamos, sim, depois explico às minhas amigas que você é maluca mesmo. Beijou-me outra vez e colocou um dos braços sobre o meu ombro. Sabe que já fiz o síndico do prédio onde morei se masturbar por uma semana?, eu havia falado a ele na última vez em que nos encontramos. Como?, tentava ele entender. O homem sempre me olhava de rabo de olho quando eu passava, por isso num certo dia fui ao corredor nua, só pra ele me ter no monitor de seu computador. E neste edifício aqui?, perguntou com sinais de preocupação. Aqui, respondi, ainda não instalaram câmeras. As meninas nos esperavam, as duas sentadas no sofá que há na sala.

quarta-feira, outubro 15, 2014

Gosto mesmo é de poesia

Você está me convidando para sair logo assim de primeira...

Foi você quem olhou pra mim e sorriu, correspondeu ao meu aceno.

Sim, mas acho que cometi um erro, peço desculpas, me dê licença.

Eu falava com um homem, no calçadão, em Ipanema. Saíra de casa para deixar um pouco os livros, respirar o ar do entardecer, beber água de coco num quiosque da orla. Um homem, no entanto, passou por mim. Sei que as mulheres devem andar com os olhos baixos, não é bom encarar os homens. Mas naquele momento acabei por espiá-lo de soslaio, não me controlei e sorri. Ele veio atrás. Eu devia ter desconversado rapidamente, cruzado a avenida e partido. Continuei, porém, minha caminhada com ele ao meu lado. Andamos como dois velhos amigos. Depois de alguns minutos, já entrara eu na conversa dele. Todos sabem que há homens terríveis, basta escutá-los por pouco que seja e já nos conquistam.

Você gosta de ler, não?, perguntou antes que eu atravessasse a rua.

Como descobriu?, respondi desarmada.

Intuição.

Aceitei a explicação de forma simpática. Ele, então, listou uma quantidade enorme de autores, principalmente de romancistas.

Como sabe que leio romances?

Intuição, continuou. Mas você lê romances inteligentes, tenho certeza.

Adivinhou de novo. E como faço para descobrir esses livros?, queria testá-lo.

Você frequenta as boas livrarias.

Isso mesmo. Você é bom em adivinhações, falei.

Pronto, o caminho estava aberto. Continuamos andando, seguíamos na direção do Jardim de Alá.

Por aqui há uma livraria; como já entardeceu, que tal?, propôs.

Ah, sim, na Visconde de Pirajá, conheço.

Acabamos os dois juntinhos dentro da livraria. Ele me apontava os títulos. Parecia conhecer todos os livros.

Como você sabe sobre tantos autores?

Segredo, respondeu.

Você é crítico literário?

Segredo.

Se for não tem graça, falei, todo crítico é suspeito.

Sou médico.

Médico, que legal!, cheguei a exclamar. Duas pessoas olharam na nossa direção.

Caminhamos para o centro da loja.

Mas gosto mesmo é de poesia, ele falou.

Você é um médico que gosta de poesia. Que legal, fiquei eufórica.

O que há de mal nisso? Os médicos além de serem grandes leitores, também muitas vezes são escritores.

Já pensou que maravilha, frequentar um médico que antes da consulta converse sobre literatura?

Então, essa é a chave, demonstração de bom gosto e de cultura.

Ah, exclamei e sorri para ele, estou precisando tanto de uma consulta assim.

Ele riu, continuou olhando os livros. Comprou dois e me presenteou.

Foi assim que, dois dias após conhecer o homem, fui parar no seu apartamento.

E lá pelas dez da noite, morta de vergonha, pedi: vamos hoje ficar apenas na conversa, ok?

Tudo bem, respondeu, é o que estamos fazendo dede o começo...

quinta-feira, outubro 09, 2014

Nudista anônima

Esse nosso mundo de hoje é movido pela imagem, e ninguém consegue se libertar disso, muito pelo contrário, as pessoas cada vez mais se tornam prisioneiras de fotografias e vídeos, desejam não só aparecer neles mas também mostrá-los a amigos e conhecidos. Outro dia, meu namorado comprou uma câmera nova, com ela é possível fazer todas as fotos ou vídeos que a gente possa imaginar.

Amor, vou fotografar você, ele pediu.

Mas já tenho tantas fotos...

Não faz mal, quanto mais, melhor.

E começou. Clique daqui, clique dali, e veste isso, e veste aquilo, de vestido, de short, de biquíni, até que... nua. Num primeiro momento nada de nu frontal mas, pouco a pouco, chegamos lá.

Olha que essas fotos são salvas automaticamente numa nuvem, a câmera está conectada, avisei.

Nada disso, está offline.

Jura?

Sentei diante do piano e toquei um pouquinho nua, para ele me fotografar.

Acho que, ao todo, o namorado fez mais de trinta fotos. Também apareço no sofá, na janela, na cozinha como se estivesse fazendo comida, entrando no banheiro. E em todas elas nua.

Depois que ele foi embora, comecei a me preocupar. Já tive tantos namorados e sei que os namoros não duram para sempre. Com alguns a briga foi tão feia, que não fomos capazes nem mais de conversar. Como será com esse? E se não caso com ele? Ai, ai, ai. E nem adianta amanhã pedir para ele eliminar as fotos que estão na câmera. Como vou ter certeza se já  não as descarregou em outro aparelho?

Não sei não, acho que me meti numa enrascada. Gosto muito dele e ele de mim, mas todos sabem como são os homens.

Fiquei muito nervosa. Queria desfazer a situação. Mas como? Lembrei-me de um namorado que me pedia para ir nua do lado de fora do seu apartamento e tocar a campainha para ele abrir. No começo, pensei que poderia me deixar nua lá fora pelo resto da noite. Mas com o tempo fui acostumando a não ter medo, porque ele sempre abria e tudo acabava bem. Tive também outro namorado que adorava transar comigo na praia. Bastava entrarmos na água para ele desatar o meu biquíni. Permiti também que me fotografasse nua uma vez. Até hoje me dou com ele, é uma ótima pessoa, creio que um telefonema seria suficiente para trazê-lo de volta. Um relacionamento que acabou mas que deixou saudades. Vou torcer para que com o atual namorado as coisas fiquem sempre bem.

Contei a uma amiga desse meu stress sobre o destino das fotos. Ela rebateu:

Você acostuma, não vai acontecer nada, não.

E se pôs a contar que também já se deixou fotografar sem roupa alguma. Nem se deu conta em que mãos foram parar as fotos.

Quem sabe, me acostumo, me acostumo tanto que amanhã me deixo fotografar nua de novo!, pensei comigo. Ai, não tomo jeito, será que existe alguma sociedade dos nudistas anônimos? Não sei, não. Mas mesmo que exista é capaz de eu aparecer lá peladinha!

quinta-feira, outubro 02, 2014

De graça!

Seria talvez possível que a um ponto da vida o mundo se tornasse óbvio? Vinha pensando nessa questão após sair com um paciente. Acho paciente uma palavra ruim, porque sou dentista e não acho quem senta na cadeira do meu consultório paciente. Mas deixemos isso de lado. Ia com ele pela rua. Fora o último naquela quinta-feira à tarde. Queríamos o café da livraria. Um ambiente agradável, acolhedor. Ele pediu que fôssemos antes ao caixa eletrônico. Entramos numa agência do banco, na Treze de Maio. Esperei a certa distância. Assim que saíram as notas da máquina ele as pegou e guardou na carteira. Ao chegar junto a mim, disse guarda essas pra você, é um presente. Entregou-me duas notas de cem. Não, o que é isso, cheguei a recusar. Mas ele insistiu compre uma coisa bonita, Acabei segurando as notas. Fico aborrecida com isso, sabia?, falei. É pra ajudar a pagar o condomínio, ele disse e começou a rir. Lembrei que uma ou duas semanas antes havia comentado que um paciente me paquerara e dissera que podia me ajudar a pagar o condomínio, pois tinha muito dinheiro e não via oportunidade para gastá-lo, mas o homem insinuou certo namoro comigo. No entanto, este, que estava ao meu lado naquele momento, completou não quero nada em troca. Ri e acabei guardando o dinheiro na bolsa. Sei, é certo que você não queira nada em troca, ironizei, depois completei ah, você é fogo, viu, isso não vai ficar assim não, vamos ver o que posso fazer pra devolver esse dinheiro. Pensei no tratamento dentário que ele fazia comigo. O mundo não se torna tão óbvio, refleti. As notas na bolsa. Aceitei enfim a gratificação. Assim que nos despedimos, no metrô, na estação Largo do Machado, beijei-o e senti um arrepio. Enquanto andava ao ponto do ônibus o arrepio intensificou-se, tocou-me ao fundo o corpo. O óbvio está no meu comportamento, pensei, como mulher sempre gostei de me sentir um pouco prostituta. Psiu, silêncio, disse a mim mesma, ninguém pode saber disso. Falo por mim, nada sei sobre outras mulheres. Mas ressalto, o gosto de me sentir prostituta não me ocupa totalmente, apenas um centímetro. Na verdade, procuro justificativas. Portanto, a aceitação das notas de dinheiro endossava a obviedade do mundo e me levava a entregar-me mais afoita aos afagos daquele homem.

Na sexta seguinte encontrei com ele no mesmo café. Não marcara consulta alguma para aquele dia. Deixei o horário para o encontro. Depois do café permiti que me roubasse a roupa num hotel próximo. Quatro da tarde. Eu a rolar numa cama larga. E o homem dentro de mim. O mundo tornara-se óbvio. Mas teria problema o óbvio? Acho que o não óbvio será, uma madrugada dessas, ele me abandonar pelada num ponto de ônibus. Que fantasia excitante! Quem me contou foi uma paciente. Isso mesmo, uma mulher. Viveu a experiência na própria pele. E duradouro o arrepio. Ai, tenho de disfarçar. Talvez devesse mudar o nome dela. Meu paciente deu-me outros duzentos reais, o óbvio. Eliete, minha paciente, fez de graça! 

quinta-feira, setembro 25, 2014

A princesinha

Este conto tem como autora minha amiga de Glicério, Nuance Lewada. Ela volta ao blog com toda a força e promete muito  mais. Para ler suas contribuições anteriores clique aqui.                        

Christina vem lutando para melhorar o sistema de ensino em sua cidade. Ela acredita que esta é a melhor ação para que o povo aproveite as oportunidades de emprego. Sua amiga Francisca, mais conhecida como Pezinho, há muito tempo saiu de lá para tentar ser deputada  federal e conseguiu se eleger.

Lá em Brasília, Francisca saiu do sério: conheceu pessoas de vários estados, mas a que mais se identificou foi Mariano, um mendigo que no começo tentou ajudar, mas se apaixonou por ele, porque o cidadão lhe apresentava as melhores propostas de posições para fazer sexo. Um dia, Mariano propôs a Pezinho se deliciar sexualmente em todas as asas de Brasília. Pezinho ficou encantada com as diversas chances de ir ao delírio.

Christina ficava sabendo da felicidade de Pezinho. Trabalhando para a própria campanha, as conquistas na saúde avançam. Capacita mais de 4 mil alunos para o mercado de trabalho. E Christina fala, nas entrevistas: “O desenvolvimento continua em nossas mãos”. Em seus pensamentos, vem à tona a vida que a amiga, Pezinho, leva em Brasília.

À noite, mesmo com o corpo cansado, a candidata pensa: “Hoje vi nas ruas um mendigo ainda novo que pode dar um bom caldo”. Pegou o carro e rondou a cidade a procura da caça. Todos os mendigos já dormiam em seus colchonetes e cobertores, nessa época do ano é muito frio por lá, mas o Chico, um rapaz alto, cabelos lisos, olhos esverdeados, ainda vagava.

Christina parou perto dele e ofereceu passeio. Mesmo sem entender nada do que estava acontecendo, Chico entrou no carro. A candidata não foi reconhecida, pois estava de gorro. Christina levou Chico pra um motel fora da cidade. Chegando lá pôde ver melhor a pessoa de rua que ela havia pescado. Encheu a banheira com água morna, meio vidro de sabonete líquido e uma porção máxima de álcool. Pediu pra ele tirar os molambos que vestia e entrasse na banheira.

Chico concordou. Tomou um banho de príncipe. Conversou muito com ele embrulhado nas toalhas do motel. Ele havia vindo do Nordeste tentar a sorte na cidade e não tinha conseguido nada até agora.

Encheu a banheira novamente com sais de sua preferência e disse ter que tomar também um banho. Tirou as roupas aos olhos de Chico, mostrando seus enormes e rechonchudos seios, além de uma vagina espumando de vontades. Beijou o parceiro e o convidou a entrar na banheira.

Os dois se divertindo e conversando muito, Christina se declarou excitada com a presença e o perfume dele. Chico também, que estava a seco por vários meses, se emaranhou com Christina nas águas espumosas daquela banheira. Com um som romântico que ela havia colocado antes da ideia do seu banho, Chico deslizou com o seu pênis duro feito uma rocha no corpo de violão de Christina. Quando ele ia  penetrar na vagina, Christina se lembrou de uma camisinha que mantinha em sua bolsa, que por sinal estava na borda da banheira. Acarinhou o pênis de Chico com sua boca, o que fez o companheiro ir ao delírio, colocando a camisinha em seguida. Fez penetrar o pênis do Chico na vala entre suas pernas e gozou até não poder mais.

Prometeu no outro dia levar roupas limpas para ele e marcar outros encontros, até decidir como ajudar o Chico.

Chico e Christina pareciam viver um conto de fadas. Todos os dias eles se encontravam no mesmo motel. Christina passou a manter a alimentação de Chico, e assim viveram ainda por muito tempo. A eleição chegou e Christina conseguiu ser eleita. Levou Chico pra Brasília, e lá ele não foi mais de rua, e sim o marido de Christina, seu  assessor sexual e importante na Câmara dos Deputados. Como a vida tem seus mistérios! 

quinta-feira, setembro 18, 2014

Que conquista, a minha

Antes eu procurava frases de efeitos para começar um conto. Sempre achei importante e imprescindível ter estilo. E as tais frases, como me davam prazer. Hoje já me sinto senhora de mim, isto é, do meu texto. Não mais necessito copiar literatura alheia. Durante a noite penso no que vivi no dia findo, coloco então certa ordem no caos. Quando acordo, vou direto ao computador. Não tenho dificuldades para transformar a brancura da folha numa obra de imaginação. Já depois de duas ou três frases, voo hábil, como a boa cozinheira que sou acrescento o tempero certo, nem mais nem menos, sutil apenas, nada que faça desandar o almoço, ou a janta, quem sabe.

Ah, meu patrão, como é encantador. Quando o conheci logo pensei vou conquistá-lo, não posso deixar que escape. Passava junto dele, quase a lhe roçar a pele, olhava-o de soslaio. Ele concentrado na leitura, na escrita, no trabalho. Essa vida de escritor é de arrepiar, o homem não pensa em outra coisa, lê e escreve o dia inteiro. Fui contratada como sua secretária. Vocês sabem como isso funciona. Faço de tudo, até mesmo o serviço doméstico. Visto uma bermuda de lycra, uma camisa de malha e mergulho no mar de tarefas que me espera. Sei que ele me olha de rabo de olho quando entro no seu escritório. Já o surpreendi uma ou duas vezes, ele bem sabe, mas o homem tem o poder do disfarce, consegue manter-se frio, distante. No começo pensei se ele me agarra?, grito ou corro? Um homem de seu quilate, porém, não vai partir para um expediente tão baixo, adivinho. Lógico que minhas manifestações de possível desespero também se encaixavam nas gavetas da representação, puro teatro. E demorou até acontecer alguma coisa entre nós. Há aquele toque de mãos, quando fingimos esquecer que estamos pele a pele. A mesma pele do ventre, das coxas, dos seios etc. Escorregamos durante alguns segundos no corpo alheio. Eu mesma afasto as mãos. Tenho a preocupação de não deixá-lo constrangido. Passam-se vários dias sem nos prestarmos a toques mais íntimos, apenas o trabalho, sorrisos e algum meneio meu de cabeça.

A iniciativa tem de ser minha, afirmaria a meus botões caso me fosse tal a roupa. Se deixar ao encargo dele, jamais teremos uma relação além da profissional. Passo a refletir sobre o que fazer, sobre como uma mulher pode conquistar um homem sem se mostrar ridícula. O amor? Não sei, amor como as pessoas o entendem parece enredo de telenovela, e meu patrão não é chegado a elas. Coloco-me em prontidão, descubro a possível trilha a seguir, observar-lhe as leituras. Qual o tipo de livro lê ele, qual o autor, qual o tipo de personagem feminina o interessa? Tem às mãos na maior parte do tempo os livros de Machado de Assis. Mas as mulheres de Machado são superiores aos homens, vencem na inteligência, na astúcia; quando não podem vencê-los abertamente se calam, reflito; com o tempo, percebe-se que ostentam o troféu da vitória. Portanto, não me posso colocar como uma das personagens machadianas, para tal empreitada precisaria de muita leitura, e isso levaria tempo. Descubro, entretanto, outra coisa, um possível caminho para as minhas intenções. Não se pode viver de tanta virtude, eis a verdade, quero dizer, não se pode viver de tanta seriedade. Entre numerosas personagens complexas, muitas virtuosas e outras nem tanto, encontro a vulgaridade. Não se trata de livro de Machado, mas obra traduzida do francês (oh, sempre os franceses), se não me engano um livro que logo depois de publicado foi levado às telas. Tomo o exemplar nas mãos e o folheio. Não passa muito tempo para eu descobrir que se trata de um caso de amor, ou seja, de relação sexual, melhor dizer assim. Um homem procura apartamento e, em meio à visita a um deles, encontra ao acaso uma mulher, que também busca onde morar. Não trocam palavras, apenas ligeiros gestos de cumprimento e de tolerância um com outro. Ambos partem, mas voltam duas ou três vezes, nos dias seguintes. Numa dessas visitas, acabam transando. Tudo acontece com naturalidade. São corpos que se atraem por si sós, ambos necessitam do calor recíproco. Na última visita, no entanto, há um pequeno pacote de manteiga. Acho que trazido pelo homem. Não preciso dizer a que a manteiga se presta. A mulher goza intensamente.

Deixo o livro de lado e continuo o meu serviço. Na manhã seguinte vou ao mercado. Entre as compras trago a manteiga, a mais cara, a mais bonita, a de nome atrativo, que dá asas à imaginação. Meu patrão olha o objeto sobre a mesa e, creio eu, não faz a ligação imediata com o assunto do livro encontrado por mim entre seus papéis. Come o lanche matinal e, apenas no final, olha para mim e sorri. Nesse sorriso, encontro uma ponta de malícia. Digo então... E curvo a cabeça. Começo a desfazer a mesa do café.

Duas horas depois, ao entrar no escritório para lhe levar um café puro, como sempre costumo fazer, ele pede a manteiga. O senhor quer também torradas?, pergunto sem malícia. Não, por favor, apenas a manteiga.

Não preciso dizer mais, confio na inteligência dos meus leitores.

sábado, setembro 13, 2014

Dentro da noite

A gente sempre é capaz de se surpreender.

Trabalhei em outra cidade durante um ano, mas todo final de semana voltava para casa. Como a passagem era cara, procurei saber se havia alguém que pudesse me dar uma carona. Assim, além de sair mais barata a viagem, voltaríamos conversando. O tempo passaria mais rápido e chegaríamos mais depressa em casa. Não é que quisesse apenas economizar dinheiro, pagaria o pedágio, ou mesmo ajudaria na gasolina. Falando a verdade, uniria o útil ao agradável. E não é que aconteceu? Soube de um homem que partia do Rio a tal cidade à mesma hora que eu. E também voltava. Combinamos.

No primeiro dia, esperei por ele num posto de gasolina próximo ao trajeto que fazia, queria facilitar as coisas e não ser taxada de comodista. Escondi meu mau humor matinal por trás das lentes escuras dos óculos. Sabia que, ao mesmo tempo, criaria um ar de mistério. Vestida para matar?, quem sabe. Partimos. Ele apenas sorriu. Silencioso durante toda a viagem, apenas um ligeiro sorriso e os cumprimentos convencionais. Como falo muito, cuidei para não soltar a matraca. Policiei a voz e meus modos. Não soube se o homem era solteiro ou casado. Também, o que me importava? Queria eu alguém para casar?

Chegou o dia de voltar. A mesma atitude. Tanto por parte dele quanto por mim. Já que se tratava de pessoa discreta, diminuí o repertório. No meio da viagem, que durava em torno de três horas, cheguei a lembrar de um rapaz com quem saía quando morei em BH. Jamais foi meu namorado, mas nos encontrávamos para transar.

Na semana seguinte, nova carona, mais duas viagens. Ida e volta. Será que nada vou saber sobre ele? No trabalho, cheguei a perguntar. Mas dele ninguém nunca soube coisa alguma, apenas que era um homem divertido.

Assim passamos a fazer parte um da vida do outro. Toda semana ida e volta juntos. Acabei deixando escapar alguns segredos meus, profissionais e pessoais. Quando falei sobre meus gostos, chegou a entortar a cabeça e a mover a ponta de um dos lábios. Uma vez que dirigia, não lançava olhar frontal a mim.

Comecei a achar que o homem era perigoso. Não praticaria nenhum mal contra mim, mas o perigo é que qualquer mulher cairia apaixonada por ele. Era alguém pleno de mistério.

Às vezes eu perguntava sobre alguma possível atitude dele num momento de trabalho. É preciso pensar, refletir, ele dizia. E sua voz soava plena, como se através do pensamento ou da reflexão conseguisse realmente o sucesso.

Certa vez, na volta, pedi que parasse, precisava fazer um lanche. Assentiu. Parou o carro num restaurante famoso, desses em que param os ônibus de luxo. Indicou-me o restaurante, onde os garçons esperavam pelos clientes. Não, quero apenas um lanche. Mas o seu olhar foi tão generoso, que aceitei o convite.

Vamos tomar uma cerveja?, minha a pergunta.

Concordou. Depois, eu mesma alertei, mas você está dirigindo.

Tomou água mineral. Bebi a cerveja.

Acho que ri mais do que me era permitido. Não estava acostumada a uma garrafa inteira, e das grandes.

No caminho, pedi pare, por favor, preciso fazer xixi, alertei.

Apontou que dali a quinze quilômetros havia um bar com banheiros limpos.

Não, por favor, pare em qualquer lugar, não aguento.

Será que eu já ia rubra?

Parou no acostamento de uma longa reta. Saí, fechei a porta e agachei bem junto ao carro.

Quando voltei, não digo que estava morta de vergonha.

Vamos ficar aqui mais um pouco, não preciso chegar em casa cedo, hoje, falei.

Mostrou adiante um local melhor, um esconderijo. Quem passasse pela rodovia não seria capaz de nos perceber. Dirigiu por uma estrada transversal à rodovia e parou num local que parecia perfeito para estacionar.

Você não quer voltar para casa hoje?, perguntou.

Dei os ombros. Demorei a responder.

Sabe o que é? Quando morei em BH saía com um cara parecido com você. Eu não era namorada dele, mas a gente saía. Você entende, não?

Ele entendeu, e até muito bem. Já estava escuro. O céu apresentava as primeiras estrelas. O silêncio era comprido, como a reta lá de cima, onde se viam apenas os faróis dos automóveis a cortar a noite recente.

Sabe, já saltei nua numa estrada, e já também tomei banho nua numa cachoeira.

Jura?

Claro, juro.

Então, você vai la fora nua?, apontou a noite fechada.

Nua, nua?, fiz cara de inocente.

Sim.

Transamos duas vezes naquela noite. Uma antes de eu sair do carro e outra depois. Ainda pedi que ele dirigisse um pouco à frente e me deixasse esperando.

Por que você gosta assim?, quis ele saber.

Não respondi. Mas quando ele deu a partida, confesso que fiquei arrepiadíssima. Tudo meu dentro do carro e eu pelada do lado de fora...

Continuamos indo e vindo juntos. Vez ou outra, sempre na volta, parávamos no mesmo lugar, quase à mesma hora. E, para não perder o costume, eu sempre saía nua do carro. Ele gostava de admirar o prazer que eu sentia nisso.

Um ano depois me transferi para o Rio. Apenas comuniquei a ele. Não demonstramos tristeza, nem deixamos transparecer que estávamos perdendo alguma coisa.

Nada se perde, pensei. Ganhamos momentos de prazer, sobretudo porque gozávamos juntos, gozávamos também com as primeiras estrelas, com a estrada comprida, com os faróis dos automóveis que mergulhavam na noite como se sempre estivessem prestes a entrar num longo túnel.

Mas que besteira, pensei. Nada se perde? No final das contas, havia a minha casa. Telefonei então para ele.

quinta-feira, setembro 11, 2014

Você gosta de me telefonar, não é mesmo?

Você gosta de me telefonar, não é mesmo? Sabe que já me casei, mas mesmo assim insiste, e ainda pergunta pelo meu marido. Ele está na rádio, você já sabe sobre isso; desde que se mudou pra minha casa, aqui na serra, se enfiou na rádio e quase não sai de lá, não recebe um centavo, mas não sai de lá. A rádio é comunitária, ele diz que está ajudando. O que vou fazer?, deixo que ele vá. E você aproveita para me telefonar. Outro dia, me lembro bem da tua pergunta, você quis saber se tomo banho nua no rio que passa aqui atrás, quase dentro do quintal. Não, não tomo não, a água está poluída, quando passa por aqui já beirou várias vilas aqui de cima, portanto não pretendo contrair uma doença. Mas vou dizer um segredo. Escute. Quando o telefone tocou, eu estava saindo do banho, corri até a sala e peguei nas mãos o aparelho. Adivinha. Estou nua, isso mesmo, nua, pelada, acho que você deve estar adorando me ouvir contar isso. Não fiz de propósito. Como ia adivinhar que era você? Mas coincidiu. Como sei que gosta de me ver nua, ou de imaginar que estou nua, digo a verdade, sentei pelada na poltrona, cruzei as pernas e estou falando com você. Não, ele não vai chegar agora, é quase certo; se chegar, o que tem?, a desculpa vai ser a mesma, estava saindo do banho etc. e tal. Outra coisa, ele nada pode falar, atualmente sou eu que pago as contas, o que ele ganha é muito pouco, e ainda se mete em trabalhos voluntários. O quê? Ah, sim, lembro. Você não esquece isso, não é mesmo? Acho que adorou. Lembro muito bem. Foram duas vezes. A primeira foi na estrada. Era de madrugada e você me pediu que tirasse toda a roupa. Saí do carro apenas de casaco, um casaco grosso mas curto. Se você não volta eu estava perdida, com tudo de fora, o primeiro que passasse ia querer me comer. Bom que a brincadeira acabou bem. Você foi dar apenas uma voltinha e não demorou. Ou, sei lá, na hora me pareceu uma eternidade, mas acho que não passou de vinte minutos. Isso mesmo, quando entrei no carro, vestindo apenas o agasalho, disse a você que estava molhadinha, e não era devido ao casaco, estava molhada em baixo, bem entre as pernas. Está gostando de me ouvir falar sacanagem? Acha que porque me casei eu não ia mais contar nada picante? O quê? Ah, sim, pode ser, acho que você tem razão, já estou me sentindo mais aliviada das dores nas costas, acho que quando tenho tesão, ou quando trepo, as dores diminuem. Vai ver que eu devia andar sempre nua por aqui, assim ficava molhada e aliviada das dores, acho que tesão e uma boa trepada resolvem tudo. Mas escute, já que você tocou no assunto, outro dia li um daqueles livros que você sugeriu, da mulher que viaja para outro país e arranja um namorado casado, gostei da história, é boa, ela frequenta um bar com ele, acho que em Tel Aviv, ou era em Jerusalém?, não lembro ao certo. Sei que a mulher veio da Rússia e logo arranjou um namorado, um árabe. Ela estava certa. A irmã é que foi uma idiota, casou-se com um mecânico que a traía e aceitou viver naquele fim de mundo, na Rússia. As coisas não são muito diferentes por aqui. Em Glicério, também está cheio de gente querendo arranjar problemas. Ainda há outra história em relação a nós dois, lembra? Na praia, lá em Rio das Ostras. Você fez que eu tirasse o biquíni dentro d’água e o entregasse nas suas você. E o que aconteceu depois? Você levou o biquíni lá pra areia e o guardou dentro da minha bolsa. Me deixou nua na praia. Sabe que também fiquei morrendo de tesão. E a menina, minha ex-aluna, quando me viu veio me beijar, e nem notou que me faltava a parte de baixo. Ainda bem que tudo acabou de modo satisfatório. Ou não? Na minha memória sei que não voltei nua pra casa. Sabe, contei essa história pra uma amiga. Não disse que aconteceu comigo, mas com uma pessoa próxima. Você sabe que existe uma porção de gente que faz essas coisas por aqui, e mesmo em Macaé? Aqui na serra, quando as mulheres namoram saindo de carro, elas acabam sempre nuas, dizem que adoram namorar ao ar livre, sob a luz da lua. Há uma delas que conhece um cara que contou que a namorada gosta de sair nua de casa e ir até o portão. Você lembra que eu também já fiz isso? Desci as escadas pelada e encontrei uma mulher lá embaixo, bem junto ao portão, ainda bem que ela não me viu, cheguei a pensar que era Lídia. Você gostou..., adorou, e os apartamentos do segundo andar estavam com inquilinos. Olha, acho que nem vou precisar tomar remédio hoje, só o fato de estar aqui nua conversando com você já me aliviou muito, me deu o maior ânimo, estou melhor. Não, não venha, não quero trair o meu marido, e logo aqui, tão perto de casa, nada disso. Vamos fazer diferente. Um dia desses eu vou aí e a gente arranja um lugar pra você me deixar nua. Hoje acho que vou gozar sozinha, vou também pensar nas nossas histórias, acho que até hoje você goza pensando em mim, não? Goza, sim; e acho que vou gozar também, já mudei até a posição das pernas, sério, estou toda molhada...

quarta-feira, setembro 03, 2014

Caso do vestido

Todas temos um caso do vestido. Não se trata de amor furtivo, ou mesmo de romance às escondidas com homem casado. Mas caso de vestido mesmo, comprido ou curto, no corpo ou fora dele. Até Drummond teve o seu. No caso de nosso poeta maior, fato narrado por ele em poema. Mas o meu caso de vestido é mais simples, e ocorreu às custas de um admirador que veio de longe à minha cidade só para me namorar. Foi num sábado à noite, inverno em BH, apesar de final de junho nem tão frio. O namoradinho me pediu que saísse de vestido. Apenas isso? Claro que não. Ele queria algo mais, ou algo de menos. Todos compreenderam, não? Na verdade o seu desejo era apenas o vestido a me roçar a pele. Vesti então um de tecido grosso, abotoado à frente. Os botões, dourados e convidativos ao despropósito, envolviam-me numa nebulosa de sensualidade. E lá fui eu e o rapaz a passear pela noite, a parar em um ou dois bares e beber uma taça de vinho, ou mesmo uma cerveja, não lembro ao certo. Depois de deixarmos o último bar, voltávamos ao meu apartamento. Uma praça, no entanto, interpôs-se a nosso caminho. Duvida cruel: atravessá-la ou contorná-la? Acabamos escolhendo a primeira opção. Caminhamos entre árvores, canteiros, parquinho infantil e bancos. De repente, o namoradinho parou e abraçou-me. Confesso que o abraço provocou-me, ligeiro arrepio percorreu-me o tronco. E, quando menos eu esperava, ele pôs-se a desabotoar-me. Será que não vês que é inverno, posso contrair uma doença, afirmei lícita. Mas era tal a artimanha do namorado e tal a minha sensação de gozo que acabei por permitir. Não passou muito tempo para eu estar nua à meia-noite e meia na tal praça, ao ar livre e sob o calor de tantas mãos que disputavam todas as partes do meu corpo. Não pude sentir frio. Temos um apartamento aconchegante, alertei, não é possível que queiras fazer sexo comigo em meio à noite aberta. Mas o jovem mostrava-se impetuoso. Disse que não havia problema, pois seu apetite era suficiente para dois jantares, um ali, o outro no meu apartamento. Confesso que foi boa a refrega. Entreguei-me a um homem pela primeira vez em meio a uma praça, em BH. Nem mesmo em minha cidade de origem, quando ainda namorava às escondidas, despi-me entre árvores. Portanto, ia eu nua, em plena capital de Minas. No final, quando já nos preparávamos para abandonar a praça que nos servira tão bem ao amor, confessei, queria que encontrássemos um buraco. Um buraco?, assustou-se. Isso mesmo, assegurei, um buraco. Mas não te foi suficiente a praça? Foi, mas preferia um vão, uma abertura entre dois galpões, ou mesmo um nicho entre sobrados, estaria mais exposta; tanto maior o perigo, pleno o gozo. Pleno o gozo?, ele repetiu. Isso mesmo, eu disse. Não queria te dizer, mas ainda estás nua, não reparaste?, ele apontou o meu corpo. Eu, nua?, fingi surpreender-me, e agora, o que faremos?, acrescentei.  Não sei, foi a resposta dele, a cidade é tua, conheces todos os vãos e desvãos, deves conhecer um que nos leve ao teu vestido! Só então reparei que ele falava sério. Meu vestido?, onde? Ora, o teu vestido, repetiu mais uma vez, onde? Estava num galho de árvores, mas qual? são tantos... Recordei, para acalmar o namorado (ele parecia mais alarmado do que eu) uma amiga também mineirinha, mas de Muriaé. Ela é maluquinha, adora sair de madrugada, quando perde o sono, a dirigir pelada. Não tiveste medo de que te acontecesse algum imprevisto, perguntei-lhe, um pneu furado, ou outro qualquer enguiço, quem sabe o surgimento inesperado de um policial? Imprevistos podem acontecer, e não digo que tenha me livrado de todos, respondeu-me, um deles me foi até bom, e tão gostoso... Minha amiga mineirinha adora os homens, quer gozar com todos. Ela é que está certa. Amanhã te compro outra roupa, cortou-me a narrativa o namorado. Amanhã?, retorqui, precisas comprar hoje, como subo dezoito andares nua? Ainda é noite e, apesar de curto, empresto-te o casaco, ofereceu-me. Não, nada de casaco, toca-me mais uma vez, vai, faze aqui mesmo a tua segunda janta, vem que já faço a minha terceira, depois tomamos uma decisão; conto-te um segredo, tenho a sorte da mineirinha.

quarta-feira, agosto 27, 2014

Arlete perdeu a renda arrastão

A vida fora de casa é completamente outra. Foi isso que Arlete pensou às duas da madrugada, numa estradinha lateral, que margeava o quarteirão onde ficava a casa do homem com quem estava saindo. Dentro de casa há o aconchego, chegou a refletir, há a privacidade. Pode-se, sim, sentir o arrepio entre quatro paredes, a pele lisa, o sopro quente do verão vindo de uma das janelas abertas, mas ao lado fora... Ela olhou o relógio. Sim, usava um relógio. Apesar de tudo, tinha o pulso coberto. Trazia também a bolsa a tiracolo, e ia sobre uma sandália baixa. Isso era outra coisa que a preocupava. Por que não saíra de casa com uma das tantas sandálias de salto? Sempre gostava de mostrar-se elegante e, naquele momento, saltos altos ajudariam muito. Dentro de casa houvera uma brincadeira. Do mesmo modo que se portava na esquina de duas ruas desertas, também estacara numa posição sedutora, na confluência de duas paredes da sala. Mas estivera entre paredes, apenas o seu homem a se encantar. Aliás, ela também encantara-se consigo, e acontecera aquela sensação incontrolável. Lembrou-se das amigas e das festas. Eles, os homens, adoram uma brincadeira depois que bebem, elas comentavam. Eles dizem uma mulher nua é adorável, e vocês encantam, apesar de tudo. Apesar de quê?, ela agora se perguntava, pois não era mulher como as outras, como as atrizes dos filmes, da TV? Uma mulher bonita jamais fica em dificuldades, sempre haverá quem lhe estenda um manto bem cortado, um vestido de desfile, e gostará de vê-la passear destemida. Arlete sabia que não é bom mostrar-se por inteira. Existe um jeito de disfarçar algo que poderia tornar-se demais. Ereta, a bolsa, a sandália, tudo em harmonia. E já eram duas e quinze da madrugada. Quem iria levá-la? Não se preocupe, dissera ele, tudo está combinado em todos os detalhes. Mas não existe chance de algo dar errado?, ela perguntara. Você quer que algo dê errado?, respondera ele com outra pergunta. Não sei se a pessoa que vai parar e se aproximar será a do combinado, ela temia. Não é sua função levantar essas questões, você ganhou para isso, está lucrando, portanto cumpra o seu papel, a voz do homem soara uma ordem. Ela nada mais dissera. O homem a conduzira de automóvel até a confluência das duas ruas e a fizera saltar. Já passavam vinte minutos. Maria Rita. Ela, Arlete, lembrou-se de Maria Rita. Maria Rita nada temia, gostava mesmo era de dinheiro. Caso o depósito estivesse na conta, cumpria aquilo para que fora contratada. E boca fechada. Existe um jeitinho, um disfarce, algo que é do seu próprio corpo, ela, Maria Rita, afirmara, ninguém nota, e as mulheres adoram andar nuas, ainda acrescentara. Nunca nada de mal lhe acontecera, nem no dia que fora descoberta com aquele tecido vazado, que se usa em meias arrastão, tecido que lhe contornava o corpo inteiro, pernas, tronco, braços e pescoço, tudo traçado pela renda preta transparente. Maria Rita nada comentou, apenas contabilizou o ganho e dormiu tranquila, sabia que tudo se resolveria. Mas Arlete não era Maria Rita, e alguma preocupação não lhe deixava sossegada. Até que veio o táxi, parou e piscou os faróis. Por que não se aproximava?, bastaria abrir a porta e entrar. Ter que caminhar mais vinte metros... Ou o motorista queria vê-la desfilar. Isso, devia gostar de ver uma mulher desfilando. E tanto mais nua! Será que tinha certeza de que ela era uma mulher mesmo? Há muitas pessoas fofoqueiras por aí. De vestido, diria que apontava, o corte, uma inovação. Mas só a pele e tudo por um triz, ainda tendo de fazer movimentos... Ah, outra coisa, não podia transpirar. A transpiração colocaria tudo a perder. O líquido que serve como adesivo é do próprio corpo, um segredo que Maria Rita lhe revelara. Mas o líquido não pode entrar em conflito com outras secreções. Ainda havia aquela história do namorado que esfregou um creme ao redor das duas coxas de Arlete. Esse creme vai lhe provocar, e muito. E provocou, provocou uma... Não, isso não, mas neutralizou o adesivo por boas doze horas. Amanhã tenho um desfile, Arlete pensou, nada de cremes, tenho que estar perfeita, as impropriedades bem escondidas, ou disfarçadas, como sempre. Por que os homens gostam de nos colocar em perigo?, falou a si quando percebeu cintilâncias. Estrelas também tremeluzem abaixo das nuvens. Correu e entrou no táxi. Após sentar-se, sentiu umidade no acento. O creme? Arlete suspirou pela renda arrastão de Maria Rita.

sábado, agosto 23, 2014

E que incêndio!

É bom saber pensar e brigar. Não se pode ficar apenas no pensamento e no desejo. Ganhar cinco mil reais me vai ajudar muito a resolver alguns problemas. Se o que preciso comprar se pode chamar de problemas. Vi, na praia, a garota. Devia ter entre os vinte e vinte e cinco anos, quem sabe mais um pouquinho. Ela vinha com a mochila às costas e... de biquíni. Não caminhava na areia, rente à beira-mar, mas no calçadão. Ou na rua, não sei bem. Acho que era domingo e ela andava na rua. Um meio certo de arranjar namorado, caminhar de biquíni na rua. Mas será que era isso o que ela desejava? Não sei, pode ser que não. Tenho certeza de que ela ia de biquíni, calçava tênis, e a mochila às costas. Isso me deu uma tremenda ideia. Sempre há aqueles que querem sensações mais intensas, e eu conheci um desses. Um senhor agradável, simpático e generoso. Gostou de mim à primeira vista. Foi num dia desses, de céu nublado, quando se sai à tardinha em busca da última nesga de claridade e do sopro fresco que vem do mar. Parei num quiosque, na orla de Copacabana. Queria água mineral. Ele já estava lá, vestia calça comprida, uma camisa com a bandeirinha da França no peito e sorria. À mesa, um coco; já havia terminado de saborear a água. Sente aqui. O convite, dele. Aceitei, sentei e tomei toda a garrafinha de água mineral. Conversamos. Uma conversa vazia, dessas que se estabelecem entre duas pessoas recém-conhecidas. Depois que fui embora, esqueci-me do homem. Mas já no dia seguinte o encontrei de novo. Dessa vez, de bermuda, mais informal. E o encontrei também no domingo. Foi nesse dia que vi a moça de biquíni e mochila às costas. Ele me convidou ao cinema. Vamos ver um filme logo mais, pode ser um besteirol, apenas para espairecer. E lá fomos. Gentil o homem, pagou o cinema, o lanche. O filme? Não importa. Como ele dissera, um besteirol. Ficou com o meu número. Não custou a me convidar para jantar. À noite as coisas são mais sérias. Não sei de quem a frase. Mas o homem seguiu-a à risca. Levou-me a uma cantina, ali na Fernando Mendes. Boa a comida. Tomamos vinho. Escolhido por ele. Tudo sob medida. Depois de tanto, o que me restava? Acabei no seu apartamento. Bonito, o homem, para quem já passa dos sessenta; um bom amante, apesar dos sessenta. Nada comentamos sobre nossas diferenças, incluindo aí a idade. No final, o homem perguntou se eu tinha conta em algum banco. Sabe como é, vivo sozinho, não se sabe o dia de amanhã. Sorri. Voltei a casa, enlevada. Ganhara eu na loteria? Seria verdade o que eu ouvira, ou ele mentia? Na semana seguinte, deixei por escrito o número de uma conta de poupança que havia muito esquecida. Até fora ao banco para saber se ainda existia. Sim. Existia. E o banco estava pronto para acolher a parte do seu lucro. O homem depositou. Numa primeira vez, um dinheirinho. Passaram-se alguns dias, dobrou (ou triplicou?) a quantia. Apareceram dois mil. Não sou mercenária. Não arranjo namorado para ganhar dinheiro. Mas já que surgiu, aproveitemos... E o homem é um conquistador nato. Fala como se sonhasse, e logo o sonho torna-se realidade. Outro dia contou sobre umas fantasias, coisas que a princípio pensei que viu no cinema. Depois, porém, achei que ele mesmo pudesse ter inventado. Então, como sou sempre presenteada, não posso deixar escapar o homem. E acho que agora até mesmo o amo. Não há quem não ame uma bolsa plena de notas de cem acompanhada de um sorriso lisonjeiro. Não é minha a frase, mas de uma diarista, e acho que não falou com essas palavras. Mas a ideia é a mesma. E volto às fantasias do homem. Primeiro, amarrou-me nua a uma cadeira. Amarrada e com a boca lacrada por um largo esparadrapo. No dia que se seguiu, dois e quinhentos a mais na minha conta. E muitos beijos, carícias, e nada de ejaculação precoce (ele sabe namorar). Hoje, talvez mais do que amarrada, ou muito solta, não sei bem, eis-me nua, a bater à sua porta. A condição para ganhar os cinco mil: preciso estar nua por inteiro, batendo à sua porta. Não só vir e bater. Tenho de partir também nua. Então, o plano. A tal moça de biquíni com a mochila às costas. Eu, nua, com a mochila às costas. Agora, falta-me o desfecho. Escondê-la, a mochila. Nua, entro; nua, amo-o; nua, vou-me. E a mochila... Ah, a caixa de incêndio. E que incêndio!

segunda-feira, agosto 18, 2014

Pergunta de adolescente

Você ainda com essas perguntas de adolescente, ele disse. Eu estava de pé, em frente à sua porta. Olhei para o homem, com ligeiro sorriso. Ele me observava, embora não se voltasse direto ao meu corpo. A pergunta era se queria ir comigo à festa de uma amiga. Pergunta de adolescente? Não devia convidá-lo, refleti, com tanta gente querendo a minha companhia. Ele tem vinte anos a mais do que eu e a festa, segundo o entendimento dele, era para jovens. Sua presença destoaria da maior parte das pessoas. Ainda tentei explicar que também haveria gente mais velha, mais madura, quero dizer. Provavelmente são os pais de algumas das meninas, completou. Entre, convidou-me e abriu um pouco mais a porta. Vamos conversar um pouco, acrescentou. Na verdade, ele temia que algum vizinho me descobrisse à porta. Eu vestia apenas uma camiseta, que me descia até as coxas.

Esse vizinho já de alguns meses conversa comigo sobre livros. É só me ver lendo alguma coisa que começa a relatar os autores que admira. Em alguns pontos, o homem acha que sou muito madura; em outros, diz que me comporto ainda como adolescente, sobretudo quando o convido para alguma saída noturna. Certa vez chamei-o para ver Thor, o último filme escrito a partir de uma história em quadrinhos. Mas esse tipo de filme é para adolescentes, afirmou. Quis contra-argumentar, o que tem ser um filme para adolescentes?, se a gente gosta... Mas o meu vizinho não gosta de se ver rodeado por moças e rapazes, colegiais, como ele diz. Fui ao cinema sozinha. Arranjei um admirador com quem acabei ficando mais de duas semanas. E rolou bons momentos. Mas meu vizinho me veio oferecer Em busca do tempo perdido.

Li o primeiro volume. Dias depois bati à sua porta com a intenção de conversar sobre o livro. Ficamos duas horas discutindo. Ele falava e olhava para as minhas pernas. No final, ofereceu o segundo volume.

Na semana seguinte fui eu que me ofereci a ele. Com o pretexto de continuar conversando sobre Proust, voltei ao apartamento. Não passou muito tempo e eu já estava nos braços do homem. Quando acabamos, não me vesti. Sentei pelada no sofá e continuei a conversa, com a maior naturalidade. Esse Swann não era muito esperto, ressaltei, fazer tanto por uma mulher e, apesar de ela ser uma prostituta, ele a tratava como uma dama de respeito. Meu vizinho contestou, não se tratava de considerá-la prostituta, eram os costumes da época, e em meio à nobreza ainda remanescente era assim que se vivia. Tudo bem, rebati ainda sentadinha e de pernas cruzadas, mas acho que havia outras mulheres, ele não precisava ter se submetido tanto. O homem ofereceu-me um refrigerante. Aceitei. Depois trouxe um doce, sobremesa feita pela diarista durante à tarde. Comi de bom grado. No final, levantei-me, beijei-o em sinal de despedida, abri a porta e saí. Ei, espere, falou. Mas eu já entrava na porta em frente, a porta do meu apartamento. Lancei-lhe mais um beijinho e fechei.

No dia seguinte, à mesma hora, dez da noite, bati de novo à sua porta. Você?, pareceu surpreso, já acabou o livro?. Não, não vim falar sobre livros, acho que esqueci alguma coisa aqui ontem, não? Ele foi lá dentro buscar minha camiseta. Você ainda está agindo como uma adolescente, falou ao devolvê-la. Vai dizer que não gostou? retruquei baixinho e sorri fingindo inocência. Percebi, então, que ele tinha companhia. Não demorou a fechar a porta.

quinta-feira, agosto 14, 2014

Você gosta de fantasia

Você gosta de fantasia, não é mesmo? Mas venha devagar, vamos nos concentrar, poucos os movimentos, ou mesmo nenhum, apenas você pulsando dentro de mim. Isso, assim, vou por cima, sento, que tal nós dois paradinhos?, eu mordisco; você me infla, ok? Ouça. Lembra a brincadeira. Você me quis pelada lá fora, na estrada. Avisei. Se ele me encontra vai ser um banquete, ó, não escapo, você vai dançar, pois o homem é tarado por mim. Ele sempre me olhou de soslaio e, imagine, quando eu dava as costas ele me comia com os olhos. Era por causa da minha bunda. Isso, você está pulsando direitinho, e eu, mordiscando, apenas esses movimentos sutis, vamos tentar gozar assim; quanto mais demorarmos, tanto melhor. Escuta. Então, ele me encontrou. A tal brincadeira; eu, pelada dentro da noite. Tentei me esconder, mas ele me viu. Vinha dirigindo o primeiro carro da madrugada. Acho que demorei a me abaixar. O homem reparou o vulto, freou e desceu para conferir. Se fosse um ladrão?, perguntei depois; era um vulto de mulher, afirmou. Mulher também pode ser perigosa, rebati. Ele disse estou acostumado. Eu, na frente dele, na lateral do carro, a blusa tão curtinha, do umbigo pra baixo tudo de fora, ideia tua, lembra?, levaste o restante contigo, e demoraste, não foi?, o homem ali, me comendo com os olhos. O que houve?, ele quis saber. Não é momento pra perguntas, eu contradisse. Como você vai fazer pra voltar pra casa assim, nua?, ele. Será que penso em voltar?, respondi.  Você está pelada para mim?, o tal motorista duvidava. Quem sabe, retruquei. Mas ele não sabe pulsar, assim como você. Quanto a mim, nem tempo tive de mordiscar. O homem era bruto, quero dizer, é bruto. Me segurou pelos ombros, foi descendo as mãos, e ainda me deixou sem a pequena blusa. Lançou minha única roupa mato adentro, para além do acostamento da rodovia. Como me apertou. Espera, não deve ser assim, falei. Não tenho muito tempo, estou a trabalho, ele disse, e logo vão notar o veículo no acostamento, vão querer saber o que aconteceu, tenho hora, na empresa tudo é cronometrado. Mas não estou aqui pra isso, ressaltei. Como, não? Você aparece nua na minha frente e agora vai fugir, insistiu. Quem sabe, posso estar aqui apenas para provocar, lancei a questão. Eu queria ganhar tempo. Provocar?, duvidou, uma mulher nua além de provocar quer algo mais, finalizou. Então colocou o pênis fora da calça. Eu quis me livrar, mas ele me segurava com força. Você está acostumado a estuprar as mulheres, insinuei. Estuprar?, a palavra fez que enfraquecesse a força das mãos. Confesso que eu podia ter corrido, escapado, mas estava tão nua. Isso não é estupro, tentou se convencer, você sempre se mostrou pra mim, me deu confiança, me deu até esperança de um encontro, e não esqueça que apareceu nua em frente ao local onde sempre passo às cinco da manhã, todas essas suas ações não aconteceram por acaso, argumentou. Trata-se de uma brincadeira, falei, brincadeira do namorado, ele me deixou aqui nua mas volta para me pegar, eu disse cerimoniosa. Brincadeira?, não se brinca com essas coisas, falou alarmado, não é possível que você tenha um namorado que te deixa nua por aí. Mas fui eu que dei a ideia, falei, tentava salvar a situação, não queria que ele pensasse mal de você. Se foi tua a ideia, continuou com a argumentação, é porque pensava em mim, queria que eu te encontrasse. Será?, sorri depois da interrogação. Lógico que sim, acrescentou, já tive várias namoradas, e muitas agiram como você; a mais recente vivia no carro atrás de mim, não saltava, esperava eu deixar o último passageiro pra ir comigo até a garagem; no caminho eu enfiava o carro num desses cantos da estrada e tirava a minissaia que ela usava pra me provocar, o pano  não media um palmo, a pele já estava toda arrepiada, ela não demorava a se derramar em gozo. Ele, então, me apertou com força, puxou meu corpo pra junto do seu, senti seu pênis entre minhas pernas. Espere, pedi, me leve pra dentro do carro. Você quer no carro, repetiu, ok, vamos pro carro. Entramos, me deitou num dos bancos, o carro todo escuro, assim como a noite. Aí aconteceu. Foi tudo muito rápido, ele não demorou a gozar. Quanto a mim, saiba, homens desse tipo não esperam pela mulher, não são como você, que agora pulsa dentro de mim com mais intensidade enquanto te mordisco com a vagina, enquanto conto toda a história. Vamos gozar os dois, juntos. Vamos explodir. E sei que você não vai me levar a mal por ter estado nas mãos de outro, ou melhor, por ter dado pra outro. Você ainda quer que eu conte mais? Ele me deixou nua na estrada, disse que tinha de ir, não podia se arriscar a perder o emprego, de modo algum. Pediu que eu esperasse. Ligaria a um amigo, que me traria roupas. Falei que podia ir, que não se preocupasse. Sei me virar sozinha, afirmei segura. Sabe?, ainda ironizou. Então, partiu. Não sei se chamou alguém pelo telefone. Aí você chegou, e me levou nua no carro, e já a manhã se anunciava. Gostou, não é mesmo?, está até a sentir maior o tesão! Agora goza, vai, despeja tudo dentro de mim, mas paradinho, viu, assim como eu, e aproveita, já estou soltinha...

quinta-feira, agosto 07, 2014

Você está tomando o momento de alegria

Você está tomando o momento de alegria, ele disse, e que alegria!

Você acha mesmo?, perguntei, quem sabe, o meu forte é representar.

Ajeitei a blusa, que me vinha até o umbigo. Verifiquei a bolsa. Virei para a direita, depois para a esquerda, sorri mais uma vez. Estou tomando o momento de alegria, repeti.


Eu chegara à casa dele às 7 da noite. Fazia calor, era verão, tudo parecia transbordar, inclusive o nosso ardor. Ele me abraçou e me beijou. Olhou a minissaia que eu vestia. Sorriu.

Você está linda!, fez um longo gesto, como seu eu fosse uma rainha.

Dei uns passinhos e me sentei na poltrona. Cruzei as pernas e esperei por ele.

A casa estava arrumada, a janela aberta mostrava o mar ao longe. Havia uma mesinha logo depois da poltrona e sobre ela um livro. Peguei-o e comecei a folheá-lo. Era um romance de uma escritora americana.

Lendo romances, afirmei voltando os olhos a ele.

É para aprender a lidar com vários tipos de situações amorosas.

Como a nossa, suspirei.

Isso, como a nossa.

Você está achando difícil?

Não, é um livro fácil.

Não falo do livro, mas da nossa relação.

Difícil, não, diferente.

Ele ficou parado junto ao braço da poltrona. Eu ainda segurava o livro.

Lembrei que na praia ele às vezes ficava envergonhado, acho que temia encontrar alguém que o visse ao meu lado.

Lembra a praia?, deixei escapar.

O que tem a praia?

Você sempre parece assustado. Já pensou, pode aparecer um amigo seu, e você ao lado de um ou melhor, de uma... como devo dizer?

Nada disso, não concordo, até gostei, sabe; você é corajosa, anda quase nua.

Nua?, você não sabe o que é andar nua.

Então, já que é você quem sabe, vou deixar você nua hoje...

Vai?, perguntei e me encolhi na poltrona, fiz de conta que procurava uma proteção, mas sabia inexistente.

Vou!, fingia ser um lobo mal, abriu a boca como se fosse me comer inteira.

Veja, mostrei a ele. Curta, a saia, não?

Já tinha reparado. Como você consegue?

Ah, isso é o que todos desejam saber. Acho que por isso é que me namoram.

Todos descobrem que você vem apenas com essa sainha sobre a pele?

Quase todos.

E o que eles fazem?

Querem me roubar a saia, afirmei e sorri.

Sério?, você acabou de me dar uma ótima ideia.

Se isso satisfaz você, tudo bem.

Ele me abraçou, e não demorou a me deixar nua.


No final, alta a madrugada, falou: vou fazer o que prometi.

O quê?, fiz-me de esquecida.

Você, nua...

Ri, num ligeiro arrepio. Vai sair um pouco mais caro, retruquei.

Não ligo, pago.

E como vou esconder?

Ah, acho que você é muito boa nisso.


Desci no elevador de serviço. Lá embaixo, o táxi.

Moço, não repare, estendi-lhe a princípio uma nota de cem, estou tomando o momento de alegria; o resto, resolvemos no caminho.