Uma coisa, Tatiana, é ficar de biquíni na areia; outra, no calçadão;
ainda outra, nas ruas internas de Copacabana. Você é louca, eu não tenho
coragem. As pessoas dizem que as mulheres que andam de biquíni fora da praia
não são daqui da cidade, são de fora, pensam que aqui é sempre férias, que tudo
é praia. E você, com esse biquíni mínimo, de lacinhos, todo entrado atrás, a
andar pelas ruas movimentadas, pessoas indo ao trabalho, ônibus circulando,
vendedores, lojistas, etc. Uma loucura. Tenho uma amiga que é igual a você. Se
quiser, te apresento. Ela anda quase nua. Mora sozinha, não tem parente nenhum, a única
amiga sou eu. Ela conheceu um cara na praia, assim como você costuma fazer.
Ficou com ele, namorou, passou a confiar nele. Um dia o cara deixou ela
peladinha, sem ter o que vestir, em plena luz do dia. Diz ela que namoravam aqui na praia e ficavam juntos o dia inteiro, depois costumavam ir
a um apartamento que ele dizia ser dele, ela sempre de biquíni. Como era
gostoso o homem, segundo ela. Um dia a história foi parecida com a que você
acabou de me contar. Ficou namorando o cara dentro d’água, ele tirou o biquíni
dela, treparam. Aliás, não sei como se pode trepar dentro d’água, é um estorvo.
Você diz que gosta, ela adora; e com o tal namorado, melhor. A água fria a
envolver as partes, como você também diz. Ela não sabe o que aconteceu naquele
dia. O cara sumiu, e deixou ela nua dentro d´água. Se ele morreu? Não, ela
disse que viu o cara uns dias depois. Não estou inventando pra criar terror em
você, não, ela mesma me contou. Como foi? Você é curiosa. Imagina, Tatiana,
imagina. Não, ela não saiu correndo de dentro d’água, esperou pra ver se ele
voltava. Eu já estava com ele há um mês,
tudo tão bom, não sei como um homem como ele pôde fazer isso comigo, ela disse.
Vá lá saber. Quando viu o cara algum tempo depois, ele nem se aproximou. Como ela
se virou? Disse que teve sorte, encontrou um senhor e ele resolveu a situação. O mesmo que ganhar na loteria. Já pensou? Também não sei se é verdade, pode ser invenção, você sabe
como são as pessoas, ninguém gosta de contar seus fracassos. Uma mulher sozinha,
sem poder recorrer a ninguém... Ainda bem que apareceu o tal senhor, repetiu. E ele deu um jeito. Acha que ninguém notou ela nua o tempo que ficou a ver navios (e a expressão cai tão bem!) dentro d’água. Depois, foi com o seu salvador, ainda ficou com ele naquele dia.
Veja que piranha, em vez de agradecer e ir embora, pedir o telefone para um
possível futuro contato, trepou com ele ainda naquele dia, e no apartamento
dela. Júlia, ela narrava, eu não podia ir embora, o cara me salvou, tinha de
transar com ele, mas eu não quis namorá-lo depois, não seria boa uma relação com um homem que conheci naquelas circunstâncias; já pensou quando a gente brigasse,
ele podia me dizer “te conheci nua, se não fosse eu você estava perdida,
piranha”. Conclusão, ele é bonito,
tem dinheiro, mas ela não ficou com o homem, apesar de ele ter procurado por
ela várias vezes. Ganhaste na loteria, não?, insinuei. Ganhei, mas não fui buscar o prêmio, afirmou categórica. Você, Tatiana, tome cuidado, não é sempre que aparece alguém
pra ajudar. Andas a cada dia ou a cada dois dias com um homem diferente,
vai que um deles seja louco; você sentiu um friozinho na barriga, Tatiana?, então
tá, goza, goza bastante, goza com o friozinho na barriga.
quarta-feira, abril 28, 2021
Ganhei mas não fui buscar o prêmio
segunda-feira, abril 19, 2021
Gênero de amor
Acho o maior barato o passeio que meu amigo faz todas as manhãs de sábado. Como ele mora na zona sul, anda por toda a orla de Ipanema e do Leblon. Durante a caminhada, me envia mensagens sobre o dia, sobre como está a praia, conta alguma coisa engraçada e me deseja bom fim de semana. Muitas vezes, tais mensagens vêm acompanhadas de uma foto. Elas alegram o meu dia e me dão energia, torno-me então uma mulher cheia de otimismo e bom humor.
Numa dessas semanas precedentes, marquei come ele um encontro para um café, no centro da cidade, numa confeitaria bonita. Conversamos durante mais de uma hora e meia. Contei-lhe alguns episódios da minha vida. Quando tinha vinte e poucos anos, viajei à Bahia, fiquei hospedada numa pousada, onde conheci um canadense. Apesar de eu ter ido com duas amigas, acabei ficando o tempo todo com o homem. Namoramos. Foi ótimo. Nas minhas férias seguintes, resolvi ir ao Canadá, ao encontro dele. Mas, quando cheguei lá, as coisas não deram muito certo, não saíram como eu esperava. Ele, tão afetuoso aqui, tão desprendido; no seu país, não agiu da mesma forma. Não teve o mesmo afeto, até mesmo me fez pagar tudo o que consumi. Será que, ao estarmos no nosso país, somos mais severos com as pessoas? Não sei, mas foi o que aconteceu. E, olha, caso ele tivesse desejado, eu teria me casado com ele, teria largado tudo e partido ao Canadá, mais precisamente a Montreal. Lembro-me de que, no aeroporto, no momento de eu voltar, ele me cobrou três dólares, que havia me emprestado horas antes para eu tomar um café. Meu amigo ouviu a história e disse foi uma pena, poderia ter dado certo. Não sei por que há homens que são assim, agem de um jeito quando são turistas e de outro quando não, tornam-se autoritários, afirmei. Quando acabamos o café e as torradas, pagamos a conta e saímos, era a rua do Ouvidor. Caminhamos na direção da Uruguaiana, meu amigo me acompanhou durante o trajeto e conversamos mais um pouco. Depois que se foi, fui a uma loja de roupas, onde, mais cedo, algo me interessou. Quando voltei para casa, pensei muito na tarde agradável que tivera. Ele até quis pagar a conta, mas não aceitei. Eu inventei esta história de virmos tomar um café, logo tenho de pagar, ele disse. Aceitei o convite, portanto também preciso contribuir, respondi. Ele riu.
É bom ter amigos; quanto a esse então, nem se fala. Quando
ele envia suas mensagens, coloco o fone de ouvido e vou para o meu quarto
escutar, sozinha, longe da minha filha adolescente. A seguir, respondo, na
maioria das vezes, gravo também a mensagem, e assim vamos vivendo. Sou apaixonada pelas pessoas e por muitas coisas, dei a entender. Ele parece
gostar de mulheres assim, como eu.
Quando conheci o tal canadense, eu vivia outra realidade. Minha ousadia foi tanta, que entreguei-me totalmente a ele. Uma das extravagâncias daquelas férias foi ficar nua na praia. O litoral onde a gente estava, naquele tempo, não era tão frequentado, e eu quis agradar o recente namorado aceitando tudo o que pedia. Quando senti a água morna do mar envolver todo o meu corpo, confesso que a experiência me elevou à milésima potência. Depois, ele veio me abraçar, e ficamos os dois dentro d’água, agarrados um ao outro, eu esquecida de que ia nua tanto era o gozo. Ao visitar seu país, minha intenção era a mesma. Quem sabe, ele me tenha achado uma mulher vulgar. Quanto a dinheiro, jamais fui interesseira. Sempre tive o meu trabalho para poder comprar o que desejasse.
Hoje, vivo sozinha. Fico feliz quando tenho amigos, e este que me manda mensagens é de uma alegria e tanto. Os seres humanos são complicados. Melhor assim, o encontro num café, o prazer de uma boa conversa, a troca de ideias. Uma aproximação saudável. À noite, deitada, ouvindo música, penso nele durante muito tempo. Sinto intenso prazer. Há quem diga que se trata de prazer sexual. Se for, tanto melhor. E vamos vivendo tal gênero de amor.
terça-feira, abril 13, 2021
Trepadeira
Deixe guardar no meu bolso, ele disse, notando meu desconforto. Não gosto dessas coisas, falei sem alternativa, foi você que teve a ideia. Estávamos no seu carro, um veículo largo, bonito, ele ao volante, tinha parado junto ao último poste da orla, de onde se podia descer à beira do mar ou caminhar à direita, para um local da praia que se mostrava quase selvagem. Nós temos minha casa, a tua, não entendo por que você quer aqui, no meio do nada, um desconforto. É a oportunidade, você não acha um tanto excitante?, ele. Nada disso, sou conservadora, você me conhece. Então, voltou ele à iniciativa, por que você tirou a calcinha? Ah, fiz uma fisionomia de vítima, foi você quem pediu, você sempre a me desafiar, a dizer que eu gosto de situações extravagantes, mas não é verdade.
Arrastou-me para perto de si, o vestido subiu mais um pouco deixando minhas coxas de fora. Espera, espera, por favor, assim vai estragar minha roupa, custou caro. Pronto, está satisfeito?, eu disse depois de tirar o vestido e colocá-lo no banco traseiro. Deslizou as mãos sobre o meu ventre, tentou beijar o bico dos meus seios, um após o outro. Assim, está bom, falou. Já pensou se surge alguém?, expressei meu temor olhando para um lado e para o outro. Está escuro, já é tarde, pareceu entender minha preocupação. O homem era forte, levantou-me, como se eu fosse uma pena, e posou-me atravessada, sobre seu colo, ele ainda vestido. Você não tem coragem de ficar pelado, ri depois da última palavra. Homem nu é muito feio, rebateu. Não acho, adoro homens nus. Ah, sabia, você gosta de todos os homens nus, não apenas eu. Claro, gosto de me divertir, você é mais um deles. Riu, beijou-me. Vá entender as mulheres, acabou sussurrando no meu ouvido enquanto deslizava uma das mãos descendo as minhas costas. Põe o peru para fora, vai, você está me deixando a mil. Meu peru desapareceu, ele disse, e apertou minhas nádegas, fez que meus seios roçassem sua blusa. Oh, desapareceu, como isso é possível, fiz ar de surpreendida, então vou sair correndo pela praia, quero um homem que tenha um peru, e um peru bem grande. Desci a mão direita para o fecho da sua calça e o abri, afastei-me de seu colo e mergulhei a boca sobre seu seu pênis, que cresceu mais ao sentir minha língua. Lembrei Olga, uma amiga que já não morava na cidade. Certa vez, para criar surpresa, enquanto chupava o sexo do namorado, numa situação muito parecida com a que eu estava, abriu de repente a porta do automóvel e pulou fora. O homem quase morreu do coração. Venha me pegar, ela gritou. E desceu à areia da praia. Ele demorou a pegá-la. É o que dá namorar mulher quinze anos mais nova. Eu ali, no entanto, não agiria destemperada. O que desejava mesmo era aquele peru imenso dentro de mim. Amor, vamos para casa, você tem razão, vamos trepar numa cama, alertou. Nada disso, agora quero aqui, você inventou isso, tem de assumir. Abri as pernas, um tanto desajeitada sobre ele, o volante a roçar minha bunda. Deve ser bom dirigir com o traseiro, deixei escapar, enquanto tentava fazê-lo penetrar minha xereca. Às vezes tenho vontade de algumas ações perigosas, como fez Olga ao correr nua. Você já saiu nua da garagem com um namoradinho de ocasião, ele disse, enquanto eu saltava sobe seu peru. Garagem?, fiz que não entendia. Manobra direitinho, vai, manobra e estaciona o teu Mercedes dentro da minha buceta; já viu garagem mais confortável? Não demorou, o homem gozou. Que mela mela! Saltei pela porta do passageiro e fiquei agachada, ao lado do carro, esperando a porra do namorado escorrer para o chão terroso da parte alta da praia. Depois de alguns segundos, falei: me dá, amor, está no teu bolso, vai ajudar resolver a situação. O que está no meu bolso? Não lembra? Minha calcinha.
terça-feira, abril 06, 2021
Traição, um conceito, apenas
Outro dia um amigo apareceu e me convidou para tomar um café. Aliás, não era bem amigo, mas colega de trabalho. Conversei com ele várias vezes sobre um projeto, ele achou muito interessante, depois me convidou para tomarmos um café numa cafeteria próxima. Disse a ele que seria melhor convidarmos outras pessoas, irmos juntos e conversarmos sobre o próprio projeto. Ele concordou, mas a ida ao café acabou não acontecendo.
Faz uma semana, o mesmo amigo estava no metrô, voltava para
casa. Encontrei-o na plataforma. Conversamos um pouquinho e embarcamos na mesma
composição. Quando estávamos quase chegando à estação onde devia saltar, quase
esqueci, foi ele quem me lembrou e, por fim, saltou junto comigo. O que você
vai fazer aqui, perguntei. Vou andar um pouco com você, convidar você a um
café, há um lugar ótimo aqui perto. Ele me convenceu a acompanhá-lo a uma
cafeteria. Entramos numa que fica na Santa Clara. Que lugar bonito, eu
tinha apenas passado pela rua e observado. Depois de sentarmos e fazermos
nossos pedidos a uma garçonete de gravatinha borboleta, olhei meu amigo e senti
uma ponta de prazer. Fazia muito tempo que eu não tinha um amigo homem, com
quem pudesse conversar e trocar ideias. Ele parecia estar gostando muito
da minha companhia. Depois que vieram nossos cafés e dois sanduíches, pensei
jamais saí sozinha com um homem depois que me casei, acho que estou traindo meu
marido.
Mudemos de parágrafo, para eu falar dele. Meu marido é uma
pessoa importante, gerente de uma agência do banco do Brasil. É lógico que não é santo, conhece muita gente, inclusive muitas mulheres. Mas é a profissão
dele, precisa encontrar quem compre os produtos do banco, como ele mesmo fala.
Às vezes viaja, fica vários dias fora, e não sei o que ele esta fazendo. Mas,
quanto a mim, não sei agir da mesma forma. Sou uma mulher fiel, jamais o traí.
Sei que toda mulher acha alguns homens atraentes. Mas o que meu marido me
proporciona, tenho certeza de que nenhum deles é capaz.
Meu amigo diante de mim, no café, sorria, sorria e bebia seu
expresso. Falava alguma coisa, poesia e romances, sei que as pessoas
dizem ah isso é literatura, não é verdade, mas o que é a verdade, ele
perguntava. O que é a verdade?, e eu não tinha pensado nisso. A verdade precisa
das palavras, ele continuava e ninguém melhor do que os escritores para
manipulá-las, sobre tudo os ficcionistas. A ficção não tem compromisso com a
verdade, por isso os romancistas se sentem bastantes confortáveis com suas
histórias, já os historiadores, os memorialistas, os escritores da área do
direito sentem vontade de inventar alguma coisa para acertar suas ideias, no
momento em que escrevem, porque nenhuma formulação linguística é capaz de dar
um sentido completo, apenas a do romancista, porque a formulação deste não tem
essa intenção. Comecei a lembrar das histórias contadas por meu marido,
histórias oriundas de suas viagens, muitas lacunas, etc. e tal e o que aconteceu
depois? Estamos esperando resposta dos superiores, ele diz. Mas jamais ouvi o complemento. Meu amigo falava da incerteza da linguagem, de que somos seres
incompletos porque a linguagem é incompleta. Nossa, vou enlouquecer, disse a
ele, isso me apavora. Ele segurou minha mão, tome mais um gole de café, o café
é a realidade fora da linguagem. Fiz o que me pediu. Ficamos a pensar, eu a
querer voltar para a minha realidade com todas as explicações e enunciados. Mas
seria possível? Toquei uma das mãos de meu amigo. Elas, tão suaves. Eu, meu
marido, meu amigo, somos todos construções linguísticas, porque nos tratamos
com as palavras. Impossível sair deste círculo. Talvez a saída seja quando nos
tocamos. Aí, a traição pode se tornar também uma construção linguística. Aliás,
pode nem ser mais traição, depende de como se conceitue o ato. Ah, meu amigo veio
para me embaralhar. Agora, já não sei onde a porta que dá para a rua.
terça-feira, março 30, 2021
Não quis incomodar
Dortothy deve ter sido uma mulher apaixonante. Depois que partiu, muitos homens vêm perguntar se eu tenho alguma informação sobre ela. O que posso dizer é que se mudou para os Estados Unidos. Ela morava no mesmo prédio que eu, ou melhor, no apartamento ao lado. Sempre quando alguém vem procurá-la, como não recebe resposta (seu apartamento está vazio), chama pelo interfone o apartamento mais próximo, que é o meu. Você há de convir, a gente esta aqui neste bar conversando, a cinquenta metros de onde moro, posso afirmar que jamais a vi nestes restaurantes da vizinhança, ou mesmo que tenha trazido namorados para seu apartamento. Aliás, uma vez apenas a vi com um homem. Ela entrava no prédio, era mais de meia-noite, enquanto eu saía. Conversamos algumas vezes, o que sei é através de sua própria voz. Sempre estava sorrindo e falava que os homens viviam atrás dela: veja só, há mulheres que desejam arranjar namorado, enquanto eu tenho de despachá-los, não sei por que tantos homens atrás de mim. Tal conversa pessoal só aconteceu uma vez, nas outras conversamos banalidades, como o preço do aluguel, o que se tinha para fazer num sábado à noite, uma receita de comida espanhola, coisas do gênero. Você pode me fazer um favor?, perguntou certa vez. Claro, respondi. Você pode me dar o número do seu telefone?, você entende, não?, pode acontecer alguma coisa, sou uma mulher sozinha, é bom ter alguém como contato, ela pediu. Deixei meu número. Mas ela nunca me incomodou, nem pessoa alguma me telefonou procurando-a. Sei de mulheres que, quando saem com um homem pela primeira vez, pedem para alguém ficar de sobreaviso. Não sei se era a sua intenção, não perguntei, nem nunca ligou pedindo a mínima coisa que seja. Você sabe, muitas mulheres se aventuram com homens de vários tipos, temem cair nas mãos de um malfeitor. Também não sei o que eu poderia fazer caso me telefonasse de madrugada pedindo qualquer tipo de ajuda. Vá que seja uma roupa pra voltar pra casa, tudo bem, aí posso ir até onde a pessoa está e ajudar, mas mais do que isso, impossível. Acho que existem mulheres que se sentem mais seguras quando tem alguém com quem podem contar. Mas Dorothy jamais me telefonou. Fico impressionada com a quantidade de homens procurando por ela depois que se foi, penso no que poderia ter de excepcional. Não consigo descobrir. Tive uma amiga, faz tempo, que tinha também muitos namorados. Ela não era daqui do Rio, foi numa outra cidade onde trabalhei. Certa vez, ao sair com ela, perguntei o que tinha de mais pra ter tanta audiência. Ela riu, deu de ombros e acabou me contando que os homens a achavam gostosa. E a mulher não era bonita, nem usava roupa curta. Certa vez, alguém me contou algumas coisas sobre ela, mas não acreditei. Em cidade pequena, existe muita fofoca, e o que me contavam não era possível. Acho que tinha um jeito especial de trepar que atraía todos eles. Cheguei a insinuar por que minha amiga não escolhia um deles para ter uma vida regular. Ela riu e disse que assim perdia a graça. Agora, voltando a Dorothy, até ela ir embora, não notei nada de extravagante. No final, veio me falar vou me mudar para os Estados Unidos, conheci um americano que está apaixonado por mim. Você vai mesmo?, ainda perguntei com a entonação de dúvida, de que poderia ser alguma coisa arriscada acreditar num homem e partir tão de repente. Ela disse agora acertei, tive mais de cem namorados, sabe quando você conhece um homem e diz é esse?, então, aconteceu. No dia de partir, perguntei se queria que eu a levasse ao aeroporto. Não, obrigada, já combinei tudo com um motorista. Na despedida, pediu caso alguém me procure, diga que me mudei para os Estados Unidos, só isso. Afirmou que manteria o meu contato, que eu poderia enviar mensagens, mas que não desse o número pra ninguém, agora ela estava comprometida. Riu após suas últimas palavras, antes de me beijar. Recebi uma mensagem dela logo nos primeiros dias, quando chegou, disse estar tudo bem, às mil maravilhas. Depois, silenciou. Quanto a mim, não quis incomodar.
terça-feira, março 23, 2021
O tal vazio
O vazio colocado por ele, entretanto, era de outra natureza.
terça-feira, março 16, 2021
Bem fundo
Amor, por favor, não, você sabe que gosto dos meus textos bem escritos, revisados à exaustão, não posso escrever agora, nesta situação. Eu sei que você tem muitas fantasias, inclusive a de me ver escrevendo peladinha uma história, mas é difícil ficar sentada aqui em frente ao computador cheia de tesão, doidinha pra trepar com você, a tentar escrever uma história. Tanto mais com você nu ao meu lado, com esse pinto durinho, eu a dar beijinhos na ponta. Não, por favor, amor, vamos deitar, amanhã escrevo. Lembra aquela vez, contei a você, dois homens me pediram a mesma coisa, era uma aposta, fiquei exausta, acabei escrevendo e publicando na mesma hora, pra interesse deles. Mas foi uma exceção, eu tinha um amigo que morava na Dinamarca, ele me dava tantos presentes, e ganharia a aposta. Acabei cedendo. Tenho uma amiga que me diz Célia, relaxe e goza, os homens estão sempre a te paparicar, a te dar presentes, se eu fosse você não pensava duas vezes. Mas, para quem está do outro lado, em frente ao teclado, não é a mesma coisa. Estou tão excitada. Não, amor, sei que você já me dá mil presentes, não precisa me pagar pra escrever. Não é assim que funciona. As coisas caminham assim nas editoras. Muitas mulheres aceitam qualquer coisa pra publicar um livro. É como na TV, pra conseguir uma vaga tem o teste do sofá, e agora está armado este circo todo, com as atrizes processando os homens por abuso sexual, assédio e até estupro. Amor, compreende, vem, vamos deitar, pronto dei mais um beijinho na ponta do teu pinto, você chega estar quente, e quer me ver escrevendo. Devia me comer, imediatamente, sem perder um minuto. Você gosta de fazer tudo com calma, nada de gozar logo, sei, tanto melhor para as mulheres. Fico pensando nas namoradas que você teve, não souberam aproveitar o homem que tinham junto a si. Ah, adivinhei, elas não era escritoras, caso o fossem e escrevessem peladas às duas e trinta da madrugada estariam com você até hoje! Você só quer namorar escritoras, e vê-las escrevendo nuas, e vendo-as publicar imediatamente após terminar o texto. Mas, amor, um texto nunca está terminado, tanto mais a gente lê, mais encontra algo que não agrada, precisando ser modificado. Quando se publica um conto ou um romance, é porque é preciso sair o livro, caso permitissem a gente ficaria revisando a vida inteira, e sempre acharia ainda o que modificar. Mais um beijinho, abaixe aqui, viu, isso, quero a tua língua, bem gostosa, está quentinha também. É por que você espera pelo meu texto? Não, amor, você precisa ceder, não pode fazer isso com uma mulher, obrigá-la a algo que ela não quer, é como um estupro. Você não entende assim? Verdade. Nada disso de relaxe e goza, comigo não funciona, aliás, só funcionou uma vez, e eu não gosto de falar sobre. Não, claro que não, amor, não vou escrever sobre o que aconteceu. Acho que já até escrevi, não lembro. Talvez se procurar entre todos os meus textos, há alguma referência. Agora quero namorar. Caso escrevesse alguma coisa hoje, seria sobre vir à casa do namorado pra trepar com ele. Escreveria é ótimo ter um namorado que nos convide para ir ao seu apartamento, por isso é importante arranjar namorado que não seja comprometido. Então, no apartamento, ele me serve uma taça de vinho tinto, coloca música; sento, cruzo as pernas e fico olhando a ele. Assanhada. Mas nada de tirar a roupa logo, aguardo. Seria uma história delicada, de amor e carinho. Sem chances de ser diferente. Acho que já escrevi sobre uma vez que deitei na cama de um namorado vestida inteirinha e ele me disse você vai ficar toda amarrotada, deitei mesmo assim, depois de uns apertos e uns beijos fiquei toda amarrotada mesmo! Começamos então a rir, ele disse tenho ferro elétrico se você quiser passar, ou empresto uma roupa minha, as mulheres adoram roupas de homem. Amor, já falei demais, nada de escrever agora, vamos pra cama, já estou levantando, me abraça, adoro quando você me abraça apertado, me encosta na parede, eu nua. Isso, amor, assim, assim, vamos deitar, amor, estou ficando toda molhada, não posso mais resistir. Amanhã. logo ao acordar, escrevo a história pra você, prometo, também publico imediatamente, vou vencer minhas neuras de revisar um texto ao infinito. Agora vem, amor, isso, amor, um carinho bem gostoso, assim, é como gosto, a literatura fica pra depois. Ai, amor, ai, você sabe que gozo várias vezes, não para, não, não para, mete, mete bem fundo...
segunda-feira, março 08, 2021
Não me deixa faltar
Ele me enviou uma mensagem dizendo teu aniversário passou mas não esqueci, ainda é tempo de te dar um presente. Tal namorado (nomeio namorado porque sempre está cheio de amor por mim) só tem uma exigência, que eu vista um vestidinho de tecido fino, minha pele lisa por baixo, apenas, deixando-o cheio de tesão. Outro dia pensei não posso atender seu pedido, tenho minha personalidade, não é meu modo costumeiro de vestir. Além disso, acabo sendo objeto de admiração de todos os outros homens. Às vezes vêm atrás de mim! Mas ele me paga de duzentos a trezentos, apenas para ir com o vestidinho e lhe dar um beijinho na hora de ir embora. O envelope, tira-o do bolso do blazer, branco que só. Abro quando estou sozinha, em casa. Fico numa tremenda dúvida, vou ou não? Leio a mensagem no celular. Houve uma vez quando usei um macaquinho, as pernas morenas de fora, as costas, os ombros morenos leitosos, o homem não aguentou, pude reparar direitinho. Tenho uma amiga que não vê problema nenhum aceitar estes pedidos, diz que tem uma conta no Instagram, entra em contato com os homens, não demora a declarar que está apaixonada, passa uma semana diz que no banco sua conta vai no vermelho, alguém a assedia por causa de uma dívida, será que ele não pode lhe depositar quinhentos reais? De início, o recente namorado se assusta, mas acaba depositando se não o total, pelo menos a metade. Ela envia uma porção de fotos para ele, deitada, sentada, de pé, sempre nua. Outro dia disse vou tomar uma ducha, e logo mandou duas fotos dela nua no banho. O homem esperou com impaciência. Mas quanto a mim, tenho certo receio. Não abri conta no Instagram, me basta o Zap, o Facebook, a quantidade de homens atrás de mim é alta, mas adivinhem o que eles querem. Não posso dar pra todo mundo. Fica chato. E olha que gosto à beça de transar. Este que me gosta de vestidinho leve e fino é tão delicado, tem conversa boa, me leva pra lugares agradáveis. Pena que só trepei com ele uma vez. Não sei por que não saímos mais vezes, acho que falta de oportunidade. Não é tão bom de cama como outros homens que conheci e que conheço, mas adora minhas histórias. No dia em que trepamos, contei uma sacanagem no ouvido dele, o homem ficou logo de pau duro, pediu que eu o chupasse nos intervalos da narração, (contei uma história louca, do dia em que fui à praia em Mangaratiba com um biquíni mínimo do mínimo) acabou gozando dentro da minha boca. Não tive coragem de cuspir sua porra. Até que estava gostoso, tudo no fim me rendeu 500 reais. E o saborzinho pareceu de chocolate! Agora, foi meu aniversário, deixa de bobagem, Zilda, falo comigo mesma, tudo se resolve em quarenta minutos. Mas dessa vez, se além do presentinho pudermos ir de novo a um hotel, quero que meta lá dentro, bem fundo. Conto a história da Juliana, biquíni de lacinhos, amarradinho no tornozelo do namorado, na praia de Muriqui, os dois dentro d'água, mas pela minha voz a protagonista sou eu e o homem este sobre a cama comigo! O namorado é mais velho que eu doze anos, mas, depois de minhas historias, não vai me deixar faltar.
segunda-feira, março 01, 2021
Pelas próprias mãos
segunda-feira, fevereiro 22, 2021
Fico nua pra você, pronto
Uma amiga veio conversar comigo.
– Lena, como você tem
sorte, não estou colocando olho grande, não, mas você sempre está com namorado. – Ela estava segurando um pacote, algo que tinha comprado numa loja
do centro, passa sempre pela minha casa, é seu caminho. Eu estava saindo, ela
aproveitou para me segurar um pouco.
– Posso te perguntar mais uma coisa, você não fica
aborrecida? – insistiu.
– Claro, pergunte.
Passou um carro, o motorista diminuiu a velocidade, buzinou
e me deu um adeusinho.
– Então – continuou, – você já namorou tanta gente aqui na
cidade, e permanece amiga dos homens, não tem nenhuma vergonha.
– O que você quer me perguntar mesmo? – alertei.
– É isso. Você não tem vergonha quando encontra os homens
com quem você já saiu, já namorou?
– Não. Por que teria vergonha?
– Não sei, mas eles já viram você nua, já transaram com
você.
– Eu também já os vi nus, já transei com eles!
Ela arregalou os olhos
– Mas para uma mulher, é diferente.
–Você acha? – demonstrei curiosidade.
– Acho, não consigo, juro, morro de vergonha quando encontro
um ex-namorado.
Ela falou mais algumas bagatelas e se foi. Carregava com
cuidado o pacote, acho que um presente.
No dia seguinte, encontrei ao acaso Edivaldo, no calçadão. Ele me
beijou e foi logo falando:
– Mulher mesmo é você, tenho saudades do tempo em que fomos
namorados.
– Verdade?, mas foi você que terminou. Tem tesão por garotas,
eu já sou velha pra você.
– É verdade, escute só essa história.
Começou a contar sobre sua nova namorada de vinte e um anos.
Ele tem cinquenta.
– A garota me pede tudo. Cem, duzentos, quinhentos
reais. Acho que já deixei uns três mil na mão dela. Um mês de namoro.
Dei uma grande gargalhada.
– Mulher jovem é assim mesmo, é preciso pagar.
– O problema não é tanto esse, é lógico que despesa demais
me atrapalha, o caso é que ainda não consegui trepar com ela – falava baixo,
olhou ao redor para ver se alguém nos escutava.
– Jura?
– Por que iria mentir? A gente sai, passeia, vai a todos os
locais, na hora de trepar, ela inventa uma desculpa.
– Vai ver é virgem.
– Sabe que já pensei nisso? – ele me olhou com certa
convicção. – Não se pergunta essas coisas a uma mulher, não é mesmo?
– Depende, caso se pague tanto, você tem direito de fazer
algumas perguntas. – Ri, ele também.
– Outro dia aconteceu uma coisa estranha. Falei com ela que
assim não era possível, ficar nessa história, como dois adolescentes. Começou
então a chorar. Ela anda sempre com roupas curtíssimas, até perguntou se eu não
me incomodo. Não, claro que não, respondi. Ela vestia uma minissaia e camiseta.
Chorou e chorou. Enfim, disse, você quer mesmo é me ver nua. A gente estava no
carro, voltávamos de Búzios, tínhamos passado o dia na cidade. Tirou então a
saia e ficou de calcinha, no banco do carona. Pare o carro, por favor, pediu.
Parei. Ela acabou de tirar a roupa, lançou todas as peças no banco de trás.
Fico nua pra você, pronto, dirija agora, me leve nua pra nossa cidade. Mas te
peço um favor, não quero transar hoje. Chegou-se pertinho de mim, pegou uma das
minhas mãos e colocou sobre sua perna, aproximou o rosto e me beijou na boca.
Vai dirige, pediu.
– Tenha um pouco de paciência, quem sabe ela esteja com
receio, de repente ainda não despertou para o sexo, você sabe, as mulheres
demoram.
– Ah, sim, isto é certo. Mas quando aprendem, há algumas que
dão pra todo mundo – disse olhando pra mim.
– Todo mundo?, ah, quem dera, há aqueles que me acham velha,
não consigo dar pra todo mundo.
– Não, desculpe, não foi isso que eu quis dizer.
– Não foi, mas disse. Vá procurar sua namorada, ensine a ela
alguma coisa boa, ela vai cair como uma manga madura nas tuas mãos.
– Você acha? – perguntou animado.
– Não sei, acabei de dizer isso, mas, na verdade, acho que
ela quer o teu dinheiro, vai aproveitar enquanto pode. Convide a mulher para uma
viagem, uma viagem de avião, um lugar bem longe. Quem sabe você assim consegue.
– Sabe – olhou e aproximou o rosto para se despedir, tentando me beijar, – foi bom conversar com você. Vou pensar nisso. E, olha, se precisar de mim pra alguma coisa, é só telefonar, como aquela vez. Lembra? Às três da madrugada, no Hotel Prata, fui buscar você, mas até hoje não me disse o que aconteceu.
– Ah, deixa isso pra lá, você adora essa conversa, obrigada
mais uma vez.
Ele partiu, feliz em dobro, com a namorada por sabê-la fresca e jovem; comigo, porque lhe dou tanta atenção.
segunda-feira, fevereiro 15, 2021
Me agacho e fico escondidinha
Tenho um namorado que me conta histórias no momento do amor. Muitas mulheres já viveram experiências semelhantes e muitas ficariam envergonhadas caso escrevessem o que ouviram. Como tais histórias sempre mexem comigo, despertam-me sensações que não viveria sem elas, acho importante narrá-las.
Certa vez, no trabalho, tive uma amiga que dizia que contava
sacanagem no ouvido do namorado no momento do sexo. Por isso, não havia homem
capaz de deixá-la. Caso quisesse, poderia ainda estar com todos os homens que
conheceu, tal era o poder que suas histórias exerciam sobre eles. “Minhas
histórias são uma varinha de condão, deixo todos enfeitiçados, sem elas não
tenho poder algum. O pior que me poderia acontecer seria não mais poder contá-las.”
Uma das histórias que meu namorado contou tinha a ver com uma
bolsa de butique, na qual sempre me traz presentes. Como sabe o ponto fraco
das mulheres, está sempre no shopping a me comprar roupas e outros objetos. Eu
estava vendo um programa de TV, olhe que vestido lindo. Na semana
seguinte, lá veio ele com o vestido dentro da bolsa. Olhe que chapéu delicioso.
Dois dias depois, o chapéu sobre minha cabeça. Olhe o foulard, maravilhoso.
Não demorou três horas eu o recebi.
Acho que essa bolsa é encantada, disse eu, tem sempre coisa
bonita dentro. O que a tornou assim tão plena de magia?
Ele vem, então, me beijar. Beijo demorado; eu, segurando a
bolsa.
Vou te fazer uma surpresa, disse a ele. Você me dá tantos
presentes, me conta tantas histórias estimulantes, logo merece uma surpresa bem
excitante.
Chegou o dia da minha façanha. Agarrei o homem e comecei a
beijá-lo, a apertá-lo. Tirei a roupa, me atirei nua no colo dele. Meu corpo
quente eu esfregava no dele. Tirou a roupa e deitamos. No meio da quentura do
amor, falei você não quer me levar pelada pra passear? Pelada?, a tal surpresa.
Ele, que me dá tantos presentes, ia me levar nua por aí.
Acho que chegou a refletir se era uma atitude sensata.
Amor, vou nua, mas levo a roupa na bolsa de butique.
Façamos melhor, ele estava eufórico. Você vai nua, eu trago
a bolsa com roupas novas.
Namoramos com mais entusiasmo. Deixei que gozasse dentro de mim, tão excitada eu estava.
Chegou o dia de passear nua. Saí da casa para o
quintal e dali para a garagem. Corri à direção do carro. Estava como vim ao
mundo, só que vinte e três anos depois. Depois de me abrir a porta do
passageiro, deu a volta e entrou. Não vi a bolsa em suas mãos, mas nada
perguntei.
Dirigiu à orla marítima de M. Deu várias voltas. Vamos
saltar, falou quando chegamos ao final da praia. Como estava escuro, descemos
até perto da beira d’água. Sua estatura maior cobria minha nudez. Ficamos agarrados um
ao outro por vários minutos.
"Amor, pegue a bolsa, pode aparecer alguém, nesse lugar sempre
aparece algum desavisado."
"Bolsa, que bolsa?"
"A de butique, com minhas roupas novas dentro."
"Amor, ainda preciso comprá-las", falou achando que era a
proposta da tal aventura.
Confesso que depois de suas últimas palavras, fiquei
molhadinha.
"Amor, toca aqui, sente o que aconteceu."
Ele não resiste. Lógico que não tira a roupa, mas põe o pênis para fora e, ali mesmo, me penetra.
"Mete, amor, mete bem, depois que acabarmos vamos ao shopping, não tem problema, me agacho e fico escondidinha dentro do carro", falo enquanto ele me come.
segunda-feira, fevereiro 08, 2021
Por isso não se arrependem
segunda-feira, fevereiro 01, 2021
Outras necessidades
Você ainda dá pra todo mundo?, ele me perguntou, não sei se achou que eu ia ficar aborrecida; sorri, dou, você sabe que adoro trepar. Lembro daqueles tempos, quando você conhecia alguém ia logo se aproximando, deixava os homens maluquinhos, trepava no mesmo dia que os conhecia. Ainda trepo, caso isso aconteça, o problema é o homem adivinhar que é possível, porque não vou sair convidando, ele vai pensar que sou piranha. Veio à minha cabeça uma história que você contou, na época pensei que fosse uma invenção sua. Que história? Aquela em que você estava esperando o ônibus, o homem parou o carro e te chamou, ofereceu carona, te levou, parou na pracinha do Alto e você trepou com ele, dentro do carro, que tinha vidros escuros. Hum, deixa ver se lembro, acho que já fiz isso mais de uma vez, ah, sim, eu estava de bermudinha, a minha única exigência foi que transássemos de camisinha, ele tinha camisinha, sim, mas você não imagina quantas vezes já saí com homens depois de uma carona, já trepei também voltando de festas, de chopes, de cinema, prefiro que me levem pra um hotel, não gosto de namorar dentro de carro, mas, em último caso, é a solução. Nunca aconteceu nada, com você?, não é perigoso? É perigoso, sim, mas eu não ligo, acabo convivendo com o perigo, teve uma vez que trepei nua, fora do carro, achei que o homem fosse embora me deixando pelada, foi na época em que a orla do recreio era mais deserta, não tinha tantos prédios, agora não dá mais, uma vez conheci um homem na praia e deixei que ele tirasse meu biquíni, fizemos amor dentro d'água, mas confesso que não é muito agradável, bom mesmo é conhecer um homem na praia mas que tenha apartamento próximo, a gente acaba indo pra lá no fim do dia e faz um amor muito gostoso. E como você faz pra voltar pra casa de biquíni, já tendo ficado de noite? Isso não é problema, levo uma minissaia na bolsa, uma vez voltei de biquíni mesmo, nem liguei; já que você falou de perigos, houve um que pediu pra me amarrar, eu deixei, e foi gostoso, ele não só me amarrou, mas colocou um esparadrapo cobrindo minha boca, jamais gozei tanto, no auge da trepada ele disse que ia me deixar amarrada enquanto desceria pra comprar cigarros, eu só conseguia falar hum, hum, e o homem se vestindo, eu hum, hum, mas ele acabou não indo, ainda bem que eu fumava e tinha cigarros pra dar a ele, gozei muito, a loucura incentivou. Você, então, já passou por tudo. Tudo, não, ninguém nunca me bateu, nem me machucou, nem me largou nua por aí, e mais uma coisa, a camisinha; tenho uma amiga que diz pode faltar a calcinha, mas não a camisinha. Ah, sei, mas como o homem precisa fazer pra trepar com você, como ele precisa falar? Ah, cada um tem seu jeito, uns falam, outros vem abraçando, outros querem logo tirar minha roupa. eu digo calma, deixa que eu me dispo; tenho muito cuidado com o que visto, porque não tenho tanto dinheiro pra ficar comprando roupas novas. Hum, entendi, e se o homem te perguntar, direto você trepa comigo?, o que você reponde? Não sei, na hora eu vejo, mas na maioria das vezes eu rio, e abraço o homem, já sei o que eles querem, não acontece como agora, entre mim e você, porque sei que você é meu amigo, não está aqui com a intenção de trepar. Não tenha tanta certeza, quem sabe. Você quer transar?, sério?, não acredito, e olha que já não trepo faz mais de um mês; mas somos amigos, não vamos estragar nossa amizade, uma trepada não vale mais do que uma amizade verdadeira. Isso, você tem razão. É verdade, a amizade é mais difícil de se manter, nunca consegui ficar amiga de homem nenhum com quem trepei, e veja, já trepei com mais de duzentos, trezentos, sei lá; quanto a você, somos amigos faz duas décadas, não é mesmo?, jamais trepamos, e sempre nos procuramos pra outras necessidades.
segunda-feira, janeiro 25, 2021
Troféu
A gente lembra das pessoas e sente saudades. Esses tempos de
quarentena aproveitei para arrumar algumas coisas e encontrei as fotos. Éramos
cinco. Eles e eu. Quero dizer, quatro homens e uma mulher. A casa, em Búzios.
Isso mesmo, eles tinham uma bela casa, nos fundos uma quadra de vôlei. Adoravam
jogar. Formamos um time misto, quatro homens e uma mulher, faltava sempre um,
ou uma. Não importa, diziam, a gente arranja alguém para completar. E sempre
ganhávamos. Mesmo que o sexto não jogasse bem, ocupávamos os espaços dele.
Jogávamos nas areias da praia, nos fundos de casa, no clube local. Todas as
vezes que estávamos na cidade, vinham nos convidar. Vôlei e mais vôlei. No
final da tarde, eu mergulhava, exausta. A água do mar me revigorava. Saíamos à
noite, sempre juntos, sempre os cinco.
Preciso um parágrafo à parte para as noites. Imaginem uma
casa com quatro homens e apenas eu de mulher. Uma mulher quente, como sempre sou.
Dormia na sala. Estendia um colchão, cobria com um lençol e deitava nua dentro
de uma camiseta. Eles me conheciam. Não demorava, no escuro da madrugada, sentia
um deles encostado a mim. Eu, de costas, curvada; ele, a contornar minhas
curvas, a completar meus vazios. No dia seguinte, amanhecia sozinha, toda
preguiça, eles corriam nas areias da praia. Não preciso de tanto exercício,
murmurava, sou levantadora. Na noite seguinte, alguém de novo às minhas costas,
e eu sempre nua, mulher de todos. Nunca nada comentamos.
A foto: um time de vôlei, quatro homens e uma mulher. Na hora da foto, o que completava não aparecia. Éramos uma equipe ímpar.
Certa vez me virei de frente. Vou descobrir meu namorado de hoje. Mas eles eram
hábeis, conseguiam esconder a face. E eu, na verdade, não me esforçava para
saber quem era. Amava todos e não desejava estragar a relação. Minhas mãos e
minha boceta conheciam todos os perus. Sabia eu também seus movimentos. Mas
como saber de quem era durante o dia se todos iam de calções, shorts, bermudas?
E não se mexiam sob a luz do sol como na hora do sexo.
Passamos o verão inteiro vencendo todas as partidas. Completávamos noites e madrugadas também vencendo no amor, sobre o colchão. Uma das vezes, na praia, mergulhamos os cinco, abracei e beije a todos, estava tão feliz. E eles me carregaram nua, como se tivessem conseguido uma sereia. Ou, quem sabe, o troféu de todo o campeonato.
segunda-feira, dezembro 21, 2020
Prostitutos
terça-feira, dezembro 15, 2020
Refúgio
No final de Cavaleiros, quando havia o quebra-mar, certa vez encontrei um refúgio. Ficava a cinquenta metros do que seria o entroncamento com a Praia do Pecado, e dois metros abaixo da calçada. Quem passeava pelo local não dava por sua existência, porque a tendência era olhar na direção da beira da praia. Acho que houve, ali, um quiosque, por isso alguém escavou a parede, talvez com a intenção de guardar garrafas ou outro tipo de mercadoria. Quando o encontrei, estava deserto. Como estou sempre ali, num canto tranquilo da praia, onde tomo sol e posso ler revistas e livros, acabei descobrindo-o. Fui investigar. Quem o utilizou chegou a fazer uma entrada lateral, esculpiu dois degraus na pedra. No total devia ter nove metros quadrados. Havia ainda uma espécie de entrada de luz, na verdade uma fenda na pedra. Caminhantes que olhassem de longe só o descobririam se muito meticulosos. Era preciso aproximar-se, agachar-se, só então se descobriria a entrada.
Algumas amigas perguntam o meu local predileto da praia, se em
Cavaleiros ou no Pecado. Evito revelar. Quando muito, digo que tomo banho de
mar em frente ao Country. Mas não é verdade. Não quero ninguém a me perturbar. Amo
a liberdade, a beleza do mar e o calor do sol, principalmente na meia estação.
Por isso, estou sempre sozinha. Às vezes, aparece alguém para conversar, contar
um caso, ou destilar suas mágoas. Permaneço, porém, impávida, não falo nada de
mim, não conto meus desejos nem o que faço. Lógico que observo se há alguém que
me agrade. Quem sabe um homem para apreciar de longe, ou um namorado sem grandes
envolvimentos. Tenho conhecidas que falam demais, contam seus problemas e
frustrações. Há mesmo quem conte seus casos com os homens, como Nara. Diz que
já trepou com não sei quantos, aqui da cidade. Procura manter as aparências, tem
cara de quieta, mas age de modo contrário. Seu último namorado era um homem
casado. Vinha apanhá-la na praia, levava-a a um hotel e depois a devolvia
à mesma praia. Quando o tempo muda e começa a ventar e não é possível mais a
praia?, cheguei a perguntar. Aí tenho de
me virar. Talvez ela, caso descubra o esconderijo, entre nele com um homem.
Para namorar, é claro. Sorrio e volto à minha leitura.
Entrei no refúgio e pude verificar se estava sujo, ou cheio
de areia. Havia areia, sim, trazida pelos dias de vento forte, mas, para quem
ama a liberdade, era possível esconder-se, guardar algo, ou mesmo trocar de roupa.
Numa quarta-feira cheguei à praia às seis e trinta da manhã, para
caminhar e dar um mergulho. Depois de andar de uma ponta a outra, fui ao
esconderijo. Queria saber se alguém estivera lá. Qual minha surpresa quando descobri
uma bolsa de butique, num dos cantos, dessas que se ganha quando se faz a
compra de uma roupa cara. Abri-a com cuidado, temendo qualquer armadilha.
Encontrei um vestido, de fazenda fina, acho que da mesma marca escrita na bolsa. Fiquei a imaginar quem o poderia ter deixado ali, correndo o risco de
ser encontrado e levado. Mas
não o levei. Enfiei-o de volta na bolsa e a coloquei no mesmo lugar. Pensei
esconder-me e ficar à espreita da visitante que viria buscá-lo. Mas não pude, e
acho que não teria paciência. Mergulhei, na parte da praia onde começa o
Pecado. Depois, juntei minhas coisas e parti. Tinha de trabalhar.
Numa quinta-feira, por volta de meia-noite, eu deixava o
Ilhote, onde havia encontrado uma amiga. Comemos, bebemos e colocamos nossos
assuntos em dia. Ela viera de carro e eu também. Na hora de partir, porém,
decidi ir ao tal esconderijo. Seria perigoso? Se fosse, eu não levava em conta
o tal perigo. Dirigi até a ponta da praia. Ao parar, permaneci ainda dentro do
carro durante um bom tempo, queria me certificar se havia alguém ao redor. Saí do
automóvel, todo o cuidado era necessário. A lâmpada de um poste, a cinquenta
metros, orientava o caminho, mas, ao mesmo tempo,
revelaria minha presença. Caminhei na direção contrária, onde as sombras eram
mais densas e me protegiam. Agachei-me quando cheguei junto ao refúgio, olhei
mais uma vez em volta e coloquei a cabeça na pequena entrada. Não havia viva
alma. Iluminei o celular e entrei. Verifiquei todos os recantos. Vi a
bolsa, mas era outra, menor, e a loja estampada no papel era de roupas de banho.
Direcionei a luz ao interior da bolsa e descobri o que ela guardava. Um biquíni
de praia, duas peças, muito pequenas, manequim talvez 40 ou 42. Caberia no meu
corpo, poderia tê-lo tomado para mim, estava ainda envolto naquele papel fino
que as vendedoras utilizam para proteger a peça. Mas deixaria suspeita. Alguém
teria descoberto o esconderijo. O jogo terminaria. Deixei tudo no local e
parti. As conclusões ficariam para o dia seguinte.
Passaram-se duas semanas. Vieram várias frentes frias, o
tempo fechou, choveu durante vários dias. No primeiro dia de sol, o calorzinho
da manhã convidou-me à praia. Primeiro, a caminhada; depois, o mergulho. Mas
não fui ao esconderijo. Sentei e li uma revista. Um homem veio me pedir fogo. A
noite de quinta-feira, no entanto, aprontou-me duas surpresas. A primeira: a
amiga que marcou encontro comigo no Ilhote não apareceu. Telefonei continuamente,
mas o telefone dava caixa postal. Fiquei sozinha no restaurante. Tal
atitude despertou interesse numa mesa onde quatro homens jantavam. Um deles, duas dezenas de minutos depois, passou por mim e tentou falar algo em meu ouvido. Como não dei atenção, foi
embora. Depois, alguém deixou um pedaço de papel. Não cheguei a abri-lo. Os
homens eram barulhentos e gesticulavam muito, tinham aspecto de que trabalhavam
nas empresas de petróleo. A cidade, à noite, fica cheia deles, nos bares e
restaurantes. Quando foram embora, permaneci mais um pouco, tentei ainda falar
com Marília, a tal amiga, mas continuei sem resposta. Tomei ao todo duas taças
de vinho tinto e fiquei apenas na entrada, carpáccio de salmão. Quando decidi
partir, lembrei-me do refúgio. Como já estivera lá numa noite, resolvi dar outra
olhada. Agi da mesma forma como da primeira vez. Estacionei o carro num local
escuro, desci à areia pelo lado contrário à iluminação da rua, andei próxima ao muro de proteção à maré alta. Assim, ninguém me veria. Quem
vem na calçada tem a tendência de olhar à beira d’água e não para baixo. Ao
chegar perto do refúgio, o poste próximo ficou às escuras. Dei a volta, até a
pequena fenda de entrada de ar. Escutei, então, gemidos de mulher. Depois, pude
distinguir o que ela dizia. Senta, vai
ser melhor assim, pedia, deixa que eu
vou por cima, cavalgo sobre você, isso, assim, assim, mas, puta merda, você não
trouxe a camisinha, isso não pode acontecer, mas vai, tenta não gozar dentro,
por favor, isso, ai, está bom assim, que gostoso, olha que vou perder a cabeça,
mas você não perde, não, por favor, sem camisinha é um problema, mas vai, vai, se segura. A voz dela era clara, cheia de desejo, o homem nada dizia. Afastei-me
trinta metros e deitei-me sobre a areia. Quando saíssem, queria saber de quem
se tratava. Mas, dez ou quinze minutos depois, apenas o homem saiu. Escutei-o
subir ao calçadão e desaparecer na escuridão. Depois, ao longe, o motor de uma
moto mostrava que ele se afastava. A mulher só, lá dentro, deixava-me curiosa. Caminhei de novo
e olhei pela fenda. Ela fumava, a claridade do cigarro produzia algumas sombras
e dava para ver o seu perfil, ainda estava nua. Em um momento se levantou, deu
dois passos e chegou à saída do refúgio. Atirei-me para trás, encolhida. Ela caminhou
até a beira e entrou na água. Tinha o cabelo muito curto e pareceu mesmo nadar
um pouco. Num ímpeto, entrei no refúgio, olhei o que havia lá dentro. Nada. A
mulher ficara sozinha, e sem o que vestir. Voltei-me e escapei. Deitei-me
novamente no mesmo lugar onde me escondera assim que chegara. Depois de um
quarto de hora, ela voltou ao refúgio. Foi então que decidi partir. Ela vivia
uma situação perigosa, e eu não queria me misturar a tudo aquilo. Cheguei a
correr dali, atingi o local onde estava o meu carro, ofegante.
Enquanto dirigia de volta, pensei que poderia ter ido a ela e
oferecido ajuda. Mas será que ela estava em dificuldades, será que desejava ajuda?
Há gente para tudo nesta vida.
No dia seguinte, Marília me telefonou, pediu mil desculpas por ter faltado ao encontro, disse que depois me contaria o que aconteceu. Uma ou duas semanas mais tarde, encontrei-a ao acaso, no calçadão, estava bonita, sempre de cabelo bem curto, parecia um rapaz. Desculpou-se mais uma vez, mas não tocou no assunto.
Meses depois começaram as obras de remodelação da orla
marítima de M. O tal refúgio não demorou a desaparecer.
segunda-feira, dezembro 07, 2020
Vem comer meu pão de ló
Fui eu a culpada, numa das últimas mensagens a ele escrevi aproveita pra me telefonar porque vou me casar, depois não quero mais conversar com outros homens. A mensagem deu a entender que eu ainda queria falar com ele, mas ele nada respondeu. O homem foi alguém muito especial pra mim durante um bom período. Namoramos, chegamos a viver juntos. Depois cada um seguiu sua vida. Faz uns três ou quatro anos, nos reencontramos. Ele telefonou algumas vezes, chegou a vir aqui. Em todas, acabamos fazendo amor. Não consigo resistir às histórias que ele conta, na verdade são cantadas, caio em todas elas direitinho, muito sedutor o homem. Na última vez, veio resolver um problema aqui na cidade, depois passou na minha casa, ficamos conversando um bom tempo. Num momento, resolvi lhe mostrar um vídeo onde eu estava nua. Ele logo falou você está tão bonita. Que nada, estou gorda, já não sou jovem. Não, não, você é muito bonita e gostosa, acrescentou. Cinco minutos depois, eu estava nua, ele fazendo carinho nas minhas costas, uma espécie de massagem. Que tesão! Daquele dia pra cá, nos falamos apenas por mensagens, ele sempre dizendo você é muito gostosa. Agora tenho namorado, rebatia, nada de se engraçar pro meu lado, viu? Precisei de dinheiro, pedi a ele. Depositou trezentos e cinquenta reais na minha conta. Quando for aí, te faço um carinho. Nada disso, retruquei, agora tenho namorado, quero ficar apenas com ele. Então, mesmo eu já tendo enviado duas mensagens, ele não mais entrou em contato. Acho que foi por causa da tal mensagem lá no começo. É importante não definir as coisas, não se sabe o dia de amanhã, é o que diz uma amiga. Pode ser que esteja certa. Vamos supor que amanhã eu volte a estar sozinha, ele vem aqui e a gente pode dar uma namoradinha. Quando me olho nua no espelho, penso nele, você é muito gostosa, mesmo com essa barriguinha. Barriguinha?, você acha mesmo que isso é barriguinha? O problema é que, agora, estou com a maior vontade, e meu namorado anda longe, trabalhando em outra cidade. Os homens aqui me paqueram, mas não vou trepar com um deles, logo fico mal falada. Mas o meu amigo, caso aparecesse, até que seria uma solução. Por que fui cair na besteira de enviar a tal mensagem? Você é muito confusa, Nete, diz minha irmã, não sabe aproveitar as oportunidades. Às vezes conto das minhas pra ela. "Se eu tivesse alguém como esse teu ex-namorado, que até faz depósito na tua conta quando você pede, não pensava duas vezes, tratava o homem a pão de ló." Tão engraçada a expressão, será que alguém ainda faz pão de ló? Vou fazer um, vou chamar o homem pra vir aqui em casa, deito nuinha e coloco o tal pão de ló sobre minha barriga. Vem, meu amor, vem comer meu pão de ló!
segunda-feira, novembro 30, 2020
Passei a fazer sua vontade
Numa cidade pequena, é fácil conseguir formar clientela, principalmente quando a gente é simpática. Comecei a trazer roupas de grife, de São Paulo. No começo, eram para mim as roupas, mas as amigas me encontravam e perguntavam onde eu tinha comprado a tal saia, o vestido, o biquíni. Como todas adoram andar na moda, mesmo num lugar onde quase não se tem aonde ir, prometi trazer uns modelos novos na minha próxima viagem. E assim foi, arrisquei além da conta, mas o mulheril acabou com tudo em dois dias.
Sábado à noite as pessoas vão à única pizzaria da cidade, ou
aos quiosques de churrasquinhos ou cachorro quente, mas não deixam de vestir a
melhor roupa. As mulheres, então, nem se fala, sempre vivem na expectativa de
conhecer o homem de suas vidas, alguém de fora que veio à cidade ao acaso para
visitar um amigo ou um parente, para um trabalho que a gente não sabe que
existe. É o momento em que todas as peças são retiradas dos armários, de
bustiês a casaquinhos, passando por minissaias e vestidos compridos, calças
e blusas, camisas de abotoar. Caso faça
calor, as costas vão nuas, as pernas de fora; caso o tempo ande fresco, quem
sabe um pouquinho mais de fazenda. E quem é a responsável pela revolução em M?
Eu, Célia. O sucesso foi tanto, que abri uma pequena loja. O sucesso avançou,
atravessou as divisas da cidade e a fama chegou aos lugares mais distantes.
Tenho encomendas de todos os tipos.
Não consigo viver sozinha. Sempre há alguém a me procurar.
Outro dia apareceu uma mulher estranha, disse ter um vício. Ouvi, com atenção,
o que tinha a me falar.
“Tenho muitas roupas, sabe, viajo muito e compro muita
coisa, tenho além do que preciso. Não faz mal, ainda assim vou comprar algo com você.
Mas quero te contar sobre o tal vício, do qual não consigo me libertar” Fiquei
curiosa, ela embromava, embromava e não falava. Até que, depois de tanto
rodeio, contou-me:
“Adoro andar nua”.
“Todas gostamos, ninguém explica o motivo, não é mesmo?”
“Não, mas não falo neste sentido. Gosto de sair nua, mesmo.
Acordo de madrugada, entro no carro nua e saio a passear pela cidade. Nua
mesmo, nenhuma peça.”
“Isso não é perigoso?”, fiz fisionomia de preocupada.
“Sim, claro que é, mas acho que é por isso que gosto.”
“Alguém sabe disso?”
“Não creio. Já me viram de carro, uma vez ou outra, mas não
puderam notar que estava nua!”
“E o que você acha que eu posso fazer para te ajudar?”
“Não, não estou pedindo ajuda, apenas contei, acho que,
assim, fico mais leve.”
“Mas se acontecer alguma coisa com você, não vai dizer que
fui eu que contei.”
“Não. Sei que você não vai contar a ninguém. Você é boa
comerciante, e bons comerciantes são calados. Meu avô foi bom comerciante.”
“Está bem, você procurou só pra me contar isso?”
“Não, quero fazer uma encomenda.”
Ela encomendou um biquíni caríssimo. Bom para mim.
Quando veio buscar, no mês seguinte., contou-me uma história.
Certa vez, tive um namorado aqui da cidade, sabe? Mas ele já
foi embora, abriu um negócio em outro estado. Às vezes ainda me telefona, me
convida para ir encontrar com ele. Fui uma única vez, fiquei de voltar, mas
ainda não voltei. Ele foi o único que me descobriu nua. Estava eu na beira da
lagoa, bem escondida, não tinha levado nem uma calcinha. Ele me descobriu por
causa do carro. Não se consegue esconder um carro, não é mesmo?, tanto mais numa
cidade pequena. Todo mundo sabe que o carro é de fulano, de sicrana, de
beltrana. Ele viu o meu carro e ficou preocupado. Ficou de plantão bem ao lado,
e eu lá embaixo, na areia, sem que ele soubesse que eu estava lá. Meu Deus,
como vou voltar com esse homem de plantão? Daqui a pouco amanhece, não posso
voltar nua à luz do dia. O pior foi que ele entrou no carro e virou a chave,
ligou o motor. Ah, não, vão roubar o carro, agora é que estou perdida. Confesso
que a possibilidade me deixou arrepiada. Você está pensando que saí correndo, querendo
sabe quem era o homem? Não, nada disso. Resisti, firme. Você sabe que sei
assobiar forte? Quer ver? Viu, dá até dor no ouvido. O homem acabou descendo à
areia. Fiquei sentadinha. Ele procurando de quem era o assovio. Fiu, fiz de
novo. Ele me viu, mas não reparou que eu estava nua. Quando chegou perto, eu
estava com as pernas cruzadas e o braço cobrindo os seios, ele ainda não notou.
Só quando soltei os braços, que ele perguntou o que aconteceu, você foi
assaltada? Claro que não, nesta cidade não tem ladrões, cheguei a dizer. Mas
você está nua. Dei então uma grande gargalhada. E lhe contei a história.
Acabamos namorados. E te confesso que, algumas vezes, saí nua ao lado dele, no
banco do carona. Mas ele não gostava. Preferia que eu vestisse as melhores
roupas. Passei a fazer sua vontade.
“Mas você continua saindo nua. Tem vontade que outro homem
te descubra?”
“Não sei. Às vezes, sim. Mas fico molhadinha quando estou
nua, de madrugada, na borda da lagoa. Não sei se um homem vai estragar tudo.”
Ainda ficou algum tempo conversando, falou de algumas
amigas, da paquera no único restaurante da cidade. Depois marcamos o dia de receber a encomenda, e ela foi embora. Ainda me disse:
“Conto com a tua discrição, viu, sei que és uma pessoa séria. Meu avô foi comerciante.”
segunda-feira, novembro 23, 2020
Peitos de fora
Nesta cidade existe uma porção de fofoqueiros, se a gente sai com um homem hoje e com outro semana que vem fica logo com má fama, imagine ficar com os seios de fora quando se vai à praia. A conversa aconteceu na casa da Dorita, e foi ela quem disse sentir imenso prazer ao ir à praia e ficar sem o sutiã, um orgasmo.
Não sei por que me lembrei dela, eu estava em frente ao Country, trecho onde ficam as pessoas mais ricas. Quando reparei a Lilian, resolvi caminhar um pouco mais e parar no início da praia do Pecado. Ela não me viu, pelo menos é o que acho. Não queria falar com ela, sua conversa é a mesma de sempre, só fala de homens, de namorados, das festas que foi, e dos convites recebidos, gesticula e gosta de mostrar a bunda, o biquíni cada vez menor, o corpinho mignon. É bonita, mas como é convencida disso.
Acho que ela e muita gente têm inveja de mim porque sou uma pessoa bem sucedida. Meu consultório sempre está cheio. Quando falam em dentista, na cidade, falam de mim. Mas muita gente pensa que uma dentista não tem vida própria, que está sempre a trabalhar e nada mais tem pra fazer. Não é bem assim, gosto de sair, dos restaurantes durante a noite e da praia nos dias de folga. Não posso. porém, permanecer em lugares muito frequentados, logo aparece alguém pra conversar, e mesmo pra me pedir pra dar uma olhadinha num dente. Como é possível a pessoa abrir a boca em plena praia e querer mostrar um dente pra eu examinar?
Houve um tempo em que ia a Búzios, porque aqui não era possível frequentar a praia. Pros lados do Pecado, fico sossegada, não vejo nenhum conhecido. Armei o guarda-sol, abri a cadeira e sentei. Tinha levado uma revista e um livro, comecei a olhar primeiro a revista. Depois de algum tempo, passou um rapaz vendendo cerveja, dessas que estão na moda, Heineken, acho. Comprei duas, deixei uma dentro de uma bolsa térmica e abri a outra. Que delícia! A cerveja tem outro sabor quando se está na praia. Depois de trinta minutos, tive de entrar n'água, tanto era o calor. Mergulhei, fiquei de molho por uns vinte minutos. A água não estava fria totalmente, como é o costume aqui, mas dava um arrepio gostoso. Depois que voltei ao guarda-sol, sentei novamente e continuei minha leitura, Em determinado momento, abri a segunda cerveja. Poucas pessoas passavam pelo local, e eu não dava importância a isso. Um homem passou bem rente ao guarda-sol. acho que foi a única maneira pra me despertar do torpor que o sol e a revista me colocavam. Ele era realmente bonito, não tenho como fazer reparação alguma.
Nesses momentos, é difícil começar a estabelecer um contato, apesar de termos vontade. Como se deve fazer? Chamar? Ei, venha aqui, você é muito bonito, quero te namorar. Não fica bem. E ele, caso seja tímido, como deve se aproximar? Estamos num tempo em que o assédio às mulheres é condenável, por isso muitos homens apenas nos olham e nada mais têm a fazer. Ele venceu sua timidez ao passar rente ao guarda-sol, com a praia vazia, e não mais tentou ação alguma. Aliás, o que fez foi parar trinta metros adiante, olhar o mar e vez ou outra voltar os olhos pra mim. Eu jamais fui a primeira a falar com um homem, mesmo achando-o muito bonito e simpático.
Continuei a ler a revista, vez ou outra olhava por cima, para ver se ele ainda estava lá. Tive a ideia de dar um novo mergulho, quem sabe se tirasse o top o homem viria até a mim, com mais facilidade. Mas se eu não chegava a dar a primeira tacada, como iria ficar de peitos de fora? Resisti ao mergulho ainda durante dez minutos. Levantei-me, ele ainda estava lá, naquele momento olhava o mar. Caminhei lentamente, molhei os pés, esperei um pouco, depois, ainda vagarosa, entrei até o nível da água ultrapassar meu ventre. Mergulhei, nadei um pouco na direção das ondas. O mar não estava violento, mas tinha ondas. Venci duas delas e permaneci atrás da arrebentação. Ele mergulhou, não sei se estimulado por mim. Nadou um pouco, foi além do ponto onde eu estava e manteve sempre a distância de uns trinta metros. Num momento, tive a impressão de que sorria para mim. Permaneci nas imediações durante uns quinze minutos, depois voltei para o guarda-sol. Quando sentei ao sol e me voltei para o mar, ele ainda estava no mesmo lugar, era possível repará-lo a cortar as ondas.
Se fosse Lilian, será que tentaria estabelecer um contato? Talvez, ela adora pessoas diferentes, gente que jamais viu na cidade. Mas, quanto a mim, não é o meu costume. Ele poderia vir, perguntar se eu tinha fogo para acender um cigarro, ou mesmo perguntar algo sobre a cidade, dizendo que era de fora e nada conhecia por aqui. Mas não foi assim que as coisas aconteceram.
O que me salvou, ou melhor, nos salvou, foi o vento. Sério, quando conto, ninguém acredita. Um forte vento começou a soprar e tudo começou a voar, nesse tudo, levou as minhas coisas. O homem voltou à areia e correu pra onde eu estava, recolheu o que pode, ajudando-me, inclusive conseguiu ir atrás e recuperar o guarda-sol, que se soltara como alguém que se revira de pernas para o ar. Quando tudo estava em ordem, rimos um pouco. Ele ajudou-me a levar os objetos para o carro.
Apresentou-se, Fernando. Maria Célia, retribuí. Você é da cidade?, perguntei. Não, e me disse o motivo de sua temporada no local, do seu trabalho, o que fazia. Fiquei calada, esperei que pedisse pra que falasse sobre mim. Assim começou nosso namoro. Achei melhor, dali em diante, encontrar com ele em R O, onde a poderíamos ficar à vontade, porque a possibilidade de encontrar conhecidos era menor.
Acho que Dorita está certa, talvez um dia eu consiga seguir seu exemplo. Se tem vontade de ficar com os peitos de fora, ninguém nada com isso.
segunda-feira, novembro 16, 2020
A bolsa
À noite, sonhei com ele. Acordei envergonhada. Não por ter estado nua ao seu lado, mas por me ter tornado mulher de fácil conquista. Está pronta para o nosso passeio?, perguntou enquanto me oferecia uma bolsa de butique. Tomei-a nas mãos, reparei que estava vazia.
Sempre que passava pela porta daquele homem, recebia seu olhar malicioso. Ele é velho, disse a mim mesma, em silêncio. Cidade pequena é fogo, todo mundo conhece a gente, e qualquer escapada é logo descoberta. Não podia ficar perguntando pra uma ou pra outra quem era o tal que me paquerava. As mulheres daqui, quando querem beber de outra caneca, pulam pra cidade vizinha, a cinquenta quilômetros. No dia seguinte, ele me chamou.
"Meu nome é Manoel, e o seu?"
Parei, por educação, e me apresentei.
"Reparo que você passa sempre aqui", disse ele.
Bem que eu queria falar passo sim, e você está sempre a me
comer com os olhos, porque acho que o peru já não funciona. Mas arrefeci. Me fiz de boazinha.
"Verdade."
"Aceite um café, entre, moro sozinho, vamos tomar uma xícara."
Declinei do convite, pedi desculpas e segui em frente.
Nos dias que se seguiram, evitei passar em frente à sua
casa. Segui outro caminho naquele meu passeio matinal, sempre à procura
de tomar um pouco de ar e comprar algo para o almoço.
Dois dias depois, como por coincidência, ouvi dizer que o
tal gostava de mulher jovem, e pagava bem. Uma amiga chegou a dizer:
"Acho que vou me oferecer ao Manoel, dizem que distribui
dinheiro."
"Verdade? Sabe que nunca reparei esse homem.", tentei mostrar surpresa. "O que será que deseja em troca?"
"Ah, imagine", ela moveu a cabeça, "o óbvio".
"Mas ele é tão velho, será que ainda consegue."
Ele se satisfaz ao modo dele, completou a amiga.
Quis perguntar se já tinha entrado pra tomar café, mas preferi o silêncio. Enquanto voltava pra casa, pensei no tal dinheiro que o homem devia distribuir. Eu, sempre devendo, sempre precisando de pagar uma prestação, as dívidas se alongando.
Voltei a trilhar o tal caminho, Manoel parecia estar
esperando-me.
Hoje, você vai tomar um café.
Sim, vou.
Foi o suficiente. Ele sabe fazer um café muito gostoso.
Elogiei. Olhou pra mim, queria dizer que a gostosa era eu. Bebemos, em
silêncio. Após alguns minutos, começou a contar uma história. Não era a dele,
ainda bem.
Nos dias que se seguiram, não saí de casa. Aproveitei para
organizar alguns papéis. Na semana seguinte, quando passei em frente a casa
dele, ouvi:
"Sumida, fiz café todos os dias e você não apareceu."
Dei um ligeiro sorriso, aceitei o café.
"Caso você precise de alguma coisa, fale comigo, sou um homem
generoso."
"Alguma coisa?", eu quis saber que coisa.
Ah, imagine.
Dois dias depois, parei de fronte à sua casa. Ele não estava. Achei estranho. Será que aconteceu alguma coisa? Quis entrar, olhar lá dentro. Sabia que encontraria a porta sem tranca, mas não tive coragem. As janelas estavam abertas, via-se a sala arrumada, mas ele não apareceu. Evitei bater. Será que contava a mesma história a todas as mulheres que passavam ali em frente? Vai ver estava com uma delas na cama. Atravessei o portão do quintal e fui, sorrateira, olhar o quarto através da janela. Mas não havia sinal de vida. Temendo ser surpreendida, corri pra fora. Antes de partir, encontrei uma bolsa de butique, estava encostada à porta, do lado de fora, como esperasse ser levada por alguém. Tomei-a nas mãos e reparei que continha roupas de mulher.
Na semana seguinte, aconteceu. Estava sentada na poltrona; ele, no pequeno sofá. Bebíamos café. Você sabe fazer café muito bem, ele disse, segurava a xícara e olhava os meus peitos nus. Além do café, você tem o corpo bonito, uma mulher bonita fazendo café, e me fazendo feliz. Tomou mais um gole e sorriu. Descruzei as pernas e mudei de posição, numa das mãos a pequena xícara; na outra, o pires. Não tive outra saída senão rir. Vi, como num filme, tudo o que vivemos até àquele momento. Me surpreendi, não era nada mais do que uma mulher fácil. Mas o que fazer? Era generoso o homem; eu, cheia de dívidas. Quando me levantei para levar a xícara vazia à cozinha, sabia que ia me apreciar pelas costas. Ao voltar à sala, parei diante dele e cruzei os braços sob os seios: "será que vim só pra tomar café e passear nua?", falei em tom de galhofa.
"Claro que não."
Manuel, então, me comeu. Comeu profundamente. Quanto à bolsa, melhor não perguntar.
