Ele me queria de pernas juntas. Muito engraçado, eu nua, sentada na poltrona, e de pernas juntas. Por que não posso cruzá-las, a direita sobre a esquerda? Sentia um friozinho no estômago, o calor de uma perna sobre a outra me ajudaria, ficaria mais tranquila. Que bobagem, você dirá, apenas vocês dois, na sala do apartamento, ele te servindo um copo de cerveja, foi você quem escolheu, havia vinho, uísque, caipirinha ou caipivodca, você com a bebida dourada numa das mãos, fazendo de conta que não sentia nenhuma vergonha. Eu sei, Roberta, mas prefiro um quarto escuro, nua debaixo das cobertas, ele vindo por cima. Nua na sala, em meio aos quadros, mesa, cadeiras e o sofá, não é pra qualquer uma. Você é diferente, lembro a história que você certa vez me contou, saiu pra passear nua, de madrugada, sentadinha no banco do carona, o namorado ao lado, dirigindo, falando com você como se conversasse com a pessoa mais vestida do mundo, muita naturalidade. E você, tranquila, nem uma tremura. O namorado devia mesmo gostar de você, pelo menos não precisava dar roupas de presente. Você pedia perfumes, viu como não esqueci? E dos mais caros. Engraçado, apenas o perfume sobre o corpo. Acho que sem as roupas o bom odor se perde, mas você diz que não. Eu não teria coragem de sair pelada. A gente às vezes compra uma roupa mais ousada, para ir a uma boate, ou para uma ocasião especial, mas nua por inteiro, do lado de fora da casa, acho que vou ficar tão nervosa que me mijo toda. Por outro lado, gosto tanto das minhas roupas, não sairia sem elas. E se acontece alguma coisa, um enguiço do carro, um pneu furado, uma barreira policial? Imagine, uma barreira policial, e eu nua no banco do carona. Os caras iam querer me comer. Nem pensar. Você é louca, Roberta, ainda diz que o perigo te deixa mais excitada. Mas volto ao sofá, eu bebendo a cerveja e comendo pequenos pedaços de queijo, o namorado ao meu lado, vestido, roupas elegantes, uma camisa linda, de uma loja de grife. Queria mesmo que me levasse para o quarto, que metesse bem gostoso. Esse negócio de ficar no fetiche não é muito comigo, mas cada um tem seu gosto, e a gente, pelo menos uma vez ou outra, precisa respeitar. Ele foi à cozinha, foi buscar um salgadinho pra me servir. Uma coxinha. Adoro. A cena, eu nua comendo coxinha! Não precisa, não quero engordar. Não engorda, não, você é magrinha, gostosinha. Quando voltou, eu estava de pernas cruzadas, um dos braços com o copo cobria um dos seios. Pelo menos, me faço de gostosa. Outro dia, ele inventou algo novo, ainda não te contei, Roberta. Adora me dar bombons. Bombons é chocolate, é doce, falei. Ele trouxe bombons sem açúcar, gostoso, uma caixa linda. Acredite, ele pediu pra eu sentar no mesmo sofá, lógico que nua, e em cima de um dos bombons. Vou fazer uma lambança, cheguei a dizer. Não faz mal, respondeu, vale a façanha. Aproveitou pra me fazer cosquinha com o celofane da embalagem. Não aguentei, a sensação foi tão gostosa No início, como que no automático, cruzei as pernas, depois, porém, voltei a ficar com elas juntas, mas para que a tal operação desse certo, tive de abri-las, e o tanto que pude. Engole o bombom, por favor, ele pediu, excitadíssimo, engole que depois deixo você ficar de pernas cruzadas. Engoli, inteirinho. Adivinhe por onde? Ficou arrepiada, Roberta?, pede ao namorado, você, que é tão desinibida.
quarta-feira, outubro 26, 2022
quinta-feira, outubro 20, 2022
Milena, por favor
Estava num café em Copacabana com um amigo numa manhã de domingo. Ainda era cedo, talvez nove horas. Meu telefone tocou. Olhei a tela e apareceu o nome: Carlos. Não é possível, esse homem não me larga, cismou que sou sua namorada, onde quer que eu vá ele está a me telefonar. Pedi licença e, sentada diante do meu amigo, atendi. Onde você está?, quis saber. Tomando café com uma amiga, respondi com uma ponta de constrangimento, a Milena. Depois de dizer o nome da mulher, mantive os olhos baixos durante muitos segundos. Continuei escutando o que tinha a dizer. A Milena?, opôs, desconfiado, acabei de passar por ela agora, me deu mesmo bom dia, ele disse. Não pode ser, pensei comigo, ainda os olhos na mesa. Como saio dessa?
Histórias minhas e da Milena se misturam. Uma está sempre
pronta a ajudar a outra. Ela diz que vai lá para casa e sai com alguém. Envio
uma mensagem para ela e digo o que vou fazer, ela já sabe sua missão, me
proteger. Missão muitas vezes espinhosa que só. Moramos numa ladeira, vista
para o mar, muitas casas, alguns amigos e muitos homens dando em cima, paquerando,
querendo trepar comigo, com ela. Certa vez, saí de madrugada para ajudá-la. Naquele
tempo, como namorava um homem meio bravo, precisou muito de mim. Estava de
cacho com ele e, ao mesmo tempo, com um rapazinho que dizia ser muito gostoso,
não largava o garoto, contava que o peru dele ia lá no fundo, onde o dos outros
não chegava. Uma noite, porém, o tal namorado bravo ficou na porta da casa do
rapaz – não sei como chegara àquela conclusão – esperando a Milena sair. Que problema.
Mas nada aconteceu. Porque ajudei minha amiga. Sabendo da história, fui para lá
e convidei o tal para tomar uma cerveja comigo no Adão. Estou tão sozinha,
choraminguei no ombro dele. No início, não aceitou, mas depois acabou cedendo.
Eu vestia uma saia super curta e me insinuava. Resultado: muitos beliscões nas
coxas até às quatro da manhã. No final, ele me pediu: bico fechado, nada de
comentar com a Milena. Quando a encontrei, nada falei. Disse que tomamos apenas
uma cerveja e pronto. Apesar de intempestivo, ela gostava dele. E foi ele quem
terminou. Arranjou-se com uma ainda adolescente, dezoito aninhos, só porque ela
concorreu e venceu o concurso de Miss aqui do bairro.
Não pode ser, disse eu, a Milena está aqui comigo, como pode
ter passado por você, te dado bom dia?, afirmei veemente. Ao acabar a frase,
pensei ele vai querer falar com ela. Foi o que aconteceu. Por que eu tinha de
dar tanta satisfação se ele não era meu namorado? Será que por que trepei com o
homem duas vezes? Carlos, por favor, estamos tomando café, não tenho o dever de
fazer isso. Depois te telefono. Beijos. Desliguei sem que meu amigo, que
parecia absorto, percebesse. Mas eu sabia que tinha notado, percebera toda a
trama. Só faltava ele me perguntar se eu o chamaria de Milena. Não aconteceu. Ele,
que sempre me convida para o café da manhã aos domingos, é um homem discreto,
refinado, leitor de muitos livros. Quem sabe, ele se antecipa e escreve essa
história: Uma mulher, um carretel.
Milena, por favor, preciso da tua ajuda, depois do almoço vai
até o Carlos e lhe diga que não era você a pessoa que falou com ele hoje cedo!
quarta-feira, outubro 12, 2022
Repasto
Eu estava louca para transar com alguém, já fazia meses sem namorado. Lembrei-me de um amigo com quem saí algumas vezes. Ele era gostoso. Telefonei. Alô, Sérgio, como vai, posso ir a tua casa? Não pareceu surpreso com minha súbita aparição. Apenas quis saber a que horas e se era no mesmo dia. Sim, de preferência, afirmei, posso estar aí daqui a uma ou uma hora e meia. Consentiu. Percebi, pela voz que gostara da minha intromissão. Arrumei-me. Coloquei uma bermudinha de jeans e uma camiseta, já que estava calor. Uma pequena sacola no ombro e, nos pés, um tênis branco. Peguei um livro que jazia sobre a mesa. Não vou chegar lá em trinta minutos. Já me oferecia, e me entregar em poucos minutos seria vulgar. Resolvi controlar o meu fogo. Pousei a bolsa no pequeno sofá e resolvi ler algumas páginas do livro que carregava naqueles dias. Assim, passaria a tal uma hora ou uma e meia, como havia combinado.
O tal romance tinha uma mulher que arranjara um homem
quarenta anos mais velho. Nada a ver comigo, porque o tal com quem marquei era
mais ou menos da minha idade. Isabela conhecera o senhor e ganhava dele alguns
benefícios. Só que era casada, e estava com dor de consciência em relação ao
marido. Tão bom, tão fiel, tão responsável com as obrigações de casa. Ela trabalhava
num mercado, e o recente enamorado vinha todos os dias vê-la, presenteá-la e
convidá-la para sair. No capítulo em que eu estava, ela saía com ele pela
primeira vez. Dissera em casa que faria horas extras. Na verdade, não estava
mentindo, porque não revelara onde. Do trabalho, ele a presenteou com um
maravilhoso almoço num restaurante da
moda. Isabela não estava acostumada com tanto requinte. Ainda bem que estamos
longe do meu local de trabalho, ela pensava, aqui ninguém me conhece. Ela
tremia dentro da roupa. Será que depois ele vai querer me levar para cama? Não,
por favor, hoje não estou preparada. Comeram, beberam uma garrafa de vinho.
Ela, altinha. Pôde pedir o que bem desejasse, o cardápio era vasto e pleno de
comidas muito gostosas. A mulher achou que não seria honesto pedir pratos muito
caros. Foi comedida. O autor descreveu a decoração do local, os detalhes de
cada prato, o sorriso do senhor enamorado e a face estupefata de Isabela. Levei
algumas páginas; a comida, tão bem descrita, me coçava a boca. Quando acabaram,
ela pediu para ir ao toalete, e lá ficou por bons quinze minutos. Não estava se
sentindo mal, nem necessidade alguma, apenas mais tremores, já que se
aproximava a hora de partirem. Quando voltou à mesa, ele tomava um café. Para
não me alongar, conclusão do episódio: após o almoço, ele perguntou se ela desejava
ir a algum lugar especial. Respondeu não, nada tinha em mente. Ele dirigiu um
pouco pela orla marítima, mostrou algumas vistas interessantes e depois perguntou
onde poderia deixá-la, ou mesmo se queria que ele a deixasse à porta de casa. Após
saltar, junto a uma estação de metrô, Isabela sentiu falta dos tremores de momentos
atrás.
O relógio já anunciava que eu devia partir. Não queria ficar
na saudade, como Isabela. Minha vontade era trepar, o máximo que pudesse. Então,
vou ao homem. Coloquei o livro dentro da sacola, saí ao corredor e desci para a
rua. Duas esquinas e o ponto do ônibus. Quando desci, já nas proximidades da
rua onde morava, reparei que passava uma hora e vinte desde o meu telefonema.
Subi a pequena ladeira, que era a rua onde ele morava. Uma
ladeira, digamos assim, amena. Meu amigo me esperava à porta do prédio, o
último da rua, depois uma escada, acho que dá em Santa Teresa. Beijou-me as faces
e me convidou a entrar.
Logo que ultrapassei a porta de entrada do apartamento,
senti uma vontade louca de ir ao banheiro. Posso ir ao toalete, por favor? Apontou
a porta. Lá dentro, tive de me apressar. Abaixei a calça, a calcinha e comecei
a despejar quase tudo que tinha dentro de mim. Ai, que vergonha, telefono para
o homem, quero trepar com ele e, ao chegar a sua casa, o que me acontece? Uma
dor de barriga atroz. A personagem do livro que eu lia comera tanto e nada
sentira. E eu me sentindo mal por ela! Depois dizem que a literatura não tem
poder. Quando terminei, dei a descarga e ainda permaneci uns minutos trancada
no banheiro. Temia que o cheiro extrapolasse a porta do pequeno recinto. Enquanto
aguardava, tive a ideia. Tirei toda a roupa, toda mesmo, ainda a calcinha e sutiã.
Pendurei-as no espeto da toalha. No local, estava apenas a toalha de rosto,
insuficiente para o meu corpo. Deixei o toalete. Apenas a sacola a tiracolo e
nos pés, o tênis. Caminhei à pequena sala e me sentei no canapé. Era a mulher mais
vestida do mundo. Ele me olhou com entusiasmo. Não esperava tal atitude de
minha parte. O que a personagem do livro temia, ou tremia dentro da roupa, eu desejava.
Em pelo.
domingo, outubro 09, 2022
Restrooms
Sempre quando vou a um hotel, olho se há câmeras no saguão. Você quer saber por quê? Conto já.
Fui com um namorado, ou um quase namorado. Andávamos lá
pelas tantas, agarrando-nos um ao outro, beijando-nos na rua e, principalmente,
na praia. Um dia, ainda cedo, por volta das nove da manhã, resolvemos tomar
café da manhã num hotel.
Caminhamos pela orla de Copacabana, olhamos hotel por hotel,
até que escolhemos um. Para a nossa situação, era aceitável. Entramos, e fomos
ao restaurante. O funcionário nos disse que era preciso pagar adiantado. O hotel
tinha serviço de buffet, podia-se comer à vontade. Meu quase namorado pegou a
carteira e pagou o café da manhã para duas pessoas. O mesmo funcionário nos
introduziu num salão luxuoso, onde várias pessoas já faziam o desjejum. Escolhemos
a mesa. Fui eu a primeira a desfilar por entre o buffet.
Parecia mais comida de almoço. Havia linguiça, ovos mexidos,
uma espécie de petit-pois, omelete, batata cozida. Depois vinham os diversos
tipos de pães, queijos, manteigas, bolos, doces, frutas etc. Não posso esquecer
o café com leite, o café puro, o café expresso, sucos e refrescos. Nossa, não
posso engordar, quanto tempo não como tanto. Aos poucos, fui colocando num
pratinho o que desejava. Meu namorado (depois de tanta comida, ele já era meu
namorado) foi buscar o que desejava. Pouco a pouco, alternávamos no buffet,
voltávamos à mesa com os pratinhos cheios. Que beleza, cheguei a dizer, pena não
aguentarmos comer tanto. Observamos os turistas, os casais, as famílias. Em um
momento, vi uma moça de roupa que se usa para ir e voltar da praia. Ela já
estava preparada para ir. Uma rendinha transparente cobria-lhe o biquíni; seu
namorado ou marido, um bonitão, jeito de gente rica.
Depois de uma hora, tomamos cada um mais um café. Sentíamos
pena de ir embora. Que tal ficarmos no hotel?, cheguei a pensar, mas nada
falei. Quando saíamos, eu disse vamos sentar um pouco nos estofados da
recepção. Meu namorado concordou. Sentamos, eu encostada nele, as pessoas
passando de um lado a outro, aquela alegria que só existe em viagens. Que bom
que estão felizes. Vamos viajar assim também nas férias!, exclamei. Meu namorado
sorriu, você gosta das coisas boas da vida.
Antes de sairmos, sentimos vontade de ir ao banheiro. Vimos a
sinalização e seguimos, dobramos à direita, encontramos os toaletes. Fui eu que
tive a ideia. Nada disse. Antes de entrarmos, ele no de homens e eu no de senhoras,
pedi que me esperasse ali, que não fosse para a porta do hotel. Demoramos cada
um mais ou menos cinco minutos. Quando saí, reparei que havia um terceiro
toalete, não sinalizado, depois do de senhora. Calculei que fosse para uso
interno do hotel. Quando o namorado saiu, eu disse venha cá. Puxei-o pelo braço
e entramos juntos no local.
Você é louca, ele falou. Abraçou-me e me deu um longo beijo
na boca. Ficamos entrelaçados, ele percorreu minhas costas com a ponta dos
dedos, uma espécie de carinho, uma espécie de cosquinha. Sente ali, pedi a ele,
pois havia uma cadeira depois do espelho. Reparei se havíamos trancado a porta.
O que pode nos acontecer?, ele perguntou; se nos descobrem, seremos expulsos do
hotel, nada mais, não somos hóspedes, isso facilita as coisas. Ele sentou, eu
agachei, puxei o fecho de sua bermuda e peguei o peru dele. O que aconteceu
depois? Imaginem. A gente de barriga cheíssima, quase sem poder se mexer e eu num
boquete delicioso!
Por isso, quando entro num hotel, procuro descobrir onde as
câmeras estão focalizando e, como dizem os americanos, onde ficam os Restrooms.
quarta-feira, setembro 28, 2022
Foi bom entornar o caldo
Um amigo disse que meu namorado me está cozinhando em banho-maria. O motivo foi porque pedi vamos morar juntos, no Miramar; mas o namorado hesitou, acha melhor esperarmos um pouco. Precisa resolver uns problemas. Enquanto isso, vem à minha casa duas ou três vezes na semana e permanece umas duas horas. Meu amigo achou engraçado, “logo você que sempre vive fervendo, agora em banho-maria”.
Ele tem razão, tenho um fogo difícil de apagar. Mas o
namorado é tão carinhoso, educado, adora estar ao meu lado, diz coisas que
ninguém jamais me disse, por isso acredito, vamos morar juntos. No começo, eu
mesma achava melhor cada um na sua casa, mas depois desse tempo com ele, sinto
falta quando não pode vir, ou não está ao meu lado.
Um dia desses a Laura telefonou. Um senhor está interessado em
você, cochichou. Laura, deixe de conversa fiada, você quer jogar verde, fale a
verdade. Nada disso, ela contrapôs, ele pediu mesmo para te dar o número do
celular, e olha que o homem está sozinho e é bem de vida. Ufa, não falei nada
mais. Um homem sozinho e bem de vida. Me deixa pensar em outra coisa. Gosto do
meu namorado, não quero outro homem.
Namoradeira do jeito que sempre fui, mesmo disfarçando,
porque nesta cidade onde moro é uma fofocada só, acabou que não consegui deixar
de perguntar quem era o sujeito. Ela me pronunciou o nome e o número dele, e eu fingi que não
copiei. Não se passaram dois dias, liguei. Não disse quem era, apenas que
sabia das intenções dele. Há, você é Eduarda, disse meu nome em um segundo. E
contou uma história enorme envolvendo uma viagem, automóvel, dois jantares num
restaurante da orla, um banho de mar numa manhã de domingo. Tudo pra dizer no
final que tinha me visto e que caía de amores por mim. Telefonei por
consideração, falei, estou com compromisso. Não tem problema, rebateu, a vida é
cheia de compromissos, a gente vai se falando. E foi o que aconteceu. A gente
foi se falando, se falando, até que... até que não aguentei e acabei indo
encontrar com ele.
Merece um novo parágrafo. Um senhor de cabelos grisalhos,
muito bem cortados, mais para grande, com um vocabulário bonito. É importante
saber falar bem. E como ele sabe. Disse-lhe que não poderíamos ir a nenhum
restaurante da orla de Cavaleiros, porque logo alguém ia me ver e meu namorado
seria informado pelas fofoqueiras de plantão. Ele dirigiu até Rio das Ostras,
parou perto da praça da Baleia, onde há vários bares e restaurantes. Entramos
num deles, ficamos numa mesa discreta, comemos e bebemos vagarosos, como se
todo o tempo do mundo nos pertencesse. Enquanto jantávamos, ele falava sobre
vários assuntos, perguntou até se eu gostava de artes plásticas. Veja se em M,
a gente aprendeu a gostar de artes plásticas. Enquanto ele narrava as histórias,
lembrei um namoradinho de outros tempos, eu vinha com ele pra este mesmo restaurante
e depois passávamos a noite numa pousada barata que existe na saída da Costa
Azul; fizemos isso duas ou três vezes. Numa delas, saí nua do quarto e fui para
a varanda. Ainda bem que não tinha ninguém no pátio da pousada, onde ficavam os
automóveis. Nós transávamos horas a fio.
Voltei pra M e quis me apegar ao meu namorado. Não posso
dizer que não senti remorsos, o tal passeio, etc. Mas, ontem, alguém veio me
contar que viram meu namorado não sei onde com uma loura. Era eu, afirmei, é
porque você nunca me viu de peruca! Depois que a fofoqueira partiu, procurei no celular o
nome do apreciador das artes plásticas e apertei o botão. Nada de
remorsos.
Saímos na mesma noite, deixei o banho-maria, já que vivo
sempre fervendo. E com o minivestidinho que usei, como foi bom entornar o caldo.
sábado, setembro 24, 2022
Namorada do vizinho
É sempre bom criar um clima de curiosidade. Por isso, ao
conhecer alguém, me escondo, ou escondo meu corpo. Há quem goste de sair nua,
sobretudo à noite. Não tenho nada contra. O mais interessante, porém, é
esconder. Nada de roupas como as duquesas de séculos atrás, mas um vestido
discreto, um pouquinho transparente, o tipo de branco que se olha durante
alguns segundos para ver se o tecido deixa passar alguma possibilidade.
Arranjei um namorado. Andam raros atualmente. Sempre achei
que os homens são fãs das mulheres jovens, o que não é o meu caso. Aliás, sou
jovem, mas não tanto. Uma namoradinha do meu vizinho sai ao corredor do prédio
só de calcinha, não sei o que deseja com tal estrepolia. Certa vez a encontrei,
ela sorriu, cumprimentou-me, e se fez a pessoa mais vestida do mundo. De onde
vinha?, do compartimento onde se coloca o lixo?, foi em busca do sapato esquecido
ao lado de fora ou chegou nua para excitar o homem? Não procurei saber. Tenho
certeza, no entanto, de que, na próxima semana, o rapaz estará nos braços de
outra, talvez ainda mais ousada. O círculo jamais se fecha, ao contrário, a
tendência é alargar-se.
Entrei na casa do namorado. Ele queria sair, ir a um
restaurante. Como mora sozinho, sugeri levar algumas coisas à casa dele. Passei no
supermercado, comprei uma garrafa de champanhe, algumas pastas, um camembert, diversos
tipos de pães. Por desencargo de consciência, levei também as taças especiais
para a bebida. Um parêntese: certa vez tive um namorado que não tinha em sua
casa um saca-rolha, eu segurando a garrafa de vinho e ele... que pobreza. Fecho
o parêntese.
Cheguei com a pequena bolsa de compras, um sorriso nos
lábios e a vontade de beijá-lo. Recebeu-me bem, mas não estava acostumado a ter
relação com mulheres do meu tipo. Arrumei as compras sobre a mesa, fui em busca
de pratos e talheres, preparei tudo com esmero e requinte. O homem, brusco,
agarrou-me junto à porta da cozinha, queria trepar ali mesmo, tentou
arrancar-me a saia. Procure se acalmar, por favor, tudo tem seu tempo, há um
momento para cada prazer, soprei-lhe carinhosa. A frase soou sentenciosa, e ele
parecia não gostar de sentenças. Seria eu juíza de direito?, quem sabe, ainda
não dissera do que vivia.
Eu me vestia bem naquela noite, ou melhor, como sempre me
visto. Roupas de grife, combinação de cores, acessórios, artigos caros, desejados
por grande parte das mulheres. Mas ele nada observava, me queria nua de
imediato. Vamos beber e comer inteiramente nus!, sugeriu um tanto desesperado.
Ok, concordei. Não deixaria passar a oportunidade. Caso negasse, seria melhor
partir deixando champanhe e comidinhas para ele e alguma futura companhia. Ok,
concordo, voltei a falar, mas você se despe primeiro. Você jura que fica nuinha
depois que eu tirar a roupa toda?, perguntou. Preciso jurar?, tenho palavra.
O homem pôs-se a caminho. A camisa, o cinto, a alpargata, a
calça e por último a cueca. Tudo ficou amontoado sobre uma das poltronas. O
homem nu à minha frente apontava já o seu desejo, a meio pau, não de luto, mas um
começo de furor.
Tirei a echarpe, a botinha, a meia curta, a jaquetinha, a
blusa de mangas compridas, deixei descer a saia. Soltei o sutiã e, de calcinha,
pousei todas as roupas sobre o estofado próximo à janela. Virei-me a ele e disse
tire-a, mas com cuidado, não a estrague, por favor. Agora, posso acabar de arrumar
a mesa. Ele veio me abraçar, roçar seu sexo sobre meu ventre. O namorado era
bem mais alto do que eu. Não gosto assim, quero tomar champanhe primeiro. Sentou-se
sobre uma das cadeiras, que estava em volta da mesa, cruzou as pernas e aguardou
eu acabar de preparar o jantarzinho. Passei-lhe então a garrafa de champanhe.
Quando a abriu, com toda a explosão possível a uma comemoração de conquista,
serviu-me o primeiro gole. Imaginem, eu nua, segurando uma taça de champanhe, e
não tenho o mesmo corpinho das garotas de academia.
Lembrei o dia em que um namorado, que morava na praia de
Cavaleiros, me levou pra passear nua, de madrugada. Nada posso falar da namorada
do meu vizinho!
quarta-feira, setembro 14, 2022
Esquenta
Existem vários modos de se manter um namorado. Um deles é, antes do encontro, esquentar. Os homens adoram a manobra. Querem – mesmo que não o digam – a mulher nos braços de outro. Este deve deixá-la no ponto. Nada para mais nem para menos. Dali em diante, a continuação é com eles. Ela pode e deve vir em plena rotação, lubrificada, mas não pode ter gozado antes, isto é, ter vazado o óleo.
Não demorei a perceber o jogo do namorado. Como há sempre
alguém me desejando, foi fácil arranjar um namoradinho como entrada, digamos
assim. Mas não podia eu comer o prato principal! Que maravilha mas, ao mesmo
tempo, que tortura. A entrada, uma delícia, porém nada de transformá-la no prato
principal, que seria o namorado titular.
A gente ia a um motel, eu e o namoradinho, o do
esquenta-esquenta. No apartamento, havia uma piscina de água quente, aliás, água quase fervendo. Em temperaturas elevadas, a água relaxa, baixa a pressão, tira
as forças e provoca um pouco de sono. O namoradinho não era diferente. Assim
que começava a me acariciar, sentia uma enorme vontade de descansar. As coisas
se encaixaram, ele só ia até certo ponto. Eu não precisava ficar alertando.
Antes da piscina, seu pênis estava eretíssimo, mas depois, já não aparentava o
mesmo vigor. Caso ele não quisesse mergulhar, eu dizia olha o que
combinamos.
Tive uma amiga que saía com o reserva e ficava com ele durante
a tarde inteira. Não dá confusão, Marcia, como você aguenta? É questão de
treino, ela me dizia.
Minha estratégia funcionou durante alguns meses. Um dia, no
entanto, quando já ia nua, ao lado dele, à beira da piscina, percebemos que a água
estava fria. Telefonei à recepção. A resposta foi há um defeito no aquecimento
geral, vamos dar desconto no pagamento. Não me interessava o desconto, mas o tal
que me bolinava sem chegar ao principal. Ele prometeu que não atravessaria a
fronteira interditada. Sim, verdade, prometeu mesmo, mas quem atravessou o
limite entre a entrada e o prato principal?
O namoradinho começou a me tocar, a me acariciar. Como eu
vinha da praia, estava de biquíni. Não passou muito tempo para eu ficar nua. Ele,
a me olhar; seu pênis, durinho. Que delícia, pensei, que beleza, toquei-o.
Entramos na água fria da piscina. A temperatura geladinha nos excitou. Ele me
pôs sobre a borda. Como é mais alto do que eu, achamos uma posição em que, de
pé, de dentro d’água, conseguia me penetrar. Eu, apoiada, nas duas mãos, controlava
o movimento de subir e descer.
O esquenta-esquenta se tornou incontrolável. Eu sempre
prolongando a transa, até que... Não resisti. Ou melhor, nem eu nem ele. Comemos a
entrada e o prato principal!
Como vou ter vontade para outra refeição quando encontrar mais
tarde o namorado titular? Qual será minha desculpa? Melhor desmarcar, pensei naquele
dia.
Minha amiga Márcia sempre diz tudo é uma questão de treino.
Por isso, você está um pouco gordinha, tenho vontade de replicar.
quarta-feira, setembro 07, 2022
Fantasias avançadas
Namorados inquietos há por toda parte, sobretudo aqueles que nos provocam com fantasias avançadas. O namoradinho que me assediava queria-me, porém, só de vestidinho. Tantas vezes passeei coberta apenas por tecido fino no verão, tecido mais consistente no inverno. Calcinha e sutiã, poupados, guardadinhos no meu armário. Depois de algumas saídas, percebi, não me era apenas o vestido que ele desejava, mas trepar comigo onde lhe desse vontade. Dentro de um automóvel, nas areias da praia, à margem da lagoa, numa rua escura ao lado de um quiosque onde, durante o dia, se vendem jornais, salão de festas de um prédio sem vigia. Ações também que não tinham tanta criatividade, devido às muitas experiências de quem adora aventuras. Descobri, a seguir, que ele queria um passo além, queria avançar no seu desejo. Hoje, trepa-se muito, por toda parte, mas se usa camisinha. Uma amiga repete e repete: trepar de camisinha não suja, é ótimo, a gente pode, depois, continuar o dia de modo normal, como se nada tivesse acontecido. Verdade, há homens que depois da transa, concluímos que nada aconteceu, e não foi por causa da camisinha! Meu namoradinho, no entanto, não queria o preservativo. Ou melhor, pedia que começássemos sem ele e que o colocássemos depois de algum tempo. Quero sentir melhor você, dizia. Eu também gosto de sentir o namoradinho, quero dizer, seu pênis a me penetrar. Nada melhor do que isso. O problema é que quando se sente, não se quer mais deixar de sentir. Nós, mulheres, acabamos num intenso ardor, quando menos esperamos sentimos o jato quente de porra a nos invadir. Depois, as consequências. O risco principal são as doenças transmissíveis pela relação sexual, um pleonasmo. Ele, satisfeito, trouxe seu exame recente. Nenhum vírus, nenhuma possibilidade de me contaminar. Gravidez, o segundo problema? Não, não corro o risco. Mas como vou trepar com você limpinho da silva, despejando esse sêmen todo, eu só de vestidinho? Vou ter de ficar agachada em algum canto depois do seu gozo, mesmo assim não terei certeza se há um restinho que vai gostar das minhas coxas, percorrê-las sorrateiro e sem dó. Após insistir, de apresentar suas razões, acabei aceitando tal prova. A verdade é que eu estava doidinha para trepar. Saímos no seu carro, fomos a um quiosque na Barra da Tijuca. Vejam se ainda há essa moda, quiosques, as pessoas não se arriscam tanto. Eu, de pé, encostada numa trave de vôlei de praia, a barra do vestidinho levantada e o namoradinho cumprindo seu papel. Você vai sentir, pele a pele, ele dizia, vai gozar com o risco, noventa por cento de sentir minha explosão de porra dentro de você. Percebi quando se avizinhou ao gozo, vesti-lhe a camisinha. Esteja à vontade, eu replicava.
Preciso de um parágrafo. Faz dez anos tive um namorado
lindo. Era o máximo na trepada. Quando chegava à minha casa, abraçava-me,
encostava-me numa das paredes. Eu não demorava a perder bermuda e calcinha. Ele
me colocava de tal modo que eu ficava equilibrada apenas pelo seu pênis, meus
pés longe do chão. Como eu gozava! Era sincero o homem, dizia que só conseguia
ejacular deitado sobre mim, posição papai mamãe; naquele momento, a camisinha.
Certa vez, próximo da tal parede, a me equilibrar, ele me fez girar, uma hélice
em eixo oleoso. Quem gozou em quem?
Voltemos. O namoradinho me levou para Rio das Ostras. De
início, não gostei do lugar, achei que faltava requinte. Houve, porém, um dia, numa
praia comprida chamada de Costa Azul. Ele me deixou totalmente nua. Nosso corpo
a corpo sem camisinha, um exercício e tanto, que beleza. Ah, vou gozar, amor,
ele dizia, vou despejar tudo dentro de você, vai ficar cheinha, transbordando.
Eu fingia acreditar. Caso eu goze, continuou, arranjo um paninho para limpar sua
bocetinha. E continuava. Ele, no final, respeitou. Não gozou dentro, não. Ventava
e ventava na noite sem lua, ele lutava com a camisinha. Quando gozou, eu já ia
pelo terceiro orgasmo. Na tal madrugada, porém, quem gozou mesmo não foi o namoradinho,
mas o vento, sapeca que só, levou meu vestidinho!
quarta-feira, agosto 24, 2022
Presença de espírito
Naquela noite eu estava de namorado novo, saindo de um restaurante onde comemos e bebemos bem. Já na rua, ele me perguntou onde eu ainda desejava passear. Meu telefone vibrou, o homem percebeu. Nesses momentos, não é bom deixar o telefone à vista, mas eu estava num tamanho enlevo, que acabei não prestando atenção. Pode atender, ele disse. Não, claro que não vou atender; além disso, estamos na era das mensagens, não se telefona diretamente a ninguém nos tempos atuais, contrapus. Mas deve ser um admirador especial, para ligar a esta hora. Não, nada disso, eu argumentava tentando fazê-lo esquecer meu celular, você ligaria para alguém às onze da noite?, perguntei. Quem sabe, quando se está apaixonado, as horas são meras abstrações, sentenciou. Não atendi. Ao chegar ao apartamento do namorado, nos poucos segundos em que fiquei sozinha, vi que havia o nome de quem fizera a ligação, um ex-namorado. Quero dizer, não era tão ex assim, porque só saíramos duas vezes. Como eu não atendera, deixara a seguinte mensagem: vamos tomar café da manhã? Dizia a hora e local do encontro, para o dia seguinte. Ainda bem que o novo namorado nada sabia sobre isso. Eu iria já apagar a mensagem, quando ele apareceu. Fiz de conta que olhava um vídeo de uma amiga, quis mesmo lhe mostrar. Veja que engraçado, falei. Os homens são expertos, ele sabia que não era nada disso.
O homem que me convidava para o café da manhã era casado. Eu
não me aborrecia por isso. Nas duas vezes em que saí com ele, passeáramos pela
manhã. Na segunda vez, me levou para cama na hora do café da manhã, um hotel em
Botafogo. Eu vestia biquíni de praia, uma camiseta e bermudinha de lycra.
Tomamos café no hotel. Comemos tudo que veio na bandeja, depois nos entregamos
ao amor.
Mas na tal noite, com o novo namorado, não queria estragar o
prazer da primeira vez. O que fazer? Ou melhor, como desfazer a tal situação?
De que você mais gosta?, perguntei. De uma namorada de olhos castanhos, de pele
bronzeada e... Posso completar?, ele, tímido. Sim, complete, eu disse solícita.
De peitos de fora. Ah, deixei escapar a interjeição e sorri, mas assim tão de
repente. É como gosto, você perguntou, estou sendo sincero. Dei as costas, tirei
a blusa, soltei o sutiã, larguei-os sobre o sofá lateral e me voltei ao
namorado. Pensei que a história do telefonema estava esquecida, porém, na
quentura do sexo, ele solta já sei, você é casada!, e ele está procurando onde
a mulher pode estar numa hora dessas. Eu, casada?, repliquei, esqueça isso,
vamos namorar. Tive uma namorada como você, adorava andar nua ao meu lado pra
lá e pra cá, depois descobri que era casada, uma confusão e tanto. Venha, por
favor, fiz seu pênis escorregar mais uma vez para dentro de mim, nada de
histórias de outras namoradas nem de maridos. Se sou casada, prometo que você
pode me deixar pelada na porta de casa. A seguir, beijei-o na boca e não mais permiti
que falasse.
Esses namorados têm muita presença de espírito.
quarta-feira, agosto 17, 2022
Dois probleminhas
Bati à porta dele. A princípio, parecia não haver ninguém no apartamento. Eu entrara às escondidas, a portaria estava destravada e não havia funcionário do prédio na guarita de segurança. O elevador estava no andar térreo, o que me facilitou as coisas. Que desconcerto, se me descobrem, vão achar que sou louca.
Alguém pareceu chegar à porta, quem está aí? O que eu iria responder?
Marilene, lembra de mim? O homem do outro lado silenciou, devia estar
organizando as ideias. Havia-se passado dois meses. Marilene?, que Marilene? A do
Pecado, você deve lembrar, do Ilhote Sul e da vinda para cá às quatro da manhã,
e tem mais uma coisa, não consegui terminar. Como conseguiu entrar, insistiu? Pela portaria, fui lógica. Ele deve ter movido o rosto, num pequeno
sorriso, mas eu não pude ver. O prédio tinha câmeras, dois empregados de
serviço, e eu me apresentava ali sem ter deixado rastros, sem ter chamado a atenção, era natural a
desconfiança. Recue dois passos, pediu. Recuei. Após alguns segundos, ouvi a
chave girando. Ele apareceu na fresta da porta. Antes que falasse alguma coisa,
pedi você deixa eu ir ao banheiro, é urgente. Afastou a porta, corri sala
adentro descobrindo por mim mesma o caminho do toalete.
Depois de alguns minutos, ao voltar à sala e me sentar suave
e já tranquila no estofado junto à janela, reparei seus olhos pregados no meu corpo.
Foi a minha vez de sorrir. Está surpreso? Levou alguns
segundos para retomar o diálogo, ele gostava de dominar a conversa, tentava
disfarçar a surpresa por causa da minha sorte e esperteza. Podia ter sido presa,
exclamou com discrição. Presa?, repeti, por quê?, tentava ser natural, lembra
do dia em que saímos do restaurante?, você foi bem mais ousado. Ele sorriu pela
primeira vez, tínhamos bebido demais, foi normal a minha atitude, rebateu. Dei
de ombros, o importante era o momento presente, esperei por ele, queria que continuasse. Até onde ele iria, o que desejaria?, já que não me esperava no momento nem naquela
situação. Você estava com problemas intestinais e veio me procurar, voltou ao
assunto inicial. Não apenas intestinais, cheguei a dizer. Acho que os
intestinais você já resolveu, agora quanto ao outro... Eram sete da manhã, dia
claro, talvez ele tivesse algum compromisso, talvez um trabalho. Quando decidi
pelo seu prédio, achei que poderia ainda estar dormindo. Pensando em tudo isso,
continuava a olhá-lo como se esperasse uma decisão. Você deu sorte,
completou, estou de boa maré, abri a porta pra você, deixei que se aliviasse,
mas não quero você a me procurar, aquela noite já foi suficiente, não sou homem
de compromisso nem de apenas uma mulher, meu erro foi revelar a você o meu
endereço; agora, vou até o quarto, você sabe o que tem a fazer. Desapareceu no
corredor que levava a um dos quartos. Olhei o encosto de uma cadeira e vi uma
camisa de homem, de mangas compridas.
No térreo, depois que cumprimentei o funcionário da
portaria, continuei a dobrar as mangas da camisa masculina, que caía larga no
meu corpo. O porteiro deve ter pensado que eu, certamente, ia à praia.
quarta-feira, agosto 10, 2022
Temos companhia
Minha avó saía com todos os homens que conhecia, tinha 57 anos, era magra, bem cuidada, tinha facilidade de arranjar namorados. Soube de tudo quando vi o celular dela se iluminar. Tomava banho e deixou o telefone sobre a mesa da sala. Você vai mandar ou não a foto de teu bumbum?, a mensagem que li. Peguei o telefone e procurei outras mensagens do mesmo homem. Que safada, ela provocava, dizia que iria pensar, que ele não era fiel a ela. Isso foi em outros tempos, ele rebatia, tua bunda sempre fui muito bonita, continuava a mensagem. Coloquei o celular no mesmo local e fingi que fazia outra coisa quando minha avó saiu do banheiro.
Nos dias que se seguiram, consegui olhar de novo seu
celular, li outras mensagens, de outros homens, pelo menos uns cinco diferentes.
Todos queriam fotos, diziam que ela era gostosa. Um lembrou uma vez que transou
com ela numa praia em M, depois da meia-noite, que sensação, jámais senti algo
igual. Ele parecia vidrado. Ela respondeu quem sabe a gente vai lá de novo.
Passaram-se alguns dias e achei que aquilo tudo era apenas
conversa de zap, apenas para passar o tempo. Um dia, porém, encontrei minha avó
no Ilhote Sul. Eu estava com duas amigas da minha idade, dezenove, vinte anos,
todas da faculdade. Como o restaurante estava cheio, ela não me reparou. Minha
avó estava acompanhada de um homem jovem, que podia ser meu namorado! Fiz de
conta que não a conhecia. Pensei segui-la, mas não daria certo. O que fazer?
No dia seguinte, descobri no celular dela quem era o tal
homem. Ela o chamava de meu amor, ele a apelidara de gostosinha. Havia um dia e
endereço onde iriam se encontrar de novo. Mas, naquele mesmo dia, encontrei outra
mensagem, de outro homem. Ela respondia que sim, que sairia com ele dois dias
depois.
Eu não sentia necessidade de sexo, chegava a conversar sobre
isso com algumas amigas. Elas diziam que era assim mesmo, toda garota que se
inicia na vida sexual, no começo não sente prazer. Comecei a achar que minha avó
era o exemplo disso, cada vez que ficava com mais idade o prazer era maior.
Será que com o passar dos anos a vontade de trepar aumenta, ou será que minha
avó é uma safada de primeira linha? Cheguei a perguntar a algumas pessoas sobre
sexo. Elas diziam você está tão interessada nisso agora, o que está
acontecendo? Eu tinha que desconversar. Eu tivera apenas dois namorados, naquele
momento estava sozinha, transara mesmo apenas com um, e não tinha sentido muito
prazer.
Algumas semanas depois, deixei de lado o telefone dela. Eu arranjara
um namoradinho. Ele começou a me levar para passear nos mais diversos lugares.
Como era mais velho do que eu quase dez anos, já tinha a vida estabilizada.
Uma noite comemos muito e paramos o automóvel diante de um
hotel na praia do pecado. Entramos e alugamos um apartamento por boa parte da
noite. Quando saímos, já quase pela manhã, resolvemos descer até a praia. Era
um local que não dava para chegar pela orla, foi preciso caminhar por uma rua
interna, cercada de vegetação alta de ambos os lados. O carro não conseguia atravessar.
Nossa intenção era sentar na areia e apreciar o amanhecer.
Quando nos aproximamos do final da praia, meu namoradinho disse
silêncio, acho que ouvi alguma coisa. Nos agachamos e ficamos observando. Uma
mulher inteiramente nua estava deitada sobre um uma canga e um
homem acariciava suas costas.
Temos companhia, vamos mais adiante.
Não, eu disse, quero ver se conheço a pessoa.
Para que fui falar tal besteira. A mulher se levantou e caminhou para a beira d’água, nua como viera ao mundo. Pela estatura e pelo corte de cabelo, pude reparar que era a minha avó. Ela estava tão bonita, combinava com o lusco-fusco do amanhecer que se anunciava, era capaz de irradiar uma bondade que apenas eu podia perceber. Naquele momento, quis ser igual a ela. Cheguei a prometer que faria tudo para seguir seus passos na vida, descobrir o prazer que ela sentia em cada gesto, o êxtase que a natureza irradiava do corpo dela. Todo o preconceito que eu tinha contra ela desaparecera como num toque de mágica.
Nada falei ao namorado, ele conhecia a minha avó, sabia que a mulher ali à beira d'água era ela. Teve a elegância de nada comentar.
Como estava nua, ficou. O homem a seu lado a acariciava.
Afastamo-nos sem sermos percebidos. Eu também ficaria nua, mas em outro lugar.
Dali em diante, minha vida seria outra.
quarta-feira, agosto 03, 2022
Você nem imagina
Aqui no prédio onde moro, um homem lindo veio morar no quinto andar. E sozinho! Ao passar por mim, cumprimenta-me, muito sorridente. Não sou uma mulher de dar conversa a vizinhos; no máximo, digo bom dia. Quando encontro alguém do prédio na rua, finjo que não vejo. Ele, porém, encontrei outro dia cruzando uma esquina, nas proximidades. Senti uma vontade louca de parar para falar com ele. Passou rápido, mas sem deixar de me olhar. Moveu a cabeça e disse alguma coisa. Eu estava passeando com o cachorro. Ele ainda se voltou para o animal e sorriu, como se desejasse alguma interação. Continuei a caminhada e continuei a pensar no admirador.
Às vezes, o fato de a gente não ser simpática, provoca muitos obstáculos. Como me fecho no meu mutismo e em geral não olho quem está passando ou cruzando comigo na rua, torna-se difícil passar a falar com todo mundo de uma hora para outra. Por exemplo, não consigo chamar esse homem e inventar uma história, ficar conversando, convidar para um cafezinho. Tais ações são contrárias à minha natureza. Além disso, na zona sul do Rio, a maior parte das pessoas é calada. Tenho uma conhecida que diz preferir o modo de vida da zona norte da cidade. Lá, as pessoas se aproximam uma das outras com mais facilidade. Mas, mesmo aqui, há exceções. Tenho amigas que criariam oportunidades para a aproximação. Diriam, Miriam, você é muito idiota, como pode deixar passar um homem desse tipo, e logo você que é rica. A qualidade "rica" fica por conta delas. Insinuar-se-iam até conseguir um pretexto para tê-lo ao seu lado. Muitas vezes, inventam uma recepção, com taças de vinho ou de champanhe, para convidar o homem.
Outro dia, estava eu conversando com o porteiro sobre um problema do nosso condomínio, quando o tal novo morador passou por nós. Cumprimentou-nos efusivamente, um bom dia que, na minha opinião, ecoou pelo resto da manhã. Em frações de segundo, imaginei-me ao lado dele na praia, num bar da orla bebendo um coquetel, ou na minha casa em Itaipava, eu e ele, sozinhos, a passar um final de semana! Mas como vou chegar a isso? Fico apenas na vontade. O homem passou, acho que foi para o trabalho. O porteiro respondeu ao que eu perguntava. Depois, fui para casa e fiquei olhando para o meu cão, que gosta de sentar aos meus pés e sentir o calor do meu corpo. Histórias de calor do corpo deveria acontecer com meu recente enamorado. Aliás, como lhe dizer que estou enamorada?
Conversei sobre ele com a minha analista. Ela disse que é um bom sinal. Por que você não toca na campainha do apartamento do homem e não conversa com ele? Pergunte se ele gosta de cinema. Não há nada de mal nisso.
Suas palavras ficaram na minha cabeça. Às vezes estou lendo um livro, a história começa a passar em branco porque o homem me invade o pensamento.
Fernanda, pedi à pessoa mais próxima a mim no prédio, alguém que conheço há muitos anos, você me ajuda organizar uma festa? Festa?, Miriam, que bom!, jamais ouvi você falar uma coisa assim. Qual o motivo da comemoração? Ah, você nem imagina...
quarta-feira, julho 27, 2022
Marcinha, meu amor
Outro dia ele veio com uma daquelas brincadeiras, foi logo dizendo: “você dá pra todo mundo”. “Dou sim”, respondi “quando gosto do homem, vou com ele e ninguém tem nada com isso. Vivo cheia de tesão, me sinto bem assim. Não sei por que você fala desse jeito comigo, já sabe como sou. Se quer minha companhia, tem de ser assim. Caso contrário, é melhor procurar outra mulher. Você diz que fiz quarenta anos e continuo gostosa como sempre, então aproveite, mas não me queira exclusiva, não posso viver assim.”
Ele partiu, mas não demorou a telefonar de volta. Aceitei a
conversa, falamos de amenidades. Não lhe conto minhas aventuras, mas ele acaba
descobrindo, gosta de me investigar. Não ligo, não posso ter domínio sobre
isso.
Num domingo de outono, saí com ele para o café da manhã. O desjejum numa cafeteria ótima, em Copacabana. Depois, andamos pela praia. Eu havia ido de bermuda de lycra, com o biquíni por baixo. Caminhamos e caminhamos. Ao chegarmos ao Leme, tive vontade de molhar os pés na água do mar. Fui então até a beira, ele ficou me esperando. Tenho certeza de que desejava me ver de biquíni, mas não me despi. O homem já me viu nua mais de uma vez, já trepou comigo, mas adora me ver de biquininho, tem vontade de desfazer os meus lacinhos. Não foi naquele dia que eu lhe proporcionei tal prazer. Houve uma vez, eu estava com um namorado de ocasião, então meu telefone tocou. Fui atender, era esse que gosta de me convidar para o café da manhã. Não disse que estava com outro, não lhe queria tirar a ilusão. Apenas acrescentei que estava ocupada, uns problemas de família, telefonaria depois. Telefonei? Esqueci.
Mas no domingo do desjejum e da molhada de pé à beira d’água, ainda andamos mais um pouco. Ele quis me fazer uma foto. Não lhe tirei o prazer, apareci com um sorrisinho de deboche e com o bumbum de lateral. Você esquece a calcinha depois que acaba de trepar?, sei que ele me gostaria de perguntar. Já esqueci o vestido, responderia. Como você fez? Não vou contar, ele vai morrer de curiosidade. Foi um caso muito particular, digo apenas. Deixo o homem apenas na vontade.
Andamos mais um pouquinho, a praia tão praia, o sol morninho. Deu onze da manhã. Daqui a pouco alguém te telefona convidando a uma feijoada. Se for mais tarde, aceito. Depois de vinte minutos, nos despedimos, ele foi embora. Eu disse que tinha de voltar para casa, mas não era verdade. Tirei a tal bermuda de lycra e a camiseta, fui de biquininho para dentro d’água. Você toma conta pra mim?, pedi a alguém. Sempre o risco de acabar pelada!
À tarde, não é que aconteceu? A feijoada. Apareceu um homem
bonito, um negão. Posso dizer assim, porque também sou negra. “Minha joia,
vamos a um almoço”, convidou. Eram duas da tarde, um conhecido de vista, de
perto da casa de minha mãe.
Aceitei. Que delícia. Tanta caipirinha, tanto feijão. Me
lembro que depois de comer bastante, bastante mesmo, de tanto beber, de ver tanta
gente, o negão ainda me levou pra casa. Entrou e ficou um pouquinho.
No dia seguinte, segunda-feira, acordei atrasada. Ainda bem
que a patroa é compreensiva. Mas onde meu biquininho de ontem? O tal negão, a
sobremesa. Márcia, a sobremesa. Não o biquíni, é claro. “Marcinha, meu amor”.
quarta-feira, julho 20, 2022
Concurso
Meu amigo tem umas fantasias muito engraçadas. Ou seriam extravagantes? Me contou que gosta de três mulheres muito bonitas, que sempre estão a lhe sorrir. Sai com cada uma delas, mas ainda não chegou ao principal. Quando convida uma, vai a uma cafeteria, comem bolos ou pedaços de torta. Diz ele que as mulheres adoram tortas, quanto mais cremosas, tanto mais mergulham de cabeça. Não é mesmo, me perguntou, esperou que eu respondesse. Não dei o braço, o assunto não era meu. Uma de suas namoradas é negra, come tudo que vê. Cuidado para não te comer, cheguei a dizer. Até que não seria mal, respondeu a meio sorriso, tanto que não me tire um pedaço. Ah, as fantasias, já ia me esquecendo. Ele deseja convidá-las à sua casa, as três juntas, e quer que fiquem nuas, uma ao lado da outra, de mãos dadas. Quero lhes apreciar a beleza, chegou a dizer. Gostei do dito: lhes apreciar a beleza. Você acha que elas vão se prestar a isso, as três? Elas nem sabem uma da outra, vão aceitar as concorrentes e ainda vão posar nuas? Olhe que posam, respondeu. Contou uma história comprida, de uma namorada, numa tal cidade do norte do estado. A mulher aceitava sair nua por aí, à noite, ao lado dele. Certa vez aceitou mesmo descer pelada do carro numa rodovia, enquanto ele partia para dar uma voltinha, tanto que voltasse quinze minutos depois para buscá-la. A história me arrepiou. Que perigo a mulher correu!, afirmei. Ela encarava como um desafio. E por isso você acha que as três namoradas vão aceitar tirar a roupa na tua frente e entrelaçarem as mãos, amigavelmente. Depende de como eu encaminhe a situação. Meu amigo foi embora, fiquei um tempo grande sem encontrá-lo. Quando aconteceu, ele contou o final da história. Conseguiu até mesmo fazer uma foto das três, mas não nuas, vestidas com a melhor roupa que cada uma tinha. Me contou que, ao ver que elas não aceitariam, inventou que haveria um concurso, dinheiro alto, chegou mesmo a fazer o arquivo digital com um logotipo e com o valor do prêmio. Contou a elas, tinham que ser três, juntas, de mãos dadas. E fez a foto. Trouxe para me mostrar. Assim é fácil, acho que até eu, que te conheço, caía nessa história. Sério mesmo?, quis saber, claro que sim, um prêmio, duas mulheres bonitas, você poderia ter dado uma festa, convidado muita gente e feito uma foto com elas. Só não contei o concurso da Vogue, porque achei que nenhuma delas tem o corpo para isso, afirmou com ar de resignação. Concurso da Vogue?, eu quis saber. Sim, de uma revista francesa, eles fazem todo ano, em cada país, mas tem de ser de biquíni, duas poses, não achei as tais mulheres com talento para a Vogue. Quando eles pagam? perguntei. Não sei bem, é um valor alto, depois envio por e-mail para você. Neste dia, estávamos numa cafeteria recém-inaugurada, no Leblon. Ele tirou da bolsa um livro, disse que era um presente, achara a história muito interessante, eu iria gostar. Levei o livro depois de nos despedirmos, li-o em dois ou três dias. A história era realmente interessante. Na semana seguinte, ele me enviou o arquivo com a publicidade do concurso. O prêmio era uma viagem à França. O concurso era muito sedutor, fiquei com uma vontade enorme de participar. Hum, mas seria verdade o tal concurso?, vai ver invenção dele. Procurei na internet a tal Vogue, com a publicidade. Encontrei. Verdade. Dias depois, liguei a ele, disse que soubera do concurso por outras vias, era interessante. Mas não é para uma mulher sofisticada como você, ele disse. Sofisticada?, como assim? Você é uma escritora, cheia de ideias, intelectual, não vai posar de biquíni por aí. Não é por aí, é para a Vogue, e o prêmio é uma viagem à França. Ele acabou vindo aqui em casa, trouxe a câmera, vesti três biquínis diferentes, fiz as poses. E agora? Até hoje não sei o resultado. Escrevi para a Vogue. Me responderam, com toda a educação. Concurso?, que concurso?
quarta-feira, julho 13, 2022
Calcinha debaixo da mesa
Posso tirar a blusa?, perguntei depois de me sentar num estofado de dois lugares, no apartamento do novo namorado. Chegáramos havia pouco. Apesar da noite recente, fazia muito calor, acho que era dezembro.
Fique à vontade, ele respondeu.
Não tirei apenas a blusa, mas também o top. Os peitos de
fora, nada de acanhamento, o que se espelhava na minha face era muita
naturalidade. Veio-me à mente uma amiga que dizia ficar nua, mas tinha que ter
pelo menos um top: ao contrário, sentia-se constrangida. Como você pode estar
nua se está de top?, perguntei certa vez. Ah, é o modo de dizer, ela retrucou.
Eu não agia por malícia, sentia mesmo muito calor, calor de verão. Estávamos
ali porque passeáramos durante toda a tarde, quando andamos em busca de árvores
e flores. A caminhada fora longa, nosso objetivo alcançado. Podia dormir nua
por inteiro, mas caso ele quisesse namorar, teria de esperar pela minha
revitalização. Repouso e água gelada faziam parte do meu cardápio.
Eu ainda não trepara com ele, nem me vira nua.
Como você pode ser tão dada?, alguém perguntaria. Não sou
dada, aliás, não gosto da expressão. Ser alguém dada, pode ter significado
duvidoso, quem sabe uma mulher que dá para todos os homens que conhece. Sou
espontânea.
Meu amigo me trouxe um copo com suco de abacaxi. Que
delícia, duas pedrinhas de gelo dentro, eu tomando a pequenos goles. Acho que foi
o suco que me excitou, jamais ouvi dizer que abacaxi deixa as mulheres
mordidas. Enquanto eu bebia, ele me olhava sem mirar meus seios.
Gosto de andar nua, é verdade, o motivo não é apenas o
calor, adoro ver um homem admirar meu corpo, principalmente meus seios, fartos
e rijos. Mas ele fazia de conta que eu era a mulher mais vestida do mundo. Agora
estou na dúvida, não sei se foi a minha atitude ou o suco de abacaxi. Algo começou a me picar.
Sente aqui, pertinho de mim, pedi e levei aos lábios o suco,
mais uma vez. Depois, pousei-o sobre a mesa, voltei-me ao namorado e colei meus
lábios aos seus. Um longo beijo. Tomei uma das suas mãos e trouxe-a para sobre
um dos meus seios. Ele o apertou. Suspirei, abri os olhos sorrateira e o vi de
olhos fechados, perdido no longo beijo.
Me dê licença, pedi quando voltamos à posição inicial. Levantei-me,
desabotoei a bermuda e a deixei escorregar. Pronto, de calcinha, peitos à
mostra. O restante, naquele momento, era com ele.
Lembrei Gisele, que andava de biquíni pela rua principal de
uma das cidades litorâneas, a parte de baixo era uma tirinha a toa bem enfiada
no cu. Queria conquistar o gerente de uma loja de presentes para o lar.
Voltando ao namorado. Naquele início de noite, não tive tempo de pensar o que o homem achava de mim, o namoro de uma semana, uma jovem em seus braços, mulher fácil, peladinha, despreocupada da calcinha largada debaixo da mesa.
Ah, o cansaço? Nem sei. Acho que o deixei pro outro dia.
terça-feira, julho 05, 2022
Papel laminado
As idas à casa do namorado são plenas de fantasias. Hoje, é difícil mantê-los, tantas são as pretendentes, por isso, tenho de me empenhar, preciso ser criativa. Há amigas que dizem Sônia, você é louca, deixe esse homem de lado, nada melhor do que uma mulher sozinha. Retruco, rápida, como?, o homem me faz gozar como jamais, não posso abandoná-lo.
Vou à casa dele, com minha bolsa e meus truques.
Numa das noites anteriores, no momento em que estava nua em seus braços, pedi que me falasse algo excitante.
"Algo excitante?, como assim?"
"Uma história apimentada."
Estávamos trepando, eu sobre ele, num movimento de sobe e desce, seu pênis deslizando sem obstáculos; eu, doidinha pra gozar. Olhou-me com os olhos semicerrados e disse:
"Você veio pelada encontrar comigo, onde deixou as roupas?"
"Ah, sim, vim pelada" repeti, os olhos fechados, comprimindo-me, sentindo seu enorme sexo dentro de mim. "Não sei, vim de táxi, acho que já saí nua de casa, vim apenas de sandália e de bolsa, trouxe o celular caso houvesse algum problema."
"E o motorista, ele aceitou te trazer nua?"
"Sim, como aceitou! Na verdade, já me conhece,
tem um tesão intenso por mim, mas eu disse você pode me olhar, mas não me tocar, um
dia desses te recompenso."
Continuava saltando sobre o namorado, cada vez em movimentos mais rápidos.
"O motorista vai querer te comer", disse o namorado.
"O que é isso?, muito vulgar, me comer?"
"Vamos dizer de outro modo, ele vai querer trepar com você", assegurou o namorado.
"O que há de mal nisso, eu deixar o motorista
trepar comigo pelo menos uma vez?, eu estava de olhos fechados.
Passaram-se alguns segundos.
"Você pode deixar o tal te ver nua, te esquentar, mas a trepada precisa ser comigo, compreendeu?
Achei engraçada a opinião do namorado. Já tinha escutado
sobre isso, casais que tem amigos e amigas para esquentar antes de se
encontrarem. E ele falava como um macho.
"Mas se o homem me agarrar?", perguntei e gemi, quase num começo de gozo.
"Ele não pode te agarrar, se isso acontecer você dê parte dele."
"Como vou dar parte?, estava nua, num táxi, os policiais não vão considerar minhas palavras, não é permitido a uma mulher tomar um táxi nua."
Comecei a revirar os olhos.
"Ai, vou gozar, mais rápido, por favor, mais rápido."
A história do táxi, eu nua, o motorista prestes a me agarrar, querendo me comer, eu a me defender, pode me olhar, mas não trepar; os policiais, eu nua, não era apenas o motorista, eram todos querendo me comer.
"Ai, ai, vou
gozar, essa história está muito forte, fale mais, fale mais sobre isso", gritei, "ai, ai, quero gritar."
"Cruze as pernas, coloque a bolsa sobre o colo, assim você vai ficar protegida dos olhares", disse o namorado,
"Protegida? Gozei, gozei, que bom, gozei antes de você."
Daquele dia em diante, concluí que tinha de contar histórias.
"Fale você agora", ele pediu.
"Sabe o que houve, ainda no táxi?", incentivei.
"O quê?"
"Deixei o banco molhadinho, não aguentei, nunca
fiquei tão úmida, acho que era a sensação de estar nua pela primeira vez num
táxi, vindo a teu encontro."
"Você molhou o banco? Ele não brigou com você?"
"Não viu, o homem não soube."
"Se fosse eu o motorista, iria verificar; se estivesse molhado, ia pedir pra você enxugar. Você não precisaria abrir as pernas para mim, mas enxugar o banco seria muito importante. E não seria com a minha flanela, teria de fazer aparecer uma. Caso você não conseguisse... Ah, vou gozar, só de imaginar você nua, agachada, procurando um meio de limpar o banco do táxi... Morro de tesão. Estou gozando, pele com pele, vai ficar toda meladinha..."
quarta-feira, junho 29, 2022
Puteiro
Eu ainda estava na escola, sozinha na sala de aula, corrigia algumas provas quando meu amigo, o professor de filosofia, entrou. Você sabe onde é a rua das Marrecas?, perguntei. Ele explicou. Preciso ir ao tal endereço para acertar um contrato de plano de saúde. Havia tempo procurava atendimento, o plano anterior não dava conta da minha situação e a da minha mãe, pessoa idosa. Ele me ouviu, logo depois se ofereceu para me acompanhar. Fica no centro, completou. Essa rua é um puteiro, eu disse e ri. Isso foi no passado, ele de certa forma confirmou, agora os puteiros acabaram, já não se veem mulheres fazendo ponto na calçada, a característica do local mudou. Senti-me atrasada no tempo, acho que já passara vinte anos desde que os puteiros encerraram suas atividades na rua das Marrecas. Será que eu tinha alguma afinidade com puteiros?, cheguei a me perguntar. Sou pessoa sóbria, dedicada às aulas de inglês. Enquanto caminhávamos até a sala dos professores, reparei que a maioria dos alunos e dos outros funcionários já havia deixado a escola, passava do meio-dia. Guardamos os diários de classe e descemos a escada que dava para o salão de entrada. Pedi licença, que esperasse um ou dois minutos. Não disse aonde iria, mas estava na cara que era ao toalete.
Já na rua, optamos pelo ônibus, na calçada à direita, distante a uma caminhada de cerca de cem metros. Não demoramos a embarcar, sentei-me num banco de corredor, o outro lugar estava ocupado por um homem de seus sessenta anos. Meu amigo ficou em pé, ao meu lado. Ora trocávamos duas palavras sobre o tempo, sobre a paisagem, sobre uma construção local, ora nada dizíamos.
Saltamos no Passeio, atravessamos a rua e caminhamos à rua das Marrecas. Encontramos o prédio, entramos. Subimos três andares, uma recepcionista indicou onde eu deveria entrar. Ele ficou esperando numa espécie de antessala. Não demorei a voltar. Tudo correra bem, me deram um formulário e um contrato, o que mais precisava eu já enviara com antecedência. A partir daquele momento, eu e minha mãe já tínhamos um seguro saúde.
Descemos, voltamos à rua. Eu me perguntava o que faríamos a partir daquele momento. Na verdade, tinha de voltar para casa, mas temia ter de anunciar tal propósito. As oportunidades de sairmos juntos eram poucas e meu amigo demonstrava muito prazer por eu estar ao seu lado. Andamos na direção da Rio Branco, pela Evaristo da Veiga. O ambiente aqui na cidade está agradável, vamos até a Confeitaria Colombo, sugeriu. Hum, apenas deixei escapar minha admiração. Ele me olhou na esperança de que eu aceitasse o convite. Nada falei, apenas segurei sua mão direita, e passamos a caminhar, como dois recentes namorados.
Ao atravessarmos o largo da Carioca, olhei ao Mosteiro. Sabe que já fiz promessa a Santo Antônio, cheguei a dizer. Apertei sua mão. E olha que o dia dele está próximo, ele falou. A rua Senador Dantas tinha um hotel, um dia um namorado de ocasião me conduziu para lá sem que eu desse conta para onde íamos. Não sei dizer por que me veio à mente esse acontecimento. Logo adiante, porém, avistamos a confeitaria. Um salão todo espelhado estava repleto de gente alegre; uma mesa lateral nos aguardava; um garçom um pouco gordinho veio nos apresentar os cardápios. A Colombo era um bom lugar para um começo de namoro.
quarta-feira, junho 22, 2022
Entrevendo
Eu vinha do toalete, o namorado me aguardava na porta; o restaurante, mimoso e acolhedor. Um homem saía da porta ao lado – o toalete masculino –, olhou-me, surpreso. O motivo: além do corpo mignon, eu estava nua, ou melhor, trajava uma saída de praia rendada, dessas que descem até abaixo dos joelhos, deixava entrever o que se veste por baixo, vinha abotoada até o umbigo, daí em diante escorregava aberta. Um segredinho: pareço mulher, mas não sou. Por isso, a surpresa maior do tal homem. Ele entreviu, por causa do movimento fugidio do tecido, algo inesperado: meu pênis soltinho. Há quem diga que sou pervertida, que adoro me exibir, que há hora para essas coisas; num lugar público, minha atitude seria indecente. A nudez é a nossa natureza, argumento. Além disso, caso se pense de modo diferente, digo: os tempos estão mudados, existem mulheres que andam nuas e ninguém reclama, as pessoas as apreciam, querem observá-las de perto, por que eu, uma pessoa trans, não posso também andar nua? Preconceito? Outro ponto, caso cada pessoa esteja preocupada com a sua vida, não vai dar por mim nem pelo que visto ou não por baixo da renda. Os proprietários do restaurante já me conhecem, conhecem o namorado, cumprimentam-nos, agradecem nossa presença. Caminhamos até uma das mesas laterais, sentamo-nos. Cruzei as pernas, cobria assim meu sexo, sentia-me protegida caso descobrisse algum outro olhar maldoso. O namorado pediu duas caipirinhas.
A praia, em frente, não permite o nudismo total, uma pena. Quando
a frequento, visto um biquininho lindo. Ao ir ao restaurante, corro sempre ao
toalete e dispo-me, assim me sinto mais confortável, de bem com a vida; uma
ponta de excitação me completa. O namorado adora, já me conheceu com esse costume.
No começo, pensou que teríamos problemas, mas depois chegou à conclusão de que o
problema é das pessoas que querem nos reparar.
Descobri Célia numa mesa próxima. Você não vai me contar uma
história, por escrito?, quero publicar, viu?, ela me segredou, quando seu
acompanhante deu uma saidinha para fumar; você tem coisas interessantes para contar,
e nos últimos tempos estamos com uma audiência enorme. Quando seu homem voltou,
ela correu para a mesa onde estavam. Vestia uma saída de praia curtinha, certa
vez me disse que não era tão ousada quanto eu.
Naquele dia ficamos até o final da tarde, bebemos duas
caipirinhas cada um, comemos frutos do mar.
Quero namorar, segredei-lhe no ouvido. Aqui?, ele. O que
você acha?, devolvi. Ele me beijou na boca, um beijo comprido. Troquei as
pernas de posição, a esquerda sobre a direita. Meu pênis não é pequeno, e não ficou rijo, ainda
bem. Nesse ponto sou quase uma mulher. Só não posso gozar. Porque, depois,
morro de vergonha.
quarta-feira, junho 15, 2022
Nete e Nara
Tenho uma amiga chamada Nete. Ela já é entrada nos cinquenta
anos, mas é bonita mesmo. Gosta de se arrumar e sair para passear. Paquera
muito os homens, mas é muito dissimulada. Certa vez veio me contar uns gostos
estranhos que lhe assediam. O principal deles é descobrir mendigos bonitos.
“Nete, existem mendigos bonitos, nessa nossa cidade tão mal
tratada?”, perguntei.
“Claro, é só prestar atenção. Lá pelos lados do Miramar, há
um que é louro, os olhos verdes.”
“E como você faz?”, insisti, minha curiosidade é de matar.
“Não faço, só fico olhando. Aliás, houve uma época em que eu
conversava com um ou outro, mas é arriscado. As pessoas acabam vendo a gente
conversando com mendigos e falam muito por aí, uma fofocada atroz.”
Descobri que ela não apenas fica olhando, sorrateira, como
afirmou, mas conversa com eles. Houve um que ela quis levar para casa e dar um
banho. Ele a olhou assustado. Nete acabou me contando a verdade.
“Você não quer se arrumar, sair por aí, passear comigo?”, propôs
ao tal.
Ele continuou a olhá-la assustado. Segundo ela, ele não foi.
Mas Nete às vezes não me fala a verdade inteira.
Houve um final de semana em que a convidei para irmos, nós
duas, a Lumiar. Procurei a mulher pela cidade o dia todo, nada de encontrá-la.
Dias depois, quando a vi perto da rodoviária, ela se engasgou toda para me
dizer o que fizera no tal fim de semana. Antes de se despedir, disse que uma
hora dessas me contaria direito o que aconteceu, mas nada, até hoje não sei.
Imagino Nete levando o mendigo louro para casa. Ou para um
hotel. O problema seria entrar num hotel com ele. De repente, ela arranjou uma
roupa, um vidro de perfume, ajudou o homem a melhorar a aparência e os odores e
entrou com ele naquele hotel que fica atrás do antigo parque. Há umas suítes
com banheira, ou minipiscina, não sei bem. Nete enfiou o homem dentro e ensaboou-o
até brilhar a pele, até seus cabelos ficarem novamente totalmente louros.
Depois, ela tirou a roupa e levou o homem para cama. Aqui no hotel não tem
cachaça, ela deve ter falado. Pediu, então, um espumante. O homem bem que
gostou. Da bebida e da mulher.
Numa outra data, ela foi para Rio das Ostras, hospedou-se sozinha
numa pousada em Costa Azul, baixa temporada. Foi à praia durante o dia. À tarde,
ela entrou na tal pousada com um rapaz, ele apenas de sunga. Nete, como vou
embora de sunga de noite?, perguntou assustado. Nada de ir embora, só amanhã. E
ficaram namorando à noite inteira. Ela lhe contou que também já viveu algo parecido.
Saiu numa sexta-feira para ir à praia, de biquíni e envolta numa canga de renda
transparente; arranjou um namorado, voltou para casa domingo à tarde; que
festa. O rapaz adorou a história.
Minha amiga é de um fogo difícil de apagar. Sei que este não
vai ser o único mendigo a quem vai dar um trato. Depois virão outros, e mais
outros. Caso não consiga convencer um deles a deixá-la lavá-lo, acho que, mesmo
assim, arranja um jeito de trepar com ele.
“Você sabe, Nara, já vi uma mulher de pernas abertas sobre
um mendigo, passava de uma da madrugada. Ela dizia, mete, mete fundo, mas não
toca em mim, e olha que eu limpei bem o teu peru.”
Às vezes penso que a tal, de pernas abertas sobre o mendigo, seria a própria Nete!
quarta-feira, junho 08, 2022
Elas não sabem nada disso
Outro dia conversava com uma amiga:
"Há namorados que se contentam em nos levar para cama e simplesmente trepar, outros não se satisfazem apenas com a conquista e a trepação, gostam de fantasias, pedem a mulher que invente algo novo, que fale alguma coisa excitante ou mesmo desejam ações de nossa parte impossíveis. Um deles chegou a me perguntar se já saí sem calcinha. Respondi que sim, mas que já havia um bom tempo que isso acontecera. Ele quis saber o motivo. Não foi por falta de calcinha, respondi. Passaram-se alguns dias, ele me desejou ao seu lado sem a calcinha. Houve uma vez em que não me deixou vesti-la, levou-a no bolso da calça depois de termos trepado às mil maravilhas no apartamento dele.
Minha amiga contou uma história parecida. Seu namorado, porém, prefere que ela fale saliências no ouvido dele enquanto trepam, mas ela pede para ele se controlar, que a espere gozar.
"Digo cada coisa, você nem imagina", ela me fala. "Ouve um dia em que fiquei sem saída."
Sussurrou no ouvido do homem depois de dizer uma porção de aberrações:
"você mete no meu cu?"
Ele a virou violentamente e começou a tentar lhe penetrar. Tendo muita dificuldade, reparou que era a primeira vez dela, na posição.
"Estava brincando", tentei me voltar a ele.
"Com essas coisas não se brinca, disse. Tirou uma pomada não sei de onde, passou na ponta do pênis e me penetrou. Ai, está doendo, está doendo, eu repetia. Promessa é dívida, continuou. Não tive saída, a trepada demorou muito, e o namorado gozou lá dentro, gozou tudo que podia. Na semana seguinte, pensei em terminar o namoro, mas não tive coragem, pedi então que me comprasse um anel, na joalheria do shopping. O homem atendeu de primeira. Quando voltamos à cama, eu disse meu amor, espere um instantinho, tirei a roupa e fui virando de costas. Daí em diante, além das histórias maravilhosas que conto, ele ganha de lambuja a minha bunda. Estamos assim há três anos!"
"O meu pediu, numa noite dessas, que eu saísse nua ao lado dele, no automóvel", foi a minha vez de contar. "Se eu for presa?, perguntei. Nesta cidade não existe polícia, afirmou. Adivinhe o que aconteceu!"
"Já sei", disse a amiga, "a polícia resolveu atuar naquele bendito dia..."
Caímos numa intensa gargalhada.
"Com fantasia, o namoro tem mais tempero, e o namorado não procura as garotas mais jovens", completo, "elas não sabem nada disso."
