sexta-feira, março 30, 2007
Um passeio no Centro do Rio
quinta-feira, março 15, 2007
Águas do entardecer
quinta-feira, março 01, 2007
Carnaval
À noite, fui eu que te fiz vítima; algoz atroz, imperdoável. Enquanto nos levava a orquestra, salão à luz de séculos perdidos, minhas garras afiadas não te perdoaram; listras escarlates traçadas em dorso lívido, unhas de Penélope sôfrega vinte anos. Mas te vingaste a tempo: descoseste meus fios, desataste meus laços e me escondeste entre tuas pernas. Quando eu menos esperava, explodiste; jorraste vapores e lavas, tepidez trágica de amor a deusa olímpica proibida.
Na manhã seguinte, acordamos enquanto a maré baixa lavava nossos corpos, carícias plenas sobre tecido natural, afago perdido de lobo esguio. E caminhamos trôpegos, sob olhares avançados de foliões enfeitiçados pela nudez de havaiana de outros trópicos. Quando me livraste da exposição crua e me envolveste em seda de tear estrangeiro, fantasia roubada a sultana dançarina desatenta, conduziste-me sob afagos a desfile em que eu era estrela primeira.
Muitas vezes me despiste, outras tantas escalei-te; nos levaram blocos e cordões; gozamos intrépidos, mas sempre disfarçados.
Na segunda desapareceste. Foi, então, que te traí a tempo exíguo. Vaqueira. Chapéu e botas que me subiam os tornozelos. Mascarado, saído de filme mexicano, zorro esporádico, laço hábil sobre animal inquieto, minhas mãos por sobre as nádegas atou. Violento, arrancou-me o biquíni negro, amou-me na sombra, sob capa protetora. Às primeiras luzes, libertou-me; como recompensa, apenas as mãos soltas. Disse sobre a nova fantasia: "fada nua encabulada..."
Na terça ressurgiste; nada perguntavas ao me encontrares nua... Beijaste-me rubro, excitado, não mais me precisavas despir. Após explosões estelares, últimos acordes de sinfonia ligeira, de novo te tornaste invisível.
Quando na quarta a festa acabou, as amigas sussurram-me: "estás perdida, nua e abandonada." Mas foi aí que reapareceste e contigo me levaste; me querias mesmo nua, mesmo arranhada de outras unhas, exausta, a exalar suor apaixonado de quatro dias...
sexta-feira, fevereiro 16, 2007
Glorinha
Fora tomada por um tipo diferente de excitação desde que percebera a possibilidade de participar daquele baile. Como queria freqüentá-lo para depois contar às amigas todos os pormenores! E falavam cada coisa!, nos anos anteriores ouvira histórias de arrepiar. O clube tinha a fama de promover os melhores e mais picantes bailes de carnaval da cidade, e até mesmo nos dias que antecediam a grande festa realizava os pré-carnavalescos, que da mesma forma davam o que falar. Quando viu os convites e teve a aprovação da mãe, exultou. A mãe a aconselhava. Não devia dar confiança aos homens. Quanto menos atenção, mais eles a procurariam. Disse que mantivesse discrição, estaria lá para se divertir, e como é boa a vida quando se sabe aproveitá-la. O pai não precisava saber de nada. Ficaria em casa, veria televisão e quando perguntasse pela filha a resposta estaria pronta: foi passar a noite na casa de uma amiga, divertem-se juntas.
Antônia preparou a fantasia. Queria-a mínima. Glorinha a orientara. Vista-se com um tipo de manto. Faça uma fantasia que tenha capa larga e comprida. Lá pelas tantas, quando o calor estiver insuportável, a gente dá um jeito. Gostava das soluções práticas da amiga. E assim fez, um manto reluzente, trabalhado, de cetim, mas por baixo a surpresa: um biquíni que jamais vestira, tão mínimo que se perdia no próprio corpo, este com uma polegada a mais no bumbum e nas coxas, uma ponta de charme segundo as amigas.
Antônia mantinha-se quieta na cama. Ah, que vergonha, não queria nem pensar. Glorinha ainda dormia, mas o que diria ao despertar? A própria Antônia atribuía a culpa a uma taça de champanhe. Sim, o champanhe deixara-a excitada. Dançavam no camarote. Ela só, e Glorinha com o namorado. Mantinha-se fechada, envolta na capa, mas fazia tanto calor. E depois alguém já a paquerava, fizera sinal para que abrisse a roupa, que ficasse mais à vontade. E as outras meninas? Dançavam alucinadas, só de biquíni, algumas sem o top, não demonstravam vergonha nenhuma, às vezes abraçavam-se aos seus pares e permaneciam encobertas por eles. Glorinha lhe pediu licença, desceria um pouco com o namorado. Ela não queria vir?, então ficasse e aproveitasse. Foi então que aconteceu. Uma presença que na hora saudou como providencial. Um lindo homem, de juventude exuberante. E era louro. Dançou com ele no camarote largo. Ele se aproximava, mas não a tocava. Depois trouxe a taça de champanhe. Deu a ela. De novo dançavam, mas ele não a tocava. Depois de repousar a taça vazia em um dos cantos, ela própria o puxou para mais perto. Sentiu o corpo do homem. Foi aí que ele a tocou por debaixo do manto. A pele que deveria estar quente era fria, mas arrepio e calor súbito envolveram-lhe todo o corpo. Deixou a capa escorregar pelas costas e seu corpo brilhou, apenas o biquíni mínimo. O paquera percebeu que ela insinuava-se. Não mais se livraria dele.
E foi assim a noite toda. Suou, deixou gotículas de seu corpo no corpo do homem, o coração batia forte. Reparou que Glorinha a admirava e sorria. A fantasia da amiga era mais recatada, mas a deixava também muito sensual. Antônia dançou a madrugada inteira; tinha o calor das bacantes que traziam para a Grécia o culto a um novo deus. Só que as bacantes dançavam nuas... E por pouco ela também não dançara. Os seios escaparam algumas vezes; o top cedia nos momentos de maior euforia. E ela fingia não reparar. Mas só durante alguns segundos. Depois recompunha-se. Foi assim até os últimos acordes da orquestra. E era uma pena que o baile acabava. Essas festas nunca deveriam terminar. Quando deu por si alegre, prateada de suor, beijou na boca o namorado da noite. Chegou então a hora de partir. De repente, corou. Lembrou que viera coberta por uma capa, um manto largo e comprido. Mas onde estaria ele?
Quando Glorinha acordou e Antônia quis falar alguma coisa, a amiga tapou-lhe a boca. Esqueça. Acontecem coisas piores.
Laura
– Sou eu.
– Eu, quem?
– Uma mulher.
Ele entreabriu a porta e reparou que eu estava nua. Afastou a tranca; escorreguei quarto adentro.
– A recepcionista?
– Não, a irmã dela.
– O que houve?
– Nada, ela me mandou em seu lugar – respondi quase envergonhada, sem saber onde colocar as mãos.
– Por que a máscara?
– Hoje é carnaval, lembra?
– Você não vai me roubar, vai?
– Só uma música – disse enquanto o abraçava.
– Música?
– O baile. Estão todos na cidade, vamos fazer o nosso.
Ele demorou mas, enfim, entendeu.
Quando o homem chegou sábado à tarde querendo se hospedar naquele lugarejo, experimentei sensação especial. Era um ator, já o tinha visto em algum filme na TV, e como era belo!, só não lembrava seu nome. A pousada ficava junto ao posto de combustível, o único na pequena cidade de Cianópolis, sudoeste de Goiás. Na verdade, eu fazia tudo naquela pequena hospedaria: varria, arrumava, lavava e passava a roupa de cama e servia o café da manhã. O local era freqüentado por motoristas de caminhões que seguiam para Mato Grosso. Nunca, porém, dera confiança a nenhum deles. Mas naquele dia... o homem era um ator, apesar de vir numa pequena camioneta, e era sábado de carnaval...
Tratei-o com cortesia e lhe ofereci o que havia de melhor.
– O quarto é simples, mas possui ventilador. Os dois banheiros são localizados na área externa; como hoje não há ninguém hospedado, creio que você terá mais conforto. Aqui no hall, você pode ver TV até a hora que desejar, e na geladeira há água à vontade. Se quiser, pode levar uma garrafa.
Ele demonstrou muita satisfação. Entreguei-lhe a chave.
– Devo ficar um ou dois dias – disse antes que eu o conduzisse ao aposento.
– Você deve pagar adiantado – avisei.
Ele tirou duas notas do bolso e me entregou, depois enfiou-se no quarto.
À noite, permaneceu vendo o carnaval pela TV até depois da uma da madrugada. Fiquei escondida na sala reservada a empregados; fiz como se não houvesse pessoa alguma na casa. Quando ele desligou o aparelho e foi para o quarto, eu já estava totalmente nua, apenas pequena máscara cobria-me os olhos. Aí fiz o que jamais pensara: fui primeiro até a entrada do pequeno hotel, pisei o passeio e senti no corpo o ar fresco da noite; depois, desliguei a luz externa e tranquei a porta. Então corri até ele.
Dançamos: músicas de um rádio de pilha. Após algum tempo, ele me segurou com força e me levou para cama. Era um homem rude, do jeito que eu gosto. Não lembro de ter transado com outro ator.
Só morri de vergonha, quando, sorrateiro, roubou-me a máscara!
De manhã, sussurrou alegre num de meus ouvidos:
– Hoje ainda é carnaval!
E me pediu que lhe servisse o café da manhã. Nua.
terça-feira, fevereiro 06, 2007
Linda
A madrugada envolvia minha nudez. Cheguei à sala, aproximei-me do sofá onde ele dormia e deitei a seu lado. A princípio mantive-me quieta, depois o envolvi em um abraço cheio de desejo. Num primeiro momento, ele se assustou e tentou desvencilhar-se. Então sussurrei carinhosa em um de seus ouvidos: "sou eu, Linda, não era isso que você queria?". Aí mergulhei sob o lençol, lhe tirei toda a roupa e o abracei de novo; meus lábios úmidos procuravam os seus.
Quando aquele homem chegou em minha casa numa tarde de dezembro, percebi sem demora que não o deixaria escapar. Talvez tenha sido esse meu pensamento que o manteve sempre com a atenção voltada para mim. Ele era de outro estado, veio com a prima de meu marido e uma criança, um menino de sete anos. Viajavam, vinham de Brasília e, no dia seguinte, iriam para o sudoeste de Goiás. Passariam a noite em minha casa, em Goiânia. Foram, havia algumas anos, marido e mulher, mas, segundo ela, não tinham mais relações. Eram grandes amigos. Ele sempre vinha no período de férias para ficar com o filho. Ela o hospedava e o levava de um lado a outro junto com o menino. Aquilo soava estranho para muitos familiares, mas eu acreditava nela. Não dormiam juntos.
Conversamos após o almoço. Ele olhava tudo e não se surpreendeu quando mostrei que trabalhava num anexo a casa, um salão de beleza que eu construíra para completar a renda familiar.
Minha vida até ali sempre fora cheia de problemas e sofrimentos: o marido, trabalhando à noite, dormindo de dia, ganhando pouco e com problemas de saúde, não tinha quase contato comigo; o dinheiro sempre curto, para se conseguir qualquer coisa era necessário um sacrifício enorme.
Aliás, esse era um assunto sobre o qual eu não gostava de falar. Mas eles eram discretos, não fizeram perguntas a respeito.
Por volta do entardecer, saíram. Na verdade eu os acompanhei. Fomos todos visitar uma tia bastante idosa e um pouco adoentada. Durante todo o trajeto, fui no banco da frente. Orientava o itinerário à prima, que dirigia. Ele ia atrás, com o filho. Notei que me olhava e fazia perguntas sobre a cidade, pois estivera ali havia alguns anos e não mais lembrava os locais que visitara. Eu procurava responder tudo que estava a meu alcance. Mostrou-se muito alegre e simpático.
Durante a visita, quando foi servido o café, reparei que ele me olhava sorrateiro. Mostrou certo embaraço quando o surpreendi. Depois saiu e brincou no quintal com o menino.
Na volta, continuamos a conversar animadamente. Acabei convidando a todos para visitar uma feira de artesanato que acontece todas as quartas nas imediações de minha casa, e onde há também comidas típicas. Andamos toda a rua, já apinhada de gente àquela hora. Compraram alguns produtos e insistiram em levar bolos, salgados e doces para o jantar.
Quando chegamos em casa, preparei a mesa e completei com refrescos e refrigerantes. Comemos e continuamos conversando. Depois de algum tempo, ele foi para a sala e, enquanto olhava a TV, falava e brincava com o filho. Mais ou menos às dez horas, a prima foi para o quarto e levou o garoto, que despediu-se do pai beijando-o e lhe desejando boa-noite. Entreguei a ele, que ficou na sala, a roupa de cama, também desejando que dormisse bem.
Ainda sob o lençol, procurei facilitar para que ele me penetrasse. Girei depois de algum tempo e permaneci sob seu corpo. Senti vontade de chorar, mas a necessidade de prazer era maior. Cheguei a emitir alguns gemidos. Ele tapou-me a boca, pois temia que eu acordasse uma de minhas filhas, que chegara tarde após o dia de trabalho e de aula na faculdade. Jamais gozei como naquela noite. No final, lhe pedi desculpas. Ele pareceu não entender. Mas, no fundo, acho que era eu que pedia desculpas a mim mesma por aquele ato intempestivo. Algum tempo depois, pensando melhor, passei a crer que eu mereci aquela noite. Permaneci ao lado dele até as primeiras luzes do dia. Antes de deixá-lo, agachei-me e o beijei. Um beijo untado por lábios e línguas, que durou longos segundos. Só então, ainda nua, corri para o meu quarto.
No café da manhã, olhei sem temor na direção de meu recente amante. Ele sorriu. Suspeitei que a prima tivesse desconfiado. Mas ao partirem, deduzi que não.
Ela me beijou com suavidade e afeto. Ele fez menção de apenas apertar minha mão, mas ofereci o rosto. Beijou-me.
Pedi a eles que voltassem sempre.
quinta-feira, janeiro 18, 2007
Dayse
Quando ainda trabalhava, antes das quatro, tentou não perder de vista o homem elegante que vestia impecável terno marrom e apreciava os perfumes. Quando ele entrou e se dirigiu a ela, perguntou se a loja tinha o Kenzo. Claro que temos, respondeu, e do tradicional. Esse mesmo, foi o que ouviu dele. Tentou ainda vender alguma coisa a mais. Ele, porém, relutou, disse que estava muito satisfeito com o produto e com a vendedora. Ela sorriu, entregou-lhe o cartão, não sem tocar com muita suavidade uma de suas mãos. O homem, sempre sorrindo, entendeu o que ela desejava. Deu também o seu cartão e falou que andaria ainda pelo shopping, tinha tempo. A moça deixou escapar a resposta antecipada: aceitava conversar, o mínimo que fosse. Ele saiu com o pequeno embrulho dentro da bolsa que estampava o nome da loja. Esperaria.
Dayse agora andava pelo shopping. Deslizava delicada. As outras vendedoras a conheciam, tinha colegas por toda a parte, não queria que elas desconfiassem. Mas a roupa curta e a necessidade de transitar através de corredores cheios de gente provocavam efeito contrário, colocando-a em evidência a quem ela não desejava. A vitrine da joalheria era um lugar impessoal, diante dela se manteria anônima; além disso, as funcionárias não a conheciam e eram mais discretas.
Quando menos esperava, sentiu alguém lhe tocar um dos ombros. Voltou-se convicta. Era ele. Beijou-a sobre uma das faces, sorriu. Ela também não escondeu ligeiro sorriso. Vamos, foi o que ouviu da voz do homem. Deixaram o shopping em um Corola cinza metálico. Ela não perguntou onde iam. O automóvel, silencioso, deslizou pelas avenidas largas de Brasília. Dayse reparava o fim de tarde. Seu admirador mais recente, enquanto guiava, girava às vezes a cabeça à direita e lhe dirigia a face sorridente.
Vamos beber alguma coisa? Café com creme, ela respondeu. Não bebe champanha?, ele sugeriu com naturalidade, enquanto contornava o estacionamento do Mercure. Não está cedo para tanto?, ela procurava ser autêntica.
Um dos funcionários do hotel veio abrir a porta do carro para a moça saltar. Agradeceu, enquanto o acompanhante a segurava por um dos braços e lhe aguardava os passos; ela equilibrava-se, ágil, sobre grandes saltos. Aqui há uma cafeteria ótima, ele disse em voz baixa. Entraram sem precisar tocar porta alguma. Subiram ao terraço panorâmico e se sentaram. Uma garçonete de uniforme azul veio atendê-los. Entregou dois grandes cardápios e esperou.
Dayse tomou seu café e saboreou um crepe de muzzarella, rúcula e tomates secos. Ele experimentou licor de amêndoas. Conversaram sobre banalidades. Nenhum deles revelou-se.
Avizinhava-se a noite, o clima era temperado e o vestido da moça mostrou-se um tanto inoportuno. Toda arrepiada, tornou-se sensual; mostrava-se mais nua do que nunca e sua pele reluziu aos últimos raios de um sol quase de outono. Simulou breve abraço ao próprio corpo; queria proteger-se do vento frio e ao mesmo tempo esconder a quase nudez. Vamos, foi o que ouviu mais uma vez.
A suíte presidencial do Mercure era algo inimaginável para uma moça como ela. Apesar de ser vivida, de já ter freqüentado outros hotéis, não contava com todo aquele luxo. O homem a acariciava, mostrava-se terno, percorria-lhe os ombros nus com a ponta dos dedos. Dayse ainda trajava o leve vestido. Então ele decidiu despi-la, mas com muito cuidado, como desembrulhasse algo frágil e precioso. Depois a conduziu até a cama de casal, bastante larga, e a depositou no centro, com toda a suavidade do mundo. Namoraram durante boa parte da noite. Ele preocupou-se com ela o tempo todo, quis proporcionar-lhe o máximo prazer. A moça, por sua vez, o achou maravilhoso. Às onze da noite, abriram uma garrafa de champanha e, para acompanhar, comeram queijos gorgonzola e camembert. Em seguida, tiveram mais uma sessão de intenso amor. Dayse jamais sonhara com dia e noite tão esplêndidos, parecia conto de fadas.
No dia seguinte e no outro, não foi trabalhar. Ligou alegando doença. Ficou em casa lembrando aqueles momentos que acreditava mágicos e que dificilmente se repetiriam; ao menos com alguém de tal educação, como aquele homem.
Não esqueceria o momento de despedida. Amanhecia, ele a beijou dentro do automóvel. Um beijo longo e elegante; a seguir, a surpresa: o homem envolveu-lhe o pescoço com o cordão e a medalha que ela apreciara na joalheria. Sentiu-se tão feliz que quis retribuir o presente. Então teve a idéia...
Dayse desceu na quadra de casa. O único momento de aflição foi quando se apressou para não ser percebida: ia na verdade nua e com o corpo ainda quente.
quinta-feira, janeiro 04, 2007
Peixes
No verão de 99, aluguei uma casa no alto de Ponta Negra, em Natal. A localização permitia-me ver toda a extensão da praia, cerca de seis quilômetros, onde predominava apenas areia, mar, e o céu. Era possível apreciar, nas madrugadas, a partida silenciosa dos pescadores, homens que enfrentam o mar bravio em embarcações rústicas, frágeis; homens que seguram firme o leme enquanto o vento intrépido infla as velas. De madrugada eu descia e, escondida – não queria causar alarde ou mal-estar entre eles –, observava o momento em que começavam a deslizar os barcos desde a parte superior das areias até entrarem n'água e se atirarem, rudes, em busca do peixe de cada dia. Depois – apenas a pele morena, tingida pela luz impetuosa dos trópicos – descia sozinha e caminhava debaixo de uma noite quase sempre pesada em estrelas. Então eles já iam longe, mas não perdia de vista suas velas, e me impressionava o saltar constante e corajoso dos barcos contra vagas ricas em espumas. Para aqueles pescadores, o mar era razão de vida, talvez cometa azul em céu de desventura. Enquanto eu, turista de estação, tentava me familiarizar com o local e fazer dele minha morada natural; depois de algumas semanas, já me sentia parte dali, como se tivesse sempre vivido ante aquele mar bravio e sob céu que refletia namoros estelares na paisagem marinha. Andava então longa extensão de areia, respirava o ar úmido de sal, de mar. Envolvia-me o êxtase da estação quente, mas tépida à noite. Gostava de estar sozinha, em estado de total deleite. Era pérola que desprendia faíscas, diálogo luminoso entre astros prateados. Certa vez notei que uma das naus voltava antes do previsto. Quis correr, esconder-me, procurar arbusto que me cobrisse. Mas não há mal maior do que emboscada vil que nos surpreenda, lanterna invasora que nos revele nua. Permaneci estática, nem me dei ao luxo de recostar sobre a areia convidativa; o máximo que me permiti foi cobrir os seios, recurso ineficaz: como as águas de preamar, transbordavam fartos às minhas mãos exíguas. Embora a noite fosse clara, consegui permanecer envolta nas sombras. Dois homens, um deles parecia ser bem jovem, desembarcaram e empurraram o barco areia acima; depois, desprenderam as velas. Ouvi a voz do mais velho: "vá agora". O garoto ainda tentou algum argumento para permanecer ali, mas o outro impôs sua autoridade. O remanescente desembarcou os peixes e, por meio de uma grande faca, começou a limpá-los. Vi que era hábil. Abria a parte inferior, tirava as vísceras e as enterrava na areia; ia amontoando os peixes limpos em um cesto. Foi então que me chamou. Surpreendi-me. Voltei a ouvir sua voz; pedia para que me aproximasse. Obedeci. Mas ele continuou seu trabalho; a princípio, não me dirigiu o olhar. Após algum tempo a seu lado, estática, foi a vez de ele se por de pé; tirou então a camisa e a colocou em uma de minhas mãos. Vesti-a; estava úmida, cheirava a mar, mas sobretudo ao corpo de homem em constante movimento. Seu odor de suor, que poderia causar repugnância a pessoas mais sensíveis, deixou-me excitada; e não consegui esconder o que me acontecia. Talvez o mesmo prazer sintam as rosas no momento em que desabrocham. Disfarcei. Agachei-me e lhe pedi a faca. Pus-me a limpar-lhe os peixes. Assistia a tudo impávido, como se minha presença fosse algo natural, rotineiro. O tocar nos peixes deixou-me ainda mais ruborizada. Era o momento de união entre a ação do pescador, seu cheiro que se espalhava sobre meu corpo e o fruto de seu trabalho. Cortei o último em pequenos filetes; mordisquei um deles enquanto olhava o homem do mar. Ele voltou-se para o suporte de madeira. Peguei outro filete e lhe ofereci. Comemos juntos. O sabor era como licor em noite de fantasias; o calor me assaltava, minhas entranhas ardiam... Foi então que aconteceu. Uma de suas mãos tocou-me por sob a blusa e misturou-se ao mel do meu desejo. Amamo-nos com toda a rudeza dos navegantes que há muito desejam aportar...
Antes de partir, ainda lhe disse: "amanhã volto; quero lhe devolver a blusa".
sexta-feira, dezembro 15, 2006
Rita
sexta-feira, dezembro 01, 2006
Renque acolhedor
Certa vez, como eu demonstrasse dúvida, perguntou-me se aceitaria representar não papel principal, mas de coadjuvante em uma de suas aventuras. Confesso que ligeiro arrepio percorreu-me o corpo. Como eu hesitasse, ela se pôs a relatar o que se passava. Arranjara um namorado sem sair de casa. Dizia que ele estava apaixonado por ela. O namoro ia bem até que ele lhe pediu um favor surpreendente. Daria tudo que ela quisesse para levá-la nua a um passeio através da fileira de árvores, bem diante da casa. Sentira-se excitada no momento da proposta. Mas dizia que seu tempo de loucuras já havia passado. Embora não pretendesse fazer-lhe a vontade, não queria desapontá-lo, disse que pensaria no assunto. Ele cobrava-lhe a resposta e ela protelava. "Quem sabe você pudesse fazer o meu papel na aventura externa?", atirou-me a proposta. Recompensaria-me regiamente. "Ele vai descobrir, deve conhecer bem seu corpo", foi tudo que eu disse. "Deixa que isso eu resolvo", ligeiro sorriso entrecortou suas palavras.
Combinou o dia com o namorado e depois me comunicou: "está tudo acertado, a única exigência é que você esteja nua às onze da noite, na varanda. Vou deixar o portão encostado. Lógico que você virá vestida, mas tire toda a roupa e a deixe numa mochila que vai estar num dos cantos". "Mas como ele vai acreditar que a mulher nua é você?" perguntei. "Ele não poderá olhar para o seu corpo, estará de olhos vendados, vai apenas tatear sua pele para certificar-se da nudez, depois lhe tocará um dos ombros e você o guiará através das árvores. Ele também não poderá ver o momento em que eu vou sair de casa. Finjo que saio, e quando for a vez dele, já vai dar com você nua no meu lugar". Achei o plano engenhoso, mas apenas trejeito sinuoso ou emissão de som imprevisto de minha parte e a montanha ruiria estrepitosa. Mesmo assim concordei.
Na noite da aventura eu tremia muito. No momento de tirar toda a roupa tive vontade de desistir, mas consegui controlar-me. Tudo ocorreu com perfeição. Apenas um detalhe nos surpreendeu: quando voltamos, a porta estava trancada. Ele percebeu que eu demorava a abri-la. Então perguntou o que estava acontecendo. Como eu hesitasse responder, tirou a venda e deu com a nua errada. "Quem é você?" inquiriu assustado. "Uma atriz". "Atriz?" "Sim, uma atriz." "Então vamos", tomou-me nos braços e me colocou dentro de seu carro, "nossa representação ainda não terminou", falou em voz baixa. Deu a seguir a partida e me levou dali. No outro dia, quando a visitei de novo, ela ria alto como eu nunca vira. Depois, ainda muito alegre, disse-me: "eu quis dar a você um presente, vai dizer que não gostou?"
sexta-feira, novembro 17, 2006
Em Roma
Titia queria visitar todas os monumentos e ruínas do antigo império. Acompanhei-a ora com curiosidade, ora com um pouco de enfado, ora até mesmo assustada. Confesso que fiquei atemorizada ante à arena do Coliseu; imaginei a agonia de gladiadores ensangüentados e de todos os que eram devorados por leões; também não me foi difícil visualizar a multidão que há quase dois milênios gritava alucinada na assistência.
Nada semelhante a Roma dos dias de hoje, cidade até certo ponto tranqüila – apenas o ligeiro tráfego de automóveis nos assusta -, seu povo alegre, suas casas e prédios elegantes, a citá colorida, com lojas e butiques de marcas conhecidas.
Também admiramos os cafés; sim o café expresso é de invenção italiana e são muitas as cafeterias que se espalham pela cidade, plenas de gente bonita, principalmente ao entardecer, momento em que parávamos para tomar um capuccino.
Fora às visitas históricas e ida e vindas a restaurantes, onde não deixamos de saborear todo o tipo de prato típico, fizemos diversas compras. Era freqüente chegarmos ao hotel apinhadas de bolsas; um dos porteiros vinha então até o táxi, abria a porta do automóvel e nos ajudava a carregar todos aqueles objetos.
Fiz amizade com umas meninas italianas, ou melhor, umas jovens. Eram muito atiradas. Certa noite, convidaram-me para ir a uma boate que ficava nas proximidades do hotel. Falei com titia; ela decidiu descansar, já que o dia fora um dos mais movimentados.
Às nove horas, elas apareceram e a funcionária da recepção ligou para nosso apartamento. Desci rápida e embarcamos num pequeno automóvel.
Na verdade, era uma comemoração. Uma das amigas fazia aniversário e eram muitos os convidados. Logo apresentaram-me à maioria das pessoas. Percebi que muitos admiravam minha beleza e a roupa que eu vestia. Trajava vestido rosa tomara-que-caia, bem justo ao corpo e bem curto. Despertei os olhares de todos os homens e rapazes.
A festa transcorreu animada e sem incidentes. Predominava música americana; todos dançamos alegres e entusiasmados. Alguns rapazes aproximaram-se e queriam estar grudados a mim durante todo o tempo. É que no calor da música, meu vestido subia, as coxas ficavam de fora e por pouco não aparecia a calcinha; acho que em alguns momentos até apareceu, mas a aglomeração das pessoas, a dança, o piscar incessante de luzes coloridas não permitiram que os curiosos a percebessem mais do que durante breves segundos. Ao mesmo tempo, eu não podia esticar a parte de baixo do vestido, porque corria o risco de os meus seios saltarem. Só sei que foi tudo muito divertido. Deixei os italianos, que não demoraram a se tornar meus fãs e amigos, excitadíssimos.
No final da noite, quando as meninas me deixavam no hotel, tentava compreender o que uma delas me perguntava: queria saber onde eu comprara o vestido. Disse que o trouxera do Brasil.
Enquanto entrava no apartamento e observava titia dormindo, lembrei-me que estava num país que ditava a moda, mas que, naquela noite, eu tinha sido a pessoa que mais brilhara.
sábado, novembro 04, 2006
Seios nus
sexta-feira, outubro 20, 2006
Margareth
Nos finais de semana, não deixava de ir à praia. A Copacabana. Vestia biquíni de lacinhos e camiseta curta. Mal cobria parte do bumbum arrebitado. Estátua viva da beleza pura, convidava a um beliscão, ou mesmo a alfinete macio.
Num domingo, voltava da praia. Já passava das quatro. Calor forte, sol ainda quente. O ônibus vinha mais apinhado do que nunca. Preferia voltar de pé. Nada melhor do que o esfrega-esfrega após um dia quente de verão: o corpo suado, a pele rosada ardendo. A pouca roupa a fazia arder ainda mais. Deixou-se encostar. Cada curva era uma nova oportunidade de se apoiar no corpo do desconhecido. A viagem prosseguiu assim até Bonsucesso. Ela morava em Olaria. Quando o ônibus deixou para trás a praça das Nações, Margareth tinha o espaço livre às suas costas. Alguns assentos até já iam vazios. Não reparara quem lhe viera por trás durante a viagem. De repente, ouviu voz próxima e grave:
– Ei, moça, deixa eu lhe falar uma coisa.
Virou-se e deu com homem corpulento.
Ele continuou:
– Notei que você gosta da brincadeira.
Tentou ser séria, mas lhe escorreu uma ponta de sorriso.
– Então, peço mais uma coisa.
Olhou-o de lado, com ar indagativo.
– Pra completar a brincadeira, queria lhe dar um presente.
Tirou do bolso pequeno objeto. Desenrolou-o. Era uma pulseira de ouro.
Margareth olhou a jóia com interesse.
– É sua – depositou ligeiro em uma das mãos da jovem, acrescentando a seguir – mas com uma condição.
Ela deu ao rosto graciosa feição de curiosidade.
– Vamos fazer uma troca – sugeriu esticando-lhe os olhos na direção do biquíni.
Margareth, sem demonstrar surpresa, curvando a cabeça, continuou a examinar a pulseira.
– Você ainda tem tempo pra decidir – como os bons comerciantes, fingia desinteresse pela transação.
Ela, então, encostou os antebraços no corpo e fez subir parte da camiseta. Exibiu discreta as pontas dos laçarotes que sustentavam o biquíni.
Sem mais palavras, o desconhecido a envolveu num abraço voluptuoso, mas teatral.
Foi então que Margareth ofertou-lhe moeda maior: febre interna tornou mel encantado a fada nua, e três tremores anunciaram a rosa lúbrica.
sexta-feira, outubro 06, 2006
Paletó azul
sexta-feira, setembro 22, 2006
Noite púrpura
A porta se abriu vagarosa. Vislumbrei Adão; resolvera o problema. Entrou e disse: "tenho meia hora". Minhas roupas imediatamente se espalharam pelo chão. Em meio ao quarto escuro, tentando conter meus gemidos e a respiração ofegante, eu vibrava à medida que suas mãos percorriam-me o corpo. Por momentos deixou-me livre; desfilei então fazendo vez de modelo em pele e pêlo, fantasia de homem extasiado. Vestia apenas sapatos de salto; tentava tornar as pisadas leves, pegadas de anjo, disfarce sobre tábuas compridas e ressonantes a pulsações de amante em constante delírio. "Vista esta capa", atirou-me sobre a pele tecido negro e translúcido. Rodeou-me o corpo; apertava-me enquanto eu me desmanchava em seu abraço. "Não a deixe escorregar". Namoramos durante os trinta minutos. Depois disse: "vamos". Quando pensei em vestir-me, impediu que eu recolhesse as poucas peças: "você vai só com a capa". "Por que não ficamos aqui?", ainda perguntei. "Tenho mais assuntos a tratar".
Deixamos a porta trancada. Guardou a chave em um dos bolsos, enquanto eu descia a escada enrolada apenas no leve tecido, atemorizada. Quando já íamos no automóvel, reparei a noite cheia de estrelas.
Transitamos através de ruas e vielas do centro velho. Adão não me dizia qual seu trabalho. Mas rondávamos hotéis baratos, cortiços e outros sobrados. Reparei que ele carregava os bolsos cheios de notas de cinqüenta. Vi mulheres mal vestidas, algumas embriagadas, outras fumando alguma coisa que não era tabaco. Arrastamo-nos por quartos sórdidos, quase sempre com as luzes apagadas, mal podíamos distinguir as sombras nas paredes. Ele pedia que esperasse; depois voltava, me roubava o manto e me acariciava lentamente. No último edifício, num andar soturno, guardado na entrada por um negro de terno e com o rosto suado, meu homem piscou-lhe enquanto me dava passagem; o empregado fingiu que não me via. Quando atravessamos uma espécie de bar sofisticado, reparei mulheres em trajes mínimos. Havia uma nua por inteiro; era a mais alegre. Atirou-se em minha direção e roubou-me o tecido. "Puxa, que corpo!", sua voz partiu o silêncio enquanto eu, surpreendida, cobria os seios por instinto, como adolescente despida por primeiro amante. "Deixe a moça, ela está comigo". Num gesto displicente, ela ainda segurou o pano pelas costas, depois envolveu-me nele atando as duas pontas que se destacavam; beijou-me, suave, os lábios; sussurrou então palavras sem sons - apenas emanações de ar - enquanto apertava uma das metades de meu bumbum com a mão direita: "venha um dia sozinha, quero namorar você". Confesso que suas palavras deixaram rastros de alegria em minha alma; e, em meu corpo, uma ponta de excitação.
O quarto tinha pintura rubra nas paredes e dois abajures que deixavam entrever estrelas prateadas pintadas em teto azul; corpos de mulheres nuas, bem desenhados, eram temas de dois quadros grandes. Adão mordeu-me os seios, me fez cócegas em torno do umbigo e deixou a mão que me acarinhava escorregar, até tocar-me os poucos pêlos...
Terminamos a noite em um hotel de luxo; não digo o nome para não comprometer. Ainda insinuei: "esse hotel é de turismo, cinco estrelas..."; "eles também negociam conosco", foram suas únicas palavras. Ao voltar, tivemos o namoro completo: uma transa intensa e alucinante. Quando precisei ir ao banheiro, levei um grato susto: era lindo. Imagine o banheiro mais bem transado, confortável, aconchegante, que você ainda não vai acertar. Senti no ar odor de alguma erva exótica, talvez oriental. Deixamos o hotel às quinze para as três; ainda ia enrolada em meu manto. "Estou morta de fome", sussurrei sensual.
Dirigiu durante um quarto de hora. Paramos numa casa que depois descobri ser restaurante. Tinha pouca luz, funcionários discretos. Relutei, não queria sair nua do automóvel. "Pode descer, aqui não tem problema". Entramos e ocupamos uma das mesas do lado direito. Tudo era iluminado por luz de velas. Saboreei carpaccio de salmão, duas colheres de arroz à piamontese e salada de rúcula. O garçom, sem me dirigir o olhar, serviu-nos duas grandes taças de champanha. No final, meu namorado soprou-me quase em surdina: "tenho uma surpresa". Primeiro pediu café, depois sorvete de chocolate com amêndoas, chantilly e licor de amarula. Falou então num tom mais alto, mas sem que sua voz quebrasse o misterioso silêncio: "o chocolate é dinamarquês, experimente". A taça refletia a chama bruxuleante de uma vela. "Que delícia!", foram as palavras de uma mulher apaixonada e em êxtase permanente, surpreendida por paladar encantador.
Rodamos mais um pouco pela cidade. Ao perceber a hora avançada, assustei-me: "vamos!, não posso ser surpreendida pelo amanhecer..."
Ainda éramos presas das últimas sombras quando me deixou junto ao portão de casa. Cheguei à janela do automóvel para tocar-lhe a face com meus lábios úmidos e trêmulos. "Amanhã, vamos comprar mais roupas para você", falou. Sorri e soltei a capa; fiz que escorregasse janela adentro: "leve meu cheiro, é para não me esquecer". De olhos fechados, sorveu o tecido com volúpia.
Já ia entre o gramado e a porta principal, quando me voltei para lhe dar um último adeus.
sexta-feira, setembro 08, 2006
O ovo
– O ovo, eu quero, você tem de fazê-lo –, a voz do homem explodia pela sala.
Tremia, arrepiava-me, suava.
– Por favor, dê-me mais uma chance, garanto que consigo.
– Ponha então o ovo!
Fechei os olhos. Concentrei-me. Tentava reunir todas as forças.
Foi aí que meu ventre num salto quase olímpico e em movimentos concêntricos anunciou algo expresso e frágil. De entre as pernas rolou coisa macia, sem cor, matéria visceral, que se aninhou atrás, sob minhas nádegas.
– Isso não é um ovo, e nem branco é.
– As mulheres põem-se ao labor de acordo com suas possibilidades; é um ovo sim; e, além disso, sei eu o que sai de mim –, anunciei séria.
Ele se aproximou, tomou-o nas mãos, levou-o próximo ao nariz. Fez expressão de dúvida. Sua cabeça pendeu um pouco para a esquerda; parecia tentar convencer-se de minhas palavras. Depois estendeu-o a mim:
– Se realmente é um ovo, experimente-o.
– Não posso provar o que produzo; o julgamento não cabe a mim, experimente-o você –, ainda agachada, sem me mover, falei resoluta.
– Você prometeu satisfazer todos os meus desejos; acho que esse você não vai conseguir. Não vejo a forma de um ovo.
– As mulheres dão forma vária. Você já olhou na direção do sol? Talvez pense que ele seja laranja!
– Sim, o sol, mas o ovo...
– Não precisa ser sempre branco, nem ter forma de ovo...
– Você quer convencer-me do que não vejo.
– Veja o que quiser; tenho certeza das coisas que faço.
– Você é esperta, não recua.
– Não há o que recuar ante evidência tão convincente – sentenciei.
– Evidências, evidências...
Ainda agachada, esforcei-me em posição fetal; juntei os braços, fechei as pernas, depois pronunciei em voz baixa, mantinha a calma e a convicção:
– Olhe-me, perceba: sou eu o próprio ovo. Veja minhas formas, toque minha pele; venha.
Ele pareceu hesitar.
– Teme aproximação maior? Toque-me, toque o ovo gerador.
– Ou a galinha...
– Sim, isso, ela também não deixa de ser ovo.
Resolveu-se. Agachou-se ao meu lado. Começou a tatear minha pele. Percorria ora vales que se moldavam à mão própria, ora montanhas, ora músculos rijos, intumescidos. Eu, pétrea, resistia a tremores internos; tentava não denunciar as batidas rápidas do coração; o fluir ligeiro de meu sangue; a fogueira que me ardia o baixo ventre. Avançou. Apalpou-me entre as pernas. Vagaroso. Qual cego que tateia caminho duvidoso. Então aconteceu. Deixei em uma de suas mãos mucosa translúcida e brilhante, cintilância reveladora de minhas ardências.
Não me poupou. Ovo ou ave, prendeu-me as curtas asas – não queria adorno sobre telhado alheio –; depois, untou-me de minha própria seiva e me penetrou com a violência do primeiro Homem. Proibia a fuga mas incitava o gozo. Eu tinha pressa. Agitava-me, sacudia sôfrega todo o corpo; não queria perder vôo interno e intenso, mergulho no inefável.
quinta-feira, agosto 24, 2006
Sobressalto e prazer
- Não se trata disso, Eduarda, mas veja o que aconteceu.
- Então me conta, vai.
- Tudo começou com um telefonema naquele sábado, às duas da tarde.
- E daí?
- E daí que ele me convidou para sair.
- Você não aceitou?
- De início, alguma coisa me dizia que era para não aceitar, mas depois, como não tinha o que fazer, acabei cedendo.
- Então, Marlen, não foi bom o passeio?
- Foi e não foi.
- Por que você chega a falar assim, até mesmo com tremor na voz?
- Escuta só, você também iria tremer, confesso que senti medo; depois, uma ponta de prazer, e, afinal, descobri algo em mim que de certa forma me atemoriza...
- Se você sentiu prazer, foi bom.
- Eduarda, isso é que me preocupa; apesar de tudo que aconteceu, ainda gostei, senti prazer, e marcamos um novo encontro, mas escuta, não interrompa mais.
- Ok, prometo!
- Então, depois do telefonema, continuei arrumando alguma coisa em meu quarto, ouvi um pouco de música, manuseei um livro e às oito e trinta estava lá, na entrada do meu prédio, esperando por ele.
- Vou pedir mais um chope, você quer?
- Quero.
- Garçom, por favor...
- Saímos, demos umas voltas pela orla, perguntou se queria ir a um cinema; como eu já tinha visto os principais filmes, disse que não; então rodamos mais, paramos no Leblon, caminhamos um pouco, entramos numa livraria, vimos algumas revistas, ele tomou um café. Até ali, nada aceitei.
- Hum, livraria? Sofisticado, não?
- Sim, parece.
- Uma hora depois, me convidou para jantar; não era um lugar como este onde estamos, mas um restaurante chique, em Copacabana, restaurante de um hotel; ficamos numa varanda, subimos por um elevador panorâmico, fomos recebidos por uma maitre muito bem vestida, nos indicou uma boa mesa; estava fresco o ar, como agora. De onde sentei, podia ver toda a praia.
- Que maravilha! Quisera eu arranjar um homem desses...
- Escuta, por favor!
- Fala.
- O garçom nos entregou um cardápio imenso; cada coisa sofisticadíssima, comida francesa e coisa e tal; havia também grande variedade de saladas; pedi uma. Deliciosa. Ele quis alguma coisa que não entendi e perguntou se eu gostaria de beber vinho. "Vinho?" repeti, "bebo uma ou duas taças". Escolheu então vinho francês, levemente seco. Que maravilha!
- Então, eu teria adorado...
- Adorei; ah, até que enfim que o garçom chegou com nossos chopes!
- Está bom, não?
- Está, mas deixa eu continuar; para resumir: comemos, bebemos, foi tudo muito bom; ele ainda pediu sobremesa, parece que um tipo de sorvete com calda de licor. Eu nada mais quis. Depois saímos. Então perguntou aonde eu queria ir. Confesso que o vinho me deixou um pouco alegre e excitada, mas procurava não demonstrar; respondi: "vamos passear mais um pouco". Passeamos de carro de novo pela orla, mais uma ou duas vezes.
- Por que você não o levou para sua casa?
- Antes tivesse feito isso, mas foi ele que me levou pra dele.
- Que legal! Logo na primeira vez...
- Eduarda, não sou louca, mas confiei nele. Como é amigo de alguém que conheço muito, achei que não seria nada demais.
- Pelo visto, a coisa foi boa.
- Foi, mas eu queria que não tivesse sido.
- Como assim, Marlen?
- Explico. Chegamos à casa dele, na verdade, uma gracinha de apartamento; ele colocou alguns CDs, Jazz, música instrumental, não sei bem, mas até que gostei; abriu mais uma bebida, me perguntou se queria, disse que não; ficamos no sofá de uma espécie de ante-sala, lugar bem decorado, agradável. A seguir, ele foi apanhar alguma coisa na cozinha; acho que aí é que cometi um erro, sabe qual?
- Nem imagino.
- Deitei no sofá!
- E daí?
- E daí foi que quando ele voltou, trazendo um pequeno prato, acho que com um pedaço de camembert, eu disse baixinho: "me abrace". Ele obedeceu. Depois continuei: "vou ficar toda amarrotada". Nada falou, mas me olhou com uma expressão de que "quanto a isso, apenas você pode resolver". Então tirei o vestido. Fiquei só de calcinha. Estava sem sutiã.
- E ele?
- Fingiu não se surpreender, mas depois me abraçou forte e deitou por cima de mim. Não demorou, a calcinha, oh!, evaporou. Ao fundo, apenas a luz do abajur e aquela música; creio que som de piano.
- Que maravilha!
- Maravilha? Ouça agora, Eduarda.
- Estou ouvindo.
- Começamos a transar; ele me tratou com maior carinho, mas pedi que não se apressasse, porque tenho dificuldade de chegar ao orgasmo. Foi aí que ele falou: "vou fazer você gozar, não se preocupe". Fingi não me preocupar, mas sabia que aquilo seria difícil. Fez, então, a proposta, e o pior que aceitei!
- Que proposta?
- Falou baixinho num de meus ouvidos: "vamos fingir, fantasiar, vamos fazer o seguinte..." então eu fiz... e gostei e gozei!
- Peraí, Marlen, me conta primeiro o que você fez, assim você me mata de curiosidade!
- Fiquei de pé, nuazinha. Enquanto pisava sobre saltos, ele ajeitou a tira da bolsa em torno de um de meus ombros. Depois abriu a porta do apartamento. Tinha de fazer de conta que chegava nua na casa dele. Caminhando em direção ao corredor, ainda disse: "se eu pudesse ao menos cobrir os seios...". Ele retrucou: "você nem veio de top...". Saí. Quando ele fechou a porta, confesso que gelei. Aquele pequeno obstáculo de madeira transformou-se em muralha gigantesca, intransponível. Eu era um ser minúsculo às portas de uma cidade adormecida; tinha de encontrar abrigo após haver perdido o último véu, e sem que habitante algum desse por meu vulto, mesmo que em sonho fugidio. Bati logo em seguida; uma batida fraquinha. Temia despertar hordas estrangeiras. Bati de novo. Ele não abriu. De onde eu saíra tudo estava escuro e vinha um silêncio aterrador. De repente fui tomada por vertigem: não conseguia me controlar, girava de uma lado a outro, tropeçava sobre degraus de escada lúgubre e escorregadia; os caminhos se misturavam, passagem secreta que se dissipava; sentia-me ora em fosso profundo, ora exposta a luz prateada e ofuscante. Ao dar novamente por mim, sem enxergar coisa alguma, pensei: ai, meu deus, ele vai me abandonar aqui. Comecei a imaginar o que faria, ali, nua; como sairia daquela situação. Suava frio quando ouvi giro de metal; depois, o movimento de maçaneta. Saltei entre os vãos da cidadela inimiga e me atirei nos braços de quem pensei ser meu salvador. Transbordei de um jato só: "por favor, moço, me dê abrigo, aconteceu um sério problema". Retrucou: "me conte, depende do problema; se não me convencer, você vai ter que sair como está, e nem tenho roupa de mulher pra emprestar". "Mas, moço," eu tentava continuar... "Me conte". Aí inventei uma história. Disse que costumava sair com alguém bem mais velho do que eu, que naquele dia fizemos um brincadeira que não deu certo; acabamos nos desencontrando e minhas roupas tinham ficado no carro do homem, na garagem. "Sua história é muito fraca, você não tem chance alguma". Comecei a chorar; cobria ora os seios, ora a parte de baixo. "Ainda há o caso do elevador...", entre soluços continuei. "Elevador, como assim?". "Ele me colocou nua no elevador e premeu o décimo segundo andar; a porta se fechou apenas comigo lá dentro, mas, no décimo, parou; já estava preparada para ser surpreendida quando vi somente o corredor escuro; o sensor captou minha presença e a luz se acendeu; mais um susto, meu coração disparou; depois a porta se fechou de novo e continuei o martírio; quando voltei, não encontrei nem ele nem o carro, por isso estou aqui, bati na primeira porta que encontrei". Aí foi a vez dele: "primeira, porta?, aqui é o décimo quarto!". Não disfarcei um ligeiro sorriso. "Está bem, eu ajudo", disse enfim, "mas quero algo em troca". "Peça, dou tudo que você quiser". "Quero sua virgindade". "Ah, isso não posso". "Por quê?". "Porque não a tenho", respondi, "já a deixei na casa de outro". "Mas deve haver algum outro lugar em que você ainda é virgem...". "Ah, isso há", falei, enfim, aliviada. Eduarda, transamos de todas as maneiras possíveis e durante muito tempo. Há mais uma coisa.
- O quê?
- Nunca gozei tanto em minha vida!
- E a virgindade?
- Ah, isso eu não conto!
- E o que você ainda teme ao se relacionar com um homem que parece ser maravilhoso?
- Com qual deles?
- Ué, com esse...
- Ah, acho que não fui clara, mas não faz mal; escute: primeiro, não acho normal gozar nessas circunstâncias.
- E o que é normal hoje, Marlen?
- Segundo: tenho certeza de que essa fantasia ainda vai se repetir muitas vezes. Então me vem o ligeiro sobressalto: o que me aguarda numa terceira porta? Mas quando penso nisso, me excito; e conto os dias para o próximo encontro!
sexta-feira, agosto 11, 2006
Chuva de algodão
Tomei banho quente e saí enrolada numa toalha. Os cabelos molhados ainda respingavam. Apesar de sozinha e trancada, continuava vítima de pudor nunca experimentado. “Minhas roupas, onde estão minhas roupas?", quis perguntar, mas me resignei.
Ainda envolta pelo pano felpudo que me cobria dos seios até parte das coxas e com os cabelos já penteados, enquanto tomava chá quente e forte, tentava não me mover nem descruzar as pernas; não queria que mínimo gesto partisse minha precária cobertura; de novo a porcelana chinesa. Meu amigo recente disfarçava, fingia nada ver. Ou melhor, tentava. Eu também tentava; mas a coragem de mulher nua, desafiadora de noites e madrugadas, naquele momento desaparecera. Eu tremia; e não era de frio.
segunda-feira, julho 24, 2006
Espumas de preamar
Eram dez da noite quando os dois desconhecidos nos ofereceram carona. O céu estava escuro mas estrelado, a noite era quente, convidativa. Não tínhamos o que fazer, acabamos aceitando. Entramos no carro e eles nos levaram para os confins da Barra. Naquele tempo o local era ermo, quase não havia casas nem edifícios. Acabamos a noite num camping, onde eles disseram que tinham uma barraca. A princípio, relutamos. Queríamos o passeio, mas sem que nos tocassem. Vimos que nosso desejo seria impossível ao descobrirmos que um deles tinha uma arma. Ainda sussurrei a Joana: “vamos fugir!”, ela não teve tempo de rebater. Mesmo se tivesse, a fuga era temerária. Coletivos não havia, automóveis rareavam e duas mulheres sozinhas a pedir ajuda ali seria apenas deslocar ou adiar o perigo. Mas eles queriam apenas se divertir, não nos fariam mal.
O rapaz deixou que os outros se afastassem. Quando olhei para Joana, ela estava abraçada a dois deles, um a cada lado. De repente, fui surpreendida por um precipitado beijo na boca. Sua língua tentava encontrar a minha; quando conseguiu, senti uma de suas mãos subir-me as pernas, tocar meus pelos. Encontrou-me úmida, talvez até melada, mas ele nada disse. Afastei um pouco as pernas e permiti que me tocasse com mais leveza. Depois, de modo brusco, desvencilhei-me do beijo, cerrei as pernas e tomei-lhe as mãos, beijando-o sobre uma das faces. Vi um automóvel antigo parado adiante e percebi que os jovens e Joana conversavam com um senhor de idade já avançada.
Já no carro, os dois nos deixaram nuas. Ao deslizarmos pela alameda que dava para o camping, reparamos que o local estava quase deserto. Saltamos no estacionamento e corremos até a barraca; éramos duas Evas surpreendidas pelo pudor. Não vimos viva alma. Transamos com ambos alternadamente. Eles abriram uma garrafa de uísque; beberam até a embriaguez. Quando demonstramos desejo de partir, um deles nos disparou: “só ao amanhecer”. Às quatro e trinta, fugimos. Com dificuldade, recuperamos parte de nossas roupas. Saltamos a cerca para escapar de um vigia. Alguns latidos de cão fizeram nossos corações dispararem. Na praia, encontramos o grupo de rapazes.
Joana gritou para mim: “este senhor diz que nos leva, ele vai para Copacabana”. Entramos no automóvel. Antes, os rapazes nos beijaram; e enquanto partíamos, puseram-se a pular e a gritar dando-nos adeus, fazendo enorme algazarra. Num ponto do horizonte, sobre o mar, o céu avermelhava-se.
quinta-feira, julho 06, 2006
Por volta do entardecer
- Vou pedir a você uma coisa – falou na direção do namorado, que despertou do encanto em que ela o mantinha até então -, quando estivermos em minha cidade, na casa de meu pai, não poderemos dormir no mesmo quarto.
- Como assim?
- É que para papai, como ainda não me casei, não posso dormir com um homem.
O namorado sorriu debochado:
- Será que seu pai acha que você, com quarenta e dois anos, ainda é virgem?
- Não sei; o que posso dizer é que na casa dele me porto como tal.
Ele riu de novo, agora alto.
Joana descruzou as pernas mantendo-as unidas durante breves instantes; ao perceber o olhar frontal do namorado, não demorou a cruzá-las de novo, quase de modo instintivo e em sentido inverso. Por segundos, deixou escapar um dos seios. Mas logo o recuperou, embora de forma precária.
- Se você deseja ir à minha cidade para conhecer minha família, tem de ser assim.
- Não vou poder namorar você em momento algum, durante nossa estada lá?
- Vai, a gente dá um jeito, mas teremos de dormir em cômodos separados.
- À noite, então, poderemos sair? – perguntou excitado -, já que a cidade é pequena, talvez existam lugares discretos para namorarmos...
- Quanto a isso, não se preocupe.
- Você já teve alguém, nessa cidade?
- Já, mas o que isso tem a ver?
- Você já namorou alguém pelos ermos da cidade, à noite?
- Ah! Você está querendo saber demais!
- Sim ou não?, responda...
- Se você quer saber mesmo, sim; e olha que já fiquei nuazinha, como estou agora.
- Nua?
- Isso, e ainda aconteceu uma coisa muito engraçada.
- Conta, então, vai – excitava-se cada vez mais.
- Depois, tá? Agora me abrace e me beije!
George se aproximou e lhe percorreu com a ponta dos dedos a pele sutil. Joana era roseira ao entardecer e o namorado, cedro protetor; ela subiu-lhe o tronco, envolveu os ramos mais salientes e exalou néctar original.
Após desprender-se e voltar à posição anterior, narrou o episódio:
- Você, que se excita tanto com histórias, vai adorar. O fato foi o seguinte: eu namorava o filho do dono da única farmácia da cidade. Quase nos casamos, sabe? Ele adorava me ver com os seios soltos; dizia que eram sinais de fartura e prosperidade. Numa determinada noite, seguimos um caminho que leva a um arraial que fica a dez quilômetros da cidade. É um local deserto, quase ninguém transita por ali, apenas os poucos moradores. Paramos e enfiamos o carro num atalho. Tirei toda a roupa e pedi que ele me seguisse. Entramos pelo mato. Quando atingimos as margens de um regato, ouvimos vozes e alguns gemidos. Pensei que fosse algum bicho. Senti medo. Reparamos, porém, que os ruídos vinham de um casal que namorava no local. Minas é um estado muito conservador, as pessoas vivem de aparências e, provavelmente, aqueles dois não tinham onde namorar. Abaixei-me para não ser vista; meu namorado fez o mesmo. Depois, percebi de quem se tratava. A moça era minha amiga e, assim como eu, estava nua. Resolvi, então, pregar-lhe uma peça. Descobri as roupas dos dois nas proximidades. Como ela tinha também os seios avantajados, furtei-lhe o sutiã.
- Logo o sutiã?
- As mulheres, ao contrário do que os homens pensam, valorizam muito os seios. Sabia que sem o sutiã ela ficaria desesperada. Saímos dali às escondidas e fomos em busca de um lugar mais tranqüilo. No dia seguinte, fiz-lhe uma visita. Lembro que ela tinha uma loja. De roupas íntimas! Fui até lá. Levei um embrulho de presente, muito bem arranjado. Disse ao vê-la: "tenho uma surpresa pra você!". "Surpresa?, mas por que será que mereço um presente?". Abriu o pequeno pacote e descobriu o sutiã que perdera na véspera. Realmente se surpreendeu. Olhou-me sem entender. Então, foi minha vez: "eu também estava lá; e sorte sua que só precisei do sutiã!". Caímos ambas na gargalhada. Ainda completou: "puxa, você me deixou em apuros!".
quinta-feira, junho 22, 2006
Passeio noturno em BH
Eram mais ou menos onze da noite quando saímos de automóvel. Escolhemos, primeiro, percorrer os bairros nobres; depois, o centro. Preferimos as ruas elegantes, mas tranqüilas; paisagens compostas por casas de dois andares, muros que deixavam entrever pequenos jardins e alguns trechos de grama; vez ou outra surgia um pequeno edifício. As poucas lojas mantinham-se com os letreiros apagados. A cidade dormia.
Mais tarde, quando trafegávamos lenta e preguiçosamente por algumas ruas do centro, ainda foi possível percebermos um ou outro restaurante com seus últimos clientes. Na avenida central, alguns luminosos do comércio, mas numa impecável discrição.
Sussurrei em um dos seus ouvidos, tentava não desfazer o ar sóbrio e misterioso do avançar da noite: "deixe-me por alguns instantes, quero ver como se convive com o imprevisto, quero estar sozinha à sombra, desejo gozar com o risco". Quando saía, estendi-lhe uma das mãos, ainda que trêmula, e completei com minha voz: " leve-me o vestido".
Havia alguns dias, ele convidara-me para passear: "vamos dar umas voltas de carro, deslizar silenciosos, à noite, vamos escorregar nossos corpos na penumbra". Desfiz então o embrulho com cuidado, não queria amassar o papel de presente: "que lindo", tive tempo de exclamar antes de me atirar em seus braços. Ele completou: "vista-o para o nosso passeio, é para lhe acariciar a pele".
A madrugada tem ruídos próprios, apenas os amantes podem percebê-los. Sons que ora se mostram delicados, ora se apresentam como sinais de advertência. Há motores que passam distantes, há algo que parece ser o farfalhar de invisível ave noturna. A cidade ainda que próxima disfarça-se longínqua, percebe-se seu leve respirar, sua calma aparente que se equilibra num fio de arame.
Estátua de alabastro, pelas costas apenas a porta corrediça da galeria; envolviam-me o ar brumoso das últimas horas e as derradeiras sombras. Em um árvore sobre o passeio, o movimento de um ramo maior acelerou-me o peito, mas, em segundos, a languidez perfumada da hora tardia aconchegou-se de novo.
Não houve desconhecido ou inesperado, nem cavaleiro noturno sobre animal metálico a seqüestrar-me. Somente o zumbir ininterrupto do resistor da lâmpada alta e fria. A madrugada com seus mistérios, com seus dizeres indecifráveis ignorou-me por completo; fez-se cega à mulher nua que quis experimentá-la como se experimenta um homem que não se revela sob a máscara, à mulher que queria gozar com suas múltiplas presenças mas transpirou temerosa e ansiou, durante demorado quarto de hora, pela rápida volta do amante.
quinta-feira, junho 08, 2006
Tear primevo
quinta-feira, maio 25, 2006
Nua em Itaúna
Tudo começou quando percebi aquele homem forte e saudável que estava hospedado em um dos chalés. Descobri-o só, em plenas férias de verão. As mulheres que também aproveitavam o mês de janeiro ali em Itaúna, naquela pequena pousada perto das dunas e do mar sempre agitado, tiveram, da mesma forma que eu, súbita excitação. Será que ele seria adepto do amor pelas mulheres? Era a pergunta que não deixavam de fazer, embora sempre sem a resposta desejada. Ele acordava cedo. Quem o espreitava, podia vê-lo saindo em direção à praia. Depois de cerca de trinta ou quarenta minutos, voltava gotejando água salgada, perfumado pela maresia, com os cabelos pretos molhados. Era hora de as pessoas irem ao café da manhã. A pousada não era grande, mas comportava bem uns doze pequenos chalés. No mais, havia o prédio principal, em que ficavam a administração e o restaurante; mais abaixo, num pequeno declive, havia a piscina, onde as pessoas se banhavam na maioria das vezes ao entardecer. Duas famílias com algumas crianças, rapazes com namoradas, ele - o homem desejado -, e, no mais, mulheres em grupo; por fim, eu, sozinha, em um dos pequenos chalés, que para mim não deixava de ser imenso; éramos todos os habitantes provisórios daquele lugar. Levara livros, CDs, tudo para um descanso de quinze dias, mas a chegada daquele desconhecido foi vento fugidio que, a princípio, levantou-me os véus para, em seguida, levá-los de forma irremediável. Cruzei com ele algumas vezes, ora na praia, ora no restaurante, ora na piscina. Voltou-me o olhar, porém, apenas uma vez e pareceu não demonstrar interesse.
Numa das tardes, encontrava-me à beira da piscina. Lia uma revista qualquer. Três mulheres, das que estavam em grupo, apareceram de repente. Vinham apenas de biquíni. Voltavam da praia e, pelo modo extravagante como se comportavam, pareciam ter se excedido na bebida. Uma, inclusive, se mostrava ligeiramente trôpega. Duas delas, talvez devido à caminhada pelas dunas, logo se sentaram em cadeiras reclinadas, no lado contrário ao que eu estava, enquanto a mais alegre, ou mais bêbada, abriu o chuveiro e tomou um rápido banho; tinha a intenção de livrar o corpo da água salgada; em seguida, mergulhou na piscina. Após alguns minutos os olhares delas, surpresos, se voltaram para o pequeno portão gradeado que ficava à entrada do caminho que vinha dar ali. Era ele que se aproximava. O homem só, desejado por todas, inclusive por mim. Cumprimentou-nos respeitosamente e tencionava seguir em frente, em direção talvez a seu aposento. Elas entreolharam-se; a que se encontrava dentro d'água não deixou de emitir algum tipo de gracejo. Fiz como se nada tivesse acontecendo, continuei minha leitura. Ele parou. Pareceu entender o que ela tanto desejava. Então, para romper o embaraço, ouviu-se a voz de uma delas: " você joga cartas?". Ele assentiu. Elas imediatamente o convidaram e combinaram jogo para depois do jantar. Sueli, assim chamava-se a que nadava, convidou-o para entrar na água. Num primeiro momento, ele hesitou, mas, depois, dirigiu-se ao chuveiro, tirou do corpo a água salgada e a areia que trazia nas pernas; em seguida mergulhou. Enquanto as duas, que permaneciam nas espreguiçadeiras, entreolharam-se indagativas, a da piscina aproximou-se quando ele voltou à tona. Eu fingia ler a revista, tentava demonstrar pouco interesse, mas vez ou outra, de soslaio, olhava para dentro d'água. Estabeleceram algum tipo de conversa. Ele percebeu que a mulher não estava em seu estado normal. Mexia-se muito, falava mais alto e o agarrava pelos braços a todo momento. Súbito, ouvimos a voz dela: "já sei que vou perder, jogo cartas muito mal, é melhor nos distrairmos com outra coisa". Ela já estava quase agarrada a ele, mas, de modo inesperado, soltou-se e mergulhou fazendo barulho e espirrando água. Quando reapareceu, a água escorria pelo seus cabelos pretos e, no contra-fluxo dos raios de sol do entardecer, o rosto dela espelhou alguma beleza. Creio que tal detalhe não passou despercebido a ele. Numa fala um tanto tresloucada, Sueli deu prosseguimento: "se jogarmos a valer, vou perder mesmo, então vou lhe pagar agora". As duas amigas se entreolharam novamente; esperavam um gesto louco daquela que era a mais atirada. Num movimento rápido, soltou os laçarotes do biquíni e o entregou nas mãos do homem com as seguintes palavras: "toma, fica de presente para você, pagamento, já que vou perder no jogo de cartas". O homem olhou para mim um tanto embaraçado, sem saber o que fazer. A única coisa que conseguiu proferir foi: " é melhor você cuidar da sua amiga". Olhei na direção das outras duas que, vendo meu constrangimento e percebendo que eu nada tinha a ver com aquela situação, se precipitaram dentro da água em socorro à mulher nua. Vestiram-na, pediram desculpas e a levaram para dentro. Prometeram que, se ela estivesse melhor, apareceriam para jogar cartas. Também me convidaram.
O jogo de cartas transcorreu dentro da normalidade. Acabáramos de jantar e sentamo-nos a uma das mesas da sala que antecedia o restaurante. Sueli, a nua da piscina, chegou atrasada, mas misturou-se ao grupo e participou das partidas; agia como se nada tivesse acontecido. Nenhuma das amigas tampouco referiu-se ao episódio. Como éramos cinco, revezávamo-nos nas parcerias. Quando formei dupla com ele, sempre que colocava a dama em jogo lançava-lhe olhar desafiador. Não sei se queria muito, mas o que pretendia era que ele me percebesse a lançar-me, também nua, mas de forma mais discreta; senha de encontro tardio. Com o correr das horas, para não incomodarmos o silêncio local, alguém sugeriu que continuássemos as partidas no aposento das mulheres. Houve consenso, apenas eu não quis continuar. Aleguei cansaço. As outras lamentaram, mas não insistiram. Enfim, todas, em companhia do amigo recente, dirigiram-se ao novo local, enquanto eu retornei ao meu chalé.
Abri uma das janelas e procurei entre as árvores distinguir o mar lá embaixo. Respirei fundo. Ar morno misturado com maresia invadiu meus pulmões provocando-me enorme excitação. O coração bateu mais acelerado. Uma energia repentina tomou-me. Senti vontade de descer as dunas e caminhar à beira-mar. Não pensei duas vezes, do jeito que estava, saí. Encostei a porta e desci a rampa.
Não tardou e eu já caminhava com os pés dentro d'água. O mar rugia ora ameaçador ora arrefecido. Espuma clara e ligeira tocava-me as pernas e se dissipava, como que tragada pelas areias brancas. As águas mornas em braços espessos me acariciavam vez ou outra as coxas; respingos prateavam-me a pele e a pouca roupa. O céu coberto de estrelas destacava-se na noite de poucas luzes. Na praia, não havia viva alma. Até que não resisti. Não perderia um banho noturno, acompanhada apenas pela paisagem anterior à nossa chegada, à chegada do primeiro humano. Ouvia e sentia na pele o vento sedutor, sopro quente bafejando a expansão marinha nos extremos limites de meu corpo, ardendo-me o desejo. Despi-me. Larguei as roupas, livres, sobre a areia. Depois mergulhei e me pus - sempre nadei bem - em direção às ondas. Apesar da iluminação precária das estrelas, entendia-me bem na sombra noturna e na bruma natural. Nadei até onde pôde meu fôlego. Sentia o mar envolver-me como homem vigoroso que me acarinhava, começando com sutilezas e indo até ponto mais íngreme. Minha pele deslizava pelas águas escuras que poriam medo a qualquer das criaturas, mas a mim era seio natural, berço protetor. Eu era sereia impossível de se perder na vastidão do mar, sentia-me em morada original, que atingia as barras do infinito. Procurava estar sensível ao roçar das águas sobre meu corpo, sobre meus poucos pêlos, sobre meus cabelos. Então compreendi como as criaturas marinhas são prenhes de gozo e jamais abandonam o mar. Meu corpo era termômetro natural, sensível à mínima nuança de frio e calor. Águas geladas que me passavam entre as pernas alternavam-se com águas quentes, provocando-me excitação e me levando a gozo irrefreável, a gozo quase que sem fim. Extasiada, lamentei que, em breve, as sombras se dissipariam, e não poderia, nua, atrasar-me no retorno.
Quando de volta subi a rampa e penetrei nos domínios da habitação humana, reparei que todos dormiam. Ruídos, somente os de pequenos bichos noturnos e, ao longe, ainda o rugir do mar. Não parei à minha porta, desejava porta alheia. Sentia que era o momento. Encostei-me junto a seu chalé. Minha respiração era ofegante, meu coração ia aos saltos. O corpo ainda molhado, o cabelo respingando. As roupas? Deixara-as de propósito na praia. Agora já teriam sido levadas pela maré que subia. A mesma que me empurrava na direção do primeiro homem. Permaneci junto à porta. Talvez não soubesse ir além. Esperava.
Deságuo, ligeiro córrego a recender odor de rosas, à saída do estreito túnel que me leva à sua porta...
Não precisei bater...
O gozo da loba
sábado, maio 06, 2006
Eu, metáforas
orquídea selvagem que derrama fios iluminados de sol ancestral.
Meu rosto,
tessitura incorpórea, alga sublime, amálgama inaudito de deusa pagã.
Olhos,
Anêmonas milenares cujo brilho espelha pélagos, abismos insondáveis.
Nariz,
singelo deleite, desenho de pena cristalina, via a apurar rastros de perfumes originários.
Lábios e boca,
abertura serena, paladar preparado para mel curtido ao longo de eras extintas.
Orelhas,
música distante, ecos de harpas, de coros de anjos, de ninfas nuas sorrindo e correndo por campos floridos sob a sombra de álamos.
Pescoço,
alturas possíveis, deslumbre de cumes e mares imaginários.
Seios,
derramar do alimento perene, eflúvio original, protuberâncias ora altivas ora cobertas por pequenas mãos plenas de pejo; elementos de prazer.
Braços,
veludos vorazes, tentáculos tentações, abraços feitiços, mãos prontas a seduzirem e a acarinharem.
Ventre,
campo aberto, planície derramada ora sob louros solares ora sob sombras noturnas.
Púbis,
floresta lúdica onde pigmeus se perdem, labirinto de medo e de prazer escondendo cava capaz de conduzir quem nela penetre a delírios e a esquecimentos, capaz de levar navegante solitário a margear mundos sem rotas de regresso; musculatura untada por óleo original, secreções de aves gigantescas ou de insondáveis seres marítimos, embarque em planadores de alturas impossíveis ou de distâncias ainda não percorridas, cartas de navegação perdidas, bússolas avariadas.
Pernas,
manancial, espessura, linearidade e altitude ora desveladas ora cobertas por tecidos lúbricos, diáfanos, deixando entrever sombras na terra de homens menores.
Pés,
plana de perfeições, curvas sutis a deslizarem lépidas, cuidadosas; vexo de pisar pequenas partículas humanas, que me desejam nua e próxima, às vezes, atada.
Perigos,
não os da noite, mas o de holofote inesperado, luz súbita do dia, farol mágico que não me dê guarida e me arremesse nua em evidências impossíveis de refúgio, em mãos estranhas, ásperas, que me arranhem a pele branca e ponham-me a vazar líquido rubro.
Temores,
ficar à deriva, desviar de escolhos invisíveis mas bater em praias apinhadas, onde a capa semitransparente e provisória das águas e espumas não me permita demorá-la como veste única; temor de aproximações inoportunas, de vozes que ecoem meu estado de transparência cintilante, de ser surpreendida tendo como invólucro apenas gotículas escorreitas, prestes a secarem deixando-me ao desamparo, aos olhos curiosos de platéias estrangeiras; temor de que me obriguem a perfilar desguarnecida entre hostes bárbaras.
Prazeres,
Desfiar de líquidos aquecidos, explosões interiores, canal a receber braço de mar em estação de sol de ilhas tropicais.
