quinta-feira, junho 25, 2015

Sensível, sensível

Sensível, sensível, é o que ele diz. E tem razão. Basta o leve suspiro de um homem a passar junto a mim, o arfar mais forte de sua respiração, ou um ligeiro golpe de olhos, para eu me arrepiar. Percorre-me o corpo uma mão invisível que deixa meus pelos eriçados. Se a mão é real, nem pensar. Sensível, sensível, o vestido a me roçar a pele nua, eu eriçada de novo. Tenho amigas que se entregam ao primeiro toque; outras dissimulam, fingem que nada acontece; há ainda aquelas que desistiram dos homens, sugerem-me ler um livro. Qual deles?, pergunto. Literatura, verdadeira literatura, a que propõe questões, não respostas. Assim minha sensibilidade irá em outra direção. Sério. Exemplo, uma mulher aluga uma suíte de hotel, uma tarde inteira, para ler um livro. Às vezes chora; outras, sorri. Os escritores não pensam nos leitores quando escrevem. Chego a acreditar que a boa literatura é a crueldade. Os seres humano é que são cruéis, dizem-me. Mas a leitora ama tanto, que chega a se ver muito bem amarrada a uma cadeira. Por mais que queira soltar-se, impossível. Queres de mim alguma coisa?, pergunta, embora se veja só. Sim! A voz emana do livro, não a amarro apenas por luxo, quero algo, sim. Estou pronta, corajosa anuncia. Amordaça-a, a tal voz não quer perguntas. Silencioso, o quarto. Ela nua, amarrada, amordaçada. A porta bate, alguém se vai. O livro ao lado da mulher, aberto numa página estrangeira. Passam-se minutos intermináveis, verdadeiras horas. Ninguém volta. A mulher, a corda, a mordaça; ela na cadeira.

Sensível, sensível, desejo a sorte da mulher? Um livro dentro de outro livro. E sorte é destino. Vou à rua, vestido solto, tecido leve, esvoaçante. Qual dos homens são sensíveis mas não a ponto de trazer-me uma corda? Prescruto-os por trás dos óculos. O namorado, mas à moda antiga.  Na verdade, enamorado. Ao contrário de vestidos soltos, vou travada.

Sensível, sensível, é o que fala, e me oferece ouro, uma pulseira larga. Tomo-a nas mãos, examino-a como um ourives. Enquanto a sinto nos dedos finos e provocantes, sussurra-me ao ouvido. Quero algo em troca. O quê?, afoita, chego a arfar. Quero-te nua!, arremata. Respiro fundo, quase sem saída. Ele leva-me a um hotel, desses que ficam no centro da cidade, aluga a suíte mais alta. Deixa o quarto escuro, peço-lhe quase em silêncio. Apenas isso, a sombra e eu nua. Algo a mais, acrescento, espera, quem sabe amanhã. Ele é paciente, dorme ao lado de uma mulher nua sob lençóis. Tem certeza de que virá o amanhã. Então, outra pulseira. Visto as duas. Apenas. E, em pé, meio sem graça, sorrio, um dos joelhos dobra-se involuntário, de leve. Quero esconder o impossível. Agora deita, vem, insinua. Primeiro me abraça, suspiro, depois o sexo. Abro devagar as pernas. Compras a mulher com duas pulseiras, choro-lhe ao ouvido. Vales três ou quatro, talvez cinco, ele devolve. O enamorado sobe sobre meu corpo. Latejo, suo. Sou travada, chego a dizer. Trouxe todas as ferramentas, retruca.

Beatriz, uma amiga tão atirada (as aparências e os nomes enganam), diz que não faz por interesse, mas pelo gozo. Gozar, a melhor coisa do mundo, afirma. Travada?, ele repete e ri da palavra. Deixa ver, acrescenta Beatriz, já viste a cor e o peso do ouro, ou a flor da orquídea? Demoro a entender. O namorado ressona, foi tanto o sexo. Levanto-me e ando pelo quarto, apenas as duas pulseiras sobre a pele. Caminho de um lado a outro, vou à janela e olho a rua, o sol se põe no Rio de Janeiro, muitos os edifîcios, altos, não vejo ninguém às janelas dos outros prédios, não me arrisco olhar mais detalhes, escondo-me, escapa-me apenas os olhos no vão da cortina, um pano pesado, de cor azul, deixo cair o tecido, a cortina ou minhas roupas a voarem do décimo segundo andar?, o apartamento escurece de todo, volto-me, dois ou três passos e dou no extremo oposto, a porta, penso abri-la, espiar o silêncio exterior, tenho coragem?, giro a chave, abro uma pequena fresta, está escuro também lá fora, quem sabe aventuro-me nua ao corredor?, loucura, a porta bate e não abre por fora, e então?, temo tocar a campainha, vou despertar a todos, e eu nua, no centro do Rio às cinco e trinta da tarde, o que houve, senhorita, uma voz masculina, olhos desconhecidos, eu colada à parede. Pensamentos? O quarto vasto, o homem ressona. Leva-me nua em seus sonhos? Já sei, sonha em trazer mais presentes, um cordão de ouro, delicado, e uma medalhinha, o sol, às cinco e trinta da tarde. Ei, vem aqui, deita ao meu lado, a voz dele, temos todo o tempo do mundo. O que queres de mim? pergunto transtornada. Quero você deitada ao meu lado, ele responde. Deitada?, como?, conheço-te apenas de vista. Lúcia, venha cá. Não sou Lúcia, a voz escapa-me, incontrolável, Sou Beatriz, ouviu?, Beatriz. Ah, entendi, ele fala, Beatriz, a amiga de Lúcia, Beatriz, você reluz a ouro, está quase transparente, há uma palavra pra isso, diáfana, você está diáfana, vem aqui, Beatriz, quero umedecer meus lábios nos teus, estou louco de sede, ele continua, venha me salvar. Sento na única cadeira que há no quarto, junto as pernas, cruzo as mãos por trás do encosto, lanço-lhe um olhar feroz e digo amarre-me, amarre-me bem forte. Como um bom ator, finge não se surpreender. Levanta-se e vem até a mim, como se já esperasse pelo pedido.

quarta-feira, junho 17, 2015

Expresso

Estou peladinha e sentada numa cadeira de ferro, dessas de mesa de bar. Na sala há a mesa e mais três outras cadeiras. De repente me vem à mente as fotos em que apareço nua. Foram três ou quatro namorados que me pediram para posar. Aceitei. Mas sempre acabo deixando as fotos com eles. Às vezes fico pensando o que fizeram delas. Mas este último com quem estou namorando já faz um tempinho não me pediu apenas fotos, quis também que eu ficasse na cadeira de ferro, nua e de pernas cruzadas. Disse para eu esperá-lo que logo voltaria.

Nos vimos pela primeira vez na cafeteria onde trabalho, cafeteria de muito requinte. Ele vai sempre para tomar um expresso. Enquanto eu vou à máquina para preparar o café, ele me deixa nua. Sério, nuazinha. Depois, enquanto bebe, puxa conversa comigo. Frequenta a loja já de várias semanas. E sempre gosta de me trazer um presente. Uma blusinha, tal qual a que eu uso por baixo do avental, um perfume, uma bijuteria. "Achei que ia ficar bem em você", ele fala. Quando me convida para sair, digo: "só posso na sexta". Ele vem de carro, e me leva para passear na orla marítima. "Aqui é você quem será servida", diz, e vem o garçom a nos atender. Após o jantar, lá pelas onze e tanto da noite, dirige até a sua casa. Uma gracinha o local. Entra-se numa garagem, sobe-se uma escadinha, e já aparece a porta do apartamento, um quarto e sala grande, banheiro e cozinha, tudo muito amplo e claro. À noite, com a janela aberta, é possível ver o céu cheio de estrelas.

Namoramos com muito gosto. E é então quando ele me deixa peladinha pela primeira vez. Antes havia sido com os olhos; agora é de verdade. Ele me seduz de tal modo, que fico louquinha. Não age com aquele instinto animal que a maioria dos homens tem, quando chegam a ser brutos; mas com delicadeza. Espera que eu esteja pronta para escorregar para dentro de mim, tudo com a maior naturalidade.

Penso que ele de repente pode desaparecer. Todos sabem como são os homens; assim que conseguem o que querem, partem para outras aventuras. Ele, porém, sempre volta. E me traz uma pulseirinha. Naquela noite me leva para passear de novo. Um novo jantar, outro restaurante. "Quero que você conheça todos os lugares bonitos dessa cidade", fala. Jantamos. Bebemos uma garrafa de vinho. E a seguir, de novo no seu apartamento acolhedor, o amor.

Passamos a sair pelo menos duas vezes na semana. Partimos para aventuras mais estimulantes. Como são essas aventuras? Ah, é difícil descrever. Mas ele tem razão; que elas nos excitam, não resta dúvida. Chega o dia em que pede para eu sair com ele vestida apenas com a pulseirinha. "E como vamos fazer? Será que não vou presa?", fico um pouco assustada. Para me tranquilizar, ele diz: "nada disso, deixa que resolvo todos os problemas." Sinto que posso confiar nele. Faço como ele pede. Entro no carro vestida apenas com a pulseira de ouro, um pulseira sútil, bem delicada. Dirige de Macaé a Rio das Ostras. Ai, com fico arrepiada, nua no banco do carona. Dias depois, comento com uma amiga. Uma amiga mesmo, quase irmã. Ela fala que há homens que inventam muitas coisas legais, e que também tem passado por isso, mas na praia; seu namorado a deixa pelada dentro d'água; no final da brincadeira, ela está morrendo de tesão. Paramos em Rio das Ostras. Ele sai do carro para comprar algo para comermos e bebermos. Adiante, num local mais escuro, também desço do carro. Caminhamos de mãos dadas até a beira da praia. Ficamos um tempo enorme namorando. Sussurro no ouvido dele: "caso apareça alguém, você me empresta tua camisa, ok?". "Combinado", responde. Mas não precisa, fico nua a noite inteira. Depois voltamos para o apartamento dele, e namoramos com a maior vontade.

Mas, voltando a esse momento em que escrevo, me pergunto: por quanto tempo vou esperar por ele? Estou nua. Dessa vez ele colocou minhas roupas numa pequena bolsa e disse: "tenho de fazer um trabalho rápido, você me espera?" Fiz que sim com a cabeça. Ele me beijou e se foi. Será mais uma ação dele para ficarmos excitados? Depois que bateu a porta, comecei a pensar, e se aparece alguém, se entra aqui outra pessoa? Ainda para mais me angustiar: e se ele não volta? Há homens capazes de tudo.

Mas meu namorado não é assim, não. Desde que nos conhecemos, na cafeteria, ele se tem mostrado muito afetuoso, e tem razão quando diz: "você vai sentir cada coisa, namorando comigo...." E não é verdade? Estou a esperar por ele, e muito arrepiada. Não queria dizer, porque não gosto de vulgaridade, mas estou até mesmo molhadinha. Agora, só falta ele voltar!

Mais um pequeno detalhe. Ainda que nua, sempre tenho frieza para algum argumento. É sobre o que acabo de escrever. Pode ser que pensem: "não é possível uma garçonete escrever tão bem; não seria garçonete, mas escritora." Quem sabe. Tive um professor que sempre me dizia: você escreve muito bem, você é uma verdadeira escritora!

segunda-feira, junho 08, 2015

Conto de inverno

Jeane anda pela galeria comercial mais famosa de sua cidade, aproxima-se o inverno e ela quer comprar um casaco. As lojas enfileiram-se com aquele visual colorido e alegre, em algumas delas pode-se sentir o cheirinho das roupas, tão atraentes e tão fofas, como um carinho que se está prestes a receber. Ela olha os casaquinhos, pois, afinal, em sua cidade não faz tanto frio assim. Após a opinião da vendedora e de alguma reflexão, compra um de cor verde, de malha, que se amolda perfeito ao seu corpo. Ele desce um pouquinho além da cintura. Jeane até mesmo lembra que, num inverno anos atrás, saiu para namorar vestindo apenas um casaco, mas isto é outra história. A vendedora embrulha a peça, e mantém-se sorridente durante todo o tempo em que Jeane fica na loja; depois coloca o embrulho numa bolsa bonita e lhe entrega. Ela sai da loja pensando em quando estreará o agasalho, sabe que faz bater mais forte o coração dos seus admiradores onde quer que passe. Há também aquele senhor que sempre está à porta de casa, na mesma rua onde ela mora. Ele a olha com olho gordo. Acha engraçada a expressão "olho gordo", não é criação sua, mas de uma amiga da vizinhança.

A amiga de Jeane usava a expressão "olho gordo" porque quando via um tipão, ficava doida pra ir pra cama com ele. Jeane era devagar, demorava aceitar a aproximação de qualquer homem, fosse ele o mais bonito de todos. Isso contribuía para provocar seus admiradores. Todos a paqueravam, apesar de Jeane não corresponder a quase nenhum deles. Mas a amiga do olho gordo via em Jeane um jeito diferente de amar, descobrira uma porta que se forçada de modo adequado poderia ficar escancarada. Por isso, não desistia de buzinar suas ideias na cabeça da mulher.

Jeane sai da galeria comercial e põe-se a caminhar pelo passeio da rua principal da cidade. Olha mais algumas vitrines e cumprimenta de longe duas amigas que passam apressadas. Duas quadras adiante, ao dobrar uma das ruas que leva ao bairro onde mora, vê um casal passar agarradinho. O coração de Jeane sobressalta-se, o homem que vem agarrado à moça parece o seu ex-namorado, o tal que veio namorá-la e a encontrou esperando por ele vestida apenas com o casaquinho. Ela não consegue ter certeza se é mesmo ele que desfila com a namorada pelo calçadão da cidade. Mas aquela presença súbita reaviva nela a lembrança do dia em que foi mais ousada. Ela confessou a si mesma que a ideia de encontrar com ele vestindo apenas o casaquinho foi interessante. Ele havia ligado dizendo que estava com saudades. Ela, então, quis inovar em suas atitudes. Banhou-se em água quente com sais e ervas afrodisíacas. Após sair do banho e enxugar-se, hidratou o corpo com um creme especial e um óleo muito cheiroso, depois vestiu o tal casaco. Como estava frio e ela gostava de tomar um chazinho, leite morno e caldos, preparou tudo com esmero. Por último, acendeu a lareira. Ficou esperando o namorado preparada, num ambiente fofo e bem aconchegante. Todos esses detalhes revelavam que ela estava com muita vontade. Quando ele chegou, foi atender a porta com o seu casaquinho verde, sem calcinha e sem sutiã. Seus seios estavam fáceis de serem vistos, e pediam para serem tocados. Quando se cumprimentaram, o namorado percebeu sua pele lisa e gostosa. Suas mãos percorreram todo o corpo de Jeane, encontrando uma xereca raspada e apetitosa. Os dois rolaram no tapete macio que havia na sala, e se deliciaram num só gozo.

Depois de caminhar três quadras, Jeane entra na rua onde mora. A primeira pessoa que vê é o senhor que a paquera. Posicionado quase em frente a casa dela, ele permanece encostado a uma árvore. Quem sabe, ela pensa, depois de reviver o passado até que estou mordida... e ele merece uma chance, pelo menos é persistente. Entra em casa já convicta de que não deve viver só de lembranças. Não tranca a porta. Prepara-se do mesmo modo como no dia em que se encontrou com o namorado. O banho de sais, o creme, o óleo cheiroso sobre o corpo. Depois ferve água e faz chá de ervas, acrescenta uma pitadinha de gengibre ralado. A bebida torna-a mais excitadinha. Enfim, acende a lareira e olha através da janela do segundo andar. Avista lá embaixo o senhor. Ele ainda a espera, igual a um cachorro sem dono. Ela chega à sacada e faz um sinal para ele entrar. Aguarda-o deitada no tapete. O homem não acredita estar vendo aquela cena, mas avança sobre Jeane como se fosse um touro. Ele adora a novidade, e Jeane revive o passado. Mas desta vez não por meio de lembranças, seu corpo transborda prazer.

segunda-feira, junho 01, 2015

A bebida de cor vermelha

“Vou a M. na próxima quinta, quem sabe  seja possível um encontro?”, ao escutar a voz de Mário, Deli arrepiou-se. Não sabia se era excitação ou certo desconforto. Havia lembranças que desejava esquecer. Mas a voz do homem, que chegava através do telefone, provocou-lhe um frisson difícil de controlar. Suspirou, chegou a respirar fundo e acabou dizendo que sim, ia ver se seria possível o encontro. Depois de guardar o telefone na bolsa, avaliou mais uma vez as perdas e ganhos de ter de novo aquele homem ao seu lado. Afinal, o ex-namorado, com seu jeito de conquistador experiente, ainda lhe fazia bater forte o coração, era impossível esquecer suas investidas furiosas, o modo como ele a segurava no momento do abraço e de seu vigor durante o sexo. Recordava também os passeios com ele nas cercanias da cidade, dos banhos de mar em praias distantes e desertas. Ele a estimulava, e ela tornara-se ousada, como na manhã em que correra nua do carro de Mário até às águas da praia, dera um belo mergulho e nadara ao natural durante boa parte do dia. Lembranças é que não faltavam. Havia uma que sempre lhe fazia sentir um friozinho na barriga. Foi numa madrugada de temperatura baixa, ela resolveu sair do automóvel em que iam os dois, pediu que ele parasse o carro e saltou apenas de casaco. O tal agasalho mal lhe atingia a cintura. Ao voltar ao carro ele lhe disse que as roupas dela haviam desaparecido. No final, uma boa trepada. E, agora, o telefonema, ele viria na próxima quinta-feira. Comeriam uma pizza, era uma boa ideia, e no restaurante preferido de ambos.

Deli gostava dos fatos no passado, as lembranças sempre são melhores, dizia a si mesma. Por isso, tempos depois, escreveu o encontro com Mário. Leria-o sempre; tanto mais o tempo passasse, melhor.

Eram seis e meia da noite, encontrei-o à porta da faculdade onde ele trabalhou durante muitos anos. Entrei no seu carro e ele dirigiu à orla marítima. O ar estava fresco, a temperatura convidava a encontros.

Você tem problemas de horário?, perguntou.

Não, nenhum problema.

Ele sorriu e percebeu que eu abria várias portas.

Já no restaurante, vi uma mulher duas mesas adiante tomando uma bebida de cor vermelha. Perguntei ao garçom o que era. Campari, respondeu. Pedi a bebida. Meu acompanhante, que tomava um chope, olhou-me surpreso, logo eu que me negava a bebidas alcoólicas. Começamos a colocar a conversa em dia. O tempo foi passando e a cada gole eu tornava-me mais faladeira, contei tudo que acontecia na cidade, sobre as pessoas amigas e sobre mim. Acabou surgindo o assunto sobre meu marido. Falei o que devia e o que não devia. Quando reparei, a bebida estava no fim. Repeti a dose.

Saímos do restaurante passavam das dez.

Onde você quer ficar?, perguntou.

Não quero ficar, ou melhor, quero passear. Por falar nisso, lembra dos nossos passeios? Estiquei o braço esquerdo e toquei o seu ombro. Pôs o carro em movimento, contornou toda a orla e entrou na rodovia estadual.

Pare ali, no acostamento, pedi.

Ele obedeceu. Enfim, desligou o carro. Envolvi-o num longo abraço. Como bom conquistador, abraçou-me e nada falou.

Quero uma coisa, eu disse.

O quê?

Acho que não preciso entrar em detalhes.

Mergulhei direto no pênis de Mário. Abri sua calça e o coloquei inteiro na boca. Ainda nem estava rijo quando o introduzi, mas pouco a pouco seu volume foi aumentando até atingir minha garganta. Eu o chupava de todos os modos, numa gulodice de fazer inveja. Fui tão habilidosa que ele não demorou a gozar. Não deixei escapar  uma gota sequer, engoli tudo demonstrando um ar de sacana que só eu sei representar. Ele demonstrou que ainda tinha fôlego para uma trepada. Tirei toda a roupa e saltei sobre o seu ventre. Ficamos naquele local até depois de meia noite.

Ainda estava nua quando pedi para que ele dirigisse. Mário ligou o automóvel e o pôs em movimento. Pouco a pouco foi aumentando a velocidade. Antes de chegar à rodovia federal, pedi que parasse novamente.

Quero saltar, falei.

Ele nada disse, apenas me beijou e sorriu.

Desci do carro, levava apenas o telefone, a pequena bolsa e a sandália. Sempre achei muito deselegante andar descalça. Dei a volta pela frente, curvei-me à janela do motorista e o beijei, a seguir disse a ele:

Pode ir.

Ele não demonstrou surpresa. Beijou-me mais uma vez, acelerou e partiu.

Depois daquela madrugada não mais atendi seus telefonemas. Tenho certeza de que deseja me encontrar de novo, e também saber como me virei para chegar nua em casa. Gosto de fantasias, da imaginação... Mas deixo registrado aquele final de madrugada.

Telefonei a meu marido. Ele sabia das minhas aventuras pretéritas com Mário, inclusive a história da estrada. Na ocasião em que contei, nada falou, mas percebi sua excitação no momento do sexo. Revivia o episódio e lhe oferecia de presente. A bebida de cor vermelha dera-me coragem.

segunda-feira, maio 25, 2015

Carta à mãe

Tenho tudo o que sonho, escreveu imediatamente à mãe, pronta a registrar mais um dado. Mas é claro que não contaria o principal. Gostara da nova cidade, do namorado que lhe surgira ao acaso, mas não queria falar sobre isso. A mãe já ficaria feliz ao saber que ela estava bem, que andava satisfeita com a vida. Os pormenores na nova cidade, as descobertas que fazia no dia a dia, não precisava relatar. Tinha muito o que contar, mas era necessário ser econômica, não se estender nas palavras como sempre lhe ocorria. Que facilidade para escrever, contar histórias. O ritmo da nova vida era alucinante. Tinha vontade de escrever cartas longas, descrever os detalhes da cidade, da casa onde morava, o jardim, a rua, a alegria de alguns jovens que moravam nas proximidades. Não se inibia no momento de compor o texto. Mas, para a mãe, escreveu apenas mais algumas linhas e achou que estava bom assim. O importante era mandar notícias, aproveitava para convidá-la a vir passar alguns dias na cidade. Logo, porém, sentiu um sobressalto. E se a mãe resolvesse vir e ficar muito tempo, ou mesmo não ir mais embora? Se lhe atrapalhasse a vida? Estava tão feliz. Também não queria que soubesse do namorado. Bem, nem mesmo ela própria sabia profundamente sobre ele. O homem seria mesmo seu namorado? Ah, que diferença fazem as palavras. Não perguntara a ele se tinha outra mulher, ou mesmo se um dia as tivera. Não eram perguntas que se faziam. Claro que um dia as tivera, pois era bonito, trazia no rosto a marca de quem sabia conquistá-las. Elas, por conta própria, deviam viver atrás dele. Tirariam a roupa antes de baterem à sua porta. Sentia-se uma felizarda por ter caído nas graças de criatura tão disputada. Quase se perdeu nesses pensamentos quando lhe veio à mente a imagem da mãe. Era por causa dela, do que lhe escrevia, que pensara no namorado. Convidou-a a vir, mas de modo discreto, num pós scriptum. Caso ela aceitasse, passeariam pela cidade, tomariam um sorvete, e depois diria das ocupações assumidas, dos compromissos, falaria que precisava deixá-la só durante algumas horas do dia. A mãe entenderia, sempre fora inteligente. E quanto ao namorado, agiria com naturalidade. Terminou de escrever, dobrou o papel e o enfiou num envelope. No dia seguinte o levaria ao correio. Chegou à janela e olhou a praça de fronte. Era uma paisagem atrativa, muitas pessoas passeavam, algumas levavam os filhos, observou duas jovens conversando. Eram bonitas, muito bonitas. A visão das duas trouxe-lhe à mente de novo a imagem do namorado. Quem sabe não o roubariam dela? O que deveria fazer para mantê-lo junto a si?, pensou enquanto permanecia como uma estátua, olhando na direção das mulheres. Ora, se ele estava sempre por perto era porque gostava dela, era porque se sentira atraído pelas suas qualidades. Ah, como era bom viver na cidade grande, ninguém a incomodá-la, ninguém a lhe bisbilhotar a vida. Lembrou-se de um namorado que tivera em sua cidadezinha. Tremia toda vez que transavam. Mesmo que fosse num motel distante. Não gostava que a vissem junto a ele. As mulheres mais velhas falavam logo em casamento. Depois ouviu uma história contada pela tia. Dizia que os homens da cidade eram tarados. Queriam as mulheres apenas para lhes roubar as roupas de baixo, depois mostravam as calcinhas aos amigos, disputavam entre si com quantas haviam trepado e a quem pertencera as peças. A tia falava e olhava de soslaio para ela. Levantava, dizia que tinha de estudar e saía. Até que passara no concurso público, mudara para o Rio, e fora morar em Ipanema. Da janela ainda olhava as outras jovens, elas ainda conversavam, uma arte a da conversa. Tinha inveja, pois nãos tinha amigas e achava que não sabia conversar. Mas para que amigas? Iriam roubar-lhe o namorado. E tudo ia tão bem, era inacreditável. Com exceção de um ponto, isso mesmo, pequenina nódoa que a fez refletir. Ele lhe falara sobre outra mulher, dissera que o fato sucederá a um amigo. Ela, no entanto, desconfiara, já contará histórias protagonizadas por si própria como se a atriz fosse uma amiga qualquer. Não se deve comentar sobre relacionamentos anteriores com a mulher que se namora hoje. É um preceito básico. Uma conhecida, que estudara psicologia, lhe falara muito sobre relacionamentos. Eles estão ótimos quando os dois se bastam, afirmava. Nada de trazer outras pessoas para junto dos dois amantes. Como trazer outra pessoa? Estamos sempre os dois juntos, e eram apenas palavras... Não entendera a lição. As palavras proporcionam a presença, acrescentara a psicóloga. Ah, sussurrara, as palavras então têm poder de materialidade. E o pequeno deslize do namorado fora contar sobre outra mulher, tornara-a real diante dela. E a história era de amargar. Nem queria lembrar. Mas a narrativa vez ou outra lhe martelava a cabeça. Para se livrar da obsessão resolveu escrever. Ele, o atual namorado, chegara em casa com a outra. Os dois bêbados. Ou melhor, ela vinha mais bêbada do que ele. Depois de abrirem a porta do apartamento, tirarem as roupas e se esparramarem na cama ele sugeriu à mulher passar-lhe um creme, e logo onde. Vocês podem imaginar. As palavras, ainda da narradora. A mulher permitiu o creme. Daí em diante foi uma festa. Ela de bruços, na cama, ele por cima. Ela gemia, pedia que ficassem daquele modo durante toda a noite. Fim da narrativa. Será que ele pediria o mesmo a ela? Jamais havia bebido e percebera que ele se frustrava quando ela nada aceitava, nem mesmo uma taça de vinho. O vinho é sagrado, ele dissera no primeiro encontro. Ela resistira. Quem sabe, apenas uma taça, hoje à noite ou amanhã. Mas e se ele viesse com a sugestão, o creme, ela também de bruços? Perderia o namorado, a conta era certa. Continuou a olhar pela janela. As duas jovens que antes conversavam já haviam desaparecido. Uma mulher trazia duas crianças pelos braços, deveriam ser seus filhos, um menino e uma menina. Ambos arrastavam seus brinquedos. A noite caía devagar. O céu rosado à oeste. Ali seria o mar? Não fazia ideia. Era péssima para direções. Ah, lá vinha ele, o namorado, sorridente, trazia uma sacola de supermercado. Quem sabe queijos e vinhos? Mas ela não beberia. Tremeu involuntariamente. Sairia da janela. Não demonstraria que o esperava. Não podia demonstrar ansiedade. Uma de suas armas. Não demonstraria excesso de interesse. Apenas um beijo, e o sorriso frio. Estudara inglês, aprendera etiqueta com os ingleses. E quanto às palavras, tomaria cuidado, não eram um terreno tão seguro. Em língua alguma. E tinha mais uma coisa, esconderia a carta que escrevera à mãe. Não queria o relacionamento perturbado por outra pessoa. Melhor o silêncio. Melhor o mistério. Assim, tornava-se mais interessante.

segunda-feira, maio 18, 2015

Você chegou nua!

Abri os olhos pesados de sono sentindo o copo nas mãos, mas fechei-os de novo com um sorriso confortável de cansaço. Ele, então, aproximou-se. Primeiro tocou meu ombro direito, a seguir foi descendo uma das mãos trazendo junto com ela a alcinha da blusa que eu usava. Com a esquerda, soltou a outra alça. Fiz de conta que nada percebia. Agora eu usava um tomara-que-caia levemente sustentado pela fragilidade dos meus pequenos seios. Você traz mais um pouco de suco para mim?, pedi. Ele foi até a cozinha e voltou com a jarra. Completou o copo. Bebi dois ou três goles e voltei à mesma posição. Após um ou dois minutos, pousei o copo sobre o descanso que estava sobre a mesa. Ele aproximou-se e me abraçou. Permanecemos sentados na poltrona. Eu cruzara as pernas, as pontas de meus joelhos insinuavam a nudez que ele desejava. Por fim, um longo abraço nos manteve unidos, uma espécie de enredamento. Parecíamos entorpecidos e presos por um cordão que não se acabava. Quando nos soltamos, meus seios apontaram. Eu estava sem a blusa. Você tem o corpo de lutadora, falou. Eu?, fiz que me surpreendia, deve ser porque malho muito. Então é isso, completou. Você não gosta?, interpelei. Ah, claro, gosto muito. Ele saiu para ajeitar alguma coisa, não sei se foi levar minha blusa para o quarto ou se foi à cozinha apagar a luz. Logo voltou e deitou-se sobre mim. Eu ainda estava de saia. Sua roupa não vai amarrotar?, perguntou. Se você não soltá-la com cuidado, insinuei. Despiu-me. Não lançou minha saia ao chão nem deixou-a sobre a poltrona, teve o cuidado de levá-la ao quarto e pendurá-la num cabide. Ao voltar eu disse você pode agora amarrotar a mim. Ele riu da expressão e rebateu que eu tinha de ser tratada com cuidado. Novamente se colocou sobre o meu corpo. Fizemos amor.

Quando acabamos, ainda ficamos durante muito tempo abraçados. Tomei a inciativa de levantar e ir até a cozinha. Estava com sede. Ele perguntou o que eu queria. Falei que não se preocupasse, buscaria um copo d'Água. Percebi então como ele era detalhista na arrumação. Que nada soubesse sobre mim, a mulher mais bagunceira do mundo. Vi então que não combinaríamos. Depois de algum tempo o homem provavelmente não me suportaria, com tanta falta de cuidado que carrego comigo. Voltei com o copo ainda cheio. Sentei no sofá e cruzei as pernas. Ele cobrira-se com a manta do estofado. Eu permanecia nua.

Às cinco da manhã, pedi pegue minhas roupas, preciso ir. Ele falou roupas?, você chegou aqui nua! Caímos ambos na gargalhada. Lembrei-me de um namoradinho que fazia a mesma brincadeira. Adorava me deixar nua e demorava pra devolver minhas roupas. Certa vez insistiu tanto pra me enrolar numa manta, que não me fiz de rogada, não só deixei que me envolvesse com o pano transparente como também voltei pra casa vestida daquele jeito. O rapaz se apaixonou por mim. Mas o de agora foi mais suave, o negócio dele era trepar comigo. E lógico que nada falei sobre outros homens. Depois de rirmos muito, namoramos de novo. Naquele dia, não voltei pra casa.

quarta-feira, maio 13, 2015

Deixo que me fotografe

Essas viagens ao exterior são emocionantes, principalmente quando se viaja sozinha. Estou em Santiago do Chile, num hotel muito bom. Um prédio alto, de entrada luxuosa, com um balcão comprido revestido de madeira e aço, luminárias prateadas, funcionários solícitos. No foyer há várias poltronas ao lado direito de quem entra, enfileiram-se até a parte mais interna do prédio. Neste mesmo lado, localiza-se a entrada do bar e restaurante do hotel. Ao fundo do corredor há os elevadores e à esquerda é possível ver a escada que conduz a uma espécie de mezanino, onde se situa um dos centros de convenção, mas o que se percebe à primeira vista é uma cabine com vários computadores, todos para uso dos hóspedes. O hotel possui ainda piscina e academia, no décimo oitavo andar, de onde se tem uma vista panorâmica do bairro e de parte da cidade.

Observo as pessoas com a liberdade de uma aventureira, e posso até sorrir para os homens. Todos correspondem. Um deles olha para mim no momento em que saio do café da manhã. Aproveito então para sentar por alguns minutos numa das poltronas. Começamos a travar um animado diálogo. Ele quer saber de onde venho. Respondo-lhe. Diz adorar o meu país, já o visitou diversas vezes.

Estás a turismo?, pergunta.

Viajei com a intenção de descansar.

Muito importante descansar, completa numa mistura de português e espanhol. Não vai passear, fazer city tour?

Não sei, ainda não decidi.

Estou a trabalho, mas quando venho a Santiago não deixou de visitar o centro histórico, é muito interessante. Há também bairros boêmios, com muitos bares e vida cultural.

Sorrio e agradeço a sugestão. Digo que preciso subir, despeço-me desejando-lhe boa estada na cidade.

No quarto aproveito para relaxar, ler algumas páginas do livro que trago comigo e lembrar-me do homem recente. Ele deu mostras de interesse por mim. Por que não ajo como as garçonetes, ou as camareiras de hotel? Sei que todas elas são mulheres de respeito, mas encantam-se quando se descobrem amadas por um homem, seja ele quem for. E aproveitam. Gostam de presentes, cada um mais caro que o outro. Numa conversa recente, uma amiga falou-me de sua empregada doméstica. Esta lhe contou como faz em relação aos homens que a desejam. Trabalhou certa vez num hotel. Gostou do serviço, mas o patrão cismou com ela. Não ficou muito tempo. Mas enquanto trabalhou deu-se bem nas finanças e no amor. Ganhava gorjetas dos hóspedes e, quando eles a apreciavam... Adivinha? Certo dia um deles pediu que ela fosse até o quarto onde estava hospedado. Queria que ela o fotografasse. Um pedido até certo ponto surpreendente. Pegou a câmera, ensinou-lhe o manejo e fez várias poses. Depois perguntou se ela gostaria de aparecer em uma ou duas fotos. A mulher respondeu que nas horas vagas era modelo.

Modelo?, realçou a palavra o homem surpreso.

Isso mesmo, modelo. Não reparou como tenho o corpo perfeito?

Ah, acho que não reparei devido à roupa de funcionária do hotel, ele desculpou-se.

Deixo que me fotografe, ela afirmou.

Ele fez as duas fotos.

O senhor não deseja se certificar de já fui modelo mesmo?

Gostaria, mas não sabia como lhe pedir.

Não precisa pedir, espere um instantinho só.

Ela entrou no banheiro e saiu de lá enrolada numa toalha.

Pode deixar que depois trago outra para o senhor, ela disse.

Não, não há problema, pode usar a toalha o tanto que quiser.

O homem fez várias fotos da mulher. No final, ela soltou a toalha e posou nua.

Contou à patroa que os dois fizeram uma festa. E o homem, antes que ela batesse a porta do quarto e retomasse o trabalho, ainda lhe enfiou no bolso do vestido duas notas de cem dólares.

Após ler durante uma hora e meia, decido sair pela cidade. Não sou camareira nem garçonete, mas tenho o fogo das mulheres que gostam de amar. Num city tour, e ainda mais com um estrangeiro, quem sabe?

terça-feira, maio 05, 2015

Vestido de noiva

Meu namorado trouxe uma roupa muito sexy para mim. Um vestido curto, mas feito em formato de rede, tipo meia-arrastão. Tranquei-me no quarto e voltei de lá vestidinha. Por baixo, o top negro e a calcinha. Desfilei pela sala. Depois sentei no colo dele.

“Tenho mais uma surpresa para você”, falou baixo, amoroso, junto ao meu ouvido.

“Mais uma?”, curiosa, eu.

“Aliás, duas.”

“É mesmo, não diga?”

Entregou-me outro presente. Abri, era uma caixa pequena, e dentro havia uma pulseira.

“Que lindo”, coloquei no braço esquerdo e lhe dei um beijo na boca. “Você falou que tinha outra surpresa?”

“Ah, sim, adoro passear, você já sabe.”

“Que bom! Também quero sair.”

“Mas você vai assim”, apontou à minha roupinha.

“Assim?”, quase um tremor.

“Assim, sim, com o minivestido.”

“Mas estou pelada!”

“Não faz mal, você vai gostar de passear peladinha.”

Depois de alguma negociação, aceitou que eu levasse um forro. Então me envolvi num tecido negro, de cetim, que já tenho faz tempo, e coloquei o vestidinho por cima.

Descemos no elevador de serviço, entramos no carro e saímos.

Foi um passeio tão bom. Primeiro me levou para jantar. Restaurante lindo, comida ótima. Tinha até vista para o mar. Depois, descemos até a praia. Encontramos outros casais que passeavam à beira-mar. Uma mulher estava de biquíni, e eram onze da noite.

Meu namorado fez o pedido. Eu não poderia negá-lo. Sempre me proporciona os maiores prazeres, os melhores presentes. Faz tudo o que peço e o que não peço.

“Tira o forro”, falou.

Olhei as outras pessoas. Elas não estavam interessadas em nós. Melhor.

“Tira você”, minha sugestão o pegou de surpresa.

“Eu?”

“Isso mesmo, você, basta puxar por baixo.”

Tão delicado o meu namorado. Puxou. Surpresa! Eu só tinha o vestidinho de redinha sobre o corpo.

“Você está pelada”, quis me enrolar com o tecido.

“Nananinanão!”, exclamei.

Vocês estão doidinhos para saber como acaba essa historinha, não é mesmo? Na verdade, não aconteceu nada demais. Passeamos pela areia, fomos até a beira d’água. Apenas uma mulher nos olhou enviesada. Depois subimos à calçada, entramos no carro e voltamos pra casa.

O minivestido ficara para trás. Ou melhor, dobrado e guardado junto com o forro, no porta luvas do carro. Voltei pelada! E assim que entramos em casa... Ah, acho que já não preciso contar.

Vocês merecem saber, sim. No centro da sala havia uma caixa enorme. E dentro dela, o que tinha mesmo?

Um vestido de noiva!

terça-feira, abril 28, 2015

Entrei na tal fantasia

Respirei fundo e me pus avante, como era boa aquela sensação, talvez fosse o perigo, enfrentá-lo sempre é um desafio. O que pode fazer uma mulher nua às duas da madrugada, tanto mais à distância da própria casa? Mas eram duas da tarde e agora à história era outra. As lembranças que ficassem escondidas, numa espécie de sótão da memória. No telefone, a voz dele dizia quanto tempo, que bom falar com você. Convidava-me. Queria reviver algumas aventuras do passado. Não é bom voltar o relógio, rebati, vamos daqui em diante. Ele ficou em silêncio durante alguns segundos, mas logo retornou, com seu desejo acho que maior. O passado já passou, você tem razão, afirmou, o importante é o que vamos fazer daqui pra frente. Foi a minha vez de silenciar, de pensar muito, ainda que em trinta segundos. Desejaria eu ir à sua cidade, permanecer envolta nas carícias daquele homem que sempre partia sem avisar e voltava a me procurar? Você não falou ainda o motivo de tanto tempo sem ligar, disse eu subitamente. Ah, negócios, muitos os negócios, replicou. Quem garantirá que você não vai desaparecer de novo? Ninguém, sua voz soou sóbria, quanto a isso não há garantia.

Desembarquei no dia seguinte na rodoviária Novo Rio. Sempre achei o lugar muito confuso, feio, deselegante para uma cidade como o Rio de Janeiro. As pessoas corriam pelos longos corredores, não se preocupavam se esbarravam umas nas outras. Num dos cantos, uma mulher jovial, embora se percebesse que ia pelos cinquenta anos, beijava na boca um homem talvez quinze anos mais novo. Pessoas subiam e desciam, levavam malas, sacolas e pacotes. Corri até o ponto dos táxis, mas tudo estava muito complicado. E nem era véspera de feriado. Do outro lado da rua um ônibus indicava no letreiro que ia para o Leme. Embarquei. A viagem se deu vagarosa. A cidade tinha muitas interdições de avenidas, havia obras por todo lado. Depois de cinquenta minutos saltei num ponto próximo a uma praça, no bairro de Copacabana. Dobrei a segunda rua à esquerda e me deparei como pequeno hotel onde sempre fico hospedada quanto vou ao Rio. Ele ligou às quinze para as sete. Disse que só poderia encontrar comigo no dia seguinte às duas da tarde numa rua do centro da cidade. Ok, confirmei. Acho que a incerteza era o que me movia. Não sei dizer, mas o risco, sempre o risco. Coloque a dois metros um barril de pólvora e sempre haverá admiradores, ou mesmo quem se proponha a saltá-lo segurando um cigarro aceso. Naquele homem fugaz, escorregadio, enganador, havia um tipo de magia difícil de transformar em palavras, um filete de gasolina capaz de provocar um grande incêndio. A verdade é que ele atraía, e como.

Às duas em ponto eu esperava por ele na rua do Ouvidor esquina com rua do Carmo. A mesma rua do Ouvidor das histórias contadas por Joaquim Macedo, o autor de A moreninha. Não sou tão morena, mas mais atrevida, já que gosto de andar nua na noite escura. Caminhamos por outras ruas do Centro entramos num hotel, na Senador Dantas, um prédio antigo reformado e ambientado para casais em estado de paixão. Havia uma mulher discreta na recepção, não olhava frontalmente as mulheres que acompanham os homens. Subimos num elevador ruidoso, deixou-nos no sexto andar. Assim que entramos no apartamento, comecei a me despir. Não tirei a calcinha. Ele me abraçou quando eu virei para ele com os seios empinados, me deu um intenso aperto e me beijou os lábios. Nada de muitas palavras, ele sempre foi um homem silencioso. Permanecemos em pé, agarrados, num intenso apertar e roçar de corpos. Ele ainda não tirara toda a roupa, estava de calças compridas, mas mesmo assim pude sentir seu sexo rijo a me pressionar o ventre. Namoramos durante duas horas e meia. No final, tomei uma garrafinha de água, que havia no freezer. Estirei-me na cama e me pus a pensar sobre o fato de estar tão longe de casa, em outra cidade, viera apenas para encontrar um homem que dizia gostar de mim e que me procurava ocasionalmente. Você ainda gosta de andar nua por aí?, perguntou curioso. Ora, claro que sim, você que me despertou pra isso, não?, beijei-lhe o rosto com os lábios úmidos de água mineral. Então, proporcionei algo de bom a você, o que mereço em troca?, ele queria algo mais. Tudo, respondi e subi sobre o seu corpo. Seu sexo, que estava em repouso deu mostras de que despertava de novo. Abri as pernas e o agasalhei, o prazer foi intenso. Tenho um novo segredo pra você, acrescentou. Segredo? Achei que já me tinha ensinado tudo. Nada disso, voltou ele à palavra, trata-se de uma fantasia.

De sua bolsa, tirou uma fantasia de carnaval. Quer experimentar?, é de uma personagem de escola de samba. Como você conseguiu?, eu quis saber. Conheço muitas pessoas, e trabalho com atores e atrizes. Verdade?, mostrei surpresa, não sabia que seu trabalho era tão interessante.

Entrei na tal fantasia. Caiu com perfeição no meu corpo. Agora vou levar você pra passear fantasiada, ele riu no final da frase. Verdade?, Acho que morro. Nada disso, as pessoas vão adorar, e você está muito sexy com ela. Depois a gente volta para o hotel. Estou muito sexy?, estou nua, não brinca que você vai me levar nua lá fora?  Vou sim, e você não vai querer outra vida, nua às cinco da tarde.

Acho que por isso sempre volto a esse homem, a ele e a suas invenções. É lógico que tudo foi apenas um jogo. Passear lá fora significava apenas sair nua do apartamento e tocar a campainha para que ele me recebesse. Mas pra quem é de longe, imagine o frisson que senti enquanto batia à porta. E havia a possibilidade de ele não abrir. Por isso volto sempre a esse homem. Ele é um arrepio.

quarta-feira, abril 22, 2015

Qual a diferença, afinal.

Você não sabe ser livre, ele falou pelo telefone. Como assim?, embaracei-me nas suas palavras. Você se prende a pequenos compromissos aí em M., poderia estar aqui aproveitando melhor estes dias. Eram duas da tarde quando desliguei o telefone, pensei em me arrumar e viajar imediatamente à cidade dele, mas contive-me. Melhor esperar o dia seguinte. Mas ao levantar pela manhã comecei a deixar de pensar sobre a possível viagem. Eu sempre facilitava demais as coisa pra ele e sempre me prejudicava, saía dos encontros desvalorizada. Naquela mesma manhã, enquanto ia ao caixa eletrônico, encontrei Rubens, um mulherengo de carteirinha. Oi, princesa, como vai? Ele tinha a mania de chamar as mulheres de princesas, eu sabia que não era apenas comigo. Oi, respondi, mas ao contrário das outras vezes, além da voz, deixei o sorriso, foi uma porta aberta. Ele não deixaria de aproveitar. Começou a dizer que o dia estava lindo, combinava perfeito com meu sorriso. Ah, gentileza sua, redargui. Nada disso, ele acrescentou, você é uma princesa que merece todos os favores do reino. Rubens, deixa de história, nem mais existem reinos. Ele apontou um automóvel estacionado, de cor vermelha, conversível. Vou levar minha rainha a um passeio, sugeriu. Rubens, pretendo tirar dinheiro, vou ao caixa eletrônico. Insistiu em me acompanhar. Acabei por aceitá-lo ao meu lado. Quando saímos do banco, caminhamos um pouco a esmo e acabamos parando onde ele estacionara o carro. Vamos? Levo você em casa, convidou. Quem disse que vou pra casa?, emendei a frase com mais um sorriso. Era tudo o que ele queria, e eu sabia que caso entrasse no carro seria o mesmo que dizer sim às suas pretensões. Depois de cinco minutos, rodávamos pela estadual, uma rodovia junto ao mar. Veja que beleza, ele falava e apontava o mar, vamos parar, você toma uma cerveja. Um suco, respondi. Ok, vamos estacionar. O carro ficou num trecho de areia que se misturava à vegetação rasteira. Descemos até perto do mar. Ele explodia com ondas volumosa e irregulares, as espumas deslizavam ligeiras, vinham quase aos nossos pés. Às vezes eu tinha a impressão de que as águas chegariam com força até onde estávamos arrancando-nos dali com toda sua fúria. Rubens segurou uma das minhas mãos e me conduziu a uma cabana, que mal pude dar pela presença naquela paisagem. Ao nos aproximarmos, o vento levantava nossos cabelos e agitava nossas roupas. Entramos naquele local rústico, onde pudemos sentar, ainda ouvindo o som que vinha lá de fora e que parecia o começo de uma tempestade. Uma mulher jovem trouxe uma espécie de cardápio. Rubens perguntou se eles tinham camarões. A mulher assentiu e desapareceu num compartimento posterior ao bar. Rubens ria para mim, disse que eu adoraria o que serviam ali. A mesma mulher voltou, trazia um suco e uma cerveja. Colocou o copo à minha frente, abriu a cerveja e encheu o copo do meu amigo. É deserto, aqui, cheguei a comentar. É um bom lugar para se conversar e namorar, falou e sorriu. À noite, deve ser um lugar tentador, acrescentei. Ele pareceu gostar da minha observação. Você gosta de sucos, não é mesmo? Suas palavras ecoaram na minha mente, lembrei meu admirador do Rio, que telefonara no dia anterior. O que ele dissera mesmo? Era como se sua voz se perdesse ante todo o bramir da natureza. Meu namoradinho do Rio gosta de me convidar para um hotel no centro da cidade, gosta de me deixar nua às duas da tarde, certa vez me perguntou se eu voltava nua pra casa. Respondi que sim, nuazinha nuazinha, só pra provocar. Quanto a Rubens eu sabia que teria de demorar em seus braços, ele desejaria meu corpo durante todo o dia e também durante boa pote da noite. Ninguém poderia dizer que eu não era livre, que vivia presa aos meus pequenos problemas em M. Aliás, preferi deixar que Rubens fizesse sua parte e provasse que M. valia a pena. Nua num hotel no centro do Rio. Nua numa praia, num fim de tarde em M. Qual a diferença, afinal? Acho que o vento, todos os ventos, e as mãos grossas daquele homem da terra crente em princesas, crente em reinos jamais extintos. Saboroso o camarão, ressaltei, e o suco então nem se fala, está boa a cerveja?, emendei gulosa. Ele bebeu um longo gole, seu rosto estampou todo o prazer que a vida lhe podia oferecer. Eu ia nua, dentro do seu copo de cerveja ou, quem sabe, ao lado do seu corpo dourado. E os olhos baços e indiferentes da garçonete estavam acostumados a sonhos que vinham do mar.

sábado, abril 18, 2015

A pelada sou eu

Digamos que seja tudo verdade. E a verdade às vezes dói. Mas faço de conta que ainda tenho alguma chance. Não foi isso que combinamos. Ele me pediu para descer do carro, dar uma voltinha, depois de cumprir a tarefa que precisava cumprir voltaria para me levar para casa. Ah, esses homens, deve ter surgido outro programa. E eu esperando. Deixa estar. Deixa estar que resolvo à minha maneira. Caso ele ainda apareça, não mais me encontrará. Estarei longe. E nos braços de outro. Mas que estou furiosa, estou.

"Rosalvo, você vem me buscar? Eu sei, está tarde, não combinei nada com você. Mas surgiu um imprevisto, por isso telefono, e você vai ter uma surpresa. Isso mesmo, Rosalvo, uma surpresa. Não, pode deixar que não vou fazer como da outra vez, deixei você chupando o dedo, lembro sim. Nada disso, não vai acontecer de novo, prometo. Anote onde estou? Depois da 41. Isso. Há um restaurante perto, mas não quero ir até lá, ou melhor, não posso. Por quê? Você vai logo saber. Se apresse, Rosalvo. preciso que esteja aqui no máximo em vinte minutos. Por que tanta pressa, Rosalvo? É fácil adivinhar, você me conhece. Não, não brigamos, muito pelo contrário, estamos muito bem. Mas ele, ou eu, não sei bem, acho que nós dois, sabe, namoramos com o perigo. Essas coisas nos excitam. Que coisas? Ora, Rosalvo, não faça perguntas óbvias. Se estivéssemos numa Dinamarca, numa Noruega, acho que não seria nada de mais. Mas no Brasil, e nesta cidadezinha... tudo se torna muito perigoso. O que, Rosalvo? Ah, sim, você diz que eu e ele gostamos do perigo. Isso, Rosalvo, isso mesmo. Fui eu quem disse há pouco, você está repetindo. Vamos deixar a conversa pra outra hora. Se apresse. O quê?, você acha que eu devo escrever um livro com minhas histórias?, com as situações que me acontecem? Rosalvo, escrever livros é fácil, tanto mais para mim, o problema é publicar, e isso não é assunto para o momento. Venha me buscar que eu conto. A surpresa? Se eu falar perde a graça. Quando você estiver aqui, vai perceber, e como. Vai amar. Uma armadilha? Rosalvo, você acha que eu vou te atrair para uma armadilha? Sou sua amiga, jamais faria isso. Se fosse obrigada? As tais pessoas que me obrigariam não conheceriam você, eu não ligaria para você, procuraria outra pessoa, talvez uma que me tivesse feito algum mal. Uma pessoa assim não me viria buscar, Rosalvo? Deixa, Rosalvo, não precisa mais, não, não venha, vou me virar sozinha, me arrependi de ter ligado a você. Vem o ônibus, vou dar sinal. Não sabia que aqui passava ônibus. Melhor se tiver só o motorista. Sabe, Rosalvo, há um deles que me paquera. Quem sabe seja hoje o dia de sorte do homem. Não precisa, não, Rosalvo. Já dei sinal, está quase parando, vou entrar. A surpresa, Rosalvo? Vai ficar para o motorista. É ele que me vai levar. Pode me olhar de frente, moço, sou eu sim, e sou sem vergonha, não é você que sempre passa às quatro e meia em frente à escolinha? Então, é o seu dia de sorte. Não acredita? É verdade. A verdade às vezes dói, mas a de hoje é só prazer Não precisa ficar com vergonha, não, moço. A pelada sou eu!"

segunda-feira, abril 13, 2015

Posto de vigia

Escrevo sempre com minhas palavras. É inútil querer começar com frases alheias ou pensamentos de outros autores. Caio sempre na minha própria língua, ou no meu modo de narrar. Respiro fundo, quero antever uma solução. A madrugada adianta-se, o bramir das ondas me soa suave, estou só sobre as areias da praia, ainda é escuro o céu. Penso na amiga que me escreveu um dia desses dizendo que foi à praia com o namorado e ele a deixou nua! A exclamação, um tanto desajeitada, é dela. O que haveria demais ficar nua numa praia? Já não vamos todas nuas sobre as areias brancas? Mas ela não podia ouvir-me. Era texto as suas palavras, e eu lia. Ficara nua pelas mãos do namorado, brincaram dentro d’água, e ele lhe escondera o biquíni. Caso permaneça tranquila, as águas hão de lhe servir de cobertor, e o dia nem é tão frio, eu lhe diria sossegada. Mas essa amiga é inquieta, mexe-se muito, e as mãos (incluo por minha conta algo mais) do namorado não a deixam em paz. Paz, quem disse que deseja a paz? Não quer a paz mas, ao mesmo tempo, foge dos olhares que por acaso descubram-na nua por inteiro. Ninguém olha para nós, diz o namorado, vamos aproveitar. E ele sempre de mãos estendidas e quanto oh quanto não recebia de surpresa! Mas depois que tudo acaba e ele sai... Não sei se foi procurar pelo biquíni da moça ou se foi buscá-lo na bolsa. Pois ele saíra no começo, logo que a deixara nua, e correra até o guarda-sol onde ficara a bolsa. Ela diz que um senhor aproxima-se e quer assunto, pensa que a mulher vem sozinha à praia; e o namorado a demorar... Daí em diante calou-se, terminou o texto mandando a mim muitos beijos. Acho que quis experimentar minha imaginação. Enfim, despediu-se. Nada perguntei; nem poderia. Sorri e guardei o papel. Eu, que moro diante da praia, que me é velha conhecida a madrugada, acho que por isso o texto dela ao meu endereço. Desconfia que ando nua pelas areias, sob a luz do luar. Meus namorados jamais tiveram tanta imaginação. Quando muito, tomam-me ao colo e me carregam para a cama. Já vim nua aqui fora sim, uma só vez, e não estava bêbada, apenas desejosa. Certa vez inventei uma historinha a um namorado, historinha pela metade. Falei de um amante que gostava de trepar na praia. Cruzes, mau gosto, respondeu, a areia é pegajosa e, depois, acabamos por estragar as roupas. Importante, ele, roupas caras por sinal. E minha amiga peladinha, na praia, sem recursos diante de um estrangeiro... Ah, sim, a solução sobre o que escrevi lá no começo. Não, não estou nua, acho que até muito vestida, mas o vento salpica-me a pele, talvez também me estrague as roupas. Mas não adianta despir-me. Onde as guardarei? Não trouxe a bolsa, como minha amiga e o namorado, bolsa que, aliás, não lhe deu a solução. Ah, uma proteção, uma guarita abandonada, usada no verão como posto de vigia, agora está quase em ruínas, tão forte os ventos. Entro na vigia, subo dois lances de escada. Surpreendo-me. Roupas. Alguém usa o posto como armário. Roupas de mulher. Levo-as comigo? Não, nunca fui ladra. O que faço? Protejo-me de todos os ventos. Melhor então me guardar na vigia, a vigia como refúgio, a vigia como armário, roupas minhas e roupas de outra, esquecidas, todas misturadas. Sei que ela não virá, não há viva alma na praia. E a noite que termina. Desço da vigia. Salpica-me a pele gotículas de sal, agulhas de areia sangram-me as pernas, o oceano inunda-me até os tornozelos. Volto à vigia, minha amiga pelada sem a bolsa, minha amiga pelada espelho meu... Posto de vigia? Que vigia?

segunda-feira, abril 06, 2015

Mulher de bordel

Sentem-se na pele alguns respingos do mar, eu tão arrepiada, é noite. O prazer do sal ilumina-me as narinas, meu corpo geme um arrepio comprido. Corro à beira d'água, tão próxima, envolta no abraço de meu próprio corpo. Talvez algum morador antigo, acostumado a poucas luzes da vila consiga vislumbrar minha silhueta. Arrisco-me. Não quero a roupa úmida, mareada de oceano. Melhor a pele apenas, o corpo a suspirar saraivada de gotículas. Experimento o gozo que vem do mar. Minha a amiga a correr a orla, a saciar o desejo nu do namorado. Eu não chamo namorados. Flerto com o céu, com as perigosas águas marinhas... Talvez alguém me espreite ao longe, namore uma improvável imagem, fantasma de mulher a surpreender desavisados. A noite é longa, deito-me à borda de um barco que descansa sobre dois cavaletes, um barco que mostra quão impossível é o navegar; o madeiro talvez me levasse a mediterrâneos desconhecidos, Ulisses às avessas, rainha de uma ilha fora do mar. Houve numa das noites, acho que a primeira da estada, uma menina a espreitar-me, queria meus segredos, sob a luz azul da lua pisou sobre meus pés de areia, um modo de arranjar caminhos seus. Disse que não o fizesse, pois os anos marcam todos os corpos, e ela teria os seus. Ninguém segue rastros impunemente.

Os homens da vila têm namoradas que os acompanham no automóvel. Vão nuas as namoradas. Não calculam o comprimento da saia, vão nuas de coxas, de pernas volumosas, e ainda gostam de beber cerveja. Os homens da vila não enxergam estrangeiras, apenas granjeiras que ciscam em terreiro próprio, interminável o carcarejo. Vamos em pele também nós, as estrangeiras. Eles não trepam em línguas que não dominam. Ou melhor, nem reparam que há outras línguas. Jogam os homens, um jogo de azar, um jogo de acasos. Estiro minhas pernas, a malha a fazer-se corpo; os braços estirados; soltam-me dois seios rijos. Onde a blusa que me tingia a pele? Posso voltar nua à pousada? Deito sobre as areias, não espero príncipes. Eles não desembarcam, trancam-se em seus castelos. E eu tão casta. E nenhum castiçal a iluminar-me a face.

Não queria companhia naquela sexta-feira. Toda a cidade reunia-se nos bares. Eu me queria sozinha. Namorada à flor da pele, casada consigo mesma, lua interminável de mel. Caminhei até a orla, longe as vistas ébrias, os homens que querem as mulher duas horas. Peno adentrar o mar. Mar misterioso. Leva minha nudez às escondidas. Minha amiga mergulhava nua para o namorado. Ela, fingida, abandonada, envolta nas sombras escondidas da lua. Nada a esconder, falo de mim. Quero torta a madrugada, como meus cabelos despenteados. Longe dos homens, longe eles de mim. Certa vez abracei-me, apertei-me aos seios. Sufoquei-me. Senti então minhas mãos frias, gastas de desejos, os calos a arranhar-me a pele. Amei-me, e não às escondidas. Suguei meu corpo, embora não alcançasse outros orifícios além da própria boca. E como era doce meu suor. Jamais gostei de doces, salgava a carne quando menina, e a carne era meu corpo.

Do mar sem ondas rema aparente calmaria. O luar em prata derrama-se sobre o espelho. É noite, quero dançar num vão entre os hotéis. agora há um namorado a espreitar-me; aliás, dois, o segundo hospeda-se com mulher e filhos, logo descobre que não amou outra tanto quanto ama a mim. Sou carrossel a girar, presa pelos cabelos, quatro mãos a disputar-me. Dois passos e volto-me à praia. São de ondas o outro carrossel. Se entro no mar? Não sei. Sei que estou sempre a amar, sei que sou interminável mar onde alguns batéis não são capazes de navegar. Perco minhas roupas e ninguém a esperar-me. Um automóvel na areia. Descobre-se tão fácil a sereia que deita ao amor. Oh, talvez um farol ao largo evite o naufrágio. Mas a sereia ainda é peixe, espera a transformação. Não venhas agora, quero ainda demorar-me sobre o dorso de um cavalo-marinho. Queres a mim ou deita-te com minha metade? Dou-te a outra metade, mas não alardeie o troféu. E depois arranja um jeito a mim. Sem o mar serei sempre estrangeira. Quero gozar sã e salva. Disfarça a morte o gozo da mulher de bordel.

segunda-feira, março 30, 2015

A faltar uma blusinha

Ai, acordar peladinha depois dessas festas, nem lembrar como tudo aconteceu... Ainda estou morrendo de sono, acho que são nove ou dez da manhã. É o sítio de Mariinha, quanto a isso não posso me enganar. Quando eu morava em BH, as festas eram mais discretas. Cidade grande é outra história. Aqui, nesse lugarejo, as meninas são de um fogo terrível. O pior é que acham que lá, na cidade grande, as mulheres são mais atiradas que cá. E querem imitá-las. Pior que imitam apenas uma ideia. Então marcam essas festas, onde acabamos quase todas nuas, mesmo que de uma nudez disfarçada, e dormindo em casas alheias, nem sabendo onde foram parar uma das blusas. Isso mesmo, sempre desaparece uma blusa; já aconteceu de sumir uma saia. Como voltar para casa em tal circunstância? É preciso que alguém empreste uma roupa, como um casaquinho de meia estação. Depois vamos até o Shopping, a 120 km da cidade, comprar novas roupas. Aqui em Minas todas vivemos de aparência. É lógico que é o único modo de a sociedade nos aceitar. Fingimos. Em nossos trabalhos somos exímias profissionais. Uma de nós é dentista. Não digo qual, não quero dar pistas sobre as amigas, quem sabe eu? Mas voltando às festas, são de lascar, isso mesmo, acho que é essa a palavra, porque como diz o mineiro do campo, são de tirar o couro. Como não podem nos tirar o couro real, nos tiram a roupa. Depois, dão no couro! Muitas querem ter namoradinhos, curtir a vida a dois, casarem-se. Mas já pensaram sobre? Casarem-se? E quem já passou por isso tudo, quem já cansou? Não se pode viver para o marido, nem para os filhos. É bom ter filhos, não nego, mas não se pode viver em função deles durante toda a vida. Então apareceu a Mariinha e deu a ideia. Chamou as mulheres mais destemidas da cidade e convidou-as todas. Mas, Mariinha, alguém há de acabar descobrindo, afirmou uma. Não, basta que fiquemos de boca fechada, ela retrucou, e não precisa que as festas aconteçam sempre, três ou quatro vezes ao ano é o suficiente, e nada de homem da cidade, acrescentou a promotora. Engajamo-nos na brincadeira, mulheres da cidade e outras que ficavam nela apenas parte do tempo, como médicas, a tal dentista e professoras. O local seria um sítio, a 40 km, na serra de G, digamos assim. Na primeira das festas, não aconteceu nada demais. Apenas comemos, bebemos e dançamos... como dançamos! Homens de menos, mulheres sempre mais numerosas. Fizemos mais duas festas, a frequência aumentou e também a quantidade de homens, mas as mulheres sempre mais numerosas. Na quarta festa, propus que mudássemos o local, precaução apenas. Alguém já está comentando pela cidade?, quis saber a amiga. Não, nada ouvi, mas sabe como é, melhor não facilitarmos. Nas festas seguintes, fomos a uma pousada, era de uma das frequentadoras dos eventos. Numa pousada, algumas se assustaram, isso pode soar mal. Há no lugar um grande salão, e depois, fica-se mais à vontade. E passamos a alternar, uma vez no sítio de Mariinha, outra na pousada. Vieram homens de longe, inclusive de BH, acharam a nossa ideia maravilhosa. Exercíamos nossas profissões durante os dias, éramos as pessoas mais sérias da cidade, mas durante as festas a liberdade era total. Até mesmo vieram algumas mulheres casadas. Mulheres casadas, assustei-me, podem arrepender-se e sair comentando por aí. Nada disso, rebateu Mariinha, tenho o nome de todas, estão arriscando o próprio casamento, e é lícito que se divirtam. E vinham elas, mais sorridentes do que todas nós, mais provocantes, arrumavam-se num dos banheiros da casa, transformavam-se em autênticas piranhas. Não há problema que namoremos, disse a dona do sítio, o importante é que não vire rebu. Achei engraçada a palavra, rebu. Daí em diante já se via uma ou outra agarradinha com seu par, depois a sair ao ar fresco, até que alguém falou pois não há um quarto com cama? Concordou-se, então. A respeito do quarto e da cama. E as festas, oh, uma beleza. Mas nada pode durar para sempre, trata-se de uma verdade absoluta. Fizemos a última ontem, a de despedida (será?). Já está dando na pinta, surpreendeu-me a amiga. Mas até na última acordar peladinha, e sempre a faltar uma blusinha...

segunda-feira, março 23, 2015

Nua dentro da piscina e um amor lésbico

Como a água da piscina estava gelada, num primeiro momento eu quis voltar para a cadeira onde havia alguns minutos eu me sentava.

Eleonora me olhou, sorriu e disse:

Você vai acabar gostando da ideia.

Ela pedira que eu ficasse em pé, bem na beirinha, pois queria comparar o meu corpo ao dela. Contara que precisava emagrecer e que eu servia de modelo a ela. Como sou narcisista, exibida e metida a gostosa, me coloquei como pediu, fiz até uma pose. Ela veio se aproximando, chegou bem pertinho.

Vire de costas, por favor, falou terna.

Prontamente atendi. Coloquei o bumbum voltado para ela.

Muito rápida, ela desfez os lacinhos do meu biquíni e me empurrou para dentro da piscina.

Agora você fica de molho aí, falou depois que eu voltei à tona, sorriu e correu não sei para onde levando a parte inferior do meu biquíni. Logo Eleonora reapareceu, mas de mãos vazias.

Nos primeiros segundos, fiquei furiosa, pois a frase que ela dissera, de que eu ia acabar me acostumando, me deixou muito aborrecida. Jamais eu quis ficar à mercê de outra pessoa. A água gelada, no entanto, pouco a pouco começou a me causar um intenso arrepio e chegou provocar sensação agradável entre as minhas pernas. A preocupação que passei a ter naquele momento foi a possível chegada de outras pessoas. Mas isso acabou aumentando a tal sensação, era como estar deitada sob o sol e medir o tanto que sua quentura nos toca la no fundo.

Volte aqui em cima, ela sugeriu, volte que devolvo o biquíni.

Mas se aparecer alguém, repliquei enquanto segurava na borda e a água escorria pelos meus cabelos.

Não vai surgir, não, ainda é cedo. A não ser que você esteja gostando da brincadeira, acrescentou com certo sarcasmo.

Para não dar o braço a torcer, falei:

Já fiquei nua várias vezes, mas na praia, e pelas mãos de um namorado.

Não sei se minhas palavras a excitaram. Sem que eu esperasse, ela saltou na piscina. O choque do seu corpo na água fez um barulho imenso, pois era gorda. A água respingou por todo lado. Ela nadou na minha direção e me segurou pela cintura.

Pode também me deixar nua, ordenou, vamos, não demora porque chega alguém.

Tirei o seu biquíni e o arremessei longe, bem mais adiante de onde ficavam as espreguiçadeiras.

Você poderia ter sido um pouquinho mais discreta, falou e começou a me fazer carinho.

Juro, foi a primeira vez que estive nas mãos de uma mulher, agora sou eu que falo, e para você, querido leitor. As pessoas sempre desejam saber o desfecho das histórias, não é mesmo? Eu poderia deixar em aberto. Mas conto como acabou.

Ficamos as duas dentro d’água um tempo enorme. Ela conseguiu me provocar vários orgasmos. Talvez seja esse o ponto positivo no relacionamento sexual entre duas pessoas do sexo feminino. Quando acabou, já havia duas mulheres nas espreguiçadeiras. Até então não tinham dado por nós.

Eleonora saiu nua da piscina, e as mulheres continuaram sem nos observar. Ela demorou um tempo enorme para voltar. Fiquei preocupadíssima, pensei que me deixaria nua dentro d’água pelo resto do dia. E a água estava tão clara. Mas acabou retornando. Arremessou o meu biquíni bem no meio da piscina e gritou:

Não falei que você acabava gostando.

Só então as duas mulheres se voltaram par nós. Aproveitei para mergulhar fundo. Enquanto tentava recuperar a calcinha tinha onde enfiar a cabeça.

Até mantive outras relações lésbicas. Mas confesso, prefiro os homens, com toda complicação que eles arrastam atrás de si. Não há melhor coisa do que dar uma boa trepada com eles.

terça-feira, março 17, 2015

Duas noites de loucura

Estou diante da porta do quarto dele; o corredor, escuro; atrás das outras portas, o silêncio. Apenas eu em meio às sombras da meia noite e meia. Dormem os outros os hóspedes. Nenhum reflexo de luz, nenhuma réstia a escorrer por baixo das portas. Uma noite plena após um dia de trabalho árduo. Mas para que entendas, interessado leitor, volto ao começo desse romance fugaz. Ou, caso esteja cometendo algum tipo de exagero ao nomeá-lo assim, passo a chamá-lo lúbrico atrair de corpos. Como a fruta da oliveira que banhada em óleo próprio, virgem e natural, nos desliza garganta abaixo. Mas sejas rápido na leitura, não te deixes enfeitiçar por metáforas que tentam fazer saltar tua pele e abrir teus poros... Do contrário, serei surpreendida nua por algum hóspede inesperado. E poderei cair em mãos estranhas.

Na primeira vez em que me aventurei ao seu quarto, vestia uma camiseta comprida, ia quase até os joelhos. Mas, agora, minhas frágeis asas de borboleta e o odor adocicado que emano do corpo (aquele odor que captura os homens) não me permitem vesti-la. Boa desculpa para não dizer que ele ma tomou. Deixei-a no seu quarto após a noite de amor. Queria continuar a sentir o meu cheiro após o amanhecer. Ao menos foi o que entendi ante o seu olhar insistente, olhar que também me convidava à noite seguinte. Saí rápida, fechei a porta em silêncio e corri ao meu quarto. Ainda bem que deixara a porta destravada, a chave por dentro. Talvez a perdesse no afã do amor, talvez não tivesse para onde voltar... Enlouqueço enquanto amo. Quem sabe, melhor assim. Mas a verdade é que estou de volta a ele. Basta o dobrar da maçaneta e dois passos. Adiante, o abismo. Talvez o amor seja esta tênue sombra do outro a nos tocar momentaneamente o corpo, a ameaçar a nos deixar nua em terra estrangeira. Sem roupa e sem linguagem. Não quero de volta a camiseta. É o ponto claro em meio à escuridão da madrugada. E é a minha última noite.

Viajo toda semana a M, onde trabalho na área de saúde. Sempre a mesma vida, sempre a rotina do viajante. A pousada é de uma velha conhecida. De duas semana para cá, aconteceu algo que me deixou de início excitada, depois inteiramente louca. É lógico que consegui, embora a duras penas, manter a discrição. Ao menos até ontem. Um homem especial se pôs a me olhar. Trata-se de um homem de poucas palavras. Como chegar a ele?, pensei. Não posso dar a primeira carta. Ainda bem que existe uma padaria por perto. Ele estava lá. Comia um sanduíche de presunto. E olha que prefiro queijo. Mas tudo bem, era ele quem comia. Seus olhos me penetraram mais fortes do que qualquer palavra, qualquer frase, qualquer verso de poeta antigo. Não chegou a dizer o que o traz à cidade, ou o que o levou à tal pousada. Mas ouvi com delicadeza o que os seus olhos diziam-me. Permaneci ao seu lado. Éramos dois velhos amigos que já não precisam de palavras. Bebemos do mesmo suco. Voltamos juntos. Entramos e fomos para os nossos quartos. Duas horas depois, ouço dois toques à porta. Abro. Ninguém. Fecho a porta. Não demora e agora três toques. Abro. Ninguém. Ou melhor, um cartão com o número 23. Deixo correr os ponteiros do relógio. Passa uma hora. Ele deve estar pensando que não vou. Mais trinta minutos e corro até o seu quarto. Onde o vinte e três? O que acontecerá caso eu me engane de porta? Alguém abre a porta. É ele. O olhar pleno. Mergulho nos seus braços, atravesso o seu corpo. Muda. Pra que as palavras? quase chego a sussurrar. Consigo, porém, resistir à emissão de qualquer voz. Apenas os guinchos do sexo, os rasgos de amor.

Estou de volta. Muda. Melhor apenas os corpos a se tocaram, a exalarem perfumes ainda que dúbios. Nada sabemos um do outro. Nem mesmo quem nos espera em nossas cidades de origem.

Ao viajante o campo é sempre neutro, a pele sempre lisa. E apraz a roçar num canto da memória duas noites de loucura.

quinta-feira, março 12, 2015

Vale encantado

Estava hospedada no hotel fazenda Vale Encantado, no interior do estado do Rio de Janeiro, em meio a montanhas. Um local de onde não mais se deseja sair. Acompanhava minha filha, meu genro e minha neta. Por falar em neta, o local é um paraíso, principalmente para as crianças. Há várias piscinas, parques, brinquedos, campos para jogos, recreadores e, mais adiante, um lindo bosque. 

Apesar de já ter entrado nos cinquenta, tenho o corpo muito bonito, e, para completar, uso um biquíni mínimo, não é preciso dizer que a parte de trás é apenas aquela tirinha estreita, que entra toda no meu bumbum. Adoro. Minha filha não tem coragem de usar biquíni semelhante.

No segundo dia no hotel, depois de no dia da chegada ter ficado o tempo inteiro na piscina brincado com a minha neta, notei que um senhor me olhava com algumas intenções que não eram a de apenas apreciar a natureza.

Logo que voltei à piscina – já sentia o sol me queimar – ele apareceu ao meu lado, o cabelo curto escorrendo água devido ao recente mergulho. Cumprimentou-me, puxou conversa. Como faria qualquer pessoa educada, correspondi ao seu assunto.

Era viúvo, mas também viera acompanhando familiares. Isso não vai dar certo, pensei. Depois de algum tempo a falar sobre a beleza do local, o clima agradável, a necessidade que temos de passar alguns dias de papo para o ar etc., convidou-me para ir ao bar.

"Bebo uma caipirinha", salientei, "apesar de minha bebida preferida ser vinho. Acho que não há vinho no bar da piscina."

"Acompanho você na caipirinha, depois tenho uma surpresa", falou. 

Imaginei o que ele já estava aprontando. 

No bar, minha filha passou por mim e fez a cara de sonsa que costuma representar quando me vê acompanhada de algum homem. Não correspondi. 

Quando já bebíamos nossas caipirinhas, meu pretendente falou:

"Sabe qual a surpresa? Trouxe comigo duas garrafas de vinho italiano, convido você para beber à tarde", sorriu com ar conquistador. 

Demorei um pouco para dizer se aceitava ou não, mas acabei dizendo que seria um prazer. 

"Convide também seus familiares", disse ele, “caso apreciem um bom vinho.”

Naquela tarde todos bebemos um delicioso Corvo. Meu admirador chamava-se Abelardo. Falou muito sobre as vantagens das férias naquele sítio. Disse que morava a duas horas dali e que já era freguês, vinha quase todos os meses.

No terceiro dia de estadia, minha filha notou alguma coisa além da conversa e resolveu não aparecer para o vinho vespertino. Meu genro parece que, naquele momento, disputaria uma animada partida de futebol. Então, apenas meu admirador e eu apreciamos uma garrafa inteira de Valpolicela. Quando terminamos, confesso que o provoquei.

“Vamos dar um passeio, sugeri.”

Era o convite que ele espererava.

Levei-o através de toda a extensão do hotel, na direção do bosque.

Ao reparar que nos aproximávamos das árvores, falou:

“Queria muito convidar você para passear, mas pensei que acharia a caminhada um tanto longa.”

“Estou acostumada a caminhadas maiores.”

Entramos pelo bosque. O canto dos pássaros àquela hora da tarde era irresistível. Continuamos a dar passadas largas e percorremos um caminho em que predominava uma quantidade maior de árvores. Paramos para apreciar a paisagem. De propósito toquei sobre um de seus braços para apontar a vista. Deixei minha mão ali por alguns segundos. Abelardo parecia embevecido não tanto com a vista a partir daquele ponto da montanha, mas com o calor do meu corpo. Arrastei-o, com uma das mãos, até um arbusto que nos escondia. Qual então não foi nossa surpresa, encontramos um biquíni, isso mesmo, a parte inferior de um biquíni pendurado em um dos galhos mais salientes. Alguém o havia deixado ali fazia pouco tempo, pois dava para perceber que ainda estava molhado.

Coloquei o indicador sobre os lábios sinalizando que nada falasse. Procuramos um lugar mais resguardado. Quando senti que podia dizer alguma coisa, soltei em surdina:

“Acho que alguém teve a mesma ideia que nós, não é mesmo?”

Ele me abraçou e me beijou na boca.

Assim que terminou o beijou, perguntei irônica:

“Será que deixo o meu biquíni no mesmo galho?”

Abelardo me abraçou novamente. Não tive tempo de falar mais nada. Meu biquíni? Ele o tirou. Procuramos um canto sobre a relva e trepamos durante muito tempo.

Quando acabamos, anoitecia. Era possível reparar os postes com lâmpadas oscilantes no outro lado da montanha.

Ao passarmos pelo mesmo local, ainda estava lá o tal biquíni.

“Que tal trocar ou mesmo ficar com os dois, o outro ainda está lá!”, sugeriu, parecia excitado, apesar de todo o sexo que fizemos.

“A ideia não é má.”

“Qual delas?”

“A segunda.”

A última palavra lhe despertou novo desejo. Quis me colocar nua mais uma vez.

“Calma, amanhã ainda haverá tempo, e quem sabe será mais interessante?”, acrescentei.

Mas ele não resistiu. “Amanhã e ainda hoje!”

“Está bem”, falei, “mas espere um instante.”

“Aonde você vai?”

“Vais já saber.”

Fui até o galho e coloquei o meu biquíni ao lado do que lá estava.

segunda-feira, março 09, 2015

O que eu vou fazer da minha vida?

Jessé balançou os dois últimos caroços na concha da mão e lançou-os em dado. Era noite, e o jogo estava feito. Eliane arrepiou-se, ela fazia parte da aposta. Como flertava com o perigo, o friozinho na barriga dava-lhe prazer. Ao abrir uma das mãos o homem, com um dos cantos da boca, lançou-lhe um sorriso de escárnio, sabia que ainda não seria sua a vitória. A mulher, corajosa, tinha sorte, ele concordava. Jogador escolado, o mulato também sabia que a sorte um dia escapa. Era só ter paciência que ela, a mulher, cairia de joelhos. Pagou o que devia. Eliane sorriu. Muitos homens já haviam frequentado seu corpo sem necessidade de lance de dados. Quanto a Jessé, tratava-se de um capricho, queria prendê-lo. Ele era elegante, bonito, a pele brilhosa, o cabelo negro farto e bem penteado. Um homem que não fora feito para qualquer garota. O jogo, portanto, era a arma da mulher. Ela tinha consciência de que corria risco; a sorte, como lera nos olhos de Jessé, não dura para sempre. Enquanto pudesse, no entanto, arriscaria; era um modo de se valorizar, de criar no homem a cada dia o desejo mais intenso. Talvez, assim, ele durasse ao seu lado mais tempo. Não tinha ilusão, conhecia os homens Ao conseguir uma mulher, ao desarmá-la de seus encantos, eles depressa vão à cata de outra, de novas experiências, que logo se tornarão velhas. A roda continuava a girar. Eliane sabia que no fundo tudo era ilusão.

Fazia três anos que percebera sua tendência para a sorte no jogo. Um ex-namorado a convidara a um café numa cafeteria no centro de M. Eliane aceitou. Os dois encontraram-se por volta das 16h00. O local era bonito. Tomaram dois expressos e comeram duas fatias de bolo. Jonas pediu um pouco de leite. Ela começou a contar sobre o casamento. Disse que estava muito feliz, o marido era companheiro e atencioso. Ressaltou a palavra companheiro duas vezes. O homem não deixou escapar as palavras de Eliane. Como já conhecia a mulher, desconfiava de algumas das histórias contadas por ela. Quando já estavam à mesa por mais de trinta minutos, perdurou um profundo silêncio entre os dois. Ela aproveitou para olhar através do vidro o trânsito que era intenso na rua defronte. Era possível avistar as árvores que se enfileiravam no outro extremo da avenida formando um pequeno parque. A mulher sorriu, lembrou que já passeara naquele local tarde da noite com o homem que estava à sua frente. Voltou o rosto a ele e continuou com o ar de alegria que o momento permitia. Eu e meu marido somos apenas companheiros, queria dizer isso a você, tocou no assunto novamente; não fazemos sexo, entende?, somos apenas amigos, ajudamos um ao outro. Jonas franziu a testa. Amigos?, repetiu; estranho. Verdade, Eliane retomou a palavra; ele tem um problema, não pode fazer sexo, nunca fizemos, mas está bom assim, concluiu. Jura?, ainda perguntou Jonas. Eliane apenas moveu a cabeça. Saíram da cafeteria e seguiram a rua Teixeira. Continuaram a conversar assuntos esparsos, ora olhavam os carros, ora os prédios do lado onde caminhavam. Tenho de ir até em casa, ela falou. Eliane tinha duas casas, uma na serra, outra na cidade, referia-se à da cidade. Jonas não falou nada num primeiro momento, depois continuou ao lado dela; mais adiante perguntou se podia acompanhá-la. Pode sim, ela disse. Dobraram à direita numa transversal e seguiram até o Visconde, um bairro de casas de dois andares. Antes margearam a rodoviária. Quero ver se pego o de 17h30min, disse ela. Faltam ainda trinta minutos, replicou Jonas olhando o celular. Ao chegarem à casa que Eliane ainda mantinha na cidade, ela advertiu: está muito diferente da casa que você conheceu, dei alguns objetos, levei todas as minhas roupas para a casa da serra, mantive apenas o sofá, a cama e o fogão. Jonas assentiu, sabia que ela na verdade já não residia ali havia pelo menos três anos. Ao chegar, seguiram o pequeno corredor do térreo até entrarem no corpo da casa, subiram dois lances de escada. Eliane abriu a porta, que nem estava trancada. Ambos entraram. Ela primeiro; ele, a seguir. Não repara, pediu a mulher; está uma bagunça. Não faz mal, compreendo a situação, redarguiu Jonas. Eliane procurou um objeto, mexeu em outro, olhou para seu ex-namorado e sorriu. Lembra que você foi nua lá embaixo, certa vez?, Jonas disse em voz baixa. Você não esquece isso, ela falou e sorriu, um sorriso luminoso. Ele teve vontade de abraçá-la, mas nada falou. Ela continuou nos seus afazeres. Eliane tocou de novo o nome do marido. Como falava nele... Disse que ele lhe pedira algo, e que logo iria ligar para saber se conseguira. Jonas permaneceu em silêncio. Eliane não era boba, sabia que o ex-namorado ainda lhe desejava, fazia bem para sua autoestima, ela valorizava o momento. Pensou em perguntar a Jonas se queria que ela tirasse a roupa; ficaria nua e pediria para ele segurar seu vestido; ah, os homens, sempre ficam excitados com mulheres nuas. Nada mais, porém, apenas a nudez, a pele branquinha à mostra. Suspirou, tocou de leve no tecido que compunha o vestido. Ia aos joelhos. Ele não gosta da casa da cidade, ela acrescentou referindo-se ao marido. Você está precisando de dinheiro?, Jonas interveio. Dinheiro?, sempre a gente precisa, por que a pergunta?, ela quis saber. Achei que você precisava; a licença, o afastamento do trabalho, as dores que você sente, deve estar precisando, ele retrucou. Sim, você acertou. Jonas abriu a pasta, tirou a carteira e de dentro dela puxou duas notas de cem e duas de cinquenta, estendeu a mão com as notas a Eliane. Como faço pra pagar?, ela perguntou. Não sei, faça como achar melhor, respondeu ele. Não vou ter pra devolver tão cedo, ela continuou. Não faz mal, não estou precisando agora, disse o ex-namorado, com uma entonação decisiva. Eliane guardou o dinheiro. Bom, vamos embora. Acabou de falar e ouviu o telefone. É ele, meu marido. Foi até a janela e conversou um pouco, prometeu que voltaria logo, já havia resolvido tudo que programara. Não, não demoro não, ok?, um beijo. Desligou. Ao olhar na direção onde Jonas estava minutos antes, não encontrou ninguém. Ele partira sem que ela notasse. Sentiu-se só. Jonas lhe fazia bem. Lembrou-se da vez em que foram juntos à praia e ele sugerira que ela tirasse o biquíni e o entregasse a ele. Ela, como sempre espevitada e querendo demonstrar determinação, desfez os laços e ficou nua. Entregou o biquíni nas mãos de Jonas, deu um mergulho. Ao voltar à tona, percebeu que ele havia desaparecido. Acontecia de novo. Jonas se fora. Ela, só, sem ninguém a socorrê-la... O que eu vou fazer da minha vida?

Jessé balançou os dois últimos caroços na concha da mão e lançou-os em dado. O jogo estava feito. Era noite. Ele a incentivava, e ela sabia que tinha sorte. Ao menos por enquanto, sabia também que um dia perderia. Para a ocasião, já trazia pronta e ensaiada a frase. Jessé, sei que você está louco por mim, pra isso nem precisava de aposta; se você tivesse falado antes, a gente já transava fazia tempo; mas apenas isso, viu? A roda continuava a girar. Eliane sabia que no fundo tudo era ilusão.

domingo, março 01, 2015

Respirei fundo

Como a água estava fria, usávamos os pés para nos movimentarmos, assim não só mantínhamos nossos corpos aquecidos, mas também flutuávamos entre as ondas. Ele, mais do que eu, era ágil com as mãos, queria a todo custo tocar meu corpo. Mas o que me provocou quentura mesmo foi um afago diferente que ele me fez. Nunca havia percebido que alguém, apenas num ligeiro deslizar de mãos, pudesse me provocar um orgasmo enquanto tentávamos escapar da arrebentação.

Tudo começou uma hora antes. Eu andava no calçadão, na altura da Rainha Elizabeth. Queria um quiosque para tomar água de coco. Mas não sei o que me deu. Ao olhar as bebidas expostas, vi uma garrafa de vodca, e aquela marca não era comum nos quiosques.

O senhor faz uma caipivodca para mim com aquela vodca ali?

É pra agora, o empregado não pestanejou.

Eu vestia meu biquíni vermelho, não é tão pequeno mas deixa os homens loucos; uma camiseta justa me cobria até o umbigo. Trazia no ombro a bolsa. Pronta a bebida, comecei a mordiscá-la.  Descobri então um homem que me admirava, e já devia estar ali fazia tempo. Dei uma ajeitada na pose, tomei o copo nas mãos e fui até uma cadeira vaga, numa das mesas que me permitia olhar quem andava no calçadão. Ele se aproximou.

Posso sentar aqui?, quase não há lugar.

Ok, fiz ar displicente.

No começo, fingiu não querer nada comigo. Olhou a paisagem, as pessoas, o empregado do quiosque.

Essa bebida é ótima, não?

É, falei e continuei indiferente.

Deixa a gente a mil.

Poucas palavras as suas, mas suficientes para me calar. Lembrei uma amiga que sempre diz que caipirinha é bom porque sobe pelas pernas em questão de minutos.

Respirei fundo. Ele prestou atenção.

Essa sensação passa, mas só depois de meia-hora, a não ser que se encontre um grande amor, falou.

Não aguentei, tive de rir. Um tempinho depois contei o que minha amiga me dissera.

Ainda dentro d’água. Ele já conseguia me segurar pela cintura, puxou meu corpo para junto dele. Não ofereci resistência. O mar nos levava para cima e para baixo. Às vezes, espumas nos invadiam. Ele beijou minha boca. Deixei que sua língua me ultrapassasse os lábios. Deslizou várias vezes as duas mãos pelas minhas costas, me aprumou rente a ele, ventre contra ventre.

Você não teme o mar?, perguntou.

Só quando há correnteza.

A correnteza hoje são as minhas mãos, os meus braços, os meus lábios; tacou-me mais um beijo.

Nadamos um pouco mais adiante, flutuamos atrás da arrebentação.

Calma, falei, assim você me deixa nua.

Ele havia puxado o meu biquíni, descera até as coxas, um pouco acima dos joelhos.

Você é muito gostosa.

Vamos fazer uma coisa, falei, namoramos como duas pessoas decentes, depois você me leva para onde quiser e lá...

Tudo bem.

Foi assim que aconteceu. Acabei no apartamento dele, ali na Djalma Ulrich. Fiquei até pouco depois de meia noite. E ainda estava de biquíni. Antes de partir, porém:

Você não tem uma camiseta comprida para me emprestar?, pedi.

Tenho, mas só aceito se for uma troca, ainda que temporária.

Troca?, fiz cara de que não entendi.

Ele olhou para o meu biquíni.

Jura que você quer?, perguntei.

Brincadeirinha.

Ele foi ao quarto pegar a camiseta. Enquanto isso entrei no banheiro, tirei o biquíni e o dependurei na torneira do chuveiro. Ele me passou a camiseta pelo vão da porta. Vesti e me olhei no espelho. Caiu bem, era como se eu usasse um minivestido.

Ao sair, beijei meu recente namorado mais uma vez. Ele insistiu querendo-me levar em casa.  Eu disse que não era necessário. Tomei o elevador e desci.

Desejava andar pelas ruas de Copa, apenas a camisa curta prestes a revelar minha nudez, ou lhe deixara o biquíni como um mimo? Nada disso, o ardil tinha outra intenção. Que ele me procurasse na manhã seguinte.

domingo, fevereiro 22, 2015

Ele adora me ver sem sutiã

Ele adora me ver sem sutiã. Apenas a calcinha, e bem pequena, entrando toda no bumbum. Mas um dia desses aconteceu um problema. Não digo que seja ele o culpado, eu também andava gostando da brincadeira. Nossa cidade não é grande, mais cedo ou mais tarde todos acabam se conhecendo. Há pessoas de famílias tradicionais, que vivem aqui desde uma época que já se perdeu no tempo; há outras que vieram há duas ou três décadas para trabalhar na industrialização que começava. Minha família é desta época. Há também empregados que ficam na cidade apenas nos dias de semana, sexta à noite voltam para os seus lugares de origem. Isso tudo para contar o que me aconteceu de anormal, vejam só. Meu namorado, com tais gostos extravagantes, passou a pedir que eu saísse sem sutiã. No princípio, não aceitei; depois, fiquei na dúvida. Até que, num dia desses, resolvi arriscar. Para muitas mulheres, andar por aí sem sutiã é a coisa mais normal do mundo. Para mim não foi tão fácil. Na primeira vez me senti nua, e olha que costumo ir à praia com um biquíni mínimo. O dia em que saí apenas com uma blusinha de verão por cima da pele foi para ir a um restaurante. E meu namorado me prometeu que seria à meia luz. Promessa cumprida. Fiquei achando, porém, que todos estava olhando para mim e descobrindo meus seios. Na vez seguinte, fui sem sutiã a uma discoteca. Estava uma loucura. Nem houve tempo para eu pensar que os homens me adivinhavam nua. Mas um dia na praia, quando ficamos num bar bebendo e comendo uma besteirinha, reparei um homem que me olhava com insistência. Ele estava em outra mesa. Apesar de eu ter estado de top durante o tempo em que fiquei na praia, ao irmos ao bar meu namorado pediu que eu fosse ao carro e que voltasse apenas de camiseta. Dois dias depois dei com o mesmo homem na condução, enquanto eu ia para o trabalho. Achei que fosse coincidência. Três dias depois, quando voltava a um dos restaurantes com o namorado, o homem estava lá de novo. Concluí que estava me seguindo. Comecei então a ficar preocupada, mas nada falei ao meu namorado. Na semana seguinte fomos à praia, era de tardinha. O tempo estava fresco. Logo ao entrar na água, meu namorado começou a me abraçar, a me beijar, a passar as mãos por todo o meu corpo. Não demorou a pedir que eu tirasse o top. Pode aparecer alguém, alertei. Não aparece não, falou, a praia está quase vazia. Fiz a vontade dele. Ele pegou meu top e levou lá para a areia, onde estavam as nossas coisas, como a cadeira de praia, minha bolsa e uma toalha. Fiquei com os peitos nus, debaixo d’água. Meu namorado, ao menos naquele momento, teve razão. Ninguém à vista. Três dias depois fui à praia sozinha. Fazia um calor intenso. O namorado disse que, caso resolvesse o problema de uma construção sobre a qual era o responsável, viria à orla mais tarde encontrar comigo. Para minha surpresa, logo que mergulhei, após ter permanecido meia hora sob o sol, dei de cara com o tal homem que me seguia. Aproximou-se e perguntou como eu estava passando. Nada respondi. Tentei me afastar. Ele falou outro dia vi que você tomava banho sem o top, seu namorado gosta da brincadeira, não é mesmo? Fiquei desconcertada. Mas mantive a pose enquanto voltava à areia. O homem não me abandonou, Afastou-se, porém permaneceu nas proximidades. Reparei que continuava de olho em mim. Naquele dia, meu namorado não apareceu. Às duas horas, voltei para casa. Andamos por bares e restaurantes, festas e algumas boates, eu sempre sem sutiã e usando roupas de acordo com o desejo do meu namorado. O homem que me seguia desapareceu durante alguns dias, mas não desistiu. Confesso que comecei a gostar de estar sendo admirada por dois homens, muito másculos por sinal. Três semanas depois voltei sozinha à praia. O homem, quase como um fantasma, apareceu ao meu lado, na areia. Oi, gata, quanto tempo, que saudade, ele disse. Tive de rir. O que ele encarou como sinal de vitória. Conversamos um pouco. Entramos na água. e acabei nos braços dele. A cidade não é grande, sussurrei, logo aparece uma conhecida. Deixa comigo, ele retrucou. Ficamos abraçados, bem longe da areia, eu de costa para aquele pequeno mundo. Dali fomos direto a um motel, numa cidade vizinha. Cheguei em casa quase à noite, ainda vestindo o biquíni. Ou sem ele!, o homem me deixou louca. Passei a namorar os dois, mas morta de medo de ser descoberta. O segundo, que eu chamo de namorado fugidio, sempre me tranquiliza. Deixa que eu resolvo, afirma com toda a segurança do mundo. E resolve mesmo: exige muito mais de mim do que andar sem sutiã.