quarta-feira, outubro 26, 2011

Mas você não acha que estou até mais bonita?

“Carol, você é louca, deixou que o homem te fotografasse nua e nem ligou para o destino das fotos. Se ele faz chantagem contigo?”

A voz de Ana ecoava na minha cabeça. Na verdade, jamais pensara nisso, e ele não foi o primeiro a me fotografar nua. É preciso dizer que não sou modelo fotográfico, posei só de brincadeirinha.

Quando fiz fotos pela primeira vez nua, ainda não havia a internet. Cheguei a dizer tempos depois a um ex-namorado que também me perguntou se teria coragem de ficar sem roupa para algumas fotos: “já fui fotografada nua e nem sei onde andam as fotos, acho que com o rapaz que me clicou.” Ele retrucou: “você não tem medo do que ele possa fazer com essas fotos?” De pronto, respondi: “nem penso nisso.”

Mas Ana me deixou preocupada. Agora existe essa bendita rede. Está certo que é imensa, que nela há de tudo, logo não será fácil alguém me encontrar pelada num site. Mas se procurar com empenho, acabará achando.

Fui para o computador enlouquecida. Coloquei meu nome por inteiro, pela metade, meus apelidos, todos os nomes falsos que costumo dizer aos namorados. Nada, nadinha de eu pelada. Ainda bem. Já pensou se apareço num desses sites visitados milhares de vezes ao dia por pessoas do mundo inteiro? Vou ficar roxa. E no meu trabalho, o que vou dizer? Será que me mandam embora?

Falei a mim mesma: calma, Carol, você sempre teve sorte, nunca pensou nesses problemas, vai começar a viver essa paranoia? Ana é cheia de medo, vai à terapia, anda escondida para não ser assaltada, não usa roupa curta nem tem namorado, você, cheia de homens te seguindo, se quiser escolhe a dedo, vai ficar ruminando isso agora?

Ainda bem, só me preocupei durante um diazinho. Voltei a ser eu mesma. Ando pelada, vou à praia pelada, permito que o namorado desate os lacinhos do meu biquíni no banho de mar. E tem mais, deseja saber? Se ele quiser fico peladinha pra mais algumas fotos. Qualquer problema, eu nego. “Não, essa não sou eu, existe programa de computador pra tudo, foi alguém que criou as fotos. Mas você não acha que estou até mais bonita?"

Vou tirar um sarro.

quarta-feira, outubro 19, 2011

Tínhamos toda a tarde do mundo

Andava numa rua do Centro. Hora do almoço. Passei por um homem de ar jovial, embora aparentasse meia idade. Lancei-lhe um olhar furtivo. Seus olhos, porém, surpreenderam os meus. Continuei em frente sem apressar os passos. Será que ele me seguiria? Uma mulher não deve manter o olhar frontal, sobretudo dirigido a homens, significa convite. Depois de cruzar uma das transversais, assaltou-me a tentação de olhar para trás, queria saber se estava sendo seguida. Mas resisti, mantive a pose e a direção.

Mais adiante cruzei uma travessa onde há uma cafeteria. Cheguei junto à garçonete e pedi um expresso. Ao me voltar para sentar em uma das mesinhas, dei-me com ele. Não mexi os olhos, ficaram voltados à direita, paralisados, tentativa vã de disfarce.

Pedi um pastel de forno quando a garçonete atravessou o pequeno espaço entre as três mesas que dividem a pequena loja. Abri a bolsa e fiz de conta que ia pegar um livro. Na verdade, segurei o livro nas mãos. Não havia outro remédio. A capa vermelha, lustrosa; comecei a folheá-lo. Mantinha-me absorta, escondida em suas páginas. Voltou a moça com o salgado. Repousei o livro sobre a mesa e comecei a comer. Ainda havia meia xícara de café.

Não mais vi o homem. Seria o mesmo a quem eu olhara na rua, ou me enganava? Que pena, não o queria, mas era bom saber-me desejada, seguida, enfim, valorizada, mesmo em apuros. Comia voltada para a vitrine da loja em frente, loja de roupas masculinas. Bonitas as roupas. Enquanto observava o nome da loja, um homem entrou na cafeteria. Ele. Dessa vez acertei. Abaixei os olhos, rápida, mas ele surpreendeu o meu gesto sutil nos últimos instantes. Flagrada nua no inesperado entreabrir de uma porta. Não consegui evitar um meio sorriso. Não sei dizer se de gosto ou de pudor. A situação prolongou minha face febril. O homem tinha uma bonita pasta marrom, dessas de couro, devia ser cara a pasta.

A garçonete veio atendê-lo.

Como eu escaparia? Fácil, bastaria levantar e sair dali a passos rápidos. Mas meu desejo pesava duzentos quilos. Calma, Lúcia, coma com vagar o pastel, tome os últimos goles do café. Fixei-me mais uma vez numa página do livro. De que se trata mesmo esse livro? Acho que é de filosofia. Será que ele deseja saber o que leio? Será que me quer nua perenemente? Minha mão direita tremeu quando levei a xícara aos lábios pela última vez. Novamente trocamos olhares; o meu, porém, mais uma vez involuntário. Era bonito o homem, cabelo preto, peito estufado, camisa branca, devia ter a pele macia. Será que falará alguma coisa, um palpite sobre o tempo, sobre o sabor do café? Ou sua voz se perderá no anonimato das ruas apinhadas do Centro.

“Moça, moça!”

Para onde olho? Onde enfio a cabeça?

“Moça, no chão!”, apontava, não pôde completar porque levara à boca um pedaço enorme de pastel.

Abaixei os olhos. Ah, o marcador do meu livro. “Obrigada.”

Sorrimos. Estava aberta a porta. E fui eu que provocara. Na verdade, deixei a porta escancarada. Agora, era com ele. Bastaria entrar. Nenhum obstáculo. Tínhamos toda a cidade pela frente, tínhamos toda a tarde do mundo...

terça-feira, outubro 11, 2011

Lancei-lhe um beijinho

Tudo começou quando atravessava a W 3 Norte numa terça de manhã. Trabalhava e resolvera sair para fumar. Lembrei que, do outro lado, há uma banca de jornal. Havia alguns dias desejava olhar uma revista de moda. Assim que pisei no passeio após terminar a travessia, um homem de dentro de um automóvel olhou para mim. Correspondi-lhe sorrateira. Qual não foi minha surpresa encontrá-lo minutos depois, na mesma banca de jornal, bem ao meu lado.

“Oi”, cumprimentou-me e sorriu.

“Oi”, respondi e continuei a olhar minha revista. Dei um trago no cigarro, tentava manter a tranquilidade.

“Lembra de mim?”, perguntou.

“Claro, lembro, sim”, falei sem lhe voltar os olhos.

“Não sei se posso deixar o carro ali, próximo à esquina, não tenho muito tempo”, acrescentou.

“Nem eu, deixei o trabalho para fumar e estou aqui já faz um tempinho.”

“Você trabalha por aqui?”

“Sim.”

“Onde?”

Apontei o TRT, adiante, no outro lado da rua. “E você?”, perguntei

“Não sou daqui, vou ficar mais dois ou três dias”, respondeu e hesitou se iria até o carro ou esperaria. “Na minha cidade, quando uma mulher corresponde ao olhar de um homem, ela oferece o número do telefone.”

“Ah, é isso”, devolvi a revista e fiquei ao seu lado, “você quer o meu número...”

“Na verdade queria conversar um pouco com você.”

“Anota o meu número, me telefone depois das três que a gente marca alguma coisa, ok?”, sorri meiga – minha amiga Ana diria que sorri bem piranha.

“Não quer entrar um pouco para conversarmos”, destravou as portas e esperou minha reação.

“Não posso, tenho de trabalhar, telefone depois das três”, fiz uma expressão provocante e lhe lancei um beijinho.

Acho que foi o meu vestido que o atraiu; apesar do tecido grosso, deixava os braços de fora e os seios salientes.

Às quatro e trinta ele já havia telefonado duas vezes. Eram seis horas quando deixei o prédio para, no ponto seguinte, entrar em seu carro.

"Vamos ao Lago Sul", sugeri, "ensino o caminho, é preciso entrar na terceira ponte."

Seu carro era novo e veloz, mas dirigia com muito cuidado.

"Sua cidade é muito agradável", suspirou quando já percorrêramos mais da metade do caminho.

"Não vou ficar nua pra você com tanta facilidade", falei e insinuei uma gargalhada.

Ele também riu.

"Aqui em Brasília, as mulheres reparam muito os homens", falou e deu uma piscadela enquanto voltava a cabeça para frente, em atenção ao trânsito.

"Você acha isso mesmo?"

"Tenho certeza", falou, "desde ontem mais de cinco mulheres sorriram para mim, e não é porque tenho cara de cômico."

"Quem sabe?", falei e continuei com a fisionomia irônica.

"É sério, as mulheres olham para os homens onde quer que se ande em Brasília."

"Só em Brasília?"

"No Rio não é tão fácil, principalmente na zona sul. Ali as mulheres gostam de se fazer de difícil."

"Ah, sempre o Rio. O Rio não é Brasil", afirmei.

"Como?"

"O Rio é outro país, não se parece com nada do que conhecemos, está mais próximo de Nova York do que de qualquer outra cidade brasileira. Entre aqui, isso, agora mantenha à direita, já estamos quase chegando."

Uma quadra depois entrávamos no centro gastronômico do Lago Sul, um lugar caro, porém bonito.

"Você gosta de que tipo de comida?", perguntou.

"Para falar a verdade, nem estou com fome, mas bebo alguma coisa."

"Ótima ideia, vamos beber,"

Fez a volta e estacionou.

Para uma terça-feira, até que o movimento era bom. Anoitecia e se podiam ver alguns prédios stuados do outro lado do lago. Aquela paisagem sempre me provocou alguma emoção. Brasília não tem o mar, mas dali é possível avistar, vez ou outra, alguns barcos, além disso, há o ancoradouro.

Ficamos em uma mesa externa, um toldo nos cobria, mas era possível ver as árvores que cercavam o restaurante.

"Em que você trabalha?", perguntei.

"Em que se pode trabalhar estando três dias em Brasília?"

"Você é uma espécie de lobista", falei.

"Um lobista num automóvel alugado?"

"De que eles andam?"

"Direto para o aeroporto, carros com motoristas."

"Você é um ilustre deputado desconhecido."

"Nem tanto, sou juiz, se é que você vai acreditar."

"Juiz?, de verdade?"

"Em carne e osso, TRF, de Sampa, vim resolver um problema de gabinete."

"De gabinete?"

"Isso, não posso me estender, é sigiloso."

"Então teremos que andar dentro da lei?", olhei e fiz-me de desentendida.

"Isso, na mais absoluta lei", completou.

"Juízes paqueram?"

"Por que não? Como você veio parar aqui?"

"Trabalho na justiça também, só que na do trabalho, você deve conhecer meu chefe."

"Não o conheço e prefiro falar de outro assunto."

"O que você acha do governo?" Eu quis saber sua opinião.

"Como qualquer outro, não há diferença, até as crises são as mesmas.

"Caso tenhamos que seguir estritamente a lei, você não invadirá a privacidade de uma mulher."

"Lógico que não."

"Então para que me chamou para sair?"

"Gostei de você, é muito bonita e parece inteligente."

"As mulheres que você conhece não são inteligentes?"

"Algumas sim, outras não, meio a meio."

"Aqui em Brasília, não posso falar por todas, mas a maioria é muito inteligente, até a minha secretária, aquela que fica em casa cozinhando, arrumando, lavando e passando, ela é muito inteligente."

"Ela leu Dostoiévski?"

"Ah, você e todos os homens, acaso ler Dostoiévski é sinônimo de inteligência?"

"O que seria então, para você?"

"Alguma coisa sobre física nuclear, ou a química dos corpos em decomposição, não sei..."

"Sua empregada sabe alguma coisa sobre isso?"

"Empregada não, secretária."

"Isso, secretária, ela sabe?"

"Não, mas não sustenta o marido e discute letras de música."

O garçom já nos esperava fazia tempo. Olhamos os cardápios e pedimos as bebidas.

Uma moça levantou-se e saiu seguida do namorado, acabavam de deixar o local, ela o beijou na boca, um beijo rápido, seu rosto demonstrava toda a felicidade do mundo, afastaram-se abraçados um ao outro; ela, sensualíssima, ia dentro de um vestido azul justo e muito curto.

"Tenho um vestido assim", falei ao meu acompanhante.

"Você não se sente mal usando uma roupa desse tipo?"

"Depende para onde se vá, é roupa para noite, então a gente se sente bem. Mas, por exemplo, para andar de dia nem pensar, vou me sentir nua."

"Caso você vá a São Paulo, pode escolher um presente, e, quem sabe, queira um vestido bem caro?"

"Jura?, adoro roupas caras, você vai ter uma despesa muito grande."

O garçom chegou com nossos coquetéis, todos muito bem preparados e coloridos. Sorvi um gole, adorei.
Ele pediu uma bebida que eu não conhecia, mas tinha algum composto que levava vodca russa. Durante alguns minutos ficamos em silêncio. Aproveitei para olhar em volta e observar o movimento. Numa mesa próxima duas mulheres e um homem bebiam chopes e contavam algum caso divertido. Uma das jovens tentava explicar algo que lhe acontecera, mas não consegui prestar atenção.

Outro garçom veio à nossa mesa e deixou um tipo de entrada, havia pães, pastas, frios e berinjela cortada bem fina. Meu recente enamorado pegou uma torrada e comeu com umas tirinhas da berinjela. Aproveitei para experimentar uma pasta.

A bebida me ajudou a pensar melhor sobre o dia e a noite que eu estava vivendo. Em situações normais, não se tem tanta sorte. Caso fosse verdade mesmo o que ele falava não é sempre que se namora um juiz, tanto mais alguém jovem como ele –, eu estaria ganhando um bilhete premiado. Tentava descobrir se deveria aproveitar tudo naquela mesma noite ou se haveria continuidade, mesmo se tivesse de viajar à sua cidade.

"Você é muito ocupado em São Paulo?", arrisquei.

"Todos nós, juízes, somos, o trabalho não termina e as pessoas ainda reclamam que a justiça é lenta."

"Portanto, é impossível visitar você em São Paulo."

"Impossível, não. Mas temos que marcar encontros à noite, e às vezes tarde."

"E onde posso ficar hospedada em São Paulo?"

"Na minha casa", falou como se fosse a dedução mais lógica do mundo.

"Que bom!", exclamei, "acho que tive muita sorte em conhecer você."

"Ah, não diga isso, sou uma pessoa comum, as pessoas costumam fantasiar muito, você está fazendo isso."

"Não, não é que não existam homens do seu nível para sair comigo", pigarreei proposital, "mas acho que foi ótimo conhecer você, e logo numa época em que não tenho outros compromissos."

"Você quer dizer, outros relacionamentos."

"Isso mesmo, adivinhou!"

"Você parece muito feliz."

"E realmente estou."

Comemos a entrada toda, e ainda pedimos um pequeno prato, filé de truta com molho à moda da casa, acho que tinha um tantinho de caramelo, nunca havia comido aquela refeição, mas estava uma delícia. Acho que o jantar contribuiu para nos relaxar ainda mais.

"O que você vai fazer depois de me deixar em casa?"

"Estou hospedado num daqueles hotéis altos, no setor hoteleiro norte, quer ir até lá ou quer que eu vá à sua casa?"

"Você iria mesmo à minha casa?", surpreendi-me com sua oferta.

"Por que não?"

"Olhe que não é grandes coisa, e nunca imaginei que um magistrado pudesse ir lá."

"Ah, esqueça isso, sou magistrado apenas quando estou no trabalho."

"Tem mais uma coisa", disse envergonhada, "você não vai me levar presa se eu fizer uma transgressãozinha?"

"Depende, caso haja algum atenuante, posso pensar."

"Ah, atenuante é o que não vai faltar!"

Beijei-lhe o rosto pela primeira vez. Horas depois, dias depois e meses depois, beijei-o muito mais. E fizemos outras tantas coisas... Mas conto numa outra hora.

Quer vir buscar sua amiga?

Ai, não sei mais o que faço, sempre peladinha... Temo que isso um dia pode não acabar bem. Mas como sei que você me ama e atende a todos os meus pedidos, vamos a mais um. Vim de uma festa com um namoradinho novo. Insinuei que gosto de ficar nua. Foi o suficiente. Ele parou o carro e tirou toda a minha roupa. Depois me contou que tinha medo que o chamassem de tarado. Segredou-me que adora pedir às mulheres com quem se relaciona para saírem nuas do carro. Primeiro perguntou se eu achava sua atitude normal. Falei que não via nada de mais no seu desejo. Depois perguntou-me, muito gentil, se eu podia concretizá-lo. Prontamente, respondi. Ele destravou as portas e lá fui eu nua para a calçada. E sabe onde? Na Lagoa. Eram três e meia da manhã. Sorte minha? A princípio, sim, porque não passava ninguém. De brincadeira, dei um adeusinho a ele. Não é que o homem arrancou com o carro e me deixou ali, ou melhor, aqui. Ainda o espero... Logo que desapareceu, senti um friozinho na barriga. Mas me controlei, eles sempre voltam, pensei, este também há de retornar. Mas... Mas... (agora o mais importante para você, que sempre foi meu amigo)... ele ainda não deu as caras. Acho que quer procurar logo mais as notícias e saber de uma mulher nua, o que aconteceu a ela etc. etc. Há namorados que completam seu prazer assim. São quatro e trinta e dois neste momento, daqui a pouco o sol, bonitinho, como gosto. Mas eu, sem nenhuma roupinha. Ah, ele me deixou sair com a bolsa, sorte minha, não?, por isso envio a você a mensagem. Quer vir buscar uma amiga em apuros? Você também vai morrer de tesão, sua amiga está tão saradinha. Espero naquela curva de quem vem de Copa, no parque, há uma árvore grande, basta piscar os faróis que corro pra você. Caso você falte, sua peladinha vai a outro. E sei que você é quentinho por mim. Venha logo, tá? Não acredita? Pergunta como posso escrever tão bonitinho em meio a uma situação desfavorável? Sou escritora, você sabe, e perfeccionista. Nua na avenida, prestes a ser surpreendida, mas sem perder a elegância. Não demore!
Beijinhos,
sua M.C.

quinta-feira, outubro 06, 2011

Você vai adorar!

Estava na calçada, aguardava o táxi. Reparei uma moça com uma túnica frente única, parecia na verdade um microvestido. Mas dava para perceber que ela vestia short por baixo. Respirei aliviada. Já imaginou alguém de roupa tão curta sem o shortinho? Lembrei que eu já saíra com um vestido daquele comprimento. Tive uma vontade louca de estar naquela blusa, todos os homens a me olharem, a procurarem minhas pernas nuas.

O táxi parou. Entrei. O motorista, sempre discreto, já conhece meus trajetos. Jandira me havia ligado fazia trinta minutos e comunicado sobre o cliente que eu deveria atender naquela tarde.

Após rodar por toda a Presidente Vargas, o automóvel contornou a Candelária e parou no sinal com a Primeiro de Março. Alguns minutos a mais atravessamos o trecho da perimetral sobre a Praça 15. Dois ou três minutos depois eu desembarcava na Marechal Câmara, em frente ao hotel onde costumo atender a maioria dos meus clientes.

“Ei, moça”, um homem me surpreendeu quando quase já atingia a porta do hotel. Parei, automática. Mas não era quem estava agendado. Este me esperava na suíte 410.

“Ei, moça, você combina encontros pela Jandi, não?”

“Sim, mas você precisa ligar para ela, não fale comigo agora, por favor”, deixei o homem para trás e atravessei a porta.

Na suíte encontrei o cliente, como de costume.

Duas horas depois, tendo cumprido meu papel com esmero, saí do hotel, sozinha. O cliente descera um quarto de hora antes. Na calçada, porém, o mesmo homem que me abordara na chegada.

“Moça, por favor, qual o seu preço?"

“Já falei, os encontros precisam ser agendados através da Jandi, não falo sobre preços."

“Você tem um expediente, não? Que tal sair comigo por fora, pago o que eles pedem e você fica com as duas partes.”

A proposta era vantajosa, mas perigosa quando se trata de alguém desconhecido.

“Prefiro que você ligue para a Jandira, tenho o número, basta dizer que deseja ser meu cliente, ela marca pra daqui a pouquinho. Não diga que estou a seu lado.”

“Não quero nada com sua agenciadora, mas direto com você.”

Eram quartro da tarde, muitas pessoas transitavam pelo passeio, nós atrapalhávamos o caminho. Ameacei deixar o homem falando sozinho. Ao dar dois passos, ele me seguiu, fez um gesto de que ia me segurar pelo braço. Mas recuou.

“Quanto sua agenciadora pede? Quatrocentos, quinhentos?”

“Seiscentos.”

“Pago setecentos mais cem para o seu transporte de volta.”

Sua oferta me fez pensar. Setecentos não era coisa à toa. Rapidamente, falei – porque sabia que se demorasse desistiria: “temos de ir primeiro a um caixa eletrônico, você deve fazer o depósito na minha conta.”

“Ok, qual é o seu banco?”

Caminhamos até o caixa mais próximo. Havia poucas pessoas na fila, logo se deu a transferência de valores.

“Agora vamos”, me segurou por um dos braços. Entramos num táxi.

O homem fez o taxista atravessar a ponte em direção a Niterói.

“Por que tão longe?”, sussurrei, “não posso ficar com você por mais de duas horas, vão procurar por mim.”

“Ficamos o tempo que seus clientes costumam usar, não há problema.”

Descemos do táxi dentro de um motel, numa das praias de fora.

Estou acostumada a diversos tipos de homem, mas naquele momento tremi um pouco. Como através da agência nunca tive problemas, comecei a achar que agindo sozinha poderia ficar em maus lençóis, literalmente.

Logo que entramos na suíte, falou:

“Tire a roupa.”

“Mas assim, sem fantasia?”, suspirei sem graça.

“Claro que haverá fantasia.”

Tirou da pasta uma túnica exatamente igual à da moça que eu vira enquanto esperava o táxi.

“Vista”, ordenou, “mas sem nada por baixo”, viu?

Vesti a blusa.

“Suba na sua sandália alta e ande como se estivesse desfilando, você tem de fazer de tudo para que eu não note que você está sem calcinha.”

“Acho que vai ser impossível, sou muito alta e a sandália ainda me deixa maior, mas já que é a sua vontade...”

Me coloquei na posição e comecei o desfile. Reparei que ele recolheu minhas roupas, mas fingi nada ter visto. Andei de um lado a outro, passos de modelo, sorria sempre que passava por ele. Acabei gostando da brincadeira.

“Sabe a moça da propaganda, a que fica de calcinha e sutiã ao fazer um pedido ao marido? Sou eu”, sorri e dei mais uma voltinha.

“Acredito, mas acho que você não vai passar no teste”, sentenciou.

“Por quê?”, fiz que ia chorar, enquanto parava e inclinava o corpo para frente, na direção dele.

“Estou vendo cinema de graça.”

“De graça? Pois está saindo tão caro!", sorri e o beijei.

Dali para frente, fizemos amor. Foi tudo de bom. Tanto para mim quanto para ele. Havia muito não gozava com um cliente.

No final, pediu: “volta para casa apenas com a túnica que dei a você?”

“Curtinha, assim? Vou dar cineminha pra todo mundo.”

“Levo você de táxi.”

“Como vou saltar?”

“No seu prédio não há uma entrada de automóvel?”

“Há, sim, entro por ela quando faço compras.”

“Então? Pago mais cinqüenta.”

“Mas você devolve minha roupa? Eu a levo na bolsa.”

“Claro, por que iria querer seu vestidinho?”

“Sei lá, às vezes aparece cada um...”

“Posso fazer uma pergunta indiscreta? É mais uma fantasia”, sua voz soou baixa, humilde.

“Claro, pois faça.”

“Você já foi presa alguma vez?”

“Presa? Pela polícia?”

“Isso.”

“Não”, falei com ar de preocupação. Será que ele era da polícia e iria me prender? Para voltar ao clima anterior, acrescentei: “mas já houve um cliente que me deixou pelada na rua, de madrugada.”

“Como você fez?”

“Aí você já está querendo saber demais”, simpática, aproximei meu rosto ao seu.

“O que custa você contar?”

“Morro de vergonha. Mas vamos fazer o seguinte, você me dá o seu endereço eletrônico que eu mando por escrito.”

“Jura?”

“Juro, e eu tenho um estilo para escrever... Você vai adorar!”

quinta-feira, setembro 29, 2011

Schopenhauer

“Venha cá, me abrace”, me pegou pelo braço e me beijou na boca.

“Não deixe o meu vestido cair no chão, por favor.”

Meu namorado, num salto ligeiro, conseguiu desligar a lâmpada do corredor.

Tive vontade de correr para casa. Mas a situação começou a me excitar. Afrouxei o corpo. Ele arrancou minha calcinha e me virou de costas, a posição que mais gosto. Fiquei toda molhadinha. Curvei-me num ângulo de mais ou menos 45 graus e abri as pernas. Ele veio por trás, mas sabia que era para meter na frente. Começamos a nos mover lentamente; pouco a pouco, porém, éramos dois alucinados. Todo o ardor não parou quando ele explodiu dentro de mim. Virei de frente, encostei à parede e pedi que me chupasse. Ele agachou e completou o serviço.

“Você é maluco, quero ver se chega alguém.”

“Você deve estar doidinha pra que isso aconteça.”

Difícil escrever sobre tal situação, porque me cheira a vulgaridade. Mas vamos adiante.

Naquela noite eu estava estudando Schopenhauer; se entendi bem, ele diz que o mundo tem vontade própria e essa vontade arrasta todas as coisas consigo; logo, predomina na natureza, incluindo aí a natureza humana, o irracionalismo. A arte seria um meio de espelhar essa característica e de permitir ao ser humano a reflexão sobre isso.

Lia e fazia essas conjecturas em meu quarto quando me bateu à porta meu namorado. Eram nove da noite. Me convidou para sair, dar uma volta, tomar um suco, conversar etc.

Como já estava trancada com os livros havia pelo menos cinco horas, achei que nada seria mais justo. Fazia calor. Tirei a bermuda e a camiseta que costumo usar em casa e coloquei um vestido simples, desses que vão até abaixo dos joelhos, de tecido leve (nunca sei nome dos tecidos, mas não esqueço o título dos livros que leio). Descemos para a rua.

Na lanchonete, pedi um suco de amora e ele, um copo de assai.

“Não vamos ao cinema faz tempo, você com essa mania de estudar...”

“Fomos faz duas semanas”, respondi.

“Só duas?”

“Isso, duas.”

“Pensei que fossem mais”, retrucou.

“Vimos aquela adaptação da obra de Oscar Wilde, por sinal um filme fraco.”

“Você preferiu o Para sempre Lilian.”

“Vimos em DVD, mas isso já faz tempo”, falei.

“Uma produção russa e sueca, acho; a Lilia era irracional, não pensou as consequências.”

“Não vamos discutir sobre racionalismo ou irracionalismo agora...”

“Você sempre diz que o mundo é irracional. Sabia que Freud era Schopenhauriano? O inconsciente é irracional, e coisa e tal. Viu, até rimou.”

“Nada mais óbvio do que Freud seguir Schopenhauer, embora ele não goste de falar sobre isso. Mas vamos conversar sobre outra coisa”, pedi.

“Vamos namorar, o que temos feito pouco.”

Ele, então, atravessando a mesa com a cabeça, me beijou por cima do copo de açaí e do suco de amora. Um beijo longo, boca a boca.

Tomamos nossos sucos em silêncio; ele, mais demorado do que eu. Depois que acabamos, caminhamos um pouco e entramos na locadora.

“Que tal um filme francês?”, perguntou.

“Você diz que os filmes franceses são lentos. Mudou de ideia agora?

“Tem um aqui, acho que esse você já ouviu falar”, apontou.

O filme chamava-se Caché, de Michael Haneke; em francês significa escondido.

Fomos para minha casa e assistimos ao filme no meu quarto.

O enredo focalizava, em primeiro plano, um intelectual apresentador de debates semanais pela TV. Ele sempre entrevistava escritores ou pessoas do mundo cultural. Mas este mesmo homem recebe quase todos os dias, e de forma anônima, uma gravação em VHS da parte externa de sua casa. Por mais que se esforce, não consegue descobrir o autor das filmagens. Ele passa a perseguir tenazmente o misterioso cineasta, mas jamais consegue encontrá-lo. Ao mesmo tempo, nunca descobre onde está a câmara que o está filmando. E quando acha que tem um suspeito, este se mata na sua frente. Mesmo assim as filmagens e as fitas enviadas a ele pelo correio não cessam. O interessante é que, através de seu programa de TV, ele pode entrar na casa dos outros, mas não admite a mesma exposição quando o fato acontece consigo.

Eu e meu namorado discutimos o filme até a uma da manhã. Assim que desligamos o aparelho, fui à sala e peguei uma garrafa de vinho das que meu pai deixa numa espécie de adega climatizada.

Meu namorado achou o filme bom, mas reclamou que o mistério não se resolve.

Falei a ele sobre a questão da imigração. “Você não viu que o homem visto como suspeito era de origem árabe?”

Ele concordou, mas disse que se tratava de um problema difícil de resolver.

“É um problema também escondido, como o nome do filme, os governantes e os nacionais não sabem o que fazer com toda essa população de imigrantes.”

“Você não está estudando uma filosofia irracionalista? Talvez os homens sejam irracionais”, falou.

“Uma coisa é a filosofia; outra, os países e suas políticas.”

“É melhor deixarmos isso de lado, vamos também aos nossos irracionalismos”, abraçou-me e começou a tentar tirar minha roupa.

“Hoje não, vamos deixar para amanhã.”

Ele se mostrou um tanto insatisfeito. Levantou-se para ir embora.

“Você não respeita o desejo das pessoas”, beijou-me mais uma vez.

“Qual o seu desejo?”

“Preciso dizer?”

“Mas assim?”, continuei, “é preciso criar um clima.”

“Então, vou criar, vamos até lá fora.”

Aceitei. Saímos do apartamento e ficamos perto do elevador.

“Vou fazer você viver uma experiência nova e ousada.”

“Estou curiosa”, disse a ele.

“Feche os olhos e levante os braços.”

“Você vai me assaltar?”

“Claro que não.”

“Então, ta”, falei e fiquei na posição que pediu.

Num ímpeto que eu não esperava, ele arrancou o meu vestido. Fiquei de calcinha.

“Você ficou louco, pode aparecer alguém, me dê isso aqui”, saltava tentando reaver minha roupa.

“Calma, você vai gostar, hoje estou irracional, como seu filósofo, como o filme que vimos.”

“Me dê aqui, por favor”, me esforçava para alcançar o vestido enquanto ele o escondia atrás do corpo.

“Venha cá, me abrace”, falou. Me pegou pelo braço e me beijou na boca.

“Não deixe o meu vestido cair no chão, por favor.”

Ele, num salto ligeiro, conseguiu desligar a lâmpada do corredor.

Tive vontade de correr para casa. Mas a situação começou a me excitar. Afrouxei o corpo. Ele arrancou minha calcinha e me virou de costas, a posição que mais gosto. Fiquei toda molhadinha. Curvei-me num ângulo de mais ou menos 45 graus e abri as pernas. Ele veio por trás, mas sabia que era para meter na frente. Começamos a nos mover lentamente; pouco a pouco, porém, éramos dois alucinados. Todo o ardor não parou quando ele explodiu dentro de mim. Virei de frente, encostei à parede e pedi que me chupasse. Ele agachou e completou o serviço.

“Você é maluco, quero ver se chega alguém.”

“Você deve estar doidinha pra que isso aconteça.”

Pela primeira vez transei no corredor de um prédio, e logo no meu, não havia necessidade, pois tínhamos a minha casa e a dele para fazer isso. Mas confesso que gostei. Depois que gozei, permaneci agarrada a ele.

Mas aí aconteceu outra coisa inesperada. A porta do elevador se abriu de repente, um facho de luz foi lançado sobre mim e dali saiu dona Marg. E ela estava nua!

“A senhora foi assaltada?”, perguntei sem pensar.

De pronto, ela falou:

“Me empresta o teu vestido?”

Meu namorado, boquiaberto, entregou-lhe o vestido.

“Veja, ficou um pouquinho curto, mas cabe direitinho”, cobriu-se dos seios até as coxas, apenas na parte da frente do corpo. “Você já chegou pelada em casa alguma vez?”

“Não, nunca”, pronunciei as duas palavras assustadíssima.

“Então vai chegar hoje, e depois disso não vai querer outra vida; esse seu namoradinho será sempre apaixonado por você”, seguiu em frente e abriu a porta. Antes de fechar, completou: “boa noite, amanhã devolvo o vestido.”

sexta-feira, setembro 23, 2011

Óculos

"Basta que você não tire meus óculos. A posição é confortável: sentada neste estofado macio, com as pernas cruzadas. Caso, porém, me faltem as lentes escuras, vou morrer de vergonha, sou capaz de correr à procura de minhas roupas, enrolo-me até à cabeça no primeiro lençol", falava eu no vasto salão aonde havia me levado, seu apartamento, segundo ele.

"Você conversa com a Ana?", ele quis saber.

"A secretária do presidente?"

"Ela."

"Só para cumprimentar, como manda a boa educação. Não me diga que ela já esteve aqui?"

"Não, não", percebi seu embaraço. "Nada disso, apenas queria salientar o tamanho dos saltos que ela usa.

Lembrei a Ana atravessando o salão. Os saltos sempre os maiores, e a saia curtinha, meias finas por baixo. Alguns dizem que sai sem calcinha com os namorados.

"Reparei um dia desses que ela olha demais pra você, acho muito difícil que vocês não tenham um caso. Vou perguntar a ela."

"Por favor, não faça isso, serei demitido."

"Brincadeirinha", acenei a ele para que viesse sentar ao meu lado. "Mas por que a Ana agora? Você não é nada hábil, viu?"

"Como, nada hábil?"

"Quantas mulheres você já teve?"

"Não sei o total, mas não foram tantas."

"Vou contar a você um segredinho básico: quando se está com uma mulher, não se deve falar de outra. Somos muito exclusivistas."

"Ah, sei disso."

"Não parece."

Ele levantou e foi buscar as taças de vinho, que repousavam sobre a mesa da antessala. Ofereceu uma a mim.

"Quer dizer que você não tira os óculos escuros?", tentava deixar as outras mulheres e a falta de habilidade para trás.

"Não, já falei, e nem tente; depois dessa conversa sobre a Ana, se você me despir dos óculos, adeus."

"Sinto muito sobre a Ana, não se fala mais nisso."

"Acho bom", ressaltei e sorri. "Até que você sabe escolher um bom vinho", saboreei a bebida.

"Que bom, pelo menos nisso eu tenho habilidade."

"Tenho que elogiar o que merece ser elogiado."

Ele apagou a luz da sala e acendeu um abajur comprido, de cúpula pequena. Nossos reflexos se espalharam com conforto sobre a parede em frente. Sentou-se ao meu lado e começou a tocar-me os seios.

Até quando vou sair com homens que se sentem o máximo mas não medem um centímetro? Pensei em correr dali, nua mesmo, e deixá-lo chupando dedo. Mas já que está, deixa ficar... Vou me divertindo enquanto isso. Quanto ao dia de amanhã, quem sabe, dependendo de quem seja o namorado, até deixo que me roube os óculos escuros...

quarta-feira, setembro 14, 2011

Os homens aqui não estão acostumados a isso

Eu estava deitada na grama, sobre uma imensa toalha. Tomava o sol suave de uma manhã de final de primavera. Ele se aproximou, o jardineiro, e se surpreendeu ao me encontrar nua. Será que jamais vira alguém bronzear-se em pele sobre o gramado de uma casa de campo? Desculpou-se e se foi, com a fisionomia séria, envergonhado. Minha nudez pareceu-lhe um ultraje. Meu amigo, ao longe, sorriu para mim, enquanto trabalhava numa tela, ao ar livre.

Sempre fui modelo para pintores, e não são poucos os que me convidam para ficar após o trabalho. Alguns até me pagam mais por isso, presentes é que não faltam.

Percebi que o jardineiro foi até o meu amigo e se desculpou.

“Não há problema algum”, respondeu, “é costume entre profissionais desse tipo permanecerem nuas.”

Sorri de longe e acenei.

“Se você quiser, pode conversar com ela, não vai ficar aborrecida, Marie gosta de fazer amigos.”

Mas o jardineiro se foi, com seus passos sempre conservadores.

“Essa gente não admite desinibição, nem entende o que é estar à vontade”, falei depois, enquanto ele se certificava se a tela saíra de acordo com o seu desejo.

“São pessoas que nasceram e viveram a vida toda aqui, não pensam como as parisienses.”

“Já imaginou, Michel, se ele me tivesse visto chegar com você, do jeito que chegamos ontem?”

“É, ainda bem que ele não permanece na casa à noite.”

“Na verdade, você não me quis apenas como modelo, não é mesmo?”

“Marie, você sabe o tanto que gosto de você.”

“Vamos fazer uma brincadeira ao anoitecer: fujo nua pelo povoado e você tem que me achar.”

“Prefiro que bebamos vinho numa mesa, junto ao jardim, é mais gostoso, comprei alguns queijos deliciosos.”

“Oh, amor, pensei que o seu queijo fosse eu, sua querida Marie.”

“Você é muito mais que isso, mas não desejo que alguns dos rapazes, desses que andam pelos sítios, surpreendam você nua.”

“Há rapazes por aqui?”

“Não se pode falar em homens que você levanta as antenas.”

“Nunca menti a você, Michel. Quando há quem me agrade, vou atrás imediatamente. E tem mais uma coisa: gosto de você, mas nosso compromisso é apenas comercial, sou uma de suas modelos.”

“Marie, caso você saia nua por esses caminhos, quem terá problemas serei eu.”

“Quem disse que sairei nua? Deixarei aos rapazes o fardo de tirar a minha roupa.”

“Rapazes?”

“Você foi quem falou que há mais de um.”

Virei-me, ainda nua e vi alguém vindo numa bicicleta. Acenei. O ciclista me retribuiu o cumprimento, mas não reparou a minha nudez, passou em alta velocidade. Michel riu.

“Vamos, amor, vista o agasalho, entremos um pouco”, pediu.

Depois de uma garrafa de vinho, namoramos. Michel me tomou nos braços, fez que eu cavalgasse sobre o seu pênis. Voltei-lhe as costas e pedi que me penetrasse a vagina, mas por trás, como os cães. Num outro momento, ele me levantou. Encostei-me à parede e, em vez de colocar os pés no chão, pousei-os sobre a parede em frente, com Michel entre as minhas pernas. Gozei aos gritos e com o maior prazer.

Enquanto descansávamos, comentei sobre minha estada num dos pontos do litoral do Rio de Janeiro, quando viajara no último verão à América do Sul.

Em Ilha Grande, conheci algumas moças que andavam quase nuas, mas quando tirei o top numa das praias elas logo pediram que eu o vestisse. Quis saber o motivo. Uma delas falou:

Os homens aqui não estão acostumados a isso, vão agarrar você.

Veja que engraçado. Naquele lugar, caso uma mulher ande nua é porque deseja ser agarrada.

Eu disse a ela:

Se eu quiser trepar com um dos homens daqui, eu mesma aviso.

Logo replicou:

Você pode avisar, ele vai gostar, mas não pode andar nua por aí, os homens não respeitam a mulher inteiramente nua.

Você não falou que trepou com um deles sobre um lençol, à beira mar, ontem à noite?

Trepei, mas isso é outra coisa ela respondeu.

Acho melhor ficar logo nua, em vez de usar shortinhos tão minúsculos e biquínis que não cobrem nada. Mas lá é diferente. Caso se use um biquininho, já se está vestida, e pronta para ser respeitada.

Lembro de uma festa que fui numa das noites, numa boate perto da praia. No final, arranjei um namorado e fui com ele me deitar na areia. Estava calor, como hoje aqui, deixei que tirasse toda a minha roupa. Depois a pediu de presente.

Uma lembrança, por favor falou.

Você vai se vestir de mulher? perguntei desconfiada.

Não, é que não quero esquecer a francesinha, quero sempre sentir o teu cheirinho.

Devolvi a ele:

Então cheire já, porque depois que gozo sou muito fedorenta.

O homem se pôs a rir. Mas no final da noite acabei atendendo o seu pedido.

Quando cheguei à pousada, outro escândalo:

Você voltou nua!

Ah, essa agora, não se pode satisfazer a vontade de um namorado nesta ilha? Como vocês chamam mesmo esse lugar? Oh, não precisa dizer, já lembrei: Ilha de Santa Cruz.

quarta-feira, setembro 07, 2011

Corpo e poesia

Foi por um triz, mas consegui. Apesar do susto, não tenho como negar, gostei muito, posso dizer que achei ótimo mesmo. Fazer o que não é permitido acaba proporcionando mais prazer.

Um colega havia falado: “a poesia é o único lugar onde a transgressão é totalmente possível. Rompe-se a sintaxe, muda-se o sentido das palavras e estará estabelecido o caos. Jamais será possível voltar à antiga ordem. O ponto máximo a que ainda se poderá chegar é tentar estabelecer uma nova ordem, que também não demorará a estar condenada ao abismo.” 

Pensei alto: “não vou tão longe, só queria praticar um outro tipo de transgressão.


“Qual?”, ele quis saber.

“Sair pelada por aí.”

Ele riu e continuou falando sobre o seu amor pela literatura. 

Depois que fui embora é que dei conta de minhas palavras. Ele poderia ter dito: “oh, que mente poluída você tem”; ou mesmo: “você é muito reprimida, pensa em se liberar, ato falho, hein?”

Eu teria enrubescido. Mas continuei pensando sobre meu desejo e minha possível transgressão. Ah, quem me dera, andar pelada por aí...

E surgiu a oportunidade. Saímos quatro mulheres, falei o que acontecera, elas riram. Depois de chopes e taças de vinho, alguém citou a Thaís: “ela cansa de sair pelada, e ninguém nunca percebeu.”

“Mas como?”, eu quis saber.

Elas me contaram.

“Ela mesma disse a vocês?”, perguntei.

“A umas, sim; a outras, não. Mas há homens que a ajudam.”

“Ajudam a Thaís, em quê?”.

“Deixando-a em determinado lugar, pegando-a em outro, fazendo a vontade dela.”

“A vontade de andar pelada?”.

“Isso. Há sempre quem ajude.”

“Como?”, eu insistia.

“Só perguntando a ela.”

Dias depois, procurei a Thaís.

“Quem disse isso a você?”, ela quis saber.

“Umas amigas.”

“Amigas tuas, não minhas. Minhas amigas não falam isso de mim.”

“Desculpe-me”, supliquei, “não quis ofender.”

“Mas falaram a verdade”, acabou por contar. “Sabe como é, coisa boa sempre se espalha. Você também vai gostar.”

“Mas não é perigoso?”, perguntei.

“Perigo sempre tem, mas sem ele a gente não ficaria arrepiada. Caso você não queira, bote o pijama e vá pra casa dormir.”

A conversa me ofendeu. Eu? De pijama? Tinha de experimentar o perigo.

“É lógico que você não vai tirar a roupa e sair pelada de primeira, numa rua. É preciso se acostumar, pouco a pouco. Você já preparou calda de pudim? Dá trabalho, não? Mas depois fica uma delícia.”

“Fica sim, adoro pudim”, falei.

“Então, primeiro prepare a calda, treine bastante. Faça assim: vá à praia durante a noite, mas vá de biquíni. Ande pela areia, depois pare num quiosque e beba um suco. Muitas mulheres não saem de biquíni à noite porque morrem de vergonha. Se você passar nesse teste, continue. Vá mais vezes. Mas tem de ser de noite, durante o dia não tem graça, qualquer uma consegue. Conte com alguns amigos. Eu disse amigos. Mulheres, a princípio, não servem. Os homens são discretos. Peça que um deles leve você. Vai gostar da sua ousadia. Vá de canga, mas só de canga, entendeu?, nada mais. Diga que vai dar uma molhadinha nos pés na beirinha d'água e que não quer ele junto de você. Quando lá chegar, solte a canga do corpo, dê uma entradinha. Depois, volte, acenda um cigarro caso você fume, e espere. Daí pra frente, você estará sempre a crescer em ousadia: roupas curtas, braços nus, pernas nuas etc. Em outro passeio, vá pelada ao lado dele. Os homens adoram. No princípio deixe a roupa por perto. Mas se você mora numa casa, vai acabar saindo nua. A sensação é ótima. Ele, sempre apaixonado por você. Mas quem anda muito nua, também gosta de sair nua sozinha.”

“Sozinha?”

“Temes a solidão?”, ela quis saber.

“Nunca pensei nisso, há sempre tanta gente à minha volta.”

“Mas não arrisque demais. Sozinha, mas com alguém de sobreavsiso, a pelo menos quinhentos metros. É bom estar prevenida.”

“Já ouviu falar na Mona?”

“Ah, a Mona, sempre falam nela.”

“E sobre o que ela fez, o que você acha?”

“Já fiquei também nua na praia e deixei meu biquíni nas mãos de um estranho. No começo, tudo dá certo. Não se pode é pegar muita confiança.”

“Ela confiou demais?”

“Não se preocupe, o que aconteceu com a Mona só acontece com veteranas. E ela não deixou de andar nua por causa daquilo”, completou Thaís.

Então, fui eu... Comi todo o pudim. Fiz a lição direitinho!

quarta-feira, agosto 31, 2011

A cartomante

Assim que entrei no elevador ele olhou para mim. Vinha de algum andar acima. Pareceu-me, a princípio, familiar, mas depois que a porta se fechou e a máquina se pôs em movimento deduzi que se tratava de uma paquera. O elevador descia moroso, os andares se anunciavam no visor. No quarto pavimento, parou mais uma vez. Entrou uma mulher alta, elegante, usava chapéu largo. O homem, porém, não a olhou em nenhum momento. Reparei, por trás das lentes escuras dos meus óculos, que continuava a me espreitar. Lembrei então da mulher dos búzios.

“Não demora, vai surgir alguém na sua vida.”

Frase costumeira nesse tipo de serviço. Sempre conhecemos alguém, todos os dias encontramos pessoas com quem travamos algum tipo de relacionamento.

“Ele vai admirar muito você, não digo amar, mas apreciar sua beleza, sua inteligência”, completou. As pequenas pedras permaneciam sobre a mesa forrada com uma toalha branca, meio desbotada em alguns pontos, uma xícara de chá jazia sobre o móvel de cozinha, era possível vê-la da sala exígua.

O elevador continuou sua descida, parou no segundo andar. O homem saiu e segurou a porta para mim. Instintivamente também saí.

“Mas não é a portaria”, disse surpresa.

“Ainda faltam dois, achei que você quisesse vir comigo”, disse acintosamente.

“Ir com você? Nem o conheço...”

“Você é linda. E deve ser também muito inteligente. Achei que estava à procura de alguém como eu”, sua vaidade era maior do que a altura física, e ele era alto o bastante. Na verdade, um negro bonito. Pensei em frações de segundo o que aconteceria se o seguisse. Depois, tremi.

“Não se preocupe, sou treinador de ginástica olímpica, tenho um cartão, já deve ter ouvido falar de mim, preparo atletas...”

O homem falava, eu permanecia em meio ao desamparo do corredor. O elevador já havia partido e eu ainda não premera o botão para que ele voltasse. Quando reparei que subia, não parou no andar, teria que esperar descer de novo.

“No amor, deve-se aproveitar as oportunidades”, a voz da mulher, uma espécie de cartomante, quiromante, jogadora de búzios misturada com mãe de santo. Quem a indicou foi a mãe de uma colega de escola de minha filha.

“Quais suas intenções?”, perguntei.

“Quais podem ser as intenções de alguém como eu, que a observa desde o momento em que a vi e não mais desgrudei os olhos?”

Ri, sem jeito. Enfim, decidi. Iria me atirar, um salto arriscado, mas quem sabe, assim como os atletas dele, eu ganharia pelo menos uma medalha.

“Como podemos fazer?”

“Basta que venha comigo”, o sorriso da vitória estampou em seu rosto.

Deu-me a frente, seguimos o longo corredor. Na penúltima porta, pediu que eu parasse. Enfiou a chave abaixo da maçaneta, abriu a porta e, de modo cortês, convidou-me a entrar.

“O seu apartamento tem apenas uma cama e nada mais, é sórdido”, falei e me voltei decidida a ir embora.

“É apenas para eu descansar, tenho também um baú onde guardo as minhas coisas, me serve de mesa ou de cadeira quando preciso, você pode sentar sobre ele enquanto faço um café.”

“Você tem um apartamento para descansar em um prédio comercial de Copacabana e chega nele às onze da manhã”, afirmei em tom inquisitorial.

“Eu poderia perguntar o que você faz em Copacabana, saindo de um prédio mal-afamado como esse, também às onze da manhã.”

“Vim a uma cartomante”, deixei escapar.

“E ela não lhe falou sobre mim?”, sorriu seguro de si tocando, carinhoso, os meus cabelos.

“De certa forma, sim.”

“E o que mais?”, parecia curioso.

“Disse que eu não o temesse.”

Decidi não ir embora. Ele fez um café maravilhoso. Depois nos deitamos, ainda vestidos.

Beijou-me e continuou acariciando meus cabelos. Eu permanecia de bruços. Vestia blusa de malha curta e calça jeans, trajes juvenis para uma mulher de quase 40 anos. Mas ele pareceu gostar.

“Quer descansar primeiro?, amor”, perguntou suave.

“Sim”, falei e fechei os olhos.

Acho que dormimos durante duas horas. Ao acordar, estava nua. Ele tirara toda a minha roupa sem que eu sentisse. Ninguém conseguira tal façanha em toda a minha vida amorosa. Meus seios apontavam para cima. Sussurrei em seu ouvido, quase inaudível:

“Você é meu homem”, e o beijei na boca.

quarta-feira, agosto 24, 2011

Adoro este meu namorado

Tenho uma amiga que adora transar ao ar livre ou em lugares inesperados, como no Horto, num ônibus de viagem, dentro d’água numa praia, ou no escurinho de uma boate depois de alguém lhe ter roubado a calcinha. Diz que o mais excitante, porém, é ir nua ao encontro do namorado, sair de casa de madrugada apenas de sapato e bolsa, o calçado pode ser botas compridas, dessas que sobem até os joelhos. Já passou cada situação! Algumas vezes quase perdeu a hora de voltar, o dia prestes a amanhecer; em outras, por pouco não foi surpreendida, imaginou-se presa, sem recursos e sem argumentos. Mas, nada disso. Apesar do friozinho na barriga, sempre gozou ainda mais forte.

Eu, porém, sou diferente. Adoro fazer amor, mas dentro de um quarto. Ou mesmo na extensão de um apartamento. Nada de alguém a me olhar. Já fiz uma extravaganciazinha, sim, satisfiz a fantasia de um namoradinho de ocasião. Saí nua de seu apartamento e bati para que ele abrisse e me recebesse peladinha. Uma vez, apenas. E senti intenso desconforto. Ele demorou a girar a maçaneta. Até pensei que poderia me pregar uma peça e me deixar trancada do lado de fora. Enfim, abriu e me recebeu nos seus braços quentes. Eu me esvaía em suor.

Por falar em suor, vamos ao principal. Como fico encharcada ao transar! Conto por partes.

Ao arranjar um namorado, tenho sempre o cuidado de levar a camisinha, porque por eles transamos em pele. Além de ser perigoso, ainda posso engravidar. Pena que com a camisinha não se possa ficar cavalgando durante muito tempo sobre o homem. Na maioria das vezes ela escorrega e escapa. Para que isso não aconteça, a relação sexual precisar ser rápida.

Mas com este que estou namorando tudo acontece de um modo como jamais experimentei. Ele me diz “pode confiar em mim, não vou gozar.” No começo, incrédula, não conseguia me soltar. Quantos homens nos dizem isso e não conseguem segurar, acabam despejando tudo dentro da gente... Com ele, no entanto, é muito diferente. “Se solta, Cris, pode ir adiante, não se preocupe.” Ligeira, salto sobre ele, minha vagina já úmida absorve seu pênis. Quase morro de tesão. Cavalgo sem parar, totalmente enlouquecida. Em algum momento, digo: “ai, não aguento, vou perder a cabeça.” Ele rebate: “perde a cabeça, perde, vou adorar." Em delírio, acrescento com uma ponta de temor: "amor, te segura, não vais perder a tua também." Contei outro dia seis orgasmos. Ao parar, sou uma poça de suor. É o momento de eu deitar, ele vestir a camisinha e vir sobre mim. Então, ele goza...

Estou adorando esse namorado. Nunca tive alguém assim. Não quero jamais perdê-lo. Em nenhum lugar vou encontrar outro homem a quem possa me entegar e gozar tantas vezes. E sem camisinha! Já pensou, ter um namorado que goze em segundos e me deixe a ver navios? Nem pensar.

Mas ir lá fora nua como a minha amiga, sair de casa pelada e trepar em lugares públicos... Não consigo me imaginar. Adoro o meu quarto. Adoro tanto mais esse meu namorado.

quarta-feira, agosto 17, 2011

Boa ideia, Martha

Tirei um casaco grosso e comprido de dentro do guarda-roupa e o vesti. “Que tal, Júlia?”

Ela olhou e sorriu:

“Vai à boate apenas com ele sobre o corpo?”

“Quem sabe?”, fiz uma ligeira pose.

“Já fizemos isso antes, lembra? Eles vão logo reparar, essa fantasia já está muito batida.”

“Brincadeirinha.”

Ela trouxera do quarto ao lado várias peças passadas pela empregada, que viera no dia anterior.

“Por que ela não pendurou junto com as outras roupas?”

“Sabe como são essas secretárias de hoje em dia, pensam que trabalham demais, e logo para uma mulher sozinha como eu”, falou e deixou sobre a cama um vestido que tinha botões na parte da frente, iam de cima a baixo.

“Você vai com ele?”, apontei enquanto recolocava o casaco no armário.

“Vou experimentar.”

“Não vamos à festa para arranjar namorado, não é mesmo, Júlia? Nossa intenção é apenas diversão, mas caso apareça alguém interessante...”

“... a gente não deixa passar”, sorriu enquanto, também nua, jogava o vestido sobre o corpo. “Lembra da Rita?”, acrescentou.

“Qual Rita?”

“Uma que mora na Gávea.”

“Ah, sei, uma maluquete.”

“Essa mesma, todos dizem isso a respeito dela, mas até que é engraçada.”

Permaneci em pé, escutando Júlia. Ela me oferecia uma infinidade de roupas, tínhamos as mesmas medidas. Eu estava propensa a ir com a saia e a blusa com que viera de casa; esperaria, porém, ela falar sobre a amiga.

“Ela me contou que certa vez saiu à noite com um vestido semelhante a esse, todo abotoado na frente. Uma provocação ao namorado, que pedira a ela que usasse uma roupa sem nada por baixo. A Rita é demais. Sabe o que ela falou quando os dois retornaram a casa? Disse que queria ter encontrado um buraco.”

“Buraco? Não entendi.”

“Ele também não, mas ela explicou: ‘Um vão deserto ou coisa parecida, onde pudéssemos fazer amor.’ Ele replicou: ‘mas por que você não disse?’ Rita assumiu aquele ar distante que só ela sabe fazer, sempre querendo que os homens adivinhem os seus desejos. Dias depois ela saiu de novo com o mesmo vestido, mas  sozinha. Paquerou um desconhecido. E não é que o homem fez a vontade dela? Perguntei se ela insinuara alguma coisa. Disse que não, ele mesmo é que percebera. 'Enfim, mais inteligente do que o meu namorado, que tem até curso superior’, falou com aquela voz de quem está exausta de tantos homens a seus pés. E ainda mais uma coisa: não foi suficiente que ele lhe desabotoasse o vestido, trepou com ele nuazinha. E você, Martha, vai ficar também aí pelada, encostada no armário?”

“Não, estava esperando você acabar de contar. Acho que vou com a minha roupa mesmo.”

“Não quer variar um pouco?” Júlia parecia feliz com todas aquelas opções. “Lembra?”, continuou, “tenho muitas saias, blusas, vestidos, calças compridas e uma vez fiquei sem ter o que vestir no banheiro da casa da Ana.”

“Foi aquela brincadeira do casaco, lembro!”

“Agora você ri, bandida, mas esteve envolvida na peça que me pregaram.”

“Ah, Júlia, foi apenas uma brincadeirinha. Ana falou que o Roberto estava flertando com a Isabel e você se insinuava para ele. Então inventaram aquela história do vestido, um versace, sabiam que você adora a tal grife, levaram o seu casaco e fizeram você esperar no banheiro.”

“Me deixaram pelada por mais de uma hora, por pouco não voltei nua para a festa.”

“Mas fui eu que te salvei. Assim que descobri onde estava o casaco, levei até você. Sabe que demorei a perceber que você havia ido àquela festa apenas com ele sobre a pele, assim como a Rita e o vestido de botões...”

“Quando voltei à sala, o Roberto e a Isabel já haviam ido embora. Fiquei a ver navios...”

“Foi isso, acharam que você ganharia fácil a disputa contra a Isabel, por isso a armadilha.”

“Ardilosas, vocês todas."

Júlia virou-se para mim após olhar-se mais uma vez no espelho: "acho que ficou bom, não?"

"Ficou ótimo."

"Vista aquele camisão ali, Martha, vai também ficar ótimo em você.”

“Tem razão, é curto mas caiu em meu corpo com perfeição. Será que não vou sentir frio?”

“Vou levar o casaco, qualquer coisa te empresto, meu vestido é de mangas compridas.”

“Júlia, tive uma ótima idéia.”

“Qual?”

“Quando cansarmos de nossas roupas, vamos ao banheiro e as trocamos. Você me passa esse vestido de botões e eu entrego o camisão a você. Vamos confundir os homens.”

“Boa ideia, Martha, gostei muito, vai ser muito divertido. Pronta?”

“Pronta. Falta só o batom, espere um instantinho.”

quarta-feira, agosto 10, 2011

O mais gato não estava entre eles

Esse frio é muito traiçoeiro, não permite que a gente ande com pouca roupa, sobretudo à noite. Prefiro o verão, é lógico, e, como gosto de andar nua, resolvi dar um drible nessa estação de baixas temperaturas. Sobrevivi, digo já, nem peguei um resfriadinho. Meu coração bateu mais rápido, mas foi outro o motivo. No final, como me diverti!

Numa dessas noites saí com três amigas, pensávamos se iríamos ou não a uma festa no único clube que há em Ibicuí. Antes, paramos o carro na praia e saltamos para caminhar pela areia. Ventava, mas estávamos muito agasalhadas. Inventei então a brincadeira.

“Saio nua do carro”, gritei.

“Está louca, Margarida, vai pegar uma pneumonia”, disse Celinha.

“Não pego, não, tenho uma ideia que vai agradar vocês.”

“Margarida, por favor, não abuse, não estamos no verão, não quero ver uma amiga doente”, falou Joana.

“Não vou ficar doente, prometo a vocês.”

“Margarida, atenda o que suas amigas, inclusive eu, estamos pedindo, sabemos que você adora andar pelada, mas hoje é demais, acho que está uns 14 graus”, completou Sabrina.

“Não se preocupem, meninas, minha ideia é genial.”

“Genial, Marg? Com esse frio?”, voltou a falar Celinha.

“Por favor, acreditem em mim, vou voltar ao carro e mostro a vocês.”

Fiz o que prometi, sob os olhares surpresos das três meninas. Tirei toda a roupa, inclusive as íntimas.

“Chegue aqui perto uma de vocês.”

Joana foi a primeira a se aproximar.

“Abra o casaco, por favor”, pedi pela fresta da porta traseira.

Ela atendeu.

Saí do carro e entrei no casaco de minha amiga.

“Célia, venha, abrace a Joana, com o casaco aberto”, pedi.

Ela abriu como fizera a primeira e a abraçou. Eu, nuinha, no meio das duas.

“Sabrina, venha também, abrace as suas duas amigas.”

Sabrina pareceu gostar da brincadeira, ainda falou:

“Margarida, você é terrível.”

“Vamos caminhar um pouco pela areia, pedi, todas vocês desse jeitinho em que estão, abraçadinhas e comigo no meio do abraço de vocês.”

Andamos uns trinta metros.

“Vamos voltar, Marg, já está bom, não vamos à festa?”

No mesmo instante, parou um automóvel ao lado do nosso.

“Ih, agora, como vamos fazer?”, assustou-se Celinha.

“Calma”, falei, “já passei por situações piores, eu resolvo.”

Três rapazes saltaram e vieram em nossa direção.

“Vamos virar o abraço ao contrário, vou contar até três, vocês todas ao mesmo tempo deem uma volta de 180 graus, vão ficar num abraço invertido, eu permaneço no centro e dentro do sobretudo da Sabrina, que é o mais comprido. Não se soltem, falem que estão fazendo uma espécie de celebração e peçam que eles esperem próximo ao carro.”

Contei até três, as meninas fizeram a volta direitinho.

“O que vocês estão fazendo aí nesse frio, e agarradas umas às outras?”, perguntou um deles.

“Uma celebração”, falou, nervosa, Célia.

“Calma, não fique nervosa”, sussurrei, “quem está pelada sou eu.”

“Vocês nos dão licença? Ainda não acabamos, será que podem voltar pra perto do carro?”, disse Joana, num tom de voz que demonstrava domínio sobre a situação.

“Não vão à festa?”, soou outra voz masculina.

“Se vocês permitirem que terminemos, sim”, completou.

Eles recuaram.

“Girem todas juntas para a direita”, pedi.

Obedeceram.

“Agora, parem. Isso, girem para a esquerda”, eu instruía.

“Como você vai sair daí Marg? Eles estão quase encostados no nosso carro.”

“Sem problemas”, vamos caminhar na direção do carro, ok? Tudo na maior seriedade.

Pusemo-nos a caminho.

Quando faltavam três ou quatro passos, Sabrina deu de rir.

“Por que ela está rindo?”, quis saber um deles.

“Faz parte do ritual”, rebateu, segura, Joana.

As risadas de Sabrina aumentaram.

“Peça a eles que virem de costas, Joana, com rigidez na voz como você fez há pouco, não permita que olhem”, falei.

“Rapazes, se quiserem que acompanhemos vocês, virem de costas, ainda não terminamos. Caso um de vocês não obedeça, não poderemos ir à festa, estamos pedindo aos nossos deuses para aproveitarmos a noite com muita alegria, boa companhia e segurança.”

Eles acreditaram. Chegamos juntinho à porta.

“O controle, Celinha, está trancada”, pela primeira vez me assustei.

“Agora essa, onde está?” Soltou os braços mas não saiu da posição. Demorou, mexeu nos bolsos, escutei, enfim, o som que destravou as portas.

Abri e saltei no banco de trás.

A festa foi ótima, só fomos embora às cinco da manhã. Cada um dos rapazes ficou com uma das meninas. Eu? Todos me amam, pude escolher o mais gato, que, lógico, não estava entre eles.

quarta-feira, agosto 03, 2011

Esses homens adoram...

As garotas me admiram muito. Dizem: “puxa, você tem um corpinho, e é bem mais velha do que nós!” Sorrio e lhes afirmo que não acumulem preocupações, assim sempre serão lindas, como são aos 17 ou 18 anos. Mais uma coisa, também muito importante, que saibam amar. Muitas pessoas pensam que amar é sinônimo de sofrer. Ledo engano. Amar significa gostar muito de tudo que existe. Deve-se levar a vida com muita alegria. Se você é alegre, não haverá quem não queira se aproximar. Na verdade, as apessoas vão se sentir atraídas por você como as atrai os raios do sol numa manhã fria de inverno.

Faz algumas horas que saímos para uma festa, dois casais. Não preciso dizer o tanto que sou mais velha do que todos eles, incluindo o meu namoradinho. Amor e simpatia prescindem da matemática.

Dançamos toda a noite. Madrugada alta, paramos na orla. Corri com ele até a beira d’água enquanto o outro casal se beijava próximo à calçada. Tirei toda a roupa. Na verdade um vestidinho que não me cobria muito. Ele já está acostumado ao meu jeito, mas os outros dois coraram ao me ver pelada.

“Calma, pessoal, não se vexem tanto, quem está nua sou eu.”

Quando conheci o meu namorado, a primeira coisa que falou foi:

“Que beleza o seu corpo, parece uma gata de 20 anos, e esse seu biquíni poucas garotas teriam coragem de usar”, me segredou depois de alguns beijinhos.

Disse a ele que, juntos, iríamos nos divertir muito. E não deu outra. Ensinei alguns dos meus artifícios. Ele adorou. Além do biquíni mínimo e de permitir que me deixasse nua dentro d’água, insinuei que adoro sair só de camisa, de preferência uma camisa dele.

Numa noite trouxe uma dessas de mangas compridas, uma espécie de camisa social.

“Você vai apenas de camisa?”, fingiu (acho) surpreender-se.

Dei-lhe um beijo no rosto.

Descemos à garagem e saímos no seu carro. Passeamos pela zona sul. Pedi que estacionasse e que caminhássemos no calçadão.

“Mas você está descalça”, falou.

“Não faz mal, não se vem à praia de sapatos.”

Tomamos água de coco num dos quiosques do Leblon.

“As pessoas estão olhando muito para você”, reparou já tarde.

“Deve ser porque formamos um casal perfeito”, falei com os lábios prontos a lhe capturar a boca.

“Pode ser que estejam investigando se você usa calcinha.”

“É mesmo, você acertou! E quer saber mais? Esqueci.”

“O quê?”

“A calcinha, ora", e taquei-lhe mais um beijo.

Voltando à madrugada à beira-mar, com o casal amigo.

“Você não disse que gostou do meu vestido?”, perguntei à moça, “pode ficar com ele por hoje.”

“Mas não posso chegar em casa sem o meu, o que vou dizer?”, seu rosto espelhou preocupação.

“Diga que trocou com uma amiga. Aliás, nem precisa trocar, vista o meu e leve o seu também. Uma amiga emprestou, fale à sua mãe caso ela queira saber.”

“Mas e você?”

“Eu? Sempre gostei de andar nua. E ele adora”, apontei ao meu namoradinho e o beijei na boca.

“A senhora é... Oh, senhora, não, você”, desculpou-se a mocinha, é meu modelo de vida. Já que vai nua, vou também”, tirou toda a roupa e veio me abraçar. Depois voltou ao rapaz, que estava eufórico.

Agora estamos as duas sentadas num pedaço deserto da praia, cada uma fumando o seu cigarro. Aguardamos o sol nascer. Os rapazes? Foram guardar nossas roupas no carro e aproveitaram para ir comprar cerveja. Esses homens adoram uma bebida.

quarta-feira, julho 27, 2011

Depois você deixa sua gata peladinha


O shopping sempre foi um paraíso para mim. Gosto de frequentá-lo pelo menos uma vez na semana. Hoje, domingo, aproveitei o tempo frio e vim.

Ao chegar, encontrei um ex-namoradinho. Até hoje é apaixonado por mim. Bastou avistar-me para se aproximar eufórico e me beijar. Olhou minha roupa. Parece que se surpreendeu: um vestido que mais parece um suéter. Para falar a verdade, é um suéter mesmo. Comprei na última vez que visitei uma das lojas deste mesmo shopping. Mas, em meu corpo, o tal agasalho caiu como uma luva, transformou-se num vestidinho quase micro. Como estamos no inverno, vesti meias de malha que entram por baixo do suéter, proporcionando à mulherzinha aqui uma baita sensualidade. Pensamentos maldosos – ou será o inverso? – sempre a me deixar nua.

Vou aproveitar que encontrei esse meu namoradinho. Depois dos tradicionais beijinhos, pusemo-nos a caminhar pelos largos corredores. Parei em quase todas as vitrines e mostrei a ele calças, blusas, cachecóis, calçados, uma infinidade de roupas e objetos de adorno que pretendo comprar pouco a pouco. Sabia que ele apenas ia olhar e suspirar. Se tivesse dinheiro, me presentearia com as coloridas peças que apontei. 

Andamos mais um pouco e sentamos num dos bancos centrais. Estiquei o vestidinho para cruzar as pernas e não dar cineminha de graça. Ele me olhou de lado, assim como dois terços dos homens que passeavam aquela hora, até mesmo os que estavam acompanhados.  Descruzei as pernas e as inverti, desta vez a esquerda sobre a direita. Sorri, ligeira, e esperei suas palavras.

Esse meu namoradinho quase nada fala, sempre foi assim, sempre esperando por mim, acho que por isso não fiquei com ele muito tempo. Disse a mim mesma: nada pronunciarei, espero até que ele fale alguma coisa.

Um chocolate recheado com licor?, enfim, falou.

A loja da Kopenhagen. Dar-me-ás, pilheriei, bombons recheados de licor?

Correu até a loja. Demorou uns minutinhos e voltou com a pequena embalagem. Tão bonitinha que senti pena ao abri-la.

Esses bombons são uma delícia, caro, não, e os dois são para mim? Não quer unzinho? Ele meneou a cabeça negativamente. Acho que vou comer agora. Abri um deles, que delícia. O licor escorreu pra dentro da minha boca, um prazer sexual, como diria minha terapeuta. Suguei toda a bebida, gostosura.

Coma o outro, sugeriu.

Será que ele quer me ver bêbada ou me deseja correndo ao banheiro?, imaginei. Mas cedi. Mordi a pontinha do outro e suguei mais uma vez o licor; depois, aos poucos, mordisquei o chocolate. Nada de pavoroso aconteceu. Apenas descruzei as pernas dentro do suéter, esperei um pouquinho, indecisa, e voltei a cruzá-las.

A seguir, suspirei: ah, esse meu namoradinho, por que não fiquei com ele? Tantas moças querendo-o. Ele é tão meigo, adora me presentear, e esse chocolate me deixou com uma pontinha de tesão. Dei um beijinho em sua face. Ele não esperava.

Você veio de automóvel?, perguntei.

Vim, surpreendeu-se.

Aquele jipe do seu pai?, aqueci seus olhos.

Esse mesmo.

Bonito carro.

Quer dar uma volta?, olhou e esperou minha resposta.

Vou, mas me compra mais um bombom.

Ok, seu pedido, uma ordem. Foi até a loja e voltou com mais dois!

Agora estou a mastigar o restinho do segundo, já sei o que vai acontecer, nada de bêbada nem de corrida ao banheiro – oh, meus intestinos no chocolate! Estou me vendo peladinha, no banco traseiro do jipe, ninguém a nos reparar, é noite e os vidros são indevassáveis.

Você vai me dar mais um presentinho, não?, falta uma semana pros meus dezesseis anos, sopro no seu ouvido.

Um vestido mais curto?

Isso, solto quase um gemido, e depois você deixa sua gata de novo peladinha, aninhada no seu colinho.    

quarta-feira, julho 20, 2011

Paraíso

Desde que fui morar naquela pequena cidade, o que mais me impressionou foi o lago que ficava a trezentos metros dos fundos de minha casa. Um lago é sempre alguma coisa imponente. Suas águas tranquilias transmitem uma espécie de certeza que não sentimos quando observamos outros tantos acidentes da natureza. Um lago não é como um rio, que flui incessante. Não podemos dizer que não nos banhamos duas vezes no mesmo lago. Num lago não há como medir o tempo. Nele, o tempo não passa. Dia e noite, sempre os mesmos, e me causando forte impressão.

Numa determinada manhã, resolvi ir até ele e nadar um pouco. Admirei-me mais ao sentir suas águas mornas. Mesmo com a temperatura de meia estação, a água ali era sempre quente. Ao chegar o inverno, também não deixei de frequentá-lo. Saía de casa toda agasalhada. Mas ao tocar a ponta do pé em suas águas, podia tirar toda a roupa e entrar para me sentir aquecida. Ele só podia ser um lago oriundo de atividades vulcânicas. Não havia coisa melhor do que mergulhar e nadar naquelas águas que só se agitavam com minhas braçadas e movimentos de pernas. 

Com exceção do período de chuvas, preferi dali em diante banhar-me à noite. Dois os motivos: o primeiro, ficava deserto, nenhum dos frequentadores diurnos apareciam; o segundo, eu podia entrar nua no lago. Meu horário era após as dez horas, quando a maioria dos moradores do lugarejo já estava na cama. Nas noites mais escuras, aventurava-me a sair de casa, nua. Furtiva, caminhava até a beira d’água e logo me vestia apenas com suas águas tépidas. 

Mas como nenhum paraíso dura para sempre, acabei descoberta. Flutuava tranquila numa noite sem lua, sem fazer ruído algum, era um braço da mãe natureza que permanecia meio submerso meio à flor d’água. Senti um respingo. Agitei-me a princípio. Não podia ser gota de chuva, o céu estava estrelado. Pensei tratar-se de algum peixe maior. Ora, peixes por ali deviam ser pequenos. Mas em uma das extremidades do lago estavam dois rapazes. Teriam-me visto? Estariam a me observar durante muitos dias? Afastei-me, sorrateira e sem fazer ruído, para a outra margem. Mas eles tinham ouvidos de pescador. Acompanharam meus movimentos.

Lutamos a madrugada inteira. Como o pescador solitário que solta a linha e deixa sua presa cansar, eu era a grande raia exausta. Não tardaria a amanhecer, o céu já se avermelhava a oriente. Temi que todos do lugarejo viessem para admirar peixe jamais visto naquelas águas brandas. Voltei à margem mais próxima de minha casa. Os dois me seguiram, esperaram, todo sorrisos. Quando fiz que ia sair, hesitei.

“Algum dos dois é cavalheiro para me emprestar uma camiseta?”

“Queremos te ver nua há tanto tempo. Faz dez noites que  te acompanhamos, não faz sentido emprestar uma camiseta agora.”

Sorri e me levantei. Fizeram questão de me acompanhar, lado a lado.

À porta de casa, beijei a ambos fazendo de conta que me despedia.

"Não vais nos oferecer um café?", perguntou um deles.

"Vieram aqui apenas para tomar café?", pisquei os dois olhos e sorri.

À noite não resisti, voltei ao lago. Mas os rapazes já não estavam lá.  

sexta-feira, julho 15, 2011

Boa sorte, garotas

Cora, você não está à vontade, não estou acostumada a vê-la assim .

Ah, Mara, você sabe, não tenho o hábito de praticar essas coisas.

O que tem de mais ficarmos nuas da cintura para cima? Somos tão bonitas. Vamos fazer uma surpresa, eles vão gostar. Basta que representemos: somos as mulheres mais vestidas do mundo. Olhe para a Cíntia, veja como é boa atriz, está perfeita no papel.

Não exagere, Mara, também não sou tanto assim.

Hoje você está perfeita, Cíntia, seu porte é de muita naturalidade.

Obrigada.

De nada. Cora, vou contar um episódio vivido por mim. Acho que vai fazer você se soltar.

Conta, então, de repente...

Lembra do Bruno? Aquele que mora em Botafogo.

Sim, lógico, lembro, ele é tão bonito.

Então. Uma vez fui à casa dele, estava calor. Por minha conta tirei a blusa e o sutiã. Ficamos conversando, bebendo e namorando que nem dei conta em que parte da casa tinha deixado as duas peças. De repente tocaram a campainha. Ele foi atender. Era um casal amigo. Sem lembrar que eu estava nua da cintura para cima, mandou-os entrar. E eu? Esqueci também da minha própria nudez. Quando chegaram à sala e o Bruno fez as apresentações, a moça soltou um gritinho e tapou a boca com uma das mãos. Só então nos demos conta da situação.

E você?

Fiz de conta que não era comigo. Peguei meu copo e bebi mais um pouco. Pedi depois licença e fui à cozinha. Voltei com mais dois copos para os recém chegados. Tudo na maior seriedade. Eles sentaram e continuamos a conversa. Lembro que fiquei nua até depois de irem embora. E não se tocou mais no assunto.

Mara, acho que para eu ficar à vontade, depende de outra coisa.

Cora, o que depender de mim, faço, não há problema algum.

Você me deixa ficar com o Agenor?

Ah, sei que você é apaixonada por ele. Se conseguir, pode ficar. Acho que ele também vai gostar de você.

Que bom! Veja como fiquei feliz, repare, a partir de agora sou a mulher mais à vontade do mundo.

É, quando você fala no Agenor, fica soltinha.

E eu Mara, vou ficar com quem?

Cíntia, não se preocupe, vem um rapaz lindo, chama-se Adalberto, você vai adorar.

Jura?

Juro.

Ouviram? Estão chegando, tocaram o interfone.

Ouvimos, Cíntia, atende você, aperte o três que o portão abrirá.

Ai, meu Deus, será que o Agenor vai me querer?

Quanto a isso, não se preocupe, Cora. Mas lembre-se: estamos vestidíssimas! E não trema, viu? Esses bicos dos seios precisam transmitir tranquilidade.

Bicos dos seios?

Isso mesmo, Cora, sente-se e respire fundo. Não vá estragar tudo.

Ok, está bom assim?

Está razoável. Boa sorte, garotas.

sábado, julho 09, 2011

É tudo verdade

Sonho sempre que estou pelada. Isso é um inferno para mim! Vejo que estou no meio da rua e não tenho nada para me cobrir. Tenho medo de que um dia esses sonhos se tornem realidade. Às vezes penso em cantar nua em cima do trio elétrico, no carnaval, apenas o corpo pintado. Mas será que o sonho não é realização inconsciente desse desejo?

Uma amiga me disse que também tinha esse tipo de sonho. Aparecia nua nos lugares mais movimentados e nunca tinha nada para se tapar. Morria de vergonha. Até que um dia descobriu que se fingisse que não estava nua, ninguém a reparava. A partir daí, começou a curtir o sonho. Falei a ela: “comigo acontece de outro modo, quando começo a pensar que posso dominar o sonho, acordo.” Ela disse que no começo também era assim, mas é uma questão de exercício. O sonho é um faz de conta, como no teatro, se nos damos conta de que estamos atuando, tudo se modifica, você pode então andar nua ao bel-prazer, as pessoas nem reparam. Quando se tem o domínio, pode-se aproveitar mais, e pra você que é uma cantora famosa, que não tem tanta liberdade como nós, vai ser ainda melhor.”

Não sei, não. Outro dia comprei um biquíni minúsculo. Fui à praia e fiquei ao sol. Disfarçada de boné e óculos escuros, ninguém me reconheceu. Mas os homens ficaram me olhando muito. Pensei: não estou sonhando, tenho certeza, nem sinto vergonha apesar de estar quase nua. Mas nós, mulheres, não sentimos vergonha na praia, porque todas se vestem assim, é um lugar apropriado para isso. Se estivesse de biquíni no centro da cidade, nem pensar... Mas se sonho que estou nua no centro, o biquíni seria uma grande solução. Mas nem isso acontece.

Hoje, ao dormir, vou tentar controlar meus sonhos. Se puder andar pelada e ninguém notar, vai ser ótimo. Mas vai que eu me engane e saia nua de noite, de verdade. Só em pensar fico toda arrepiada. Há quem diga que já saiu nua, com o namorado. Será?

Lembro agora de uma história engraçada. Há alguns anos, quando ainda não era famosa e andava de ônibus, escutei duas adolescentes conversando. Uma contava à outra que ela e uma amiga ficaram peladas na piscina de um clube. “O problema foi que eu e a Jéssica lançamos os nossos biquínis de dentro d’água para a cadeira onde estivéramos, aí apareceu um homem...” Não pude saber o que aconteceu depois porque elas se levantaram e saltaram antes de mim. Confesso que fiquei excitada. Mas, pensando bem, uma coisa é certa, se conseguem ficar peladas na piscina, já não precisam do sonho.

quarta-feira, julho 06, 2011

Depois te recompenso

Só se eu contar? Juras que fazes o que estou pedindo? Então, tá. Mas conto rápido, não tenho muito tempo. Ganhei uma lingerie linda. Nunca tinha vestido uma igual. Lingerie para o corpo inteiro, aberta apenas nas costas, como se fosse meia calça emendada à blusa, sobe até o pescoço e termina em mangas três quartos. É preta, transparente, tecido finíssimo trabalhado com alguns detalhes em relevo. “Deve ter sido caríssima”, suspirei ao recebê-la. “Nem tanto, você sempre merece mais”, melodiosa a voz dele. Aonde fui vestida assim? Escuta. Madrugada, um frio! “Não vou aguentar”, falei. O casaco de veludo, lembrei; apenas ele, a lingerie e o sapato meio salto. Fomos a uma festa. Na serra. Festa de inverno, que coisa gostosa. Eu dentro do carro e ele saindo para comprar o que eu queria comer ou beber. Andei, sim, depois que tomei coragem. Como ninguém me conhecia naquele lugar, caminhei pela rua principal. Mas não foi nada demais, o casaco ia até um pouquinho acima dos joelhos. Todas as pessoas me olhavam. Acho que ninguém me desprezaria. Adivinha. Queriam-me sem o casaco, é lógico. Mas ficaram só na vontade, não dei esse prazer. Nua, apenas para o meu amor. Permanecemos em torno de uma hora entre as pessoas do lugarejo, estava quentinho ali, uma fogueira imensa, rojões, acho que alguns em minha homenagem, ou em homenagem a lingerie, não sei bem. Bebi um tantinho a mais, isso é verdade. Fiquei tão alegre. Acho que ainda estou. Mas sempre fui assim, sabes, sou feliz. Então, entramos no carro, descemos algumas ruas, todas desertas, um silêncio, o farfalhar da festa ficando para trás. Foi aí que disse a ele: “preciso fazer xixi.“Tenho um copo, mostrou. Mas fico vexada caso faça xixi ao lado de alguém, ele ouvindo o barulhinho. Portanto, saí do carro. “Espera aqui, vou àquela esquina, não saias daí, viu, não venhas atrás de mim que morro de vergonha.” “Mas e a lingerie?”, perguntou. “É mesmo, é inteiriça.” Tirei-a toda, nuinha, apenas o casaco a cobrir-me. Entrei numa rua estreita, achei que ainda estava muito perto dele, dobrei mais outra. Fiz minha necessidade. Mas como volto? Tão escuro, três variantes de pequenas ruas. Eu, perdida! Acho que ele vai pensar que fugi. Não posso voltar à festa e lá tentar alguém para me levar de volta. Vão lembrar que sou a mulher que usava a lingerie. Só que agora estou sem. Minha salvação foi esse orelhão, teu número guardado de memória e a ligação a cobrar. Mas... espera... ah, como sou tonta! Estou quase ao lado do carro dele. Dei tantas voltas e saí no mesmo lugar. Ele está piscando os faróis para mim. Depois conto o desfecho, não vou precisar mais de ti. Pelo menos hoje. O problema agora será outro. Ele vai querer saber para quem estou telefonando. O que vou dizer? Nem imagino. Desculpa-me. Depois te recompenso. Tchau!

quarta-feira, junho 22, 2011

Uma foto minha

Meu amigo me mostrou a foto. Fiquei surpresa. Nunca fui fotografada nua correndo na rua. Ou melhor, não apareço na foto nua por inteiro, mas apenas de miniblusa, bolsa a tiracolo e sandália meio salto. Nada mais. E estou com cara de apavorada, como se estivesse fugindo de alguém, ou temendo ser surpreendida. Ele ainda pôs o seguinte título: Rachel correndo nua. Não sei como conseguiu me fotografar. Como gosto de andar nua, não vou dizer que a foto seja falsa. Mas não me lembro de corrida tão atabalhoada nem do esperto fotógrafo. Olhando com mais atenção pode-se reparar minha perfeita maquiagem e o contorno nítido do meu rosto. A própria fotografia se apresenta bem acabada. Ao fundo, está escuro, é noite, há a luz dos postes, percebem-se alguns carros estacionados. Não há viva alma além de mim.

Já namorei este meu amigo. Ele é muito bonito e gostoso. Diz que, quando me insinuei a ele naquela noite, pediu em contrapartida apenas a possibilidade de fazer meu retrato numa cena externa.

Digamos que seja tudo verdade. Não há problema uma foto minha, eu pelada na rua. O mais prazeroso, porém, é namorar com ele. Não há nada mais gostoso. De suas carícias naquela noite, não me esqueci. Fui à casa dele, bebemos vinho, ficamos excitadíssimos. Depois me levou para o quarto. Fizemos amor de todas as maneiras. Uma mulher não gosta de descrever os pormenores do seu ato de amor, geralmente o deixa implícito, melhor que todos o imaginem, pensem no que há de mais estimulante numa relação a dois. Gosto de ressaltar o momento em que fico nua, altiva e desinibida. Acrescento aqui curto episódio: o namorado a procurar todo o meu corpo com mãos de mil carícias, a me beijar a boca; o ato de eu deitar sobre ele, ou ele sobre mim, não importa.

Mas a foto, não lembro...

Ou será que esqueci de propósito? Diz ele: “pedi para você ir lá fora, sua reação foi afirmativa e imediata.” Ainda, segundo ele, saí nua de casa. Sua sugestão era que eu fosse até a calçada, vestida.

Acho que recordo apenas o ar frio. Era noite de outono. Também lembro que quase pedi para vestir um casaquinho. Fora isso, mais nada.

Agora ele me mandou essa foto, anexa a uma mensagem. Apesar de aparecer um tantinho vexada, não posso recusá-la. Fiquei tão bonitinha. Mas fiz uma ressalva: “olhe, não vá postá-la por aí, viu?” Não demorou a me responder: “você é tão exibida, aposto que está doidinha para ser admirada por seus fãs.

Então, após refletir um pouquinho, mudei de opinião. Antes que acontecesse, eu mesma a postei. Espero que todos me apreciem. E gostem!