segunda-feira, março 30, 2015

A faltar uma blusinha

Ai, acordar peladinha depois dessas festas, nem lembrar como tudo aconteceu... Ainda estou morrendo de sono, acho que são nove ou dez da manhã. É o sítio de Mariinha, quanto a isso não posso me enganar. Quando eu morava em BH, as festas eram mais discretas. Cidade grande é outra história. Aqui, nesse lugarejo, as meninas são de um fogo terrível. O pior é que acham que lá, na cidade grande, as mulheres são mais atiradas que cá. E querem imitá-las. Pior que imitam apenas uma ideia. Então marcam essas festas, onde acabamos quase todas nuas, mesmo que de uma nudez disfarçada, e dormindo em casas alheias, nem sabendo onde foram parar uma das blusas. Isso mesmo, sempre desaparece uma blusa; já aconteceu de sumir uma saia. Como voltar para casa em tal circunstância? É preciso que alguém empreste uma roupa, como um casaquinho de meia estação. Depois vamos até o Shopping, a 120 km da cidade, comprar novas roupas. Aqui em Minas todas vivemos de aparência. É lógico que é o único modo de a sociedade nos aceitar. Fingimos. Em nossos trabalhos somos exímias profissionais. Uma de nós é dentista. Não digo qual, não quero dar pistas sobre as amigas, quem sabe eu? Mas voltando às festas, são de lascar, isso mesmo, acho que é essa a palavra, porque como diz o mineiro do campo, são de tirar o couro. Como não podem nos tirar o couro real, nos tiram a roupa. Depois, dão no couro! Muitas querem ter namoradinhos, curtir a vida a dois, casarem-se. Mas já pensaram sobre? Casarem-se? E quem já passou por isso tudo, quem já cansou? Não se pode viver para o marido, nem para os filhos. É bom ter filhos, não nego, mas não se pode viver em função deles durante toda a vida. Então apareceu a Mariinha e deu a ideia. Chamou as mulheres mais destemidas da cidade e convidou-as todas. Mas, Mariinha, alguém há de acabar descobrindo, afirmou uma. Não, basta que fiquemos de boca fechada, ela retrucou, e não precisa que as festas aconteçam sempre, três ou quatro vezes ao ano é o suficiente, e nada de homem da cidade, acrescentou a promotora. Engajamo-nos na brincadeira, mulheres da cidade e outras que ficavam nela apenas parte do tempo, como médicas, a tal dentista e professoras. O local seria um sítio, a 40 km, na serra de G, digamos assim. Na primeira das festas, não aconteceu nada demais. Apenas comemos, bebemos e dançamos... como dançamos! Homens de menos, mulheres sempre mais numerosas. Fizemos mais duas festas, a frequência aumentou e também a quantidade de homens, mas as mulheres sempre mais numerosas. Na quarta festa, propus que mudássemos o local, precaução apenas. Alguém já está comentando pela cidade?, quis saber a amiga. Não, nada ouvi, mas sabe como é, melhor não facilitarmos. Nas festas seguintes, fomos a uma pousada, era de uma das frequentadoras dos eventos. Numa pousada, algumas se assustaram, isso pode soar mal. Há no lugar um grande salão, e depois, fica-se mais à vontade. E passamos a alternar, uma vez no sítio de Mariinha, outra na pousada. Vieram homens de longe, inclusive de BH, acharam a nossa ideia maravilhosa. Exercíamos nossas profissões durante os dias, éramos as pessoas mais sérias da cidade, mas durante as festas a liberdade era total. Até mesmo vieram algumas mulheres casadas. Mulheres casadas, assustei-me, podem arrepender-se e sair comentando por aí. Nada disso, rebateu Mariinha, tenho o nome de todas, estão arriscando o próprio casamento, e é lícito que se divirtam. E vinham elas, mais sorridentes do que todas nós, mais provocantes, arrumavam-se num dos banheiros da casa, transformavam-se em autênticas piranhas. Não há problema que namoremos, disse a dona do sítio, o importante é que não vire rebu. Achei engraçada a palavra, rebu. Daí em diante já se via uma ou outra agarradinha com seu par, depois a sair ao ar fresco, até que alguém falou pois não há um quarto com cama? Concordou-se, então. A respeito do quarto e da cama. E as festas, oh, uma beleza. Mas nada pode durar para sempre, trata-se de uma verdade absoluta. Fizemos a última ontem, a de despedida (será?). Já está dando na pinta, surpreendeu-me a amiga. Mas até na última acordar peladinha, e sempre a faltar uma blusinha...

segunda-feira, março 23, 2015

Nua dentro da piscina e um amor lésbico

Como a água da piscina estava gelada, num primeiro momento eu quis voltar para a cadeira onde havia alguns minutos eu me sentava.

Eleonora me olhou, sorriu e disse:

Você vai acabar gostando da ideia.

Ela pedira que eu ficasse em pé, bem na beirinha, pois queria comparar o meu corpo ao dela. Contara que precisava emagrecer e que eu servia de modelo a ela. Como sou narcisista, exibida e metida a gostosa, me coloquei como pediu, fiz até uma pose. Ela veio se aproximando, chegou bem pertinho.

Vire de costas, por favor, falou terna.

Prontamente atendi. Coloquei o bumbum voltado para ela.

Muito rápida, ela desfez os lacinhos do meu biquíni e me empurrou para dentro da piscina.

Agora você fica de molho aí, falou depois que eu voltei à tona, sorriu e correu não sei para onde levando a parte inferior do meu biquíni. Logo Eleonora reapareceu, mas de mãos vazias.

Nos primeiros segundos, fiquei furiosa, pois a frase que ela dissera, de que eu ia acabar me acostumando, me deixou muito aborrecida. Jamais eu quis ficar à mercê de outra pessoa. A água gelada, no entanto, pouco a pouco começou a me causar um intenso arrepio e chegou provocar sensação agradável entre as minhas pernas. A preocupação que passei a ter naquele momento foi a possível chegada de outras pessoas. Mas isso acabou aumentando a tal sensação, era como estar deitada sob o sol e medir o tanto que sua quentura nos toca la no fundo.

Volte aqui em cima, ela sugeriu, volte que devolvo o biquíni.

Mas se aparecer alguém, repliquei enquanto segurava na borda e a água escorria pelos meus cabelos.

Não vai surgir, não, ainda é cedo. A não ser que você esteja gostando da brincadeira, acrescentou com certo sarcasmo.

Para não dar o braço a torcer, falei:

Já fiquei nua várias vezes, mas na praia, e pelas mãos de um namorado.

Não sei se minhas palavras a excitaram. Sem que eu esperasse, ela saltou na piscina. O choque do seu corpo na água fez um barulho imenso, pois era gorda. A água respingou por todo lado. Ela nadou na minha direção e me segurou pela cintura.

Pode também me deixar nua, ordenou, vamos, não demora porque chega alguém.

Tirei o seu biquíni e o arremessei longe, bem mais adiante de onde ficavam as espreguiçadeiras.

Você poderia ter sido um pouquinho mais discreta, falou e começou a me fazer carinho.

Juro, foi a primeira vez que estive nas mãos de uma mulher, agora sou eu que falo, e para você, querido leitor. As pessoas sempre desejam saber o desfecho das histórias, não é mesmo? Eu poderia deixar em aberto. Mas conto como acabou.

Ficamos as duas dentro d’água um tempo enorme. Ela conseguiu me provocar vários orgasmos. Talvez seja esse o ponto positivo no relacionamento sexual entre duas pessoas do sexo feminino. Quando acabou, já havia duas mulheres nas espreguiçadeiras. Até então não tinham dado por nós.

Eleonora saiu nua da piscina, e as mulheres continuaram sem nos observar. Ela demorou um tempo enorme para voltar. Fiquei preocupadíssima, pensei que me deixaria nua dentro d’água pelo resto do dia. E a água estava tão clara. Mas acabou retornando. Arremessou o meu biquíni bem no meio da piscina e gritou:

Não falei que você acabava gostando.

Só então as duas mulheres se voltaram par nós. Aproveitei para mergulhar fundo. Enquanto tentava recuperar a calcinha tinha onde enfiar a cabeça.

Até mantive outras relações lésbicas. Mas confesso, prefiro os homens, com toda complicação que eles arrastam atrás de si. Não há melhor coisa do que dar uma boa trepada com eles.

terça-feira, março 17, 2015

Duas noites de loucura

Estou diante da porta do quarto dele; o corredor, escuro; atrás das outras portas, o silêncio. Apenas eu em meio às sombras da meia noite e meia. Dormem os outros os hóspedes. Nenhum reflexo de luz, nenhuma réstia a escorrer por baixo das portas. Uma noite plena após um dia de trabalho árduo. Mas para que entendas, interessado leitor, volto ao começo desse romance fugaz. Ou, caso esteja cometendo algum tipo de exagero ao nomeá-lo assim, passo a chamá-lo lúbrico atrair de corpos. Como a fruta da oliveira que banhada em óleo próprio, virgem e natural, nos desliza garganta abaixo. Mas sejas rápido na leitura, não te deixes enfeitiçar por metáforas que tentam fazer saltar tua pele e abrir teus poros... Do contrário, serei surpreendida nua por algum hóspede inesperado. E poderei cair em mãos estranhas.

Na primeira vez em que me aventurei ao seu quarto, vestia uma camiseta comprida, ia quase até os joelhos. Mas, agora, minhas frágeis asas de borboleta e o odor adocicado que emano do corpo (aquele odor que captura os homens) não me permitem vesti-la. Boa desculpa para não dizer que ele ma tomou. Deixei-a no seu quarto após a noite de amor. Queria continuar a sentir o meu cheiro após o amanhecer. Ao menos foi o que entendi ante o seu olhar insistente, olhar que também me convidava à noite seguinte. Saí rápida, fechei a porta em silêncio e corri ao meu quarto. Ainda bem que deixara a porta destravada, a chave por dentro. Talvez a perdesse no afã do amor, talvez não tivesse para onde voltar... Enlouqueço enquanto amo. Quem sabe, melhor assim. Mas a verdade é que estou de volta a ele. Basta o dobrar da maçaneta e dois passos. Adiante, o abismo. Talvez o amor seja esta tênue sombra do outro a nos tocar momentaneamente o corpo, a ameaçar a nos deixar nua em terra estrangeira. Sem roupa e sem linguagem. Não quero de volta a camiseta. É o ponto claro em meio à escuridão da madrugada. E é a minha última noite.

Viajo toda semana a M, onde trabalho na área de saúde. Sempre a mesma vida, sempre a rotina do viajante. A pousada é de uma velha conhecida. De duas semana para cá, aconteceu algo que me deixou de início excitada, depois inteiramente louca. É lógico que consegui, embora a duras penas, manter a discrição. Ao menos até ontem. Um homem especial se pôs a me olhar. Trata-se de um homem de poucas palavras. Como chegar a ele?, pensei. Não posso dar a primeira carta. Ainda bem que existe uma padaria por perto. Ele estava lá. Comia um sanduíche de presunto. E olha que prefiro queijo. Mas tudo bem, era ele quem comia. Seus olhos me penetraram mais fortes do que qualquer palavra, qualquer frase, qualquer verso de poeta antigo. Não chegou a dizer o que o traz à cidade, ou o que o levou à tal pousada. Mas ouvi com delicadeza o que os seus olhos diziam-me. Permaneci ao seu lado. Éramos dois velhos amigos que já não precisam de palavras. Bebemos do mesmo suco. Voltamos juntos. Entramos e fomos para os nossos quartos. Duas horas depois, ouço dois toques à porta. Abro. Ninguém. Fecho a porta. Não demora e agora três toques. Abro. Ninguém. Ou melhor, um cartão com o número 23. Deixo correr os ponteiros do relógio. Passa uma hora. Ele deve estar pensando que não vou. Mais trinta minutos e corro até o seu quarto. Onde o vinte e três? O que acontecerá caso eu me engane de porta? Alguém abre a porta. É ele. O olhar pleno. Mergulho nos seus braços, atravesso o seu corpo. Muda. Pra que as palavras? quase chego a sussurrar. Consigo, porém, resistir à emissão de qualquer voz. Apenas os guinchos do sexo, os rasgos de amor.

Estou de volta. Muda. Melhor apenas os corpos a se tocaram, a exalarem perfumes ainda que dúbios. Nada sabemos um do outro. Nem mesmo quem nos espera em nossas cidades de origem.

Ao viajante o campo é sempre neutro, a pele sempre lisa. E apraz a roçar num canto da memória duas noites de loucura.

quinta-feira, março 12, 2015

Vale encantado

Estava hospedada no hotel fazenda Vale Encantado, no interior do estado do Rio de Janeiro, em meio a montanhas. Um local de onde não mais se deseja sair. Acompanhava minha filha, meu genro e minha neta. Por falar em neta, o local é um paraíso, principalmente para as crianças. Há várias piscinas, parques, brinquedos, campos para jogos, recreadores e, mais adiante, um lindo bosque. 

Apesar de já ter entrado nos cinquenta, tenho o corpo muito bonito, e, para completar, uso um biquíni mínimo, não é preciso dizer que a parte de trás é apenas aquela tirinha estreita, que entra toda no meu bumbum. Adoro. Minha filha não tem coragem de usar biquíni semelhante.

No segundo dia no hotel, depois de no dia da chegada ter ficado o tempo inteiro na piscina brincado com a minha neta, notei que um senhor me olhava com algumas intenções que não eram a de apenas apreciar a natureza.

Logo que voltei à piscina – já sentia o sol me queimar – ele apareceu ao meu lado, o cabelo curto escorrendo água devido ao recente mergulho. Cumprimentou-me, puxou conversa. Como faria qualquer pessoa educada, correspondi ao seu assunto.

Era viúvo, mas também viera acompanhando familiares. Isso não vai dar certo, pensei. Depois de algum tempo a falar sobre a beleza do local, o clima agradável, a necessidade que temos de passar alguns dias de papo para o ar etc., convidou-me para ir ao bar.

"Bebo uma caipirinha", salientei, "apesar de minha bebida preferida ser vinho. Acho que não há vinho no bar da piscina."

"Acompanho você na caipirinha, depois tenho uma surpresa", falou. 

Imaginei o que ele já estava aprontando. 

No bar, minha filha passou por mim e fez a cara de sonsa que costuma representar quando me vê acompanhada de algum homem. Não correspondi. 

Quando já bebíamos nossas caipirinhas, meu pretendente falou:

"Sabe qual a surpresa? Trouxe comigo duas garrafas de vinho italiano, convido você para beber à tarde", sorriu com ar conquistador. 

Demorei um pouco para dizer se aceitava ou não, mas acabei dizendo que seria um prazer. 

"Convide também seus familiares", disse ele, “caso apreciem um bom vinho.”

Naquela tarde todos bebemos um delicioso Corvo. Meu admirador chamava-se Abelardo. Falou muito sobre as vantagens das férias naquele sítio. Disse que morava a duas horas dali e que já era freguês, vinha quase todos os meses.

No terceiro dia de estadia, minha filha notou alguma coisa além da conversa e resolveu não aparecer para o vinho vespertino. Meu genro parece que, naquele momento, disputaria uma animada partida de futebol. Então, apenas meu admirador e eu apreciamos uma garrafa inteira de Valpolicela. Quando terminamos, confesso que o provoquei.

“Vamos dar um passeio, sugeri.”

Era o convite que ele espererava.

Levei-o através de toda a extensão do hotel, na direção do bosque.

Ao reparar que nos aproximávamos das árvores, falou:

“Queria muito convidar você para passear, mas pensei que acharia a caminhada um tanto longa.”

“Estou acostumada a caminhadas maiores.”

Entramos pelo bosque. O canto dos pássaros àquela hora da tarde era irresistível. Continuamos a dar passadas largas e percorremos um caminho em que predominava uma quantidade maior de árvores. Paramos para apreciar a paisagem. De propósito toquei sobre um de seus braços para apontar a vista. Deixei minha mão ali por alguns segundos. Abelardo parecia embevecido não tanto com a vista a partir daquele ponto da montanha, mas com o calor do meu corpo. Arrastei-o, com uma das mãos, até um arbusto que nos escondia. Qual então não foi nossa surpresa, encontramos um biquíni, isso mesmo, a parte inferior de um biquíni pendurado em um dos galhos mais salientes. Alguém o havia deixado ali fazia pouco tempo, pois dava para perceber que ainda estava molhado.

Coloquei o indicador sobre os lábios sinalizando que nada falasse. Procuramos um lugar mais resguardado. Quando senti que podia dizer alguma coisa, soltei em surdina:

“Acho que alguém teve a mesma ideia que nós, não é mesmo?”

Ele me abraçou e me beijou na boca.

Assim que terminou o beijou, perguntei irônica:

“Será que deixo o meu biquíni no mesmo galho?”

Abelardo me abraçou novamente. Não tive tempo de falar mais nada. Meu biquíni? Ele o tirou. Procuramos um canto sobre a relva e trepamos durante muito tempo.

Quando acabamos, anoitecia. Era possível reparar os postes com lâmpadas oscilantes no outro lado da montanha.

Ao passarmos pelo mesmo local, ainda estava lá o tal biquíni.

“Que tal trocar ou mesmo ficar com os dois, o outro ainda está lá!”, sugeriu, parecia excitado, apesar de todo o sexo que fizemos.

“A ideia não é má.”

“Qual delas?”

“A segunda.”

A última palavra lhe despertou novo desejo. Quis me colocar nua mais uma vez.

“Calma, amanhã ainda haverá tempo, e quem sabe será mais interessante?”, acrescentei.

Mas ele não resistiu. “Amanhã e ainda hoje!”

“Está bem”, falei, “mas espere um instante.”

“Aonde você vai?”

“Vais já saber.”

Fui até o galho e coloquei o meu biquíni ao lado do que lá estava.

segunda-feira, março 09, 2015

O que eu vou fazer da minha vida?

Jessé balançou os dois últimos caroços na concha da mão e lançou-os em dado. Era noite, e o jogo estava feito. Eliane arrepiou-se, ela fazia parte da aposta. Como flertava com o perigo, o friozinho na barriga dava-lhe prazer. Ao abrir uma das mãos o homem, com um dos cantos da boca, lançou-lhe um sorriso de escárnio, sabia que ainda não seria sua a vitória. A mulher, corajosa, tinha sorte, ele concordava. Jogador escolado, o mulato também sabia que a sorte um dia escapa. Era só ter paciência que ela, a mulher, cairia de joelhos. Pagou o que devia. Eliane sorriu. Muitos homens já haviam frequentado seu corpo sem necessidade de lance de dados. Quanto a Jessé, tratava-se de um capricho, queria prendê-lo. Ele era elegante, bonito, a pele brilhosa, o cabelo negro farto e bem penteado. Um homem que não fora feito para qualquer garota. O jogo, portanto, era a arma da mulher. Ela tinha consciência de que corria risco; a sorte, como lera nos olhos de Jessé, não dura para sempre. Enquanto pudesse, no entanto, arriscaria; era um modo de se valorizar, de criar no homem a cada dia o desejo mais intenso. Talvez, assim, ele durasse ao seu lado mais tempo. Não tinha ilusão, conhecia os homens Ao conseguir uma mulher, ao desarmá-la de seus encantos, eles depressa vão à cata de outra, de novas experiências, que logo se tornarão velhas. A roda continuava a girar. Eliane sabia que no fundo tudo era ilusão.

Fazia três anos que percebera sua tendência para a sorte no jogo. Um ex-namorado a convidara a um café numa cafeteria no centro de M. Eliane aceitou. Os dois encontraram-se por volta das 16h00. O local era bonito. Tomaram dois expressos e comeram duas fatias de bolo. Jonas pediu um pouco de leite. Ela começou a contar sobre o casamento. Disse que estava muito feliz, o marido era companheiro e atencioso. Ressaltou a palavra companheiro duas vezes. O homem não deixou escapar as palavras de Eliane. Como já conhecia a mulher, desconfiava de algumas das histórias contadas por ela. Quando já estavam à mesa por mais de trinta minutos, perdurou um profundo silêncio entre os dois. Ela aproveitou para olhar através do vidro o trânsito que era intenso na rua defronte. Era possível avistar as árvores que se enfileiravam no outro extremo da avenida formando um pequeno parque. A mulher sorriu, lembrou que já passeara naquele local tarde da noite com o homem que estava à sua frente. Voltou o rosto a ele e continuou com o ar de alegria que o momento permitia. Eu e meu marido somos apenas companheiros, queria dizer isso a você, tocou no assunto novamente; não fazemos sexo, entende?, somos apenas amigos, ajudamos um ao outro. Jonas franziu a testa. Amigos?, repetiu; estranho. Verdade, Eliane retomou a palavra; ele tem um problema, não pode fazer sexo, nunca fizemos, mas está bom assim, concluiu. Jura?, ainda perguntou Jonas. Eliane apenas moveu a cabeça. Saíram da cafeteria e seguiram a rua Teixeira. Continuaram a conversar assuntos esparsos, ora olhavam os carros, ora os prédios do lado onde caminhavam. Tenho de ir até em casa, ela falou. Eliane tinha duas casas, uma na serra, outra na cidade, referia-se à da cidade. Jonas não falou nada num primeiro momento, depois continuou ao lado dela; mais adiante perguntou se podia acompanhá-la. Pode sim, ela disse. Dobraram à direita numa transversal e seguiram até o Visconde, um bairro de casas de dois andares. Antes margearam a rodoviária. Quero ver se pego o de 17h30min, disse ela. Faltam ainda trinta minutos, replicou Jonas olhando o celular. Ao chegarem à casa que Eliane ainda mantinha na cidade, ela advertiu: está muito diferente da casa que você conheceu, dei alguns objetos, levei todas as minhas roupas para a casa da serra, mantive apenas o sofá, a cama e o fogão. Jonas assentiu, sabia que ela na verdade já não residia ali havia pelo menos três anos. Ao chegar, seguiram o pequeno corredor do térreo até entrarem no corpo da casa, subiram dois lances de escada. Eliane abriu a porta, que nem estava trancada. Ambos entraram. Ela primeiro; ele, a seguir. Não repara, pediu a mulher; está uma bagunça. Não faz mal, compreendo a situação, redarguiu Jonas. Eliane procurou um objeto, mexeu em outro, olhou para seu ex-namorado e sorriu. Lembra que você foi nua lá embaixo, certa vez?, Jonas disse em voz baixa. Você não esquece isso, ela falou e sorriu, um sorriso luminoso. Ele teve vontade de abraçá-la, mas nada falou. Ela continuou nos seus afazeres. Eliane tocou de novo o nome do marido. Como falava nele... Disse que ele lhe pedira algo, e que logo iria ligar para saber se conseguira. Jonas permaneceu em silêncio. Eliane não era boba, sabia que o ex-namorado ainda lhe desejava, fazia bem para sua autoestima, ela valorizava o momento. Pensou em perguntar a Jonas se queria que ela tirasse a roupa; ficaria nua e pediria para ele segurar seu vestido; ah, os homens, sempre ficam excitados com mulheres nuas. Nada mais, porém, apenas a nudez, a pele branquinha à mostra. Suspirou, tocou de leve no tecido que compunha o vestido. Ia aos joelhos. Ele não gosta da casa da cidade, ela acrescentou referindo-se ao marido. Você está precisando de dinheiro?, Jonas interveio. Dinheiro?, sempre a gente precisa, por que a pergunta?, ela quis saber. Achei que você precisava; a licença, o afastamento do trabalho, as dores que você sente, deve estar precisando, ele retrucou. Sim, você acertou. Jonas abriu a pasta, tirou a carteira e de dentro dela puxou duas notas de cem e duas de cinquenta, estendeu a mão com as notas a Eliane. Como faço pra pagar?, ela perguntou. Não sei, faça como achar melhor, respondeu ele. Não vou ter pra devolver tão cedo, ela continuou. Não faz mal, não estou precisando agora, disse o ex-namorado, com uma entonação decisiva. Eliane guardou o dinheiro. Bom, vamos embora. Acabou de falar e ouviu o telefone. É ele, meu marido. Foi até a janela e conversou um pouco, prometeu que voltaria logo, já havia resolvido tudo que programara. Não, não demoro não, ok?, um beijo. Desligou. Ao olhar na direção onde Jonas estava minutos antes, não encontrou ninguém. Ele partira sem que ela notasse. Sentiu-se só. Jonas lhe fazia bem. Lembrou-se da vez em que foram juntos à praia e ele sugerira que ela tirasse o biquíni e o entregasse a ele. Ela, como sempre espevitada e querendo demonstrar determinação, desfez os laços e ficou nua. Entregou o biquíni nas mãos de Jonas, deu um mergulho. Ao voltar à tona, percebeu que ele havia desaparecido. Acontecia de novo. Jonas se fora. Ela, só, sem ninguém a socorrê-la... O que eu vou fazer da minha vida?

Jessé balançou os dois últimos caroços na concha da mão e lançou-os em dado. O jogo estava feito. Era noite. Ele a incentivava, e ela sabia que tinha sorte. Ao menos por enquanto, sabia também que um dia perderia. Para a ocasião, já trazia pronta e ensaiada a frase. Jessé, sei que você está louco por mim, pra isso nem precisava de aposta; se você tivesse falado antes, a gente já transava fazia tempo; mas apenas isso, viu? A roda continuava a girar. Eliane sabia que no fundo tudo era ilusão.

domingo, março 01, 2015

Respirei fundo

Como a água estava fria, usávamos os pés para nos movimentarmos, assim não só mantínhamos nossos corpos aquecidos, mas também flutuávamos entre as ondas. Ele, mais do que eu, era ágil com as mãos, queria a todo custo tocar meu corpo. Mas o que me provocou quentura mesmo foi um afago diferente que ele me fez. Nunca havia percebido que alguém, apenas num ligeiro deslizar de mãos, pudesse me provocar um orgasmo enquanto tentávamos escapar da arrebentação.

Tudo começou uma hora antes. Eu andava no calçadão, na altura da Rainha Elizabeth. Queria um quiosque para tomar água de coco. Mas não sei o que me deu. Ao olhar as bebidas expostas, vi uma garrafa de vodca, e aquela marca não era comum nos quiosques.

O senhor faz uma caipivodca para mim com aquela vodca ali?

É pra agora, o empregado não pestanejou.

Eu vestia meu biquíni vermelho, não é tão pequeno mas deixa os homens loucos; uma camiseta justa me cobria até o umbigo. Trazia no ombro a bolsa. Pronta a bebida, comecei a mordiscá-la.  Descobri então um homem que me admirava, e já devia estar ali fazia tempo. Dei uma ajeitada na pose, tomei o copo nas mãos e fui até uma cadeira vaga, numa das mesas que me permitia olhar quem andava no calçadão. Ele se aproximou.

Posso sentar aqui?, quase não há lugar.

Ok, fiz ar displicente.

No começo, fingiu não querer nada comigo. Olhou a paisagem, as pessoas, o empregado do quiosque.

Essa bebida é ótima, não?

É, falei e continuei indiferente.

Deixa a gente a mil.

Poucas palavras as suas, mas suficientes para me calar. Lembrei uma amiga que sempre diz que caipirinha é bom porque sobe pelas pernas em questão de minutos.

Respirei fundo. Ele prestou atenção.

Essa sensação passa, mas só depois de meia-hora, a não ser que se encontre um grande amor, falou.

Não aguentei, tive de rir. Um tempinho depois contei o que minha amiga me dissera.

Ainda dentro d’água. Ele já conseguia me segurar pela cintura, puxou meu corpo para junto dele. Não ofereci resistência. O mar nos levava para cima e para baixo. Às vezes, espumas nos invadiam. Ele beijou minha boca. Deixei que sua língua me ultrapassasse os lábios. Deslizou várias vezes as duas mãos pelas minhas costas, me aprumou rente a ele, ventre contra ventre.

Você não teme o mar?, perguntou.

Só quando há correnteza.

A correnteza hoje são as minhas mãos, os meus braços, os meus lábios; tacou-me mais um beijo.

Nadamos um pouco mais adiante, flutuamos atrás da arrebentação.

Calma, falei, assim você me deixa nua.

Ele havia puxado o meu biquíni, descera até as coxas, um pouco acima dos joelhos.

Você é muito gostosa.

Vamos fazer uma coisa, falei, namoramos como duas pessoas decentes, depois você me leva para onde quiser e lá...

Tudo bem.

Foi assim que aconteceu. Acabei no apartamento dele, ali na Djalma Ulrich. Fiquei até pouco depois de meia noite. E ainda estava de biquíni. Antes de partir, porém:

Você não tem uma camiseta comprida para me emprestar?, pedi.

Tenho, mas só aceito se for uma troca, ainda que temporária.

Troca?, fiz cara de que não entendi.

Ele olhou para o meu biquíni.

Jura que você quer?, perguntei.

Brincadeirinha.

Ele foi ao quarto pegar a camiseta. Enquanto isso entrei no banheiro, tirei o biquíni e o dependurei na torneira do chuveiro. Ele me passou a camiseta pelo vão da porta. Vesti e me olhei no espelho. Caiu bem, era como se eu usasse um minivestido.

Ao sair, beijei meu recente namorado mais uma vez. Ele insistiu querendo-me levar em casa.  Eu disse que não era necessário. Tomei o elevador e desci.

Desejava andar pelas ruas de Copa, apenas a camisa curta prestes a revelar minha nudez, ou lhe deixara o biquíni como um mimo? Nada disso, o ardil tinha outra intenção. Que ele me procurasse na manhã seguinte.

domingo, fevereiro 22, 2015

Ele adora me ver sem sutiã

Ele adora me ver sem sutiã. Apenas a calcinha, e bem pequena, entrando toda no bumbum. Mas um dia desses aconteceu um problema. Não digo que seja ele o culpado, eu também andava gostando da brincadeira. Nossa cidade não é grande, mais cedo ou mais tarde todos acabam se conhecendo. Há pessoas de famílias tradicionais, que vivem aqui desde uma época que já se perdeu no tempo; há outras que vieram há duas ou três décadas para trabalhar na industrialização que começava. Minha família é desta época. Há também empregados que ficam na cidade apenas nos dias de semana, sexta à noite voltam para os seus lugares de origem. Isso tudo para contar o que me aconteceu de anormal, vejam só. Meu namorado, com tais gostos extravagantes, passou a pedir que eu saísse sem sutiã. No princípio, não aceitei; depois, fiquei na dúvida. Até que, num dia desses, resolvi arriscar. Para muitas mulheres, andar por aí sem sutiã é a coisa mais normal do mundo. Para mim não foi tão fácil. Na primeira vez me senti nua, e olha que costumo ir à praia com um biquíni mínimo. O dia em que saí apenas com uma blusinha de verão por cima da pele foi para ir a um restaurante. E meu namorado me prometeu que seria à meia luz. Promessa cumprida. Fiquei achando, porém, que todos estava olhando para mim e descobrindo meus seios. Na vez seguinte, fui sem sutiã a uma discoteca. Estava uma loucura. Nem houve tempo para eu pensar que os homens me adivinhavam nua. Mas um dia na praia, quando ficamos num bar bebendo e comendo uma besteirinha, reparei um homem que me olhava com insistência. Ele estava em outra mesa. Apesar de eu ter estado de top durante o tempo em que fiquei na praia, ao irmos ao bar meu namorado pediu que eu fosse ao carro e que voltasse apenas de camiseta. Dois dias depois dei com o mesmo homem na condução, enquanto eu ia para o trabalho. Achei que fosse coincidência. Três dias depois, quando voltava a um dos restaurantes com o namorado, o homem estava lá de novo. Concluí que estava me seguindo. Comecei então a ficar preocupada, mas nada falei ao meu namorado. Na semana seguinte fomos à praia, era de tardinha. O tempo estava fresco. Logo ao entrar na água, meu namorado começou a me abraçar, a me beijar, a passar as mãos por todo o meu corpo. Não demorou a pedir que eu tirasse o top. Pode aparecer alguém, alertei. Não aparece não, falou, a praia está quase vazia. Fiz a vontade dele. Ele pegou meu top e levou lá para a areia, onde estavam as nossas coisas, como a cadeira de praia, minha bolsa e uma toalha. Fiquei com os peitos nus, debaixo d’água. Meu namorado, ao menos naquele momento, teve razão. Ninguém à vista. Três dias depois fui à praia sozinha. Fazia um calor intenso. O namorado disse que, caso resolvesse o problema de uma construção sobre a qual era o responsável, viria à orla mais tarde encontrar comigo. Para minha surpresa, logo que mergulhei, após ter permanecido meia hora sob o sol, dei de cara com o tal homem que me seguia. Aproximou-se e perguntou como eu estava passando. Nada respondi. Tentei me afastar. Ele falou outro dia vi que você tomava banho sem o top, seu namorado gosta da brincadeira, não é mesmo? Fiquei desconcertada. Mas mantive a pose enquanto voltava à areia. O homem não me abandonou, Afastou-se, porém permaneceu nas proximidades. Reparei que continuava de olho em mim. Naquele dia, meu namorado não apareceu. Às duas horas, voltei para casa. Andamos por bares e restaurantes, festas e algumas boates, eu sempre sem sutiã e usando roupas de acordo com o desejo do meu namorado. O homem que me seguia desapareceu durante alguns dias, mas não desistiu. Confesso que comecei a gostar de estar sendo admirada por dois homens, muito másculos por sinal. Três semanas depois voltei sozinha à praia. O homem, quase como um fantasma, apareceu ao meu lado, na areia. Oi, gata, quanto tempo, que saudade, ele disse. Tive de rir. O que ele encarou como sinal de vitória. Conversamos um pouco. Entramos na água. e acabei nos braços dele. A cidade não é grande, sussurrei, logo aparece uma conhecida. Deixa comigo, ele retrucou. Ficamos abraçados, bem longe da areia, eu de costa para aquele pequeno mundo. Dali fomos direto a um motel, numa cidade vizinha. Cheguei em casa quase à noite, ainda vestindo o biquíni. Ou sem ele!, o homem me deixou louca. Passei a namorar os dois, mas morta de medo de ser descoberta. O segundo, que eu chamo de namorado fugidio, sempre me tranquiliza. Deixa que eu resolvo, afirma com toda a segurança do mundo. E resolve mesmo: exige muito mais de mim do que andar sem sutiã.

quarta-feira, fevereiro 18, 2015

Chá de cadeira

Estava na cafeteria, na Rainha Elizabeth, havia pedido um expresso e um croissant, quando apareceu a Hellen.

"Oi, que bom encontrar você, posso sentar aqui?", perguntou e sentou antes de eu responder.

"Oi, tudo bem?, que bom te ver", tentei ser simpática.

“Quer dizer que ele te deu um tremendo chá de cadeira?”, perguntou, ardilosa.

“Chá de cadeira?”, fiz de conta que não entendi.

“É porque ele é muito assediado. Você precisa ver, todas as mulheres vão atrás dele.”

Engoli a seco e comecei a pensar no perigo que eu corria.

O namorado quase me caíra do céu. Tinha um escritório no mesmo prédio onde trabalho com moda. Sempre me cumprimenta e faz olhos compridos às roupas que uso.

“Você tem bom gosto”, óbvia, a opinião dele.

Como Helen soube do chá de cadeira?, pensei.

“Ele usa uma pasta larga, não é mesmo?”, ela continuou. “Não sei o que leva lá dentro, mas é grande para um advogado.”

Gelei. Será que ela sabia? Como?

“Oi, meu amor, que bom você ter vindo, tenho um tempinho”, ele levantara e viera me beijar. O escritório de um bom gosto incrível. E há um divã.

“Pra que o divã?”, cheguei a perguntar à primeira vez.

Ele apenas sorriu. Não demorei a entender.

“Dizem que ele dá muitos presentes a todas as namoradas”, Helen afirmou eufórica.

“Você já o namorou?”, demonstrei ciúme e curiosidade.

“Quem dera, nunca tive tamanha sorte”, suas palavras revelavam certo ar de frustração.

Ao dizer que tinha um tempinho, eu já entendia o que ele desejava. Me levantava, girava meu corpo no ar e depois me deitava no divã. Num desses dias de namoro fez a proposta.

“Você espera por mim?, não demoro. Assim, quando estiver de volta faço mais carinho em você.”

“Espero na minha sala”, sugeri.

“Não, por favor, fique esperando aqui.”

“Tenho também de trabalhar.”

“Você trabalha pelo telefone, pois ligue daqui.”

“Ok”, acabei cedendo.

“Quero ter certeza de que você não vai embora”, acrescentou.

“Não vou, prometo.”

“Levo seu vestido. Assim você não vai poder sair.”

“Meu vestido?”, chegue a suar ao ouvir a proposta. “Quer dizer que vou ficar pelada, aqui?”

“Isso, o que há de mais?”

“E se você não volta?”

“Você acha que vou abandonar meu escritório?”, ele riu, como se fosse algo mais absurdo do mundo. “Trata-se apenas de um jogo.”

“Não sei, isso parece brincadeira de criança”, retruquei.

“É bom ser criança em alguns momentos, não?”

“Não sei. Lutei tanto para amadurecer.”

“Ok, então vá a sua sala. Foi apenas uma proposta indecente. Ah, lembra a pulseira?, encontrei o ourives. Encomendei uma pra você”, sorriu no fim da frase e veio me beijar.

“Ok, doutor”, falei com ironia, “pode levar meu vestido. Eu espero.”

Ele se foi todo feliz. Resolvi tudo que tinha de resolver, pelo telefone. Meus clientes jamais saberão que, apesar de trabalhar com moda, liguei para eles inteiramente nua. Meu namorado? Demorou quase três horas para voltar. Me deu um tremendo chá de cadeira! Mas a pulseirinha, que linda...

Veio a garçonete com o meu expresso e o croissant; perguntou a Hellen o que desejava. Mas ela estava interessada na minha vida mais do que eu. Oh, pensei, por que nada pode ser perfeito?

quinta-feira, fevereiro 12, 2015

Ainda bem que existe o carnaval

Sempre fui tímida. Arranjar namorado, nem se fala. Caso alguém venha falar comigo, fico desarmada. Não tenho palavras para sustentar um diálogo nem por dois minutos. Ainda bem que existe o carnaval, a festa que nos faz virar a cabeça. No meu primeiro carnaval, quando já me sentia um pouco mais madura, fantasiei-me de colombina. Levei, porém, uma máscara. Não estava preparada para brincar de rosto descoberto. Outro ponto que combinei comigo mesma naquele ano, não me divertiria perto de casa. Escolhi um bairro distante e lá fui eu. Não sabia que seria tão fácil dançar, e até arranjar namorado. No começo, deixei-me levar pela música, pelos tambores e, depois, pelas mãos dos rapazes. Como não era conhecida no lugar, não havia nada de mais me divertir, permitir até mesmo que me beijassem. Já naquela época, pelo menos nas primeiras horas de diversão, sempre achei melhor fugir dos rapazes que me queriam exclusiva. Misturava-me à multidão e aparecia na outra ponta do cordão, ou mesmo algumas ruas à frente, quando, furtiva, podia apreciar outra música, outro ritmo, outros homens e deixar, pouco a pouco, que escorregassem seus braços pelos meus ombros e cintura. Com o passar do tempo, tornei-me desinibida. Já não usava máscara, e não fugia assustada dos primeiros foliões que me queriam abraçar. Apenas os recusava polidamente e marchava adiante, sempre no ritmo da música. Outro ponto, oferta que a passagem dos anos me proporcionou, foi o despojamento da fantasia. De carnaval a carnaval, preparava uma roupa mais confortável e, não posso deixar de salientar, menor. Os homens são tarados por mulheres nuas. Além de fazê-los enlouquecer, sentimos um gozo todo especial ao andarmos nuas pela cidade. Portanto, minhas sainhas da fantasia subiam cada vez mais, ou mesmo desapareciam. Ora usava short, ora biquíni. Algumas pessoas devem desejar saber como é possível estar fantasiada vestindo apenas biquíni. É plenamente possível. Pode-se ressaltar a época que se deseja representar. Como era o biquíni nos anos 1950? Como nos 70? Como nos 90, ou mesmo nos nossos dias? Por isso, a cada dia de carnaval, é possível espelhar uma época. Claro que o observador deverá ter conhecimento desses períodos para compreender a fantasia. Mas aí o problema já não é meu. Outro ponto: como, ao usarmos um minúsculo biquíni, podemos transmitir a ideia de que não convidamos os homens a nos deixarem nuas ou a não transarem conosco? Será preciso, então, demonstrar que o nosso objetivo é dançar, pular carnaval, e que braços e mãos daqueles que nos admiram devem ficar distantes. Mas para isso precisamos ter muita energia. É necessário dançarmos sem parar. Assim, deixaremos exausto qualquer um dos rapazes. Acompanhar toda a nossa alegria tornar-se-á para eles impossível. Ficarão para trás. Como ter tanta energia? Mas sobre isso nada falamos, é o nosso segredo. Outra fantasia, já antiga, que arrasta uma fileira de homens atrás da gente – pude constatar faz três anos – é a saia de franjinhas. Aquele tipo de minifantasia que obriga os homens a torcerem o pescoço ao cruzarem conosco. Eles têm razões para querem certificar se usamos calcinha ou se vamos nuas. Trata-se de uma das minhas fantasias preferidas. Mas no carnaval que estou vivendo agora, optei por um tipo de canga especial, de renda, como um vestido de noiva, com apliques aqui e ali, evitam, desse modo, a total transparência. O tecido fino cobre e, ao mesmo tempo, desnuda o meu corpo. Desperta também a curiosidade dos homens: há algo sob a fina teia? Ao mesmo tempo, posso amarrar a renda do jeito que desejar. Ora como um tomara que caia, ora cruzando o pescoço e deixando entrever um pedaço de seio (será que vai solto ou há algum suporte invisível?, pois se mantém tão rijo). Mais um segredinho, sempre prefiro os espaços descampados, as ruas largas, o ar por sobre a minha cabeça, ou mesmo a água a molhar-me o corpo caso venha a chuva. Nada de me divertir encurralada em camarotes estreitos dos bailes de carnaval. Nada de estar nas mãos de homens destemperados. Ou melhor, não quero pano algum meu segredado pelas mãos deles. Basta-me o arrepio da rua, basta-me o perigo aparente do folião imprevisto, meu suposto algoz. Apenas suposto, porque na hora agá gozo. Apesar da timidez, tenho o poder de perceber no lampejo dos seus olhos a virtude de esperar primeiro a satisfação das mulheres. E continuo na folia. Diálogos? Lembram lá em cima? Jamais sustentei. Nem por dois minutos. Nem para pedir de empréstimo a camisa caso, no fim da folia, surpreenda-me o raiar da quarta-feira.

terça-feira, fevereiro 10, 2015

Ela mostrou o bumbum

Célia, neste bairro acontece cada coisa impressionante. Sempre digo, Copacabana é um celeiro de todo tipo de história, você que gosta de escrever, ouça, de repente, quem sabe, surge mais um conto.

Clara, você também é uma ótima narradora.

Sei que sou, mas estou mais para a oralidade, para as fofocas. Está rindo, Célia? Verdade. Então escute. Um amigo, o Sérgio, estava andando pela praia num dia desses ao entardecer, uma dessas caminhadas que as pessoas exercitam para dizer que estão cuidando da saúde. Você entende, não? Ia ele ali pelo posto quatro quando reparou uma moça de miniblusa e saia branca curtinha. Ela era alta, do tamanho dele, também caminhava. Sérgio olhou as pernas dela e ficou impressionado com a lisura e a beleza. Mas o que lhe chamou a atenção mesmo foi o comprimento da saia. Pensou, bem, ela deve estar de biquíni. Ele continuou a marcha. Diz que sempre sai do posto seis e vai até o Windsor, depois retorna ao ponto de partida. Foi assim que fez. Na volta, no final da caminhada, parou no último quiosque e pediu um coco. Tomou a água enquanto olhava para o mar, que estava plácido, bonito, os últimos raios de sol refletindo sobre a superfície, um espelho, segundo ele. Quando voltou o rosto para o calçadão, reparou a moça de saia curta. Ela também terminava a caminhada e vinha na sua direção. Parou no quiosque e pediu uma garrafinha d’água. Ao levá-la à boca, sorriu para o Sérgio. Ele gostou do sorriso, e começou a pensar como faria para conversar com ela.

Isto é fácil, Clara, bastava comentar sobre o tempo, sobre a placidez do mar, a beleza do dia...

É fácil, sim, Célia, mas meu amigo é uma pessoa sofisticada, gosta de impressionar. Ouça. Ele não precisou falar nada. Ela é que iniciou o assunto. Bom está pra o stand up, ela lançou o tema. Stand up é aquela prancha em que a pessoa vai em pé. Ele arregalou os olhos e respondeu alguma coisa do tipo, pratica você este esporte? A moça fez que sim e começou a desfiar uma história. Para não me alongar. Ele acabou convidando-a para a prancha naquele momento. Alugariam duas, uma para cada. Agora não posso, ela falou, vai você, fico apreciando. Ele disse que então era melhor ficar com ela, os dois a conversarem. Desceram até a praia e olharam mais de perto as pessoas que praticavam o tal esporte. No final, ele arremessou sua saia é tão bonitinha. Você quer dizer curtinha, ela rebateu. Ambos sorriram. Tenho ainda uma surpresa, ela acrescentou. Surpresa?, ele quis saber. Embaixo da saia, a moça completou. No início, ele achou que ela se portou de modo vulgar ao dizer isso. Mas, a seguir, ficou curioso. Debaixo da saia?, o que você quer dizer com isso? Ela respondeu nadinha. Nadinha?, ele repetiu surpreso. Quer se certificar?, ousou a moça. Ela caminhou dois passos à frente e deu uma levantadinha na parte de trás da saia, mostrou o bumbum. Ele sentiu um solavanco no peito.

E depois, Clara, o que aconteceu?

Sérgio quis levá-la imediatamente ao seu apartamento. Mas a moça desconversou, disse que marcaria outro dia. Ele ainda perguntou como você pode agir assim?, vem à praia, mostra a um homem que está nua, provoca-o e depois quer fugir. Brincadeirinha, ela revidou, vai dizer que não gostou? E ficaram os dois nisso mesmo. Ou melhor, houve um abraço bem apertado, um beijo na boca, e a sainha dela nas mãos do meu amigo. Ao olhá-la nua diante dele após soltá-la do abraço, apaixonou-se. Você tem certeza que não quer ir comigo hoje?, a voz de Sérgio saiu meio embargada. Prometo ir outro dia. Grave então meu endereço, ele tentou modular o tom, apareça amanhã ou depois. Vou sim, foi a vez dela. Dois dias depois, à noite, escutou o interfone. Era ela. Não esquecera o endereço. Vestia uma sainha do mesmo comprimento. Beijou-o ao entrar, trazia no rosto intensa alegria. Namoraram boa parte da noite. Quando estava para ir embora, já madrugada, acrescentou não vá me fazer voltar pelada de novo pra casa. E sorriu safadinha. Até agora ele não me contou se ainda arde a paixão.

sexta-feira, fevereiro 06, 2015

Cavaleiro Negro

– Parece que estou num forno – gemeu a jovem, dilatando as narinas porejadas de suor. Se soubesse teria inventado uma fantasia mais leve.

– Mais leve do que isso? Você está quase nua, Tatisa. Eu vinha com a minha havaiana, mas só porque aparece um pedaço da coxa o Raimundo implica.* 

– Você devia deixar o Raimundo pra lá. Fantasia leve pra mim seria uma minissaia de baiana e bustiê, sem calcinha.

–Verdade, no carnaval ninguém é de ninguém. 

A amiga de Tatisa frequentou os bailes de carnaval nos clubes mais famosos do Rio de Janeiro, onde tudo era liberado. Existia troca de pares para dançar e até mesmo para fazer outras coisas. Ela lembrou-se de um fato que lhe aconteceu anos atrás. Será que nesta noite iria se repetir, mesmo se tratando de um baile no interior?

Ela conheceu um Cavaleiro Negro, por quem logo se apaixonou. Fingiu ir ao banheiro e se escondeu atrás de uma pilastra larga, que se alcançava passando por fora do salão. Ninguém imaginaria que alguém com tanta vontade de fazer sexo ao som das marchinhas pudesse ir tão longe para se deliciar com as taras de um homem misteriosamente fantasiado. Quando o Cavaleiro a viu sair também se esquivou, sabia que daquela fuga lhe renderiam os prazeres da ancuda fantasiada de baiana.

Chegando ao local, o mascarado avistou a moça já se enroscando na pilastra. Parecia estar subindo pelas paredes. Ele se aproximou de mansinho e a abraçou pela frente. Sentiu as cochas suadas da mulher. Em toda aquela esfregação notou que não havia empecilho para que seu honroso pênis penetrasse as entranhas da buceta da baianinha. Os dois se deliciaram a ponto do orgasmo ter escorrido pelas pernas dela.

No salão, Tatisa estava entediada, não tinha aparecido nada de exorbitante para ela, somente uns bobões querendo dançar em forma de trenzinho. Ela comentou:

– Você sumiu pra onde? Está com uma cara de felicidade. Estou achando esse baile uma merda. Amanhã você me conta o que houve.

Às quatro da manhã o baile terminou e as duas foram pra casa. Antes de dormir Tatisa insistiu no assunto, e quando a amiga contou o que lhe tinha acontecido ela enlouqueceu. Queria vestir a fantasia de baiana e voltar lá pra também tirar uma casquinha. Mas já era dia. Elas então se prometeram trocar de personagens no dia seguinte só pra Tatisa poder tirar o seu pé da lama.

É lógico que a amiga faria esse sacrifício para deixar Tatisa saborear o cavalo negro, mas ela mesma não ficará no abandono. É muito criativa e sedutora.

* As duas primeiras falas deste texto pertencem ao conto "Antes do baile verde", de Lígia Fagundes Teles.

quarta-feira, janeiro 28, 2015

Rigolleto é sempre Rigollerto

Certa feita, uma linda mulher comentara com suas amigas sobre as taras do seu amante, Rigolleto: “Ele é o máximo. Todas as vezes que me pega, me leva ao delírio. Já trepei com muitos homens, mas todos muito sem sal. Rigolleto sempre está com o pau duro quando chega perto de mim. O volume de suas virilhas é notado através de sua calça. O zíper quase se abre quando me abraça.” A linda mulher ao relatar seus prazeres diante de várias mulheres sexys mantinha um semblante de tesuda. Acrescentou que uma vez conheceu uma teúda e manteúda que esbanjava elogios sobre certo macho dela com o nome de Rigollerto. A linda mulher no momento ficou com a pulga atrás da orelha. "Será o meu Rigolleto?” A teúda e manteúda relatava momentos de amor parecidos com os que a linda mulher gozava com seu parceiro, que nunca falhava em suas investidas de amor. Tudo o que Rigolleto fazia tinha sentido para a linda mulher. Ele a banhava em caldas de cerejas e lambia até as entranhas de sua buceta. Todas as vezes que inventava algo, era ousado e estimulante. No mês de janeiro fazia um calor intenso, Rigolleto então pegava um saco de gelo e banhava o corpo da linda mulher. Mesmo com o calor do seu sexo misturado ao calor do ambiente tudo continuava perfeito. As amigas desejavam saborear Rigolleto. Todas murmuravam ao ouvir as aventuras que a linda mulher narrava. Num passeio de férias, quando viajaram para o exterior e se encontravam num restaurante, a linda mulher avistou sua conhecida, a teúda e manteúda, antes de Rigolleto. A mesa reservada a eles era num cantinho bem discreto e a linda mulher observava o comportamento da teúda e manteúda sem que ela percebesse. Momentos antes de pedir a conta, Rigolleto se ausentou para ir ao banheiro, tinha esbanjado no champanhe. A linda mulher não percebeu que Rigolleto também havia visto a teúda e manteúda. E como já se conheciam, conseguiram dar um chá de cadeira na linda mulher. Saíram de fininho e foram se esbaldar num motel de luxo. Com o nome diferente por aumentar um “r”, Rigollerto fez das boas trocando sua linda mulher pela teúda e manteúda. Rigolleto ou Rigollerto, sendo a mesma pessoa, não permitia coincidências nos comentários da linda mulher e da teúda e manteúda. Será que a linda mulher ao elogiar seu parceiro às amigas perdera Rigolleto somente para a teúda e manteúda?

sexta-feira, janeiro 23, 2015

Atriz de telenovela

Lucélia abriu distraída a revista, e na penumbra mal se reconheciam as figuras.

“Quero uma foto como esta”, mostrou ao namorado, “é de uma atriz de telenovela”, falou e sorriu com o ar de futilidade, que sempre trazia no rosto. Marcos olhou a mulher, entortou um pouco a cabeça numa posição que revelava certo esforço para enxergar a foto.

“Mas ela está vestida, e parece com um Versace”, terminou a frase e lhe beijou uma das bochechas.

“Estou nua por sua causa. Quem por acaso deslizou as mãos por baixo do meu vestido no escurinho da boate?, quem depois me convidou para esse apartamento?

“Você tem razão”, ele continuou, “gosto de você, acho atraente sua silhueta. Faço a foto sim, basta que fique na mesma posição, e acho até mais instigante que lhe falte a roupa.”

Lucélia cruzou as pernas, levantou o tronco e sorriu. Fez de conta que olhava para algo distante, abstrato, assim como a mulher da foto. Marcos clicou duas vezes. Ela esperou que o homem viesse com um novo beijo, ou mesmo que a carregasse no colo e a levasse para a cama. Quanto ao vestido curto desaparecido, que usara na discoteca, não se importava, ainda era noite, faltavam duas ou três horas para o amanhecer, aproveitaria o amor proporcionado pelo recente namorado, depois arranjaria uma maneira de se safar. Já que gostava tanto do próprio corpo, das sensações táteis, e do sexo masculino a lhe roçar as pernas, o prazer que transpirava era maior do que o temor. Além de tudo, os homens adoram jogos e fantasias. A revista com as fotos das artistas jazia agora ao seu lado, sobre a poltrona.

“Já aconteceu isso alguma vez com você?”, Marcos quis saber. Ele aproximou-se e a abraçou.

“Isso?”, fez de conta que não entendeu.

“O caso do vestidinho. Você está tão tranquila, dona de si”, acrescentou ele.

“Claro que não. Quanto ao estado de espírito, sempre fui muito tranquila.”

Ela havia roçado uma das mãos sobre a capa da revista, voltou o rosto para o namorado, que aproveitou para lhe beijar os lábios.

Deitaram e mergulharam num longo amor. Depois adormeceram.

Ao acordar, por volta das nove da manhã, Lucélia se deu conta de que era domingo. Amaram-se mais uma vez.

Foram embora duas horas depois. Ela sempre fora uma mulher fútil, tanto suas amigas quanto os vários homens que já haviam estado com ela não duvidavam disso, mas sabia se arranjar. Do apartamento, entraram direto no automóvel de Marcos. A moça, bonita como sempre: o sorriso discreto; o cabelo castanho claro úmido, espetado para cima; e o vestido preto, curto, coladinho ao corpo, em contraste com a pele branquinha. Guardaria boas lembranças da noite que ficava para trás.

quinta-feira, janeiro 15, 2015

Cabia na palma da mão

O tempo que durou sua ida ao toalete e a volta à mesa, onde Oswaldo a esperava, Janete pôs em ordem os acontecimentos passados e recentes. Embora o tempo fosse curto, o jorro de pensamentos que lhe afluía à mente era suficiente para recuperar histórias extensas, que preencheriam pelo menos um volume de romance. Chegara ao restaurante no final da tarde; Oswaldo já a esperava. Os dois haviam vivido juntos fazia alguns anos. Talvez por falta de reflexão tivessem terminado o relacionamento. Ele, de outra cidade, vinha ao seu encontro assim que o trabalho permitia. O problema talvez fosse esse. Como ter alguém de tão longe, que podia acompanhá-la apenas nos momentos que lhe sobravam? Durara três anos o namoro, ou o casamento. Cada um que o defina à sua maneira. Sabia que o homem ainda a amava, ou ao menos a desejava. Sempre recebia convites para um café, um jantar, ou uma cerveja, que ela não tomava porque preferia suco. Oswaldo mantinha na mente a imagem de Janete. A mulher nua que descera ao primeiro andar apenas por molecagem. Batera à porta para que ele a recebesse e sentisse seu corpo quente. Dera certo. O ardil o capturara; ele sempre lembrava o fato. Houvera outras ações, sempre protagonizadas por ela, estrela rubra que incendiava a relação. A ação de sair nua se repetira. Acontecera de outra vez no automóvel, madrugada fria. Pediu que ele parasse no acostamento, quis sair, apenas a pulseira e a sandália meio salto. Caminhou à beira da estrada durante um bom quarto de hora, perdeu-se num bosque. O homem enfeitiçou-se com tal atitude. E que homem escaparia? Além de enfeitiçado ele já se mostrava apaixonado. Numa das vezes em que terminaram a noite na praia, após intenso jogo erótico, Janete pôs-se a correr nua pela areia; na volta a casa – uma casa de vila – ela ainda quis manter-se em pele. Oswaldo, então, surpreendeu-a. Correu para casa com toda a roupa de Janete sob o braço. Ela, ainda no banco do carona, calculou a distância que precisaria caminhar, vinte ou trinta metros sob céu aberto, até a porta de casa. E havia o vizinho que acordava cedo. Mas Janete não se atemorizou. Descobriu uma camiseta esquecida no banco de trás. Vestiu-a. Jamais um vestido tão curto. Caminhou altiva, cumprimentou o vizinho e bateu à porta de casa. O namorado, que morria de tesão, demorou a abrir. E que trepada naquele fim de madrugada. Houve uma vez em que contara tais sucessos a uma amiga. Talvez o único erro que cometera. Não se deve falar sobre essas coisas nem à melhor amiga. A tal mulher foi atrás de Oswaldo, quis para si também os sucessos. E, como acontece a todo homem, ele não deixou passar em branco. A mulher imitou-a até no episódio da praia, em Rio das Ostras. Aceitou tomar banho nua. Entrou na água com Oswaldo, tirou o biquíni e o entregou nas mãos dele. Mas, ao contrário de Janete, pediu que ele fosse embora, que encontrasse com ela somente no dia seguinte, em M. Ele atendeu-lhe o pedido. No dia seguinte ela contou a Janete, e ainda pediu que procurasse o biquíni levado por Oswaldo. Isso azedou o relacionamento entre Oswaldo e Janete. Ele ainda procurou pela mulher que deixara nua na praia, quis saber o que aconteceu depois que foi embora. Ela jamais contou. Essa atitude atraiu ainda mais o homem. Os homens são bobos, deixam-se levar por fantasias passageiras, pensou Janete. O que fazer depois disso? Afastaram-se. E sua amiga, ao mesmo tempo, afastou-se de Oswaldo, foi perder a roupa para outro homem, como soube depois. Janete ainda não voltara do toalete. As imagens em sua mente eram vivas, todo um passado em cinco ou dez minutos. Do que são capazes as imagens, pensava. O reencontro com ele já durava três meses. Mas ela já estava casada com outro. Conhecera-o num desses sítios de relacionamento, e ele logo viera dividir com ela a mesma casa. Contou a Oswaldo sobre o homem. Sobre o novo relacionamento. Mas havia um ponto sobre o qual deveria ter calado. Oh, ela sempre falara demais. Tratava-se de sua intimidade. Contara que não mantinha relações sexuais com o novo marido. E era verdade. Apenas amizade. A iniciativa fora do homem, pois ele disse sofrer de certa doença. Como conseguia viver com uma pessoa sem usufruir o principal do amor?, Oswaldo quis saber. E logo ela, tão fogosa, a desfilar nua pela cidade, tão quente no amor, tanto o ardor, a ponto de contagiar as amigas. Os tempos mudam, contra-argumentou Janete. Hoje, estou satisfeita assim, acrescentou. Disse que o marido era boa pessoa. Todos gostam dele, mas é apenas uma companhia para mim, repetiu ainda uma vez. Usou o "apenas" com significado de tudo, seu dicionário particular. Oswaldo lembrou-lhe de alguns eventos que vivenciaram juntos no passado, como o abraço apertado que ela gostava de sentir; o sexo no automóvel, na praia, o dia que foi surpreendida dentro d’água, mas por uma mulher. Janete ardeu durante o jantar. Não queria, no entanto, dar o braço a torcer. Não queria falar mal do atual marido. Oswaldo teve a delicadeza de não dizer que ela enganava-se, apenas sorriu, olhou um pouco para cima, depois voltou os olhos até que um lampejo refletiu-se dos olhos de Janete. Então a ida ao toalete, a demora para voltar. Todo um filme na cabeça. Não o encontraria mais, decidiu ainda trancada no toalete. Reparou que estava com a calcinha na mão, como nos tempos de namoro com Oswaldo. Ele adorava Janete nua. Aliás, os homens adoram que as mulheres andem nuas. Os homens adoram mulheres com a calcinha nas mãos. Mas ela decidira, seria a última vez que os dois se encontravam. Melhor o marido, melhor a companhia. Não a fazia arder, não lhe provocava nenhum tipo de desequilíbrio. Ela não podia dizer o mesmo quando se via ao lado de Oswaldo, mesmo em imaginação. Não queria sair dali correndo, nem desejava se esconder num hotel com Oswaldo, retomar todo um passado posto por terra fazia tempo. Melhor a segurança do homem atual, seu sorriso, os favores que lhe prestava. Ah, quanto ao sexo... Oh, não pensaria sobre isso. Mas queria, ao mesmo tempo, que Oswaldo não a esquecesse. Afinal, as mulheres gostam de se sentirem lembradas. Voltou a Oswaldo, agradeceu-lhe o jantar, o encontro, mas precisava partir. Tinha um compromisso. Um presente, estendeu-lhe a mão. Pequenino o presente. Cabia na palma da mão. Sabia que ele aceitaria com gosto. Guardaria como relíquia, ou como um troféu, quem sabe. Afinal, uma lembrança. Nenhuma mulher gosta de ser esquecida.

quinta-feira, janeiro 08, 2015

Você tem camisinha?

Ele me beijou logo após abrir a porta. Entrei, olhei ao redor e sorri.

“Vim ficar um pouquinho com você.”

A noite estava quente e faltava uma hora e meia para o meu ônibus. Naquele tempo eu trabalhava em M. mas morava em outra cidade.

“Que surpresa”, ele exclamou.

Continuamos abraçados. Beijamo-nos sofregamente durante vários minutos. Estalos, suspiros, respirações altercadas e mãos e dedos que procuram as sensações macias do amor carnal. 

“Você tem camisinha?”, enfim perguntei, mas com a voz miúda.

Ambos éramos recentes não só na cidade, mas também no cargo ao qual prestáramos concurso. Saímos uma vez para almoçar e permanecemos várias horas juntos. Acabamos tornando-nos namorados. Mas o namoro não durou. Sou ciumenta, sempre cismei que ele tinha outra. Algum tempo depois, pensando melhor, achei que não foi justo exigir dele fidelidade, pois estávamos numa cidade quase estrangeira para nós dois, e ali, depois do trabalho, andávamos o tempo inteiro juntos. Apesar dessas conclusões, não reatei a relação, ficamos sem nos ver por mais de cinco meses. Mas naquela terça-feira, resolvi bater à sua porta.

“Deixa eu ver”, falou e foi procurar a camisinha.

Voltou de mãos vazias.

“Puxa, que pena, queria tanto transar com você”, não escondi a frustração.

“Podemos transar”, rebateu.

“Mas sem camisinha...”

“A gente dá um jeito”, finalizou.

Já se passaram dez anos desde a tal noite. Acho que trepamos mesmo sem a camisinha, e tenho certeza de que voltei à sua casa mais duas ou três vezes. No ano seguinte, no entanto, conheci o homem que viria ser meu marido. Por isso, desapareci.

Faz duas semanas o encontrei num restaurante, no centro de M., totalmente ao acaso. Ele estava sentado e almoçava. Eu caminhava na direção do buffet. Então o avistei. Ele acenou, retribuí e me aproximei de sua mesa. Trocamos dois beijos ligeiros. Meu marido já tinha entrado e se servia no mesmo buffet.

“É o seu marido?”, apontou.

“Sim”, sorri. Percebi que a pergunta não veio à toa. Meu marido nesses dez anos envelheceu  muito, enquanto ele permanecia quase o mesmo, os cabelos grandes, pretos, usava rabo de cavalo.

“O que você tem feito?”, perguntou.

“Trabalho na região serrana”, respondi. Fazia os mesmos dez anos que eu me transferira para uma escola em G, onde passei a residir. “E você?”, acrescentei.

“Por aí”, falou e mordiscou um pedaço de carne.

“Ainda faz o mesmo trabalho?”

“Sim”, respondeu e, levantando o garfo, esperou que eu falasse mais alguma coisa.

“Foi um prazer, preciso ir, Marcelo me espera”, apontei para a mesa em que meu marido sentara. O ex-namorado virou-se para o local e acenou para ele. Marcelo retribuiu sorrindo.

“Até a vista”, emendei.

“Até”, finalizou, mas conseguiu enfiar em uma das minhas mãos o cartão com o seu número.

Dois dias se passaram para eu o encontrar de novo. Ele me esperava encostado na porta do carro. Cumprimos o mesmo ritual de beijos e de perguntas sobre como estávamos passando. Decidimos entrar num café, assim poderíamos conversar à vontade. Demoramos ali umas duas horas. No final, ele me ofereceu carona.

“Você vai para onde?”, quis ele saber.

“Para casa, em G.”

“Acho que passo em parte do caminho, caso você aceite a carona...”

Olhei as horas, meneei a cabeça e acabei fazendo um movimento que dizia sim.

Guiou durante quinze minutos sem dizer palavra alguma. Pareceu-me um tempo enorme. No meio do caminho soltei, de repente, um “pois é”. Ele virou o rosto na minha direção e sorriu. Parou no acostamento da rodovia.

“Não é aqui que vou ficar”, alertei.

“Eu sei”, frisou, “não foi por isso que parei.”

Nada mais perguntei. Saltei no seu pescoço e recuperamos a noite perdida havia dez anos. Foram muitos beijos, abraços e carícias. No final, sem me soltar de seu tórax, fiz a mesma pergunta:

“Você tem camisinha?”

Desta vez, ele respondeu que sim.

terça-feira, dezembro 23, 2014

No final das contas

Resolvi deixar para ficar nervosa depois. Olhei para Vilma e, com um movimento de olhos, lhe tentei dizer que devíamos aproveitar para nos divertir. O segredo era mostrar que estávamos gostando do passeio e da aventura. O homem, que parara o automóvel à margem do lago, tentava nos mostrar alguma coisa dentro da noite, que não conseguíamos ver. Estava excitado por estarmos nuas ao seu lado, mas em nada se mostrava ameaçador.

Lembrei as palavras de minha amiga, “Célia, não devemos aceitar carona de um desconhecido, tanto mais a essa hora da madrugada.”

“Qual a outra alternativa?”, ainda repliquei.

Depois, já dentro do carro, fui eu que fiquei surpresa com a resposta de Vilma quando ele perguntou:

“Vocês gostam de dinheiro?”

“Adoramos”, respondeu por ela e por mim.

Eu teria dito o mesmo, mas que o conseguíamos com o nosso trabalho. Vilma, no entanto, respondeu de modo impensado. Então ele fez a proposta. Daria dois mil a cada uma de nós. Ela sem pensar disse sim.

“Vilma, qual o interesse do homem em nos dar tanto dinheiro apenas pelo prazer de nos ver nadar sem roupa num lago, às três e trinta da madrugada?", eu a teria alertado.

Mas já havíamos guardado as notas de cem dentro das bolsas, que pousamos sobre uma pedra que ficava num recuo, entre a estrada e a pequena extensão de areia. Com os calcanhares dentro d’água nos pusemos a ir em frente.

“Nem está fria”, ela constatou.

Caminhamos até a água nos cobrir os ombros. A partir dali, começamos a nadar os cinquenta metros combinados com o homem. Fazia parte da aposta. Tive vontade de dizer que o desconhecido poderia ir embora levando nossas bolsas enquanto nadávamos, mas preferi guardar para mim essas inquietações.

Nada disso aconteceu. Cumprimos o que prometemos. E ele cumpriu sua palavra. Ao voltarmos à margem nos esperava do mesmo modo como o havíamos deixado. Sua face sempre revelando intensa euforia.

Ao sairmos d’água, pediu com humildade:

“Esperem ainda um momento.”

“Não foi isso que combinamos”, adverti. Mas me mostrei plena de sorrisos.

“Quero apenas contar uma história engraçada”, falou e começou uma estranha narrativa.

O homem se pôs a descrever a vida sexual dos cavalos. Falava e olhava diretamente para nossos corpos. Pela primeira vez senti que a roupa me fazia falta. Mas permaneci em pé, sem demonstrar a falsa segurança que me envolvia, mantinha as mãos paralelas ao corpo. Escutamos toda a história. Vilma aparentava cada vez mais surpresa à medida que ele avançava e entrava em detalhes sobre o sexo daqueles animais. Em algum momento ela, franzindo a testa, deu um passo à frente e apoiou as mãos à cintura.

Quando ele terminou, já estávamos com o corpo quase seco. Pegamos nossas bolsas e voltamos ao carro. Vinte minutos depois, entrávamos na cidade. Ainda estava escuro. Parou o carro a uma quadra do terminal de ônibus, que estava vazio àquela hora. Despediu-se e disse que saltássemos.

“Ei, não podemos ficar aqui, logo aparece alguém”, Vilma alertou.

Sugeri então que nos deixasse no parque. Como ainda não raiara o dia, teríamos tempo para pensar sobre o que faríamos.

Pôs o carro de novo em movimento e dirigiu até uma das extremidades do parque, um local bastante arborizado. Descemos. Ele nos acenou e partiu.

Até hoje não encontramos sentido para tudo o que aconteceu naquela madrugada nem o motivo que nos levou a ganhar tanto dinheiro.

“Ah, Célia, existem loucos de todos os tipos”, Vilma disse ao conversarmos dias depois, “no final das contas, não nos saímos mal”, acrescentou.

quarta-feira, dezembro 17, 2014

Se desapareço

Adoro vir ao Rio, sabia? É muito bom. Você não imagina por que digo isso. Mas falo, bem ao pé do seu ouvido, é porque aqui posso andar nua. Falo sério, não acredita? Na minha cidade, eu jamais poderia andar nua como aqui. Lá é preciso viver de aparência. Aqui, é diferente, muito diferente, você não precisa dar satisfação a ninguém. Outro dia vim à praia, ali no posto seis, em Copacabana, sentei junto a uma das mesinhas no último quiosque e pedi água de coco. Estava só, e apenas de biquíni. É uma maravilha poder ficar de biquíni na orla de Copacabana, andar pelo calçadão, tudo na maior liberdade. Ninguém na minha cidade sabe que vim ao Rio para isso, andar nua. Reparo que ao estar apenas de biquíni, não apenas à beira da praia mas também nos quiosques, os homens me olham com intensa satisfação. Sinto-me então mais nua. Outro dia um senhor veio conversar comigo, isso mesmo, um senhor, foi uns dias antes de conhecer você. Ele perguntou se eu era de fora. Fiquei surpresa. Nada havia falado até aquele momento e ele veio com a pergunta, adivinhou quase tudo sobre mim. Primeiro achei que fosse por causa do biquíni, tão mínimo, depois descobri o motivo, eu sempre me mostro muito dada. Isso mesmo, muito dada. Tenho uma amiga que diz que eu realmente dou muito! Engraçado, não? Brincadeirinha, eu, dar? As cariocas não dão muita conversa e nem olham para os homens. Ou melhor, olhar olham, mas possuem uma técnica especial de olhar sem se deixarem ser notadas. Você já viu alguma carioca ser fisgada espreitando um homem? Não, claro, isso não é possível. A carioca não cai numa rede. E se caísse, seria um escândalo. Acho que morreria de vergonha. Elas adoram andar nuas, mas o fazem como se fossem as mulheres mais vestidas do mundo. Fingem um pudor... Mas volto ao homem, depois falo mais de um fato que descobri nas cariocas, quero dizer, numa delas. O tal enamorado aproximou-se e estabeleceu um diálogo comigo. Como eu trazia uma revista, ele esticou os olhos para ver do que se tratava. Perguntou se poderia sentar à mesma mesa em que eu estava, no quiosque. Eu disse que sim, que ficasse à vontade. Ele se pôs a conversar sobre o assunto da capa da revista. Era uma revista de turismo, dessas que vêm uma vez na semana junto com o jornal. Uma reportagem sobre Cartagena, na Colômbia. O homem se apresentou, Jorge, e se pôs a falar de uma viagem que fizera àquele país. Não sei se era verdade o que ele contava, mas falou de coisas muito interessantes, disse inclusive que a cidade era a preferida de Gabriel Garcia Marques, aquele escritor de “Cem anos de solidão”. Meu admirador ficou um tempo enorme falando sobre a viagem, sobre os pontos turísticos da cidade. A seguir pediu que eu falasse de onde eu vinha. Contei então um pouquinho sobre Minas. Minas?, ele mostrou-se surpreso. As mineirinhas são muito espertas, afirmou e sorriu. Caí na gargalhada, então. Falei da minha cidade, do trabalho. Ele quis saber o que faço na vida. O que uma mulher do interior pode fazer além de ser professora?, respondi com a pergunta. Professora de quê?, continuou sorrindo, minha presença parecia o iluminar. De química? O homem gostou. Sempre é preciso rolar uma certa química, fez uma piada. Aliás, aqui no Rio as pessoas gostam muito de trocadilhos, já reparei isso. Vira e mexe inventam uma piada, mudam o sentido de uma palavra, de uma frase. O homem então me convidou para almoçar, queria que eu permanecesse com ele boa parte do dia. Como eu não conhecia ninguém nem tinha o que fazer, acabei aceitando. Você sabe, quando uma pessoa representa, tudo dá certo. Ele estava morrendo de vontade de tirar uma casquinha comigo. E eu também estava com a mesma vontade. Nenhum de nós, porém, falou nisso abertamente. Fomos ficando juntos, o tempo passando, o dia avançando e acabamos namorando. Mas foi um namoro light, aqui mesmo na praia. Você sabe, não precisa ficar com ciúmes, na praia não é possível nada além do que um namoro light. Fiquei com o número dele e ele com o meu. Mas não sei o que houve, nenhum de nós telefonou. E depois conheci você. Caso ele apareça, é isso que você quer saber, não? Caso ele apareça, apenas o cumprimento, falo que estou ocupada ou mesmo de malas pronta para voltar a Minas. No Rio as pessoas são discretas, não ficam perseguindo umas às outras. Principalmente aqui na Zona Sul. Os homens respeitam a vontade das mulheres. Quando uma diz que não, é não, e pronto. Lá na minha cidade é ruim para arranjar namorado. Quando acontece, os homens querem compromisso. Não aceitam que a gente fique com eles um dia ou dois. Logo acham que têm poder sobre nós. Eu, com essa mania de gostar de andar nua, acabei certa vez fazendo o comentário a uma namoradinho de ocasião. Ele, então, pediu para eu sair nua, no carro dele. Achei ótima a ideia. Resultado: o cara ficou tarado por mim. Foi um problema depois pra eu me livrar dele. Aqui, não, pode-se arranjar um namorado para apenas duas horas, para uma noite, no dia seguinte ambos desaparecem, ninguém incomoda ninguém. Do mesmo modo, é possível conhecer uma pessoa pra ficar conversando, sem segundas intenções. E as moças disfarçam, mesmo que transem com todos os rapazes. Outro dia dei um mergulho e esbarrei numa mulher bonita, a tal história da carioca. Não era tão moça, devia já ter passado dos 30 ou estar beirando os 40. Ela, assim como eu, estava nua e parecia sentir o maior prazer nisso. Fiquei pensando, como a nudez pode proporcionar tanto prazer às mulheres. Ela dentro d’água, só de top. Não me pergunte se a mulher já havia entrado nua na água ou se tirou o biquíni e pediu a alguém que o guardasse. Não sei lhe responder. O que pude perceber é que demonstrava um prazer intenso, e nem estava preocupada. Fiquei de olhar como iria fazer para sair da água daquele jeito, mas me distraí e a perdi de vista. Depois me bateu a dúvida, ela estivera nua mesmo ou foi impressão minha? Você ficou excitado com a historinha?, quer me roubar o biquíni e me deixar nua aqui dentro d'água? Quem sabe, olha que deixo, e já imaginou se desapareço... Você vai ficar a ver navios. Literalmente.

quinta-feira, dezembro 11, 2014

Roupa do corpo

Você não me acompanha?, sugeriu. Quem sabe, respondi atrevida. Olhares são capazes de tudo, e o homem possuía uma dessas maneiras de devassar o mundo. Olhou nos meus olhos e descobriu o que eu pensava, olhou o meu corpo e me deixou nua. E eu que vinha tão vestida. Uma saia comprida, marrom, quase até os pés; uma blusa branca, com alguns enfeites, um falso bordado muito sutil. O homem não deixou de observá-lo e de plagiá-lo; ainda um casaquinho aberto, de uma malha suave, café com leite. Ele me seguiu. E eu, em frente. Vínhamos pela Prudente de Morais, os carros nos defrontavam. Entrei então numa transversal, na direção da Visconde de Pirajá. Nuinha. As outras pessoas pensavam nos seus problemas naquela tarde de quinta-feira, não tiveram tempo de prestar atenção em mim..

Como a perseguição era lenta tive tempo de lembrar, enquanto escapava, a conversa que tivera com uma amiga na semana anterior. Ela falava do filho. Estava preocupada porque o rapaz chegava a casa trazendo as calcinhas das namoradas. Por que a preocupação?, perguntei. Não fica bem, foi o que falou. Minha amiga é muito católica. Acho que pensava nas más vibrações que as calcinhas alheias lhe trariam ao lar. Deixa o rapaz se divertir, falei. Diversão?, ela franziu o cenho. Vai dizer que você, pelo menos uma vez, não gostaria de chegar a casa sem calcinha?, perguntei com o olhar de prazer. Não, nada disso, pelo menos é o que penso, sei que você tem outra doutrina, chegou a dizer. Continuamos o nosso diálogo. Não brigamos por causa disso. Conversamos outras coisas e tomamos café.

A lembrança era fruto do olhar larápio do homem. Isso mesmo, larápio. Há quanto não ouço a palavra. Mas ser escritor é isso, enumerar palavras, e algumas tão antigas. Só o tal ladrão sabia o que de mim levava. Mas não perdi o brilho. Entrei na Visconde de Pirajá e segui na direção da Garcia D’ávila. Mas parei no meio do caminho. Encontrei a livraria da Travessa. A sensação de nudez, então, diminuiu. Misturei-me aos livros. Tornei-me uma personagem apenas observada por leitores atentos. Sabem vocês que os livros são transparentes? Mas apenas para poucos. Deparei com Proust e seu Em busca do tempo perdido. Senti que o tempo passava e eu envelhecia. Não aparentava, mas envelhecia. Voltou-me a cabeça a coleção de calcinhas do filho de minha amiga. Vai ver o garoto quer manter a infância, um desejo inconsciente, não quer o tempo a passar. Avistei o homem que me despira na Prudente. Era ele mesmo ou tudo literatura, imaginação? A bancada principal exibia muitos romances. Alguns sérios; outros escritos por mulheres que tentavam escapar do rótulo de mulherzinha. Mas será que existem romances sérios?, perguntei a mim naquela hora. Tive um namorado que dizia com a voz tonitroante: só leio livros técnicos. Livros técnicos são tão sérios assim? Por delicadeza guardei a pergunta. Por delicadeza, deixei que me tirasse a roupa. O sexo não é um livro técnico, pensei também na ocasião. Por mais que existam livros que ensinam sua técnica. Na maioria das vezes, somos arrastados pelo desejo. Em busca do tempo perdido, e o tempo passava, e já eram quatro da tarde. O homem da Prudente se aproximou do balcão de poesia.Edições portuguesas. Trocava-me por um poema. Talvez eterno. Os poemas não envelhecem. Alguém grita “falo a língua de Camões” faz quatrocentos anos e Camões continua da mesma idade; ora jovem e aventureiro ora cego. Arrastei as mãos sobre várias brochuras, uma francesa, seria a nova edição de Madame Bovary? Eu, Madame Bovary? O título me servia direitinho. Mas havia Proust, e eu envelhecia. Por favor, leva-me ao teu quarto, faz como o filho de minha amiga, rouba-me a calcinha.

O homem na verdade disfarçava. Arre aos poetas. Ele queria a mim. Aproximou-se. Teria ouvido o meu desejo? Vamos comigo, quem sabe um café, ofereceu. Vou, dei de responder, e não precisa me devolver a roupa do corpo.

segunda-feira, dezembro 08, 2014

Ladrão de vestidos!

Eu usava um vestido bem leve, de verão. Lembrei a observação que um amigo fizera certa vez. Disse que, ao ver as mulheres com roupa curta e leve, imaginava que muitas delas nada usavam por baixo do vestido. Ri e devolvi o que faria uma mulher andar sem calcinha? Ele falou que havia muita coisa em jogo, como sensações mais profundas. Perguntei então  se ele entendia sobre gozo feminino. Apenas sorriu e mudou de assunto. Isso acontece muito. Os homens pensam que as mulheres funcionam assim como eles; na maioria das vezes, no entanto, o que provoca tesão neles não produz o mesmo efeito em nós, mulheres. Eu usava o tal vestido leve e andava pela Visconde de Pirajá. Muitas pessoas olhavam as vitrinas, outras iam apressadas aos pontos de ônibus, e era possível também adivinhar turistas, sempre em férias no Rio, andando de um lado a outro como alguém que não quer nada, ou quer experimentar a novidade que já não descobre no seu local de vida. Confesso, apesar do vestido leve, poucos homens olharam para mim. Não é que eu já não seja bela ou que já vá entrada nos anos. As pessoas têm tantas coisas bonitas para apreciar, que olhar qualquer mulher passante torna-se algo comum. Sentei num café, ali num início de galeria comercial, logo depois da livraria da Travessa. A garçonete trouxe o enorme  cardápio. Quanto mais diminuem as xícaras de café, mais aumentam o tamanho dos cardápios. Cruzei as pernas, olhei para dentro da cafeteria e vi um homem, que eu conhecera certa vez, tomando o seu café. Não me reconheceu de imediato, ou não quis demonstrar, talvez discrição exagerada. Ele, num outro dia, puxara conversa comigo na livraria da Travessa. Falara muito sobre um livro de poesia que organizou, reunindo diversos poetas. Era ele mesmo, tomava seu café num dos cantos da loja. Quando conversamos, o tal homem me paquerou descaradamente, fez até um convite para irmos a outro lugar. Como eu não podia, disse que deixássemos para o dia seguinte, quando estaria livre. Ele insistiu, insistiu muito para sairmos na mesma noite. Mas recusei, na ocasião eu tinha realmente um compromisso. Deixei o meu número, mas ele não telefonou. Há homens que perdem uma boa mulher porque não tem a paciência necessária. No fundo da cafeteria, ele não deu mostras de que se lembrava de mim. Nem eu daria a ele o sabor de dizer que não esquecera sua fisionomia. A garçonete trouxe um expresso com um biscoitinho, e eu me pus a saborear o café. Ajeitei o vestido, sua fragilidade poderia denunciar meu corpo ou algum tipo de atitude que eu não queria naquele momento. Cruzei as pernas na direção oposta, sem que ninguém observasse. Foi então que uma moça me veio pedir um autógrafo. Autógrafo?, repeti. Ela me reconhecera, comprara dois livros meus e dizia gostar muito de minhas histórias. Autografei numa espécie de caderneta, que ela trazia na bolsa. Gosto muito daquele conto em que você espera o ônibus, de madrugada, num lugar quase deserto e você diz que o vento fustigava as pessoas e levantava os vestidos. Ah, soprei, sei qual o conto, mas não sou eu não, é uma personagem. Ela riu. Disse que toda personagem tem um pouco da autora. Nisso você tem razão, um autor também é todos os seus personagens, mas há alguns que gostaríamos de ver distantes. Como aquele que lhe roubou o vestido!, ela acrescentou. Tratava-se de outro conto, que todos vocês já devem ter lido. Cuidado, acabei por dizer, embora não devo alertar você a respeito dos perigos da literatura. A senhora acha a literatura perigosa?, ela parecia ansiosa. Depende, sabe, não se deve pôr em prática o que se lê nos livros, isso é romantismo exagerado e antigo. Ela ouviu, guardou a pequena caderneta na bolsa, virou-se para mim, agradeceu e despediu-se. Quando estava prestes a partir, concluiu gosto muito de literatura, de todos os estilos, mas o que você escreve me dá imenso prazer, sobretudo quando estou sozinha. Ela se foi. Fiquei a pensar o que é ter prazer e o que é estar sozinha. Ah, meu vestido leve, na verdade parecido com o da personagem que resolve ficar nua num ponto de ônibus, de madrugada. Ela achava que não passaria ônibus algum àquela hora. Como não passou. Mas passou um ladrão de vestidos!