Ai, acordar peladinha depois dessas festas, nem lembrar
como tudo aconteceu... Ainda estou morrendo de sono, acho que são nove ou dez da
manhã. É o sítio de Mariinha, quanto a isso não posso me enganar. Quando eu
morava em BH, as festas eram mais discretas. Cidade grande é outra história.
Aqui, nesse lugarejo, as meninas são de um fogo terrível. O pior é que acham
que lá, na cidade grande, as mulheres são mais atiradas que cá. E querem
imitá-las. Pior que imitam apenas uma ideia. Então marcam essas festas, onde
acabamos quase todas nuas, mesmo que de uma nudez disfarçada, e dormindo em casas
alheias, nem sabendo onde foram parar uma das blusas. Isso mesmo, sempre
desaparece uma blusa; já aconteceu de sumir uma saia. Como voltar para casa em tal circunstância? É preciso que alguém empreste uma roupa, como um
casaquinho de meia estação. Depois vamos até o Shopping, a 120 km da cidade, comprar
novas roupas. Aqui em Minas todas vivemos de aparência. É lógico que é o único modo
de a sociedade nos aceitar. Fingimos. Em nossos trabalhos somos exímias
profissionais. Uma de nós é dentista. Não digo qual, não quero dar pistas sobre
as amigas, quem sabe eu? Mas voltando às festas, são de lascar, isso mesmo,
acho que é essa a palavra, porque como diz o mineiro do campo, são de tirar o
couro. Como não podem nos tirar o couro real, nos tiram a roupa. Depois, dão no
couro! Muitas querem ter namoradinhos, curtir a vida a dois, casarem-se. Mas já
pensaram sobre? Casarem-se? E quem já passou por isso tudo, quem já cansou? Não
se pode viver para o marido, nem para os filhos. É bom ter filhos, não nego,
mas não se pode viver em função deles durante toda a vida. Então apareceu a
Mariinha e deu a ideia. Chamou as mulheres mais destemidas da cidade e convidou-as
todas. Mas, Mariinha, alguém há de acabar descobrindo, afirmou uma. Não,
basta que fiquemos de boca fechada, ela retrucou, e não precisa que as festas
aconteçam sempre, três ou quatro vezes ao ano é o suficiente, e nada de homem
da cidade, acrescentou a promotora. Engajamo-nos na brincadeira,
mulheres da cidade e outras que ficavam nela apenas parte do tempo, como
médicas, a tal dentista e professoras. O local seria um sítio, a 40 km, na
serra de G, digamos assim. Na primeira das festas, não aconteceu nada demais.
Apenas comemos, bebemos e dançamos... como dançamos! Homens de menos, mulheres sempre mais numerosas.
Fizemos mais duas festas, a frequência aumentou e também a quantidade de homens,
mas as mulheres sempre mais numerosas. Na quarta festa, propus que mudássemos o
local, precaução apenas. Alguém já está comentando pela cidade?, quis saber a amiga. Não, nada ouvi, mas sabe como é, melhor não facilitarmos. Nas
festas seguintes, fomos a uma pousada, era de uma das frequentadoras dos
eventos. Numa pousada, algumas se assustaram, isso pode soar mal. Há no lugar
um grande salão, e depois, fica-se mais à vontade. E passamos a alternar, uma
vez no sítio de Mariinha, outra na pousada. Vieram homens de longe, inclusive
de BH, acharam a nossa ideia maravilhosa. Exercíamos nossas profissões durante
os dias, éramos as pessoas mais sérias da cidade, mas durante as festas a
liberdade era total. Até mesmo vieram algumas mulheres casadas. Mulheres
casadas, assustei-me, podem arrepender-se e sair comentando por aí. Nada disso, rebateu
Mariinha, tenho o nome de todas, estão arriscando o próprio casamento, e é
lícito que se divirtam. E vinham elas, mais sorridentes do que todas nós, mais
provocantes, arrumavam-se num dos banheiros da casa, transformavam-se em
autênticas piranhas. Não há problema que namoremos, disse a dona do sítio, o
importante é que não vire rebu. Achei engraçada a palavra, rebu. Daí em diante já se
via uma ou outra agarradinha com seu par, depois a sair ao ar fresco, até que
alguém falou pois não há um quarto com cama? Concordou-se, então. A respeito do
quarto e da cama. E as festas, oh, uma beleza. Mas nada pode durar para sempre,
trata-se de uma verdade absoluta. Fizemos a última ontem, a de despedida (será?). Já está dando na pinta, surpreendeu-me a amiga. Mas até na última acordar peladinha, e sempre a faltar uma blusinha...
segunda-feira, março 30, 2015
segunda-feira, março 23, 2015
Nua dentro da piscina e um amor lésbico
Como a água da piscina estava gelada, num primeiro momento eu
quis voltar para a cadeira onde havia alguns minutos eu me sentava.
Eleonora me olhou, sorriu e disse:
Você vai acabar gostando da ideia.
Ela pedira que eu ficasse em pé, bem na beirinha, pois
queria comparar o meu corpo ao dela. Contara que precisava emagrecer e que eu servia de modelo a ela. Como sou narcisista, exibida e metida a gostosa, me
coloquei como pediu, fiz até uma pose. Ela veio se aproximando, chegou bem
pertinho.
Vire de costas, por favor, falou terna.
Prontamente atendi. Coloquei o bumbum voltado para ela.
Muito rápida, ela desfez os lacinhos do meu biquíni e me
empurrou para dentro da piscina.
Agora você fica de molho aí, falou depois que eu voltei à
tona, sorriu e correu não sei para onde levando a parte inferior do meu biquíni. Logo Eleonora reapareceu, mas de mãos vazias.
Nos primeiros segundos, fiquei furiosa, pois a frase que ela
dissera, de que eu ia acabar me acostumando, me deixou muito aborrecida. Jamais
eu quis ficar à mercê de outra pessoa. A água gelada, no entanto, pouco a pouco
começou a me causar um intenso arrepio e chegou provocar sensação agradável
entre as minhas pernas. A preocupação que passei a ter naquele momento foi a
possível chegada de outras pessoas. Mas isso acabou aumentando a tal sensação, era como estar deitada sob o sol e medir o tanto que sua quentura nos toca la no fundo.
Volte aqui em cima, ela sugeriu, volte que devolvo o
biquíni.
Mas se aparecer alguém, repliquei enquanto segurava na borda
e a água escorria pelos meus cabelos.
Não vai surgir, não, ainda é cedo. A não ser que você esteja
gostando da brincadeira, acrescentou com certo sarcasmo.
Para não dar o braço a torcer, falei:
Já fiquei nua várias vezes, mas na praia, e pelas mãos de um
namorado.
Não sei se minhas palavras a excitaram. Sem que eu
esperasse, ela saltou na piscina. O choque do seu corpo na água fez um barulho
imenso, pois era gorda. A água respingou por todo lado. Ela nadou na minha
direção e me segurou pela cintura.
Pode também me deixar nua, ordenou, vamos, não demora porque
chega alguém.
Tirei o seu biquíni e o arremessei longe, bem mais adiante de
onde ficavam as espreguiçadeiras.
Você poderia ter sido um pouquinho mais discreta, falou e
começou a me fazer carinho.
Juro, foi a primeira vez que estive nas mãos de uma mulher,
agora sou eu que falo, e para você, querido leitor. As pessoas sempre desejam
saber o desfecho das histórias, não é mesmo? Eu poderia deixar em aberto. Mas
conto como acabou.
Ficamos as duas dentro d’água um tempo enorme. Ela conseguiu
me provocar vários orgasmos. Talvez seja esse o ponto positivo no
relacionamento sexual entre duas pessoas do sexo feminino. Quando acabou, já
havia duas mulheres nas espreguiçadeiras. Até então não tinham dado por nós.
Eleonora saiu nua da piscina, e as mulheres continuaram sem nos
observar. Ela demorou um tempo enorme para voltar. Fiquei preocupadíssima,
pensei que me deixaria nua dentro d’água pelo resto do dia. E a água
estava tão clara. Mas acabou retornando. Arremessou o meu biquíni bem no meio
da piscina e gritou:
Não falei que você acabava gostando.
Só então as duas mulheres se voltaram par nós. Aproveitei
para mergulhar fundo. Enquanto tentava recuperar a calcinha tinha onde
enfiar a cabeça.
terça-feira, março 17, 2015
Duas noites de loucura
Estou diante da porta do quarto dele; o corredor, escuro; atrás das outras portas, o silêncio. Apenas eu em meio às sombras da meia noite e meia.
Dormem os outros os hóspedes. Nenhum reflexo de luz, nenhuma réstia a escorrer
por baixo das portas. Uma noite plena após um dia de trabalho árduo. Mas para que entendas, interessado leitor, volto ao começo desse romance fugaz. Ou, caso esteja cometendo algum tipo de exagero ao nomeá-lo assim, passo a chamá-lo lúbrico atrair de corpos. Como a fruta da oliveira que banhada em óleo próprio, virgem e natural, nos desliza garganta abaixo. Mas sejas rápido na leitura, não te deixes enfeitiçar por metáforas que tentam fazer saltar tua pele e abrir teus poros... Do contrário, serei surpreendida nua por algum hóspede inesperado. E poderei cair em mãos estranhas.
Na primeira vez em que me aventurei ao seu quarto, vestia uma camiseta comprida, ia quase até os joelhos. Mas, agora, minhas frágeis asas de borboleta e o odor adocicado que emano do corpo (aquele odor que captura os homens) não me permitem vesti-la. Boa desculpa para não dizer que ele ma tomou. Deixei-a no seu quarto após a noite de amor. Queria continuar a sentir o meu cheiro após o amanhecer. Ao menos foi o que entendi ante o seu olhar insistente, olhar que também me convidava à noite seguinte. Saí rápida, fechei a porta em silêncio e corri ao meu quarto. Ainda bem que deixara a porta destravada, a chave por dentro. Talvez a perdesse no afã do amor, talvez não tivesse para onde voltar... Enlouqueço enquanto amo. Quem sabe, melhor assim. Mas a verdade é que estou de volta a ele. Basta o dobrar da maçaneta e dois passos. Adiante, o abismo. Talvez o amor seja esta tênue sombra do outro a nos tocar momentaneamente o corpo, a ameaçar a nos deixar nua em terra estrangeira. Sem roupa e sem linguagem. Não quero de volta a camiseta. É o ponto claro em meio à escuridão da madrugada. E é a minha última noite.
Na primeira vez em que me aventurei ao seu quarto, vestia uma camiseta comprida, ia quase até os joelhos. Mas, agora, minhas frágeis asas de borboleta e o odor adocicado que emano do corpo (aquele odor que captura os homens) não me permitem vesti-la. Boa desculpa para não dizer que ele ma tomou. Deixei-a no seu quarto após a noite de amor. Queria continuar a sentir o meu cheiro após o amanhecer. Ao menos foi o que entendi ante o seu olhar insistente, olhar que também me convidava à noite seguinte. Saí rápida, fechei a porta em silêncio e corri ao meu quarto. Ainda bem que deixara a porta destravada, a chave por dentro. Talvez a perdesse no afã do amor, talvez não tivesse para onde voltar... Enlouqueço enquanto amo. Quem sabe, melhor assim. Mas a verdade é que estou de volta a ele. Basta o dobrar da maçaneta e dois passos. Adiante, o abismo. Talvez o amor seja esta tênue sombra do outro a nos tocar momentaneamente o corpo, a ameaçar a nos deixar nua em terra estrangeira. Sem roupa e sem linguagem. Não quero de volta a camiseta. É o ponto claro em meio à escuridão da madrugada. E é a minha última noite.
Viajo toda semana a M, onde trabalho na área de saúde. Sempre
a mesma vida, sempre a rotina do viajante. A pousada é de uma velha conhecida. De duas semana para cá, aconteceu algo que me deixou de início excitada,
depois inteiramente louca. É lógico que consegui, embora a duras penas, manter
a discrição. Ao menos até ontem. Um homem especial se pôs a me olhar. Trata-se
de um homem de poucas palavras. Como chegar a ele?, pensei. Não posso dar a
primeira carta. Ainda bem que existe uma padaria por perto. Ele estava lá. Comia um sanduíche de presunto. E olha que prefiro
queijo. Mas tudo bem, era ele quem comia. Seus olhos me penetraram mais fortes
do que qualquer palavra, qualquer frase, qualquer verso de poeta antigo. Não
chegou a dizer o que o traz à cidade, ou o que o levou à tal pousada. Mas ouvi
com delicadeza o que os seus olhos diziam-me. Permaneci ao seu lado. Éramos
dois velhos amigos que já não precisam de palavras. Bebemos do mesmo suco.
Voltamos juntos. Entramos e fomos para os nossos quartos. Duas horas depois, ouço
dois toques à porta. Abro. Ninguém. Fecho a porta. Não demora e agora três
toques. Abro. Ninguém. Ou melhor, um cartão com o número 23. Deixo correr os
ponteiros do relógio. Passa uma hora. Ele deve estar pensando que não vou. Mais
trinta minutos e corro até o seu quarto. Onde o vinte e três? O que acontecerá caso
eu me engane de porta? Alguém abre a porta. É ele. O olhar pleno. Mergulho nos
seus braços, atravesso o seu corpo. Muda. Pra que as palavras? quase chego a
sussurrar. Consigo, porém, resistir à emissão de qualquer voz. Apenas os
guinchos do sexo, os rasgos de amor.
Estou de volta. Muda. Melhor apenas os corpos a se tocaram, a
exalarem perfumes ainda que dúbios. Nada sabemos um do outro. Nem mesmo quem
nos espera em nossas cidades de origem.
quinta-feira, março 12, 2015
Vale encantado
Estava hospedada no hotel fazenda Vale Encantado, no interior do
estado do Rio de Janeiro, em meio a montanhas. Um local de onde não mais se deseja sair. Acompanhava minha filha, meu genro e minha neta. Por falar em
neta, o local é um paraíso, principalmente para as crianças. Há várias
piscinas, parques, brinquedos, campos para jogos, recreadores e, mais adiante,
um lindo bosque.
Apesar de já ter entrado nos cinquenta, tenho o corpo muito bonito, e, para completar, uso um biquíni mínimo, não é preciso dizer que a parte de trás é apenas aquela tirinha estreita, que entra toda no meu bumbum. Adoro. Minha filha não tem coragem de usar biquíni semelhante.
No segundo dia no hotel, depois de no dia da chegada ter ficado o tempo inteiro na piscina brincado com a minha neta, notei que um senhor me olhava com algumas intenções que não eram a de apenas apreciar a natureza.
Logo que voltei à piscina – já sentia o sol me queimar – ele apareceu ao meu lado, o cabelo curto escorrendo água devido ao recente mergulho. Cumprimentou-me, puxou conversa. Como faria qualquer pessoa educada, correspondi ao seu assunto.
Era viúvo, mas também viera acompanhando familiares. Isso não vai dar certo, pensei. Depois de algum tempo a falar sobre a beleza do local, o clima agradável, a necessidade que temos de passar alguns dias de papo para o ar etc., convidou-me para ir ao bar.
"Bebo uma caipirinha", salientei, "apesar de minha bebida preferida ser vinho. Acho que não há vinho no bar da piscina."
"Acompanho você na caipirinha, depois tenho uma surpresa", falou.
Imaginei o que ele já estava aprontando.
No bar, minha filha passou por mim e fez a cara de sonsa que costuma representar quando me vê acompanhada de algum homem. Não correspondi.
Quando já bebíamos nossas caipirinhas, meu pretendente falou:
"Sabe qual a surpresa? Trouxe comigo duas garrafas de vinho italiano, convido você para beber à tarde", sorriu com ar conquistador.
Demorei um pouco para dizer se aceitava ou não, mas acabei dizendo que seria um prazer.
"Convide também seus familiares", disse ele, “caso apreciem um bom vinho.”
Naquela tarde todos bebemos um delicioso Corvo. Meu admirador chamava-se Abelardo. Falou muito sobre as vantagens das férias naquele sítio. Disse que morava a duas horas dali e que já era freguês, vinha quase todos os meses.
No terceiro dia de estadia, minha filha notou alguma coisa além da conversa e resolveu não aparecer para o vinho vespertino. Meu genro parece que, naquele momento, disputaria uma animada partida de futebol. Então, apenas meu admirador e eu apreciamos uma garrafa inteira de Valpolicela. Quando terminamos, confesso que o provoquei.
“Vamos dar um passeio, sugeri.”
Era o convite que ele espererava.
Levei-o através de toda a extensão do hotel, na direção do bosque.
Ao reparar que nos aproximávamos das árvores, falou:
“Queria muito convidar você para passear, mas pensei que acharia a caminhada um tanto longa.”
“Estou acostumada a caminhadas maiores.”
Entramos pelo bosque. O canto dos pássaros àquela hora da tarde era irresistível. Continuamos a dar passadas largas e percorremos um caminho em que predominava uma quantidade maior de árvores. Paramos para apreciar a paisagem. De propósito toquei sobre um de seus braços para apontar a vista. Deixei minha mão ali por alguns segundos. Abelardo parecia embevecido não tanto com a vista a partir daquele ponto da montanha, mas com o calor do meu corpo. Arrastei-o, com uma das mãos, até um arbusto que nos escondia. Qual então não foi nossa surpresa, encontramos um biquíni, isso mesmo, a parte inferior de um biquíni pendurado em um dos galhos mais salientes. Alguém o havia deixado ali fazia pouco tempo, pois dava para perceber que ainda estava molhado.
Coloquei o indicador sobre os lábios sinalizando que nada falasse. Procuramos um lugar mais resguardado. Quando senti que podia dizer alguma coisa, soltei em surdina:
“Acho que alguém teve a mesma ideia que nós, não é mesmo?”
Ele me abraçou e me beijou na boca.
Assim que terminou o beijou, perguntei irônica:
“Será que deixo o meu biquíni no mesmo galho?”
Abelardo me abraçou novamente. Não tive tempo de falar mais nada. Meu biquíni? Ele o tirou. Procuramos um canto sobre a relva e trepamos durante muito tempo.
Quando acabamos, anoitecia. Era possível reparar os postes com lâmpadas oscilantes no outro lado da montanha.
Ao passarmos pelo mesmo local, ainda estava lá o tal biquíni.
“Que tal trocar ou mesmo ficar com os dois, o outro ainda está lá!”, sugeriu, parecia excitado, apesar de todo o sexo que fizemos.
“A ideia não é má.”
“Qual delas?”
“A segunda.”
A última palavra lhe despertou novo desejo. Quis me colocar nua mais uma vez.
“Calma, amanhã ainda haverá tempo, e quem sabe será mais interessante?”, acrescentei.
Mas ele não resistiu. “Amanhã e ainda hoje!”
“Está bem”, falei, “mas espere um instante.”
“Aonde você vai?”
“Vais já saber.”
Fui até o galho e coloquei o meu biquíni ao lado do que lá estava.
Apesar de já ter entrado nos cinquenta, tenho o corpo muito bonito, e, para completar, uso um biquíni mínimo, não é preciso dizer que a parte de trás é apenas aquela tirinha estreita, que entra toda no meu bumbum. Adoro. Minha filha não tem coragem de usar biquíni semelhante.
No segundo dia no hotel, depois de no dia da chegada ter ficado o tempo inteiro na piscina brincado com a minha neta, notei que um senhor me olhava com algumas intenções que não eram a de apenas apreciar a natureza.
Logo que voltei à piscina – já sentia o sol me queimar – ele apareceu ao meu lado, o cabelo curto escorrendo água devido ao recente mergulho. Cumprimentou-me, puxou conversa. Como faria qualquer pessoa educada, correspondi ao seu assunto.
Era viúvo, mas também viera acompanhando familiares. Isso não vai dar certo, pensei. Depois de algum tempo a falar sobre a beleza do local, o clima agradável, a necessidade que temos de passar alguns dias de papo para o ar etc., convidou-me para ir ao bar.
"Bebo uma caipirinha", salientei, "apesar de minha bebida preferida ser vinho. Acho que não há vinho no bar da piscina."
"Acompanho você na caipirinha, depois tenho uma surpresa", falou.
Imaginei o que ele já estava aprontando.
No bar, minha filha passou por mim e fez a cara de sonsa que costuma representar quando me vê acompanhada de algum homem. Não correspondi.
Quando já bebíamos nossas caipirinhas, meu pretendente falou:
"Sabe qual a surpresa? Trouxe comigo duas garrafas de vinho italiano, convido você para beber à tarde", sorriu com ar conquistador.
Demorei um pouco para dizer se aceitava ou não, mas acabei dizendo que seria um prazer.
"Convide também seus familiares", disse ele, “caso apreciem um bom vinho.”
Naquela tarde todos bebemos um delicioso Corvo. Meu admirador chamava-se Abelardo. Falou muito sobre as vantagens das férias naquele sítio. Disse que morava a duas horas dali e que já era freguês, vinha quase todos os meses.
No terceiro dia de estadia, minha filha notou alguma coisa além da conversa e resolveu não aparecer para o vinho vespertino. Meu genro parece que, naquele momento, disputaria uma animada partida de futebol. Então, apenas meu admirador e eu apreciamos uma garrafa inteira de Valpolicela. Quando terminamos, confesso que o provoquei.
“Vamos dar um passeio, sugeri.”
Era o convite que ele espererava.
Levei-o através de toda a extensão do hotel, na direção do bosque.
Ao reparar que nos aproximávamos das árvores, falou:
“Queria muito convidar você para passear, mas pensei que acharia a caminhada um tanto longa.”
“Estou acostumada a caminhadas maiores.”
Entramos pelo bosque. O canto dos pássaros àquela hora da tarde era irresistível. Continuamos a dar passadas largas e percorremos um caminho em que predominava uma quantidade maior de árvores. Paramos para apreciar a paisagem. De propósito toquei sobre um de seus braços para apontar a vista. Deixei minha mão ali por alguns segundos. Abelardo parecia embevecido não tanto com a vista a partir daquele ponto da montanha, mas com o calor do meu corpo. Arrastei-o, com uma das mãos, até um arbusto que nos escondia. Qual então não foi nossa surpresa, encontramos um biquíni, isso mesmo, a parte inferior de um biquíni pendurado em um dos galhos mais salientes. Alguém o havia deixado ali fazia pouco tempo, pois dava para perceber que ainda estava molhado.
Coloquei o indicador sobre os lábios sinalizando que nada falasse. Procuramos um lugar mais resguardado. Quando senti que podia dizer alguma coisa, soltei em surdina:
“Acho que alguém teve a mesma ideia que nós, não é mesmo?”
Ele me abraçou e me beijou na boca.
Assim que terminou o beijou, perguntei irônica:
“Será que deixo o meu biquíni no mesmo galho?”
Abelardo me abraçou novamente. Não tive tempo de falar mais nada. Meu biquíni? Ele o tirou. Procuramos um canto sobre a relva e trepamos durante muito tempo.
Quando acabamos, anoitecia. Era possível reparar os postes com lâmpadas oscilantes no outro lado da montanha.
Ao passarmos pelo mesmo local, ainda estava lá o tal biquíni.
“Que tal trocar ou mesmo ficar com os dois, o outro ainda está lá!”, sugeriu, parecia excitado, apesar de todo o sexo que fizemos.
“A ideia não é má.”
“Qual delas?”
“A segunda.”
A última palavra lhe despertou novo desejo. Quis me colocar nua mais uma vez.
“Calma, amanhã ainda haverá tempo, e quem sabe será mais interessante?”, acrescentei.
Mas ele não resistiu. “Amanhã e ainda hoje!”
“Está bem”, falei, “mas espere um instante.”
“Aonde você vai?”
“Vais já saber.”
Fui até o galho e coloquei o meu biquíni ao lado do que lá estava.
segunda-feira, março 09, 2015
O que eu vou fazer da minha vida?
Jessé balançou os dois últimos caroços na concha da mão e
lançou-os em dado. Era noite, e o jogo estava feito. Eliane arrepiou-se, ela fazia
parte da aposta. Como flertava com o perigo, o friozinho na barriga dava-lhe
prazer. Ao abrir uma das mãos o homem, com um dos cantos da boca, lançou-lhe um
sorriso de escárnio, sabia que ainda não seria sua a vitória. A mulher,
corajosa, tinha sorte, ele concordava. Jogador escolado, o mulato também sabia
que a sorte um dia escapa. Era só ter paciência que ela, a mulher, cairia de joelhos.
Pagou o que devia. Eliane sorriu. Muitos homens já haviam frequentado seu corpo
sem necessidade de lance de dados. Quanto a Jessé, tratava-se de um capricho,
queria prendê-lo. Ele era elegante, bonito, a pele brilhosa, o cabelo negro
farto e bem penteado. Um homem que não fora feito para qualquer garota. O jogo,
portanto, era a arma da mulher. Ela tinha consciência de que corria risco; a
sorte, como lera nos olhos de Jessé, não dura para sempre. Enquanto pudesse, no
entanto, arriscaria; era um modo de se valorizar, de criar no homem a cada dia o
desejo mais intenso. Talvez, assim, ele durasse ao seu lado mais tempo. Não
tinha ilusão, conhecia os homens Ao conseguir uma mulher, ao desarmá-la de seus
encantos, eles depressa vão à cata de outra, de novas experiências, que logo se
tornarão velhas. A roda continuava a girar. Eliane sabia que no fundo tudo era
ilusão.
Fazia três anos que percebera sua tendência para a sorte
no jogo. Um ex-namorado a convidara a um café numa cafeteria no centro de M.
Eliane aceitou. Os dois encontraram-se por volta das 16h00. O local era bonito.
Tomaram dois expressos e comeram duas fatias de bolo. Jonas pediu um pouco de
leite. Ela começou a contar sobre o casamento. Disse que estava muito feliz, o
marido era companheiro e atencioso. Ressaltou a palavra companheiro duas vezes.
O homem não deixou escapar as palavras de Eliane. Como já conhecia a mulher,
desconfiava de algumas das histórias contadas por ela. Quando já estavam à mesa
por mais de trinta minutos, perdurou um profundo silêncio entre os dois. Ela
aproveitou para olhar através do vidro o trânsito que era intenso na rua
defronte. Era possível avistar as árvores que se enfileiravam no outro extremo
da avenida formando um pequeno parque. A mulher sorriu, lembrou que já passeara
naquele local tarde da noite com o homem que estava à sua frente. Voltou o
rosto a ele e continuou com o ar de alegria que o momento permitia. Eu e meu
marido somos apenas companheiros, queria dizer isso a você, tocou no assunto
novamente; não fazemos sexo, entende?, somos apenas amigos, ajudamos um ao
outro. Jonas franziu a testa. Amigos?, repetiu; estranho. Verdade, Eliane
retomou a palavra; ele tem um problema, não pode fazer sexo, nunca fizemos, mas
está bom assim, concluiu. Jura?, ainda perguntou Jonas. Eliane apenas moveu a
cabeça. Saíram da cafeteria e seguiram a rua Teixeira. Continuaram a conversar assuntos
esparsos, ora olhavam os carros, ora os prédios do lado onde caminhavam. Tenho
de ir até em casa, ela falou. Eliane tinha duas casas, uma na serra, outra na
cidade, referia-se à da cidade. Jonas não falou nada num primeiro momento,
depois continuou ao lado dela; mais adiante perguntou se podia acompanhá-la.
Pode sim, ela disse. Dobraram à direita numa transversal e seguiram até o Visconde,
um bairro de casas de dois andares. Antes margearam a rodoviária. Quero ver se
pego o de 17h30min, disse ela. Faltam ainda trinta minutos, replicou Jonas
olhando o celular. Ao chegarem à casa que Eliane ainda mantinha na cidade, ela
advertiu: está muito diferente da casa que você conheceu, dei alguns objetos,
levei todas as minhas roupas para a casa da serra, mantive apenas o sofá, a
cama e o fogão. Jonas assentiu, sabia que ela na verdade já não residia ali
havia pelo menos três anos. Ao chegar, seguiram o pequeno corredor do térreo
até entrarem no corpo da casa, subiram dois lances de escada. Eliane abriu a
porta, que nem estava trancada. Ambos entraram. Ela primeiro; ele, a seguir.
Não repara, pediu a mulher; está uma bagunça. Não faz mal, compreendo a
situação, redarguiu Jonas. Eliane procurou um objeto, mexeu em outro, olhou
para seu ex-namorado e sorriu. Lembra que você foi nua lá embaixo, certa vez?,
Jonas disse em voz baixa. Você não esquece isso, ela falou e sorriu, um sorriso
luminoso. Ele teve vontade de abraçá-la, mas nada falou. Ela continuou nos seus
afazeres. Eliane tocou de novo o nome do marido. Como falava nele... Disse que
ele lhe pedira algo, e que logo iria ligar para saber se conseguira. Jonas
permaneceu em silêncio. Eliane não era boba, sabia que o ex-namorado ainda lhe
desejava, fazia bem para sua autoestima, ela valorizava o momento. Pensou em perguntar a Jonas se queria que ela tirasse a roupa; ficaria nua e pediria para ele segurar seu vestido; ah, os homens, sempre ficam excitados com mulheres nuas. Nada mais, porém, apenas a nudez, a pele branquinha à mostra. Suspirou, tocou de leve no tecido que compunha o vestido. Ia aos joelhos. Ele não
gosta da casa da cidade, ela acrescentou referindo-se ao marido. Você está
precisando de dinheiro?, Jonas interveio. Dinheiro?, sempre a gente precisa,
por que a pergunta?, ela quis saber. Achei que você precisava; a licença, o
afastamento do trabalho, as dores que você sente, deve estar precisando, ele retrucou.
Sim, você acertou. Jonas abriu a pasta, tirou a carteira e de dentro dela puxou
duas notas de cem e duas de cinquenta, estendeu a mão com as notas a Eliane.
Como faço pra pagar?, ela perguntou. Não sei, faça como achar melhor, respondeu
ele. Não vou ter pra devolver tão cedo, ela continuou. Não faz mal, não estou
precisando agora, disse o ex-namorado, com uma entonação decisiva. Eliane
guardou o dinheiro. Bom, vamos embora. Acabou de falar e ouviu o telefone. É
ele, meu marido. Foi até a janela e conversou um pouco, prometeu que voltaria
logo, já havia resolvido tudo que programara. Não, não demoro não, ok?, um
beijo. Desligou. Ao olhar na direção onde
Jonas estava minutos antes, não encontrou ninguém. Ele partira sem que ela
notasse. Sentiu-se só. Jonas lhe fazia bem. Lembrou-se da vez em que foram
juntos à praia e ele sugerira que ela tirasse o biquíni e o entregasse a ele.
Ela, como sempre espevitada e querendo demonstrar determinação, desfez os laços e ficou nua.
Entregou o biquíni nas mãos de Jonas, deu um mergulho. Ao voltar à tona,
percebeu que ele havia desaparecido. Acontecia de novo. Jonas se fora. Ela, só, sem ninguém a socorrê-la... O que eu vou
fazer da minha vida?
Jessé balançou os dois últimos caroços na concha da mão e lançou-os em dado. O jogo estava feito. Era noite. Ele a incentivava, e ela sabia que tinha sorte. Ao menos por enquanto, sabia também que um dia perderia. Para a ocasião, já trazia pronta e ensaiada a frase. Jessé, sei que você está
louco por mim, pra isso nem precisava de aposta; se você tivesse falado antes, a
gente já transava fazia tempo; mas apenas isso, viu? A roda continuava a girar. Eliane sabia que no fundo tudo era ilusão.
domingo, março 01, 2015
Respirei fundo
Como a água estava fria, usávamos os pés para nos movimentarmos, assim não só mantínhamos nossos corpos aquecidos, mas também flutuávamos entre as ondas. Ele, mais do que eu, era ágil com as mãos, queria a todo custo tocar meu corpo. Mas o que me provocou quentura mesmo foi um afago diferente que ele me fez. Nunca havia percebido que alguém, apenas num ligeiro deslizar de mãos, pudesse me provocar um orgasmo enquanto tentávamos escapar da arrebentação.
Tudo começou uma hora antes. Eu andava no calçadão, na
altura da Rainha Elizabeth. Queria um quiosque para tomar água de coco. Mas não
sei o que me deu. Ao olhar as bebidas expostas, vi uma garrafa de vodca, e
aquela marca não era comum nos quiosques.
O senhor faz uma caipivodca para mim com aquela vodca ali?
É pra agora, o empregado não pestanejou.
Eu vestia meu biquíni vermelho, não é tão pequeno mas
deixa os homens loucos; uma camiseta justa me cobria até o umbigo. Trazia no
ombro a bolsa. Pronta a bebida, comecei a mordiscá-la. Descobri então um homem que me admirava, e já
devia estar ali fazia tempo. Dei uma ajeitada na pose, tomei o copo nas mãos e
fui até uma cadeira vaga, numa das mesas que me permitia olhar quem andava no
calçadão. Ele se aproximou.
Posso sentar aqui?, quase não há lugar.
Ok, fiz ar displicente.
No começo, fingiu não querer nada comigo. Olhou a
paisagem, as pessoas, o empregado do quiosque.
Essa bebida é ótima, não?
É, falei e continuei indiferente.
Deixa a gente a mil.
Poucas palavras as suas, mas suficientes para me calar. Lembrei uma
amiga que sempre diz que caipirinha é bom porque sobe pelas pernas em questão
de minutos.
Respirei fundo. Ele prestou atenção.
Essa sensação passa, mas só depois de meia-hora, a não ser
que se encontre um grande amor, falou.
Não aguentei, tive de rir. Um tempinho depois contei o que
minha amiga me dissera.
Ainda dentro d’água. Ele já conseguia me segurar pela
cintura, puxou meu corpo para junto dele. Não ofereci resistência. O mar nos
levava para cima e para baixo. Às vezes, espumas nos invadiam. Ele beijou minha
boca. Deixei que sua língua me ultrapassasse os lábios. Deslizou várias vezes
as duas mãos pelas minhas costas, me aprumou rente a ele, ventre contra ventre.
Você não teme o mar?, perguntou.
Só quando há correnteza.
A correnteza hoje são as minhas mãos, os meus braços, os
meus lábios; tacou-me mais um beijo.
Nadamos um pouco mais adiante, flutuamos atrás da
arrebentação.
Calma, falei, assim você me deixa nua.
Ele havia puxado o meu biquíni, descera até as coxas, um
pouco acima dos joelhos.
Você é muito gostosa.
Vamos fazer uma coisa, falei, namoramos como duas pessoas decentes, depois você me leva para onde quiser e lá...
Tudo bem.
Foi assim que aconteceu. Acabei no apartamento dele, ali na
Djalma Ulrich. Fiquei até pouco depois de meia noite. E ainda estava de biquíni.
Antes de partir, porém:
Você não tem uma camiseta comprida para me emprestar?, pedi.
Tenho, mas só aceito se for uma troca, ainda que temporária.
Troca?, fiz cara de que não entendi.
Ele olhou para o meu biquíni.
Jura que você quer?, perguntei.
Brincadeirinha.
Ele foi ao quarto pegar a camiseta. Enquanto isso entrei no banheiro, tirei o biquíni e o dependurei na torneira do chuveiro. Ele me passou a camiseta pelo vão da porta. Vesti e me olhei no espelho. Caiu bem, era como se eu usasse um minivestido.
Ao sair, beijei meu recente namorado mais uma vez. Ele insistiu querendo-me levar em casa. Eu disse que não era necessário. Tomei o elevador e desci.
Desejava andar pelas ruas de Copa, apenas a camisa curta prestes a revelar minha nudez, ou lhe deixara o biquíni como um mimo? Nada disso, o ardil tinha outra intenção. Que ele me procurasse na manhã seguinte.
Ele foi ao quarto pegar a camiseta. Enquanto isso entrei no banheiro, tirei o biquíni e o dependurei na torneira do chuveiro. Ele me passou a camiseta pelo vão da porta. Vesti e me olhei no espelho. Caiu bem, era como se eu usasse um minivestido.
Ao sair, beijei meu recente namorado mais uma vez. Ele insistiu querendo-me levar em casa. Eu disse que não era necessário. Tomei o elevador e desci.
Desejava andar pelas ruas de Copa, apenas a camisa curta prestes a revelar minha nudez, ou lhe deixara o biquíni como um mimo? Nada disso, o ardil tinha outra intenção. Que ele me procurasse na manhã seguinte.
domingo, fevereiro 22, 2015
Ele adora me ver sem sutiã
Ele adora me ver sem sutiã. Apenas a calcinha, e bem
pequena, entrando toda no bumbum. Mas um dia desses aconteceu um problema. Não
digo que seja ele o culpado, eu também andava gostando da brincadeira. Nossa
cidade não é grande, mais cedo ou mais tarde todos acabam se conhecendo. Há
pessoas de famílias tradicionais, que vivem aqui desde uma época que já se
perdeu no tempo; há outras que vieram há duas ou três décadas para trabalhar
na industrialização que começava. Minha família é desta época. Há também empregados que ficam na cidade apenas nos dias de semana, sexta à
noite voltam para os seus lugares de origem. Isso tudo para contar o que me
aconteceu de anormal, vejam só. Meu namorado, com tais gostos extravagantes, passou a pedir que eu saísse sem sutiã. No princípio, não aceitei; depois,
fiquei na dúvida. Até que, num dia desses, resolvi arriscar. Para muitas
mulheres, andar por aí sem sutiã é a coisa mais normal do mundo. Para mim não
foi tão fácil. Na primeira vez me senti nua, e olha que costumo ir à praia com
um biquíni mínimo. O dia em que saí apenas com uma blusinha de verão por cima
da pele foi para ir a um restaurante. E meu namorado me prometeu que seria à
meia luz. Promessa cumprida. Fiquei achando, porém, que todos estava olhando
para mim e descobrindo meus seios. Na vez seguinte, fui sem sutiã a uma
discoteca. Estava uma loucura. Nem houve tempo para eu pensar que os homens me adivinhavam nua. Mas um dia na praia, quando ficamos num bar bebendo e comendo uma besteirinha, reparei um homem que me olhava com insistência.
Ele estava em outra mesa. Apesar de eu ter estado de top durante o tempo em que
fiquei na praia, ao irmos ao bar meu namorado pediu que eu fosse ao carro e que
voltasse apenas de camiseta. Dois dias depois dei com o mesmo homem na
condução, enquanto eu ia para o trabalho. Achei que fosse coincidência. Três
dias depois, quando voltava a um dos restaurantes com o namorado, o homem
estava lá de novo. Concluí que estava me seguindo. Comecei então a ficar preocupada,
mas nada falei ao meu namorado. Na semana seguinte fomos à praia, era de tardinha.
O tempo estava fresco. Logo ao entrar na água, meu namorado começou a me
abraçar, a me beijar, a passar as mãos por todo o meu corpo. Não demorou a
pedir que eu tirasse o top. Pode aparecer alguém, alertei. Não aparece não,
falou, a praia está quase vazia. Fiz a vontade dele. Ele pegou meu top e levou
lá para a areia, onde estavam as nossas coisas, como a cadeira de praia, minha
bolsa e uma toalha. Fiquei com os peitos nus, debaixo d’água. Meu namorado, ao
menos naquele momento, teve razão. Ninguém à vista. Três dias depois fui à
praia sozinha. Fazia um calor intenso. O namorado disse que, caso resolvesse o
problema de uma construção sobre a qual era o responsável, viria à orla mais
tarde encontrar comigo. Para minha surpresa, logo que mergulhei, após ter permanecido
meia hora sob o sol, dei de cara com o tal homem que me seguia. Aproximou-se e
perguntou como eu estava passando. Nada respondi. Tentei me afastar. Ele falou
outro dia vi que você tomava banho sem o top, seu namorado gosta da brincadeira,
não é mesmo? Fiquei desconcertada. Mas mantive a pose enquanto voltava à
areia. O homem não me abandonou, Afastou-se, porém permaneceu nas proximidades.
Reparei que continuava de olho em mim. Naquele dia, meu namorado não apareceu.
Às duas horas, voltei para casa. Andamos por bares e restaurantes, festas e
algumas boates, eu sempre sem sutiã e usando roupas de acordo com o desejo do
meu namorado. O homem que me seguia desapareceu durante alguns dias, mas não
desistiu. Confesso que comecei a gostar de estar sendo admirada por dois homens,
muito másculos por sinal. Três semanas depois voltei sozinha à praia. O homem,
quase como um fantasma, apareceu ao meu lado, na areia. Oi, gata, quanto tempo,
que saudade, ele disse. Tive de rir. O que ele encarou como sinal de vitória.
Conversamos um pouco. Entramos na água. e acabei nos
braços dele. A cidade não é grande, sussurrei, logo aparece uma conhecida.
Deixa comigo, ele retrucou. Ficamos abraçados, bem longe da areia, eu de costa
para aquele pequeno mundo. Dali fomos direto a um
motel, numa cidade vizinha. Cheguei em casa quase à noite, ainda vestindo o biquíni. Ou sem ele!, o homem me deixou louca.
Passei a namorar os dois, mas morta de medo de ser descoberta. O segundo, que eu chamo de namorado fugidio, sempre me tranquiliza. Deixa que eu resolvo, afirma com toda a segurança do mundo. E resolve mesmo: exige muito mais de mim do que andar sem sutiã.
quarta-feira, fevereiro 18, 2015
Chá de cadeira
Estava na cafeteria, na Rainha Elizabeth, havia pedido um expresso e um croissant, quando apareceu a Hellen.
"Oi, que bom encontrar você, posso sentar aqui?", perguntou e sentou antes de eu responder.
"Oi, tudo bem?, que bom te ver", tentei ser simpática.
“Quer dizer que ele te deu um tremendo chá de cadeira?”, perguntou, ardilosa.
"Oi, que bom encontrar você, posso sentar aqui?", perguntou e sentou antes de eu responder.
"Oi, tudo bem?, que bom te ver", tentei ser simpática.
“Quer dizer que ele te deu um tremendo chá de cadeira?”, perguntou, ardilosa.
“Chá de cadeira?”, fiz de conta que não entendi.
“É porque ele é muito assediado. Você precisa ver, todas as
mulheres vão atrás dele.”
Engoli a seco e comecei a pensar no perigo que eu corria.
O namorado quase me caíra do céu. Tinha um escritório no
mesmo prédio onde trabalho com moda. Sempre me cumprimenta e faz olhos
compridos às roupas que uso.
“Você tem bom gosto”, óbvia, a opinião dele.
Como Helen soube do chá de cadeira?, pensei.
“Ele usa uma pasta larga, não é mesmo?”, ela continuou. “Não
sei o que leva lá dentro, mas é grande para um advogado.”
Gelei. Será que ela sabia? Como?
“Oi, meu amor, que bom você ter vindo, tenho um tempinho”, ele
levantara e viera me beijar. O escritório de um bom gosto incrível. E há um
divã.
“Pra que o divã?”, cheguei a perguntar à primeira vez.
Ele apenas sorriu. Não demorei a entender.
“Dizem que ele dá muitos presentes a todas as namoradas”,
Helen afirmou eufórica.
“Você já o namorou?”, demonstrei ciúme e curiosidade.
“Quem dera, nunca tive tamanha sorte”, suas palavras
revelavam certo ar de frustração.
Ao dizer que tinha um tempinho, eu já entendia o que ele
desejava. Me levantava, girava meu corpo no ar e depois me deitava no divã. Num
desses dias de namoro fez a proposta.
“Você espera por mim?, não demoro. Assim, quando estiver de
volta faço mais carinho em você.”
“Espero na minha sala”, sugeri.
“Não, por favor, fique esperando aqui.”
“Tenho também de trabalhar.”
“Você trabalha pelo telefone, pois ligue daqui.”
“Ok”, acabei cedendo.
“Quero ter certeza de que você não vai embora”, acrescentou.
“Não vou, prometo.”
“Levo seu vestido. Assim você não vai poder sair.”
“Meu vestido?”, chegue a suar ao ouvir a proposta. “Quer
dizer que vou ficar pelada, aqui?”
“Isso, o que há de mais?”
“E se você não volta?”
“Você acha que vou abandonar meu escritório?”, ele riu, como
se fosse algo mais absurdo do mundo. “Trata-se apenas de um jogo.”
“Não sei, isso parece brincadeira de criança”, retruquei.
“É bom ser criança em alguns momentos, não?”
“Não sei. Lutei tanto para amadurecer.”
“Ok, então vá a sua sala. Foi apenas uma proposta indecente.
Ah, lembra a pulseira?, encontrei o ourives. Encomendei uma pra você”, sorriu no
fim da frase e veio me beijar.
“Ok, doutor”, falei com ironia, “pode levar meu vestido. Eu
espero.”
Ele se foi todo feliz. Resolvi tudo que tinha de resolver,
pelo telefone. Meus clientes jamais saberão que, apesar de trabalhar com moda,
liguei para eles inteiramente nua. Meu namorado? Demorou quase três horas para
voltar. Me deu um tremendo chá de cadeira! Mas a pulseirinha, que linda...
Veio a garçonete com o meu expresso e o croissant; perguntou a Hellen o que desejava. Mas ela estava interessada na minha vida mais do que eu. Oh, pensei, por que nada pode ser perfeito?
quinta-feira, fevereiro 12, 2015
Ainda bem que existe o carnaval
Sempre fui tímida. Arranjar namorado, nem se fala. Caso
alguém venha falar comigo, fico desarmada. Não tenho palavras para sustentar um
diálogo nem por dois minutos. Ainda bem que existe o carnaval, a festa
que nos faz virar a cabeça. No meu primeiro carnaval, quando já me sentia um
pouco mais madura, fantasiei-me de colombina. Levei, porém, uma máscara. Não
estava preparada para brincar de rosto descoberto. Outro ponto que combinei
comigo mesma naquele ano, não me divertiria perto de casa. Escolhi um bairro
distante e lá fui eu. Não sabia que seria tão fácil dançar, e até arranjar
namorado. No começo, deixei-me levar pela música, pelos tambores e, depois,
pelas mãos dos rapazes. Como não era conhecida no lugar, não havia nada de mais
me divertir, permitir até mesmo que me beijassem. Já naquela época, pelo menos
nas primeiras horas de diversão, sempre achei melhor fugir dos rapazes que me
queriam exclusiva. Misturava-me à multidão e aparecia na outra ponta do cordão,
ou mesmo algumas ruas à frente, quando, furtiva, podia apreciar outra música,
outro ritmo, outros homens e deixar, pouco a pouco, que escorregassem seus
braços pelos meus ombros e cintura. Com o passar do tempo, tornei-me
desinibida. Já não usava máscara, e não fugia assustada dos primeiros foliões
que me queriam abraçar. Apenas os recusava polidamente e marchava adiante,
sempre no ritmo da música. Outro ponto, oferta que a passagem dos anos me proporcionou, foi o despojamento da fantasia. De carnaval a carnaval, preparava uma roupa
mais confortável e, não posso deixar de salientar, menor. Os homens são tarados por mulheres nuas. Além de fazê-los enlouquecer, sentimos um gozo todo
especial ao andarmos nuas pela cidade. Portanto, minhas sainhas da fantasia
subiam cada vez mais, ou mesmo desapareciam. Ora usava short, ora biquíni.
Algumas pessoas devem desejar saber como é possível estar fantasiada vestindo apenas
biquíni. É plenamente possível. Pode-se ressaltar a época que se deseja
representar. Como era o biquíni nos anos 1950? Como nos 70? Como nos 90, ou
mesmo nos nossos dias? Por isso, a cada dia de carnaval, é possível espelhar
uma época. Claro que o observador deverá ter conhecimento desses períodos para
compreender a fantasia. Mas aí o problema já não é meu. Outro ponto: como, ao
usarmos um minúsculo biquíni, podemos transmitir a ideia de que não
convidamos os homens a nos deixarem nuas ou a não transarem conosco? Será
preciso, então, demonstrar que o nosso objetivo é dançar, pular carnaval, e que
braços e mãos daqueles que nos admiram devem ficar distantes. Mas para isso precisamos
ter muita energia. É necessário dançarmos sem parar. Assim, deixaremos exausto
qualquer um dos rapazes. Acompanhar toda a nossa alegria tornar-se-á para eles
impossível. Ficarão para trás. Como ter tanta energia? Mas sobre isso nada
falamos, é o nosso segredo. Outra fantasia, já antiga, que arrasta uma fileira
de homens atrás da gente – pude constatar faz três anos – é a saia de franjinhas.
Aquele tipo de minifantasia que obriga os homens a torcerem o pescoço ao cruzarem
conosco. Eles têm razões para querem certificar se usamos calcinha ou se vamos
nuas. Trata-se de uma das minhas fantasias preferidas. Mas no carnaval que
estou vivendo agora, optei por um tipo de canga especial, de renda, como um
vestido de noiva, com apliques aqui e ali, evitam, desse
modo, a total transparência. O tecido fino cobre e, ao mesmo tempo, desnuda o
meu corpo. Desperta também a curiosidade dos homens: há algo sob a fina teia?
Ao mesmo tempo, posso amarrar a renda do jeito que desejar. Ora como um
tomara que caia, ora cruzando o pescoço e deixando entrever um pedaço de seio
(será que vai solto ou há algum suporte invisível?, pois se mantém tão rijo). Mais
um segredinho, sempre prefiro os espaços descampados, as ruas largas, o ar por
sobre a minha cabeça, ou mesmo a água a molhar-me o corpo caso venha a chuva. Nada de me
divertir encurralada em camarotes estreitos dos bailes de carnaval. Nada de
estar nas mãos de homens destemperados. Ou melhor, não quero pano algum meu segredado
pelas mãos deles. Basta-me o arrepio da rua, basta-me o perigo aparente do
folião imprevisto, meu suposto algoz. Apenas suposto, porque na hora agá gozo. Apesar da timidez, tenho o poder de perceber no lampejo dos seus olhos a virtude de esperar primeiro a satisfação das mulheres.
E continuo na folia. Diálogos? Lembram lá em cima? Jamais sustentei. Nem por
dois minutos. Nem para pedir de empréstimo a camisa caso, no fim da folia, surpreenda-me
o raiar da quarta-feira.
terça-feira, fevereiro 10, 2015
Ela mostrou o bumbum
Célia, neste bairro acontece cada coisa impressionante.
Sempre digo, Copacabana é um celeiro de todo tipo de história, você que gosta
de escrever, ouça, de repente, quem sabe, surge mais um conto.
Clara, você também é uma ótima narradora.
Sei que sou, mas estou mais para a oralidade, para as
fofocas. Está rindo, Célia? Verdade. Então escute. Um amigo, o Sérgio, estava
andando pela praia num dia desses ao entardecer, uma dessas caminhadas que as
pessoas exercitam para dizer que estão cuidando da saúde. Você entende, não? Ia
ele ali pelo posto quatro quando reparou uma moça de miniblusa e saia branca
curtinha. Ela era alta, do tamanho dele, também caminhava. Sérgio olhou as
pernas dela e ficou impressionado com a lisura e a beleza. Mas o que lhe chamou a atenção mesmo foi o comprimento da saia. Pensou, bem, ela deve
estar de biquíni. Ele continuou a marcha. Diz que sempre sai do posto seis e
vai até o Windsor, depois retorna ao ponto de partida. Foi assim que fez. Na
volta, no final da caminhada, parou no último quiosque e pediu um coco. Tomou a
água enquanto olhava para o mar, que estava plácido, bonito, os últimos raios de sol
refletindo sobre a superfície, um espelho, segundo ele. Quando voltou o rosto
para o calçadão, reparou a moça de saia curta. Ela também terminava a caminhada
e vinha na sua direção. Parou no quiosque e pediu uma garrafinha d’água. Ao
levá-la à boca, sorriu para o Sérgio. Ele gostou do sorriso, e começou a pensar
como faria para conversar com ela.
Isto é fácil, Clara, bastava comentar sobre o tempo, sobre a
placidez do mar, a beleza do dia...
É fácil, sim, Célia, mas meu amigo é uma pessoa sofisticada,
gosta de impressionar. Ouça. Ele não precisou falar nada. Ela é que iniciou o
assunto. Bom está pra o stand up, ela lançou o tema. Stand up é aquela prancha
em que a pessoa vai em pé. Ele arregalou os olhos e respondeu alguma coisa do
tipo, pratica você este esporte? A moça fez que sim e começou a desfiar uma
história. Para não me alongar. Ele acabou convidando-a para a prancha naquele
momento. Alugariam duas, uma para cada. Agora não posso, ela falou, vai você,
fico apreciando. Ele disse que então era melhor ficar com ela, os dois a
conversarem. Desceram até a praia e olharam mais de perto as pessoas que
praticavam o tal esporte. No final, ele arremessou sua saia é tão bonitinha. Você quer dizer curtinha, ela rebateu. Ambos sorriram. Tenho ainda uma surpresa, ela
acrescentou. Surpresa?, ele quis saber. Embaixo da saia, a moça completou. No início, ele achou
que ela se portou de modo vulgar ao dizer isso. Mas, a seguir, ficou curioso. Debaixo
da saia?, o que você quer dizer com isso? Ela respondeu nadinha. Nadinha?, ele repetiu surpreso. Quer se certificar?, ousou a moça. Ela caminhou dois
passos à frente e deu uma levantadinha na parte de trás da saia, mostrou o bumbum. Ele sentiu um solavanco no peito.
E depois, Clara, o que aconteceu?
Sérgio quis levá-la imediatamente ao seu apartamento.
Mas a moça desconversou, disse que marcaria outro dia. Ele ainda perguntou como você pode agir assim?, vem à praia, mostra a um homem que está nua,
provoca-o e depois quer fugir. Brincadeirinha, ela revidou, vai dizer que não
gostou? E ficaram os dois nisso mesmo. Ou melhor, houve um abraço bem apertado, um beijo na boca, e a sainha dela nas mãos do meu amigo. Ao olhá-la nua diante dele após soltá-la do abraço, apaixonou-se. Você tem certeza que não quer ir comigo hoje?, a voz de Sérgio saiu meio embargada. Prometo ir outro dia. Grave então meu endereço, ele tentou modular o tom, apareça amanhã ou depois. Vou sim, foi a vez dela. Dois dias depois, à noite, escutou o interfone. Era ela. Não esquecera o endereço. Vestia uma sainha do mesmo comprimento. Beijou-o ao entrar, trazia no rosto intensa alegria. Namoraram boa parte da noite. Quando estava para ir embora, já madrugada, acrescentou não vá me fazer voltar pelada de novo pra casa. E sorriu safadinha. Até agora ele não me contou se ainda arde a paixão.
sexta-feira, fevereiro 06, 2015
Cavaleiro Negro
– Parece
que estou num forno – gemeu a jovem, dilatando as narinas porejadas de suor. Se
soubesse teria inventado uma fantasia mais leve.
– Mais
leve do que isso? Você está quase nua, Tatisa. Eu vinha com a minha havaiana,
mas só porque aparece um pedaço da coxa o Raimundo implica.*
– Você
devia deixar o Raimundo pra lá. Fantasia leve pra mim seria uma minissaia de
baiana e bustiê, sem calcinha.
–Verdade,
no carnaval ninguém é de ninguém.
A amiga
de Tatisa frequentou os bailes de carnaval nos clubes mais famosos do Rio de
Janeiro, onde tudo era liberado. Existia troca de pares para dançar e até
mesmo para fazer outras coisas. Ela lembrou-se de um fato que lhe aconteceu anos atrás. Será que nesta noite iria se repetir, mesmo se tratando de um baile no
interior?
Ela conheceu um Cavaleiro Negro, por quem logo se apaixonou. Fingiu ir ao
banheiro e se escondeu atrás de uma pilastra larga, que se alcançava passando por
fora do salão. Ninguém imaginaria que alguém com tanta vontade de fazer sexo ao
som das marchinhas pudesse ir tão longe para se deliciar com as taras de um
homem misteriosamente fantasiado. Quando o Cavaleiro a viu sair também se esquivou,
sabia que daquela fuga lhe renderiam os prazeres da ancuda fantasiada de
baiana.
Chegando
ao local, o mascarado avistou a moça já se enroscando na pilastra. Parecia
estar subindo pelas paredes. Ele se aproximou de mansinho e a abraçou pela frente.
Sentiu as cochas suadas da mulher. Em toda aquela esfregação notou que não
havia empecilho para que seu honroso pênis penetrasse as entranhas da buceta da
baianinha. Os dois se deliciaram a ponto do orgasmo ter escorrido pelas pernas
dela.
No salão, Tatisa estava entediada, não tinha aparecido nada de
exorbitante para ela, somente uns bobões querendo dançar em forma de trenzinho.
Ela comentou:
– Você
sumiu pra onde? Está com uma cara de felicidade. Estou achando esse baile uma
merda. Amanhã você me conta o que houve.
Às quatro
da manhã o baile terminou e as duas foram pra casa. Antes de dormir Tatisa
insistiu no assunto, e quando a amiga contou o que lhe tinha acontecido ela
enlouqueceu. Queria vestir a fantasia de baiana e voltar lá pra também tirar uma casquinha. Mas já era dia. Elas então se prometeram trocar de personagens no dia seguinte
só pra Tatisa poder tirar o seu pé da lama.
* As duas primeiras falas deste texto pertencem ao conto "Antes do baile verde", de Lígia Fagundes Teles.
quarta-feira, janeiro 28, 2015
Rigolleto é sempre Rigollerto
Certa feita, uma linda mulher comentara com suas amigas sobre as taras do seu amante, Rigolleto: “Ele é o
máximo. Todas as vezes que me pega, me leva ao delírio. Já trepei com muitos
homens, mas todos muito sem sal. Rigolleto sempre está com o pau duro quando
chega perto de mim. O volume de suas virilhas é notado através de sua
calça. O zíper quase se abre quando me abraça.” A linda mulher ao relatar seus
prazeres diante de várias mulheres sexys mantinha um semblante de tesuda. Acrescentou
que uma vez conheceu uma teúda e manteúda que esbanjava elogios sobre certo
macho dela com o nome de Rigollerto. A linda mulher no momento ficou com a
pulga atrás da orelha. "Será o meu Rigolleto?” A teúda e manteúda
relatava momentos de amor parecidos com os que a linda mulher gozava com seu
parceiro, que nunca falhava em suas investidas de amor. Tudo o que Rigolleto fazia
tinha sentido para a linda mulher. Ele a banhava em caldas de cerejas e
lambia até as entranhas de sua buceta. Todas as vezes que inventava algo, era ousado e estimulante. No mês de janeiro fazia um calor intenso, Rigolleto então pegava um saco
de gelo e banhava o corpo da linda mulher. Mesmo com o calor do seu sexo
misturado ao calor do ambiente tudo continuava perfeito. As amigas desejavam
saborear Rigolleto. Todas murmuravam ao ouvir as aventuras que a linda mulher
narrava. Num passeio de férias, quando viajaram para o exterior e se encontravam num
restaurante, a linda mulher avistou sua conhecida, a teúda e manteúda, antes de Rigolleto. A mesa reservada a eles era num cantinho bem discreto e a linda
mulher observava o comportamento da teúda e manteúda sem que ela percebesse. Momentos antes de pedir a conta, Rigolleto se ausentou para ir ao banheiro,
tinha esbanjado no champanhe. A linda mulher não percebeu que Rigolleto também
havia visto a teúda e manteúda. E como já se conheciam, conseguiram dar um chá
de cadeira na linda mulher. Saíram de fininho e foram se esbaldar num motel de
luxo. Com o nome diferente por aumentar um “r”, Rigollerto fez das boas
trocando sua linda mulher pela teúda e manteúda. Rigolleto ou Rigollerto,
sendo a mesma pessoa, não permitia coincidências nos comentários da linda
mulher e da teúda e manteúda. Será que a linda mulher ao elogiar seu parceiro
às amigas perdera Rigolleto somente para a teúda e manteúda?
sexta-feira, janeiro 23, 2015
Atriz de telenovela
Lucélia abriu distraída a revista, e na penumbra mal se
reconheciam as figuras.
“Quero uma foto como esta”, mostrou ao namorado, “é de uma
atriz de telenovela”, falou e sorriu com o ar de futilidade, que sempre trazia
no rosto. Marcos olhou a mulher, entortou um pouco a cabeça numa posição que
revelava certo esforço para enxergar a foto.
“Mas ela está vestida, e parece com um Versace”,
terminou a frase e lhe beijou uma das bochechas.
“Estou nua por sua causa. Quem por acaso deslizou as mãos
por baixo do meu vestido no escurinho da boate?, quem depois me convidou para
esse apartamento? ”
“Você tem razão”, ele continuou, “gosto de você, acho
atraente sua silhueta. Faço a foto sim, basta que fique na mesma posição, e
acho até mais instigante que lhe falte a roupa.”
Lucélia cruzou as pernas, levantou o tronco e sorriu. Fez de
conta que olhava para algo distante, abstrato, assim como a mulher da foto. Marcos clicou duas vezes. Ela esperou que o homem viesse com um novo beijo, ou mesmo que a carregasse no colo
e a levasse para a cama. Quanto ao vestido curto desaparecido, que usara na
discoteca, não se importava, ainda era noite, faltavam duas ou três horas para
o amanhecer, aproveitaria o amor proporcionado pelo recente namorado, depois
arranjaria uma maneira de se safar. Já que gostava tanto do próprio corpo, das
sensações táteis, e do sexo masculino a lhe roçar as pernas, o prazer que transpirava era maior do que o temor. Além de tudo, os homens adoram jogos e
fantasias. A revista com as fotos das artistas jazia agora ao seu lado, sobre a
poltrona.
“Já aconteceu isso alguma vez com você?”, Marcos quis saber.
Ele aproximou-se e a abraçou.
“Isso?”, fez de conta que não entendeu.
“O caso do vestidinho. Você está tão tranquila, dona de si”,
acrescentou ele.
“Claro que não. Quanto ao estado de espírito, sempre fui muito tranquila.”
Ela havia roçado uma das mãos sobre a capa da revista,
voltou o rosto para o namorado, que aproveitou para lhe beijar os lábios.
Deitaram e mergulharam num longo amor. Depois adormeceram.
Ao acordar, por volta das nove da manhã, Lucélia se deu conta de que era domingo. Amaram-se mais uma
vez.
Foram embora duas horas depois. Ela sempre fora uma mulher fútil, tanto suas amigas quanto os vários homens que já haviam
estado com ela não duvidavam disso, mas sabia se arranjar. Do apartamento, entraram direto no automóvel de Marcos. A moça, bonita como sempre: o sorriso discreto; o cabelo castanho claro úmido, espetado para cima; e o vestido preto, curto, coladinho ao corpo, em contraste com a pele branquinha. Guardaria boas lembranças
da noite que ficava para trás.
quinta-feira, janeiro 15, 2015
Cabia na palma da mão
O tempo que durou sua ida ao toalete e a volta à mesa, onde
Oswaldo a esperava, Janete pôs em ordem os acontecimentos passados e recentes.
Embora o tempo fosse curto, o jorro de pensamentos que lhe afluía à mente era
suficiente para recuperar histórias extensas, que preencheriam pelo menos um
volume de romance. Chegara ao restaurante no final da tarde; Oswaldo já a
esperava. Os dois haviam vivido juntos fazia alguns anos. Talvez por falta de
reflexão tivessem terminado o relacionamento. Ele, de outra cidade, vinha ao
seu encontro assim que o trabalho permitia. O problema talvez fosse esse. Como
ter alguém de tão longe, que podia acompanhá-la apenas nos momentos que lhe
sobravam? Durara três anos o namoro, ou o casamento. Cada um que o defina à sua
maneira. Sabia que o homem ainda a amava, ou ao menos a desejava. Sempre
recebia convites para um café, um jantar, ou uma cerveja, que ela não tomava porque
preferia suco. Oswaldo mantinha na mente a imagem de Janete. A mulher nua que
descera ao primeiro andar apenas por molecagem. Batera à porta para que ele a recebesse
e sentisse seu corpo quente. Dera certo. O ardil o capturara; ele sempre
lembrava o fato. Houvera outras ações, sempre protagonizadas por ela, estrela
rubra que incendiava a relação. A ação de sair nua se repetira. Acontecera de
outra vez no automóvel, madrugada fria. Pediu que ele parasse no acostamento,
quis sair, apenas a pulseira e a sandália meio salto. Caminhou à beira da
estrada durante um bom quarto de hora, perdeu-se num bosque. O homem enfeitiçou-se
com tal atitude. E que homem escaparia? Além de enfeitiçado ele já se mostrava
apaixonado. Numa das vezes em que terminaram a noite na praia, após intenso
jogo erótico, Janete pôs-se a correr nua pela areia; na volta a casa – uma casa de
vila – ela ainda quis manter-se em pele. Oswaldo, então, surpreendeu-a. Correu
para casa com toda a roupa de Janete sob o braço. Ela, ainda no banco do carona,
calculou a distância que precisaria caminhar, vinte ou trinta metros sob céu
aberto, até a porta de casa. E havia o vizinho que acordava cedo. Mas Janete
não se atemorizou. Descobriu uma camiseta esquecida no banco de trás. Vestiu-a.
Jamais um vestido tão curto. Caminhou altiva, cumprimentou o vizinho e bateu à
porta de casa. O namorado, que morria de tesão, demorou a abrir. E que trepada
naquele fim de madrugada. Houve uma vez em que contara tais sucessos a uma amiga.
Talvez o único erro que cometera. Não se deve falar sobre essas coisas nem à
melhor amiga. A tal mulher foi atrás de Oswaldo, quis para si também os
sucessos. E, como acontece a todo homem, ele não deixou passar em branco. A
mulher imitou-a até no episódio da praia, em Rio das Ostras. Aceitou tomar
banho nua. Entrou na água com Oswaldo, tirou o biquíni e o entregou nas mãos
dele. Mas, ao contrário de Janete, pediu que ele fosse embora, que encontrasse
com ela somente no dia seguinte, em M. Ele atendeu-lhe o pedido. No dia
seguinte ela contou a Janete, e ainda pediu que procurasse o biquíni levado por
Oswaldo. Isso azedou o relacionamento entre Oswaldo e Janete. Ele ainda
procurou pela mulher que deixara nua na praia, quis saber o que aconteceu
depois que foi embora. Ela jamais contou. Essa atitude atraiu ainda mais o
homem. Os homens são bobos, deixam-se levar por fantasias passageiras, pensou
Janete. O que fazer depois disso? Afastaram-se. E sua amiga, ao mesmo tempo,
afastou-se de Oswaldo, foi perder a roupa para outro homem, como soube depois.
Janete ainda não voltara do toalete. As imagens em sua mente eram vivas, todo
um passado em cinco ou dez minutos. Do que são capazes as imagens, pensava. O
reencontro com ele já durava três meses. Mas ela já estava casada com outro. Conhecera-o num desses sítios de relacionamento, e ele logo viera dividir
com ela a mesma casa. Contou a Oswaldo sobre o homem. Sobre o novo
relacionamento. Mas havia um ponto sobre o qual deveria ter calado. Oh, ela
sempre falara demais. Tratava-se de sua intimidade. Contara que não mantinha
relações sexuais com o novo marido. E era verdade. Apenas amizade. A iniciativa
fora do homem, pois ele disse sofrer de certa doença. Como conseguia viver com
uma pessoa sem usufruir o principal do amor?, Oswaldo quis saber. E logo ela,
tão fogosa, a desfilar nua pela cidade, tão quente no amor, tanto o ardor, a
ponto de contagiar as amigas. Os tempos mudam, contra-argumentou Janete. Hoje,
estou satisfeita assim, acrescentou. Disse que o marido era boa pessoa. Todos
gostam dele, mas é apenas uma companhia para mim, repetiu ainda uma vez. Usou o "apenas" com significado de tudo, seu dicionário particular. Oswaldo lembrou-lhe
de alguns eventos que vivenciaram juntos no passado, como o abraço apertado que
ela gostava de sentir; o sexo no automóvel, na praia, o dia que foi surpreendida
dentro d’água, mas por uma mulher. Janete ardeu durante o jantar. Não queria,
no entanto, dar o braço a torcer. Não queria falar mal do atual marido. Oswaldo
teve a delicadeza de não dizer que ela enganava-se, apenas sorriu, olhou um
pouco para cima, depois voltou os olhos até que um lampejo refletiu-se dos
olhos de Janete. Então a ida ao toalete, a demora para voltar. Todo um filme na
cabeça. Não o encontraria mais, decidiu ainda trancada no toalete. Reparou que
estava com a calcinha na mão, como nos tempos de namoro com Oswaldo. Ele
adorava Janete nua. Aliás, os homens adoram que as mulheres andem nuas. Os
homens adoram mulheres com a calcinha nas mãos. Mas ela decidira, seria a
última vez que os dois se encontravam. Melhor o marido, melhor a companhia. Não
a fazia arder, não lhe provocava nenhum tipo de desequilíbrio. Ela não podia dizer
o mesmo quando se via ao lado de Oswaldo, mesmo em imaginação. Não queria sair
dali correndo, nem desejava se esconder num hotel com Oswaldo, retomar todo um
passado posto por terra fazia tempo. Melhor a segurança do homem atual, seu
sorriso, os favores que lhe prestava. Ah, quanto ao sexo... Oh, não pensaria
sobre isso. Mas queria, ao mesmo tempo, que Oswaldo não a esquecesse. Afinal,
as mulheres gostam de se sentirem lembradas. Voltou a Oswaldo, agradeceu-lhe o
jantar, o encontro, mas precisava partir. Tinha um compromisso. Um presente,
estendeu-lhe a mão. Pequenino o presente. Cabia na palma da mão. Sabia que
ele aceitaria com gosto. Guardaria como relíquia, ou como um troféu, quem
sabe. Afinal, uma lembrança. Nenhuma mulher gosta de ser esquecida.
quinta-feira, janeiro 08, 2015
Você tem camisinha?
Ele me beijou logo após abrir a porta. Entrei, olhei ao redor
e sorri.
“Vim ficar um pouquinho com você.”
A noite estava quente e faltava uma hora e meia para o meu
ônibus. Naquele tempo eu trabalhava em M. mas morava em outra cidade.
“Que surpresa”, ele exclamou.
Continuamos abraçados. Beijamo-nos sofregamente durante vários minutos. Estalos, suspiros, respirações altercadas e mãos e dedos que procuram as sensações macias do amor carnal.
“Você tem camisinha?”, enfim perguntei, mas com a voz miúda.
Ambos éramos recentes não
só na cidade, mas também no cargo ao qual prestáramos concurso. Saímos uma vez
para almoçar e permanecemos várias horas juntos. Acabamos tornando-nos namorados.
Mas o namoro não durou. Sou ciumenta, sempre cismei que ele tinha outra. Algum
tempo depois, pensando melhor, achei que não foi justo exigir dele fidelidade,
pois estávamos numa cidade quase estrangeira para nós dois, e ali,
depois do trabalho, andávamos o tempo inteiro juntos. Apesar dessas conclusões, não reatei a relação, ficamos sem nos ver por mais de cinco meses. Mas naquela terça-feira, resolvi bater à sua porta.
“Deixa eu ver”, falou e foi procurar a camisinha.
Voltou de mãos vazias.
“Puxa, que pena, queria tanto transar com você”, não escondi a frustração.
“Podemos transar”, rebateu.
“Mas sem camisinha...”
“A gente dá um jeito”, finalizou.
Já se passaram dez anos desde a tal noite. Acho que trepamos
mesmo sem a camisinha, e tenho certeza de que voltei à sua casa mais duas ou três vezes. No ano
seguinte, no entanto, conheci o homem que viria ser meu marido. Por isso, desapareci.
Faz duas semanas o encontrei num restaurante, no centro de M., totalmente ao acaso. Ele estava sentado e almoçava.
Eu caminhava na direção do buffet. Então o avistei. Ele acenou, retribuí e me
aproximei de sua mesa. Trocamos dois beijos ligeiros. Meu marido já tinha
entrado e se servia no mesmo buffet.
“É o seu marido?”, apontou.
“Sim”, sorri. Percebi que a pergunta não veio à toa. Meu
marido nesses dez anos envelheceu muito,
enquanto ele permanecia quase o mesmo, os cabelos grandes, pretos,
usava rabo de cavalo.
“O que você tem feito?”, perguntou.
“Trabalho na região serrana”, respondi. Fazia os mesmos dez anos
que eu me transferira para uma escola em G, onde passei a residir. “E você?”, acrescentei.
“Por aí”, falou e mordiscou um pedaço de carne.
“Ainda faz o mesmo trabalho?”
“Sim”, respondeu e, levantando o garfo, esperou que eu falasse mais alguma coisa.
“Foi um prazer, preciso ir, Marcelo me espera”, apontei para
a mesa em que meu marido sentara. O ex-namorado virou-se para o local e
acenou para ele. Marcelo retribuiu sorrindo.
“Até a vista”, emendei.
“Até”, finalizou, mas conseguiu enfiar em uma das minhas
mãos o cartão com o seu número.
Dois dias se passaram para eu o encontrar de novo. Ele me esperava encostado
na porta do carro. Cumprimos o mesmo ritual de beijos e de perguntas sobre como
estávamos passando. Decidimos entrar num café, assim poderíamos conversar à vontade. Demoramos ali umas duas horas. No final, ele me ofereceu carona.
“Você vai para onde?”, quis ele saber.
“Para casa, em G.”
“Acho que passo em parte do caminho, caso você aceite a
carona...”
Olhei as horas, meneei a cabeça e acabei fazendo um
movimento que dizia sim.
Guiou durante quinze minutos sem dizer palavra alguma. Pareceu-me um tempo enorme. No meio do caminho soltei, de repente, um “pois é”. Ele virou
o rosto na minha direção e sorriu. Parou no acostamento da rodovia.
“Não é aqui que vou ficar”, alertei.
“Eu sei”, frisou, “não foi por isso que parei.”
Nada mais perguntei. Saltei no seu pescoço e recuperamos a noite perdida havia dez anos. Foram muitos beijos, abraços e carícias. No final, sem me soltar de seu tórax, fiz a mesma pergunta:
Desta vez, ele respondeu que sim.
terça-feira, dezembro 23, 2014
No final das contas
Resolvi deixar para ficar nervosa depois. Olhei para Vilma
e, com um movimento de olhos, lhe tentei dizer que devíamos aproveitar para nos
divertir. O segredo era mostrar que estávamos gostando do passeio e da aventura.
O homem, que parara o automóvel à margem do lago, tentava nos mostrar alguma
coisa dentro da noite, que não conseguíamos ver. Estava excitado por estarmos
nuas ao seu lado, mas em nada se mostrava ameaçador.
Lembrei as palavras de minha amiga, “Célia, não devemos aceitar
carona de um desconhecido, tanto mais a essa hora da madrugada.”
“Qual a outra alternativa?”, ainda repliquei.
Depois, já dentro do carro, fui eu que fiquei surpresa
com a resposta de Vilma quando ele perguntou:
“Vocês gostam de dinheiro?”
“Adoramos”, respondeu por ela e por mim.
Eu teria dito o mesmo, mas que o conseguíamos com o nosso
trabalho. Vilma, no entanto, respondeu de modo impensado. Então ele fez a
proposta. Daria dois mil a cada uma de nós. Ela sem pensar disse sim.
“Vilma, qual o interesse do homem em nos dar tanto dinheiro
apenas pelo prazer de nos ver nadar sem roupa num lago, às três e trinta da madrugada?",
eu a teria alertado.
Mas já havíamos guardado as notas de cem dentro das bolsas,
que pousamos sobre uma pedra que ficava num recuo, entre a estrada e a pequena
extensão de areia. Com os calcanhares dentro d’água nos pusemos a ir em frente.
“Nem está fria”, ela constatou.
Caminhamos até a água nos cobrir os ombros. A partir
dali, começamos a nadar os cinquenta metros combinados com o homem. Fazia parte
da aposta. Tive vontade de dizer que o desconhecido poderia ir embora levando
nossas bolsas enquanto nadávamos, mas preferi guardar para mim
essas inquietações.
Nada disso aconteceu. Cumprimos o que prometemos. E
ele cumpriu sua palavra. Ao voltarmos à margem nos esperava do mesmo modo
como o havíamos deixado. Sua face sempre revelando intensa euforia.
Ao sairmos d’água, pediu com humildade:
“Esperem ainda um momento.”
“Não foi isso que combinamos”, adverti. Mas me mostrei plena
de sorrisos.
“Quero apenas contar uma história engraçada”, falou
e começou uma estranha narrativa.
O homem se pôs a descrever a vida sexual dos cavalos. Falava
e olhava diretamente para nossos corpos. Pela primeira vez senti que a roupa me
fazia falta. Mas permaneci em pé, sem demonstrar a falsa segurança que me envolvia,
mantinha as mãos paralelas ao corpo. Escutamos toda a história. Vilma
aparentava cada vez mais surpresa à medida que ele avançava e entrava em
detalhes sobre o sexo daqueles animais. Em algum momento ela, franzindo a testa,
deu um passo à frente e apoiou as mãos à cintura.
Quando ele terminou, já estávamos com o corpo quase seco. Pegamos nossas bolsas e voltamos ao carro. Vinte minutos depois, entrávamos na cidade. Ainda estava escuro. Parou o carro a uma quadra do terminal de ônibus, que estava vazio àquela hora. Despediu-se e disse que saltássemos.
Quando ele terminou, já estávamos com o corpo quase seco. Pegamos nossas bolsas e voltamos ao carro. Vinte minutos depois, entrávamos na cidade. Ainda estava escuro. Parou o carro a uma quadra do terminal de ônibus, que estava vazio àquela hora. Despediu-se e disse que saltássemos.
“Ei, não podemos ficar aqui, logo aparece alguém”, Vilma alertou.
Sugeri então que nos deixasse no parque. Como ainda não
raiara o dia, teríamos tempo para pensar sobre o que faríamos.
Pôs o carro de novo em movimento e dirigiu até uma das extremidades do parque, um
local bastante arborizado. Descemos. Ele nos acenou e partiu.
Até hoje não encontramos sentido para tudo o que aconteceu naquela
madrugada nem o motivo que nos levou a ganhar tanto dinheiro.
“Ah, Célia, existem loucos de todos os tipos”, Vilma disse ao conversarmos dias depois, “no final das contas, não nos saímos mal”,
acrescentou.
quarta-feira, dezembro 17, 2014
Se desapareço
Adoro vir ao Rio, sabia? É muito bom. Você não imagina por
que digo isso. Mas falo, bem ao pé do seu ouvido, é porque aqui posso andar
nua. Falo sério, não acredita? Na minha cidade, eu jamais poderia andar nua
como aqui. Lá é preciso viver de aparência. Aqui, é diferente, muito diferente,
você não precisa dar satisfação a ninguém. Outro dia vim à praia, ali no posto
seis, em Copacabana, sentei junto a uma das mesinhas no último quiosque e pedi
água de coco. Estava só, e apenas de biquíni. É uma maravilha poder ficar de
biquíni na orla de Copacabana, andar pelo calçadão, tudo na maior liberdade. Ninguém na
minha cidade sabe que vim ao Rio para isso, andar nua. Reparo que ao estar
apenas de biquíni, não apenas à beira da praia mas também nos quiosques, os
homens me olham com intensa satisfação. Sinto-me então mais nua. Outro dia um
senhor veio conversar comigo, isso mesmo, um senhor, foi uns dias antes de
conhecer você. Ele perguntou se eu era de fora. Fiquei surpresa. Nada havia
falado até aquele momento e ele veio com a pergunta, adivinhou quase tudo sobre
mim. Primeiro achei que fosse por causa do biquíni, tão mínimo, depois descobri o motivo, eu sempre me mostro muito dada. Isso mesmo, muito dada. Tenho uma amiga que
diz que eu realmente dou muito! Engraçado, não? Brincadeirinha, eu, dar? As
cariocas não dão muita conversa e nem olham para os homens. Ou melhor, olhar
olham, mas possuem uma técnica especial de olhar sem se deixarem ser notadas.
Você já viu alguma carioca ser fisgada espreitando um homem? Não,
claro, isso não é possível. A carioca não cai numa rede. E se caísse, seria um escândalo.
Acho que morreria de vergonha. Elas adoram andar nuas, mas o fazem como se
fossem as mulheres mais vestidas do mundo. Fingem um pudor... Mas volto ao
homem, depois falo mais de um fato que descobri nas cariocas, quero dizer, numa
delas. O tal enamorado aproximou-se e estabeleceu um diálogo comigo. Como eu
trazia uma revista, ele esticou os olhos para ver do que se tratava. Perguntou
se poderia sentar à mesma mesa em que eu estava, no quiosque. Eu disse que
sim, que ficasse à vontade. Ele se pôs a conversar sobre o assunto da capa da
revista. Era uma revista de turismo, dessas que vêm uma vez na semana junto com
o jornal. Uma reportagem sobre Cartagena, na Colômbia. O homem se apresentou,
Jorge, e se pôs a falar de uma viagem que fizera àquele país. Não sei se era
verdade o que ele contava, mas falou de coisas muito interessantes, disse
inclusive que a cidade era a preferida de Gabriel Garcia Marques, aquele
escritor de “Cem anos de solidão”. Meu admirador ficou um tempo enorme falando sobre a viagem, sobre os pontos turísticos da cidade. A seguir pediu que eu
falasse de onde eu vinha. Contei então um pouquinho sobre Minas. Minas?, ele
mostrou-se surpreso. As mineirinhas são muito espertas, afirmou e sorriu. Caí
na gargalhada, então. Falei da minha cidade, do trabalho. Ele quis saber o que
faço na vida. O que uma mulher do interior pode fazer além de ser professora?,
respondi com a pergunta. Professora de quê?, continuou sorrindo, minha presença
parecia o iluminar. De química? O homem gostou. Sempre é preciso rolar uma
certa química, fez uma piada. Aliás, aqui no Rio as pessoas gostam muito de
trocadilhos, já reparei isso. Vira e mexe inventam uma piada, mudam o sentido
de uma palavra, de uma frase. O homem então me convidou para almoçar, queria
que eu permanecesse com ele boa parte do dia. Como eu não conhecia ninguém nem
tinha o que fazer, acabei aceitando. Você sabe, quando uma pessoa representa,
tudo dá certo. Ele estava morrendo de vontade de tirar uma casquinha
comigo. E eu também estava com a mesma vontade. Nenhum de nós, porém, falou
nisso abertamente. Fomos ficando juntos, o tempo passando, o dia avançando e
acabamos namorando. Mas foi um namoro light, aqui mesmo na praia. Você sabe,
não precisa ficar com ciúmes, na praia não é possível nada além do que um
namoro light. Fiquei com o número dele e ele com o meu. Mas não sei o que
houve, nenhum de nós telefonou. E depois conheci você. Caso ele apareça, é isso
que você quer saber, não? Caso ele apareça, apenas o cumprimento, falo que estou
ocupada ou mesmo de malas pronta para voltar a Minas. No Rio as pessoas são
discretas, não ficam perseguindo umas às outras. Principalmente aqui na Zona
Sul. Os homens respeitam a vontade das mulheres. Quando uma diz que não, é não, e
pronto. Lá na minha cidade é ruim para arranjar namorado. Quando acontece, os
homens querem compromisso. Não aceitam que a gente fique com eles um
dia ou dois. Logo acham que têm poder sobre nós. Eu, com essa mania de gostar
de andar nua, acabei certa vez fazendo o comentário a uma namoradinho de ocasião. Ele, então, pediu para eu sair nua, no carro dele. Achei ótima a ideia. Resultado: o cara ficou tarado por mim. Foi um problema depois pra eu me
livrar dele. Aqui, não, pode-se arranjar um namorado para apenas duas horas,
para uma noite, no dia seguinte ambos desaparecem, ninguém incomoda ninguém. Do mesmo modo, é
possível conhecer uma pessoa pra ficar conversando, sem segundas intenções. E as
moças disfarçam, mesmo que transem com todos os rapazes. Outro dia dei um
mergulho e esbarrei numa mulher bonita, a tal história da carioca. Não era tão moça, devia já ter
passado dos 30 ou estar beirando os 40. Ela, assim como eu, estava nua e
parecia sentir o maior prazer nisso. Fiquei pensando, como a nudez pode
proporcionar tanto prazer às mulheres. Ela dentro d’água, só de top. Não me
pergunte se a mulher já havia entrado nua na água ou se tirou o biquíni e pediu a alguém
que o guardasse. Não sei lhe responder. O que pude perceber é que demonstrava
um prazer intenso, e nem estava preocupada. Fiquei de olhar como iria fazer
para sair da água daquele jeito, mas me distraí e a perdi de vista. Depois me bateu a dúvida, ela estivera nua mesmo ou foi impressão minha? Você ficou
excitado com a historinha?, quer me roubar o biquíni e me deixar nua aqui dentro d'água? Quem sabe, olha que deixo, e já imaginou se desapareço... Você vai ficar a ver navios. Literalmente.
quinta-feira, dezembro 11, 2014
Roupa do corpo
Você não me acompanha?, sugeriu. Quem sabe, respondi atrevida. Olhares
são capazes de tudo, e o homem possuía uma dessas maneiras de devassar o mundo.
Olhou nos meus olhos e descobriu o que eu pensava, olhou o meu corpo e me
deixou nua. E eu que vinha tão vestida. Uma saia comprida, marrom, quase até os
pés; uma blusa branca, com alguns enfeites, um falso bordado muito sutil. O homem não deixou
de observá-lo e de plagiá-lo; ainda
um casaquinho aberto, de uma malha suave, café com leite. Ele me seguiu. E eu, em
frente. Vínhamos pela Prudente de Morais, os carros nos defrontavam. Entrei
então numa transversal, na direção da Visconde de Pirajá. Nuinha. As outras
pessoas pensavam nos seus problemas naquela tarde de quinta-feira, não tiveram tempo de prestar atenção em mim..
Como a perseguição era lenta tive tempo de lembrar,
enquanto escapava, a conversa que tivera com uma amiga na semana anterior. Ela
falava do filho. Estava preocupada porque o rapaz chegava a casa trazendo as
calcinhas das namoradas. Por que a preocupação?, perguntei. Não fica bem, foi o
que falou. Minha amiga é muito católica. Acho que pensava nas más vibrações que as
calcinhas alheias lhe trariam ao lar. Deixa o rapaz se divertir, falei.
Diversão?, ela franziu o cenho. Vai dizer que você, pelo menos uma vez, não
gostaria de chegar a casa sem calcinha?, perguntei com o olhar de prazer. Não,
nada disso, pelo menos é o que penso, sei que você tem outra doutrina, chegou a
dizer. Continuamos o nosso diálogo. Não brigamos por causa disso. Conversamos
outras coisas e tomamos café.
A lembrança era fruto do olhar larápio do homem. Isso mesmo,
larápio. Há quanto não ouço a palavra. Mas ser escritor é isso, enumerar
palavras, e algumas tão antigas. Só o tal ladrão sabia o que de mim levava. Mas
não perdi o brilho. Entrei na Visconde de Pirajá e segui na direção da Garcia
D’ávila. Mas parei no meio do caminho. Encontrei a livraria da Travessa. A
sensação de nudez, então, diminuiu. Misturei-me aos livros. Tornei-me uma
personagem apenas observada por leitores atentos. Sabem vocês que os livros são
transparentes? Mas apenas para poucos. Deparei com Proust e seu Em busca do
tempo perdido. Senti que o tempo passava e eu envelhecia. Não aparentava, mas
envelhecia. Voltou-me a cabeça a coleção de calcinhas do filho de minha amiga.
Vai ver o garoto quer manter a infância, um desejo inconsciente, não quer o tempo a passar. Avistei o homem que me despira na Prudente. Era ele mesmo ou tudo
literatura, imaginação? A bancada principal exibia muitos romances. Alguns
sérios; outros escritos por mulheres que tentavam escapar do rótulo de
mulherzinha. Mas será que existem romances sérios?, perguntei a mim naquela
hora. Tive um namorado que dizia com a voz tonitroante: só leio livros técnicos. Livros técnicos são tão
sérios assim? Por delicadeza guardei a pergunta. Por delicadeza, deixei que me
tirasse a roupa. O sexo não é um livro técnico, pensei também na ocasião. Por
mais que existam livros que ensinam sua técnica. Na maioria das vezes, somos
arrastados pelo desejo. Em busca do tempo perdido, e o tempo passava, e
já eram quatro da tarde. O homem da Prudente se aproximou do balcão de poesia.Edições portuguesas. Trocava-me por um poema. Talvez eterno. Os poemas não
envelhecem. Alguém grita “falo a língua de Camões” faz quatrocentos anos e
Camões continua da mesma idade; ora jovem e aventureiro ora cego. Arrastei as
mãos sobre várias brochuras, uma francesa, seria a nova edição de Madame Bovary?
Eu, Madame Bovary? O título me servia direitinho. Mas havia Proust, e eu
envelhecia. Por favor, leva-me ao teu quarto, faz como o filho de minha amiga,
rouba-me a calcinha.
segunda-feira, dezembro 08, 2014
Ladrão de vestidos!
Eu usava um vestido bem leve, de verão. Lembrei a observação
que um amigo fizera certa vez. Disse que, ao ver as mulheres com roupa curta e
leve, imaginava que muitas delas nada usavam por baixo do vestido. Ri e devolvi o que faria uma mulher andar sem calcinha? Ele falou que havia muita
coisa em jogo, como sensações mais profundas. Perguntei então se ele entendia sobre gozo feminino. Apenas sorriu
e mudou de assunto. Isso acontece muito. Os homens pensam que as mulheres
funcionam assim como eles; na maioria das vezes, no entanto, o que provoca tesão neles não produz o mesmo efeito em nós, mulheres. Eu usava o tal
vestido leve e andava pela Visconde de Pirajá. Muitas pessoas olhavam as
vitrinas, outras iam apressadas aos pontos de ônibus, e era possível também
adivinhar turistas, sempre em férias no Rio, andando de um lado a outro como alguém que não quer nada, ou quer experimentar a novidade que já não descobre no seu
local de vida. Confesso, apesar do vestido leve, poucos homens olharam para mim.
Não é que eu já não seja bela ou que já vá entrada nos anos. As pessoas têm
tantas coisas bonitas para apreciar, que olhar qualquer mulher passante torna-se
algo comum. Sentei num café, ali num início de galeria comercial, logo depois
da livraria da Travessa. A garçonete trouxe o enorme cardápio. Quanto mais diminuem as xícaras de
café, mais aumentam o tamanho dos cardápios. Cruzei as pernas, olhei para
dentro da cafeteria e vi um homem, que eu conhecera certa vez, tomando o seu
café. Não me reconheceu de imediato, ou não quis demonstrar, talvez discrição
exagerada. Ele, num outro dia, puxara conversa comigo na livraria da
Travessa. Falara muito sobre um livro de poesia que organizou, reunindo diversos
poetas. Era ele mesmo, tomava seu café num dos cantos da loja. Quando conversamos, o tal homem me paquerou descaradamente, fez até um convite
para irmos a outro lugar. Como eu não podia, disse que deixássemos para o dia
seguinte, quando estaria livre. Ele insistiu, insistiu muito para sairmos na mesma noite. Mas
recusei, na ocasião eu tinha realmente um compromisso. Deixei o meu
número, mas ele não telefonou. Há homens que perdem uma boa mulher porque não
tem a paciência necessária. No fundo da cafeteria, ele não deu mostras de que
se lembrava de mim. Nem eu daria a ele o sabor de dizer que não esquecera sua
fisionomia. A garçonete trouxe um expresso com um biscoitinho, e eu me pus a
saborear o café. Ajeitei o vestido, sua fragilidade poderia denunciar meu corpo
ou algum tipo de atitude que eu não queria naquele momento. Cruzei as pernas na
direção oposta, sem que ninguém observasse. Foi então que uma moça me veio pedir
um autógrafo. Autógrafo?, repeti. Ela me reconhecera, comprara dois livros meus
e dizia gostar muito de minhas histórias. Autografei numa espécie de caderneta,
que ela trazia na bolsa. Gosto muito daquele conto em que você espera o ônibus,
de madrugada, num lugar quase deserto e você diz que o vento fustigava as
pessoas e levantava os vestidos. Ah, soprei, sei qual o conto, mas não sou eu
não, é uma personagem. Ela riu. Disse que toda personagem tem um pouco da
autora. Nisso você tem razão, um autor também é todos os seus personagens, mas
há alguns que gostaríamos de ver distantes. Como aquele que lhe roubou o
vestido!, ela acrescentou. Tratava-se de outro conto, que todos vocês já devem
ter lido. Cuidado, acabei por dizer, embora não devo alertar você a respeito
dos perigos da literatura. A senhora acha a literatura perigosa?, ela parecia
ansiosa. Depende, sabe, não se deve pôr em prática o que se lê nos livros, isso
é romantismo exagerado e antigo. Ela ouviu, guardou a pequena caderneta na bolsa,
virou-se para mim, agradeceu e despediu-se. Quando estava prestes a partir,
concluiu gosto muito de literatura, de todos os estilos, mas o que você escreve
me dá imenso prazer, sobretudo quando estou sozinha. Ela se foi. Fiquei a
pensar o que é ter prazer e o que é estar sozinha. Ah, meu vestido leve, na
verdade parecido com o da personagem que resolve ficar nua num ponto de ônibus,
de madrugada. Ela achava que não passaria ônibus algum àquela hora. Como não
passou. Mas passou um ladrão de vestidos!
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