terça-feira, abril 28, 2015

Entrei na tal fantasia

Respirei fundo e me pus avante, como era boa aquela sensação, talvez fosse o perigo, enfrentá-lo sempre é um desafio. O que pode fazer uma mulher nua às duas da madrugada, tanto mais à distância da própria casa? Mas eram duas da tarde e agora à história era outra. As lembranças que ficassem escondidas, numa espécie de sótão da memória. No telefone, a voz dele dizia quanto tempo, que bom falar com você. Convidava-me. Queria reviver algumas aventuras do passado. Não é bom voltar o relógio, rebati, vamos daqui em diante. Ele ficou em silêncio durante alguns segundos, mas logo retornou, com seu desejo acho que maior. O passado já passou, você tem razão, afirmou, o importante é o que vamos fazer daqui pra frente. Foi a minha vez de silenciar, de pensar muito, ainda que em trinta segundos. Desejaria eu ir à sua cidade, permanecer envolta nas carícias daquele homem que sempre partia sem avisar e voltava a me procurar? Você não falou ainda o motivo de tanto tempo sem ligar, disse eu subitamente. Ah, negócios, muitos os negócios, replicou. Quem garantirá que você não vai desaparecer de novo? Ninguém, sua voz soou sóbria, quanto a isso não há garantia.

Desembarquei no dia seguinte na rodoviária Novo Rio. Sempre achei o lugar muito confuso, feio, deselegante para uma cidade como o Rio de Janeiro. As pessoas corriam pelos longos corredores, não se preocupavam se esbarravam umas nas outras. Num dos cantos, uma mulher jovial, embora se percebesse que ia pelos cinquenta anos, beijava na boca um homem talvez quinze anos mais novo. Pessoas subiam e desciam, levavam malas, sacolas e pacotes. Corri até o ponto dos táxis, mas tudo estava muito complicado. E nem era véspera de feriado. Do outro lado da rua um ônibus indicava no letreiro que ia para o Leme. Embarquei. A viagem se deu vagarosa. A cidade tinha muitas interdições de avenidas, havia obras por todo lado. Depois de cinquenta minutos saltei num ponto próximo a uma praça, no bairro de Copacabana. Dobrei a segunda rua à esquerda e me deparei como pequeno hotel onde sempre fico hospedada quanto vou ao Rio. Ele ligou às quinze para as sete. Disse que só poderia encontrar comigo no dia seguinte às duas da tarde numa rua do centro da cidade. Ok, confirmei. Acho que a incerteza era o que me movia. Não sei dizer, mas o risco, sempre o risco. Coloque a dois metros um barril de pólvora e sempre haverá admiradores, ou mesmo quem se proponha a saltá-lo segurando um cigarro aceso. Naquele homem fugaz, escorregadio, enganador, havia um tipo de magia difícil de transformar em palavras, um filete de gasolina capaz de provocar um grande incêndio. A verdade é que ele atraía, e como.

Às duas em ponto eu esperava por ele na rua do Ouvidor esquina com rua do Carmo. A mesma rua do Ouvidor das histórias contadas por Joaquim Macedo, o autor de A moreninha. Não sou tão morena, mas mais atrevida, já que gosto de andar nua na noite escura. Caminhamos por outras ruas do Centro entramos num hotel, na Senador Dantas, um prédio antigo reformado e ambientado para casais em estado de paixão. Havia uma mulher discreta na recepção, não olhava frontalmente as mulheres que acompanham os homens. Subimos num elevador ruidoso, deixou-nos no sexto andar. Assim que entramos no apartamento, comecei a me despir. Não tirei a calcinha. Ele me abraçou quando eu virei para ele com os seios empinados, me deu um intenso aperto e me beijou os lábios. Nada de muitas palavras, ele sempre foi um homem silencioso. Permanecemos em pé, agarrados, num intenso apertar e roçar de corpos. Ele ainda não tirara toda a roupa, estava de calças compridas, mas mesmo assim pude sentir seu sexo rijo a me pressionar o ventre. Namoramos durante duas horas e meia. No final, tomei uma garrafinha de água, que havia no freezer. Estirei-me na cama e me pus a pensar sobre o fato de estar tão longe de casa, em outra cidade, viera apenas para encontrar um homem que dizia gostar de mim e que me procurava ocasionalmente. Você ainda gosta de andar nua por aí?, perguntou curioso. Ora, claro que sim, você que me despertou pra isso, não?, beijei-lhe o rosto com os lábios úmidos de água mineral. Então, proporcionei algo de bom a você, o que mereço em troca?, ele queria algo mais. Tudo, respondi e subi sobre o seu corpo. Seu sexo, que estava em repouso deu mostras de que despertava de novo. Abri as pernas e o agasalhei, o prazer foi intenso. Tenho um novo segredo pra você, acrescentou. Segredo? Achei que já me tinha ensinado tudo. Nada disso, voltou ele à palavra, trata-se de uma fantasia.

De sua bolsa, tirou uma fantasia de carnaval. Quer experimentar?, é de uma personagem de escola de samba. Como você conseguiu?, eu quis saber. Conheço muitas pessoas, e trabalho com atores e atrizes. Verdade?, mostrei surpresa, não sabia que seu trabalho era tão interessante.

Entrei na tal fantasia. Caiu com perfeição no meu corpo. Agora vou levar você pra passear fantasiada, ele riu no final da frase. Verdade?, Acho que morro. Nada disso, as pessoas vão adorar, e você está muito sexy com ela. Depois a gente volta para o hotel. Estou muito sexy?, estou nua, não brinca que você vai me levar nua lá fora?  Vou sim, e você não vai querer outra vida, nua às cinco da tarde.

Acho que por isso sempre volto a esse homem, a ele e a suas invenções. É lógico que tudo foi apenas um jogo. Passear lá fora significava apenas sair nua do apartamento e tocar a campainha para que ele me recebesse. Mas pra quem é de longe, imagine o frisson que senti enquanto batia à porta. E havia a possibilidade de ele não abrir. Por isso volto sempre a esse homem. Ele é um arrepio.

quarta-feira, abril 22, 2015

Qual a diferença, afinal.

Você não sabe ser livre, ele falou pelo telefone. Como assim?, embaracei-me nas suas palavras. Você se prende a pequenos compromissos aí em M., poderia estar aqui aproveitando melhor estes dias. Eram duas da tarde quando desliguei o telefone, pensei em me arrumar e viajar imediatamente à cidade dele, mas contive-me. Melhor esperar o dia seguinte. Mas ao levantar pela manhã comecei a deixar de pensar sobre a possível viagem. Eu sempre facilitava demais as coisa pra ele e sempre me prejudicava, saía dos encontros desvalorizada. Naquela mesma manhã, enquanto ia ao caixa eletrônico, encontrei Rubens, um mulherengo de carteirinha. Oi, princesa, como vai? Ele tinha a mania de chamar as mulheres de princesas, eu sabia que não era apenas comigo. Oi, respondi, mas ao contrário das outras vezes, além da voz, deixei o sorriso, foi uma porta aberta. Ele não deixaria de aproveitar. Começou a dizer que o dia estava lindo, combinava perfeito com meu sorriso. Ah, gentileza sua, redargui. Nada disso, ele acrescentou, você é uma princesa que merece todos os favores do reino. Rubens, deixa de história, nem mais existem reinos. Ele apontou um automóvel estacionado, de cor vermelha, conversível. Vou levar minha rainha a um passeio, sugeriu. Rubens, pretendo tirar dinheiro, vou ao caixa eletrônico. Insistiu em me acompanhar. Acabei por aceitá-lo ao meu lado. Quando saímos do banco, caminhamos um pouco a esmo e acabamos parando onde ele estacionara o carro. Vamos? Levo você em casa, convidou. Quem disse que vou pra casa?, emendei a frase com mais um sorriso. Era tudo o que ele queria, e eu sabia que caso entrasse no carro seria o mesmo que dizer sim às suas pretensões. Depois de cinco minutos, rodávamos pela estadual, uma rodovia junto ao mar. Veja que beleza, ele falava e apontava o mar, vamos parar, você toma uma cerveja. Um suco, respondi. Ok, vamos estacionar. O carro ficou num trecho de areia que se misturava à vegetação rasteira. Descemos até perto do mar. Ele explodia com ondas volumosa e irregulares, as espumas deslizavam ligeiras, vinham quase aos nossos pés. Às vezes eu tinha a impressão de que as águas chegariam com força até onde estávamos arrancando-nos dali com toda sua fúria. Rubens segurou uma das minhas mãos e me conduziu a uma cabana, que mal pude dar pela presença naquela paisagem. Ao nos aproximarmos, o vento levantava nossos cabelos e agitava nossas roupas. Entramos naquele local rústico, onde pudemos sentar, ainda ouvindo o som que vinha lá de fora e que parecia o começo de uma tempestade. Uma mulher jovem trouxe uma espécie de cardápio. Rubens perguntou se eles tinham camarões. A mulher assentiu e desapareceu num compartimento posterior ao bar. Rubens ria para mim, disse que eu adoraria o que serviam ali. A mesma mulher voltou, trazia um suco e uma cerveja. Colocou o copo à minha frente, abriu a cerveja e encheu o copo do meu amigo. É deserto, aqui, cheguei a comentar. É um bom lugar para se conversar e namorar, falou e sorriu. À noite, deve ser um lugar tentador, acrescentei. Ele pareceu gostar da minha observação. Você gosta de sucos, não é mesmo? Suas palavras ecoaram na minha mente, lembrei meu admirador do Rio, que telefonara no dia anterior. O que ele dissera mesmo? Era como se sua voz se perdesse ante todo o bramir da natureza. Meu namoradinho do Rio gosta de me convidar para um hotel no centro da cidade, gosta de me deixar nua às duas da tarde, certa vez me perguntou se eu voltava nua pra casa. Respondi que sim, nuazinha nuazinha, só pra provocar. Quanto a Rubens eu sabia que teria de demorar em seus braços, ele desejaria meu corpo durante todo o dia e também durante boa pote da noite. Ninguém poderia dizer que eu não era livre, que vivia presa aos meus pequenos problemas em M. Aliás, preferi deixar que Rubens fizesse sua parte e provasse que M. valia a pena. Nua num hotel no centro do Rio. Nua numa praia, num fim de tarde em M. Qual a diferença, afinal? Acho que o vento, todos os ventos, e as mãos grossas daquele homem da terra crente em princesas, crente em reinos jamais extintos. Saboroso o camarão, ressaltei, e o suco então nem se fala, está boa a cerveja?, emendei gulosa. Ele bebeu um longo gole, seu rosto estampou todo o prazer que a vida lhe podia oferecer. Eu ia nua, dentro do seu copo de cerveja ou, quem sabe, ao lado do seu corpo dourado. E os olhos baços e indiferentes da garçonete estavam acostumados a sonhos que vinham do mar.

sábado, abril 18, 2015

A pelada sou eu

Digamos que seja tudo verdade. E a verdade às vezes dói. Mas faço de conta que ainda tenho alguma chance. Não foi isso que combinamos. Ele me pediu para descer do carro, dar uma voltinha, depois de cumprir a tarefa que precisava cumprir voltaria para me levar para casa. Ah, esses homens, deve ter surgido outro programa. E eu esperando. Deixa estar. Deixa estar que resolvo à minha maneira. Caso ele ainda apareça, não mais me encontrará. Estarei longe. E nos braços de outro. Mas que estou furiosa, estou.

"Rosalvo, você vem me buscar? Eu sei, está tarde, não combinei nada com você. Mas surgiu um imprevisto, por isso telefono, e você vai ter uma surpresa. Isso mesmo, Rosalvo, uma surpresa. Não, pode deixar que não vou fazer como da outra vez, deixei você chupando o dedo, lembro sim. Nada disso, não vai acontecer de novo, prometo. Anote onde estou? Depois da 41. Isso. Há um restaurante perto, mas não quero ir até lá, ou melhor, não posso. Por quê? Você vai logo saber. Se apresse, Rosalvo. preciso que esteja aqui no máximo em vinte minutos. Por que tanta pressa, Rosalvo? É fácil adivinhar, você me conhece. Não, não brigamos, muito pelo contrário, estamos muito bem. Mas ele, ou eu, não sei bem, acho que nós dois, sabe, namoramos com o perigo. Essas coisas nos excitam. Que coisas? Ora, Rosalvo, não faça perguntas óbvias. Se estivéssemos numa Dinamarca, numa Noruega, acho que não seria nada de mais. Mas no Brasil, e nesta cidadezinha... tudo se torna muito perigoso. O que, Rosalvo? Ah, sim, você diz que eu e ele gostamos do perigo. Isso, Rosalvo, isso mesmo. Fui eu quem disse há pouco, você está repetindo. Vamos deixar a conversa pra outra hora. Se apresse. O quê?, você acha que eu devo escrever um livro com minhas histórias?, com as situações que me acontecem? Rosalvo, escrever livros é fácil, tanto mais para mim, o problema é publicar, e isso não é assunto para o momento. Venha me buscar que eu conto. A surpresa? Se eu falar perde a graça. Quando você estiver aqui, vai perceber, e como. Vai amar. Uma armadilha? Rosalvo, você acha que eu vou te atrair para uma armadilha? Sou sua amiga, jamais faria isso. Se fosse obrigada? As tais pessoas que me obrigariam não conheceriam você, eu não ligaria para você, procuraria outra pessoa, talvez uma que me tivesse feito algum mal. Uma pessoa assim não me viria buscar, Rosalvo? Deixa, Rosalvo, não precisa mais, não, não venha, vou me virar sozinha, me arrependi de ter ligado a você. Vem o ônibus, vou dar sinal. Não sabia que aqui passava ônibus. Melhor se tiver só o motorista. Sabe, Rosalvo, há um deles que me paquera. Quem sabe seja hoje o dia de sorte do homem. Não precisa, não, Rosalvo. Já dei sinal, está quase parando, vou entrar. A surpresa, Rosalvo? Vai ficar para o motorista. É ele que me vai levar. Pode me olhar de frente, moço, sou eu sim, e sou sem vergonha, não é você que sempre passa às quatro e meia em frente à escolinha? Então, é o seu dia de sorte. Não acredita? É verdade. A verdade às vezes dói, mas a de hoje é só prazer Não precisa ficar com vergonha, não, moço. A pelada sou eu!"

segunda-feira, abril 13, 2015

Posto de vigia

Escrevo sempre com minhas palavras. É inútil querer começar com frases alheias ou pensamentos de outros autores. Caio sempre na minha própria língua, ou no meu modo de narrar. Respiro fundo, quero antever uma solução. A madrugada adianta-se, o bramir das ondas me soa suave, estou só sobre as areias da praia, ainda é escuro o céu. Penso na amiga que me escreveu um dia desses dizendo que foi à praia com o namorado e ele a deixou nua! A exclamação, um tanto desajeitada, é dela. O que haveria demais ficar nua numa praia? Já não vamos todas nuas sobre as areias brancas? Mas ela não podia ouvir-me. Era texto as suas palavras, e eu lia. Ficara nua pelas mãos do namorado, brincaram dentro d’água, e ele lhe escondera o biquíni. Caso permaneça tranquila, as águas hão de lhe servir de cobertor, e o dia nem é tão frio, eu lhe diria sossegada. Mas essa amiga é inquieta, mexe-se muito, e as mãos (incluo por minha conta algo mais) do namorado não a deixam em paz. Paz, quem disse que deseja a paz? Não quer a paz mas, ao mesmo tempo, foge dos olhares que por acaso descubram-na nua por inteiro. Ninguém olha para nós, diz o namorado, vamos aproveitar. E ele sempre de mãos estendidas e quanto oh quanto não recebia de surpresa! Mas depois que tudo acaba e ele sai... Não sei se foi procurar pelo biquíni da moça ou se foi buscá-lo na bolsa. Pois ele saíra no começo, logo que a deixara nua, e correra até o guarda-sol onde ficara a bolsa. Ela diz que um senhor aproxima-se e quer assunto, pensa que a mulher vem sozinha à praia; e o namorado a demorar... Daí em diante calou-se, terminou o texto mandando a mim muitos beijos. Acho que quis experimentar minha imaginação. Enfim, despediu-se. Nada perguntei; nem poderia. Sorri e guardei o papel. Eu, que moro diante da praia, que me é velha conhecida a madrugada, acho que por isso o texto dela ao meu endereço. Desconfia que ando nua pelas areias, sob a luz do luar. Meus namorados jamais tiveram tanta imaginação. Quando muito, tomam-me ao colo e me carregam para a cama. Já vim nua aqui fora sim, uma só vez, e não estava bêbada, apenas desejosa. Certa vez inventei uma historinha a um namorado, historinha pela metade. Falei de um amante que gostava de trepar na praia. Cruzes, mau gosto, respondeu, a areia é pegajosa e, depois, acabamos por estragar as roupas. Importante, ele, roupas caras por sinal. E minha amiga peladinha, na praia, sem recursos diante de um estrangeiro... Ah, sim, a solução sobre o que escrevi lá no começo. Não, não estou nua, acho que até muito vestida, mas o vento salpica-me a pele, talvez também me estrague as roupas. Mas não adianta despir-me. Onde as guardarei? Não trouxe a bolsa, como minha amiga e o namorado, bolsa que, aliás, não lhe deu a solução. Ah, uma proteção, uma guarita abandonada, usada no verão como posto de vigia, agora está quase em ruínas, tão forte os ventos. Entro na vigia, subo dois lances de escada. Surpreendo-me. Roupas. Alguém usa o posto como armário. Roupas de mulher. Levo-as comigo? Não, nunca fui ladra. O que faço? Protejo-me de todos os ventos. Melhor então me guardar na vigia, a vigia como refúgio, a vigia como armário, roupas minhas e roupas de outra, esquecidas, todas misturadas. Sei que ela não virá, não há viva alma na praia. E a noite que termina. Desço da vigia. Salpica-me a pele gotículas de sal, agulhas de areia sangram-me as pernas, o oceano inunda-me até os tornozelos. Volto à vigia, minha amiga pelada sem a bolsa, minha amiga pelada espelho meu... Posto de vigia? Que vigia?

segunda-feira, abril 06, 2015

Mulher de bordel

Sentem-se na pele alguns respingos do mar, eu tão arrepiada, é noite. O prazer do sal ilumina-me as narinas, meu corpo geme um arrepio comprido. Corro à beira d'água, tão próxima, envolta no abraço de meu próprio corpo. Talvez algum morador antigo, acostumado a poucas luzes da vila consiga vislumbrar minha silhueta. Arrisco-me. Não quero a roupa úmida, mareada de oceano. Melhor a pele apenas, o corpo a suspirar saraivada de gotículas. Experimento o gozo que vem do mar. Minha a amiga a correr a orla, a saciar o desejo nu do namorado. Eu não chamo namorados. Flerto com o céu, com as perigosas águas marinhas... Talvez alguém me espreite ao longe, namore uma improvável imagem, fantasma de mulher a surpreender desavisados. A noite é longa, deito-me à borda de um barco que descansa sobre dois cavaletes, um barco que mostra quão impossível é o navegar; o madeiro talvez me levasse a mediterrâneos desconhecidos, Ulisses às avessas, rainha de uma ilha fora do mar. Houve numa das noites, acho que a primeira da estada, uma menina a espreitar-me, queria meus segredos, sob a luz azul da lua pisou sobre meus pés de areia, um modo de arranjar caminhos seus. Disse que não o fizesse, pois os anos marcam todos os corpos, e ela teria os seus. Ninguém segue rastros impunemente.

Os homens da vila têm namoradas que os acompanham no automóvel. Vão nuas as namoradas. Não calculam o comprimento da saia, vão nuas de coxas, de pernas volumosas, e ainda gostam de beber cerveja. Os homens da vila não enxergam estrangeiras, apenas granjeiras que ciscam em terreiro próprio, interminável o carcarejo. Vamos em pele também nós, as estrangeiras. Eles não trepam em línguas que não dominam. Ou melhor, nem reparam que há outras línguas. Jogam os homens, um jogo de azar, um jogo de acasos. Estiro minhas pernas, a malha a fazer-se corpo; os braços estirados; soltam-me dois seios rijos. Onde a blusa que me tingia a pele? Posso voltar nua à pousada? Deito sobre as areias, não espero príncipes. Eles não desembarcam, trancam-se em seus castelos. E eu tão casta. E nenhum castiçal a iluminar-me a face.

Não queria companhia naquela sexta-feira. Toda a cidade reunia-se nos bares. Eu me queria sozinha. Namorada à flor da pele, casada consigo mesma, lua interminável de mel. Caminhei até a orla, longe as vistas ébrias, os homens que querem as mulher duas horas. Peno adentrar o mar. Mar misterioso. Leva minha nudez às escondidas. Minha amiga mergulhava nua para o namorado. Ela, fingida, abandonada, envolta nas sombras escondidas da lua. Nada a esconder, falo de mim. Quero torta a madrugada, como meus cabelos despenteados. Longe dos homens, longe eles de mim. Certa vez abracei-me, apertei-me aos seios. Sufoquei-me. Senti então minhas mãos frias, gastas de desejos, os calos a arranhar-me a pele. Amei-me, e não às escondidas. Suguei meu corpo, embora não alcançasse outros orifícios além da própria boca. E como era doce meu suor. Jamais gostei de doces, salgava a carne quando menina, e a carne era meu corpo.

Do mar sem ondas rema aparente calmaria. O luar em prata derrama-se sobre o espelho. É noite, quero dançar num vão entre os hotéis. agora há um namorado a espreitar-me; aliás, dois, o segundo hospeda-se com mulher e filhos, logo descobre que não amou outra tanto quanto ama a mim. Sou carrossel a girar, presa pelos cabelos, quatro mãos a disputar-me. Dois passos e volto-me à praia. São de ondas o outro carrossel. Se entro no mar? Não sei. Sei que estou sempre a amar, sei que sou interminável mar onde alguns batéis não são capazes de navegar. Perco minhas roupas e ninguém a esperar-me. Um automóvel na areia. Descobre-se tão fácil a sereia que deita ao amor. Oh, talvez um farol ao largo evite o naufrágio. Mas a sereia ainda é peixe, espera a transformação. Não venhas agora, quero ainda demorar-me sobre o dorso de um cavalo-marinho. Queres a mim ou deita-te com minha metade? Dou-te a outra metade, mas não alardeie o troféu. E depois arranja um jeito a mim. Sem o mar serei sempre estrangeira. Quero gozar sã e salva. Disfarça a morte o gozo da mulher de bordel.

segunda-feira, março 30, 2015

A faltar uma blusinha

Ai, acordar peladinha depois dessas festas, nem lembrar como tudo aconteceu... Ainda estou morrendo de sono, acho que são nove ou dez da manhã. É o sítio de Mariinha, quanto a isso não posso me enganar. Quando eu morava em BH, as festas eram mais discretas. Cidade grande é outra história. Aqui, nesse lugarejo, as meninas são de um fogo terrível. O pior é que acham que lá, na cidade grande, as mulheres são mais atiradas que cá. E querem imitá-las. Pior que imitam apenas uma ideia. Então marcam essas festas, onde acabamos quase todas nuas, mesmo que de uma nudez disfarçada, e dormindo em casas alheias, nem sabendo onde foram parar uma das blusas. Isso mesmo, sempre desaparece uma blusa; já aconteceu de sumir uma saia. Como voltar para casa em tal circunstância? É preciso que alguém empreste uma roupa, como um casaquinho de meia estação. Depois vamos até o Shopping, a 120 km da cidade, comprar novas roupas. Aqui em Minas todas vivemos de aparência. É lógico que é o único modo de a sociedade nos aceitar. Fingimos. Em nossos trabalhos somos exímias profissionais. Uma de nós é dentista. Não digo qual, não quero dar pistas sobre as amigas, quem sabe eu? Mas voltando às festas, são de lascar, isso mesmo, acho que é essa a palavra, porque como diz o mineiro do campo, são de tirar o couro. Como não podem nos tirar o couro real, nos tiram a roupa. Depois, dão no couro! Muitas querem ter namoradinhos, curtir a vida a dois, casarem-se. Mas já pensaram sobre? Casarem-se? E quem já passou por isso tudo, quem já cansou? Não se pode viver para o marido, nem para os filhos. É bom ter filhos, não nego, mas não se pode viver em função deles durante toda a vida. Então apareceu a Mariinha e deu a ideia. Chamou as mulheres mais destemidas da cidade e convidou-as todas. Mas, Mariinha, alguém há de acabar descobrindo, afirmou uma. Não, basta que fiquemos de boca fechada, ela retrucou, e não precisa que as festas aconteçam sempre, três ou quatro vezes ao ano é o suficiente, e nada de homem da cidade, acrescentou a promotora. Engajamo-nos na brincadeira, mulheres da cidade e outras que ficavam nela apenas parte do tempo, como médicas, a tal dentista e professoras. O local seria um sítio, a 40 km, na serra de G, digamos assim. Na primeira das festas, não aconteceu nada demais. Apenas comemos, bebemos e dançamos... como dançamos! Homens de menos, mulheres sempre mais numerosas. Fizemos mais duas festas, a frequência aumentou e também a quantidade de homens, mas as mulheres sempre mais numerosas. Na quarta festa, propus que mudássemos o local, precaução apenas. Alguém já está comentando pela cidade?, quis saber a amiga. Não, nada ouvi, mas sabe como é, melhor não facilitarmos. Nas festas seguintes, fomos a uma pousada, era de uma das frequentadoras dos eventos. Numa pousada, algumas se assustaram, isso pode soar mal. Há no lugar um grande salão, e depois, fica-se mais à vontade. E passamos a alternar, uma vez no sítio de Mariinha, outra na pousada. Vieram homens de longe, inclusive de BH, acharam a nossa ideia maravilhosa. Exercíamos nossas profissões durante os dias, éramos as pessoas mais sérias da cidade, mas durante as festas a liberdade era total. Até mesmo vieram algumas mulheres casadas. Mulheres casadas, assustei-me, podem arrepender-se e sair comentando por aí. Nada disso, rebateu Mariinha, tenho o nome de todas, estão arriscando o próprio casamento, e é lícito que se divirtam. E vinham elas, mais sorridentes do que todas nós, mais provocantes, arrumavam-se num dos banheiros da casa, transformavam-se em autênticas piranhas. Não há problema que namoremos, disse a dona do sítio, o importante é que não vire rebu. Achei engraçada a palavra, rebu. Daí em diante já se via uma ou outra agarradinha com seu par, depois a sair ao ar fresco, até que alguém falou pois não há um quarto com cama? Concordou-se, então. A respeito do quarto e da cama. E as festas, oh, uma beleza. Mas nada pode durar para sempre, trata-se de uma verdade absoluta. Fizemos a última ontem, a de despedida (será?). Já está dando na pinta, surpreendeu-me a amiga. Mas até na última acordar peladinha, e sempre a faltar uma blusinha...

segunda-feira, março 23, 2015

Nua dentro da piscina e um amor lésbico

Como a água da piscina estava gelada, num primeiro momento eu quis voltar para a cadeira onde havia alguns minutos eu me sentava.

Eleonora me olhou, sorriu e disse:

Você vai acabar gostando da ideia.

Ela pedira que eu ficasse em pé, bem na beirinha, pois queria comparar o meu corpo ao dela. Contara que precisava emagrecer e que eu servia de modelo a ela. Como sou narcisista, exibida e metida a gostosa, me coloquei como pediu, fiz até uma pose. Ela veio se aproximando, chegou bem pertinho.

Vire de costas, por favor, falou terna.

Prontamente atendi. Coloquei o bumbum voltado para ela.

Muito rápida, ela desfez os lacinhos do meu biquíni e me empurrou para dentro da piscina.

Agora você fica de molho aí, falou depois que eu voltei à tona, sorriu e correu não sei para onde levando a parte inferior do meu biquíni. Logo Eleonora reapareceu, mas de mãos vazias.

Nos primeiros segundos, fiquei furiosa, pois a frase que ela dissera, de que eu ia acabar me acostumando, me deixou muito aborrecida. Jamais eu quis ficar à mercê de outra pessoa. A água gelada, no entanto, pouco a pouco começou a me causar um intenso arrepio e chegou provocar sensação agradável entre as minhas pernas. A preocupação que passei a ter naquele momento foi a possível chegada de outras pessoas. Mas isso acabou aumentando a tal sensação, era como estar deitada sob o sol e medir o tanto que sua quentura nos toca la no fundo.

Volte aqui em cima, ela sugeriu, volte que devolvo o biquíni.

Mas se aparecer alguém, repliquei enquanto segurava na borda e a água escorria pelos meus cabelos.

Não vai surgir, não, ainda é cedo. A não ser que você esteja gostando da brincadeira, acrescentou com certo sarcasmo.

Para não dar o braço a torcer, falei:

Já fiquei nua várias vezes, mas na praia, e pelas mãos de um namorado.

Não sei se minhas palavras a excitaram. Sem que eu esperasse, ela saltou na piscina. O choque do seu corpo na água fez um barulho imenso, pois era gorda. A água respingou por todo lado. Ela nadou na minha direção e me segurou pela cintura.

Pode também me deixar nua, ordenou, vamos, não demora porque chega alguém.

Tirei o seu biquíni e o arremessei longe, bem mais adiante de onde ficavam as espreguiçadeiras.

Você poderia ter sido um pouquinho mais discreta, falou e começou a me fazer carinho.

Juro, foi a primeira vez que estive nas mãos de uma mulher, agora sou eu que falo, e para você, querido leitor. As pessoas sempre desejam saber o desfecho das histórias, não é mesmo? Eu poderia deixar em aberto. Mas conto como acabou.

Ficamos as duas dentro d’água um tempo enorme. Ela conseguiu me provocar vários orgasmos. Talvez seja esse o ponto positivo no relacionamento sexual entre duas pessoas do sexo feminino. Quando acabou, já havia duas mulheres nas espreguiçadeiras. Até então não tinham dado por nós.

Eleonora saiu nua da piscina, e as mulheres continuaram sem nos observar. Ela demorou um tempo enorme para voltar. Fiquei preocupadíssima, pensei que me deixaria nua dentro d’água pelo resto do dia. E a água estava tão clara. Mas acabou retornando. Arremessou o meu biquíni bem no meio da piscina e gritou:

Não falei que você acabava gostando.

Só então as duas mulheres se voltaram par nós. Aproveitei para mergulhar fundo. Enquanto tentava recuperar a calcinha tinha onde enfiar a cabeça.

Até mantive outras relações lésbicas. Mas confesso, prefiro os homens, com toda complicação que eles arrastam atrás de si. Não há melhor coisa do que dar uma boa trepada com eles.

terça-feira, março 17, 2015

Duas noites de loucura

Estou diante da porta do quarto dele; o corredor, escuro; atrás das outras portas, o silêncio. Apenas eu em meio às sombras da meia noite e meia. Dormem os outros os hóspedes. Nenhum reflexo de luz, nenhuma réstia a escorrer por baixo das portas. Uma noite plena após um dia de trabalho árduo. Mas para que entendas, interessado leitor, volto ao começo desse romance fugaz. Ou, caso esteja cometendo algum tipo de exagero ao nomeá-lo assim, passo a chamá-lo lúbrico atrair de corpos. Como a fruta da oliveira que banhada em óleo próprio, virgem e natural, nos desliza garganta abaixo. Mas sejas rápido na leitura, não te deixes enfeitiçar por metáforas que tentam fazer saltar tua pele e abrir teus poros... Do contrário, serei surpreendida nua por algum hóspede inesperado. E poderei cair em mãos estranhas.

Na primeira vez em que me aventurei ao seu quarto, vestia uma camiseta comprida, ia quase até os joelhos. Mas, agora, minhas frágeis asas de borboleta e o odor adocicado que emano do corpo (aquele odor que captura os homens) não me permitem vesti-la. Boa desculpa para não dizer que ele ma tomou. Deixei-a no seu quarto após a noite de amor. Queria continuar a sentir o meu cheiro após o amanhecer. Ao menos foi o que entendi ante o seu olhar insistente, olhar que também me convidava à noite seguinte. Saí rápida, fechei a porta em silêncio e corri ao meu quarto. Ainda bem que deixara a porta destravada, a chave por dentro. Talvez a perdesse no afã do amor, talvez não tivesse para onde voltar... Enlouqueço enquanto amo. Quem sabe, melhor assim. Mas a verdade é que estou de volta a ele. Basta o dobrar da maçaneta e dois passos. Adiante, o abismo. Talvez o amor seja esta tênue sombra do outro a nos tocar momentaneamente o corpo, a ameaçar a nos deixar nua em terra estrangeira. Sem roupa e sem linguagem. Não quero de volta a camiseta. É o ponto claro em meio à escuridão da madrugada. E é a minha última noite.

Viajo toda semana a M, onde trabalho na área de saúde. Sempre a mesma vida, sempre a rotina do viajante. A pousada é de uma velha conhecida. De duas semana para cá, aconteceu algo que me deixou de início excitada, depois inteiramente louca. É lógico que consegui, embora a duras penas, manter a discrição. Ao menos até ontem. Um homem especial se pôs a me olhar. Trata-se de um homem de poucas palavras. Como chegar a ele?, pensei. Não posso dar a primeira carta. Ainda bem que existe uma padaria por perto. Ele estava lá. Comia um sanduíche de presunto. E olha que prefiro queijo. Mas tudo bem, era ele quem comia. Seus olhos me penetraram mais fortes do que qualquer palavra, qualquer frase, qualquer verso de poeta antigo. Não chegou a dizer o que o traz à cidade, ou o que o levou à tal pousada. Mas ouvi com delicadeza o que os seus olhos diziam-me. Permaneci ao seu lado. Éramos dois velhos amigos que já não precisam de palavras. Bebemos do mesmo suco. Voltamos juntos. Entramos e fomos para os nossos quartos. Duas horas depois, ouço dois toques à porta. Abro. Ninguém. Fecho a porta. Não demora e agora três toques. Abro. Ninguém. Ou melhor, um cartão com o número 23. Deixo correr os ponteiros do relógio. Passa uma hora. Ele deve estar pensando que não vou. Mais trinta minutos e corro até o seu quarto. Onde o vinte e três? O que acontecerá caso eu me engane de porta? Alguém abre a porta. É ele. O olhar pleno. Mergulho nos seus braços, atravesso o seu corpo. Muda. Pra que as palavras? quase chego a sussurrar. Consigo, porém, resistir à emissão de qualquer voz. Apenas os guinchos do sexo, os rasgos de amor.

Estou de volta. Muda. Melhor apenas os corpos a se tocaram, a exalarem perfumes ainda que dúbios. Nada sabemos um do outro. Nem mesmo quem nos espera em nossas cidades de origem.

Ao viajante o campo é sempre neutro, a pele sempre lisa. E apraz a roçar num canto da memória duas noites de loucura.

quinta-feira, março 12, 2015

Vale encantado

Estava hospedada no hotel fazenda Vale Encantado, no interior do estado do Rio de Janeiro, em meio a montanhas. Um local de onde não mais se deseja sair. Acompanhava minha filha, meu genro e minha neta. Por falar em neta, o local é um paraíso, principalmente para as crianças. Há várias piscinas, parques, brinquedos, campos para jogos, recreadores e, mais adiante, um lindo bosque. 

Apesar de já ter entrado nos cinquenta, tenho o corpo muito bonito, e, para completar, uso um biquíni mínimo, não é preciso dizer que a parte de trás é apenas aquela tirinha estreita, que entra toda no meu bumbum. Adoro. Minha filha não tem coragem de usar biquíni semelhante.

No segundo dia no hotel, depois de no dia da chegada ter ficado o tempo inteiro na piscina brincado com a minha neta, notei que um senhor me olhava com algumas intenções que não eram a de apenas apreciar a natureza.

Logo que voltei à piscina – já sentia o sol me queimar – ele apareceu ao meu lado, o cabelo curto escorrendo água devido ao recente mergulho. Cumprimentou-me, puxou conversa. Como faria qualquer pessoa educada, correspondi ao seu assunto.

Era viúvo, mas também viera acompanhando familiares. Isso não vai dar certo, pensei. Depois de algum tempo a falar sobre a beleza do local, o clima agradável, a necessidade que temos de passar alguns dias de papo para o ar etc., convidou-me para ir ao bar.

"Bebo uma caipirinha", salientei, "apesar de minha bebida preferida ser vinho. Acho que não há vinho no bar da piscina."

"Acompanho você na caipirinha, depois tenho uma surpresa", falou. 

Imaginei o que ele já estava aprontando. 

No bar, minha filha passou por mim e fez a cara de sonsa que costuma representar quando me vê acompanhada de algum homem. Não correspondi. 

Quando já bebíamos nossas caipirinhas, meu pretendente falou:

"Sabe qual a surpresa? Trouxe comigo duas garrafas de vinho italiano, convido você para beber à tarde", sorriu com ar conquistador. 

Demorei um pouco para dizer se aceitava ou não, mas acabei dizendo que seria um prazer. 

"Convide também seus familiares", disse ele, “caso apreciem um bom vinho.”

Naquela tarde todos bebemos um delicioso Corvo. Meu admirador chamava-se Abelardo. Falou muito sobre as vantagens das férias naquele sítio. Disse que morava a duas horas dali e que já era freguês, vinha quase todos os meses.

No terceiro dia de estadia, minha filha notou alguma coisa além da conversa e resolveu não aparecer para o vinho vespertino. Meu genro parece que, naquele momento, disputaria uma animada partida de futebol. Então, apenas meu admirador e eu apreciamos uma garrafa inteira de Valpolicela. Quando terminamos, confesso que o provoquei.

“Vamos dar um passeio, sugeri.”

Era o convite que ele espererava.

Levei-o através de toda a extensão do hotel, na direção do bosque.

Ao reparar que nos aproximávamos das árvores, falou:

“Queria muito convidar você para passear, mas pensei que acharia a caminhada um tanto longa.”

“Estou acostumada a caminhadas maiores.”

Entramos pelo bosque. O canto dos pássaros àquela hora da tarde era irresistível. Continuamos a dar passadas largas e percorremos um caminho em que predominava uma quantidade maior de árvores. Paramos para apreciar a paisagem. De propósito toquei sobre um de seus braços para apontar a vista. Deixei minha mão ali por alguns segundos. Abelardo parecia embevecido não tanto com a vista a partir daquele ponto da montanha, mas com o calor do meu corpo. Arrastei-o, com uma das mãos, até um arbusto que nos escondia. Qual então não foi nossa surpresa, encontramos um biquíni, isso mesmo, a parte inferior de um biquíni pendurado em um dos galhos mais salientes. Alguém o havia deixado ali fazia pouco tempo, pois dava para perceber que ainda estava molhado.

Coloquei o indicador sobre os lábios sinalizando que nada falasse. Procuramos um lugar mais resguardado. Quando senti que podia dizer alguma coisa, soltei em surdina:

“Acho que alguém teve a mesma ideia que nós, não é mesmo?”

Ele me abraçou e me beijou na boca.

Assim que terminou o beijou, perguntei irônica:

“Será que deixo o meu biquíni no mesmo galho?”

Abelardo me abraçou novamente. Não tive tempo de falar mais nada. Meu biquíni? Ele o tirou. Procuramos um canto sobre a relva e trepamos durante muito tempo.

Quando acabamos, anoitecia. Era possível reparar os postes com lâmpadas oscilantes no outro lado da montanha.

Ao passarmos pelo mesmo local, ainda estava lá o tal biquíni.

“Que tal trocar ou mesmo ficar com os dois, o outro ainda está lá!”, sugeriu, parecia excitado, apesar de todo o sexo que fizemos.

“A ideia não é má.”

“Qual delas?”

“A segunda.”

A última palavra lhe despertou novo desejo. Quis me colocar nua mais uma vez.

“Calma, amanhã ainda haverá tempo, e quem sabe será mais interessante?”, acrescentei.

Mas ele não resistiu. “Amanhã e ainda hoje!”

“Está bem”, falei, “mas espere um instante.”

“Aonde você vai?”

“Vais já saber.”

Fui até o galho e coloquei o meu biquíni ao lado do que lá estava.

segunda-feira, março 09, 2015

O que eu vou fazer da minha vida?

Jessé balançou os dois últimos caroços na concha da mão e lançou-os em dado. Era noite, e o jogo estava feito. Eliane arrepiou-se, ela fazia parte da aposta. Como flertava com o perigo, o friozinho na barriga dava-lhe prazer. Ao abrir uma das mãos o homem, com um dos cantos da boca, lançou-lhe um sorriso de escárnio, sabia que ainda não seria sua a vitória. A mulher, corajosa, tinha sorte, ele concordava. Jogador escolado, o mulato também sabia que a sorte um dia escapa. Era só ter paciência que ela, a mulher, cairia de joelhos. Pagou o que devia. Eliane sorriu. Muitos homens já haviam frequentado seu corpo sem necessidade de lance de dados. Quanto a Jessé, tratava-se de um capricho, queria prendê-lo. Ele era elegante, bonito, a pele brilhosa, o cabelo negro farto e bem penteado. Um homem que não fora feito para qualquer garota. O jogo, portanto, era a arma da mulher. Ela tinha consciência de que corria risco; a sorte, como lera nos olhos de Jessé, não dura para sempre. Enquanto pudesse, no entanto, arriscaria; era um modo de se valorizar, de criar no homem a cada dia o desejo mais intenso. Talvez, assim, ele durasse ao seu lado mais tempo. Não tinha ilusão, conhecia os homens Ao conseguir uma mulher, ao desarmá-la de seus encantos, eles depressa vão à cata de outra, de novas experiências, que logo se tornarão velhas. A roda continuava a girar. Eliane sabia que no fundo tudo era ilusão.

Fazia três anos que percebera sua tendência para a sorte no jogo. Um ex-namorado a convidara a um café numa cafeteria no centro de M. Eliane aceitou. Os dois encontraram-se por volta das 16h00. O local era bonito. Tomaram dois expressos e comeram duas fatias de bolo. Jonas pediu um pouco de leite. Ela começou a contar sobre o casamento. Disse que estava muito feliz, o marido era companheiro e atencioso. Ressaltou a palavra companheiro duas vezes. O homem não deixou escapar as palavras de Eliane. Como já conhecia a mulher, desconfiava de algumas das histórias contadas por ela. Quando já estavam à mesa por mais de trinta minutos, perdurou um profundo silêncio entre os dois. Ela aproveitou para olhar através do vidro o trânsito que era intenso na rua defronte. Era possível avistar as árvores que se enfileiravam no outro extremo da avenida formando um pequeno parque. A mulher sorriu, lembrou que já passeara naquele local tarde da noite com o homem que estava à sua frente. Voltou o rosto a ele e continuou com o ar de alegria que o momento permitia. Eu e meu marido somos apenas companheiros, queria dizer isso a você, tocou no assunto novamente; não fazemos sexo, entende?, somos apenas amigos, ajudamos um ao outro. Jonas franziu a testa. Amigos?, repetiu; estranho. Verdade, Eliane retomou a palavra; ele tem um problema, não pode fazer sexo, nunca fizemos, mas está bom assim, concluiu. Jura?, ainda perguntou Jonas. Eliane apenas moveu a cabeça. Saíram da cafeteria e seguiram a rua Teixeira. Continuaram a conversar assuntos esparsos, ora olhavam os carros, ora os prédios do lado onde caminhavam. Tenho de ir até em casa, ela falou. Eliane tinha duas casas, uma na serra, outra na cidade, referia-se à da cidade. Jonas não falou nada num primeiro momento, depois continuou ao lado dela; mais adiante perguntou se podia acompanhá-la. Pode sim, ela disse. Dobraram à direita numa transversal e seguiram até o Visconde, um bairro de casas de dois andares. Antes margearam a rodoviária. Quero ver se pego o de 17h30min, disse ela. Faltam ainda trinta minutos, replicou Jonas olhando o celular. Ao chegarem à casa que Eliane ainda mantinha na cidade, ela advertiu: está muito diferente da casa que você conheceu, dei alguns objetos, levei todas as minhas roupas para a casa da serra, mantive apenas o sofá, a cama e o fogão. Jonas assentiu, sabia que ela na verdade já não residia ali havia pelo menos três anos. Ao chegar, seguiram o pequeno corredor do térreo até entrarem no corpo da casa, subiram dois lances de escada. Eliane abriu a porta, que nem estava trancada. Ambos entraram. Ela primeiro; ele, a seguir. Não repara, pediu a mulher; está uma bagunça. Não faz mal, compreendo a situação, redarguiu Jonas. Eliane procurou um objeto, mexeu em outro, olhou para seu ex-namorado e sorriu. Lembra que você foi nua lá embaixo, certa vez?, Jonas disse em voz baixa. Você não esquece isso, ela falou e sorriu, um sorriso luminoso. Ele teve vontade de abraçá-la, mas nada falou. Ela continuou nos seus afazeres. Eliane tocou de novo o nome do marido. Como falava nele... Disse que ele lhe pedira algo, e que logo iria ligar para saber se conseguira. Jonas permaneceu em silêncio. Eliane não era boba, sabia que o ex-namorado ainda lhe desejava, fazia bem para sua autoestima, ela valorizava o momento. Pensou em perguntar a Jonas se queria que ela tirasse a roupa; ficaria nua e pediria para ele segurar seu vestido; ah, os homens, sempre ficam excitados com mulheres nuas. Nada mais, porém, apenas a nudez, a pele branquinha à mostra. Suspirou, tocou de leve no tecido que compunha o vestido. Ia aos joelhos. Ele não gosta da casa da cidade, ela acrescentou referindo-se ao marido. Você está precisando de dinheiro?, Jonas interveio. Dinheiro?, sempre a gente precisa, por que a pergunta?, ela quis saber. Achei que você precisava; a licença, o afastamento do trabalho, as dores que você sente, deve estar precisando, ele retrucou. Sim, você acertou. Jonas abriu a pasta, tirou a carteira e de dentro dela puxou duas notas de cem e duas de cinquenta, estendeu a mão com as notas a Eliane. Como faço pra pagar?, ela perguntou. Não sei, faça como achar melhor, respondeu ele. Não vou ter pra devolver tão cedo, ela continuou. Não faz mal, não estou precisando agora, disse o ex-namorado, com uma entonação decisiva. Eliane guardou o dinheiro. Bom, vamos embora. Acabou de falar e ouviu o telefone. É ele, meu marido. Foi até a janela e conversou um pouco, prometeu que voltaria logo, já havia resolvido tudo que programara. Não, não demoro não, ok?, um beijo. Desligou. Ao olhar na direção onde Jonas estava minutos antes, não encontrou ninguém. Ele partira sem que ela notasse. Sentiu-se só. Jonas lhe fazia bem. Lembrou-se da vez em que foram juntos à praia e ele sugerira que ela tirasse o biquíni e o entregasse a ele. Ela, como sempre espevitada e querendo demonstrar determinação, desfez os laços e ficou nua. Entregou o biquíni nas mãos de Jonas, deu um mergulho. Ao voltar à tona, percebeu que ele havia desaparecido. Acontecia de novo. Jonas se fora. Ela, só, sem ninguém a socorrê-la... O que eu vou fazer da minha vida?

Jessé balançou os dois últimos caroços na concha da mão e lançou-os em dado. O jogo estava feito. Era noite. Ele a incentivava, e ela sabia que tinha sorte. Ao menos por enquanto, sabia também que um dia perderia. Para a ocasião, já trazia pronta e ensaiada a frase. Jessé, sei que você está louco por mim, pra isso nem precisava de aposta; se você tivesse falado antes, a gente já transava fazia tempo; mas apenas isso, viu? A roda continuava a girar. Eliane sabia que no fundo tudo era ilusão.

domingo, março 01, 2015

Respirei fundo

Como a água estava fria, usávamos os pés para nos movimentarmos, assim não só mantínhamos nossos corpos aquecidos, mas também flutuávamos entre as ondas. Ele, mais do que eu, era ágil com as mãos, queria a todo custo tocar meu corpo. Mas o que me provocou quentura mesmo foi um afago diferente que ele me fez. Nunca havia percebido que alguém, apenas num ligeiro deslizar de mãos, pudesse me provocar um orgasmo enquanto tentávamos escapar da arrebentação.

Tudo começou uma hora antes. Eu andava no calçadão, na altura da Rainha Elizabeth. Queria um quiosque para tomar água de coco. Mas não sei o que me deu. Ao olhar as bebidas expostas, vi uma garrafa de vodca, e aquela marca não era comum nos quiosques.

O senhor faz uma caipivodca para mim com aquela vodca ali?

É pra agora, o empregado não pestanejou.

Eu vestia meu biquíni vermelho, não é tão pequeno mas deixa os homens loucos; uma camiseta justa me cobria até o umbigo. Trazia no ombro a bolsa. Pronta a bebida, comecei a mordiscá-la.  Descobri então um homem que me admirava, e já devia estar ali fazia tempo. Dei uma ajeitada na pose, tomei o copo nas mãos e fui até uma cadeira vaga, numa das mesas que me permitia olhar quem andava no calçadão. Ele se aproximou.

Posso sentar aqui?, quase não há lugar.

Ok, fiz ar displicente.

No começo, fingiu não querer nada comigo. Olhou a paisagem, as pessoas, o empregado do quiosque.

Essa bebida é ótima, não?

É, falei e continuei indiferente.

Deixa a gente a mil.

Poucas palavras as suas, mas suficientes para me calar. Lembrei uma amiga que sempre diz que caipirinha é bom porque sobe pelas pernas em questão de minutos.

Respirei fundo. Ele prestou atenção.

Essa sensação passa, mas só depois de meia-hora, a não ser que se encontre um grande amor, falou.

Não aguentei, tive de rir. Um tempinho depois contei o que minha amiga me dissera.

Ainda dentro d’água. Ele já conseguia me segurar pela cintura, puxou meu corpo para junto dele. Não ofereci resistência. O mar nos levava para cima e para baixo. Às vezes, espumas nos invadiam. Ele beijou minha boca. Deixei que sua língua me ultrapassasse os lábios. Deslizou várias vezes as duas mãos pelas minhas costas, me aprumou rente a ele, ventre contra ventre.

Você não teme o mar?, perguntou.

Só quando há correnteza.

A correnteza hoje são as minhas mãos, os meus braços, os meus lábios; tacou-me mais um beijo.

Nadamos um pouco mais adiante, flutuamos atrás da arrebentação.

Calma, falei, assim você me deixa nua.

Ele havia puxado o meu biquíni, descera até as coxas, um pouco acima dos joelhos.

Você é muito gostosa.

Vamos fazer uma coisa, falei, namoramos como duas pessoas decentes, depois você me leva para onde quiser e lá...

Tudo bem.

Foi assim que aconteceu. Acabei no apartamento dele, ali na Djalma Ulrich. Fiquei até pouco depois de meia noite. E ainda estava de biquíni. Antes de partir, porém:

Você não tem uma camiseta comprida para me emprestar?, pedi.

Tenho, mas só aceito se for uma troca, ainda que temporária.

Troca?, fiz cara de que não entendi.

Ele olhou para o meu biquíni.

Jura que você quer?, perguntei.

Brincadeirinha.

Ele foi ao quarto pegar a camiseta. Enquanto isso entrei no banheiro, tirei o biquíni e o dependurei na torneira do chuveiro. Ele me passou a camiseta pelo vão da porta. Vesti e me olhei no espelho. Caiu bem, era como se eu usasse um minivestido.

Ao sair, beijei meu recente namorado mais uma vez. Ele insistiu querendo-me levar em casa.  Eu disse que não era necessário. Tomei o elevador e desci.

Desejava andar pelas ruas de Copa, apenas a camisa curta prestes a revelar minha nudez, ou lhe deixara o biquíni como um mimo? Nada disso, o ardil tinha outra intenção. Que ele me procurasse na manhã seguinte.

domingo, fevereiro 22, 2015

Ele adora me ver sem sutiã

Ele adora me ver sem sutiã. Apenas a calcinha, e bem pequena, entrando toda no bumbum. Mas um dia desses aconteceu um problema. Não digo que seja ele o culpado, eu também andava gostando da brincadeira. Nossa cidade não é grande, mais cedo ou mais tarde todos acabam se conhecendo. Há pessoas de famílias tradicionais, que vivem aqui desde uma época que já se perdeu no tempo; há outras que vieram há duas ou três décadas para trabalhar na industrialização que começava. Minha família é desta época. Há também empregados que ficam na cidade apenas nos dias de semana, sexta à noite voltam para os seus lugares de origem. Isso tudo para contar o que me aconteceu de anormal, vejam só. Meu namorado, com tais gostos extravagantes, passou a pedir que eu saísse sem sutiã. No princípio, não aceitei; depois, fiquei na dúvida. Até que, num dia desses, resolvi arriscar. Para muitas mulheres, andar por aí sem sutiã é a coisa mais normal do mundo. Para mim não foi tão fácil. Na primeira vez me senti nua, e olha que costumo ir à praia com um biquíni mínimo. O dia em que saí apenas com uma blusinha de verão por cima da pele foi para ir a um restaurante. E meu namorado me prometeu que seria à meia luz. Promessa cumprida. Fiquei achando, porém, que todos estava olhando para mim e descobrindo meus seios. Na vez seguinte, fui sem sutiã a uma discoteca. Estava uma loucura. Nem houve tempo para eu pensar que os homens me adivinhavam nua. Mas um dia na praia, quando ficamos num bar bebendo e comendo uma besteirinha, reparei um homem que me olhava com insistência. Ele estava em outra mesa. Apesar de eu ter estado de top durante o tempo em que fiquei na praia, ao irmos ao bar meu namorado pediu que eu fosse ao carro e que voltasse apenas de camiseta. Dois dias depois dei com o mesmo homem na condução, enquanto eu ia para o trabalho. Achei que fosse coincidência. Três dias depois, quando voltava a um dos restaurantes com o namorado, o homem estava lá de novo. Concluí que estava me seguindo. Comecei então a ficar preocupada, mas nada falei ao meu namorado. Na semana seguinte fomos à praia, era de tardinha. O tempo estava fresco. Logo ao entrar na água, meu namorado começou a me abraçar, a me beijar, a passar as mãos por todo o meu corpo. Não demorou a pedir que eu tirasse o top. Pode aparecer alguém, alertei. Não aparece não, falou, a praia está quase vazia. Fiz a vontade dele. Ele pegou meu top e levou lá para a areia, onde estavam as nossas coisas, como a cadeira de praia, minha bolsa e uma toalha. Fiquei com os peitos nus, debaixo d’água. Meu namorado, ao menos naquele momento, teve razão. Ninguém à vista. Três dias depois fui à praia sozinha. Fazia um calor intenso. O namorado disse que, caso resolvesse o problema de uma construção sobre a qual era o responsável, viria à orla mais tarde encontrar comigo. Para minha surpresa, logo que mergulhei, após ter permanecido meia hora sob o sol, dei de cara com o tal homem que me seguia. Aproximou-se e perguntou como eu estava passando. Nada respondi. Tentei me afastar. Ele falou outro dia vi que você tomava banho sem o top, seu namorado gosta da brincadeira, não é mesmo? Fiquei desconcertada. Mas mantive a pose enquanto voltava à areia. O homem não me abandonou, Afastou-se, porém permaneceu nas proximidades. Reparei que continuava de olho em mim. Naquele dia, meu namorado não apareceu. Às duas horas, voltei para casa. Andamos por bares e restaurantes, festas e algumas boates, eu sempre sem sutiã e usando roupas de acordo com o desejo do meu namorado. O homem que me seguia desapareceu durante alguns dias, mas não desistiu. Confesso que comecei a gostar de estar sendo admirada por dois homens, muito másculos por sinal. Três semanas depois voltei sozinha à praia. O homem, quase como um fantasma, apareceu ao meu lado, na areia. Oi, gata, quanto tempo, que saudade, ele disse. Tive de rir. O que ele encarou como sinal de vitória. Conversamos um pouco. Entramos na água. e acabei nos braços dele. A cidade não é grande, sussurrei, logo aparece uma conhecida. Deixa comigo, ele retrucou. Ficamos abraçados, bem longe da areia, eu de costa para aquele pequeno mundo. Dali fomos direto a um motel, numa cidade vizinha. Cheguei em casa quase à noite, ainda vestindo o biquíni. Ou sem ele!, o homem me deixou louca. Passei a namorar os dois, mas morta de medo de ser descoberta. O segundo, que eu chamo de namorado fugidio, sempre me tranquiliza. Deixa que eu resolvo, afirma com toda a segurança do mundo. E resolve mesmo: exige muito mais de mim do que andar sem sutiã.

quarta-feira, fevereiro 18, 2015

Chá de cadeira

Estava na cafeteria, na Rainha Elizabeth, havia pedido um expresso e um croissant, quando apareceu a Hellen.

"Oi, que bom encontrar você, posso sentar aqui?", perguntou e sentou antes de eu responder.

"Oi, tudo bem?, que bom te ver", tentei ser simpática.

“Quer dizer que ele te deu um tremendo chá de cadeira?”, perguntou, ardilosa.

“Chá de cadeira?”, fiz de conta que não entendi.

“É porque ele é muito assediado. Você precisa ver, todas as mulheres vão atrás dele.”

Engoli a seco e comecei a pensar no perigo que eu corria.

O namorado quase me caíra do céu. Tinha um escritório no mesmo prédio onde trabalho com moda. Sempre me cumprimenta e faz olhos compridos às roupas que uso.

“Você tem bom gosto”, óbvia, a opinião dele.

Como Helen soube do chá de cadeira?, pensei.

“Ele usa uma pasta larga, não é mesmo?”, ela continuou. “Não sei o que leva lá dentro, mas é grande para um advogado.”

Gelei. Será que ela sabia? Como?

“Oi, meu amor, que bom você ter vindo, tenho um tempinho”, ele levantara e viera me beijar. O escritório de um bom gosto incrível. E há um divã.

“Pra que o divã?”, cheguei a perguntar à primeira vez.

Ele apenas sorriu. Não demorei a entender.

“Dizem que ele dá muitos presentes a todas as namoradas”, Helen afirmou eufórica.

“Você já o namorou?”, demonstrei ciúme e curiosidade.

“Quem dera, nunca tive tamanha sorte”, suas palavras revelavam certo ar de frustração.

Ao dizer que tinha um tempinho, eu já entendia o que ele desejava. Me levantava, girava meu corpo no ar e depois me deitava no divã. Num desses dias de namoro fez a proposta.

“Você espera por mim?, não demoro. Assim, quando estiver de volta faço mais carinho em você.”

“Espero na minha sala”, sugeri.

“Não, por favor, fique esperando aqui.”

“Tenho também de trabalhar.”

“Você trabalha pelo telefone, pois ligue daqui.”

“Ok”, acabei cedendo.

“Quero ter certeza de que você não vai embora”, acrescentou.

“Não vou, prometo.”

“Levo seu vestido. Assim você não vai poder sair.”

“Meu vestido?”, chegue a suar ao ouvir a proposta. “Quer dizer que vou ficar pelada, aqui?”

“Isso, o que há de mais?”

“E se você não volta?”

“Você acha que vou abandonar meu escritório?”, ele riu, como se fosse algo mais absurdo do mundo. “Trata-se apenas de um jogo.”

“Não sei, isso parece brincadeira de criança”, retruquei.

“É bom ser criança em alguns momentos, não?”

“Não sei. Lutei tanto para amadurecer.”

“Ok, então vá a sua sala. Foi apenas uma proposta indecente. Ah, lembra a pulseira?, encontrei o ourives. Encomendei uma pra você”, sorriu no fim da frase e veio me beijar.

“Ok, doutor”, falei com ironia, “pode levar meu vestido. Eu espero.”

Ele se foi todo feliz. Resolvi tudo que tinha de resolver, pelo telefone. Meus clientes jamais saberão que, apesar de trabalhar com moda, liguei para eles inteiramente nua. Meu namorado? Demorou quase três horas para voltar. Me deu um tremendo chá de cadeira! Mas a pulseirinha, que linda...

Veio a garçonete com o meu expresso e o croissant; perguntou a Hellen o que desejava. Mas ela estava interessada na minha vida mais do que eu. Oh, pensei, por que nada pode ser perfeito?

quinta-feira, fevereiro 12, 2015

Ainda bem que existe o carnaval

Sempre fui tímida. Arranjar namorado, nem se fala. Caso alguém venha falar comigo, fico desarmada. Não tenho palavras para sustentar um diálogo nem por dois minutos. Ainda bem que existe o carnaval, a festa que nos faz virar a cabeça. No meu primeiro carnaval, quando já me sentia um pouco mais madura, fantasiei-me de colombina. Levei, porém, uma máscara. Não estava preparada para brincar de rosto descoberto. Outro ponto que combinei comigo mesma naquele ano, não me divertiria perto de casa. Escolhi um bairro distante e lá fui eu. Não sabia que seria tão fácil dançar, e até arranjar namorado. No começo, deixei-me levar pela música, pelos tambores e, depois, pelas mãos dos rapazes. Como não era conhecida no lugar, não havia nada de mais me divertir, permitir até mesmo que me beijassem. Já naquela época, pelo menos nas primeiras horas de diversão, sempre achei melhor fugir dos rapazes que me queriam exclusiva. Misturava-me à multidão e aparecia na outra ponta do cordão, ou mesmo algumas ruas à frente, quando, furtiva, podia apreciar outra música, outro ritmo, outros homens e deixar, pouco a pouco, que escorregassem seus braços pelos meus ombros e cintura. Com o passar do tempo, tornei-me desinibida. Já não usava máscara, e não fugia assustada dos primeiros foliões que me queriam abraçar. Apenas os recusava polidamente e marchava adiante, sempre no ritmo da música. Outro ponto, oferta que a passagem dos anos me proporcionou, foi o despojamento da fantasia. De carnaval a carnaval, preparava uma roupa mais confortável e, não posso deixar de salientar, menor. Os homens são tarados por mulheres nuas. Além de fazê-los enlouquecer, sentimos um gozo todo especial ao andarmos nuas pela cidade. Portanto, minhas sainhas da fantasia subiam cada vez mais, ou mesmo desapareciam. Ora usava short, ora biquíni. Algumas pessoas devem desejar saber como é possível estar fantasiada vestindo apenas biquíni. É plenamente possível. Pode-se ressaltar a época que se deseja representar. Como era o biquíni nos anos 1950? Como nos 70? Como nos 90, ou mesmo nos nossos dias? Por isso, a cada dia de carnaval, é possível espelhar uma época. Claro que o observador deverá ter conhecimento desses períodos para compreender a fantasia. Mas aí o problema já não é meu. Outro ponto: como, ao usarmos um minúsculo biquíni, podemos transmitir a ideia de que não convidamos os homens a nos deixarem nuas ou a não transarem conosco? Será preciso, então, demonstrar que o nosso objetivo é dançar, pular carnaval, e que braços e mãos daqueles que nos admiram devem ficar distantes. Mas para isso precisamos ter muita energia. É necessário dançarmos sem parar. Assim, deixaremos exausto qualquer um dos rapazes. Acompanhar toda a nossa alegria tornar-se-á para eles impossível. Ficarão para trás. Como ter tanta energia? Mas sobre isso nada falamos, é o nosso segredo. Outra fantasia, já antiga, que arrasta uma fileira de homens atrás da gente – pude constatar faz três anos – é a saia de franjinhas. Aquele tipo de minifantasia que obriga os homens a torcerem o pescoço ao cruzarem conosco. Eles têm razões para querem certificar se usamos calcinha ou se vamos nuas. Trata-se de uma das minhas fantasias preferidas. Mas no carnaval que estou vivendo agora, optei por um tipo de canga especial, de renda, como um vestido de noiva, com apliques aqui e ali, evitam, desse modo, a total transparência. O tecido fino cobre e, ao mesmo tempo, desnuda o meu corpo. Desperta também a curiosidade dos homens: há algo sob a fina teia? Ao mesmo tempo, posso amarrar a renda do jeito que desejar. Ora como um tomara que caia, ora cruzando o pescoço e deixando entrever um pedaço de seio (será que vai solto ou há algum suporte invisível?, pois se mantém tão rijo). Mais um segredinho, sempre prefiro os espaços descampados, as ruas largas, o ar por sobre a minha cabeça, ou mesmo a água a molhar-me o corpo caso venha a chuva. Nada de me divertir encurralada em camarotes estreitos dos bailes de carnaval. Nada de estar nas mãos de homens destemperados. Ou melhor, não quero pano algum meu segredado pelas mãos deles. Basta-me o arrepio da rua, basta-me o perigo aparente do folião imprevisto, meu suposto algoz. Apenas suposto, porque na hora agá gozo. Apesar da timidez, tenho o poder de perceber no lampejo dos seus olhos a virtude de esperar primeiro a satisfação das mulheres. E continuo na folia. Diálogos? Lembram lá em cima? Jamais sustentei. Nem por dois minutos. Nem para pedir de empréstimo a camisa caso, no fim da folia, surpreenda-me o raiar da quarta-feira.

terça-feira, fevereiro 10, 2015

Ela mostrou o bumbum

Célia, neste bairro acontece cada coisa impressionante. Sempre digo, Copacabana é um celeiro de todo tipo de história, você que gosta de escrever, ouça, de repente, quem sabe, surge mais um conto.

Clara, você também é uma ótima narradora.

Sei que sou, mas estou mais para a oralidade, para as fofocas. Está rindo, Célia? Verdade. Então escute. Um amigo, o Sérgio, estava andando pela praia num dia desses ao entardecer, uma dessas caminhadas que as pessoas exercitam para dizer que estão cuidando da saúde. Você entende, não? Ia ele ali pelo posto quatro quando reparou uma moça de miniblusa e saia branca curtinha. Ela era alta, do tamanho dele, também caminhava. Sérgio olhou as pernas dela e ficou impressionado com a lisura e a beleza. Mas o que lhe chamou a atenção mesmo foi o comprimento da saia. Pensou, bem, ela deve estar de biquíni. Ele continuou a marcha. Diz que sempre sai do posto seis e vai até o Windsor, depois retorna ao ponto de partida. Foi assim que fez. Na volta, no final da caminhada, parou no último quiosque e pediu um coco. Tomou a água enquanto olhava para o mar, que estava plácido, bonito, os últimos raios de sol refletindo sobre a superfície, um espelho, segundo ele. Quando voltou o rosto para o calçadão, reparou a moça de saia curta. Ela também terminava a caminhada e vinha na sua direção. Parou no quiosque e pediu uma garrafinha d’água. Ao levá-la à boca, sorriu para o Sérgio. Ele gostou do sorriso, e começou a pensar como faria para conversar com ela.

Isto é fácil, Clara, bastava comentar sobre o tempo, sobre a placidez do mar, a beleza do dia...

É fácil, sim, Célia, mas meu amigo é uma pessoa sofisticada, gosta de impressionar. Ouça. Ele não precisou falar nada. Ela é que iniciou o assunto. Bom está pra o stand up, ela lançou o tema. Stand up é aquela prancha em que a pessoa vai em pé. Ele arregalou os olhos e respondeu alguma coisa do tipo, pratica você este esporte? A moça fez que sim e começou a desfiar uma história. Para não me alongar. Ele acabou convidando-a para a prancha naquele momento. Alugariam duas, uma para cada. Agora não posso, ela falou, vai você, fico apreciando. Ele disse que então era melhor ficar com ela, os dois a conversarem. Desceram até a praia e olharam mais de perto as pessoas que praticavam o tal esporte. No final, ele arremessou sua saia é tão bonitinha. Você quer dizer curtinha, ela rebateu. Ambos sorriram. Tenho ainda uma surpresa, ela acrescentou. Surpresa?, ele quis saber. Embaixo da saia, a moça completou. No início, ele achou que ela se portou de modo vulgar ao dizer isso. Mas, a seguir, ficou curioso. Debaixo da saia?, o que você quer dizer com isso? Ela respondeu nadinha. Nadinha?, ele repetiu surpreso. Quer se certificar?, ousou a moça. Ela caminhou dois passos à frente e deu uma levantadinha na parte de trás da saia, mostrou o bumbum. Ele sentiu um solavanco no peito.

E depois, Clara, o que aconteceu?

Sérgio quis levá-la imediatamente ao seu apartamento. Mas a moça desconversou, disse que marcaria outro dia. Ele ainda perguntou como você pode agir assim?, vem à praia, mostra a um homem que está nua, provoca-o e depois quer fugir. Brincadeirinha, ela revidou, vai dizer que não gostou? E ficaram os dois nisso mesmo. Ou melhor, houve um abraço bem apertado, um beijo na boca, e a sainha dela nas mãos do meu amigo. Ao olhá-la nua diante dele após soltá-la do abraço, apaixonou-se. Você tem certeza que não quer ir comigo hoje?, a voz de Sérgio saiu meio embargada. Prometo ir outro dia. Grave então meu endereço, ele tentou modular o tom, apareça amanhã ou depois. Vou sim, foi a vez dela. Dois dias depois, à noite, escutou o interfone. Era ela. Não esquecera o endereço. Vestia uma sainha do mesmo comprimento. Beijou-o ao entrar, trazia no rosto intensa alegria. Namoraram boa parte da noite. Quando estava para ir embora, já madrugada, acrescentou não vá me fazer voltar pelada de novo pra casa. E sorriu safadinha. Até agora ele não me contou se ainda arde a paixão.

sexta-feira, fevereiro 06, 2015

Cavaleiro Negro

– Parece que estou num forno – gemeu a jovem, dilatando as narinas porejadas de suor. Se soubesse teria inventado uma fantasia mais leve.

– Mais leve do que isso? Você está quase nua, Tatisa. Eu vinha com a minha havaiana, mas só porque aparece um pedaço da coxa o Raimundo implica.* 

– Você devia deixar o Raimundo pra lá. Fantasia leve pra mim seria uma minissaia de baiana e bustiê, sem calcinha.

–Verdade, no carnaval ninguém é de ninguém. 

A amiga de Tatisa frequentou os bailes de carnaval nos clubes mais famosos do Rio de Janeiro, onde tudo era liberado. Existia troca de pares para dançar e até mesmo para fazer outras coisas. Ela lembrou-se de um fato que lhe aconteceu anos atrás. Será que nesta noite iria se repetir, mesmo se tratando de um baile no interior?

Ela conheceu um Cavaleiro Negro, por quem logo se apaixonou. Fingiu ir ao banheiro e se escondeu atrás de uma pilastra larga, que se alcançava passando por fora do salão. Ninguém imaginaria que alguém com tanta vontade de fazer sexo ao som das marchinhas pudesse ir tão longe para se deliciar com as taras de um homem misteriosamente fantasiado. Quando o Cavaleiro a viu sair também se esquivou, sabia que daquela fuga lhe renderiam os prazeres da ancuda fantasiada de baiana.

Chegando ao local, o mascarado avistou a moça já se enroscando na pilastra. Parecia estar subindo pelas paredes. Ele se aproximou de mansinho e a abraçou pela frente. Sentiu as cochas suadas da mulher. Em toda aquela esfregação notou que não havia empecilho para que seu honroso pênis penetrasse as entranhas da buceta da baianinha. Os dois se deliciaram a ponto do orgasmo ter escorrido pelas pernas dela.

No salão, Tatisa estava entediada, não tinha aparecido nada de exorbitante para ela, somente uns bobões querendo dançar em forma de trenzinho. Ela comentou:

– Você sumiu pra onde? Está com uma cara de felicidade. Estou achando esse baile uma merda. Amanhã você me conta o que houve.

Às quatro da manhã o baile terminou e as duas foram pra casa. Antes de dormir Tatisa insistiu no assunto, e quando a amiga contou o que lhe tinha acontecido ela enlouqueceu. Queria vestir a fantasia de baiana e voltar lá pra também tirar uma casquinha. Mas já era dia. Elas então se prometeram trocar de personagens no dia seguinte só pra Tatisa poder tirar o seu pé da lama.

É lógico que a amiga faria esse sacrifício para deixar Tatisa saborear o cavalo negro, mas ela mesma não ficará no abandono. É muito criativa e sedutora.

* As duas primeiras falas deste texto pertencem ao conto "Antes do baile verde", de Lígia Fagundes Teles.

quarta-feira, janeiro 28, 2015

Rigolleto é sempre Rigollerto

Certa feita, uma linda mulher comentara com suas amigas sobre as taras do seu amante, Rigolleto: “Ele é o máximo. Todas as vezes que me pega, me leva ao delírio. Já trepei com muitos homens, mas todos muito sem sal. Rigolleto sempre está com o pau duro quando chega perto de mim. O volume de suas virilhas é notado através de sua calça. O zíper quase se abre quando me abraça.” A linda mulher ao relatar seus prazeres diante de várias mulheres sexys mantinha um semblante de tesuda. Acrescentou que uma vez conheceu uma teúda e manteúda que esbanjava elogios sobre certo macho dela com o nome de Rigollerto. A linda mulher no momento ficou com a pulga atrás da orelha. "Será o meu Rigolleto?” A teúda e manteúda relatava momentos de amor parecidos com os que a linda mulher gozava com seu parceiro, que nunca falhava em suas investidas de amor. Tudo o que Rigolleto fazia tinha sentido para a linda mulher. Ele a banhava em caldas de cerejas e lambia até as entranhas de sua buceta. Todas as vezes que inventava algo, era ousado e estimulante. No mês de janeiro fazia um calor intenso, Rigolleto então pegava um saco de gelo e banhava o corpo da linda mulher. Mesmo com o calor do seu sexo misturado ao calor do ambiente tudo continuava perfeito. As amigas desejavam saborear Rigolleto. Todas murmuravam ao ouvir as aventuras que a linda mulher narrava. Num passeio de férias, quando viajaram para o exterior e se encontravam num restaurante, a linda mulher avistou sua conhecida, a teúda e manteúda, antes de Rigolleto. A mesa reservada a eles era num cantinho bem discreto e a linda mulher observava o comportamento da teúda e manteúda sem que ela percebesse. Momentos antes de pedir a conta, Rigolleto se ausentou para ir ao banheiro, tinha esbanjado no champanhe. A linda mulher não percebeu que Rigolleto também havia visto a teúda e manteúda. E como já se conheciam, conseguiram dar um chá de cadeira na linda mulher. Saíram de fininho e foram se esbaldar num motel de luxo. Com o nome diferente por aumentar um “r”, Rigollerto fez das boas trocando sua linda mulher pela teúda e manteúda. Rigolleto ou Rigollerto, sendo a mesma pessoa, não permitia coincidências nos comentários da linda mulher e da teúda e manteúda. Será que a linda mulher ao elogiar seu parceiro às amigas perdera Rigolleto somente para a teúda e manteúda?

sexta-feira, janeiro 23, 2015

Atriz de telenovela

Lucélia abriu distraída a revista, e na penumbra mal se reconheciam as figuras.

“Quero uma foto como esta”, mostrou ao namorado, “é de uma atriz de telenovela”, falou e sorriu com o ar de futilidade, que sempre trazia no rosto. Marcos olhou a mulher, entortou um pouco a cabeça numa posição que revelava certo esforço para enxergar a foto.

“Mas ela está vestida, e parece com um Versace”, terminou a frase e lhe beijou uma das bochechas.

“Estou nua por sua causa. Quem por acaso deslizou as mãos por baixo do meu vestido no escurinho da boate?, quem depois me convidou para esse apartamento?

“Você tem razão”, ele continuou, “gosto de você, acho atraente sua silhueta. Faço a foto sim, basta que fique na mesma posição, e acho até mais instigante que lhe falte a roupa.”

Lucélia cruzou as pernas, levantou o tronco e sorriu. Fez de conta que olhava para algo distante, abstrato, assim como a mulher da foto. Marcos clicou duas vezes. Ela esperou que o homem viesse com um novo beijo, ou mesmo que a carregasse no colo e a levasse para a cama. Quanto ao vestido curto desaparecido, que usara na discoteca, não se importava, ainda era noite, faltavam duas ou três horas para o amanhecer, aproveitaria o amor proporcionado pelo recente namorado, depois arranjaria uma maneira de se safar. Já que gostava tanto do próprio corpo, das sensações táteis, e do sexo masculino a lhe roçar as pernas, o prazer que transpirava era maior do que o temor. Além de tudo, os homens adoram jogos e fantasias. A revista com as fotos das artistas jazia agora ao seu lado, sobre a poltrona.

“Já aconteceu isso alguma vez com você?”, Marcos quis saber. Ele aproximou-se e a abraçou.

“Isso?”, fez de conta que não entendeu.

“O caso do vestidinho. Você está tão tranquila, dona de si”, acrescentou ele.

“Claro que não. Quanto ao estado de espírito, sempre fui muito tranquila.”

Ela havia roçado uma das mãos sobre a capa da revista, voltou o rosto para o namorado, que aproveitou para lhe beijar os lábios.

Deitaram e mergulharam num longo amor. Depois adormeceram.

Ao acordar, por volta das nove da manhã, Lucélia se deu conta de que era domingo. Amaram-se mais uma vez.

Foram embora duas horas depois. Ela sempre fora uma mulher fútil, tanto suas amigas quanto os vários homens que já haviam estado com ela não duvidavam disso, mas sabia se arranjar. Do apartamento, entraram direto no automóvel de Marcos. A moça, bonita como sempre: o sorriso discreto; o cabelo castanho claro úmido, espetado para cima; e o vestido preto, curto, coladinho ao corpo, em contraste com a pele branquinha. Guardaria boas lembranças da noite que ficava para trás.

quinta-feira, janeiro 15, 2015

Cabia na palma da mão

O tempo que durou sua ida ao toalete e a volta à mesa, onde Oswaldo a esperava, Janete pôs em ordem os acontecimentos passados e recentes. Embora o tempo fosse curto, o jorro de pensamentos que lhe afluía à mente era suficiente para recuperar histórias extensas, que preencheriam pelo menos um volume de romance. Chegara ao restaurante no final da tarde; Oswaldo já a esperava. Os dois haviam vivido juntos fazia alguns anos. Talvez por falta de reflexão tivessem terminado o relacionamento. Ele, de outra cidade, vinha ao seu encontro assim que o trabalho permitia. O problema talvez fosse esse. Como ter alguém de tão longe, que podia acompanhá-la apenas nos momentos que lhe sobravam? Durara três anos o namoro, ou o casamento. Cada um que o defina à sua maneira. Sabia que o homem ainda a amava, ou ao menos a desejava. Sempre recebia convites para um café, um jantar, ou uma cerveja, que ela não tomava porque preferia suco. Oswaldo mantinha na mente a imagem de Janete. A mulher nua que descera ao primeiro andar apenas por molecagem. Batera à porta para que ele a recebesse e sentisse seu corpo quente. Dera certo. O ardil o capturara; ele sempre lembrava o fato. Houvera outras ações, sempre protagonizadas por ela, estrela rubra que incendiava a relação. A ação de sair nua se repetira. Acontecera de outra vez no automóvel, madrugada fria. Pediu que ele parasse no acostamento, quis sair, apenas a pulseira e a sandália meio salto. Caminhou à beira da estrada durante um bom quarto de hora, perdeu-se num bosque. O homem enfeitiçou-se com tal atitude. E que homem escaparia? Além de enfeitiçado ele já se mostrava apaixonado. Numa das vezes em que terminaram a noite na praia, após intenso jogo erótico, Janete pôs-se a correr nua pela areia; na volta a casa – uma casa de vila – ela ainda quis manter-se em pele. Oswaldo, então, surpreendeu-a. Correu para casa com toda a roupa de Janete sob o braço. Ela, ainda no banco do carona, calculou a distância que precisaria caminhar, vinte ou trinta metros sob céu aberto, até a porta de casa. E havia o vizinho que acordava cedo. Mas Janete não se atemorizou. Descobriu uma camiseta esquecida no banco de trás. Vestiu-a. Jamais um vestido tão curto. Caminhou altiva, cumprimentou o vizinho e bateu à porta de casa. O namorado, que morria de tesão, demorou a abrir. E que trepada naquele fim de madrugada. Houve uma vez em que contara tais sucessos a uma amiga. Talvez o único erro que cometera. Não se deve falar sobre essas coisas nem à melhor amiga. A tal mulher foi atrás de Oswaldo, quis para si também os sucessos. E, como acontece a todo homem, ele não deixou passar em branco. A mulher imitou-a até no episódio da praia, em Rio das Ostras. Aceitou tomar banho nua. Entrou na água com Oswaldo, tirou o biquíni e o entregou nas mãos dele. Mas, ao contrário de Janete, pediu que ele fosse embora, que encontrasse com ela somente no dia seguinte, em M. Ele atendeu-lhe o pedido. No dia seguinte ela contou a Janete, e ainda pediu que procurasse o biquíni levado por Oswaldo. Isso azedou o relacionamento entre Oswaldo e Janete. Ele ainda procurou pela mulher que deixara nua na praia, quis saber o que aconteceu depois que foi embora. Ela jamais contou. Essa atitude atraiu ainda mais o homem. Os homens são bobos, deixam-se levar por fantasias passageiras, pensou Janete. O que fazer depois disso? Afastaram-se. E sua amiga, ao mesmo tempo, afastou-se de Oswaldo, foi perder a roupa para outro homem, como soube depois. Janete ainda não voltara do toalete. As imagens em sua mente eram vivas, todo um passado em cinco ou dez minutos. Do que são capazes as imagens, pensava. O reencontro com ele já durava três meses. Mas ela já estava casada com outro. Conhecera-o num desses sítios de relacionamento, e ele logo viera dividir com ela a mesma casa. Contou a Oswaldo sobre o homem. Sobre o novo relacionamento. Mas havia um ponto sobre o qual deveria ter calado. Oh, ela sempre falara demais. Tratava-se de sua intimidade. Contara que não mantinha relações sexuais com o novo marido. E era verdade. Apenas amizade. A iniciativa fora do homem, pois ele disse sofrer de certa doença. Como conseguia viver com uma pessoa sem usufruir o principal do amor?, Oswaldo quis saber. E logo ela, tão fogosa, a desfilar nua pela cidade, tão quente no amor, tanto o ardor, a ponto de contagiar as amigas. Os tempos mudam, contra-argumentou Janete. Hoje, estou satisfeita assim, acrescentou. Disse que o marido era boa pessoa. Todos gostam dele, mas é apenas uma companhia para mim, repetiu ainda uma vez. Usou o "apenas" com significado de tudo, seu dicionário particular. Oswaldo lembrou-lhe de alguns eventos que vivenciaram juntos no passado, como o abraço apertado que ela gostava de sentir; o sexo no automóvel, na praia, o dia que foi surpreendida dentro d’água, mas por uma mulher. Janete ardeu durante o jantar. Não queria, no entanto, dar o braço a torcer. Não queria falar mal do atual marido. Oswaldo teve a delicadeza de não dizer que ela enganava-se, apenas sorriu, olhou um pouco para cima, depois voltou os olhos até que um lampejo refletiu-se dos olhos de Janete. Então a ida ao toalete, a demora para voltar. Todo um filme na cabeça. Não o encontraria mais, decidiu ainda trancada no toalete. Reparou que estava com a calcinha na mão, como nos tempos de namoro com Oswaldo. Ele adorava Janete nua. Aliás, os homens adoram que as mulheres andem nuas. Os homens adoram mulheres com a calcinha nas mãos. Mas ela decidira, seria a última vez que os dois se encontravam. Melhor o marido, melhor a companhia. Não a fazia arder, não lhe provocava nenhum tipo de desequilíbrio. Ela não podia dizer o mesmo quando se via ao lado de Oswaldo, mesmo em imaginação. Não queria sair dali correndo, nem desejava se esconder num hotel com Oswaldo, retomar todo um passado posto por terra fazia tempo. Melhor a segurança do homem atual, seu sorriso, os favores que lhe prestava. Ah, quanto ao sexo... Oh, não pensaria sobre isso. Mas queria, ao mesmo tempo, que Oswaldo não a esquecesse. Afinal, as mulheres gostam de se sentirem lembradas. Voltou a Oswaldo, agradeceu-lhe o jantar, o encontro, mas precisava partir. Tinha um compromisso. Um presente, estendeu-lhe a mão. Pequenino o presente. Cabia na palma da mão. Sabia que ele aceitaria com gosto. Guardaria como relíquia, ou como um troféu, quem sabe. Afinal, uma lembrança. Nenhuma mulher gosta de ser esquecida.

quinta-feira, janeiro 08, 2015

Você tem camisinha?

Ele me beijou logo após abrir a porta. Entrei, olhei ao redor e sorri.

“Vim ficar um pouquinho com você.”

A noite estava quente e faltava uma hora e meia para o meu ônibus. Naquele tempo eu trabalhava em M. mas morava em outra cidade.

“Que surpresa”, ele exclamou.

Continuamos abraçados. Beijamo-nos sofregamente durante vários minutos. Estalos, suspiros, respirações altercadas e mãos e dedos que procuram as sensações macias do amor carnal. 

“Você tem camisinha?”, enfim perguntei, mas com a voz miúda.

Ambos éramos recentes não só na cidade, mas também no cargo ao qual prestáramos concurso. Saímos uma vez para almoçar e permanecemos várias horas juntos. Acabamos tornando-nos namorados. Mas o namoro não durou. Sou ciumenta, sempre cismei que ele tinha outra. Algum tempo depois, pensando melhor, achei que não foi justo exigir dele fidelidade, pois estávamos numa cidade quase estrangeira para nós dois, e ali, depois do trabalho, andávamos o tempo inteiro juntos. Apesar dessas conclusões, não reatei a relação, ficamos sem nos ver por mais de cinco meses. Mas naquela terça-feira, resolvi bater à sua porta.

“Deixa eu ver”, falou e foi procurar a camisinha.

Voltou de mãos vazias.

“Puxa, que pena, queria tanto transar com você”, não escondi a frustração.

“Podemos transar”, rebateu.

“Mas sem camisinha...”

“A gente dá um jeito”, finalizou.

Já se passaram dez anos desde a tal noite. Acho que trepamos mesmo sem a camisinha, e tenho certeza de que voltei à sua casa mais duas ou três vezes. No ano seguinte, no entanto, conheci o homem que viria ser meu marido. Por isso, desapareci.

Faz duas semanas o encontrei num restaurante, no centro de M., totalmente ao acaso. Ele estava sentado e almoçava. Eu caminhava na direção do buffet. Então o avistei. Ele acenou, retribuí e me aproximei de sua mesa. Trocamos dois beijos ligeiros. Meu marido já tinha entrado e se servia no mesmo buffet.

“É o seu marido?”, apontou.

“Sim”, sorri. Percebi que a pergunta não veio à toa. Meu marido nesses dez anos envelheceu  muito, enquanto ele permanecia quase o mesmo, os cabelos grandes, pretos, usava rabo de cavalo.

“O que você tem feito?”, perguntou.

“Trabalho na região serrana”, respondi. Fazia os mesmos dez anos que eu me transferira para uma escola em G, onde passei a residir. “E você?”, acrescentei.

“Por aí”, falou e mordiscou um pedaço de carne.

“Ainda faz o mesmo trabalho?”

“Sim”, respondeu e, levantando o garfo, esperou que eu falasse mais alguma coisa.

“Foi um prazer, preciso ir, Marcelo me espera”, apontei para a mesa em que meu marido sentara. O ex-namorado virou-se para o local e acenou para ele. Marcelo retribuiu sorrindo.

“Até a vista”, emendei.

“Até”, finalizou, mas conseguiu enfiar em uma das minhas mãos o cartão com o seu número.

Dois dias se passaram para eu o encontrar de novo. Ele me esperava encostado na porta do carro. Cumprimos o mesmo ritual de beijos e de perguntas sobre como estávamos passando. Decidimos entrar num café, assim poderíamos conversar à vontade. Demoramos ali umas duas horas. No final, ele me ofereceu carona.

“Você vai para onde?”, quis ele saber.

“Para casa, em G.”

“Acho que passo em parte do caminho, caso você aceite a carona...”

Olhei as horas, meneei a cabeça e acabei fazendo um movimento que dizia sim.

Guiou durante quinze minutos sem dizer palavra alguma. Pareceu-me um tempo enorme. No meio do caminho soltei, de repente, um “pois é”. Ele virou o rosto na minha direção e sorriu. Parou no acostamento da rodovia.

“Não é aqui que vou ficar”, alertei.

“Eu sei”, frisou, “não foi por isso que parei.”

Nada mais perguntei. Saltei no seu pescoço e recuperamos a noite perdida havia dez anos. Foram muitos beijos, abraços e carícias. No final, sem me soltar de seu tórax, fiz a mesma pergunta:

“Você tem camisinha?”

Desta vez, ele respondeu que sim.