terça-feira, agosto 30, 2016

Vice-versa

O difícil é convencê-lo. Como posso deixar você assim, quase uma da madrugada e num lugar tão deserto?, nervo puro o homem. Desde o começo avisei que não daria explicações sobre isso, rebato, e tem mais uma coisa, lembra que aceitei a sua aproximação, deixo você realizar o seu desejo, sempre nos encontramos duas horas antes e ficamos muito à vontade. O homem respira fundo. Teme que me aconteça algo ruim. Não vai acontecer nada, fique tranquilo, uma mulher bonita tem sorte, depois de amanhã estaremos juntos de novo, você vai poder invadir o meu corpo, como gosta de dizer. Ele fica sério. Toma a sacola nas mãos sem mostrar muito jeito, aponta sem saber como agir. São roupas, digo já sem paciência, nunca viu roupa de mulher?, depois de amanhã pego de volta, cuida porque são roupas caras, e tudo está pelos olhos da cara. Ele acaba aceitando. Entra no carro, mas demora a dar a partida. Bato duas vezes na lataria da porta. Não o vejo, mas faço sinal que se vá. Assim que o carro desaparece, sinto aquele friozinho no estômago, comum nessas situações. Ao longe faróis anunciam a aproximação de outro veículo. Da beira da estrada, pulo para dentro do mato, me agacho. Sei que não é quem aguardo. Para uma picape. Desce um homem grande. Acho que desconfia, talvez me tenha visto de relance. Meu coração acelera. Permaneço quietinha, guardo até mesmo a respiração. Chego a suar. Dou com as nádegas na terra, entre a vegetação. Se esse homem me encontra, já sei o que vai acontecer, penso, ainda sem soltar o ar. Escuto som de água correndo, depois sinto o cheiro. Xixi. Isso mesmo. O desconhecido urina quase ao meu lado. Ao longe ouço o som de outro automóvel. Assim que passa, um cão gane. O ronco do motor anuncia a partida do automóvel. O grandalhão se vai. Solto a respiração. Volto cautelosa à beira da pista. Limpo com as mãos o naco de terra que me gruda às coxas e ao bumbum. Procuro o perfume dentro da bolsa, mas faróis novamente se aproximam, e o alerta vem piscando. É o sinal. Carlos para, abre a porta. Entro. Ai, você ainda me mata, pouso as mãos sobre as coxas depois de beijá-lo. A questão deste é outra, quer saber como faço para chegar nua até ali. Nada de perguntas, vamos aos fatos, declaro. Então ele me leva a um hotel, desses em que se entra com o automóvel dentro da garagem do apartamento. Juntos tomamos banho. Carlos me ensaboa e eu passo as mãos sobre o seu tórax. Quando voltamos ao quarto, tira da bolsa a garrafa térmica. Ela contém água morna. Serve-me um grande gole num copo que há sobre o frigobar. Encho a boca com a água. Está suave. Sento-me na cama. Ele chega o pênis bem junto do meu rosto. Abro a boca. Deixo que deslize através dos meus lábios até mergulhar no líquido tenro, que guardo entre as bochechas. Fazemos um sexo oral delicioso. Seu pênis indo e vindo, banhado na água morna. Carlos se extasia e não demora a gozar. Quando tira fora o sexo tapa-me a boca, pede que eu engula a água junto com a porra. Faço hum hum como sinal de aprovação. Assim que vê os músculos do meu pescoço demonstrarem o movimento de deglutição me solta e corre a beijar minha boca. Deitamos e ele enfia seu sexo na minha vagina. Quando está próximo o fim da madrugada digo a ele vamos, não tenho o que vestir. Ele morre de tesão e me come mais uma vez, pleno de voracidade. Saímos às cinco e quinze. Ainda predominam as sombras, mas à oriente se percebe alguma claridade. Quando chegamos a casa beijo o namorado, olho ambos os lados, abro a porta do automóvel e corro. Amanhã você me conta como faz para vir nua ao meu encontro, ainda o ouço. Ok, respondo, amanhã falamos sobre isso. Já pensei também em começar por Carlos. Ser deixada na estrada depois da meia-noite por ele e apanhada pelo namoradinho da matinê. Mas, desse modo, saberiam o meu segredo. Logo, nada de vice-versa.

terça-feira, agosto 23, 2016

A calcinha ficou no bolso dele!

Ele sempre me pedia para eu vir com o vestido curto, coladinho ao corpo. Eu não podia sair lá da Baixada, onde moro, tomar o trem vestida, ou melhor, nua daquele jeito, os homens querendo-me despir com seus corpos, beliscando minhas coxas e outras coisas mais. Iam me chamar de piranha, vadia, vagabunda. Eu estaria a serviço de quem pagasse mais. Por isso o vestidinho veio na bolsa, e eu de macaquinho, as pernas de fora, mas comportadas. À tarde, encontrei com o namorado. Fomos a um hotel. Bonito o lugar, pode-se dizer requintado. Ele gosta de conversar, de me abraçar, beijar, de ficar agarrado comigo, quase inocente. Olhei o cardápio e telefonei pedindo um lanche. Continuamos nosso papo e nossos toques. O lanche não demorou. Comi com gosto. Ele apenas ficou olhando para mim, me apreciando. Quando acabei, ainda esperei um pouco, sorri, fui até a janela e olhei lá embaixo. Depois voltei e disse que ia ao banheiro. Demorei uns dez minutos. Tomei um banho, escovei os dentes e vesti o vestidinho. Abri a porta e disse:

“Surpresa.”

Ele ficou realmente excitado. O vestido curtinho, coladinho, subia quando eu dava alguns passos. Ao chegar perto dele, não deixei que viesse logo me agarrar, não queria que colocasse as mãos por baixo do pano. Pelo menos naquele momento. Fiquei um pouquinho distante. Desfilei. Só depois fui chegando a ele, me encostando. O namorado me pegou pela cintura, me levantou.

“Não vou tirar o teu vestido, não, mas a calcinha.”

Me colocou no chão, deslizou as mãos pelas minhas coxas e trouxe a pequena peça enroladinha, puxou até os joelhos, depois desceu aos tornozelos, ultrapassou o calcanhar e a calcinha nas mãos dele. Guardou em um dos bolsos. Tal ação me provocou arrepios. Há homens que adoram nos deixar sem a calcinha não apenas no momento do sexo, mas também gostam de guardá-la com eles. ‘Depois compro outras pra você’, dizem. Já tive namorados assim.

Mas este não ia roubar minha calcinha. Ele adorava meter em mim seu grande pênis. Primeiro pediu que eu o chupasse. Quando me dei por satisfeita, levantei a cabeça, deitei, ele veio me penetrar. No meio do caminho, falou:

“Vamos fazer coisa melhor.”

Sentou numa cadeira, pediu que eu me aproximasse, que abrisse as pernas, o vestidinho sobre o corpo, e que descesse e subisse várias vezes sobre o sexo dele. Eu é que devia regular os movimentos, o nível da penetração.

Uau, que delícia.

Não posso nem pensar. Deixei mesmo que ele gozasse dentro de mim. Estava tão gostoso que não tive coragem de tirar. Ele cuidou para que não sujasse o vestidinho.

“Você passeia comigo com o vestidinho?”

“Como pego o trem depois?, vão me agarrar”, retruquei.

“Fazemos assim, passeamos, depois vai ao banheiro do Mc Donalds e troca pelo macaquinho.”

Concordei. Fomos ao passeio. Era fácil perceber todos os homens a me acompanhar com os olhos. Não é só no trem que há tarados.

Anoiteceu, tomamos um suco no café da Cultura.

“Então, vamos”, pedi.

“Ao Mc Donald, que não serve só hamburguês”, ele completou.

Ri. No banheiro, ao vestir o macaquinho foi que lembrei: onde a calcinha?

Na saída, nada falei, sorri, beijei-o e parti.

Quando cheguei a casa, lembrei: a calcinha ficou no bolso dele!

Ah, deixa pra lá. O importante e que tudo foi muito bom. E o vestidinho pronto para entrar em ação de novo.

terça-feira, agosto 16, 2016

Trinta minutos

Olha, Sirlene, o homem é bonito. Ela ria, três copos de cerveja, ria desbragada. Olha, Sirlene, vamos manter a compostura, modos, podemos desejar, mas discrição acima de tudo. Cruzou as pernas para o outro lado, a esquerda agora sobre a direita. Nas paredes, fotos de cantores, a música paga, jukebox. Quer ouvir de novo, Sirlene? Quanto a ficha? A mesma música mais uma vez, emoção. O homem de costas para o balcão olhava em linha reta. Não sei se a mim ou a ela. Sei que olhava, tenho certeza. Às duas? Talvez. Não, não, às duas não. Sirlene ria, olhou pra mim. Você gostou, hein?, eu disse, na verdade gosta de todos, cada semana um, ou todos ao mesmo tempo, não sei. Ela suspirou duas ou três palavras; quero pagar pra ver. Quatro palavras, afinal. Deixe que ele venha, não precisa avançar tanto, Sirlene, com dificuldade eles gostam mais, traçam planos, estratégias. Lembra a Emengarda? Sei que já está entrada em anos, Emengarda e o vestidão, mas eles não desistem, o que conta é o sorriso enigmático, eles não sabem se avançam ou esperam, se ela sorri pra eles ou pra dentro. Verdade, Sirlene, há mulheres que sorriem pra dentro, tudo pra dentro, isso mesmo, querem tudo ao avesso, não apenas o sorriso, o homem também, o homem pra dentro delas, o prazer assim é maior, o jogo demorado, às vezes a noite inteira, e Emengarda nua às quatro e trinta da madrugada, só tenho meia hora ela diz aos homens, tenho compromisso, eles fazem de conta que não entendem, mas ela goza, e como, lógico que eles também, mas ela não deixa que eles gozem primeiro, sabichona a velha, ou melhor, nem tão velha, madura, ou no ponto, sei lá. Não acredita, Sirlene?, por que então a mulher fica num bar até as quatro e trinta com um copo de guaraná?, além do gozo, a mulher não bebe, juro, nem uma gota, deixa pro gozo, sem bebida é mais intenso. Como sei disso? Lógico que não foi ela quem me contou. As paredes têm ouvido, Sirlene, aliás, têm olhos também. Não se trata de fofoca, mulher, não me dou com fofoqueiras. Sei que a ladeira é cheia delas, mas não me dou com fofoqueira alguma. Verdade, amiga, quem me conta, jura, e não brinca, é pessoa séria. Emengarda tem um segredo. Relato da mesma pessoa, pessoa séria, posso afirmar. Modos, mulher, faz como a Emengarda, pernas fechadas, discrição, no final quando sobra ela e o homem, às quatro e trinta, ela diz só tenho trinta minutos, tenho compromisso. Mas enquanto bebe o guaraná, nada fala, nada de expansões vazias, o homem tem de sofrer, se for fácil, vai embora logo, eles ficam, esperam a hora que ela vai. E só às quatro e trinta, apenas meia hora. Sirlene, calma, ele não vai agora. Está olhando pra mim? É porque sou mais difícil, mulher, não estou me abrindo pra ele, não mostro as pernas num bar, nada de vestido curto, nada de calcinha na bolsa, eles se interessam, depois vem falar ao meu ouvido. Não sei, vou responder espero o namorado. Eles morrem de raiva e de tesão quando ouvem que a mulher espera outro homem. Pagam pra ver, ficam até ela ir embora. Ele não veio, tenho enfim de dizer, me deu bolo. É a única vez que sorrio. Não sabem se é de disfarçada desilusão ou porque fiz que esperassem até quatro e trinta da madrugada, a noite quase perdida. Como Emengarda. Nenhuma de nós dá nada por ela, e sempre trepa mais do que a gente. E de vestidão. Eles não desconfiam que ela se insinua com vestidões. A mulher tem ardil, acaba a noite sempre com um homem, nada de noite perdida, e cada um mais bonito do que o outro. E querem voltar, se deixar querem até morar com ela. Emengarda se transforma quando tira o vestidão. Certa vez deixou um deles tão louco que ele lhe levou o vestidão. Mas ela não ligou, tinha outro em casa. Sirlene, você não escutou o que ele me falou, sei, o jukebox, a música, o volume alto. Você espera por mim? São quatro e trinta, tenho compromisso, apenas trinta minutos, viu, apenas trinta minutos.

quarta-feira, agosto 10, 2016

Você quer que eu fique nua pra você?

Você quer que eu fique nua pra você?, tudo bem, mas vamos a um hotel, não gosto de namorar dentro de carro nem lá embaixo na areia da praia, eu disse.

Eu o conhecera já fazia duas ou três semanas, ele viera trabalhar na cidade, na verdade um lugarejo, mas que tinha instalações para exploração de petróleo em alto mar. Passamos a nos encontrar quase todos os dias, frequentamos o principal restaurante, que ficava na orla marítima. Ele atendeu ao meu pedido. Ensinei o caminho e fomos a um hotel na cidade vizinha.

Durante o tempo em que ele permaneceu na minha cidade, ficamos juntos. Levei-o uma ou duas vezes pra casa. Mas não quis que virasse costume. Como nesse tipo de lugar quase todos se conhecem, logo começa o falatório, e eu não estava a fim de ouvir bobagens. Sabia que ele não ficaria pra sempre, o trabalho dele não permitia, eu tinha consciência também de que quando ele partisse seria muito difícil encontrá-lo de novo. Nos seus últimos dias, resolvi fazer algo marcante, algo que me tornaria inesquecível a ele.

Tenho uma fantasia, falei. Fantasia?, ele me olhou curioso, sorriu e esperou a explicação. Nada de carnaval, lembra quando saímos nas primeiras vezes?, você queria tirar minha roupa dentro do carro, pedi então pra irmos a um hotel; aqui há um pequeno morro, de lá dá pra ver a cidade inteira, embora a escalada seja um pouco cansativa; minha fantasia é tirar a roupa lá no topo; não podia pedir isso a você naquele dia; vamos hoje? Ele concordou, achou a ideia muito boa e engraçada. Ensinei o caminho. Guiou até as proximidades. Deixamos o carro bem protegido, num trecho da estada que pouca gente conhece. Começamos a subida.

Sabia que não encontraríamos pessoa alguma naquelas bandas, mas mesmo assim preferi tomar o caminho mais difícil, afastado da possibilidade de um encontro casual com qualquer habitante da cidade. Algumas vezes tínhamos de andar no meio do mato; outras, aparecia um tipo de trilha, que nos ajudava. Faltando cem metros para atingirmos o topo, encontramos uma espécie de caverna. Como eu já conhecia o local, entrei e o chamei. Ali dentro o abracei, beijei-o na boca e ficamos agarrados um ao outro por um longo tempo. Você não me quer nua?, incentivei. Ele fez que sim com a cabeça. Tirei então toda a roupa, enrolei a blusa, a calcinha e o sutiã e os coloquei dentro da calça comprida, enrolei a calça e a escondi num dos cantos da gruta. Quem cavou isso aqui?, ele perguntou. Não sei, esse lugar já existe faz tempo. Você não tem medo que alguém more nesse lugar, algum desconhecido?, você vai deixar suas roupas aqui?, ele duvidava. Não vem ninguém não, vamos subir. Peguei o namorado pelo braço e continuamos a escalada. Após um tempinho, atingimos a parte mais alta. Sempre à frente, mostrei os quatro cantos da cidade. Foi engraçado, eu nua puxando o homem de um lado a outro pra mostrar a paisagem. Ninguém ainda teve essa mesma ideia, de vir aqui pra namorar?, ele estava preocupado. Acho que não, falei, a cidade tem lugares mais fáceis de se chegar, onde se pode namorar sem ser incomodado.

E realmente foi assim, namoramos bastante e não apareceu ninguém enquanto estivemos ali. Mas o namorado se mostrou um pouco intranquilo. Você não precisa ficar preocupado, relaxe, eu dizia, quem está nua sou eu. Abracei-o mais uma vez e trouxe o seu sexo de novo para o meio das minhas pernas. É bom a gente gozar com essa paisagem bonita em volta, debaixo desse céu salpicado de estrelas, veja como brilham, falei O céu estava sem nuvens e sem lua, dava para ver até mesmo a via láctea. Quando ele pensou em descer, resolvi pregar uma peça. Contei uma história.

Você deve estar pensando que trago aqui todos os namorados, ou todos os homens que conheço, mas não é isso não; confesso que já vim, fiquei nua, mas apenas com dois deles; e o mais engraçado foi o que aconteceu uma das vezes. Alguém surpreendeu vocês, e como você estava nua..., ele insinuou. Não, não foi bem assim, sabe a caverna?, fiz como agora, deixei minhas roupas lá, mas quando voltamos elas tinham desaparecido. Jura?, ele fez cara de surpresa. Juro, procurei tudo, mas não encontrei, o rapaz ficou como você, mais apavorado do que eu. Não posso voltar nua pra casa, disse a ele, mas temos um jeito, me empresta tua camisa, pedi. Ele vestia uma blusa de mangas compridas de tecido aflanedado, pois era outono e ele parecia sentir frio à toa. Sem a blusa vou ficar doente, mas tenho outra solução, vou descer sozinho e volto com uma roupa pra você, ele assegurou. Acreditei no homem e fiquei esperando, agora me pergunte se ele voltou?, eu disse finalizando o relato. E como você fez? Ah, isso não posso contar, morro de vergonha. Você voltou pelada pra casa?, perguntou ansioso. Não posso dizer que não, mas também não posso dizer que sim. Agarrei o homem, tirei seu sexo para fora da calça e trepamos mais uma vez. Descemos calados, já alta a madrugada. Entramos no carro e ele me deixou em casa. Antes de ir embora, ainda o beijei pela última vez. Você ficou me devendo, ele acrescentou. Eu?, o quê?, retorqui. O fim da história. Ah, não liga não, brincadeirinha, sabe como é a vida numa cidade pequena, sorri e acenei um adeusinho. Fiquei olhando o carro até desaparecer no final da rua.

Ah, meu namoradinho que me deixou nua, tomara que um dia desses você apareça de novo por aqui.

terça-feira, agosto 02, 2016

Calça legging

Estou no centro da cidade, acabo de sair de uma reunião de trabalho. Como meu universo é o das artes, ando sempre muito à vontade. Gosto mesmo é de vestir calça legging e um camisão, por baixo o top. Não há homem que deixe de me olhar, principalmente depois que passo. Às vezes tenho vontade de me virar para surpreendê-los reparando minha bunda. Já sei até o que imaginam, minhas nádegas volumosas, a marca da calcinha e, quem sabe, a camisa comprida levantada! Encontro, de repente, um amigo. Já não o vejo faz tempo. Ele se curva pra me beijar. Sou baixinha mas, como revanche, quem já trepou comigo sabe o tanto que sou gostosa. E nesse dia eu estou ardendo. Por que tanta excitação? Sou sincera, não sei dizer o motivo. Talvez a calça apertada, a calcinha entrando que dá gosto, tudo contribuindo pra elevar minha temperatura. Ele pergunta o que eu estou fazendo. Assunto de trabalho, respondo, mas já está resolvido. Vamos tomar um café? Prefiro um chope, respondo. Não consigo reparar, mas aposto que meu amigo ficou arrepiado. Os homens adoram mulheres que surpreendem. Seguimos a um bar na Cinelândia. Ele me olha, sorri, e toca num dos meus braços durante a conversa. Sorrio que só, sou feliz. Também é feliz a tarde de quinta-feira.

Conheço aquele amigo faz uns quatro ou cinco anos. Também assunto de trabalho. E faz uns três anos que não o vejo. Ele lançou um livro e me convidou, saímos alguns dias depois. No momento em que tomamos o chope me pergunto, será que trepei com ele? Sei lá, tantos namorados.

Fica bem essa roupa em você, ele diz. Você acha?, às vezes penso que me torna extravagante. Que nada, continua, as mulheres devem usar o que lhes cai melhor, essas calças colantes sempre chamam a atenção dos homens, e o que há melhor no mundo do que as mulheres? Meu amigo tem boa conversa, melhor, boa cantada, e eu já vou quase nadando nas águas dele, águas cada vez mais quentes. Bebemos um, dois, três chopes. Ele pergunta se como alguma coisa. Não, nada de comida, respondo. Ele ri, já sei, a elegância, acrescenta. Abro-me num sorriso que convida. Ele sente a carícia. Que tal mais um?, sugiro. O garçom volta com dois copos grandes. No final, estamos soltinhos. Mas meu amigo não me convida pra sair, apenas diz que está feliz por ter me encontrado, não esperava coisa melhor para aquela tarde. Penso o que lhe impede de me convidar a um hotel, e ali em volta tem tantos. Meu amigo é um homem elegante. Precisamos marcar um dia desses um encontro, com mais tempo, ressalta. Então, percebo que tem um compromisso, talvez um compromisso mais importante do que levar uma mulher bonita a um hotel, alguém que ele não vê faz tempo. Você não quer casar comigo?, ele pergunta, é o homem mais natural do mundo. Por essa eu não esperava, casar?, jura? Ele jura. Vou deixar meu número com você, falo, você me pegou desprevenida, quem sabe seja a calça legging, tiro a calça e tudo se acaba... Meus olhos ficam úmidos. Ele nota. Talvez seu objetivo seja emocionar uma mulher. Há homens que sentem mais prazer nisso do que numa boa trepada. Pra me vingar digo, ainda com os olhos úmidos, sabe, tive um namorado que me roubou as calças leggings, juro, me deixou só de camisão, e eu pensando que ele queria casar comigo! Ambos caímos numa gargalhada gostosa. Juro que não vou roubar suas calças, não é do meu feitio, acrescenta. Seu negócio é casamento!, exclamo. Isso, casamento, e você é tão bonita. Jura que não foi o chope?, pergunto. Você acha que três ou quatro chopes vão fazer um homem querer casar?, ele. Sei lá, há gente pra tudo. Até pra roubar calças leggings, completa, me telefona, tenho de ir agora, mas me telefona, olha que não é todo dia que aparece alguém pedindo pra casar.

Meu amigo se vai. Fico a passar o que ele quer comigo.

Ligo três dias depois. Você tem uma cantada, hein, todas as mulheres vão querer teus braços.

Vamos a um motel, no centro da cidade. Mas não visto, naquela tarde, calça legging. Casamento? Melhor sermos amantes, sussurro no seu ouvido, sai mais caro mas é melhor. E tem mais uma coisa, você sempre vai querer roubar minhas calças.

terça-feira, julho 26, 2016

E já houve quem me roubasse outras coisas

Não sei por que cargas d’água reapareceu-me um ex-namorado lá dos anos 1990, e já deitava eu na cama com ele. Pelas tantas da madrugada, foi ele quem começou a conversa.

Já consegues dormir nua?

Se não me engano, desde sempre, retorqui.

Quando vivemos juntos eras muito pudica, dizias não conseguir pegar no sono caso estivesses sem roupa, sobretudo as roupas de baixo.

Acho que agora sou outra pessoa.

Da cama era possível ver através da janela ampla e aberta os prédios do outro lado da rua. A maioria não tinha sequer uma luz acesa. Caso alguém nos olhasse de lá, veria apenas a janela escura. Apesar de verão, um ar brando penetrava o ambiente e nos refrescava.

Se te comportasses assim naquele tempo, acho que ainda estaríamos juntos, disse ele.

Assim, como?

Deitar a dormir nua, assim como fazes hoje.

De lá pra cá, passaram-se muitos verões, e com eles muito se aprende.

E o que mais aprendeste?

Muitas coisas. Mas se queres saber mesmo de roupas, eis. Não se pode ter muitos namorados e querer mantê-las sobre o corpo, há sempre um que no-las rouba.

Roubaram a roupa de ti?

Isso. Levam as de baixo como troféu, ou como lembrança, lá sei.

E o que de melhor também aprendeste a fazer?, estava ele curioso.

Alguns tapam-me o nariz e a boca na hora do gozo, não me querem a respirar.

Aprendeste mergulho sem respirador?

Sempre fui boa de fôlego. Brincam com a possibilidade de matar a mulher, querem o fio da navalha, ou mesmo o do equilibrista.

Sério?

Mais do que sério.

E como te saíste?

Aprendi a gozar mais, tanto maior a falta do ar.

Ah, isso sei eu, queres sempre cavalgar no gozo, se possível toda a noite.

Sentou-se na cama e tomou um gole d’água do copo que ficava à cabeceira.

Ainda tens o costume de beber água à noite? Logo, não mudaste tanto.

Não, sou o mesmo.

Então, sei que estás a remoer-te de curiosidade. Conto mais. Os homens não querem só trepar, desejam a fantasia. E já houve quem me roubasse outras coisas.

O que trazias a mais?

Um cordão, algum dinheiro, um maço de cigarrilhas. O dinheiro e o ouro acho que queria para comprar alguma droga, ou pagar uma dívida, quem sabe.

E te meteste com gente assim?

Como saber? O homem é bonito, dá a bisca numa boate, paga um jantar, depois quer o cordão. E entenda uma coisa dessas.

Deste parte à polícia?

Nada quero com polícias, nem com porteiros de hotel.

Repousou o copo na mesinha, aproximou-se e tocou-me o cabelo.

E o que há de mais?, ardia o homem.

Houve um que me deixou apenas a sandália e a bolsa. Partiu antes de mim, e não estava eu onde moro, mas num quarto de hotel.

E o que fizeste?

Liguei à recepção e pedi um mensageiro.

E eles?

Mandaram o rapaz. Dei-lhe dinheiro e disse, vai a uma loja de esportes e compra a camisa do Porto. Mas do Porto?, rebateu, ainda era um garoto, aqui todos torcem pelo Benfica.

Não importa. Encontra uma do Porto.

Ele foi e voltou com a camisa. Dei o que prometi: aliás, entendes-me, dei duas coisas, entre elas uma boa gorjeta. Deixei o boy eufórico. Vesti-me e parti. A bolsa no ombro, a sandália nos pés e apenas camisa do Porto.

Fizeste maior sucesso, então?

Na terra de benfiquistas, ser Porto é gozar com o olhar galanteador de todos os homens.

Tornaste esperta. Acho que vou me apaixonar novamente por ti.

Não faças isso. Já estou na paixão de todos os homens. Do Porto e de Lisboa!

terça-feira, julho 19, 2016

Cortei um dobrado para convencê-lo que eu precisava vestir pelo menos um camisão

Outro dia encontrei um ex-namorado, fazia dez anos que não o via. Muito tempo, não? Nem sei como o reconheci. Aliás, no caso, sei sim. Não pude deixar de dizer, após algum tempo de conversa:

Você era fogo, viu.

Ele me encarou sorridente e retrucou:

Ainda sou.

Eu vestia um camisão, por baixo o top e calça legging. Ele olhou minha roupa com certa inveja.

Sabe, outro dia deixei uma namorada só de blusa, ele disse.

Imagino. E como ela fez?, perguntei fingindo falso interesse.

Ah, as mulheres sempre dão um jeito, dissimulou.


Ele era fogo mesmo. Como poderia esquecer? Viajei à cidade dele, o homem fez uma festa. Como gostou de me ter nos seus braços. E me queria nua o tempo todo.

Trouxe um livro, você permita que eu o leia um pouquinho?, perguntei.

Permito, mais sente nua ali no sofá, cruze as pernas e leia o livro.

Vou fazer um café para nós, falei à tardinha.

Ótimo, mas vai à cozinha assim como você está, nuinha.

Passei o dia e a noite sem vestir roupa alguma. Ainda bem que na cidade dele fazia calor.

À noite, convidou-me para passear. Quando abri a mala para escolher um vestido levinho, ou uma saia curta, ele contrapôs:

Nada disso, você vai nua.

Jura?, ainda perguntei.

Vai sim, aqui não tem problema.

Amor, não vai ficar bem eu sair nua por aí.

Cortei um dobrado para convencê-lo que eu precisava vestir pelo menos um camisão.

Apenas, ele definiu com esta pequena palavra.


Entramos no café e continuamos a lembrar o passado.

Que bom que nos reencontramos, afirmou, o que você veio fazer na minha cidade?

Ah, estou de férias, e faz tanto tempo que não venho.

Desde quando estivemos juntos?

Não, vim duas vezes. Agora aqui mudou muito, está melhor, inauguraram dois ou três museus, vim visitar.

Quer dizer que você gosta de museus, ele suspirou.

Adoro, estudei produção cultural, não sei se cheguei a falar, museus são a minha especialidade.

Acabamos de tomar o café, cruzei uma das pernas, o camisão revelou uma parte de minhas coxas. Embora coberta pela calça, exibia o volume das minhas coxas. Um desconhecido, à mesa ao lado, sorriu farsesco.

Você não quer passear? Vamos aproveitar. Tem algum compromisso?, ele olhou pra mim com certa ânsia.

Pra falar a verdade, tenho, marquei com uma amiga.

Chama a amiga para passear conosco.

Jura?

Juro.

Chamo. Mas você vai querer apenas uma ou duas mulheres nuas no seu carro?

Ele riu. Lembrou minha viagem de outrora ao Rio. Num momento do passeio roubou meu camisão. Tive de voltar nua pra casa dele.

Saímos do café e fomos ao estacionamento.

Você me leva ao hotel primeiro?, pedi.

Levo, e espero por você.

Se quiser pode subir, dei a moeda a ele. Meu olhar devia estar brilhante, podia refletir todo um céu. Ele é tão bonito, foi minha vez de suspirar.

Na suíte, nua nos braços do homem, ele perguntou:

E sua amiga?

Ah, ela espera.

quarta-feira, julho 13, 2016

Tive de escondê-lo

Um pinto faiscou um segundo em meus olhos, e me transformou toda em arrepio. Foi na praia, mês que antecedia o verão, o tempo ainda fresco e as águas do mar geladas de dar dó. O pinto, naquele momento, era supremo. É tudo o que posso afirmar. E veio a preencher a solidão que eu sentia em meio a guarda-sóis afastados, caminhantes longínquos e mulheres que tomavam sol. Como vou falar do pinto sem ser chula? Vejamos, uma história primeiro. Certa vez tive um namorado dez anos mais jovem que eu, mas era homem maduro. Nem sei porque terminamos, coisa do destino, talvez. Levava-me a passear, trazia-me à praia. Vivíamos o embate de dois polos antagônicos: a noite profunda e o dia com toda a sua luz. Foi numa noite profunda. Íamos de automóvel, ele a dirigir, e eu relaxada no banco do carona. Então, a surpresa invadiu-me os olhos, uma mulher de calcinha, na rua, gritei e me virei a ele. Mulher?, repetiu, nada disso, parece mulher mas não é, sentenciou. Foi numa parte suspeita do centro da cidade. E continuamos mergulhados na noite, queríamos ainda a madrugada. Os homens não sofrem de celulite, afirmei, caso se tornem mulheres, ou fingem sê-las, não sei bem, suas pernas são lisas de dar inveja. Sério?, pareceu duvidar. Sério, falei com convicção. Como você sabe, já viu um exemplo desses de perto?, suas palavras e seu olhar incisivo enquanto segurava o volante pareceram desafiar-me. Sim, afirmei, como se não quisesse revelar um grande segredo. Onde aconteceu?, quis ele saber, esperou, a respiração um tanto opressa, como se minha resposta fosse transformar tudo que nos viria pela frente. Num desfile de modas, acrescentei  Ah, bom, ele replicou aliviado. Mas a historinha não foi bem assim. Certa vez viajamos, quatro mulheres. Que bagunça, não é mesmo? Fomos a um hotel, desses que dão para a praia, no Nordeste. Lá, aproximou-se de nós alguém que pensamos a princípio ser uma mulher. Fazia bem o papel, demoramos a descobrir o que realmente era. Quando de fato aconteceu, não fizemos alarde, agimos com a maior discrição. Na noite anterior ao dia em que regressaríamos, saímos as quatro e mais a fingida mulher. Bebemos mais do que podíamos. No hotel, um fio de tesão começou a correr em cada uma de nós, em consequência inventamos uma brincadeira; saíamos nuas do quarto para bater no quarto das outras, já que ficamos hospedadas em duplas. Após muitas risadas, decidimos ir ao quarto de nossa amiga / amigo. Ela assustou-se com o mulheril. Dissemos faça como nós, vamos desfilar. Ela, ou ele, não sei como dizer, enrubesceu. Mas uma das mulheres conseguiu despi-la. Pudemos ver, então, um pênis mediano. Algumas começaram a agarrá-lo e ele começou a crescer. Ela disse não sinto tesão por mulher, mas quem sabe vocês possam me dar prazer e, ao mesmo tempo, obter a diversão que desejam. Cada uma de nós a exercitou um pouco, mas o pênis não enrijecia como desejávamos. Há um jeito de eu sentir tesão, ela falou, mas vocês precisam me dar de presente suas calcinhas. Calcinhas?, mas viemos nuas. Não faz mal, rebateu, busquem-nas, era culta a mulher. Lorena voltou aos nossos quartos e pegou tantas calcinhas quantas conseguiu carregar. Trepamos então com a travesti durante boa parte da noite, seu pênis endureceu tanto como o de um verdadeiro macho. Jamais consegui entender a relação entre nossas calcinhas e ereção. Como esse tipo de gênero não ejacula com facilidade, pudemos aproveitar bastante. Só que, no final, ela não devolveu nossas pequeninas peças, considerou-as como pagamento. Levamos, porém, tudo na esportiva, e rimos muito no avião de volta.

Um pinto faiscou em meus olhos e me transformou toda em arrepio. Alguém sorriu pra mim. Não estava nu, ou nua, não sei bem explicar. Na verdade, era eu a nua, e não queria deixar a coisa entre sorrisos. Gostei do arrepio, que já não me abandonava. Daqui em diante, vai depender do pinto, disse a mim mesma. Como o da amiga / amigo lá das férias no hotel. Com alguma lábia e com o tempero do gozo, mantém-me a mil e, quem sabe, leva-me também a calcinha!, completei. Se sabemos conduzir, as coisas acontecem como a gente deseja. Entramos na água. Quem sabe a fantasia não era um meio de conquistar as mulheres. Como já conhecia o truque, vesti-o com o meu biquíni. Lindo o biquíni, afirmou solene. Seu pinto logo virou frangote e pulou porta afora. Tive, então, de escondê-lo. Que se tornasse enorme galo, mas que cantasse dentro de mim.

terça-feira, julho 05, 2016

Simpatia

“Como é que é?”, perguntou Lana, muito surpresa, enquanto Janete lhe trazia uma xícara de chá.

“Você não entendeu?, é uma maneira de surpreender os homens, eles ficam curiosíssimos, e acabam querendo nos namorar.

Lana segurou a xícara, suas mãos chegaram a tremer. Ambas estavam sentadas à mesa, frente a frente, costumavam visitar-se mutuamente para tomar chá, e nesta quinta, a vez de receber era de Janete.

“Janete, você não tem medo de que pode acontecer o pior?”

“Pior?, não se trata de uma coisa que envolva vida ou morte, é apenas uma brincadeira.”

Após tomar um gole do chá e repousar a xícara sobe o pires, Lana continuou:

“Brincadeira?, mas pode sair caro, e tanto mais nesta cidade onde quase todos se conhecem e falam demais. Seria melhor você arranjar namorado pelas vias normais.”

“Vias normais?”, pestanejou Janete.

“Já que você costuma ir à praia, por que você não deixa que eles se aproximem, que paquerem você como todos os homens costumam fazer?”

“Mas assim não posso escolher?”

“Ah, você quer o filé mignon.”

“Adivinhou, Lana, nada desses bugres que ficam à espreita. Entro n’água, escolho o mais bonito e ponho meu plano em ação.”

“Esse negócio de deixar o biquíni nas mãos de um desconhecido me deixa trêmula, e estou apenas imaginando. Você sabe que quando eu morei na serra, tive um caso com um jovem de lá. A gente namorava no escuro da estrada, dentro e fora do carro, na madrugada. Estava tudo bem até que o sujeitinho resolveu roubar minha calcinha. Fiquei furiosa, nem falei mais com ele. Agora, você com essa ideia, o biquíni nas mãos de um desconhecido. Fala sério, Janete, isso não pode ser verdade.”

“Claro que é, por que eu iria mentir pra você?”

“Me conta como você faz, vai. Ainda não entendi essa história direito.”

“Falei sim, você é que não prestou atenção. Mas, tudo bem, conto de novo. É assim: você chega à praia, com aquele charme todo, vestindo um biquíni mínimo. Dá uma olhada em volta, mas tudo muito bem dissimulado. Arma o guarda-sol, abre a cadeira e senta um pouco. É bom estar de óculos escuros. Então você continua olhando, reparando os homens, os rapazes, vendo se há alguém que vale a pena. Caso isso aconteça, você fica atenta se ele paquera você. Se ele não tiver reparado, espere um pouco, até ver o homem mergulhando. Quando isso acontecer, você vai atrás. Mas não precisa grudar nele. Espere um pouco até a hora de atacar.”

“Atacar, como assim?”

“Aí, entra a história do biquíni. Você tira, transforma em uma bolinha de pano, aproxima-se do cara e pergunta: ‘você pode me fazer um favorzinho?’ Lógico que ele vai dizer que sim. ‘Segura isso pra mim um instante?’ Você entrega o biquíni a ele e mergulha, volta alguns segundos depois e pede de volta, veste e sorri para o homem. É lógico que quando você der a ele a bolinha e pano, ele não vai imaginar que é o seu biquíni. Esse é o enigma. E se você não demorar a voltar, ele não vai descobrir, porque não terá tempo pra pensar. Só depois que você estiver fazendo o movimento pra vestir a calcinha é que, talvez, ele repare."

“E depois, o que isso vai resultar?”

“Lana, dá um resultado ótimo. O homem vai sorrir, e você vai dizer: é uma simpatia, sabe, ajuda a desencalhar’. Ele vai se interessar, e está no papo. Consegue-se namorar, pelo menos para o dia, o homem mais bonito da praia. Mas é lógico que tudo tem de ser feito com a maior discrição.”

“Janete, você é louca. E amanhã, quando você for à praia de novo? Os homens não vão estar todos sabendo dessa história?”

“Nada disso, é só não vulgarizar, e não escolher os caras daqui, você os conhece, não? Como aquele que roubou tua calcinha.”

“Janete, sabe do que eu gosto mesmo? Gosto de uma trepada bem dada, bem funda, que arranca suspiros e faz a gente gozar pra valer.”

“Eu também gosto. Mas você precisa sentir a sensação que desperta na gente quando o biquíni está nas mãos do desconhecido e a gente não sabe o que vai acontecer. Vale muito, só não vale essa trepada funda. Mas quem sabe mais tarde, a agente tem o cara para a tal trepada. A Lúcia transava na praia mesmo.”

“A Lúcia?, do Osório?”

“Ela.”

“Janete, já sei, virou moda, todas as mulheres que você conhece estão praticando o que você contou. Apenas eu estou sendo ingênua.”

“Não, todas não, apenas eu e a Lúcia, agora você, contar pra mais gente vai dar problema.”

A dona da casa sorriu e bebeu o último gole de chá.

terça-feira, junho 28, 2016

Caixa de surpresas

Oi, Mara, tudo bem? Ah, está surpresa com meu telefonema. É porque sei que você gosta de dormir tarde. Você fica lendo, vendo filmes, escrevendo. Pelo menos é o que sempre me fala. Sabe o que é, quero contar uma história boa e engraçada. Na verdade, é sobre a caixa de surpresas. Lembra, foi você quem deu a ideia, depois aperfeiçoamos juntas. Não é que deu o melhor dos resultados? Bem que você falou. Sabe, Mara, o homem adorou. Na verdade, enlouqueceu. Disse que nunca viu uma mulher com tanta criatividade. Enquanto as outras ficam no feijão com arroz, no papai mamãe, você me arremessa a outro planeta, um planeta totalmente desconhecido. Juro, são as palavras que ele pronunciou. E tudo com a maior elegância. Logo que cheguei eu disse por favor, você tem de ser um bom espectador. A princípio, ele não entendeu. Não passou muito tempo, porém, pra entrar no jogo. Poxa, conheci você há uma semana e você me faz essa surpresa toda, confessou. Fica sentadinho aí, vou fazer as apresentações, avisei antes de abrir a caixa, mas precisa ser no escurinho, viu. Ele acendeu o abajur lateral. O palco era o meio da sala, dois metros por um e meio. Mas pra mim estava ótimo. Saí de cena rapidinho e voltei como o primeiro número, o vestidinho preto, coladinho e curtinho, nenhuma marca de rouba de baixo, apenas o tecido. Liguei o celular, uma musiquinha, e comecei a dançar pra ele. O vestidinho subia, subia. E o homem quase subindo pelas paredes. Saí de cena. Coloquei uma música de praia, de verão, e apareci com o biquininho. O biquininho de bolinhas, tão estreito, os peitos só cobertos os mamilos, a calcinha, bem, a calcinha você conhece. Novamente escapei às mãos do homem. Espere, por favor, pedi, você não pode me agarrar agora, não tem graça. O terceiro traje foi o de fadinha, rendinha e varinha, nada de calcinha, mas vesti a faixa branca como top. O homem tirou a roupa, passou a assistir nu ao espetáculo. Ai, não estou aguentando, ele disse. Calma, vamos devagar, tenho outros números, no final você me agarra, disse eu e sorri. Fiz uma mágica com a varinha, uma espécie de encanto, e apareci sem a faixa branca. No quarto número apareço apenas de camiseta regata. Lembra, Mara, foi você quem escolheu. Estico a camiseta na frente, atrás quando dou as costas, tudo seguido da musiquinha do meu telefone. Mas a cena que fez o homem explodir foi a do chocolate, coreografia criada por nós duas, Mara. Fiz uma espécie de maiô com a renda preta, como você ensinou. Dividi o tecido ao meio e passei cada metade por trás do pescoço, desci cobrindo os seios e continuei até passar por baixo da minha periquita, subi em tira única o bumbum cruzei  as duas pontas da renda, cada uma prum lado, trouxe para frente cobrindo a tira vertical e dei um laço no lado esquerdo da cintura. Foi então que peguei a barra de chocolate, a maior de todas, dançava e retirava o papel, depois puxei devagarinho o laminado, enfim mordi o primeiro pedaço. Fui comendo e umedecendo os lábios com a língua, engolindo pedaço a pedaço. O homem queria sair da poltrona, o pênis ereto, correu na minha direção. Por favor, ainda não, espere mais um pouquinho, não estrague o teatrinho, alertei. Jura que já acaba?, perguntou. Juro, só falta essa. Ele puxou uma cadeira e ficou a um metro e meio do palquinho. Quando engoli o último pedaço, Mara, o homem explodiu. Não sabe o que é um homem explodir, amiga? Explico. O homem gozou. E foram dois ou três jorros. Todos saltaram a distância de um metro e meio, atingiram minhas coxas. Mas fingi que nada acontecia, continuei o número, no final desfiz o laço. Ele correu pra mim e me agarrou. O pênis continuou durinho e o homem gozou mais uma vez. Uma loucura. E quase não consigo colocar a camisinha, foi por um triz. Quando acabamos, ele ainda estava a mil, o coração descompassado. Descansa um pouco, aconselhei, você está muito excitado. Ele deitou e fechou os olhos, muito feliz. Continuei com a música e pude ainda reparar o arfar dos seus pulmões. Coloquei todas as surpresas na caixa, guardei com muito cuidado. Peguei a caixa, o sapato e saí em silêncio. Ele parecia dormir. Bati a porta. Agora, apenas uma coisinha. Sabe o vestidinho com o qual cheguei? Aquele de apliques prateados. Pensei tê-lo colocado na caixa, queria me vestir no corredor. Você sabe, caso ele acordasse ia querer mais um espetáculo, e eu já estou cansada, já tenho minha recompensa. Mas, do lado de fora, reparei que esqueci o vestidinho lá dentro. E agora, o que faço?, perguntei a mim mesma, neste tardar da noite. Ah, a solução, pensei, telefono pra Mara... O quê?, você está sem o carro. Voltar com um dos modelos da caixa de surpresa? Mara, é tudo tão curtinho, vão me agarrar lá fora, e vai sair de graça. Arranja um jeitinho, vai, Mara, meu amorzinho. Confesso que esta situação está me deixando arrepiada, mas não posso voltar nua pra casa, daqui a pouco vai amanhecer. Tá bom, Mara, vou bater, ele vai abrir e me encontrar peladinha, acho que vai perder de vez a cabeça. Vai querer mais teatrinho. Bem, isso é, melhor mais um teatrinho do que nua no bairro do Visconde!

terça-feira, junho 21, 2016

Nós, mulheres, sempre queremos mais um pouquinho

Usar esses vestidinhos colados ao corpo, curtinhos, é um problema ou, quem sabe, a solução, depende do que cada uma de nós deseja. Sou alta, 1,80, magra, a perna um tantinho grossa. Quando uso um deles é uma atração à parte. É melhor à noite, entra-se no automóvel e salta-se no local da festa, ou na porta do restaurante combinado. Tenho um namorado que me adora de pernas de fora, e o vestidinho ajuda.

Outro dia fomos a uma festa no Jóquei Club. Não preciso dizer que minha presença causou quase um escândalo. Escândalo no sentido positivo. Não houve homem que não olhasse pra mim. Mesmo aqueles que estavam acompanhados das mulheres mais lindas. Quando fui ao toalete, muitas me olharam com inveja. Sempre há uma engraçadinha, não é mesmo? E ela pediu se podia vestir meu vestido por alguns instantes, queria ver se ficava bom nela. Não posso voltar nua, eu disse assustada. É só um pouquinho, e juro que não saio do banheiro, deixo saia e blusa com você. Tudo bem, falei, como somos todas conhecidas... Tirei o vestidinho e permiti que ela o experimentasse. Foi presente do namorado, sabe, falei, na verdade eu devia perguntar a ele se posso deixar outra mulher vesti-lo. Ah, ele ia adorar, duas mulheres nuas pra ele, e com o mesmo vestidinho, disse a engraçadinha desfilando e dando várias voltinhas. Saí do toalete e me misturei aos outros convidados, encontrei o namorado. Ainda bem que não mais a vi, nem voltei ao toalete.

O que serve de fetiche aos homens quando estou com esse tipo de roupa é que eles desejam saber se uso calcinha. Sabe que já até saí sem calcinha, mas é melhor vir completa, de calcinha e top. Mas eles sonham que o vestido vai subir e eles vão ver minha xereca. Não gosto do nome, não é nada literário, mas não encontro outro. Continuando no fetiche, há também aqueles que desejam subir as mãos por baixo do tecido e tocar minhas coxas até atingir o meio das pernas. Tenho amigas que querem ficar logo peladas, são ousadas, dizem que estão molhadinhas de tesão. Mas acho que é da boca pra fora. A mulher pra ficar excitada precisa de algum estímulo, não basta estar nua. Há ainda aquelas que ficam anos sem namorado, sem transar, a velha história de que o sexo da mulher é para dentro, por isso conseguem se segurar.

Há algumas coisas que me excitam, não sei explicar por quê. Uma delas é namorar dentro do carro. Não em qualquer lugar, mas em lugares especiais, onde existem árvores, silêncio e um céu cheio de estrelas. Há um lugar assim na Cosa Verde, onde predomina a mata de um lado e o mar de outro, é bom parar o carro numa das estradinhas laterais, deixá-lo estacionado em meio às árvores e namorar. É possível fazer sexo dentro do carro; se a temperatura estiver alta, pode-se mesmo fazer fora. Foi dentro de um carro que tirei o vestidinho pela primeira vez num lugar público. Estendi-o no banco de trás e deixei o namorado vir com todo ardor. Num outro dia, fizemos uma brincadeira. Saí correndo do automóvel, nua, e ele tinha de me pegar. Como estava escuro, me escondi. Foi um ótimo meio de nos excitarmos. Quando me encontrou, não aguentamos, trepamos encostados num tronco de árvore. O local estava como gosto, silencioso, o cheiro de mato, o céu cheio de estrelas, e lá longe, na pista, viam-se os faróis dos veículos.

Gosto de ter muitos namorados, não todos ao mesmo tempo, mas é bom experimentar os mais diversos tipos de homem. É importante também fazer papel de mulher séria, nada de piranhice.  Os homens ficam caidinhos pelo meu encanto, pelo meu jeito angelical, pelas minhas pernas longas e nuas. Houve um que me pediu que eu fosse no banco do carona sem o vestidinho, ainda que por alguns minutos. Como ele era muito atraente, simpático e de uma família rica, concordei. Acabei que não vesti mais a roupa. Ele parou à porta de minha casa e disse está escuro, você está só em casa, devolvo teu vestidinho amanhã, assim durmo com o teu cheirinho. Jura que devolve?, perguntei, gosto tanto dessa roupa, afirmei. Juro, respondeu solene. Ele esperou eu abrir a porta e entrar. Eu, apenas de sandália e com a bolsa a tiracolo dei um adeusinho. Ele voltou no dia seguinte. Trepamos que foi uma beleza. E o vestidinho voltou passado e muito cheiroso. A nós, mulheres, no momento do sexo sempre parece que falta alguma coisa, queremos mais um pouquinho. Os homens não são capazes de nos satisfazer. Mas esse namorado me completou. Ou, não sei, foi o que chegou quase lá!

quarta-feira, junho 15, 2016

Foi o paraíso

O ex-namoradinho, muito engraçado, gostava de histórias picantes. Telefonou pra perguntar como estou passando. No final, antes de se despedir, disse que qualquer dia desses vem aqui à minha cidade me roubar a calcinha. Até que namorar com ele foi bom, mas não sei por que terminamos; o motivo, acho eu, foi o excesso de trabalho. Isso mesmo, quando se trabalha demais não se tem tempo pra mais nada, a não ser descansar, dormir, acordar tarde nos dias de folga. A habilidade do homem em me roubar calcinhas era verdadeira, me surrupiou até mesmo um biquíni, e eu estava na praia da Joana. No entanto, não demorava a me encher de presentes, tantas coisas, pequenos quadros, enfeites para mesa de centro, azulejos pintados, pratos comemorativos (vejam que gosto!), cordões, pulseiras e, é lógico, calcinhas. Eu, safada que só, adorava o homem. Que ele venha um dia desses, tudo bem, a aventura será estimulante.

Duas ruas além de onde moro, há um senhor que vive sozinho. Faz pouco tempo, porém, descobri que ele é casado, a esposa não mora aqui na cidade, mas com a filha em Rio das Ostras. Toda vez que passo diante da casa dele, sinto seus olhos espichados a me acompanhar os passos. Outro dia o tal senhor me chamou. Como nossa cidade não é das maiores, é um lugar onde as pessoas costumam se cumprimentar, parei e esperei que ele desse o recado. Veio com uma história exótica, mas não demorei a perceber que era uma cantada, e muito original. Quando dei por mim, estava enredada nas suas palavras. Com uma fisionomia séria, ele contou sobre sua vida sexual. Eu deveria ficar surpresa, pois o homem apenas me cumprimentava e, de repente, me para na rua para falar de suas trepadas. Teve alguma sutileza, mas foi completamente compreensível que ele me convidava.
“Tenho namorado”, afirmei falsamente.

“Não faz mal”, contrapôs, “quem tem um pode ter dois, e vai lucrar mais.”

Aqui entra a parte dele.

“Você vai ganhar muitos presentes, caso aceite a minha companhia. Esta não será todos os dias, prometo, uma ou duas vezes na semana. E lhe asseguro que ninguém saberá.”

Pelas palavras, o homem parecia um erudito. Fez um recurso sobre a razão naturalista, pode-se dizer assim. Seu discurso não levava em consideração razões morais.

Com educação, escutei suas palavras. O homem prometia dinheiro, vantagens, presentes. Caso eu assim o desejasse, poderia aproveitar.

“Namoro por sentimento”, disse eu secamente.

“O sentimento está na beleza, na riqueza, na oportunidade de aproveitar a vida, pense nisso, não precisa me responder hoje”, agradeceu minha atenção.

“A senhorita é muito afável”, disse antes de eu ir embora.

Naquela semana evitei a rua onde morava todas as vezes que tive de sair e meu caminho era aquela direção. Preferia seguir por uma transversal e dobrar a terceira, uma rua depois da dele. Contei o assunto pra um amigo com quem eu saía vez ou outra. Eu e esse amigo transávamos, mas não éramos namorados nem tínhamos pretensões futuras, apenas aproveitávamos o momento. Ele achou a história engraçada.

“Na certa é um homem carente, que procura comprar uma mulher com dinheiro, caso você dê margem de manobra ele não vai desistir”, chegou a me falar. Ri e rolamos na cama, no último momento eu ia por cima.

O senhor mandou um presente. Não queria aceitá-lo, mas achei que não deveria recusar, não gosto de ser indelicada. Abri e me assustei. Uma pulseira dourada. Corri a uma loja de joias pra me certificar. O joalheiro me assegurou: é ouro, e dos bons. Aceitar o presente seria concordar com o convite e com as propostas do homem. Fui à sua casa, bati à porta que antecedia o jardim. Ele veio atender. Agradeceu minha visita e insistiu que eu entrasse.

“Tenho pouco tempo”, aleguei, “uma consulta médica.”

Mesmo assim aceitei. Entrei. Ele me trouxe um café.

“O senhor já sabe o motivo da minha visita, não é mesmo?”

“Oh, imagino”, ele sorriu. “Tenho mais uma coisa pra você.”

Levantou-se e correu a um cômodo além da sala. Voltou em alguns segundos trazendo numa das mãos uma caixinha de camurça.

“Veja, é o complemento da pulseira, estava esperando você para completar o presente.”

Ele deixou que o cordão se desenrolasse e trouxe até junto de mim.

“Mas...”, tentei dizer.

“É ouro verdadeiro, não é daqui do nosso país.”

Era um cordão comprido, a corrente, grossa, devia valer uma fortuna, ainda havia uma medalha que não consegui distinguir o motivo, de tão nervosa que estava.

“Não posso aceitar”, falei um tanto desolada.

“Não diga isso”, sorri, um sorriso triste e compreensivo, “no começo as pessoas se surpreendem, é assim mesmo.”

“O senhor já presenteou outras pessoas?”, curiosa, olhei com ar de desafio.

“Sim, é comum eu oferecer presentes, e, assim como você não são todas que aceitam”, acrescentou.

Deixei a pulseira com ele e não aceitei o cordão. O homem não insistiu, pareceu compreender minha vontade.

Parti com um pouco de remorso. Meu coração bateu um pouquinho mas forte. Quem sabe eu já estava criando um sentimento por ele. Além disso, eu estava precisando de dinheiro e aqueles presentes resolveriam todos os meus problemas. Mas existe uma coisa chamada liberdade, e ela eu não queria perdê-la. Se eu pudesse receber os presentes e continuar livre... Mas pra frente, talvez, a gente poderia conversar.


Eu vestia tênis, calça legging, um camisão que descia até as coxas, por baixo uma faixa de lycra que me segurava os seios (na verdade um top), meu cabelo pintado todo de preto balançava ao sabor do vento. Era noite e eu estava na ponta da praia. Olhei o relógio e me perguntei se ele viria. Passavam, vagaroso, os veículos. Os bares e restaurantes estavam cheios.

Um automóvel trafegava lento. De repente, parou ao meu lado. O vidro desceu e alguém me chamou lá de dentro. Era quem eu esperava. Abriu a porta e me convidou a entrar. Assim que entrei e fechei a porta, o barulho externo tornou-se distante, uma fantasmagoria. Ele aproximou o corpo e me beijou.

“Não falei que viria?”, sorriu e me beijou mais uma vez, "vim roubar sua calcinha", brincou, quem sabe.

Abracei com força seu corpo.

“Vamos, pode fazer de mim o que quiser”, estava eu eufórica. “Trouxe um biquíni que é uma coisinha à toa”, acrescentei em tom divertido.

Ele deu a partida. Dali em diante, foi o paraíso.

sexta-feira, junho 10, 2016

Escrever histórias

Escrever histórias é um vício. Lógico que é um vício gostoso, não cansa nem faz mal à saúde. E há tanta coisa engraçada pra escrever. Engraçada e picante. Se é literatura? Não sei. Dei o nome ao blog faz tempo, e tem no título a tal literatura, mas acho que os estudiosos olham atravessado ao que escrevo. Não tem problema, o importante é ser divertido. Tenho três histórias ótimas. Mas vamos devagar, hoje apenas uma, e durante as semanas que se seguem publico as outras. Há leitoras reclamando que não converso diretamente faz tempo. No entanto, se observarem, estou sempre a conversar. Tudo que escrevo têm a minha voz, e já faz mais de dez anos que converso com vocês. Surgiu tanta coisa nova, não?, as redes sociais emplacaram, o blog, porém, continua. E não tenho intenção de largá-lo. Há amigos ou amigas que me pedem: “publique um livro, vai ficar mais bonito, escolha as melhores histórias, todos vão gostar, vão elogiar.” Quem sabe, prometo pensar nisso, apenas prometo, quanto a publicar... Uma leitora argumenta que vou perder minhas histórias caso as deixe apenas no blog. “A internet é transitória”, afirma, “o livro fica, sempre haverá alguém com um exemplar em alguma estante, numa biblioteca, ou no catálogo da Biblioteca Nacional, as páginas da web não duram, quando a gente resolve procurá-las não estão mais lá, desapareceram sem deixar vestígios.” Prometo mais uma vez que vou pensar no assunto.

Vamos agora à história de hoje. Ah, mais uma coisa. Uma leitora aflita me pediu que contasse a história em que tive de escrever um conto pra ter minhas roupas de volta! Já escrevi sobre isso, querida, basta você clicar lá atrás, chama-se “Seus amigos teimaram que eu tinha de escrever um conto especial para eles, e eram três horas da madrugada”. Título comprido, talvez o maior que já escrevi. Vale a pena, é uma bela história, e aconteceu mesmo.


Estava eu em casa quando recebo um caixa de bombons. Da Kopenhagen. O homem mandou a caixa com um cartão. Não demorei a experimentar um, dois, três. Passaram-se três semanas e veio outra caixa. Meu Deus, não posso engordar, e esses chocolates são uma delícia. De novo experimentei um, dois, três. Na semana seguinte, recebi a mensagem:

“Margarida, adoro você, faço uma proposta indecente. É má a palavra, mas não tenho outra. Dou o presente que me pedir, mas (sou direto, nado mal nas águas da literatura) quero ver você nua comendo os chocolates.”

Não respondi ao homem, de imediato. É sempre bom deixar passarem os dias, deixá-los ansiosos. Apaixonam-se e cedem mais. Se daria um presente, dão dois; se dois, quatro. E lá se foi mais uma semana. Minha resposta:

“Chocolates de que origem?”

Quando veio a resposta, ele parecia estar a mil, coitado.

“Da Kopenhagen.”

Combinamos o presente após mais dois dias de negociações. Não posso dizer o que pedi além dos chocolates, o mundo anda muito perigoso. Mas aos mais próximos, prometo soprar ao pé do ouvido.

Veio um automóvel me buscar. E lá fui eu ao encontro dos bombons e do presente.

Gente, vocês não imaginam a suíte real em que me vi. Faz tempo não vou a lugar assim, os homens andam muito pobres. Ele tirou a caixa, e me mostrou o presente.

“Então?”, pronunciou com sofreguidão.

“Calma”, falei, “deixe explicar aos meus leitores como você é”, completei.

Alto, bem vestido, de terno e gravata, cabelo castanho penteado para trás, cheiroso, acho que Kenzo. Adorei. Mas sou furtiva.

“Primeiro, deixe-me ver o presente.”

Ele passou-o às minhas mãos. Depois vieram os chocolates.

“Por favor, onde o toalete?”, perguntei.

Voltei de lá apenas de salto alto. Ah, esses homens são um tanto homossexuais, adoram um salto, mas deixa pra lá. Sentei, cruzei as pernas, abri a delicada embalagem, tinha uma fita vermelha. Comi o primeiro, depois o segundo, e mais um terceiro. Ao parar, ele disse:

“Coma mais, por favor.”

Eu não queria estragar a festa. Comi.

“Mais um, por favor.”

Continuei não querendo estragar a festa. Porém, quando ele me pediu que comesse oitavo bombom, contra-argumentei.

“Não seria melhor esperarmos um pouquinho?”, e sorri a ele, dentro da boca ainda o último pedaço.

“Estou lhe oferecendo um presente tão caro, você tem de comer a caixa toda.”

Assustei-me. Nunca me deparei com tal tara. Um homem a ver uma mulher nua a comer a caixa inteira de chocolates. Fingi, no entanto, que era a coisa mais natural do mundo. Comi mais um. Então, chamei-o pra sentar junto a mim.

“Não está no contrato”, contrapus, “mas vou lhe proporcionar mais prazer.”

Coloquei mais um bombom na boca, seria o último, jurei a mim mesma. Abri a calça do homem, tirei seu peru e mergulhei num boquete gostoso. O chocolate quente formava uma massa que envolvia seu pênis, tornando a chupada excitante. Ficamos num namoro gostoso, o homem sempre dentro da minha boca. É isso, Margarida, ou o gozo do homem ou a caixa inteira.

Enfim, posso dizer que o homem me deu um trabalho terrível. Mas gozou. E quando os homens gozam, ao contrário das mulheres, arrefecem o desejo. Engoli a porra junto com os restos do precioso bombom. Fiz fisionomia de que estava adorando. Ele ainda gritou que gozava mais por causa da minha ousadia. Abaixei rápida e recebi mais um jorro na boca. A partir daí, esqueceu a caixa de bombons. Ainda ficamos juntos por duas horas, bebemos licor e tomamos café. Eu sempre nua.

Tenho de ir, pensei, logo volta o desejo e ele vai me fazer comer o restante da caixa.

“Agora você tem de mostrar o conto”, ele pediu.

“Conto?”, fingi surpresa.

“Você não é escritora?, quero que escreva algo especialmente pra mim, não esqueci, viu, ainda há dezesseis bombons.”

Sorri, como se nada tivesse acontecendo.

“Lápis?”, perguntei.

Ele trouxe o notebook. Dei-lhe então este conto.

Ele leu.

“Adorável.”

“Com licença, o toalete”, levantei-me, e fui me vestir.

Ah, esses homens... Além de me ver nua comendo chocolates, receber um belo dum boquete e ter um conto meu escrito ao vivo, roubou minha calcinha!

terça-feira, junho 07, 2016

A pinça e o gelo

O que você está fazendo nua aqui?

Pergunto o mesmo a você.

Me colocaram aqui enquanto não começa o desfile.

Você vai desfilar?

Vou?

Engraçado a pinça e o gelo, e mais engraçado onde você está esfregando.

Ah, sim, apenas precaução.

Você desfila, tem corpo de mulher e não é mulher.

O que há de mal nisso?

Pensando bem, nada. É estranho a pinça e o gelo sobre o pênis!

Não ria, é apenas precaução, tem de caber na calcinha. Nunca viu travestis desfilarem?, são o maior sucesso, talvez você já tenha ouvido falar de mim, sou Miriam Love.

Oh, Miriam Love, muito prazer, sou Lina Hate.

Ok, que nome engraçado. Mas me conta, o que você faz nua aqui.

Houve um pequeno problema.

Problema? Mulher nua não é problema, problema é travesti nua.

Talvez. Mas houve um pequeno problema.

Você vai desfilar?

Não, não sou modelo.

E o que faz nua, então?

É um teste, ok? Um pequeno teste.

Pretende desfilar, então?

Não, nada de desfile. Mas vejo que você está em apuros, seu pênis não diminui, assim você perde o emprego.

Nada disso, vira essa boca pra lá.

Deixa que eu resolvo, vira de costas. Vamos, rápido. Isso, assim.

Você está segurando meus testículos.

Nada disso, é para o pênis diminuir.

Diminuir? Está crescendo, para, por favor.

Calma, primeiro cresce, depois diminui. Aguente firme.

Você está me masturbando, por favor.

Calma, você vai ver, ninguém, jamais, masturbou você assim.

Ai, está gostoso.

Não falei?

Imagine se alguém abre a porta, meu piru está enorme.

Ninguém vai abrir a porta, estão preocupados com o desfile.

Ai vou gozar, por favor, não me deixa gozar, vou sujar tudo.

Vira de frente, rápido.

Você é boa nisso, abriu a boca e não deixou cair um pingo. E agora, onde você vai cuspir?

Hum, hum.

Ah, você engole, que beleza.

Veja se agora não está diminuindo.

Ah, está.

Viu, não precisa mais do gelo. E me dê aqui , vai, estou morrendo de sede.

Você ainda não falou por que apareceu nua aqui.

Foi pra fazer seu pênis ficar pequeno!

Ah, nem precisa contar outra, essa é boa.

terça-feira, maio 31, 2016

Eu,Tu e Ele

Eu, Tu e Ele moravam na mesma rua, numa pequena cidade. Cada uma delas vivía numa linda casa, muito confortável e com vista para o mar. Eunice sempre convidava Tuane e Eleonora pra contar suas travessuras. A Eu, muito extrovertida e safadinha, em pleno chá das cinco começou a delirar com o que tinha vivido à noite anterior.

"Sabe, meninas, está meio sem graça a minha transa com Samuel. Ontem saí à caça de carne nova. Encontrei o Marcelo, 25 anos e cheio de amor pra dar. Convidou-me pro motel. Lógico que aceitei. Vocês precisavam ver a ganância do homem pela minha buceta. Começou a me beijar o pescoço. Nos seios, eu vibrei. Sabe, né, se tocar meus seios com a língua e fazê-los de chupeta eu logo me entrego, fico esperando que o meu parceiro chegue logo me beijando entre as pernas. Na minha buceta, já super molhada, ele deu uma linguada profunda e chupou meu clitóris. Foi delicioso demais. Depois me colocou numa posição que conseguia me enfiar o pau e ainda acarinhar todo o meu corpo."

Tuane, pra não ficar pra trás, começou também a contar suas experiências fora de casa

"Sabe, Eunice e Eleonora, arroz com feijão todo dia enjoa. Ontem cerquei o Murilo, que já me come com os olhos todos os dias que vou à sua padaria. Falei: 'Olha, comigo é pegar ou largar, não gosto dessas seduções, não. Eu aqui pingando de prazer e você aí encostado nesse forno. Você precisa é conhecer a quentura da minha xota inchada esperando que um pau roliço venha penetrar nela com vontade. Você tem mais é que me sacudir agarrando com as duas mãos minhas nádegas, rodando e enfiando, tirando, enfiando e rodando'. O padeiro ficou vermelho e aceso com aquela conversa. Não perdeu tempo, aproveitou a hora do almoço, hora que ninguém procura pão, me puxou pro canto do forno que não estava ligado. Tirou toda minha roupa, fez tudo que eu havia pedido e mais. Aquilo que é macho, não aquele projeto de homem que tenho em casa. Hoje estou levíssima, satisfeita. Uhuuuuu!"

Eleonora ficou também ansiosa pra contar o que lhe aconteceu. Disse que pegou o Julio da quitanda porque toda vez que vai lá ela fica alisando a maior cenoura da banca. Sabia, pelo volume, que Júlio era bem dotado de vara. Justamente o que ela queria.

"Meninas, fizemos as palhas de banana de cama ao anoitecer, e tudo que havia sonhado aconteceu. Por falar em palha, dizem que é difícil achar agulha no palheiro. Imaginem se consegui encontrar minha calcinha! Muito gostoso o rola tola com ele!"

As três deram as mãos e falaram:

"Somos filhas de Deus, esses maridos cornos que nós temos que se virem."

quarta-feira, maio 25, 2016

Não pude deixar de rir

Franzi a testa. Não pude deixar de rir.

“Você é louco”, falei.

“Por quê?”, ele fez de conta que não entendia.

“Você vai me deixar assim, aqui?”

“Assim?, não estou entendendo”, ele queria que eu definisse o que era estar assim.

“De calcinha e sutiã.”

“Ah”, fez uma expressão de satisfação, “de calcinha e sutiã”, repetiu, “não foi você quem sugeriu?”

“Sugeri, mas para namorar com você, não sabia que te excita tanto deixar uma mulher pelada numa praia, de madrugada.”

“Não é só excitação”, ele disse e me abraçou, “achei que você queria experimentar.”

“Experimentar? O que posso experimentar a mais do que estar nua pra você num lugar público?”

“Já vi mulheres que desejaram experimentar uma sensação maior, trata-se de um tipo de desafio.”

“Pode explicar melhor?”

“Claro”, ele me puxou pra junto dele, beijou minha testa, depois continuou, “uma delas me pediu para sair nua do apartamento. Que eu fechasse a porta. Dias depois, escreveu a experiência.”

“Ela ficou nua do lado de fora?”

“Isso mesmo, nua e trancada do lado de fora. Após dois minutos, bateu pra eu abrir. Ela disse, então, que sentiu um calafrio de abandono.”

“Ela escreveu a experiência?”, fiquei curiosa.

“Isso mesmo. Se quiser, trago pra você ler. Mas ela romanceou, as coisas não saíram tão bem como esperava.”

“O que ela esperava?”

“Que eu abrisse logo a porta. Mas não foi o que eu fiz. Deixei a mulher de molho por um bom tempo. Por isso, naquela noite, ela ficou furiosa. Uma ou duas semanas depois, porém, quis ir nua de novo lá fora.”

“Não quero ficar nua durante nem mais um minuto, vamos embora, quero o meu vestido, por favor”, comecei a ficar nervosa. Puxei seu braço com a intenção de voltarmos ao carro.

“Vamos ficar mais um pouco", mostrou-se irredutível. "Você sabe que posso ir embora e deixar você nua.”

“Você não faria isso. Qual o motivo?”

“O motivo?”, repetiu, “não sei, talvez certo prazer.”

“Você sente prazer em me abandonar nua? Isso significa que você gosta de maltratar as mulheres, ou mesmo que não gosta do sexo feminino.”

“Quem sabe”, ele disse em voz baixa.

“Com quem fui me meter”, deixei escapar, “você é louco mesmo. Já saí com muitos homens, nenhum deles me fez passar por uma situação tão constrangedora.”

"Você está constrangida?, foi você que suspirou 'vou descer de calcinha e sutiã, é uma antiga fantasia, ficar nua na praia, de madrugada'.”

“Concordo que falei, mas não sabia que as coisas tomariam outra direção."

"As mulheres sempre querem manipular os homens. Quando a situação fica fora de controle, se tornam desesperadas."

"Você sabe que vou ter problemas caso você me abandone nua aqui. Logo vai chegar alguém. Pega minha roupa, vai, do contrário não quero saber mais de você.”

“Jura? As mulheres adoram correr perigo, e acabam sempre voltando.”

Que loucura! Refleti rápido e conclui que, para sair de modo favorável da tal situação, precisava representar. Sorri falsamente e disse:

"Ok, vamos combinar algo diferente", minha fisionomia passou a ser de deboche, mas por dentro estava morrendo de raiva, "não precisa ir buscar minha roupa." Soltei as alças e abaixei o sutiã,  meus seios se mostraram, virei o fecho pra frente e abri a presilha, "pega, vai, guarda também isso lá", entreguei a peça a ele. Como não esperava por isso, ficou com o sutiã nas mãos, meio envergonhado. "Vou dizer mais uma coisa, continuei, "digamos que não aconteceu comigo, mas com uma amiga. O namorado fez essa mesma brincadeira, deixou a mulher nua e se foi. Sabe o que aconteceu?" Ele continuou olhando, curioso, colocou as mãos pra trás, ainda segurando o sutiã. "Ela conheceu outro homem e foi com ele."

"Verdade?", arregalou os olhos.

"Verdade, e este era muito melhor!", dei minha última carta e aguardei sua reação.

"Espera um instantinho", ele disse, "vou até o carro guardar isto", mostrou meu sutiã e deu as costas.

Enquanto subia a faixa de areia, acompanhei-o sem que ele percebesse. Temia que ele fosse embora. Ao destravar o carro, abri a porta de trás ao mesmo tempo que ele abriu a da frente. Como estava escuro, não notou. Por instinto de sobrevivência, peguei meu vestido enquanto ele lançou a pequena peça sobre o banco do carona. Em seguida, fechou a porta. Tudo aconteceu muito rápido. Depois desceu à praia pra encontrar comigo. Quando chegou ao local onde estivéramos, olhou prum lado e pro outro. Me procurava.

"Ei, estou aqui", falei.

"Ah, pensei que alguém já tinha levado você", me abraçou e me beijou na boca. "Vamos passear um pouco", sugeriu, "Você acha que eu ia mesmo abandonar você nua aqui?"

Eu havia largado o vestido num ponto da areia um pouco acima, antes de ele me avistar. Não queria dar o braço a torcer. Ai, agora é que volto nua pra casa, cheguei a pensar; não faz mal, me animei a seguir, não vai ser a primeira vez. Como eu representava, não era Miriam que desfilava nua, de braço com o namorado, sobre as areias da praia. Mas, digamos, Sílvia. Que bom os muitos cursos de teatro! Franzi a testa. Não pude deixar de rir.

Para lidar com um maluco como esse namorado, só uma mulher como a Sílvia; Além de louca, era muito safada. Mais adiante tirou a calcinha e pediu que ele a guardasse no bolso. E, antes de nascer o sol, gozou duas vezes. Uma trepada de dar gosto.

terça-feira, maio 17, 2016

Nem vou espichar o vestidinho

Estou numa festa, sentadinha na sala, pernas cruzadas, vestido curtinho. Todo cuidado é pouco. Há pessoas conversando, umas riem, outras falam alto, vários assuntos alçam ao espaço, enredam-se. Ao meu lado uma mulher quase grita o sexo é ótimo, outra diz que os homens têm mais fogo do que as mulheres. Não chegam a um acordo. Os desejos são os mesmos, a da ponta alerta olha o preconceito. Nada falo, apenas sorrio discreta. Um garçom com as bebidas, de que o coquetel? Cereja. Delicioso. As mulheres não sabem sobre o meu desejo de sexo. Não adianta afirmarem que somos menos fogosas do que os homens porque o sexo deles é pra fora e o nosso pra dentro. Que absurdo! Os homens, tão poucos na festa, conto nos dedos, olham pra mim. Também, pudera, tão curto o vestidinho. As travestis, uma intervém, têm o maior dos fogos, o fogo dos homens e o das mulheres ao mesmo tempo. Uma gargalhada confortável, o arrepio. Um rapaz aproxima-se, junta-se a nós. Nossa conversa é indecente, acrescenta a terceira do sofá. A música convida, diz a dona da festa. Muita gente quer ver debaixo da minha roupa coladinha ao corpo, o tecido encolhendo, subindo, incluo na conta algumas das mulheres. Dançamos soltas, passos fingidos, movimentos medidos. O namorado quer a menina nua, não aqui nem agora, uma lembrança enquanto sinto as coxas bem arejadas, ele quer levá-la a passear sem peça alguma, ela vai sentada no banco do carona. A dona da festa vem dançar comigo, me toma pela cintura, desce um pouquinho uma das mãos. Já sei, quer saber se estou sem calcinha. Acho que se decepciona. Sabe a Karen, diz ao meu ouvido, olha pra ela, a saia fofa, também muito curta, é um tal de ir ao toalete, completa enquanto dá um passo atrás e faz que vai ao outro canto da sala. Lembra a Dina?, uma das moças vem junto a mim. Dina?, pergunto. Vai dizer que não lembra?, a travesti, afirma peremptória. Ah, finjo surpresa, o que houve? Vem à festa, diz. Que bom, afirmo fria. Dá ultima vez trouxe o namorado, um homão, sorriu, como se concentrasse nele todas as esperanças, ele adora a Dina de vestidinho como o teu, sabia?, ela insiste. Vai ver que compra na mesma loja, chego a dizer. É ousada, pra uma travesti, não sei como consegue, é outra que toda hora vai ao toalete, dá uma risadinha após a última palavra. Gira, continua a dançar, quase me toca com os seios. Reparo os bicos rijos. O garçom traz outro coquetel. Aceito. Sento no sofá, olho as amigas dançando. Duas também aceitam a bebida, vem pra junto de mim. Fogo?, ouço a voz de uma. Fogo, sim, mas nada de metáforas, fogo do isqueiro, ou de um palito de fósforo. Jura?, a primeira faz de conta que não acredita. Ouviu o que ela está dizendo? Não, quero dizer, ouvi fogo, será um incêndio?, brinco. Um incêndio monstruoso, repete a primeira, na verdade um novo método para o amor, ou velho método, não sei, dizem que as mulheres são frias, daí uma chama verdadeira pra aquecer. Ri. Finjo que entendo. Olha quem está chegando, uma aponta, a louca da Ângela. Por que louca?, quero saber. Ela mesma gosta de contar, diz a que está à minha direita, adora trepar em público. Levo o coquetel à boca e penso na Dina. Ela é que está certa, é travesti e tem o homem mais bonito, mais desejado de todas as mulheres, corresponde a todos os desejos dele. Uma fofoca, diz Ângela depois dos cumprimentos, na semana passada fui a uma festa na Teresa, adivinha quem estava lá?, a Dina, ela e o namorado, o vestido tão curtinho que quase pedi pra entrar no toalete com ela, qual o teu segredo?, eu quis perguntar. Todas as quatro mulheres, no cantinho da sala, ficam curiosas e arrepiadas! Uma diz será que a Dina topa a brincadeira? Qual brincadeira, responde a mais atirada. Vamos lhe pedir emprestada a calcinha! Peça também à Ângela, você vai se surpreender, de novo a mais atirada. Riso geral. Essas mulheres não tem outro assunto?, pergunto-me, será que ninguém lê um livro nesta roda?, ou frequenta alguma galeria de arte? Quem sabe... Rio. Posso eu criticá-las? Não vou ao toalete nem vou espichar o vestidinho.

quarta-feira, maio 11, 2016

Há jeito para todas as coisas

Minhas brincadeiras são bobinhas, inofensivas, causam, talvez, um pouco de nervosismo. Quando contei a ele, apenas riu. Um riso que revelava minha infantilidade. Sei que ele poderia ter dito como você pode gostar dessas coisas, ou talvez dissesse não são tão inofensivas, você coloca em risco a sua integridade. A voz dele soaria em tom sentencioso, demonstrando as certezas peculiares aos homens. O que eu poderia fazer, a partir daí, seria me afastar, e não mais me preocupar com o que ele pensava. A vida é perigosa para os mais cautelosos, eu ainda poderia rebater. Mas preferi continuar com minhas brincadeiras bobinhas, que me dão muito prazer.

A casa era grande e tinha um cão. Mas ele ficou logo meu amigo. Não sei o que fez me olhar como uma pessoa benevolente. Os cães acham certas pessoas benevolentes, alguém que pode lhe acariciar a cabeça, passar uma das mãos pelo seu pescoço e lhe oferecer algo novo. Foi o que aconteceu. No primeiro dia, veio me cheirar. Ficou nisso. Agradei a ele. Seu focinho úmido percorreu minhas pernas, abanou o rabo, o cão paralisado ante as minhas mãos. Passei a visitar a casa todos os dias, às vezes também à noite. O cão sempre atrás de mim, como se eu fosse sua redentora.

Adélia também gosta de algumas brincadeiras. Aliás, foi ela quem me despertou para o prazer que as brincadeiras podem proporcionar. Adélia gosta de ir à praia cedo. Chega com o nascer do sol. Corre pela beira, o mar a lhe molhar os pés. Sua bastante, depois mergulha na água fria. Diz que a sensação é maravilhosa, corre-lhe um arrepio, uma espécie de gozo. Certa vez correu nua e depois mergulhou. Em dobro, o prazer. Repetiu o exercício, repetiu o gozo. Certa vez um homem apareceu à praia, e Adélia nua dentro do mar. O que fazer? Esperar. Mas o homem teve mais paciência do que Adélia. Ela acabou indo com ele. Hoje está bom assim, ela falou, ficamos no olhar, e você até já me beliscou, vamos marcar um encontro para logo mais, tentava ela escapar. O homem concordou. Adélia então fugiu. Não veio mais nadar pela manhã. O que perdeu? O prazer. Há tantas outras praias, disse-lhe eu. Ela começou de novo, na ponta da praia.

A minha aventura, porém, não era na praia. Queria o homem bonito que morava à casa onde eu sempre rodeava. O cão atrás de mim. Eu podia entrar durante a madrugada, como ladra escorregadia. Mas nada queria roubar, ou melhor, talvez um coração, o coração de um homem jovial. Mas eu tinha medo de falar com ele. Teria sido melhor encontrá-lo e expor minhas intenções. Tudo tão simples. Mas a aventura me dava furor. Invadi a casa. Rodeei-a com o cão. Um cão imenso. Deitava com ele na grama do quintal. Meu homem dormia. Que tal subir, ir até ele? O homem poderia não gostar, eu temia. Para alguns tipos as mulheres são perigosas. Lembrei de novo minha amiga nua na praia querendo convencer o homem que ela tinha o direito de nadar nua, ele não poderia tê-la contra a vontade dela. Existe lei, sabia?, Adélia chegou a murmurar. Mas os homens querem saber lá de lei. Ou fazem as leis conforme sua vontade. Ela nada contou, mas é lógico que teve de dar pra ele. E eu que desejava dar, mas meu homem não vinha. Fiquei com o cão enquanto o aguardava. Venha logo, observe-me, cheguei a mandar uma mensagem por sob a porta de entrada, acho que não aguento por tanto tempo. Ele veio. Mas devagar. E trouxe o cão. Fingi que não o conhecia. O cão. Vamos à praia?, sugeriu. Por que não aqui?, tão aconchegante, suspirei. Gosto que minhas namoradas nadem nuas...

Você nada bem, por isso tem esse corpinho, alguns músculos apenas, mas um corpo muito bonito. E ele a me ver nadar. Eu tão longe. Desaparecia o namorado, sumia junto com o cão. Eu boba por ele, pedia pra guardar minhas roupas. Pudera. Fizemos o jogo durante uma semana.

Depois de tanto tempo, fui nadar sozinha. Na ponta da praia. Eu e o mar. Imito minha amiga Adélia?Madrugada ainda, o vermelho de um sol antes de subir o horizonte. Nada de homem, nadar apenas. A pele. Uma semana depois tento convencer o desconhecido a me deixar só, digo a ele que não tem o direito de deitar comigo. Sou virgem, asseguro, como último argumento. Ele não me olha surpreso. Dá-se um jeito, diz. Não espera minha réplica. Há jeito para todas as coisas, completa. Eu, pelada. O homem me puxando pelo braço.

terça-feira, maio 03, 2016

Recatada

Sempre fui uma mulher recatada, visto roupas que destacam o meu corpo, mas nada de saias ou vestidos muito curtos. Pernas de fora, apenas na praia, é o que sempre achei. Mas o meu namorado acabou me convencendo a usar roupas extravagantes.

Se encontro alguém?, pergunto preocupada.

Você faz de conta que é outra pessoa.

Outra pessoa?, assusto-me.


Passei a sair com penteados diferentes, ele me deu dois ou três pares de óculos, dois de lentes escuras. Alguns dias cheguei a cobrir a cabeça com lenços, ou mesmo com uma espécie de véu. Comecei a gostar da brincadeira.

Frequentamos os restaurantes de uma cidade vizinha. Tudo ia às mil maravilhas até que, de repente, avistei uma pessoa conhecida. Ela não me viu, ainda bem. Fiquei tão preocupada que não reparei com quem ela estava. Quem sabe alguém já me avistou e nada falou? Meu namoradinho, porém, se mostrava cada vez mais entusiasmado. A cada entusiasmo dele, minhas saias ou vestidos ficavam mais curtos.

Houve uma época em que pensei um modo de atrair os homens, não imaginava que a roupa produziria tanto frisson. Que ótimo, agora já sei, caso este namorado desapareça, já tenho um método, vou atrair o homem que eu desejar.

Certo domingo ao entardecer ele veio me buscar para mais um passeio.

Tenho uma surpresa, disse.

Tirou de uma sacola um presente. Abri o pacote.

Que camiseta linda!, adorei.

Não é camiseta, sussurrou.

Não? O que é, então?

Um vestidinho.


Gelei. Ele me quereria domingo a passeio com o vestidinho.

Vesti-o apenas para agradá-lo. Vim à sala e disse:

Caso saio assim, só de camiseta, todos os homens vão correr atrás de mim.


Não adiantou minhas ponderações. O namoradinho insistiu tanto, que saí de camiseta.

As pessoas vão pensar que você está de short por baixo, falou.

Veja se há alguém na rua, pedi.

Não tem ninguém na rua, pode vir.


Corri para o carro e entrei. Ele guiou para Rio das Ostras. Durante a viagem ligou o som e escutamos músicas que nos estimulavam. Ele passava a marcha e escorregava a mão direita sobre minhas coxas.

Paramos na Costa Azul. Ventava. Saímos do carro. Ele comprou duas garrafas de cerveja e me deu uma. Descemos à praia.

Ele me abraçou, me beijou e deslizou a mão por baixo da camiseta.

O que foi?, perguntei ao perceber que ele se estava surpreso.

A calcinha?

Ah, eu disse, falta a calcinha.

Por que não me pediu? Eu compraria pra você.

Não estou sem por falta de calcinhas em casa, imagina o motivo.

Ah, sim, que tolo, já imaginei.


Escurecia. Só nós dois na praia. Ele levantou minha camiseta até me deixar de peitos de fora, depois puxou e conseguiu tirá-la de mim. A seguir, arremessou-a no ar e deixou que o vento a levasse.

Não faz mal, afirmou, se desaparecer vou comprar mais três.

Mais três?, repeti. Ah, não esqueça das calcinhas!