quinta-feira, julho 05, 2012

Perdi a cabeça

Sinto tantas saudades de um namoradinho. Faz alguns anos que não o vejo.  Outro dia, revendo uma foto minha, despertei para as sensações que ele me proporcionou no curto período em que estivemos juntos. Lembro que fui apresentada a ele por uma amiga. Fazíamos um curso juntas. Ela já tinha viajado à cidade onde ele morava, no interior do Rio. Não perguntei se viveram um romance. Ela apenas me falou que se tratava de alguém muito interessante, e me passou o número do seu telefone. Liguei num domingo à noite. Fui atendida com muita cordialidade. Ficamos de conversar nos dias que se seguiram. Não passou muito tempo, viajei ao o Rio.

“O que você gostaria de fazer?”, Carlos me perguntou na primeira noite.

“Não conheço nada por aqui, é melhor você escolher”, respondi.

Embora morasse a duzentos quilômetros da capital, ele dirigiu até o Rio para me levar ao teatro, o Maison de France.

Depois jantamos num restaurante da Zona Sul. Lá pela uma da madrugada, sempre carinhoso, me levou para um hotel na Praia do Flamengo.

“Você é muito bonita, deixa eu fazer algumas fotos suas”, pediu.

“Você é fotógrafo?”

“Mais ou menos.”

“Como alguém pode ser mais ou menos um fotógrafo?”, eu quis saber.

“É que não trabalho profissionalmente com fotografia, mas sempre trago a câmera para clicar o que acho belo.”

“Então quer dizer que sou bela?”

“Belíssima”, sentenciou.

No apartamento do hotel, fiz várias poses para ele. Não pediu para me fotografar nua, mas, como já tinha bebido e estava soltinha, sugeri a foto mais ousada. Sentei-me comportadíssima, de pernas cruzadas, mas inteiramente nua. Meu braço direito cobria parte dos seios, e eu sorria. Ficou linda a foto. Logo depois ele me mandou por e-mail.

Naquela mesma noite namoramos destemperadamente. Como Carlos me deu prazer! Conforme fui ficando excitada, comecei a gritar: "ai, vou perder a cabeça, vou perder a cabeça, não aguento mais; ai, estou perdendo, estou perdendo a cabeça, estou nas tuas mãos; por favor, não perde a tua, te segura, não goza dentro, por favor; ai... ai... ui... ui... estou gozando, estou gozaaaaannnndo". Ele foi cavalheiro, me fez gozar três vezes; só depois vestiu a camisinha, me penetrou mais uma vez e gozou.

No dia seguinte voltamos à sua cidade. Ali há uma praia linda. Mesmo não sendo verão, fomos tomar sol e banho de mar. Ficamos o dia inteiro passeando. Almoçamos num restaurante rústico e depois voltamos para a praia. Então ele me pediu algo que me deixou primeiro temerosa, mas depois arrepiada. Queria que eu tirasse o biquíni dentro d’água e desse a ele para guardar lá no guarda-sol, junto aos nossos pertences. 

O arrepio durou  uns cinco minutos, e os saltos do meu coração mais ou menos dez. Enfim, aceitei. Tirei o biquíni e entreguei a ele.

Como foi bom a partir daí. Nuazinha dentro d'água pelo resto da tarde. Carlos ora ao meu lado, ora à minha frente, ora às minhas costas. Perdi a cabeça mais uma vez. Nem tremi quando uma moça e um rapaz passaram junto a nós. Transar naquela praia foi demais.

À noitinha fomos para casa, e não conseguimos parar de trepar.

Veio o domingo, era meu último dia na cidade. Viajamos quarenta minutos até Búzios. Achei a cidade encantadora.

No final da tarde, pedi outra foto a ele:

“Você me fotografa nua, nessa praia?”

“É pra já”, suspirou de alegria.

Mesmo com pessoas aqui e ali, tirei as duas peças e pedi que ele agisse rápido. Acho que pensaram que eu era atriz. Apenas um garoto se aproximou ao constatar que eu estava nua, mesmo assim ficou a uma boa distância.

À noite, parti de volta à minha cidade. Tinha de voltar, não havia jeito. Muitas promessas da parte dele e cara de choro a minha. Mesmo assim tive ideia para mais uma ousadia. Esqueci (de propósito) o biquíni na torneira do chuveiro. Minutos antes, eu perdera a cabeça mais uma vez. Aliás, perdemos os dois.

A foto que me apanhou nua na praia, lembrança boa dele, lembrança boa daquele final de semana. Por que não fiquei com o homem?

Acho que perdia a cabeça.

quinta-feira, junho 28, 2012

Mãos, músculos e sexo

Lenilda entrou no ônibus e misturou-se aos passageiros. Tornava-se novamente anônima em meio a tantas pessoas. E, para completar sua tranqüilidade, a linha era a mesma que usava para voltar a casa. John ficara para trás, ela nem mesmo virou a cabeça para sorrir a ele. O veículo seguiu seu caminho, pouco a pouco foi deixando as avenidas do centro para arrastar-se pelas ruas do subúrbio.

O copo de bebida refletia a cor vermelha. Sempre quisera saber que bebida era aquela, mas nunca perguntara. Quando John lhe oferecia, recusava com polidez e simpatia. Mas o vermelho da bebida girava em sua cabeça, transformava-se num mundo novo, cidades distantes com pessoas por todos os lados, lojas, restaurantes, hotéis e aeroportos.

Uma peça de roupa, um presente. Ela sorriu e agradeceu. Mas não poderia levar, não estava acostumada a chegar em casa com um presente sem que todos pedissem para ver o que ela carregava. A não ser que... A não ser que vestisse ali mesmo o presente. Ninguém saberia o que ela ganhara, não era o tipo de presente para ficar à mostra.

Os braços de John, como eram fortes; ela não estava acostumada, jamais se relacionara com um homem tão robusto, ele podia levantá-la com apenas uma das mãos, ele podia acariciá-la com a ponta dos dedos. Mas temia toda aquela força. No começo, tudo é de uma intensa doçura, mas com o passar do tempo, quem sabe, ele podia usar toda aquela força contra ela. Portanto, ela não se entregaria totalmente.

A suíte estava escura, melhor assim. Não, por favor, não acenda a luz, fiquemos na penumbra, também não vamos conversar, deixemos o diálogo a cargo de nossos corpos. Fora mesmo ela que dissera tais palavras? Na verdade, ouvira-as numa telenovela, e das mais vulgares, talvez de bom apenas as palavras. Mas as mãos de John, como eram aveludadas.

Maria Alice. Isso, onde estava agora a falsa amiga? Contava cada história, episódios arriscados, escapadas espetaculares. Seria tudo verdade? Maria Alice mostrou um retrato em que estava nua. Quem tirara? Um dos namorados. E ela os tinha às pencas. E o marido? Ah, ele não queria saber de nada, e ela divertia-se tanto... Maria Alice. Mas seriam verdadeiras as histórias? Pode ser que as inventava para que ela contasse as suas. Talvez tudo fosse mentira, queria, isto sim, saber as suas verdades; caso deixasse escapar alguma das aventuras, tudo estaria perdido. Lenilda apenas ouvia, ouvia, ouvia. As histórias tinham contradições. Um dia descobriu o livro de onde Maria Alice tirava aqueles relatos. Tudo literatura.

Não existe amigo nem amiga, todos estão na mais completa solidão. Não há a quem se dirigir, todos são suspeitos. Tudo que falamos pode se voltar contra nós. Lenilda guardava a própria angústia. John não era seu amigo, não era seu amante, era um homem que uma vez por semana a deixava nua, subia sobre seu corpo, gozava e lhe fazia gozar.

Havia a imagem de um rio. Sua cidade, porém, não possuía nenhuma espécie de rio, nem mesmo um córrego. Mas a imagem do rio sempre lhe vinha à mente. Talvez um sonho, talvez em uma viagem ficara a fixação. Mas ela jamais viajara.

A praia não era distante, John queria levá-la até lá. Mas ela só podia se fosse no começo da noite. Combinado. Foram até a praia. Mas um vento forte não deixou que eles caminhassem sobre as areias por muito tempo. E John queria despi-la ali mesmo. Estás louco? Queres me deixar nua? Repetiu as duas frases. Você gosta de aventura, foi o que ele falou, você gosta de aventura, repetiu. Olhe lá, uma jovem com o namorado, está muito à vontade, por que você não pode estar também como ela? Por quê? Lenilda correu, queria ir embora. Mas John alcançou-a, segurou-a com um beijo. Lenilda dizia que os beijos de John causavam-lhe paralisia. Está bem, acabara por concordar, tire toda a minha roupa, mas vou morrer de frio.

Não morreu de frio, o corpo musculoso do amante serviu-lhe de anteparo.

Lenilda, vem comigo, teu marido tem mais trinta anos que você, vem comigo Lenilda, mesmo que seja nua.

Abraçaram-se, beijaram-se, perderam-se no tempo. Não puderam ouvir o sussurro do casal de namorados. Mas eles não sussurravam, apenas mãos, músculos e sexo.

O ônibus entrou no bairro em que Lenilda morava.

quinta-feira, junho 21, 2012

Naquela noite ele não apareceu

Nunca fale ao seu namorado sobre seus exs. É um preceito elementar. Mas o pior é descrever alguma loucura que você tenha feito com um deles. 

Fui cair na besteira de contar que um ex-namorado me deixou nua numa rodovia, disse ainda que, no final, acabei gostando da brincadeira. Meu atual namorado, embora tentasse não demonstrar, fixou-se na situação. Não passaram muitas horas para que ele voltasse ao assunto.

“Você não pensou no perigo que corria?”

“Sim,  pensei, mas na hora não sei onde estava com a cabeça.”

“Ele poderia não ter voltado.”

“Cheguei a temer que isso acontecesse”, falei.

“Um homem que inventa essas brincadeiras é infantil, ou não gosta de mulher.”

“O problema não é ele gostar ou não de mulher, mas a mulher gostar da brincadeira.”

“E você gostou?”

“Naquele momento, sim. Já falei sobre isso.”

“Então a ideia dele não foi tão má assim.”

“Claro que não.”

“Iria outra vez?”

“Acho que agora, não. Tenho medo.”

“Medo de quê?”

“Você quer me fazer passar por isso outra vez, não?”, sugeri.

“Só se você quiser.”

“Não, não quero, minha época de loucuras já acabou.”

Não tocamos mais no assunto. Mas sempre ao estar a seu lado no carro na mema rodovia, que também utilizávamos em dias alternados para ir de uma cidade a outra, ele ficava agitado.

Uma semana depois, enquanto voltávamos tarde da noite para casa, perguntou:

“Você já falou sobre aquilo a outra pessoa?”

“Sobre o quê?”

“De ter ficado nua na rodovia.”

“Vem você de novo, parece que ficou tarado com esse fato.”

“Falou ou não falou?”, olhou para mim rapidamente enquanto dirigia.

“Não, não falei.”

“Jura?”

“Juro. Falei só pra você?”

“Então não há perigo.”

“Perigo de quê? Não me bote curiosa.”

“Perigo da coisa se espalhar.”

“Espalhar, como assim?”

“Alguém dizer que a viu nua por aí, ou que você chegou pelada em casa, de madrugada.”

“Não, ninguém vai poder falar de mim, e esse caso já aconteceu faz um bom tempo.”

“Então está bom”, falou enquanto reduzia a marcha onde há uma faixa para travessia de pedestres. Mas não havia pedestre algum para atravessar.

“Você teria coragem?”

“Coragem de quê, Mário.”

“De atravessar a faixa de pedestre.”

“Atravessar para quê? Não é o meu caminho.”

“Atravessar nua.”

“Você está querendo mesmo isso, não? Fui contar, agora estou frita.”

“Frita?”

“Já que você ficou morrendo de tesão depois que contei e já não fala em outra coisa, vou satisfazer a sua vontade. Encoste ali”, pedi.

Ele manobrou.

“Vamos fazer direito. Tiro toda a roupa, deixo dentro do carro e você parte. Faça o retorno daqui a dois quilômetros e volte para me buscar, ok?”

“Você vai tirar toda a roupa?”

“Não é isso que você quer?”

“É, pode ser”, sua voz chegou a embargar.

“Então, vamos, combinado?”

Fiquei nua, entreguei o vestido, cumpri o prometido.

Ele? Não apareceu. Pelo menos naquela noite.

quinta-feira, junho 14, 2012

Olímpica

Queres todo o serviço, não? Conto, com vagar e pouco a pouco. Nada deixarás de saber.

As mulheres adoram andar nuas. Verdade. Pode aparecer alguma que o negue. Mas mente. Todas amam a pele apenas, e ao arrepio.

Já saí nua sentada no banco do carona. Na primeira vez, lógico que tremi, transpirei, o ventre e as pernas molhados de suor. E nem era verão. Mas, depois, com uma ponta de gozo, a excitação súbita, veio a compensação. Só o sapato e uma bolsa mínima, imagina. Saí do carro, sim. Saí do carro assim... Tremes só em pensar, juras? Mas como foi bom, nua e sob o sereno, amar.

Há namorados mais conservadores. Alguns me querem de vestido. Derradeira peça a me cobrir. E como gelam ao acariciar-me a pele. Sutil, não?

E houve aquele que me levou embrulhada num grosso casaco de peles. Apenas coberta pelo pano pesado e o liso forro a roçar meu corpo leve, nada mais. Se ele roubou-me o agasalho? Claro, que mais poderia levar?

Já dirigi também vestida apenas pelo carro. Saia e blusa de metal e vidros. Estes, pouco transparentes. Percorri 15 km ao encontro do amante.

Se já corri nua surpreendida pelo sol, finda a madrugada? Várias vezes. É meu o recorde olímpico!

Lembrei também aquele que me fez esperar quinze minutos ante à porta da rua. Batia, batia e ele, nada. E eu, nua!

Sempre em público, sempre externa, nada mais me surpreende. Achas as mulheres loucas? Os homens muito mais! Aguentam-se as suas loucuras e se terá o namorado perfeito.

Mas sinto que tu me queres pelo avesso. Aonde vais com a câmera? Já me desces o liso  ventre. Poucos meus pelos pubianos, constatas; na verdade, quase nulos. Mas me invades com a extremidade fria do vitral!

Queres filmar-me por dentro? Oh, você, nunca vi nada igual! Avança, com vagar, mas avança. Assim já alcanças.

Olhas no monitor? Aprecia! Tão comprido o mar... Vê, logo hás de nele mergulhar.

quinta-feira, junho 07, 2012

Ele está logo ali

Esse biquíni vermelho cai bem em você.

Você acha, mas vou te contar, quase já o perdi, sabia?

Perdeu, como?

Vamos parar aqui nesse quiosque pra tomar uma água de coco, já te conto.

Algum homem veio atrás de você e uau, arrancou o biquíni...

Não foi bem assim. Quer um pouco da água? Está uma delícia.

Não se preocupe, Teresa, vou comprar uma também. Mas vai, conta como você quase ficou sem.

Um cara, até muito bonitinho, mas não aconteceu aqui na praia, foi na casa dele.

Hum, na casa dele.

Isso, acabei aceitando o convite, você compreende, não?

Oh, como compreendo.

Eu estava aqui pertinho, ali naquela parte da areia; ele foi conversar comigo; aceitei o papo; no final estava louquinha pra trepar com ele.

Então, na casa dele e no mesmo dia.

Isso. Saímos daqui direto pra lá. Namoramos até tarde de noite. Foi ótimo. E quando eu fui embora, uau...

Ele mordeu seu bumbum e o biquíni ficou nos dentes dele.

Não foi bem assim. Sabe como é, homem tá difícil, e ele é tão gostoso, tive de arranjar um artifício.

Artifício?

Isso, Sônia, artifício, adivinha qual?

O biquíni.

Acertou. Esqueci de propósito no apartamento dele. E a minha camiseta era tão curta.

Você estava de camiseta curta?

Cobria só um tantinho pra não me deixar nua. É daquelas que fazem os homens olhar pra trás procurando a calcinha. Joguei sobre o meu corpo e dei um bye-bye. Ele me beijou e eu saí. Lógico que eu vestia o top, por isso deve ter pensado que eu também estava com o biquíni por baixo. Mas o deixei na torneira do chuveiro.

E depois?

Depois? Ele me procurou no dia seguinte. Na praia, no mesmo lugar. Me convidou a voltar lá pra pegar.

Aí você voltou.

Voltei. Uma gostosura o homem, tão saboroso como essa água de coco.

Água de coco, Teresa?

Isso mesmo, essa que nós estamos bebendo. Mas é lógico que trepar sempre é melhor.

Quer dizer que você andou por essas ruas só de camiseta.

Andei, juro, mas era noite, e em minha portaria não há ninguém depois das onze.

Acho que vou experimentar, Teresa, andar só de camiseta.

Não, Sônia, melhor experimentar o homem. Eu mostro quem é, e ele está logo ali... 

sexta-feira, junho 01, 2012

Tênis vermelho cano longo

Corro na orla, mais de duas da madrugada. Um carro me segue, sei que alguém dentro dele me está filmando. Minhas passadas são firmes, resistentes, calço tênis vermelho cano longo. O início de outono me acaricia a pele, mas não sinto frio, o calor do meu corpo em movimento basta para me manter aquecida. Até agora não cruzei com ninguém. Não fosse o automóvel atrás, a vinte ou trinta metros, estaria totalmente só.

Sei que o tênis cano longo cobrindo os pés e os tornozelos de uma mulher é um fetiche, e o homem que a olha nua, apenas de tênis, há de achá-la a mulher mais gostosa do mundo. Já fiz fotos assim. Foi o maior sucesso. Posei em pé, sentada sobre um banquinho, no chão em posição de lótus, deitada. Mas sempre me cobrindo os pés e os tornozelos o tênis cano longo.

Até que meu namorado me convenceu a correr na orla da praia, alta a madrugada. Sempre corri, disse a ele, tenho bom preparo físico. Ele, porém, acrescentou: correr vestida apenas de tênis cano longo.

Há meninas que usam minissaia com esse tipo de tênis. Ficam umas gracinhas. E não há homens que não se voltem para elas.

Passeamos no carro dele. Paramos no Leblon para comer sushi. Comida sensual, o sushi, acompanhado de caipirinha de saquê, maravilha. A bebida logo produz efeito, sobe pelas pernas. Ai, que vontade de ficar nua. Que vontade de transar.

Saímos do restaurante ainda contagiados pela arrumação artística e pelo sabor dos pratos da culinária japonesa. Já no carro, meu namorado envolve minhas pernas com suas mãos, salta às minhas coxas.

Espere, eu mesma tiro. Sem a saia; a seguir, sem a blusa. Vou apenas de tênis cano longo. Me abrace, me beije, sussurro.

Você está linda, vamos andar um pouco. Ele começa a guiar pela orla marítima. Você gosta mesmo de andar nua, não é mesmo?, sua voz baixa soa amorosa.

Adoro.

Será que faz frio lá fora?

Vou experimentar.

Isso mesmo; nos seus olhos há uma ponta de euforia; vamos pensar positivo, não vai aparecer ninguém, diz.

Ele pára. Saio do carro e faço ligeiro aquecimento.

Você é boa atleta, há de conseguir correr os quatro quilômetros.

Mesmo depois das duas caipirinhas, sorrio para ele.

De repente a vontade louca de escapar, correr sozinha, ninguém atrás de mim. Depois subir a pedra na ponta da praia, nua.

quinta-feira, maio 24, 2012

Deleuziana

A tarde cai, também crepuscular o ambiente na faculdade. Seria bom ter sempre gente para debater assuntos como filosofia, literatura, pensamento contemporâneo, a escrita dos franceses sobre a tênue fronteira entre a palavra e o que ela representa etc. Mas não é tão fácil. Muitos estão aqui apenas para receber o diploma no fim do curso e com ele ganhar dinheiro. O debate sobre a produção da cultura humana, sobre até que ponto se pode chegar ao requinte de se elaborar fios de pensamentos representados por palavras, artifícios mais delicados do que uma teia quase transparente, é difícil de se concretizar, a não ser durante alguns fugazes minutos numa defesa de tese de aluno brilhante. Mas o mundo é assim mesmo, sempre o palpável é o caminho mais fácil, a vereda dos sentidos. Concreto é sentir fome, sede, necessidade de sexo. Até mesmo experimentar o fino paladar de uma taça de vinho raro já não é para qualquer um. Imagine as abstrações e suas representações. No mundo de hoje existem  pseudo-abstrações extremamente vendáveis; dão esperança de uma vida melhor a muitas pessoas, induzem ao pensamento de que obstáculos são fáceis de serem superados. Emagrecer, eliminar a depressão, superar o temor, viver feliz sem namorado, estar satisfeita dentro da própria casa etc. A tarde vai caindo, vou deixando para trás o campi da universidade. Entro no mundo dos comuns. Uma aluna disse a outra que adoro tomar cerveja. Esta observou que sou magra, talvez mesmo o exemplo atual de mulher bonita, como poderia então tomar cerveja? Não sei, voltou à carga a primeira, ouvi falar que ela entorna. Ri da expressão. Quer dizer que entorno... Não comentei nada com ninguém, achei tudo tão engraçado. A conversa chegou ao meu ouvido por vias transversas. Vá lá, acho que ela tem um pouco de razão. Mas não entorno. Caso o fizesse, teria pelo menos um pouquinho de barriga. A causa do comentário deve ter sido a festa na boate. Alunos sempre acabam sabendo. Não chegam a eles nossas ideias básicas, nossa linha de raciocínio, o que publicamos no último artigo na revista da universidade. Mas o que bebemos na última festa. Seria bom que comentassem sobre minha principal pesquisa, sobre os conceitos que se originam nos franceses a respeito de territorialização, fronteira, entrelugar, estranhamento. Tudo isso fica ao largo, à deriva em mar de escolhos. Dão valor apenas ao que aconteceu na boate e ao tanto que bebi. Por falar em fronteira, em entrelugar, pode ser que acidentalmente comentem sobre isso, mas não devido à leitura atenta dos conceitos deleuzianos. Algumas pessoas reparam que gosto de dançar, que num fugaz momento enquanto vou voraz no ritmo de uma canção alguém me toca as costas e acaba deixando a mão. Não entendem que precisamos relaxar após o dia intenso de leitura e de pesquisa. É por isso que nos largamos em boates ou mergulhamos em copos de cerveja vez ou outra. Mas aquela mão me toca com tanto carinho, com tanto cuidado, que a permito sem me dar conta da pessoa. Um professor admirador? Algum aluno? Alguém desconhecido? A mão é de uma mulher. Deixo a mulher continuar. Faço de conta que nada sinto. Ouço vozes, a Ana é muito bonita, mas acho que gosta de mulher. A Ana é lésbica. Oh! exclamam quase todos. Talvez uma aluna mais sofisticada se manifeste, a Ana às vezes deixa seu território e passa para território vizinho. O lugar de mulher é deixado ao largo para que ela adentre outro em que não está claro a quem pertence, se a homem ou a mulher, talvez seja essa a definição de poesia da qual ela tanto gosta. Pau é pedra; pedra é pau. Simultaneamente. Palavras são reflexos luminosos frágeis, que mais criam situações do que definem experiências humanas. Não existissem as palavras, impossíveis as situações. De quem a razão? Platão, Aristóteles, Kant, Hegel ou Lacan? Deleuze detonou a psicanálise apresentando a tese de que o Édipo é apenas um pó ante as inúmeras situações que marcam a proibição. O lugar da Ana Lídia é altamente volátil, está diluído numa microfísica de poder em que não se encaixa a formulação de filósofos que trazem teorias totalizantes. Ufa! Tudo isso por causa de um desregramento na boate. Mas atravessaria apenas mentes privilegiadas. Para homens e mulheres comuns: lésbica. Quem estuda o entrelugar, o lugar extremamente volátil, aquele espaço móvel em que não se sabe se está nua ou vestida, é alguém que possui o espírito sutil. Não sei se palavras como espírito e sutil são adequadas, mas vamos a elas para o bom entendimento. Preciso ser didática nesse ponto. Vestido curto, soltinho (sempre o calor), sandália rasteira, dou a volta pelo estacionamento, vou ao copo. Quem na mesa pode discutir territorialização e espaço tênue entre fronteiras? Homem ou mulher? Não importa. Alguém. Conversa também é afeto.

quinta-feira, maio 17, 2012

Naco de amor

Blusa de algodão; saia de malha, preta, curta, solta, corte em diagonal; meias arrastão descendo até entrarem pelas botas de cano longo. Apenas. Se faz frio, o casaco cinza escuro. À noite vou pelas travessas do centro velho. Vielas de luz escassa. Um ou outro bar. Homens, que sempre se enganam, julgam-me prostituta. Represento. Se já tive algum problema. Teria, se minha defesa não fosse o ataque. Polícia? O que há de mais perigoso. A cidade tem suas luzes esmaecidas. Perco-me em meio às sombras, sob o tímido brilho das estrelas do céu urbano. Espero o prazer. Ainda que barato. Sozinha, na indigência dos resíduos que escorrem do dia findo. Enfio-me num beco. Nova York? Letreiro de loja apagada, esquecida à hora tardia. Riscos nas paredes. Grafite rasurado. Alguém me quer sem as meias, sem a saia, sem a blusa surrada. Agarra-me num beco, beija-me a boca, roça meu corpo. Tira seu sexo e tenta encaixá-lo entre a costura esgarçada de minhas pernas. Gozo eu? Talvez.

Abandona-me nua, encolhida, os braços apenas de abrigo, sussurro-lhe ao ouvido.

Escondo-me. Procuro outros vãos, reentrâncias, silêncios. Até quando a fragilidade do fio suportará o peso do equilibrista?

Leva-me nua, digo a outro em meio ao burburinho seco da noite vazia, deita-me ainda que sobre a soleira de qualquer porta, não me deixes escapar sem que eu umedeça teus lábios, sem que te deixe o sexo molhado.

Aventura. Que mulher não está disposta? Basta-lhe leve indício de sobrevivência. À beira do abismo, porém. O fio da vida quase partido. Momento do orgasmo. Não temes? Alguém há de perguntar. Temer?, repito o verbo. Temem a mim. Sou eu a fera. Primeiro, mansa, os braços soltos a deslizar sobre os alheios, homens rasos, noturnos, desconhecidos. Não sei nem interessa a mim de onde vêm, aonde irão. Como tremem! Ante a mulher nua que anda na via pública, amante que lhes oferta o corpo suado de volúpia.

quinta-feira, maio 03, 2012

Assuntos profissionais

Essa história que você conta não é do meu agrado. Não gostaria que viesse um homem conversar comigo no final da madrugada para depois despedi-lo e levar apenas o número do telefone. O melhor seria conhecê-lo cedo, no início da festa, ficar com ele a maior parte do tempo e depois namorá-lo em algum lugar privado, até o amanhecer. Ou, quem sabe, dormir com ele na sua própria casa, acordar e beijá-lo muitas vezes. Sair de uma festa sozinha significa um fracasso. Você me disse que dias depois o encontrou para um negócio, algo profissional, e que ganhou um bom dinheiro, as tais fotos que você fez como modelo para uma grife famosa. Ótimo. Mas quando se sai para diversão, não se deve pensar em trabalho, e sim em prazer. Às vezes é possível unir as duas pontas, não é mesmo? Mas é difícil. Um evento musical num lugar como Cabo Frio é o momento certo para se divertir. A cidade sempre está em clima de festa. A Carlinha foi criticada por muita gente, e até hoje falam nisso. Só porque no fim da noite foi à beira da praia para namorar um dos rapazes. E ficou nua. Mas ela estava certa, deve ter aproveitado bastante. Eu fui àquela comemoração. Carla esteve nos braços de três ou quatro homens, e não foi apenas para dançar, a roupa que usava, um vestidinho curtíssimo e transparente, também foi motivo de críticas por parte das garotas fofoqueiras. Ainda bem que ela nem ligou para o que falaram. E o mais importante: continua a mesma. Não só os rapazes gostaram, mas, aposto, as garotas queriam estar no lugar dela. Quando falam muito é porque sentem inveja. Eu, porém, não gosto de transar em lugar público, mas aí já é problema particular de quem gosta. Certa vez, acho que já faz dois anos e pouco, foi no mês de janeiro, viajei a Angra dos Reis. Ali, sim, tive muita sorte. Fiquei com um homem lindo. Não era um rapaz, não, mas um homem mesmo, devia ter seus quarenta anos. Disse que era engenheiro numa grande empresa de petróleo. Precisava ver como me tratou. Meu amor pra cá, meu amor pra lá... Além da festa, me levou a um restaurante lindíssimo. Depois, fomos ao barco dele. Tinha na verdade um iate, passamos a noite juntos. Nunca havia namorado num iate. Foi ótimo. Ele tirou toda a minha roupa e fizemos amor num dos camarotes. Não tive preocupação alguma. Pena que depois não continuei com ele. Propôs que morássemos juntos. Mas achei cedo. Tenho o meu emprego, e é um bom emprego, você sabe. Ele queria, porém, que eu me demitisse para casar com ele. Não achei aquilo bom, temi que mais tarde não desse certo. Mas não sei, às vezes me arrependo das minhas decisões. Sou muito pele, todos percebem isso, quero (deixa falar baixinho) gozar muito, não penso em muitas responsabilidades. Também não me apetece ficar na dependência de um homem. E se eu sentir desejo por outro? Você me entende; quando a gente tem por fim o prazer, não conta muito a pessoa a quem se está ligada. Já tive quase todas as experiências, muitas delas já contei a você. Só não tive a que viveu a Carlinha. Amanhecer nua numa praia, nunca aconteceu comigo. Também conheci vários tipos de homem. Mas acho que ultimamente estou sem sorte. Acabar uma festa e ter de voltar sozinha pra casa é muito azar, não acha? Sou muito bonita, me cuido, vou ficar bonita sempre, tenho certeza, penso que mereço o melhor, mas não se deve exigir demais. Por isso é que digo: se me aparecesse um homem como esse de quem você acabou de falar, eu não ia, pelo menos a princípio, tratar de assuntos profissionais.

domingo, abril 29, 2012

Silêncio do amor

Gosto muito de tranquilidade. Nada melhor do que uma casa onde reina a paz e o silêncio, onde se possa apreciar a beleza da decoração, dos quadros, onde seja possível repousar sobre estofados, experimentar um ou dois livros numa poltrona confortável. É tudo de que preciso. Caso se ouça algum ruído, é o rumor do mundo lá fora, que arranha em desarmonia.

Tive um homem que também adorava a vida silenciosa. Em nosso amor, não havia ruídos. Entendíamos um ao outro através de sorrisos e olhares. Concordávamos com aquele verso de Bandeira: “os corpos se entendem, as almas não”. Se elas, as almas, não se entendem, para que tanta conversa? Vivíamos numa cumplicidade muda, envoltos em atitudes de nossos corpos. Atitudes compostas, na maioria das vezes, de carícias. Palavras, muito poucas, só o essencial. Fomos felizes. Mas como na vida nada é para sempre, ele se foi. Definitivamente. Abati-me a princípio; depois, recuperei-me. Não deixei, no entanto, de amar a vida silenciosa.

Um dia desses saí para dar uma volta na orla da lagoa Rodrigo de Freitas. Num trecho, onde muitos caminhavam, observei um homem. Ele também se pôs a me apreciar. Continuei a marcha. Não demorei a chegar ao parque da Catacumba, que era o meu destino. O homem me seguiu. Quando vou a passos módicos, ali perto dos patinhos de aluguel, ele me aborda. Ou melhor, não foi uma abordagem comum, mas quase um desembarque. Como aquele na Normandia. Fiz sinal que concordava com sua companhia, mas que permanecesse em silêncio. Não se ofendeu, continuou ao meu lado. Sorriu. Quando fez menção de falar, cobri seus lábios com o indicador, tomei o homem pelo braço e passamos a caminhar juntos.

Você é surda?, foi a pergunta natural que ele podia fazer. Chegou até a ensaiar alguns gestos, uma espécie de mímica.

Fiz que não com uma das mãos.

Depois de uma volta inteira, paramos para descansar. Sentei num banco e lhe fiz sinal de quem pede um lápis. Não tinha. Corri até o quiosque mais próximo e voltei com o bilhete pronto. Caso quisesse, poderia permanecer ao meu lado. Mas nenhum som de voz. Terminei escrevendo que ele parecia simpático, e não lhe escapava uma ponta de beleza. Leu com atenção e demorou a entender meus meneios literários.

Tomei-o mais uma vez pelo braço e continuamos a caminhada. Andamos mais vinte minutos.

Não entendo por que você não fala, suspirou no final.

Nada melhor do que a amizade em meio ao silêncio, saquei outro bilhete que já prepara no quiosque. Já sabia, pois, o que me aguardava.

Beijei-o e parti. Posso assegurar que foi um beijo quente.

Espere, como faço para ver você de novo?, ele quis saber.

Meneei os ombros e apontei a pista onde caminháramos.

No dia seguinte lá estava eu de novo na mesma orla da lagoa. Foi só passar pelo ponto onde o encontrara na véspera, que meu recente admirador já me aguardava.

Esqueci de dizer, seu nome é Sérgio. E para ele não pensar que sou muda, não escondi o meu. Mas falei apenas isso.

Tomei-o de novo por um dos braços e fomos nós. Uma volta inteira. Depois apontei as bicicletas da Bike Rio. Destravei uma e esperei por ele. Saímos os dois. Eu ia à frente. Entrei pelo jardim de Alá e escapuli para a orla marítima: Leblon, Ipanema, Arpoador, Copacabana. Sérgio sempre atrás. Pedalávamos à velocidade moderada. Assim que chegamos ao Leme, desmontei e aguardei por ele. Recostamos as bicicletas. Abracei Sérgio, puxei seu pescoço e lhe dei um beijo na boca. Beijo demorado. Ele me apertou contra o seu corpo.

Ficamos ali uns vinte minutos. Depois subimos nas bikes e retornamos ao Leblon. Deixamos as bicicletas na estação da João Lira. Caminhamos então lado a lado até o final da praia. Abracei-o mais uma vez, beijei-o longamente e parti.

Fiquei uma semana inteira sem sair de casa. Li Vício Inerente, de Thomas Pynchon. Também aproveitei para escrever o conto "Filme", que postei alguns dias atrás.

Por falar em Pynchon, trata-se de um escritor muito interessante. O livro que menciono é bastante extenso, como a maioria dos seus outros livros. A história é ambientada numa Los Angeles pós-psicodélica, assim se costuma dizer. A vida livre dos hippies está em declínio. O protagonista, que vivera toda a liberdade daqueles anos, precisa trabalhar. Mas o seu trabalho é ser um confuso detetive particular. Ele precisa da polícia e também acaba por auxiliá-la nas investigações de alguns crimes. Há muita praia, maconha, amor livre e surfistas que esperam ondas gigantescas. A principal cidade do oeste americano é multicultural, com pessoas de todas as partes do mundo. E também é muito musical. Deixei-me levar pela leitura envolvente, (vício inerente!) e só saí de casa na quarta da semana seguinte.

Ao iniciar a marcha na orla da lagoa, sinto alguém me apertar o braço esquerdo. Olho sobressaltada e me deparo com Sérgio. Diz de um jato que me procurou desesperadamente todos os dias em que não apareci. Pensou até que eu tivesse morrido. Pusemo-nos a caminhar. Eu, mergulhada no costumeiro silêncio. Andamos bastante, pedalamos também. Quando fiz menção de ir embora após beijá-lo, ele me segurou firme e falou:

Quero saber onde você mora. Com todo esse silêncio, não dá para confiar.

Continuou agarrado a mim. Fomos então até o prédio onde moro, no final do Leblon. Passamos pela portaria e entramos no elevador. Saltamos no quinto andar. Abri a porta do apartamento e fiz um longo e convidativo gesto. Que entrasse. Apontei o sofá. Depois, sempre no mais profundo silêncio, pedi que esperasse. Fui ao meu quarto por uns instantes.

Quando voltei, ele estava ainda sentado no mesmo lugar. Prestava atenção nos quadros, nos móveis até que... Sobressaltou-se quando me viu!

Eu era um nu de Mondigliani, ou mesmo de Picasso, na parede de museu famoso. Fiquei estática a observar a expressão de Sérgio. Foram longos os segundos. Duraram metade de todo o século 20 e mais o início do 21.

Depois? Deixei o meu corpo falar. Se o leitor não entende, explico. Deixei o meu corpo nu falar.

quinta-feira, abril 26, 2012

Filme

Colocou o CD no computador para vermos o filme que ele próprio fizera sobre mim. Sempre gostou de me ver nua, por isso no filme apareço pelada. Para completar, converso com alguém que está do outro lado da tela do notebook. Tenho esse corpo de mulher mignon, corpo perfeito, admirado e adorado por todos, mas há um pequeno detalhe. Não sou mulher. Isso, contudo, não tira a graça. Faz as pessoas gostarem ainda mais de mim. Estou sentada, de pernas cruzadas. Depois desfaço a posição e deixo meu pênis pouco a pouco aparecer. Sei que todos são loucos para vê-lo. Não apenas os homens, mas muitas mulheres também. Tive um cliente que me levava para trepar com sua mulher. Morria de tesão ao me ver metendo nela. Pela frente e por trás. Mas deixemos essa história para outra hora. Seguro meu pênis e começo a me masturbar. Ele começa a crescer. Destoa das minhas curvas femininas e de meus seios volumosos. O que fazer? Há gosto para tudo. Meu papel é insistir até o gozo. Vocês sabem, para a maioria das travestis a masturbação através do pênis é penosa e demorada. O filme, porém, tem no roteiro que a masturbação deve desaguar na ejaculação. Isso mesmo, eu tenho que desaguar. E lá vou eu. Fricciono a mão ora devagar, ora veloz. Sorrio para o meu interlocutor e, a seguir, faço cara de mulher sensual. O meu pinto já vai grande. Durante alguns segundos deixo-o solto e em exibição. Logo depois escondo-o entre as pernas fazendo de conta que sou fêmea. Então afasto as coxas devagar e deixo que escape. Pego-o de novo com uma das mãos e continuo a fricção. Ah, não sei se vou conseguir. Já estou a suar.

Fale alguma coisa bem tesuda para mim, vai, peço à imagem fria do homem que há do outro lado.

Você vai vestir depois um vestido curtinho, bem justo ao corpo; e nada de calcinha; vamos sair para passear, mas você não pode deixar seu pinto escapulir por baixo da barra do vestido.

Como os homens gostam de deixar uma travesti nua... Gostam de vê-la com o pinto de fora, de não ter onde escondê-lo. Há homens que adoram abandonar travestis totalmente nuas em vias públicas, tarde da noite. Sentem verdadeiro prazer só em imaginar como elas fazem para sair dessa situação. Enquanto divago, continuo a me masturbar. Sinto-me mais excitada com o assunto, percebo que posso gozar caso continue com o pensamento nesse rumo. Meu interlocutor, do outro lado da tela, retoma sua fala.

Realizarei todos os seus desejos; vou levar você nua, tratar você como mulher, farei de conta que você tem xereca, vou chupar tua xereca até você gozar.

Sinto então que vem alguma coisa lá de dentro, meu pênis dá o sinal.

A voz masculina continua.

Se o teu pinto aparecer de repente no lugar da xereca, coloco ele na minha boca e faço você gozar. Assim, acho que será até melhor. Quando sair toda a porra, engulo; prometo que engulo.

Estou por um triz, o gozo cada vez mais próximo. Lambuzo a palma da mão direita com saliva e insisto em fricções cada vez mais rápidas.

Você se agacha e abre as pernas, deslizo minha mão sob teu bumbum, com a ponta de um dos dedos toco a extremidade do teu ânus; você treme forte, de prazer, acrescenta ele.

Ai, já não posso mais. A onda há de arrebentar na praia. Surfo inteira na ponta do meu pinto.

Não deixa cair no chão, não deixa, ele fala, ejacula no braço, na mão, vai, goza e depois molha a boca com tua porra quente.

A ejaculação salta forte, esguicha uma, duas vezes. Cumpro o seu pedido. Despejo todo o sêmen sobre o braço esquerdo. Pressiono a cabeça do meu pênis encostando-a no dorso da mão. Quero aproveitar minha porra até a última gota. Pego então com a ponta dos dedos uma parte do líquido pegajoso e introduzo na boca. Saboreio-o. Movimento os lábios. Permaneço sentada, as pernas entreabertas, o pênis à mostra. O homem continua falando:

Agora você vai ficar com vergonha, seu pênis está murchando, tente fazer que ele mantenha o volume.

Não sinto vergonha, digo; quanto à perda da ereção, não posso evitar; mas ainda tenho muito tesão; e continuo bem safadinha, veja.

Tomo na ponta de dois dedos mais um pouco da porra que ainda me resta sobre o braço e a enfio na boca. Mostro a língua para ele, junto os lábios e engulo tudo. No filme dá para ver minha garganta contraindo-se, o pomo de adão em movimento. Sorrio de satisfação. Quanto ao pênis, está pequeno. Aponto na direção dele com face de ingênua, escondo-o entre as pernas e, mais uma vez, faço de conta que sou mulher. Por fim, deixo que reapareça. Sei que do outro lado da tela meu admirador está apaixonadíssimo. Não exatamente por mim, mas por algo que está soltinho, bem entre às minhas pernas.

quinta-feira, abril 19, 2012

Informática

Quando vejo alguém que me agrada, não faço cerimônia, lanço um olhar sedutor. Quase sempre é infalível. Espero, enfim. Todos se aproximam. Alguns vagarosos; outros, tímidos supondo algum engano. Não decepciono. É você mesmo, como vai? Então, ouço a voz: conheço a senhorita, não? Ou: a senhorita me conhece de algum lugar. Isso mesmo, somos velhos amigos ou, quem sabe, amantes. Passeamos. Sentamos em alguma cafeteria. Tudo muito requintado. Tilintar de xícaras, porcelana. O líquido fumegante e escuro, um biscoito. Não são necessárias muitas palavras. Apenas sorrisos e olhares, reciprocidade. Meu novo homem acaba de se dar por vencido. Não te preocupes, temes a mim, uma mulher? As conversas não são muito alentadoras. A maioria não tem assunto. Artista algum deles? Não. Quase todos homens de negócio, talvez gerentes, ou mesmo financistas. Ah, tão bom tivesse à mão algum poeta. Mas estes são raros. Mais fácil encontrá-los nos livros. Dizem que de corpo presente são complicados, contraditórios. Estou a sair da cafeteria com o meu mais novo amante. Sim, amante. Não no sentido que as pessoas dão à palavra, mas com aquele que estou prestes a amar. Isso mesmo, não posso dizer que estou apaixonadíssima. Uma palavra a mais, um engano e ponho tudo a perder. A avenida Rio Branco ainda tem o sol às cinco da tarde num dia de julho. Entro, ele sempre ao meu lado, um edifício, ou mesmo um arranha-céu. Sou eu quem o guio. Vamos, faço-te uma surpresa. Subo ao seu lado as escadas rolantes. Sobrelojas e mais sobrelojas, boxes com produtos de informática. Não gosto muito da informática, mas tenho uma amiga que trabalha em um desses boxes. Atrás dela há um fundo falso, uma espécie de depósito para as mercadorias. Eu e ela devemos muitos favores uma à outra. Encosto no balcão, pisco um dos olhos. Ela já sabe a senha. O problema é este meu novo namorado. Ele pensa que vou aplicar-lhe um golpe. Vê, quero apenas estar a sós contigo; não te apraz? Ri o homem um tanto incrédulo. Nada teme, aqui é um lugar público e esta é a Lúcia. Entrem, diz Lúcia levantando a tampa de um dos cantos do balcão. Fiquem à vontade. Eu e ele deslizamos para trás da cortina. Entendeste o que desejo? Terás muito o que contar a teus amigos nas conversas de botequim. Mas assim tão de primeira?, surpreende-se. Pensas que deveria ser tu a tomar a iniciativa, não? Aprecio a mulher quando atirada, responde-me. Então, está feito. Sento-o numa cadeira, dessas dobráveis, de mesa de bar. Só há a cadeira e um cabideiro. Em uma das hastes está o casaco de Lúcia. Em um segundinho eis o meu vestido ao lado do casaco da minha amiga. Sou amazona sagaz, monto sobre meu alazão. Eu conduzo, sou boa no galope, deito minha voz lânguida no seu ouvido. Nada mais preciso dizer. Vou cada vez mais veloz. Quando o sinto à beira do abismo, poupo-lhe o salto. Quero-o inteiro até a explosão, leite a condensar-se na minha boca, a lambuzar meus lábios, a garganta a ferver... Se o encontro de novo? Quem sabe.

quinta-feira, abril 12, 2012

Faltam-te os peixes?

Querido amigo, eu de novo, mas não para te pedir que venhas me recolher nua, como o fizeste em madrugada recente. Mas para contar a ti nova artimanha, dessa vez deliciosa e bem sucedida. Meu namoradinho novo, outro, já não é o que me despiu na Lagoa, adora uma pescaria. Então combinamos a dita ida aos peixes. Mas não sabia eu que a praia onde, ao menos na cabeça turra desse homem, aportam os cardumes era tão distante. Quase uma viagem. Noite adentro e a praia nada de clarear nos faróis do automóvel. Ao chegarmos, eu a cochilar no banco ao lado. Mas entusiasmei-me ao ver o deslizar das espumas no topete das ondas, a sentir quente a brisa noturna. O namoradinho armou os apetrechos, fixou anzóis, iscas e molinetes. Mas faltaram vir os peixes. “Pescaria é uma espécie de loteria”, dele a profecia. E também as tantas pobres rimas. Lá pelas altas horas, entre caniços e linhas, segredei-lhe: “sou eu a sereia, já que te faltam os peixes, veio-te a rainha deles”, e corri para o mar. Pleonasmo dizer que mergulhei nua. Se já o fiz à luz do dia, por que temeria à sombra da lua? Ou melhor, nem lua havia. O homem espantou-se e afirmou: “com tua algazarra, há de afastar os peixes”. “Oh, se já andam tão afastados, talvez em costas d'África. Pesques a mim”, reafirmei, “assim não voltas de mãos a abanar”. Ele não entrou no mar. Mas deixou-me em paz a nadar. Lá pelas tantas, outro carro resolveu nas proximidades estacionar. José, o namoradinho, pôs-se da areia a agitar os braços, que saísse d'água porque estranhos havia nas proximidades. Não saí, nada tenho a temer. Mas ele lançou-se à obra e correu a mim com minhas roupas nas mãos. Resultado: além de lhe faltarem os peixes, mostrou-se o rei da trapalhada. Meu vestido ficou encharcado e, dali, as águas não mostrei a intenção de abandonar. Coitado do homem, tão desesperado. Tive de acalmá-lo, na surdina, “quieto, a nua sou eu, teu escândalo é capaz de pôr tudo a perder, volta à tua pescaria, finge que estás a sós.” Muito contrariado, foi segurar caniço e molinete. Saí d'água, ainda em pele, quando já quase raiava o dia. Corri e sentei no banco do carona. “Não te vais vestir?”, indagou-me já mais calmo. “Como? Por demais úmido todo o meu vestido”. “Vais nua, então?” Respondi-lhe amorosa, “veste-me a carroceria!” Quando chegamos a casa, louvei a falta dos peixes; afirmei convicta: “segura a mim, bem forte, não deixa em outras mãos escapar a tua sereia!”

Espero que tenhas gostado da aventura, assim que viver outra, narrar-te-ei. Sei que morres excitado ao resgatar-me em pelo. Não te faltará a oportunidade.
Beijos,
de tua Célia

quarta-feira, abril 04, 2012

Temporários

Quando abri aquele e-mail, exclamei a mim: não é possível! Um arquivo mostrava eu mesma inteiramente nua. Não precisei fazer esforço mental para me lembrar daquelas fotos. Um namorado de ocasião me fotografou quando estive no Rio, e isso já fazia algum tempo. Lá estava eu: de pé; sentada; de costas; com os braços ora sobre o ventre, ora sobre os seios. Em uma delas, eu estava em desalinho. Ele ameaçara me fotografar antes que eu fizesse a pose. Então, atabalhoada, tentei esconder minha nudez, rodopiei sem encontrar abrigo; as mãos soltas, num último esforço, convergem em vão na direção dos seios, fiquei um tanto cômica na foto. Mas, afinal, ao me mostrar ainda quando éramos namorados, acabei achando-a engraçada.

O problema todo surgiu porque abri o arquivo no computador de trabalho e, como se sabe, esse tipo de arquivo permanece gravado temporariamente em algum lugar do disco. Tentei descobrir o caminho que me levaria ao local onde tais arquivos ficam depositados, mas o acesso me foi negado. Restava recorrer ao pessoal da informática. Eu teria, porém, coragem para isso? O que deveria fazer?, pensei comigo. Optei pelo silêncio, ficaria quieta no meu canto. Quem sabe ninguém se desse ao trabalho de olhar arquivos temporários? Mas não se passaram nem três dias e um funcionário da informática veio falar comigo.

“Rita, quero mostrar uma coisa a você”, convidou-me para ir até sua sala. “Olhe o que encontramos?”

Depois de me ver mais uma vez nua, perguntei: “encontramos?”, minha surpresa era o plural.

“É, encontramos. Você sabe que se fosse apenas eu, resolveria, mas há outra pessoa nisso.”

Na verdade eu não confiava nele. A conversa visava me impressionar e permitir que ele, cujo nome era Josias, e o chefe alcançassem seus objetivos.

“Você sabe que isso dá demissão”, silenciou depois da última palavra.

“Basta que você, ou melhor, vocês, não passem adiante.”

“Essas coisas não são tão simples assim. A outra pessoa que está a par das fotos é o chefe da seção”, falou em tom sério, como se ele próprio nada tivesse com isso.

“Falo com ele”, afirmei convicta. “Ele vai compreender e acabará por deletar essas fotos.”

“Não acho que isso será fácil”, afirmou e desviou os olhos a um ponto indefinido, longe da tela do monitor.

“Onde está o Ivo?” Era o chefe da informática, um homem gordo, sempre descomposto, contínuo no ar de deboche.

“Não se encontra no momento.”

“Não? E quando volta?”

“Assim que voltar chamo você,” acabou de falar, virou as costas e se foi

Passaram-se mais ou menos duas horas, recebi uma mensagem do chefe da informática. Devia comparecer à sua sala.

Em resumo: apagaria o arquivo, mas não me sairia barato. Teria de trepar com ele e com Josias, o seu funcionário. O pior de tudo foi seu ar de escárnio e sua grosseria. Eu teria, ainda segundo ele, dois dias para lhe dar a resposta.

Saí furiosa da sala, não mais falei com ninguém naquela tarde e deixei o serviço antes da hora.

O primeiro dia transcorreu sem que eu desse resposta alguma. No segundo, exatamente às quinze para as cinco, faltando poucos minutos para o encerramento do expediente, fui à sala de Ivo.

“Como fazemos?”, tentei ser eu a debochada.

“Ah, a mocinha. Pensou direitinho?”, perguntou sorridente, mas não era sorriso de gente de bem.

“O que você acha?”, falei com o rosto inclinado, como se o achasse um lixo.“Primeiro quero apagar o arquivo, sei como funciona”, afirmei convicta.

“Apagar o arquivo?”, repetiu minhas palavras tentando imitar-me a pronúncia e caiu na gargalhada.

“Mesmo assim não sei se posso confiar em vocês dois, já o devem ter salvado em outro lugar.”

“Oh, a mocinha não confia em nós? Tenho esse aspecto gorducho, escrachado, mas tenho caráter. Meu funcionário também. Aqui na informática, sabemos de coisas que você nem imagina”, falou e me olhou nos olhos. “Caso não confie em nós dois”, nesse momento apontou para Josias, “é melhor pedir demissão”.

“Como vamos fazer?”, perguntei querendo resolver logo a questão.

“A senhorita não vai querer cumprir o trato aqui, não é mesmo?”

“Não sei. Só digo que não tenho muito tempo.”

“Aguarde alguns minutos após o expediente, vamos chamá-la assim que for possível, ok?”, agora, pode nos deixar sozinhos”, fez sinal para que eu saísse, permanecendo na sala ele e o seu funcionário.

Assim que todos saíram após as cinco horas, meu telefone tocou. Era Ivo de novo.

Ao voltar, os dois me esperavam. A primeira palavra que o chefe disse foi: “se quiser que o arquivo seja apagado, vá tirando a roupa. Pelo que entendi, você deixou em nossas mãos a decisão sobre o local.”

“Mas assim...”, deixei escapar.

“Quer que cantemos uma musiquinha para você se despir?”

Virei de costa. Tirei primeiro a blusa; depois, a calça comprida.

“Continue.”

Inteiramente nua, ainda permaneci de costas para eles. Percebi que um deles aproximou-se e recolheu toda a minha roupa. Eu a havia deixado numa poltrona ao lado.

“Vire de frente”, ordenou.

Virei, sempre o olhando de modo enviesado.

Primeiro tive de me agachar e abocanhar o pênis de Ivo. Quando abriu a calça, já estava praticamente enrijecido. O gorducho sentia tesão por mim. Pouco a pouco introduzi todo o seu sexo na minha boca. Passei a friccioná-lo com os lábios, apressadamente, fazendo-o diversas vezes desaparecer. Quando isso acontecia, eu olhava desdenhosa para seu rosto. Ao perceber que ele dava ares de que iria gozar, deslizei meus lábios quase permitindo que aquela ponta de músculo se soltasse da minha boca. Mas, num último instante, mantive-me atada; com a ponta dos lábios prendia-lhe a ponta do pênis.

“A mocinha entende da coisa”, falou através de um suspiro.

Depois agi do mesmo modo com Josias. Mas este tinha o sexo menor e mais estreito, o que me proporcionou mais conforto. Enquanto isso, Ivo nos olhava.

A seguir, foi minha vez de deitar para que novo ritual se realizasse. Novamente, o primeiro a se apresentar foi o chefe. Subiu sobre meu corpo tentando não me esmagar com seu peso de brutamontes; depois veio Josias, bem mais delicado.

No final de tudo aquilo, Ivo, sempre insaciável, ruminou:

“Acho que vamos deixar você em casa, mas peladinha.”

“Vocês querem namorar comigo, não é mesmo?”, acabei sugerindo e sorrindo.

“Acho que ela gostou da gente”, o chefe falou e olhou para o funcionário. “Sabe”, continuou, “não é má a ideia de namorar você”, concluiu.

“Vocês são tão ágeis”, ironizei sobre a trepada que deram, “será que são capazes de uma segunda vez?”

“Ouviu isso, Josias? Ela está querendo mais.”

“Estou mesmo, já que vocês me excitaram...”

Fiz que o chefe continuasse despido. Sentei-o numa das cadeiras, abri as pernas e montei sobre seu pênis. Rapidamente fiz que escorregasse para dentro de mim. Comecei então a me mexer, meus olhos sempre revirados e desdenhosos.

Depois que acabamos essa segunda rodada, Ivo me chamou ao computador.

“Venha cá, vou mostrar como isso funciona. Está vendo suas fotos aqui na tela? Veja onde estão arquivadas. Há dois arquivos, o temporário e mais outro, onde as guardamos. Delete você mesma.”

“O que garante que vocês não as copiaram e as guardaram em um disco externo?”

“Você não falou que queremos namorar você? Não vamos fazer uma coisa dessas com nossa namorada.”

Deletei os arquivos. Depois sentei numa das cadeiras, cruzei as pernas e olhei para eles.

Ivo acendeu um cigarro e me ofereceu: “depois do expediente não é proibido, fume.”

“Então, vamos?”, falou quando acabamos.”O expediente está encerrado”, decretou.

Levantei e os segui, ainda nua, fazendo-me de esquecida. Quando íamos quase saindo do escritório, ele, o chefe, sentenciou: “se não fosse pegar para nós três, até que seria bom ter você nua passeando com a gente, ia fazer o maior sucesso.”

“Se vocês me querem nua, quem sabe no carro?”, insinuei e sorri mais uma vez dissimudada.

Naquele momento ele não debochou, percebeu que me poderia ter por mais vezes.

“Você gostou da gente, não?”

“Gostei”, afirmei com convicção. “Nunca pensei em ter dois namorados, sair com os dois, trepar com os dois, e ter sempre os dois aos meus pés.”

Eles riram.

A partir daquele dia, tornei-me namorada de ambos. Passaram-se alguns meses prestei concurso público e pedi demissão da empresa. Ainda assim saímos mais algumas vezes. Depois, no entanto, fui transferida de cidade. Foi aí que desapareci, sem dizer nada a eles.

quarta-feira, março 28, 2012

Nem tocou no assunto

Margarida, escute o que aconteceu ao seu amigo alguns dias atrás; você que gosta de histórias, vai adorar.

Eu chegava à rua onde moro, eram mais ou menos três da manhã. Acabei de estacionar quando uma mulher se aproxima:

“Você pode me informar onde é o ponto do ônibus para a zona sul?”

“Fica na primeira transversal, basta descer esta rua e dobrar a direita que você o verá”, apontei a ela a direção.

Ela, porém, não se deu por satisfeita:

“Será que o local é perigoso?”

Olhei seu rosto. Era bonita e ia lá pelos trinta e poucos ou quarenta anos.

“Não, esse bairro é boêmio, sempre há gente na rua.”

Naquele momento, ouvimos um vozerio vindo da direção que eu lhe apontara.

“O que é isso?”, fez cara de preocupada.

“São pessoas se divertindo. A Lapa é aqui perto, sempre há música e festa.”

“Saí agora da casa de uma amiga, ela é idosa, sabe; se fosse mais jovem, pedia pra ficar até o amanhecer.”

“Moro aqui faz tempo, o local é muito seguro, nunca ouvi falar de problema algum.”

“Posso pedir a você mais um favor?”, continuou retendo-me sobre o passeio.

Olhei em volta, desconfiado. Será que a mulher armava algo contra mim? Sei que você dirá, Margarida: – és tolo, não vês que ela gostou de você? – Mas, naquele momento, achei a moeda grande demais.

“Pois não, se eu puder ajudar”, respondi curto, sem demonstrar facilidade.

“Será que me deixa ir ao toalete?”

O que eu deveria responder? Ela me acompanhou. Subimos o prédio. Saímos do elevador. Abri a porta do apartamento e fiz que entrasse à minha frente. Mostrei o banheiro.

“Agora você está mais distante do ponto de ônibus”, falei quando reapareceu no curto corredor que antecede a saleta, já havia ido ao toalete.

“É mesmo”, sorriu.

“Deseja mais alguma coisa?”

“Gostaria de beber um copo d’água.”

“Que tal água de coco? Tenho na geladeira”, ofereci.

“Ótimo, adoro.”

Sentou-se na poltrona de dois lugares e esperou pelo copo.

Após experimentar, completou: “uma delícia.”

Permaneceu uns minutinhos com o copo na mão direita, olhou-me e suspirou.

“Estou tão cansada.”

Sentei na cadeira em frente e esperei.

“Você ficaria aborrecido se me deixasse permanecer aqui até de manhã?”

Eu já esperava pela pergunta.

“Não fico aborrecido, não”, como já estava sem saída, completei: “se quiser, pode descansar na cama, é de casal.”

Pedi licença, fui ao quarto e me troquei. Ao voltar, ouvi sua voz de novo:

“Já que você me deixou ficar, será que teria uma camiseta pra emprestar.”

Só para provocar emprestei-lhe uma camiseta curta, mal lhe chegava às coxas. Mas ela tirou a roupa e vestiu a camiseta sem demonstrar vergonha alguma.

Foi minha vez de ir ao banheiro. Encontrei sua roupa dependurada no apoiador, que fica perto do boxe. Estavam lá todas as peças, inclusive calcinha e sutiã.

Quando voltei ao quarto, ela já dormia. Deitei ao seu lado e adormeci também.

Não me pergunte, Margarida, o que aconteceu entre nós. Você é uma mulher experiente, há de já saber o fim da história. Só mais um detalhe. Antes de dormir, escondi-lhe a calcinha.

Ao se despedir pela manhã, beijou-me e apenas falou: “obrigada, volto qualquer hora dessas, ok? Anotei o número do seu telefone.”

Sobre a calcinha, Margarida, nem tocou no assunto.

sexta-feira, março 23, 2012

Histórias

Quando leio aquelas histórias, fico a mil por hora. Não conheço a autora nem sei se ela sabe alguma coisa sobre mim, mas o conto que fala da morena que bate nua na porta do namorado sou eu direitinho, e é uma experiência que vivi na pele. Gosto e, ao mesmo tempo, resisto em lembrar. Como ele demorou a abrir...

Sempre ao ler o relato me deleito, volto no tempo e vivo as mesmas sensações.

Outra história que me excita é uma de carnaval. A mulher dança com um vestido solto e curtinho; está de short por baixo, mas logo resolve tirá-lo. Depois, deixa entrever o fio dental preto. Mais um tempinho vira de costas, levanta a roupa e mostra o bumbum. Então começa a tirar a calcinha. Quando volta a ficar de frente, coloca a mão na barra do vestido fazendo um falso jogo de esconde-esconde com sua nudez frontal.

Será que eu teria coragem de dançar assim, quase pelada? Só se fosse escondidinha, no fundo de um camarote. Mas a história não acaba aí. Ela trepa com um homem em pleno baile, à meia luz. Entro na sua pele. Na euforia dos beijos e amassos, ele guarda minha calcinha no bolso da bermuda. No final, depois do prazer proporcionado pelo sexo, apareço rebolando de novo, ainda nua, nem sinal do homem por perto. Quando o baile acabar, como vou fazer? Sinto outro arrepio. Se cheguei nua em casa alguma vez? Já cheguei e também já saí, mas não quero falar sobre isso agora.

Estou sentada no sofá, mas sem o vestidinho. Acaricio minhas pernas.

Outro episódio que faz meu coração ir aos saltos é o da mulher que vai se casar mas no dia do casamento, faltando quatro ou cinco horas para a cerimônia, deixa-se seduzir por um homem negro, faz amor com ele nas areias da praia, uma despedida de solteira. Eu, como não gosto de casamentos, adorei. A maioria dos homens passa a mulher para trás. Ela colocou chifres no futuro marido. Como o homem do baile de carnaval, este também a deixa nuinha. O final do conto não esclarece como a jovem fez para voltar para casa. Ou mesmo se chegou a casar. Tudo vai depender da imaginação do leitor.

Meu último namorado tentou me dar prazer de todas as maneiras. E conseguiu. Como me conhecia bem, narrava histórias que me provocavam muita excitação. Como eu gritava nos braços dele. Mas, um dia, terminei o namoro. O motivo? Não sei explicar direito. Pus na cabeça que me traiu. Mas ele nunca admitiu a traição.

Longe dele, sofri bastante. Mas, pouco a pouco, comecei de novo a ler histórias de encontros, sedução, arrepio, sexo. Imagino os homens sempre de pênis avantajado. Vivo a vida das personagens, seus gozos e temores. Enfim, já não estou sozinha, mas plena de possibilidades.

Afasto as pernas devagarzinho, minhas mãos subindo pelas coxas, eu nuinha no sofá...

sábado, março 17, 2012

Tanto tempo sem namorado

A água descia fria da cachoeira, envolvia o meu corpo e me deixava arrepiada.

“Está bom o banho, não? A água está gelada mas gostosa.”

A presença masculina assustou-me. Estava sozinha havia pouco e, de repente, um homem ao meu lado. Não resisti. Tive de pedir a ele: “Você me deixa sozinha um instante?”

“Algum problema?”, perguntou sorridente.

“Não é bem um problema, mas gostaria que me desse uns cinco minutos, depois pode voltar que converso com você.”

“Ok”, concordou e afastou-se alguns metros da margem onde eu me encontrava. Depois mergulhou e, vencendo a corredeira, apareceu junto à outra margem.

Eu queria sair d’água, correr até o local onde deixara minhas roupas e me vestir, mas percebi que não seria possível. Ele iria notar. Permaneci na correnteza, numa sombreada, desisti de subir a pedra. Quem sabe fosse melhor eu ficar por ali; depois que ele partisse, sairia d'água e me vestiria com tranquilidade.

“Gosta de água fria mesmo, não? Só não entendi essa vontade de solidão”, falou já de volta, juntinho a mim. Tinham passado os cinco minutinhos.

“É”, mantive-me monossilábica. Caso falasse demais, ele não iria mais embora.

“Na parte central forma uma banheira maior, lá está sol e a água é cristalina.”

Queria saber eu de água cristalina? Quanto mais escura a água, melhor.

Mas o homem me queria levar para o meio da correnteza.

“Não se preocupe, venho aqui quase sempre”, falou.

“Eu também, coincidência”, deixei escapar.

“Como nunca vi você?”, quis saber.

“Acho que nossas horas não combinam.”

“Só as horas, ainda bem”, gracejou.

“Vou dizer a verdade a você”, eu já não aguentava, ia no meu limite.

“Verdade? Será que vai dizer que me acha bonito?”

“Isso mesmo, até que você é bonitinho; se fôssemos mais jovens, já estávamos nos beijinhos”, falei para disfarçar o nervosismo.

“Mas somos jovens ainda”, afirmou um tanto contrariado.

“Somos, mas já não temos dezesseis anos. E há mais uma coisa que não cabe bem na minha idade.”

“O que é?”, curioso ele.

“Vou falar para você, mas promete que não vai me fazer mal algum?”

“Mal? Moro aqui perto, todos me conhecem, como posso fazer algum mal?”

“Então será mais fácil”, falei um tanto aliviada.

“Você vira de costa e só desvira quando eu mandar?”

“Por quê, vai fugir?”

“Não, prometo que não.”

“Então é o quê?”

“Sabe, quando entrei n’água, achei que não viria ninguém, você entende, não?”

“Não, não entendo”, falou, “você fala por enigmas.”

“Não é enigma algum”, tomei coragem, “é que estou pelada, entende?”

“Pelada?”, olhou para água como se tentasse ver meu corpo através da transparência do rio.

“Pelada, mas não olhe, por favor; você é um homem educado, não?”

“Sim, sou educado. Mas uma mulher pelada, acho que não resisto.”

“Calma, espere”, disse a ele. “Vou sair d’água e vestir o biquíni, depois a gente continua a conversa. Mas vira de costas, tá?”

“Você promete que não foge?”

“Não, não fujo, prometo”, falei alto.

Ele virou. Saí d’água. Depois apareci lá em cima da pedra, dentro do biquíni.

Foi a vez de ele falar: "Mas esse biquíni é tão pequeno, acho que você ainda está nua."

"Não estou, não, já estive mais."

"Venha cá, a água está gostosa", convidou-me.

Mas ao descer, numa quebrada do caminho, resolvi fugir. Corri para casa.

Dois dias depois o encontrei de novo. No mesmo lugar.

Trocamos olhares e novas palavras. Aceitei então seu convite para irmos à parte central, onde havia a tal banheira com água cristalina e mais o sol.

Não passou nem uma hora e já ia longe o nosso diálogo. Eram mãos que tocavam braços; eram pernas que se encontravam; coxas que se dobravam; ventres que se roçavam; sem contar os lábios, que havia muito se mantinham úmidos não apenas por causa da corredeira. Até que... aconteceu. Nem precisei tirar o biquíni.

Depois, cogitei: desde que ele me encontrou nuinha eu já estava querendo, o que fiz foi me deixar arder por mais dois dias, se arrependimento matasse... E eu, tanto tempo sem namorado.

quarta-feira, março 14, 2012

Depois daquele sonho

Não sou boa para contar histórias, principalmente quando a personagem principal sou eu, mas vou tentar. Sei que preciso falar sobre isso.

Certa vez, no trabalho, deixei escapar uma insatisfação. Disse o seguinte: “não sei aonde vai dar o meu casamento, fui com meu marido assistir a um jogo de futebol, logo eu que gosto tanto de ler, que aprecio ficar num lugar tranquilo, me vi numa arquibancada junto a milhares de pessoas, e torcendo pelo Flamengo.”

Um colega, que se chama Jairo, olhou para mim com cara de desentendido e depois sorriu. Vi uma ponta de malícia no seu sorriso. Continuou sentado, lia uma revista. Imediatamente pensei: não devia ter dito isso, não se deve falar da vida pessoal para pessoas desconhecidas. E é isso o que ele é, um desconhecido. Apenas trabalhamos juntos, falamos somente o necessário.

Dali para frente, passei a observar que ele começou a me olhar de modo diferente, acho que com mais interesse. Repara minhas roupas, meu rosto, os livros que carrego e tudo mais.

Num outro dia, encontrei com ele ao acaso. Eu estacionava o carro na rua que fica atrás da escola onde trabalhamos. Ele vinha andando pelo passeio e acenou para mim.

Sou casada há dezenove anos e quase todos conhecem o meu marido. Uma vez que é dentista e dono de uma clínica, possui muitos pacientes. Também tem um largo círculo de amizades. M. não é uma cidade grande quando se trata de pessoas que têm sua importância. E meu marido é uma delas. Sempre saímos juntos para ir a algum restaurante da orla nos fins de semana. Tenho duas filhas. A mais velha já ingressou na universidade, a caçula está no ensino médio. A irmã de meu marido casou-se com um homem que é da família de políticos locais, pessoas ricas, importantes. Uma delas já foi prefeito da cidade. Frequento festas aonde vai toda essas gente. Portanto, sentimental e materialmente não tenho do que reclamar.

Agora, me acontece isso. Dei pra sonhar que estou beijando na boca o meu colega de trabalho. Estou sempre sentada ao volante, na rua onde ele me encontrou e me acenou. Jairo abre a porta do meu carro, entra como se fosse o ato mais natural do mundo. Então, acontece algo surpreendente: eu lhe dou um beijo na boca e, depois do beijo, me vejo nua.  Ajo como se ele fosse o meu marido. No sonho, sou apaixonada por esse meu colega. Quando acordo, no entanto, sinto nojo de mim mesma.

Gosto muito de correr à beira-mar, percorro quatro quilômetros todo dia, também frequento academia para fazer outros exercícios. Li em algum lugar que, na Grécia antiga, os atletas se abstinham totalmente do sexo, era um modo de manterem o vigor para que dessem tudo de si nas Olimpíadas de então, até mesmo aconselhava-se que enquanto fossem atletas mantivessem a castidade. O que a história tem a ver comigo? Aconteceu-me de eu ter também sonhado sobre isso. Corria na orla marítima, uma competição. Apesar de ser casada, eu era virgem. Tinha me preparado intensamente para a corrida. Vinha disparada, estava em primeiro lugar. Quando faltam poucos metros para a chegada, adivinha quem se aproxima e me ameaça ultrapassar? Jairo, o meu colega de trabalho. Então, resolvo dar a última arrancada. Respiro fundo, fecho os olhos e acelero as passadas. Com grande dificuldade, consigo manter a dianteira. Mas a nove ou dez metros da faixa de chegada, sinto um arrepio e uma sensação estranhamente prazerosa.  Estou tendo um orgasmo. Um gozo como jamais senti. Já ouvi falar sobre mulheres que ejaculam, mas comigo nunca tinha acontecido. A sensação vai aumentando à medida que me aproximo da vitória e culmina no momento em que rompo a fita de chegada. No meio das pessoas que me aplaudem está o meu marido. Acordo encharcada de suor, entre as minhas pernas também estou muito molhada; no quarto, predomina aquele forte cheiro de sexo, que só as mulheres são capazes de exalar.

Sinceramente, não consigo entender o que está se passando comigo, por isso vim procurá-la. Foi uma amiga  quem indicou. Quem sabe, você possa me ajudar.

sábado, março 10, 2012

Adoro puxar esse teu fecho

“Zilda, adoro puxar esse teu fecho.”

“Gosto mais ainda, meu amor, quando você me deixa nua.”

“Você pensa em tudo, traz até lençol e almofada nessa sua mochila para forrar e acolchoar melhor o nosso amor.”

“Não esqueço nadinha, e gosto desse escurinho do anoitecer, da praia deserta e de você a me fazer carinho.”

“Gosto, tanto mais, de você nuinha, com suas duas tranças, uma de cada lado.”

“Vem, Carlos, sobe sobre o meu corpo, quero hoje ter mil orgasmos!”

Toda quarta, sábado e domingo, já fica combinado, não precisamos de telefones nem de computador, Carlos vem me pegar em casa. Então, vamos passear. Caminhamos pela orla e, na maioria das vezes, acabamos agarradinhos um ao outro na Praia do Pecado. Tenho um vestido, desses que estão na moda, tem fecho que vai de cima a baixo, gosto de vesti-lo, e gosto mais que Carlos puxe o fecho.

“Lamba, morda e beije meus seios”, sempre peço enquanto ouço o marulhar.

Carlos não me decepciona.

Nem mesmo temo o vento. Numa noite recente estava escuro e voava tudo à nossa volta. Preocupada, sussurrei no seu ouvido: “Carlos, ponha uma pedra sobre o meu vestido, não vou voltar para casa enrolada no lençol.”

Meu namorado às vezes me diz: “eu te amo tanto, um dia vou me casar contigo.” Mas, aí, eu tenho de dar um desconto, não posso acreditar em tudo que Carlos diz.

Outro dia, ao amanhecer, estava longe, perdida nos meus pensamentos, meu namorado sempre na minha lembrança.

Tomara que logo chegue o sábado. Carlos virá, e juntos vamos passear. A maioria das mulheres sabe o que é morar sozinha e ficar à espera do dia da semana em que virá seu namorado...

sábado, março 03, 2012

Aloirada

Um amigo contou-me que andava por uma rua do centro da cidade quando passou uma mulher aloirada junto a ele. Ela ia de olhos baixos e com a expressão de quem nada deseja. Uma vez que naquele momento ele precisou desviar de outra pessoa que lhe obstruía o caminho, preocupou-se em não esbarrar na mulher, mas ela não afastou o corpo, deixou que roçassem nele os cabelos aloirados. Meu amigo reparou que ela era entrada em anos, porém tinha certa beleza. Seguiu-a.

“Eu temi ser preso”, disse-me.

“Preso, por quê?”

“Ora, você não sabe? Seguir alguém nos dias de hoje é perigoso. É capaz de a mulher pensar que sou um ladrão e chamar a polícia.”

“Mas não acabaste de dizer que ela mostrou-te oferecida?”

“Eu podia estar enganado, mas preocupei-me.”

“Parece-me tola a preocupação. Toda mulher gosta de ser admirada e, se possível, seguida. Dirá às amigas: um homem seguiu-me hoje à tarde, e todas desejarão saber como era ele.”

“Creio que você tem razão. De início fui a seu encalço às escondidas, temeroso. Mais adiante, num cruzamento, enquanto esperávamos para atravessar, ela deu pela minha presença. Olhei-a de relance e pude perceber um ligeiro sorrido de regozijo.”

“Regozijo? Bonita palavra...”

“Isso, regozijo. Ela continuou. Creio que colocou aos pés ainda uma maior fúria. Continuei atrás, indeciso se insistia ou não.”

“Se ela não entrou em algum lugar público, nem procurou abrigo, é porque gostou da perseguição.”

“Escute, foi um tanto cômica a situação. Coloquei-me dez metros atrás dela. De repente, num lugar onde as pessoas iam esparsas, ela virou-se e disse: ‘Se você vai me roubar chamo antes a polícia.’ ‘Não se trata disso’, falei de imediato, quase levantei os braços como se o ameaçado fosse eu, ‘se há algo que eu possa roubar, é seu coração’. Ela sorriu, abaixou os olhos, a cabeça e levou uma das mãos ao rosto. Interpretei como sinal de vitória.”

“E depois?”, eu quis saber.

“Depois? Bem, depois é difícil contar, mas vou tentar. Caminhamos lado a lado. Então ela me perguntou: ‘vai roubar meu coração? Para onde vai levá-lo?’. Disse a ela: ‘vamos ver’, continuei: ‘para onde você está indo?’. Retrucou: ‘você não respondeu minha pergunta’. Voltei à pergunta, ‘bem, vou levá-lo a um lugar onde possa acariciá-lo sem que ninguém incomode’. ‘Agora respondo a você’, ela falou, ‘pode levá-lo, mas leve-me junto’.”

“E para onde vocês foram?”

“Ah, Margarida, ali nas imediações não havia lugar em que pudéssemos ficar a sós. Chamei por um táxi. Embarcamos e saltamos na Glória.”

“Corajosa ela, embarcou na primeira.”

“Isso; comecei eu a temer.”

“Temer o quê?”

“Que fosse ela integrante de uma quadrilha.”

“Mas não eras tu que estavas a segui-la?”

“Era, mais a facilidade foi tanta que...”

“Qual quadrilha ela pertencia?”

“A quadrilha de mil amores.”

“Logo vi, não tinhas o que temer.”

“Entregou-se plena. Pediu que a despisse. Beijou-me como nenhuma outra. Rodopiou por sobre todo o meu corpo. Quase morremos de mil amores.”

“Aproveitaste...”

“Disse-me ela: ‘não esperava estar nos braços de um homem às três da tarde’. ‘O que esperava às três da tarde?’ perguntei. ‘Ia a um banco pagar a conta telefônica’. Tive de rir do imprevisível. ‘Pague a conta do amor’. ‘Negativo’, retrucou, ‘no amor não existe conta, no amor só existe êxtase’. Ganhei mais do que a mulher, ganhei todas as tardes. Quando três horas depois nos despedimos, pedi-lhe a conta; queria pagá-la. Mas foi ela quem falou: ‘pagas a conta e ficas com meu número, negativo’. ‘Juro que não pensei nisso’, rebati. ‘Com juras ou sem juras, bastam os juros do atraso, pois amanhã há de ser outro dia. É melhor irmos embora. Se o acaso for a nosso favor, encontraremos de novo um ao outro’. Arremessou-me um beijou e desapareceu no entardecer que despencava sobre a cidade.”

“Despencava? Gostei da história, apreciei o estilo. Ela teve toda a razão.”

“Razão? Não compreendo...”

“Os homens nunca compreendem”, arremeti, “as mulheres preferem o sonho.”