A vida fora de casa é completamente outra. Foi isso que
Arlete pensou às duas da madrugada, numa estradinha lateral, que margeava o
quarteirão onde ficava a casa do homem com quem estava saindo. Dentro de casa
há o aconchego, chegou a refletir, há a privacidade. Pode-se, sim, sentir o
arrepio entre quatro paredes, a pele lisa, o sopro quente do verão vindo de uma
das janelas abertas, mas ao lado fora... Ela olhou o relógio. Sim, usava um
relógio. Apesar de tudo, tinha o pulso coberto. Trazia também a bolsa a
tiracolo, e ia sobre uma sandália baixa. Isso era outra coisa que a preocupava.
Por que não saíra de casa com uma das tantas sandálias de salto? Sempre gostava de mostrar-se elegante e, naquele momento, saltos altos
ajudariam muito. Dentro de casa houvera uma brincadeira. Do mesmo modo que se
portava na esquina de duas ruas desertas, também estacara numa posição sedutora, na confluência de duas paredes da sala. Mas estivera entre paredes,
apenas o seu homem a se encantar. Aliás, ela também encantara-se consigo, e
acontecera aquela sensação incontrolável. Lembrou-se das amigas e das festas.
Eles, os homens, adoram uma brincadeira depois que bebem, elas comentavam. Eles dizem uma mulher nua é adorável, e vocês encantam, apesar de tudo.
Apesar de quê?, ela agora se perguntava, pois não era mulher como as outras,
como as atrizes dos filmes, da TV? Uma mulher bonita jamais fica em
dificuldades, sempre haverá quem lhe estenda um manto bem cortado, um vestido
de desfile, e gostará de vê-la passear destemida. Arlete sabia que não é bom mostrar-se por inteira. Existe um jeito de disfarçar algo que poderia tornar-se
demais. Ereta, a bolsa, a sandália, tudo em harmonia. E já eram duas e quinze
da madrugada. Quem iria levá-la? Não se preocupe, dissera ele, tudo está
combinado em todos os detalhes. Mas não existe chance de algo dar errado?, ela
perguntara. Você quer que algo dê errado?, respondera ele com outra pergunta.
Não sei se a pessoa que vai parar e se aproximar será a do combinado, ela
temia. Não é sua função levantar essas questões, você ganhou para isso, está
lucrando, portanto cumpra o seu papel, a voz do homem soara uma ordem. Ela nada
mais dissera. O homem a conduzira de automóvel até a confluência das duas ruas e a fizera
saltar. Já passavam vinte minutos. Maria Rita. Ela, Arlete, lembrou-se de Maria
Rita. Maria Rita nada temia, gostava mesmo era de dinheiro. Caso o depósito
estivesse na conta, cumpria aquilo para que fora contratada. E boca fechada.
Existe um jeitinho, um disfarce, algo que é do seu próprio corpo, ela, Maria
Rita, afirmara, ninguém nota, e as mulheres adoram andar nuas, ainda acrescentara.
Nunca nada de mal lhe acontecera, nem no dia que fora descoberta com aquele
tecido vazado, que se usa em meias arrastão, tecido que lhe contornava o corpo inteiro, pernas,
tronco, braços e pescoço, tudo traçado pela renda preta transparente. Maria Rita nada
comentou, apenas contabilizou o ganho e dormiu tranquila, sabia que tudo se
resolveria. Mas Arlete não era Maria Rita, e alguma preocupação não lhe deixava
sossegada. Até que veio o táxi, parou e piscou os faróis. Por que não se aproximava?,
bastaria abrir a porta e entrar. Ter que caminhar mais vinte metros... Ou o
motorista queria vê-la desfilar. Isso, devia gostar de ver uma mulher
desfilando. E tanto mais nua! Será que tinha certeza de que ela era uma mulher
mesmo? Há muitas pessoas fofoqueiras por aí. De vestido, diria que apontava, o
corte, uma inovação. Mas só a pele e tudo por um triz, ainda tendo de fazer
movimentos... Ah, outra coisa, não podia transpirar. A transpiração colocaria
tudo a perder. O líquido que serve como adesivo é do próprio corpo, um segredo
que Maria Rita lhe revelara. Mas o líquido não pode entrar em conflito com outras
secreções. Ainda havia aquela história do namorado que esfregou um creme ao redor das duas coxas de Arlete. Esse creme vai lhe provocar, e muito. E provocou, provocou
uma... Não, isso não, mas neutralizou o adesivo por boas doze horas. Amanhã
tenho um desfile, Arlete pensou, nada de cremes, tenho que estar perfeita, as
impropriedades bem escondidas, ou disfarçadas, como sempre. Por que os homens gostam de nos colocar em perigo?, falou a si quando percebeu cintilâncias.
Estrelas também tremeluzem abaixo das nuvens. Correu e entrou no táxi. Após
sentar-se, sentiu umidade no acento. O creme? Arlete suspirou pela renda arrastão de Maria Rita.
quarta-feira, agosto 27, 2014
sábado, agosto 23, 2014
E que incêndio!
É bom saber pensar e brigar. Não se pode ficar apenas no
pensamento e no desejo. Ganhar cinco mil reais me vai ajudar muito a resolver
alguns problemas. Se o que preciso comprar se pode chamar de problemas. Vi,
na praia, a garota. Devia ter entre os vinte e vinte e cinco anos, quem sabe
mais um pouquinho. Ela vinha com a mochila às costas e... de biquíni. Não
caminhava na areia, rente à beira-mar, mas no calçadão. Ou na rua, não sei bem.
Acho que era domingo e ela andava na rua. Um meio certo de arranjar namorado,
caminhar de biquíni na rua. Mas será que era isso o que ela desejava? Não sei, pode
ser que não. Tenho certeza de que ela ia de biquíni, calçava tênis, e a mochila
às costas. Isso me deu uma tremenda ideia. Sempre há aqueles que querem
sensações mais intensas, e eu conheci um desses. Um senhor agradável, simpático
e generoso. Gostou de mim à primeira vista. Foi num dia desses, de céu nublado,
quando se sai à tardinha em busca da última nesga de claridade e do sopro fresco
que vem do mar. Parei num quiosque, na orla de Copacabana. Queria água mineral.
Ele já estava lá, vestia calça comprida, uma camisa com a bandeirinha da França
no peito e sorria. À mesa, um coco; já havia terminado de saborear a água.
Sente aqui. O convite, dele. Aceitei, sentei e tomei toda a garrafinha de água
mineral. Conversamos. Uma conversa vazia, dessas que se estabelecem entre duas
pessoas recém-conhecidas. Depois que fui embora, esqueci-me do homem. Mas já no
dia seguinte o encontrei de novo. Dessa vez, de bermuda, mais informal. E o
encontrei também no domingo. Foi nesse dia que vi a moça de biquíni e mochila
às costas. Ele me convidou ao cinema. Vamos ver um filme logo mais, pode ser um besteirol,
apenas para espairecer. E lá fomos. Gentil o homem, pagou o cinema, o lanche. O
filme? Não importa. Como ele dissera, um besteirol. Ficou com o meu número. Não
custou a me convidar para jantar. À noite as coisas são mais sérias. Não sei de
quem a frase. Mas o homem seguiu-a à risca. Levou-me a uma cantina, ali na
Fernando Mendes. Boa a comida. Tomamos vinho. Escolhido por ele. Tudo sob
medida. Depois de tanto, o que me restava? Acabei no seu apartamento. Bonito, o homem, para quem já passa dos sessenta; um bom amante, apesar dos
sessenta. Nada comentamos sobre nossas diferenças, incluindo aí a idade. No
final, o homem perguntou se eu tinha conta em algum banco. Sabe como é, vivo
sozinho, não se sabe o dia de amanhã. Sorri. Voltei a casa, enlevada. Ganhara
eu na loteria? Seria verdade o que eu ouvira, ou ele mentia? Na semana
seguinte, deixei por escrito o número de uma conta de poupança que havia muito
esquecida. Até fora ao banco para saber se ainda existia. Sim. Existia. E o banco
estava pronto para acolher a parte do seu lucro. O homem depositou. Numa
primeira vez, um dinheirinho. Passaram-se alguns dias, dobrou (ou triplicou?) a quantia. Apareceram
dois mil. Não sou mercenária. Não arranjo namorado para ganhar dinheiro. Mas já
que surgiu, aproveitemos... E o homem é um conquistador nato. Fala como se sonhasse,
e logo o sonho torna-se realidade. Outro dia contou sobre umas fantasias,
coisas que a princípio pensei que viu no cinema. Depois, porém, achei que ele
mesmo pudesse ter inventado. Então, como sou sempre presenteada, não posso
deixar escapar o homem. E acho que agora até mesmo o amo. Não há quem não ame
uma bolsa plena de notas de cem acompanhada de um sorriso lisonjeiro. Não é
minha a frase, mas de uma diarista, e acho que não falou com essas palavras.
Mas a ideia é a mesma. E volto às fantasias do homem. Primeiro, amarrou-me nua
a uma cadeira. Amarrada e com a boca lacrada por um largo esparadrapo. No dia
que se seguiu, dois e quinhentos a mais na minha conta. E muitos beijos,
carícias, e nada de ejaculação precoce (ele sabe namorar). Hoje, talvez mais do
que amarrada, ou muito solta, não sei bem, eis-me nua, a bater à sua porta. A
condição para ganhar os cinco mil: preciso estar nua por inteiro, batendo à sua
porta. Não só vir e bater. Tenho de partir também nua. Então, o plano. A tal
moça de biquíni com a mochila às costas. Eu, nua, com a mochila às costas.
Agora, falta-me o desfecho. Escondê-la, a mochila. Nua, entro; nua, amo-o; nua,
vou-me. E a mochila... Ah, a caixa de incêndio. E que incêndio!
segunda-feira, agosto 18, 2014
Pergunta de adolescente
Você ainda com essas perguntas de adolescente, ele disse. Eu
estava de pé, em frente à sua porta. Olhei para o homem, com ligeiro sorriso.
Ele me observava, embora não se voltasse direto ao meu corpo. A pergunta era se
queria ir comigo à festa de uma amiga. Pergunta de adolescente? Não devia
convidá-lo, refleti, com tanta gente querendo a minha companhia. Ele tem vinte
anos a mais do que eu e a festa, segundo o entendimento dele, era para jovens. Sua
presença destoaria da maior parte das pessoas. Ainda tentei explicar que também
haveria gente mais velha, mais madura, quero dizer. Provavelmente são os pais
de algumas das meninas, completou. Entre, convidou-me e abriu um pouco mais a
porta. Vamos conversar um pouco, acrescentou. Na verdade, ele temia que algum
vizinho me descobrisse à porta. Eu vestia apenas uma camiseta, que me descia até
as coxas.
Esse vizinho já de alguns meses conversa comigo sobre livros.
É só me ver lendo alguma coisa que começa a relatar os autores que admira. Em
alguns pontos, o homem acha que sou muito madura; em outros, diz que me comporto
ainda como adolescente, sobretudo quando o convido para alguma saída noturna.
Certa vez chamei-o para ver Thor, o último filme escrito a partir de uma
história em quadrinhos. Mas esse tipo de filme é para adolescentes, afirmou.
Quis contra-argumentar, o que tem ser um filme para adolescentes?, se a gente
gosta... Mas o meu vizinho não gosta de se ver rodeado por moças e
rapazes, colegiais, como ele diz. Fui ao cinema sozinha. Arranjei um admirador
com quem acabei ficando mais de duas semanas. E rolou bons momentos. Mas meu
vizinho me veio oferecer Em busca do
tempo perdido.
Li o primeiro volume. Dias depois bati à sua porta com a
intenção de conversar sobre o livro. Ficamos duas horas discutindo. Ele falava
e olhava para as minhas pernas. No final, ofereceu o segundo volume.
Na semana seguinte fui eu que me ofereci a ele. Com o
pretexto de continuar conversando sobre Proust, voltei ao apartamento. Não
passou muito tempo e eu já estava nos braços do homem. Quando acabamos, não me
vesti. Sentei pelada no sofá e continuei a conversa, com a maior naturalidade.
Esse Swann não era muito esperto, ressaltei, fazer tanto por uma mulher e, apesar de ela ser uma prostituta, ele a tratava como uma dama de respeito. Meu vizinho contestou, não
se tratava de considerá-la prostituta, eram os costumes da época, e em meio à
nobreza ainda remanescente era assim que se vivia. Tudo bem, rebati ainda
sentadinha e de pernas cruzadas, mas acho que havia outras mulheres, ele não
precisava ter se submetido tanto. O homem ofereceu-me um refrigerante. Aceitei.
Depois trouxe um doce, sobremesa feita pela diarista durante à tarde. Comi de
bom grado. No final, levantei-me, beijei-o em sinal de despedida, abri a porta
e saí. Ei, espere, falou. Mas eu já entrava na porta em frente, a porta do meu
apartamento. Lancei-lhe mais um beijinho e fechei.
No dia seguinte, à mesma hora, dez da noite, bati de novo à
sua porta. Você?, pareceu surpreso, já acabou o livro?. Não, não vim falar sobre
livros, acho que esqueci alguma coisa aqui ontem, não? Ele foi lá dentro
buscar minha camiseta. Você ainda está agindo como uma adolescente, falou ao devolvê-la.
Vai dizer que não gostou? retruquei baixinho e sorri fingindo inocência. Percebi,
então, que ele tinha companhia. Não demorou a fechar a porta.
quinta-feira, agosto 14, 2014
Você gosta de fantasia
Você gosta de fantasia, não é mesmo? Mas venha devagar,
vamos nos concentrar, poucos os movimentos, ou mesmo nenhum, apenas você
pulsando dentro de mim. Isso, assim, vou por cima, sento, que tal nós dois paradinhos?,
eu mordisco; você me infla, ok? Ouça. Lembra a brincadeira. Você me quis pelada
lá fora, na estrada. Avisei. Se ele me encontra vai ser um banquete, ó, não escapo, você vai dançar, pois o homem é tarado por mim. Ele sempre me olhou de soslaio e, imagine, quando eu dava as costas ele me comia com os olhos. Era por causa da
minha bunda. Isso, você está pulsando direitinho, e eu, mordiscando, apenas
esses movimentos sutis, vamos tentar gozar assim; quanto mais demorarmos, tanto
melhor. Escuta. Então, ele me encontrou. A tal brincadeira; eu, pelada dentro
da noite. Tentei me esconder, mas ele me viu. Vinha dirigindo o primeiro carro
da madrugada. Acho que demorei a me abaixar. O homem reparou o vulto, freou e
desceu para conferir. Se fosse um ladrão?, perguntei depois; era um vulto de
mulher, afirmou. Mulher também pode ser perigosa, rebati. Ele disse estou
acostumado. Eu, na frente dele, na lateral do carro, a blusa tão curtinha, do
umbigo pra baixo tudo de fora, ideia tua, lembra?, levaste o restante contigo,
e demoraste, não foi?, o homem ali, me comendo com os olhos. O que houve?, ele
quis saber. Não é momento pra perguntas, eu contradisse. Como você vai fazer
pra voltar pra casa assim, nua?, ele. Será que penso em voltar?,
respondi. Você está pelada para mim?, o
tal motorista duvidava. Quem sabe, retruquei. Mas ele não sabe pulsar, assim
como você. Quanto a mim, nem tempo tive de mordiscar. O homem era bruto, quero
dizer, é bruto. Me segurou pelos ombros, foi descendo as mãos, e ainda me
deixou sem a pequena blusa. Lançou minha única roupa mato adentro, para além do
acostamento da rodovia. Como me apertou. Espera, não deve ser assim, falei. Não
tenho muito tempo, estou a trabalho, ele disse, e logo vão notar o veículo no
acostamento, vão querer saber o que aconteceu, tenho hora, na empresa tudo é
cronometrado. Mas não estou aqui pra isso, ressaltei. Como, não? Você aparece
nua na minha frente e agora vai fugir, insistiu. Quem sabe, posso estar aqui
apenas para provocar, lancei a questão. Eu queria ganhar tempo. Provocar?,
duvidou, uma mulher nua além de provocar quer algo mais, finalizou. Então colocou
o pênis fora da calça. Eu quis me livrar, mas ele me segurava com força. Você
está acostumado a estuprar as mulheres, insinuei. Estuprar?, a palavra fez que
enfraquecesse a força das mãos. Confesso que eu podia ter corrido, escapado, mas
estava tão nua. Isso não é estupro, tentou se convencer, você sempre se mostrou
pra mim, me deu confiança, me deu até esperança de um encontro, e não esqueça
que apareceu nua em frente ao local onde sempre passo às cinco da manhã, todas
essas suas ações não aconteceram por acaso, argumentou. Trata-se de uma
brincadeira, falei, brincadeira do namorado, ele me deixou aqui nua mas volta
para me pegar, eu disse cerimoniosa. Brincadeira?, não se brinca com essas
coisas, falou alarmado, não é possível que você tenha um namorado que te deixa
nua por aí. Mas fui eu que dei a ideia, falei, tentava salvar a situação, não
queria que ele pensasse mal de você. Se foi tua a ideia, continuou com a
argumentação, é porque pensava em mim, queria que eu te encontrasse. Será?,
sorri depois da interrogação. Lógico que sim, acrescentou, já tive várias namoradas, e muitas agiram como você; a mais recente vivia no carro atrás de mim, não saltava, esperava eu deixar o último passageiro pra ir comigo até a garagem; no caminho eu enfiava o carro num desses cantos da estrada e tirava a minissaia que ela usava pra me provocar, o pano não media um palmo, a pele já estava toda arrepiada, ela não demorava a se derramar em gozo. Ele, então, me apertou com força, puxou meu corpo
pra junto do seu, senti seu pênis entre minhas pernas. Espere, pedi, me leve pra
dentro do carro. Você quer no carro, repetiu, ok, vamos pro carro. Entramos,
me deitou num dos bancos, o carro todo escuro, assim como a noite. Aí
aconteceu. Foi tudo muito rápido, ele não demorou a gozar. Quanto a mim, saiba,
homens desse tipo não esperam pela mulher, não são como você, que agora pulsa
dentro de mim com mais intensidade enquanto te mordisco com a vagina, enquanto
conto toda a história. Vamos gozar os dois, juntos. Vamos explodir. E sei que
você não vai me levar a mal por ter estado nas mãos de outro, ou melhor, por ter dado pra outro. Você ainda quer que eu conte mais? Ele me deixou nua na
estrada, disse que tinha de ir, não podia se arriscar a perder o emprego, de
modo algum. Pediu que eu esperasse. Ligaria a um amigo, que me traria roupas.
Falei que podia ir, que não se preocupasse. Sei me virar sozinha, afirmei
segura. Sabe?, ainda ironizou. Então, partiu. Não sei se chamou alguém pelo
telefone. Aí você chegou, e me levou nua no carro, e já a manhã se anunciava. Gostou, não é mesmo?, está até a sentir maior o tesão! Agora goza, vai, despeja tudo dentro de mim, mas paradinho, viu, assim como eu, e aproveita, já estou soltinha...
quinta-feira, agosto 07, 2014
Você está tomando o momento de alegria
Você está tomando o momento de alegria, ele disse, e que
alegria!
Você acha mesmo?, perguntei, quem sabe, o meu forte é
representar.
Ajeitei a blusa, que me vinha até o umbigo. Verifiquei a
bolsa. Virei para a direita, depois para a esquerda, sorri mais uma vez. Estou
tomando o momento de alegria, repeti.
Eu chegara à casa dele às 7 da noite. Fazia calor, era
verão, tudo parecia transbordar, inclusive o nosso ardor. Ele me abraçou e me beijou. Olhou a minissaia que eu vestia. Sorriu.
Você está linda!, fez um longo gesto, como seu eu fosse uma
rainha.
Dei uns passinhos e me sentei na poltrona. Cruzei as pernas
e esperei por ele.
A casa estava arrumada, a janela aberta mostrava o mar ao
longe. Havia uma mesinha logo depois da poltrona e sobre ela um livro. Peguei-o
e comecei a folheá-lo. Era um romance de uma escritora americana.
Lendo romances, afirmei voltando os olhos a ele.
É para aprender a lidar com vários tipos de situações
amorosas.
Como a nossa, suspirei.
Isso, como a nossa.
Você está achando difícil?
Não, é um livro fácil.
Não falo do livro, mas da nossa relação.
Difícil, não, diferente.
Ele ficou parado junto ao braço da poltrona. Eu ainda
segurava o livro.
Lembrei que na praia ele às vezes ficava envergonhado, acho
que temia encontrar alguém que o visse ao meu lado.
Lembra a praia?, deixei escapar.
O que tem a praia?
Você sempre parece assustado. Já pensou, pode aparecer um
amigo seu, e você ao lado de um ou melhor, de uma... como devo dizer?
Nada disso, não concordo, até gostei, sabe; você é corajosa,
anda quase nua.
Nua?, você não sabe o que é andar nua.
Então, já que é você quem sabe, vou deixar você nua hoje...
Vai?, perguntei e me encolhi na poltrona, fiz de conta que
procurava uma proteção, mas sabia inexistente.
Vou!, fingia ser um lobo mal, abriu a boca como se fosse me comer
inteira.
Veja, mostrei a ele. Curta, a saia, não?
Já tinha reparado. Como você consegue?
Ah, isso é o que todos desejam saber. Acho que por isso é
que me namoram.
Todos descobrem que você vem apenas com essa sainha sobre a
pele?
Quase todos.
E o que eles fazem?
Querem me roubar a saia, afirmei e sorri.
Sério?, você acabou de me dar uma ótima ideia.
Se isso satisfaz você, tudo bem.
Ele me abraçou, e não demorou a me deixar nua.
No final, alta a madrugada, falou: vou fazer o que prometi.
O quê?, fiz-me de esquecida.
Você, nua...
Ri, num ligeiro arrepio. Vai sair um pouco mais caro,
retruquei.
Não ligo, pago.
E como vou esconder?
Ah, acho que você é muito boa nisso.
Desci no elevador de serviço. Lá embaixo, o táxi.
Moço, não repare, estendi-lhe a princípio uma nota de cem,
estou tomando o momento de alegria; o resto, resolvemos no caminho.
segunda-feira, julho 28, 2014
Carrossel
Estou nua. Era para estar morta de vergonha, mas algo me
acalma. Qualquer coisa de especial neste homem quase desconhecido me
deixa à vontade.
Nunca fiz isso por dinheiro, falo.
Mas são dois mil reais, responde.
O que faz você gastar tanto assim?, mostro curiosidade.
Não sei, é um costume que tenho faz tempo, e também tenho
muito dinheiro.
O primeiro encontro aconteceu num vagão do metrô. Eu entrara na estação Catete, ia para Ipanema. Vestia roupa de ginástica, calça colante ao corpo, uma camiseta do mesmo tecido e tênis apropriados para correr ou caminhar. No meu caso, era para a esteira. Reparei um homem olhando na minha direção. Como eu levava uma revista, tentei me prender à leitura. Mas ele não desgrudou os olhos. As estações foram se sucedendo, e ele continuava no seu afã de me espionar.
Sou uma mulher de quarenta e cinco anos. Devido ao
permanente exercício tanto ao ar livre como nas academias de musculação, tenho
o corpo bem delineado. Não sou, entretanto, uma mulher magra. Se não sou gorda,
é porque me exercito todo dia. A aparência, ao contrário, revela a minha
verdadeira idade. De um tempo para cá, me desliguei dos homens. Moro sozinha e
vivo para a ginástica. Fico feliz sempre que acabo de me superar, tendo feito os
exercícios programados. Alguém poderá perguntar como resolvo as questões
afetiva e sexual. Não tenho respostas para elas. Digo apenas que a ginástica me
basta. De resto trabalho, leio alguma coisa e uma vez na semana vou ao cinema.
Tenho duas ou três amigas, ocasionalmente nos reunimos para conversar.
Mas naquele vagão de metrô, me apareceu o homem das notas de
cem. Vamos apelidá-lo assim.
Quando eu me preparava para descer na última estação da Zona
Sul, percebi que ele me seguia. Uma vez que ando bastante rápido, tentei fazer
o máximo para deixá-lo para trás. O tal homem, porém, parecia colado ao meu
encalço. Consegui chegar ao prédio da academia. Entrei e disse cá com os meus
botões: estou salva, o homem ficou para trás.
Duas horas depois, ao deixar o local e caminhar de volta
para a estação General Osório, percebo novamente o homem. Ele me esperava. Como
alguém deve fazer para abordar uma desconhecida? Creio que ele é experiente nisso.
É também um exímio artista. É sabido que qualquer mulher não deve dar conversa
a homem algum, sobretudo na rua, onde a possibilidade de golpes é sempre alta.
Mas o homem acabou conseguindo uma resposta minha. Uma resposta negativa, é
claro. Mas estava estabelecido o diálogo. Para um mestre, aquela porta
escancarava todo o castelo. E o homem me envolveu na sua história. Acabei
parando para ouvi-lo. Tanto mais eu o recusava, mas ele avançava no seu
intento. Então veio a conversa de shoppings, de compras espetaculares, de
produtos que toda mulher deseja.
Não me troco por dinheiro, digo em algum momento.
Não se trata de dinheiro, mas do mundo contemporâneo. Quem
não deseja um amigo rico, alguém que lhe supra as necessidades?, pergunta.
Não tenho necessidade alguma, afirmo resoluta.
Como, não?, rebate. Todos as temos. É porque não gostamos
de pensar nessas coisas. Apenas olhamos os produtos de modo fetichista.
Fetichista?, assusto-me.
Então ele contrapôs uma longa história. Explica o significado da palavra.
Passa a me esperar na porta da academia todos os dias, após
a ginástica. Depois caminhamos juntos até a estação do metrô. Num certo
dia, passo a simpatizar com ele.
Traz alguns presentes. Não no segundo dia, mas na
segunda semana. Objetos de adorno como pequenos broches, ornamentos para
estante ou mesa de centro. Também me presenteia com perfumes e um livro, depois
de descobrir o meu gosto pela leitura.
Há pessoas que podem conquistar tudo o que quiserem, afirma.
Será?, duvido.
Verdade, sentencia.
Sem rodeios, diz que eu sou uma dessas pessoas.
Já quase sua amiga, marcamos encontro num shopping. Como o
homem é consumista! Nunca vi pessoa alguma entender de tantas coisas, tantas
lojas, tantos produtos. Desde vestuário, até objetos de decoração, passando por
joias, roupas e brinquedos.
Num sábado à tarde, vamos ao cinema. Depois, a um
restaurante.
Não, obrigada, não bebo bebidas alcoólicas, recuso amavelmente o convite para tomar um vinho. Mas aceito um suco.
Tomo o suco, e ele o vinho.
Acho que quem se embriaga sou eu. E logo com um suco de
abacaxi e hortelã...
quinta-feira, julho 24, 2014
Queres saber quem me levou para casa?
Viste as fotos? Foram tiradas ao entardecer, ao mesmo tempo em que fazias teu filme. Eu caminhava
sobre a areia da praia. Pouco gente àquela hora, pois é inverno.
Embora no Rio a temperatura quase sempre seja quente, nos meses de junho, julho e agosto ela se torna mais amena. Mesmo assim muitas pessoas continuam a frequentar a praia. E o entardecer é o período ideal. A maioria caminha pelo calçadão, ou
pedala na ciclovia, por isso a areia quase deserta, e mesmo
despercebida. Eu estava à beira d’água, depois caminhei até um guarda-sol
solitário, onde devia pousar por alguns instantes. Na verdade, caso eu desistisse ficaria no
prejuízo. Após ganhar algumas notas de cem, eu não podia fugir, não é mesmo? Meu dever era desfilar para ser filmada. Mas não se via quem empunhava a câmera, porque filmava de longe, não
queria chamar a atenção. Permaneci algum tempo sentada sob o abrigo.
Depois, devagarinho, tirei o top; a seguir, o biquíni. Um garoto me trouxe o pagamento, tão discreto ele, nem olhou para mim. Eu, nua, e ele com vergonha. Levantei e caminhei em
direção ao calçadão. Não era meu dever pensar em nada. Melhor a mente vazia, ou
a lembrança de alguma coisa distante, algo de outro lugar ou de outro tempo.
Pensa sobre um livro que tenhas lido, ou mesmo sobre um filme, assim será
mais fácil, aconselhou-me uma amiga. Meus passos, firmes. No começo,
os óculos escuros a cobrir-me parte do rosto. Sigo como se fosse a pessoa mais
séria do mundo. Vou até perto do calçadão. Faltam dez metros,
talvez doze, para o calçamento. Até ali estou incógnita, longe de algum
quiosque. Ainda bem, os quiosques atrapalham, sempre há alguns bebedores de
cerveja, sempre há quem olhe o mar. Não seria difícil descobrirem uma mulher nua. Não demorariam a dar o alarde, chamariam outros para ver. Fazer uma descoberta e nada dizer não tem graça. Dou as costas para a avenida e volto na direção do mar. Procuro o
guarda-sol, mas onde mesmo? Preciso manter a calma, fazer de conta que nem é comigo. Sei que estás ansioso,
talvez me perguntes, como vais fazer agora, nua e fora de rota? Calma, tudo há de se arranjar. Li em algum lugar que as
mulheres bonitas atraem boa sorte. Portanto, longe o desespero. O que há de mal na
nudez? Quem sabe haverá um admirador silencioso, fará uma foto e a guardará como lembrança, mostrará a mulher nua que encontrou na praia apenas ao amigo íntimo, recordação das férias que não mais voltarão. Vou à beira d’água. O marulhar chega ao meus pés. Tenho vontade de mergulhar, de vestir a capa transparente bordada de espumas, mas estou tão sequinha, bonita, o cabelo
tratado. Melhor o corpo liso, melhor a nudez. Onde um amigo? E não é que alguém
vem ao meu encontro? Uma mulher. Ri. Estende a mão. Está de biquíni. Um
biquíni mínimo, mas vestida. Ri mais uma vez. Você precisa de ajuda?,
pergunta. Não, digo com firmeza, estou ótima. Então tá. Vira-se e se vai. E eu a céu aberto, tão nua. Logo depois que a mulher desaparece, lembro das notas de cem, as notas que me mandaste pelo garoto. Sinto então o vento frio, um arrepio (ou uma carícia?), e o desejo das tuas mãos sobre a minha pele. Aí me vem uma cosquinha, bem lá no fundo, o dinheiro dobrado no saquinho plástico, guardadinho dentro de mim. Esse eu não posso perder. Viste mesmo as fotos? O que achaste? Apareceram na internet, quase ao vivo. São três; e nas três, eu nua. Na última, estou sem os óculos de sol. Não sei se posso negar que a mulher sem o top e o biquíni em Ipanema, ao
entardecer, sou eu. Queres saber como fiz depois? Ah, lembras? Mulher bonita atrai boa sorte. E que sorte! As mãos, sempre as mãos, como as tuas.
quarta-feira, julho 16, 2014
Descoberta nua
Também era bom que não viesse tantas vezes quantas queria: porque ela poderia se habituar à felicidade. Sim, porque em estado de graça se era muito feliz. Carlos, o marido, a estimulara à primeira vez. Vá, sim, no começo vais sentir um friozinho no estômago, mas com o passar do tempo te acabarás acostumando, depois desejarás sempre mais, é a verdadeira sensação de liberdade. E ele tinha razão. Na primeira vez, ao sair na noite escura de Glicério, o céu e as estrelas sobre sua cabeça, o vento morno do verão já maduro a roçar-lhe o corpo como amante atrevido, ela parou durante alguns instantes e pensou em desistir, em correr de volta para dentro da casa. Mas o rio, que corria logo atrás do quintal, a saudava com uma espécie de voz suave, música sibilante ao saltar um obstáculo ou de tom mais grave ao dedilhar o limo das rochas milenares que lhe aparavam o caminho. Suas águas eram sempre as mesmas, pois sempre voltavam com as chuvas. Ela respirou fundo e se pôs avante, passou por entre as plantas dos fundos da casa, alisou um tronco e se viu à beira do rio. Você precisa saber, moro num lugar onde tem um rio que passa bem atrás da casa, durmo ouvindo as águas correrem, ela dissera a um amigo quando descera a M. O amigo sorrira, um dia vou até lá conferir, quero conhecer o seu rio, ele retrucara, como se quisesse beijá-la. Ela, porém, era casada, gostava do marido, não pretendia desapontá-lo. Ele, apesar de preguiçoso, descansado, isso era certo, tratava-a com intenso carinho. Enfim, gostava do afeto que ele lhe transmitia. Oh, Carlos, tomar banho nua no rio, mesmo à noite, não sei, acho que já passei da idade de cometer essas loucuras. O que há de mal nisso?, ele replicara, quando voltares para dentro de casa, teu corpo estará mais quente, propício ao amor prolongado. Vamos juntos, então, ela lhe sugerira. Uma mulher nua é bonito, mas um homem nu, tanto mais se banhando num rio, não há de ser tão agradável assim, ele lhe respondera. Não é agradável a você, mas a mim, e a todas as outras mulheres, não há de haver nada melhor. Ele sorrira. Ela, no entanto, saiu sozinha da casa. Ao tocar as águas que corriam, sentiu, de repente, certa friagem. Não calculava que a água estivesse tão gelada. E se adoecesse? Ninguém adoecia no verão, mesmo nua à noite. O ar estava quente, o pulmão respirava uma aragem confortável e pura, apenas a pele é que se arrepiava com a temperatura baixa da água. E sabia que, logo, quando estivesse com o corpo todo dentro d’água, acostumar-se-ia. Seu corpo sempre fora quente, capaz de transmitir certo calor a quem estivesse próximo, até mesmo certo desejo. Por isso, não lhe era difícil arranjar namorados. Se quisesse, poderia ter vários, todos loucos por deixá-la nua. Mas Carlos a queria nua a céu aberto. E lá estava ela agora, despira-se pelas próprias mãos, acatara o conselho do marido de sair nua de casa, de caminhar até a beira do rio e de banhar-se nele. Ele dissera-lhe que ela descobriria novas sensações. Mas, será que apareceria alguém? Nunca ouvira sons humanos nos arredores da casa. Apenas o coaxar de algum sapo, o uivo de um cão distante, ruídos de animais de nomes desconhecidos a ela. Agachada dentro d’água, o corpo, já quente, vencera a temperatura fria da água corrente. Começou a sentir intenso prazer, o prazer que o marido lhe anunciara. Quem sabe, com o auxílio das mãos... não, não era partidária de gozar tocando-se, do amor autossuficiente, naquele momento não precisava das mãos, o gozo vinha natural. Será que estava traindo Carlos? Não era possível. E fora ele que sugerira a boa nova. Ao voltar para casa, ele estaria esperando por ela, estaria ansioso para que ela descrevesse todas as sensações. E eram muitas. Acometia-lhe uma espécie de gozo, um prazer interminável, que a fazia demorar-se mais e mais, a não querer deixar as águas. Mais tarde, quando deixou a margem próxima aos fundos de sua casa, ela, instintivamente, cobriu os seios com o braço direito, reparou as gotículas sobre a pele, sobre os poucos pelos do mesmo braço. A outra mão lhe ia também pregada ao corpo, mais precisamente à altura do umbigo, ou entre o umbigo e o púbis. Chegou à porta e torceu a maçaneta. Temeu encontrá-la trancada. O que faria se não conseguisse abrir a porta? Talvez o marido quisesse lhe pregar uma peça e a deixasse pelada do lado de fora, ou mesmo a fizesse aguardar por algum tempo até ele vir abrir para, a seguir, abraçá-la. Talvez tivesse de voltar ao rio, ocultar-se até o pescoço dentro d’água. Mas haveria o amanhecer. E alguém a descobrir uma cabeça nua com o corpo vestido pelas águas que corriam ligeiras, fugidias... Mas torceu a maçaneta e a porta abriu. Tudo dentro de casa estava silencioso, silencioso e escuro. Não sabia quanto tempo passara desde o momento em que saíra para ir ao rio e aquele momento em que estava de volta. Não encontrou o marido, a princípio. Sentou-se numa das poltronas e cruzou as pernas. Passou a fazer parte das sombras da noite. Após quinze minutos, foi ao quarto. O marido estava deitado, dormia, dormia o sono dos justos. Pois trabalhara o dia inteiro, trabalhara duro. Não pôde esperar por ela. Não havia problema. Deixaria o amor com Carlos para o dia seguinte. Caminhou até o banheiro e tirou a terra dos pés com uma toalha de banho. Verificou se estava toda limpa, incólume. Deitou, então, ao lado dele, ainda nua. Esperaria. Que descansasse em paz. Esperaria o dia seguinte, e mais o outro dia, e mais outro além. Estava casada com o marido, é certo, fazia alguns anos, acostumara-se a ele, quase não ousava olhar homem desconhecido algum. Mas já não desprezaria as carícias das céleres águas do rio. Quem foi que disse que não se pode banhar duas vezes no mesmo rio? Também era bom que não viesse tantas vezes quantas queria: poderia habituar-se à felicidade. E, habituar-se à felicidade, torná-la-ia mais egoísta.
terça-feira, julho 08, 2014
Margarida, a verdadeira
A história que eu transcrevera em minhas próprias palavras
era igual a que ele contara. Não que eu quisesse plagiá-lo, mas, na verdade,
tudo era devido a esse furioso vício que (ao menos no meu caso) é escrever. Ele
narrara, em livro, que um mágico fizera aparecer notas de dólar no picadeiro e as
distribuíra ao público. Todos avançaram e encheram as mãos e os bolsos tanto
quanto puderam, uma algazarra surpreendente. Depois subiram as mulheres (não
que algumas já não tivessem também escondido dinheiro dentro das roupas), que
se adiantaram ante o magnânimo oferecimento de roupas de grife. Aliás, grifes
francesas e italianas. As beldades entravam numa pequena cabine, deixavam para
trás as roupas com as quais chegaram e vestiam as novíssimas, oferecidas pelo
mágico.
A história do famoso escritor russo era um pouco diferente
da minha, tinha um fundo moral e criticava o governo. No meu caso, como todos
sabem, a intenção é o puro divertimento. Nem pretensões literárias tenho. Caso pensasse assim, já teria publicado um livro, ou contratado um agente.
Na minha história, havia também um mágico, só que ele não
possuía tanto poder. Fazer aparecer dinheiro não é difícil, o que não se
consegue é fazer que a chuva de notas dure quase todo o espetáculo, como no
dito livro. Transformar a mesma quantidade de notas em rótulos adesivos horas
depois, talvez exija o conhecimento e o cuidadoso manuseio de vários produtos
químicos. Quanto fazer aparecer e, sobretudo, desaparecer vestidos, saias,
calças e blusas, a coisa já se torna mais fácil e, digamos, muito sensual. Além
de não se criar problemas com a receita federal.
Então, ele, o mágico, chamou ao palco aquelas que desejavam
vestir-se à moda francesa ou italiana. E foram quinze ao todo. Entraram na
cabine e... Atenção! Abriu-se a porta. De lá saíram vestidas com modelos
estonteantes. Brilhavam, espelhavam várias cores, reflexos dourados ou
prateados. Mas, após passarem atrás de uma tela branca, apareceram nuas em pelo
na outra extremidade do palco. Onde os vestidos de grife? Onde as roupas com as
quais saíram de casa? Muitas gostaram da brincadeira, enquanto outras...
Uma delas, que me contou a história e estava furiosa, tentei
acalmá-la. Disse que já realizara tantas fantasias de namorados, que perdi a conta de quantas vezes saí nua de casa, também eu não sabia calcular quantas
vezes regressara nua. Ela, porém, continuou furiosa, disse que o mágico lhe
prometera um Versace e não cumprira a promessa, ou a cumprira apenas
momentaneamente. Não era mal terminar a noite nua, nem voltar pelada pra casa, isso
estava longe de ser um problema, o que desejava mesmo era o vestido que, por
seu próprio esforço, jamais ostentaria sobre o corpo. Você precisa entender que
quando se vai a um espetáculo desses não se pode exigir mais do que o preço do
ingresso, retruquei. Ela fechou a cara e foi embora insatisfeita. A certa
distância, vi um admirador lhe oferecer o casaco, embora de fazenda leve e curto.
Ela não esmoreceu, preferiu continuar nua.
Voltamos a dialogar, eu e o mágico. Lembrei-lhe dos vestidos
que ficaram na cabine, as mulheres poderiam processá-lo por furto, ou algo
parecido. Respondeu que não, elas não vão fazer isso, foram selecionadas a dedo,
e se foram embora nuas era porque tinham em mente objetivos maiores para as
suas carreiras, enfim, para as suas vidas. Lembrei-lhe sobre o escritor russo,
que descrevera mágica semelhante, e sobre mim, que estava sendo acusada de plagiá-lo.
O mágico riu e acrescentou Margarida, quando você me sugeriu este número eu já
tinha lido o livro, só não me viera à mente como torná-lo atrativo a um circo
brasileiro; depois, quando tive a ideia dos Versaces, percebi que seria o
chamarisco, faltava saber como conseguir que as candidatas à modelo ficassem
misturadas à plateia; mas acabei descobrindo uma solução; um ilusionista tem
sempre uma carta na manga; desde que seja rápido no artifício, ninguém há de
reparar...
Tudo saiu conforme planejou. Ganhou notoriedade, apesar de,
na sua profissão, tudo ser muito fugaz.
Quanto a mim, usei como argumento o fato de sempre andar nua,
tanto em casa como na rua, portanto, poderiam me processar por tudo, menos por
plágio. E, afinal, a outra Margarida, a que aparece na história do escritor
russo, é apenas uma personagem de ficção. Eu, como podem testemunhar os meus leitores, sou uma mulher de verdade.
Não deixem de ler “O mestre e Margarida”, de Mikhail
Bulgakov, editora Alfaguara. Vocês vão se divertir muito.
terça-feira, julho 01, 2014
Nua em Copacabana
Trata-se de uma situação simples, um fato a contar e
esquecer. Uma dessas festas noturnas numa cobertura em que há piscina. Há
também o bar, garçons e garçonetes a nos servirem muitas bebidas e comidinhas.
Formando pequenos grupos, em volta da piscina, ora dançando ora conversando,
estamos nós, convidadas e convidados. Todos muito bonitos. Não sei se
nos convidam por causa da beleza que cada um ou cada uma de nós possui, ou se, nesse
tipo de festa, nos tornamos bonitas e bonitos como num passe de mágica. É preciso
dizer mais uma coisa (que se mantenha o segredo), todas nós, mulheres, ficamos
nuas. Para não dizer que vamos peladas,
usamos sandálias, ou salto alto, e carregamos bolsas. Uma ou outra tem o corpo
pintado, algumas tatuadas, outras dependuram cordões, gargantilhas ou
pulseiras, e só. O importante é nos mantermos tranquilas, agindo como se vestíssemos
as roupas mais sóbrias do mundo. Os homens sorriem, esbanjam alegria. E muito
bem vestidos, por sinal. De repente uma das mulheres salta na piscina, após
deixar o sapato ou a pequena bolsa nas mãos de alguém. E a festa transcorre, todos num quase estado de êxtase. A música colabora para a emoção se
intensificar. Permitem-se fotos, mas que se mantenha a discrição em relação às
mulheres nuas. Não queremos publicidade na grande imprensa. Alguém posta uma
foto ou outra numa rede social, mas nada fala da festa, ou se comenta algo não
diz o endereço. Os rapazes nos namoram. Com os olhos e com os braços. É possível
beijar quase todas e se manterem abraçados a nós. O que se evita, ou mesmo se
proíbe, com a pena de não mais se poder frequentar tais festas, é a relação
sexual. Com tantos lugares para ir depois que a festa termina, por que se
precipitar ali? O que surpreendeu na última vez foi uma garçonete, que apareceu
também nua. Não é costume as garçonetes tirarem a roupa nessas festas, mas uma
delas se entusiasmou e ficou nua. Cumpriu, porém, seu trabalho com perfeição,
não deixando de atender pedido algum. O que torna nós, mulheres, e os homens
também, tão alegres nessas festas? Não digam que é porque rola alguma droga.
Estou pronta a desmentir. Não digam que é a nossa nudez (já andamos nuas demais
por essa cidade). Não sei dizer bem, mas acho que tanta alegria tem origem em
uma série de fatores, e o principal deles é que toda festa é irmã gêmea da
alegria. Lá pelas tantas, acho que duas e meia da madrugada, salto na piscina.
Alguém me fotografa em pleno salto: o tórax ereto, as pernas dobradas, um salto
em que estou quase que sentada no ar, só faltaram as pernas cruzadas, mas estão
dobradas em paralelo, num ângulo de noventa graus. Não aparece meu rosto, ainda
bem. Mas o meu corpo esbanja intenso vigor por todos os poros. E assim são as
nossas festas. Sei que muitos perguntam como obter convites, outros querem saber
como fazemos para ir embora. Ser convidado é um pouco difícil, mas como fazemos
para ir embora explico. É muito simples. Saímos do edifício, entramos num carro
e partimos. O carro às vezes pertence a um dos rapazes, mas há madrugadas em
que vamos embora de táxi. É lógico que não vamos nuas (acho que vem daqui a
curiosidade, não?). Aliás, não é permitido às mulheres saírem nuas do
apartamento onde acontece a festa. Isso pode comprometer o futuro do grupo,
gerar problemas com a administração do edifício e, quem sabe, intervenção da
polícia. Mas é possível vestir vestidinhos, sainhas, shortinhos que nos deixam
ainda mais nuas. Há mulheres que se deleitam cobrindo o corpo apenas com uma translúcida
canga, como se tivessem a caminho da praia. Às vezes é o modelo que uso para
chegar e para sair de nossas festas. Caso repita o modelo, vou a cada festa com
uma canga de estampa diferente. Gosto de andar nua, como vocês, já há muito,
sabem. Certa vez, quando alugamos o terraço de um hotel para uma das festas, um
vento quente roubou-me a canga, que pairou boa parte da madrugada sobre Copacabana. Um
cavalheiro, porém, sempre tem a solução. Ao amanhecer, fui embora vestindo sua camiseta!
segunda-feira, junho 23, 2014
Dentro de mim ou a moral das histórias
Faz algum tempo, eu queria tirar a moral das histórias;
hoje, acho que o importante é contar uma boa história, apenas isso. Foi então
que ele veio com a ideia do celular. Eu nua e ele falando que fez uma coisa
engraçada com o celular da ex-namorada. Como, uma coisa engraçada?, eu quis
saber. Ela estava nua, assim como você agora, e com o celular na mão, ele se
pôs a contar...
... Achei engraçado ela atender a ligação e dar uma desculpa
esfarrapada para o homem que estava do outro lado da linha, quem sabe se
tratava do marido dela. Como você já percebeu, não pergunto sobre esses
assuntos. A postura da mulher era de algum charme: em pé, de costas para mim,
uma das mãos com o celular no ouvido, a outra na cintura. Depois que desligou,
dei a ideia, vamos colocar o seu celular num saquinho plástico. Para quê?, ela
perguntou como num rápido reflexo, não vai dizer que você vai querer... As
reticências foram dela. Isso mesmo, respondi, você adivinhou. Não trocáramos
palavra alguma sobre o que ela pensara nem sobre o que eu iria sugerir, mas a
nossa língua era a mesma. Sentou na cama e entregou o aparelho a mim. Só não
quero que, caso ele toque, você atenda, advertiu. Não, não vou atender, melhor,
não vamos atender, assegurei. Levei o telefone e voltei com ele dentro do
saquinho plástico. Adivinhe o que fizemos? Não, não precisa responder nem ficar
tão assustada. Enfiei o celular no saquinho. Quando acabei, ela já estava
deitada. Abriu as pernas e falou pronto, agora é com você. Num tempo em que reina a
tecnologia, trepei com ela de celular enfiado na vagina. O pior de tudo, ou o
melhor, não sei dizer, é que o telefone tocou. Ela gritou deixa tocar, deixa,
deve ser ele, vamos gozar primeiro. E gozamos. O telefone tocando e vibrando
junto com o meu piru dentro dela.
Ele acabou de contar e olhou do modo frontal para mim. Gelei.
Será que pretendia fazer o mesmo comigo? Ainda nua movi-me um tantinho na
cadeira, balancei um dos pés; de pernas cruzadas, puxei a coxa direita um pouco
mais para cima. Sorri, enfim. Ele, para não alongar o constrangimento, disse
longe de pensar que vou pedir para você fazer isso. Ainda bem, respondi, mas
acho que a mulher fica muito desvalorizada quando os homens propõem situações desse
gênero, acrescentei. Mas ela é uma mulher de outro nível, ele tentou se salvar,
e no fundo a proposta foi dela, também acrescentou.
Ele ligou o som. Encerramos o assunto e ouvimos a música.
Era uma canção americana, quase um folk. Ele tem bom gosto para essas coisas.
Depois, fomos para cama.
Após me levar em casa (esqueci de dizer que estávamos na
casa dele), já sozinha, tentei enfiar o telefone na minha vagina, a mesma
atitude que ele fizera à ex-namorada. Aqui entra a questão que escrevi lá no
começo, a minha antiga necessidade de tirar a moral das histórias. Eu dissera que as mulheres saem diminuídas
com tais atitudes, e era eu mesma que, naquele momento, introduzia o celular em
mim. Fui, então, ao telefone da casa e liguei para o meu número. Confesso que
me arrepiei quando ouvi o som da campainha; afinal, eu emitia um som distante.
Era como se o telefone soasse em algum lugar da casa e eu não soubesse onde ele
estava. Mas aconteceu algo ainda melhor, a vibração do aparelho me trouxe de
volta ao meu corpo. Senti intenso prazer.
Nos dias que se seguiram, toda vez que meu namorado
telefonou demorei a atender. Até que ele perguntou a razão de tanta demora.
Você deve imaginar onde estava o meu celular, respondi.
terça-feira, junho 17, 2014
Cada dia com um homem diferente
Carol, você não imagina, minha mãe me mata de vergonha.
Outro dia, aqui mesmo na praia, ela veio com um biquíni menor do que o meu. E
olha que ela já vai fazer cinquenta anos. Sei que é bonita, e sei também que
quando eu tiver a idade dela talvez não seja tão elegante quanto ela é agora.
Mas não precisava vir com um biquíni tão minúsculo. O pior foi o top, Carol. Os seios
são pequenos, mas o top era mínimo. Não estava deselegante, aliás, nela nada
fica deselegante, mas os homens a olhavam de um jeito tão sedutor, que pensei
que seria agarrada aqui mesmo na praia. Se minha mãe pudesse, estaria
nua. Quero dizer, se fosse permitido ela andava nua por aí. Não consigo usar as
roupas que ela veste. Me sinto nua. Sério, é verdade. Ela, não; além de andar
nua, se comporta como se fosse a pessoa mais vestida do mundo. Você já conhece a
história, Carol. Desde que me entendo por gente, ela já era separada do meu
pai. E o que não lhe falta é namorado. Chove homem em cima dela o tempo todo. Muitas mulheres reclamam que não há homens suficientes nos dias de
hoje, ou mesmo que eles nada querem com as mulheres. Mas, para minha mãe, há
homens demais. Acho que, se ela quiser, todo dia sai com um diferente. Você
deve achar que estou exagerando. Mas é verdade. Já a vi com três namorados na mesma semana. Lógico que há alguns que ficam com ela mais tempo.
Houve um que a namorou durante um ano. Dele, ela gostou. Ou chegou a se
apaixonar. Mas acabou acontecendo um problema entre eles. Não se passaram quinze dias pra ela
estar nos braços de outro. Alguns ela leva lá para casa, quando já os conhece
melhor. Mas, na maioria das vezes, vai para o apartamento deles. Você compreende, Carol, ela é do tipo que sai logo de primeira quando sente atração por um
homem. Eu, que sou quase trinta anos mais jovem, tenho o maior cuidado, espero
uma, duas semanas. Ela, não, gostou, trepou. Acho perigosíssima essa atitude. Tenho certeza que vez ou outra ela perde a cabeça e transa sem camisinha. Carol, você
já reparou, tem sempre alguém olhando para nós, nos admirando, nos paquerando.
Mas, na maioria das vezes, não vale a pena. Ela não pensa assim. Sorriu para
ela, ela gostou, pronto. Nós geralmente não damos
muita conversa caso algum deles se aproxime, não é mesmo? Ela, nem pensar, já
vai pedindo o número do celular, ou ela mesma vai dando o seu. Depois fica
aquela montanha de homens telefonando e ela nem mais sabe quem é quem, nem consegue
imaginar a fisionomia do cara que está do outro lado da linha. Certa vez lhe aconteceu uma coisa muito engraçada. Engraçada, não, trágica. Mas vamos considerar
engraçada, porque acabei rindo um pouco. Caso eu estivesse na pele dela, iria me tremer toda. Mas eu não chegaria àquele ponto. A história é a seguinte. Aconteceu
há uns seis meses. Eu estava dormindo, eram três da manhã, de repente o
telefone toca, é ela: Carina, por favor, você precisa vir até aqui. Disse o endereço.
Me traga a canga, está no armário onde guardo os biquínis de praia, por favor, pediu. Mas, mãe, você me telefona a essa hora da madrugada para eu ir não
sei onde levar uma canga, você vai à praia agora?, perguntei. Não, não vou à
praia coisa alguma, mas preciso da canga, venha e não faça perguntas, preciso
sair daqui antes que amanheça, disse ela. E pra que a canga, mãe?, insisti. Já
pedi pra não fazer perguntas, depois explico, venha logo, é urgente. E lá
saí eu, às três e meia, morta de sono, achei que ainda estivesse dormindo e que
aquilo fosse um sonho. Mas não era. Tirei o carro da garagem, assustei o vigia,
mas tirei o carro e dirigi até lá. Entreguei a canga a ela e, adivinha, Carol. Ela
estava inteiramente nua. Enrolou o pano no corpo e desceu comigo. Eu trouxe
minha mãe no carro. Nua! Quer saber o que aconteceu, Carol? Nem eu sei. Ela
entrou muda e saiu calada do carro. Ao chegarmos em casa disse vamos dormir,
estamos ambas cansadas, muito cansadas. Quando acordei, naquele mesmo dia, ela
já havia saído. Agora imagine, Carol, o que deve ter acontecido. Minha mãe
acha bom não se prender a homem algum. Eu já não penso assim. Acho perigoso ficar
mudando de namorado todo dia. E também acho que já somos demasiadamente sós
para cultivarmos um relacionamento em que não exista nenhum compromisso. Gosto de
ter alguém que goste de mim. Prefiro o casamento. Não o casamento tradicional, mas algum tipo de união onde se possa viver um para o outro. Carol, sei que você não é parecida com a minha mãe, pare de olhar para
aqueles caras que estão perto da rede de vôlei, não demora e eles vão se
encostar aqui. Não, Carol, por favor, se você der bola a eles, vão pensar que
eu também estou a fim. E viemos juntas à praia. Caso você queira ficar com um
deles, tudo bem, mas me deixe de fora. Sei que você não era, e não é, de dar
mole logo de primeira. Quanto à minha mãe, tenho certeza, ela dá logo de
primeira. Mas ela não é exemplo para nós. É, ao contrário, motivo de
preocupação. Ela diz que sou muito nova, que quando tiver a idade dela vou
pensar da mesma forma que ela pensa agora. Diz que até lá vou ter tempo
suficiente para me decepcionar com os homens. Carol, durma com um barulho
desse. Ou melhor, não durma, esteja pronta para socorrê-la caso os homens a
deixem nua por aí. Mas, amiga, você não, por favor, não vá com algum daqueles
caras, e não adianta me deixar de sobreaviso, não vou poder fazer nada. Já
tenho problemas demais.
quinta-feira, junho 12, 2014
Você costuma dar presentes?
Lá ia a manhã entrando pelas onze. Eu estava no metrô a
caminho de Copacabana. Minha intenção era ir à praia. Quando a composição parou
na estação São Francisco Xavier, entrou um homem que sentou no banco oposto a
mim. Passaram-se alguns segundos, reparei que ele me olhava. Por trás dos
óculos escuros, também comecei a apreciá-lo. A princípio, foi difícil
precisar-lhe a idade. Poderia ter entre trinta e poucos e cinquenta anos. Sua
aparência era jovial. Usava bermuda longa e uma camiseta verde, calçava um
sapato de lona, muito elegante por sinal. Continuou a olhar na minha direção.
Virei a cabeça um pouco à esquerda, pois temia que ele descobrisse minha espreita.
Começou a descer os olhos. Da cabeça, escorregou ao meu pescoço; depois,
descansou sobre meus seios; escorregou de novo e foi cair na cintura; daí mergulhou
nas minhas coxas; a seguir, nas pernas; e, finalmente, atingiu meus pés.
Quando terminou, eu estava nuinha. O homem me roubara a camiseta branca, o
sutiã de praia que ia por baixo, o short jeans e o biquíni. Restou-me a
sandalinha, com detalhe em flor nos entrededos. Eu continuava de pernas
cruzadas com um dos braços fazendo a vez de faixa em meia diagonal sobre os
seios.
As estações se sucederam. Pessoas entravam, pessoas
saíam, e o homem continuava a me olhar. Vários pensamentos inundaram a minha
mente. O primeiro deles foi que o suposto admirador poderia me seguir sem
perdão algum, e, num local onde não houvesse muita gente, me abordar e dizer
que lhe passasse os poucos objetos que eu carregava. Apesar de pouco dinheiro
na carteira, estava com o cartão do banco e a identidade. Será que ele me
deixaria sem? Outro pensamento: o homem me seguiria até a praia, ficaria a distância;
depois se aproximaria, diria que gostou de mim, que tal poder permanecer ao meu
lado? Daí o amor... Outro possível desfecho: ele mora sozinho em Copacabana,
insistiria para que eu o acompanhasse até seu apartamento. Lógico que esse
convite se daria na praia, após me ter seguido e esperado uma ou duas horas
enquanto eu tomava sol e vez ou outra entrava na água. Apesar de magra,
reconheço meus pontos fracos. Tenho pouco tempero. Mas mesmo assim ele me
abordaria: “você é uma graça”. Ficaríamos conversando um pouco. Ele compraria
algumas cervejas. Beberíamos. Eu, já excitada por causa do álcool, aceitaria o
convite. Não demoraria e lá estava eu nua, dentro do apartamento do recém-enamorado.
Mas se o homem fosse tarado? Se me machucasse ou me colocasse nua porta a fora?
Quando o trem ia por Botafogo, sentou uma moça ao meu lado.
Devia ter uns 17 ou 18 anos. Trazia um tablet. E manipulava o aparelho com
destreza. Minha atenção se desviou para o tal objeto. Fazia tempo que eu desejava um desses, mas ainda não tivera dinheiro para comprá-lo. Mirei de novo o homem que me apreciava e perguntei a mim mesma: será que ele costuma dar presentes?
Saí do metrô na estação Cantagalo. Subi pela escada
rolante. Não olhei para trás, mas estava curiosíssima. Será que ele me
seguia? Perdi-me pelos corredores compridos da estação, até que
deparei com a saída, na Xavier da Silveira. Fui atravessando todas as ruas em direção
à praia de Copacabana. Só olhei para trás quando pisei no calçadão da avenida
Atlântica. Onde ele? Aparentemente, ficara no trem.
Aluguei uma cadeira e um guarda sol. Escondi, num canto, a
pequena bolsa. Chamei um ambulante e comprei uma garrafa de água mineral. Ao tomar o último gole, levei um tremendo susto. Meu admirador do metrô estava a dois
metros, atrás de mim. No fim, sorri. Talvez a senha. Ele se aproximou, sorriu
também, mas parecia não ter palavras.
Então, iniciei a conversa:
Você costuma dar presentes?
quinta-feira, junho 05, 2014
Cá estou eu, a esperar por ele
Havia pedido que eu usasse o vestido justo e curto.
“Esconder o que se é, é fingir o que não somos.” Assim, a função da roupa que
uso não é a de me cobrir, mas de salientar o meu corpo, as minhas curvas plenas
de volúpia. Palavras dele.
“Você é fogo, viu, fiquei morrendo de vergonha, ir daqui de
Copa até Mesquita de trem com esse vestidinho apenas, os homens todos a me
olhar, até achei que algum deles ia me agarrar”, sussurrei no seu ouvido
enquanto ele fazia carinho nos meus seios.
Mas preciso explicar. Sou secretária desse senhor. Faço todo
o serviço doméstico e de rua. Acabei me deixando seduzir. No começo, por causa
do bom salário; depois, porque passei a gostar dele. E o homem adora que eu
vista roupa curta, no escritório e na rua, sozinha ou ao lado dele.
“Com essa roupa, estou chamando muito a atenção; assim, acho
que alguém vai me roubar de você.”
“Não vai, não”, retruca, “o que é do homem o bicho não come.”
“Não come? Não tenha tanta certeza disso. Minhas amigas
trocam de namorado como trocam de calcinha.”
Ele ri.
“Mas você não vai agir assim.”
“Não acha melhor que eu me mostre nua só pra você?”
Ele, porém, apenas manifesta um ligeiro movimento de cabeça,
a princípio parece concordar.
“Quando você vem com esse vestidinho de malha, colado ao
corpo, nem fala, morro de tesão. Acho engraçado você ficar o tempo inteiro
esticando a barra do vestido.”
“Foi você quem me deu de presente. E mais uma coisa, a
partir de agora vou deixar o vestido subir.”
Adoro quando estou trabalhando sozinha e ele chega de
repente. Me abraça e me beija, aperta o seu tórax contra o meu, passeia as mãos
pelas minhas costas, vai descendo, até que para sobre o meu bumbum. Então, faz
uma massagem muito gostosa ali. Caso eu esteja de vestido, não demora a enfiar
as mãos por baixo do pano.
“Estou em horário de trabalho”, finjo-me aborrecida.
“Trabalho?”, repete.
“Isso mesmo”, reafirmo. “Você sabe que adoro trabalhar.”
“Pago a você o dobro para me namorar.”
“Nada disso”, replico, “Você sabe que só namoro por amor.”
Esse meu namoradinho... Se fosse outra tiraria todo o
dinheiro dele, mas não tenho coragem.
“Vamos fazer assim”, sugiro, “trabalho durante o dia, amor
durante a noite,” tento colocar ordem no caos.
Mas sei que ele não vai aguentar, quero dizer, nem eu.
Sinto um calor. E lá vem ele a levantar a minha saia. E lá vou eu a fingir que
não estou a fim. Mas não demoro a entregar o ouro. Assim, não há trabalho que
renda.
Agora estou aqui esperando por ele. Disse que voltaria logo.
Querem saber mesmo aonde ele foi? Numa loja linda que há aqui embaixo. Quer me dar um vestidinho novo de presente.
“É melhor você me dar o dinheiro, prefiro eu ir, assim
experimento.”
Mas ele não aceita, quer ter o prazer de me trazer a roupa.
“Como você vai saber se cabe em mim?”, ainda faço a última
investida.
Olha então pro meu corpo.
“Levo este que você está usando como modelo, cai tão bem no
seu corpo.”
E lá foi ele, o meu vestidinho numa bolsa. E cá estou eu,
peladinha, a esperar por ele!
domingo, junho 01, 2014
Friozinho na barriga
“Ei, volte aqui! Aonde você vai? Pode aparecer alguém...”
Não adiantou falar, esse meu namorado é fogo, adora me
deixar nua.
Quando eu morava no interior, era fácil realizar a fantasia
dele: sair de carro com ele à noite para passear nua. Isso mesmo, nuazinha.
Morava numa casa, escapulia pela porta da cozinha e já estava na garagem,
entrava no carro. Saíamos. Lógico que bem tarde, depois da meia-noite. E nunca
ouvi ninguém dizer que vira uma mulher passeando nua pela cidade dentro de um
carro. Até era possível dar uma escapada nos locais quando estavam desertos.
Certava vez, na praça central da cidade, às duas da madrugada acho, não havia
viva alma, saí nua do carro, para o deleite dele. Mas numa cidade grande... Ai,
que vergonha.
Na verdade, não podia condená-lo por gostar tanto dessas
fantasias. Fui eu mesma que as criei. Um modo de dar ardor ao namoro, um jeito
de estarmos sempre apaixonados. No Rio, nunca saí nua, mas hoje ele acabou me
convencendo. Então, não era para eu gritar por ele quando saiu do carro, já
tínhamos combinado tudo. Mas acho que foi o instinto de sobrevivência. Meu
Deus, não sei o que faço, lá vem ele. Lógico que viria mesmo, não me surpreendo
por ter voltado, mas por ele não cumprir o prometido.
“Cadê sua camisa?”, eu.
“Em casa.”
“Não foi esse o nosso acordo...”
“Ah, acordos foram feitos para serem desrespeitados. Acho
que assim é mais fascinante”
“Fascinante, Arthur? Estamos numa cidade grande, posso até
ser presa, você sabe disso.”
Ligou o carro e deu a partida. Desceu a rua do Riachuelo,
logo atravessou os Arcos, dobrou no Passeio e pegou o Aterro.
Temerosa, pergunto:
“Aonde vamos?”
“Ao cinema.”
“Ui!”
Riu da interjeição.
Eu certamente não poderia descer nua do prédio onde moro,
portanto, o acordo. Desceria vestida, tiraria toda a roupa no carro e a
entregaria a ele; depois sairíamos. Qualquer problema, ele me emprestaria sua
camisa que, sobre meu corpo, funcionaria como um vestido curto. Tudo combinado.
Cumpri a minha parte, mas e ele? Pegara toda a minha roupa e a levara de volta
para casa. Voltara ele, porém, sem a camisa.
“Arthur, é melhor voltarmos, estou gelada.”
“Assim é mais emocionante.”
“Emocionante? Acho que morro. Arthur, por favor, aqui tem a
polícia, podem acontecer vários imprevistos. Por favor, vamos voltar."
Terminamos o Aterro, atravessamos os dois túneis e logo
trafegamos na Atlântica.
“Marta, não fique tão encolhida no banco, o vidro é escuro,
ninguém está vendo você.”
Nada falei. Trêmula, ainda tive paciência para procurar as
espumas que as ondas derramavam na praia. Depois olhei o lado dos prédios, os
hotéis. Que inveja ao ver as mulheres vestidas.
“Ai, Arthur, nunca passei por uma situação dessas...”
“Vai dar tudo certo, você está linda, só de bolsa e sapatos,
que elegância!”
“Não brinca, Arthur, vamos voltar.”
“Claro que não, vou levar você a um lugar que você vai
amar.”
“Vou ter de sair do carro, Arthur?”
“Não pense nisso agora. Prometo a você que sairá sã e
salva.”
Ficou para trás a Rainha Elizabeth, entramos pela praia de
Ipanema, avenida Vieira Souto. Me veio à mente a música de Tom e Vinícius. Só
então reparei que o rádio do carro estava ligado e que tocava outra canção.
O Leblon.
“Arthur, aonde você está indo? Ai, me Deus, será que vão
parar a gente.?”
Passamos por dois carros da polícia que estavam à direita, com
os soldados do lado de fora. Subimos a Niemeyer.
“Veja que vista linda através do mar. Leblon, Ipanema,
Arpoador. Nenhuma cidade tem uma vista tão bonita assim.”
“Vista linda as pessoas vão ter caso me descubram pelada, Arthur.”
São Conrado, entramos num motel. Daqueles em que se coloca o
carro na garagem da suíte.
“Ai, que bom, vou roubar uma toalha, assim volto mais
tranquila.”
“Nada disso, melhor sermos presos por atentado ao pudor do
que por roubo. Eles conferem na saída.”
Bebemos uma garrafa de vinho. Meu namorado a trouxe de casa,
não é bobo de pagar o preço num hotel desses. O vinho pôs fogo nele. Mas a mim
pareceu não fazer muito efeito.
“Em Glicério você saía nua, nunca aconteceu nada. Quando
descíamos a serra para a praia você entrava dentro d’água e me dava o biquíni
para que eu o guardasse na sua sacola. Não sei por que tanto nervosismo agora.”
“Arthur, por favor, Glicério é um ovo e, além disso,
morávamos em uma casa com garagem.”
“Aqui há muita gente, ninguém repara ninguém.”
“Não tenho tanta certeza assim, Arthur.”
.
Namoramos durante um bom tempo. Conseguiu com suas carícias
e artimanhas me fazer esquecer minha nudez.
Mas agora, depois que tudo acabou, vamos começar a fazer o
caminho de volta. Ai, que friozinho na barriga!
sábado, maio 24, 2014
Borboleta
“Faça de conta que você é uma borboleta. Melhor ainda, uma
fadinha borboleta. Mova os braços. Na verdade, eles são asas. Alce voo. Você se
equilibra em pleno ar presa apenas pelo meu sexo. Vamos, não ponha força. Você é
tão leve, mais leve do que o ar. Quanto mais bate as asas, tanto mais goza. Sopra
o vento, um vento morno que eleva a borboleta. Goza mais, isso, as asas a se
moverem, sempre as asas. Goza, goza, goza mais, goza melhor.”
Eu obedecia o seu hábil sussurrar em meu ouvido. No início, ele
levantara-me nua e me encostara a uma das paredes da sala. Seu pênis deslizou fácil para
dentro de mim. A seguir, recuou um passo, negou-me o apoio à parede, trouxe-me
junto a seu tórax. Pude sentir o pulsar de seu coração sobre meus seios nus.
Suas palavras me inflavam. Abri os braços, ou melhor, as asas, e as movi com
sofreguidão. Era uma borboleta tentando soltar-se da armadilha de mel. Ao
mesmo tempo que tentava levantar voo, percebia o céu maior. Já solta de seu tronco, descobri-me aérea, as asas finas mas resistentes. E a promessa de gozo maior, esse fio tão tênue, equilibrava-me. Equilíbrio precário, verdade. Logo eu, tão mínima, a desafiar as rigorosas leis da física. No final, explodi. Uma explosão em céu de diamantes. Era ainda eu um ser alado? Sei que girava em meio a cores gelatinosas atravessadas por lâmina solar de fim do dia. E gritava. E era a pura felicidade. Jamais gozara em tamanhas altitudes.
“Não me solte, não me solte, voarei cada vez mais alto...”, ainda
fui capaz de dizer.
Então, o cálice de amor.
Tudo aquilo começou mais cedo. Eu e três amigas estávamos no
Ilha Linda Sul, o restaurante mais sofisticado da orla de M. Ficamos numa das
mesas junto à mureta que separa o restaurante do passeio. Era o melhor modo de
sermos percebidas pela plateia do diário espetáculo. E para uma segunda-feira à
noite, até que a plateia era grande. Nossas roupas sempre a ressaltar os corpos
sarados. E roupas mínimas. Mas eu, como sempre, jamais conseguia o menor short.
As amigas ultrapassavam-me em ousadia. Entretanto, o que se há de fazer? Mesmo assim caí nas graças de um homem. Ele chegou tarde, com outros dois amigos. Sentou-se
a princípio de costas para mim, duas mesas adiante. Levantei e disse que iria
ao toalete. Minhas amigas permaneceram conversando. Caminhei lentamente,
ultrapassei a mesa onde ele estava, imaginei-o olhando-me o bumbum. Ele deslumbrou-se ao ver-me nua ao toalete. Tudo através do pensamento, tenho certeza. Os homens agem assim após verem
uma mulher como eu passar em direção ao toalete. Na volta, antes de cruzar sua
mesa, fechei os olhos. Quando faltavam três passos até onde ele sentava, abri os
olhos bem devagar, revelava-me, mostrava todo o meu ardor. E ia nua, como antes
em sua imaginação. Percebeu o meu ardil. Eu era uma sereia fisgada, sem
chance alguma de remissão. Roubou-me o short, atirou longe o meu top. Poucos
minutos se passaram para que um dos garçons me trouxesse o bilhete. Não foi,
como jamais poderia ser, um pedido vulgar. À orquídea, a luz precisa ser
perfeita. Não eram apenas palavras, era toda a iluminação que eu precisava.
Seguiu-se o desenlace. Ele desceu ao passeio. Eu o segui
após três intermináveis minutos. Ao dobrar à esquina, em direção ao
estacionamento, esperou-me. Assim que o ladeei perguntou o meu preço.
“É por amor”, expressei-me com frieza. Aliás, um paradoxo.
“Amor?”, queria a confirmação.
“Amor”, assegurei.
Andamos juntos até o automóvel. Abriu a porta dando-me a
passagem.
“Por amor?”, insistiu.
“Uma prova?”, perguntei.
“Pode ser”, revelou-se ainda incrédulo.
Como diz o povaréu, moeda grande... Então me despi, deixei
em suas mãos o pequeno short. Mirou-o com certa admiração. Depois o posou no
banco traseiro. Ligou o automóvel. Partimos.
Ao entrarmos pela garagem, no seu edifício, alto o edifício,
“precisa do short?”, perguntou.
“Preferia que não”, respondi, as pernas ainda cruzadas, tão
alvas.
Lá em cima, a história da fadinha, a fadinha-borboleta.
“Bata as asas, isso, as asas, mova-as com carinho, nada de
força, é a leveza que ajuda a alçar o voo, você goza melhor nas alturas.”
Eu presa apenas pela ponta do sexo dele, um acróbata.
“Não deixe que escape”, gemi.
Meus braços, asas inteiras. Minha pele branca, lisa, pano
nenhum a pesar-me o corpo.
Quando percebi, nas alturas, entre nuvens e alguma estrela a
cintilar esporádica, gozava, gozava e mais gozava, gozava solta, levitava,
alturas do empíreo, como aprendi com o poeta. Os braços ainda asas... Mas
estava só, sozinha. E nua. Borboleta soprada por vento brando.
O cálice (era licor ou amor?) trouxe-me de volta à terra. E os braços
tão nus, os braços tão asas. As três amigas nuas, onde? Onde o restaurante? E
sonhos, e mais sonhos...
domingo, maio 18, 2014
Fio de adaga
Sempre gostei de andar composta, com todas as roupas
necessárias para me sentir elegante. Outro dia, ao sair com uma amiga (fomos
a uma festa, uma espécie de coquetel com jantar), reparei que uma das mulheres
era muito assediada pelos homens. Perguntei à amiga:
“Por que ela tem tantos homens à sua volta? Nem é tão bonita.”
“Adivinha.”
“Está usando um vestido curtinho.”
“Se fosse só isso”, afirmou.
“O que mais?”, estava interessada porque não via motivo para
tal assédio. “Ela é uma pessoa importante, profissionalmente?”, completei.
“Nada disso, Isabel”, respondeu-me a companheira de festa,
“ela só está usando o vestidinho.”
“Como só o vestidinho?”, insisti enquanto segurava uma taça de
vinho servida por um dos garçons.
“Ela não usa nada além do vestido”, esclareceu a amiga.
A única coisa que eu pude fazer foi rir.
“E não é só ela”, continuou, “outras também gostam de
aparecer.”
“Que desvalorização”, observei, “nada pior para nós
mulheres.”
“Isabel, muitas agem assim porque homem está difícil hoje em
dia.”
“Mas é se rebaixar muito.”
“Será?”, indagou minha amiga.
“Você quer dizer que também joga no mesmo time?”
“Hoje, não. Estou vestidíssima, assim como você. Mas já saí
sem. Não tem nada demais. E é bom porque os homens quando percebem não nos
largam.”
“Mas você fica mal falada entre eles.”
“Depende”, salientou, “caso seja uma festa onde pouca gente
nos conheça, não há problema. O ideal é que seja uma dessas comemorações que
acontecem bem tarde, depois de meia-noite.”
“Quando os homens descobrem, eles não ficam loucos para
trepar com você?”
“Ficam, mas a gente precisa segurar a barra um pouco, fingir
que está tudo normal, conversar assuntos que nada tenham a ver com sexo, coisas
desse tipo.”
“Aí eles ficam ainda mais excitados...”
“Viu como você também sabe das coisas?”
“Sei. Mas prefiro estar vestidinha. Caso alguém goste de
mim, deve ser desse jeito”, ressaltei.
“Ótimo, então, prepare-se, porque já vi um homem lindo
olhando para cá.”
“Outra coisa que não concordo é sair com um homem no mesmo dia que o conheço.”
“Isso depende de cada uma. Eu já não sei se isso é bom.”
“Você sai sem conhecer a pessoa?”
“Sempre achei que os convidados dessas festas são muito
selecionados. Também deixo alguém de sobreaviso.”
“Sobreaviso?”, eu quis saber.
“Isso mesmo, para o caso de acontecer alguma coisa de ruim comigo”, ela disse.
“Isso mesmo, para o caso de acontecer alguma coisa de ruim comigo”, ela disse.
“E como a pessoa poderá saber que algo saiu errado?”
“Ah, Isabel, sempre há um grau de imprevisibilidade, mas isso ainda não aconteceu comigo.”
“Desculpe, foi apenas um palpite.”
Alguém começou a tocar piano. Várias pessoas movimentaram-se
pelo salão, esticaram o pescoço, procuravam ver de onde vinha a música.
Minha amiga distanciou-se com a desculpa de procurar alguém.
Misturei-me às pessoas e logo apareceu o homem que me espreitava. Sorri,
dissimulada. Deixei que lançasse toda a sua sedução. Não é bom revelar
nossos desejos às amigas, logo falam para alguém. O segredo é fazer as coisas
em silêncio, só a gente a sentir o prazer. O coquetel continuou, outras pessoas
chegaram, algumas se foram, e, no final, o homem me perguntou se poderíamos
conversar em outro lugar. Eu o segui. Quis saber se aprecio fotografias.
“Se a fotografada for eu, adoro”, dei a senha.
Saímos da festa no automóvel dele. No rádio, uma orquestra tocava Mahler, um arrepio. Trafegamos pelos bairros
nobres da cidade, até pararmos na Gávea, uma casa de dois andares, com muros
altos, dois cães enormes.
“Não tenha medo, são amigos, sabem distinguir pessoas belas,
sobretudo mulheres.”
Toda vez que ele falava, sua voz soava como música. E eu sentia arrepio sobre arrepio, ero o mesmo de já estar nua, suas mãos a deslizar sobre a minha pele. Pensei na amiga já distante e no que a noite reservava-me.
Toda vez que ele falava, sua voz soava como música. E eu sentia arrepio sobre arrepio, ero o mesmo de já estar nua, suas mãos a deslizar sobre a minha pele. Pensei na amiga já distante e no que a noite reservava-me.
“Você bebe?”, perguntou assim que entramos numa sala grandiosa,
quadros nas paredes, móveis pesados de madeira nobre.
“Sim, gosto de bebida gelada, um Martini, com uma cereja ou mesmo uma uva mergulhada nele.”
“Ok, já sei do que você está falando. Aqui tenho muitas
bebidas, quase todas, não se acanhe. E também tenho frutas.”
Voltou com uma taça pequena, uma primor a bebida.
“Reparei que você admira Mahler.”
“Apenas conheço alguns acordes”, tentei ser humilde.
Meu admirador era grande, um pouco acima do peso, mas vestia
um terno que lhe dava elegância. Ofereceu-me a melhor das poltronas, foi buscar
uns acepipes.
“Estás confortável assim?”, tentou a segunda pessoa.
“Sabes conversar de modo culto...” afirmei ressaltando as
reticências.
“É necessário que se conheça alguma coisa, não é só pelas
mulheres, há o mundo, a diplomacia, ainda existe certa nobreza.”
“Como a beleza das orquídeas”, sugeri em voz baixa.
“Oh, as orquídeas, sabes do que é belo nesta vida.”
“Será?, sou tão tacanha.”
“Tacanha?”, sorriu, como se me pedisse explicações sobre a
palavra.
Retirou-se durante alguns minutos para voltar com uma
garrafa de vinho. Não consegui observar a procedência. Ele abriu. Bridamos. Após o primeiro
gole, pude sentir o delicado aroma.
Conversamos de modo mais solto a partir dessa segunda
bebida. Também trouxe uma tábua de queijos. Pouco a pouco aproximou-se e tocou
um dos meus braços. Perguntou se podia fotografar-me.
“Claro”, assenti graciosa.
Pediu que eu escolhesse as poses. Sentei ora de modo sério
ora de maneira divertida. Cruzei as pernas para um lado, para o outro e descobri no
olhar dele o desejo de me fotografar nua. É lógico que não fez tal proposta.
Não colocaria a noite em risco com uma atitude infantil. Continuei sentada, com a
taça nas mãos, completada por ele pouco a pouco. Já que eu trajava roupas de
festa, vestido comprido, com decote e algum brilho, colar e brincos, um echarpe
para caso fizesse aquele friozinho de outono, ele respeitou a minha postura.
Talvez, se usasse roupa curta, como mais cedo as mulheres da festa, ele já
tivesse saltado sobre mim. A discrição de minha parte o deixava um tanto
reservado.
Será que minha timidez impediria nosso mergulho no amor, momento que já nos rondava?
Fechei os olhos, ainda sentada na poltrona. Ouvi sua voz de barítono declamar um poema. Não se tratava de uma declamação afetada, mas fala
coloquial, quase um dizer de amor. Cantava o amor e cuidado que este sentimento exige.
Enquanto descansa, dorme,
a mulher que amo, que me ama,
sigo neste exercício da ternura exata
e comum:
cuidar, de quando em quando,
que as treliças da janela
amenizem a manhã em sua rudeza de adaga,
ainda que doméstica lâmina.
E, assim, em volta da mulher que amo,
que me ama, vá o dia
como deve ser: o sol
necessário, um debrum.
A manhã ainda ia longe, mas o canto iluminou-me como o sol que traz o vigor da manhã. Sorri, ainda de modo tímido, olhos
fechados. Foi então que senti o seu hálito próximo ao meu rosto, uma odor de
vinho tinto misturado ao desejo, perfume que toda mulher há de saber...
Beijou-me, delicado. Suspirei. Deixei que sua boca invadisse
a minha, que sua língua me tocasse, uma espécie de prólogo à madrugada que ainda havia de durar. A partir
deste momento, coube a ele toda a ação. Tomou-me nos braços e levou-me para o
quarto. Quando abri os olhos, estava no centro de uma cama imensa. Ainda
vestido, ele olhava-me terno. Veio-me à mente as palavras da amiga, companheira de festa na noite
recente. "Cada uma tem o seu vício, ainda que esconda-o." O dela era andar nua,
ou de vestido muito curto, apenas. Quem sabe trazia também outros vícios não revelados? O meu é o de gritar na hora do sexo, dizer palavras
descontroladas, perder-me em sons desconexos, grunhidos de apetite e gozo, como alguns animais realizando o desejo instintivo. Quando começou a tocar meu corpo, primeiro suspirei palavras de amor, depois lancei gritos breves, mais adiante berros em uníssono.
“Podes dizer tudo que quiseres, o que está mais oculto dentro de
ti, a palavra reprimida, o desejo impossível”, sua voz expandia-se num entusiasmo crescente. Ele trabalhava sobre
o meu corpo.
Pouco a pouco me despiu. Naquele momento, dei o sinal mais
estrondoso:
"Rasga-me, rasga-me toda, todinha, viu. Penetra-me e
rasga-me, arranca com violência a roupa que ainda me cobre."
Ele, como um bom amante, compreendeu minhas palavras. Eu,
num enlevo, esperei seus movimentos de braços, de pernas, do pênis dentro
de mim.
Já próximo ao final do ato, numa gradação impossível de ser contida, emiti uivos do gozo que se avizinhava. Meu recente amante incendiava-me, dizia que gritasse mais e mais.
Assim foi a minha noite. De mulher convidada a um coquetel, vestidíssima e recatada, a um fim de madrugada com a pele alva banhada em líquidos de amor, as fibras esgarçadas por um fio frio de adaga.
Assim foi a minha noite. De mulher convidada a um coquetel, vestidíssima e recatada, a um fim de madrugada com a pele alva banhada em líquidos de amor, as fibras esgarçadas por um fio frio de adaga.
O poema
presente neste conto pertence a Eucanaã Ferraz, e se chama: “Enquanto descansa,
dorme...”
sábado, maio 10, 2014
A obra de arte e o enlouquecimento
A noite terminou na casa dele num colchão duro sobre o qual
rolávamos de um lado para o outro. Mas ao chegar eu alertara que não transaria
naquela primeira vez, precisava de um tempo para me adaptar. Não era mentira.
Não é que eu queira posar de mulher difícil. Geralmente não consigo me soltar nem sentir prazer no primeiro
encontro, às vezes nem mesmo no segundo. Mas aceitei ir até lá. Toques e beijos
são bons prólogos para uma relação. E, quem sabe, dependia dele. Concordei em tirar a calça comprida e a
blusa ficando de calcinha e sutiã. Ele reparou meu corpo, ressaltou minhas
curvas e afirmou que não sou gorda nem magra. Em pouco tempo viramos uma
espécie de brinquedo um do outro. Enquanto fazia carinho nas minhas costas, eu
grudava ao seu tórax e procurava sua boca. Parti num afã para beijá-lo, mas
reparei que ele era suave e preferia o beijo num ritmo mais vagaroso. Aos poucos,
com a ponta dos dedos, foi descobrindo onde eu mais sentia prazer. Continuei a
beijá-lo, a deixar molhados seus lábios, seu queixo. Quando procurei com a
língua seu pescoço, ele mordiscou minha orelha esquerda e a manteve inteira
dentro de sua boca, tocou nela de leve com a ponta da língua. Tremeliquei e
fiquei toda arrepiada. Desatou meu sutiã e admirou meus seios, beijou os bicos e os manteve, um depois
do outro, dentro de sua boca. Tremi dessa vez de modo intenso. Desceu as
mãos pelo meu ventre, acariciou minha cintura nas laterais e puxou minha
calcinha até o joelho. Daí em diante eu mesma a tirei. Estava nas mãos dele,
podia fazer comigo o que bem desejasse. Rápido, não? Para quem pensara que não se soltaria de primeira... Me estiquei no colchão e disse baixinho
ai vou perder a cabeça, não perde a sua não, por favor. Não se preocupe, falou,
não vou gozar dentro não. E ficamos num movimento uniforme no começo, mas que
foi se intensificando à medida que vinha o gozo, e vinha de um modo gostoso,
como um pássaro que não tem medo de se aproximar e acaba por pousar sobre um
dos nossos braços. Ai, vou gozar, gritei num frêmito incontrolável, mas não
goza você não, por favor, deixa apenas eu perder a cabeça, insisti. Gozei com
violência, e ele ficou a esperar que eu terminasse com toda aquela agitação. No
final, ainda perguntei, você não gozou dentro não, não foi? Ele disse claro que
não, você pediu eu obedeci. Foi a nossa primeira vez. Quando havíamos terminado
e ainda estávamos enroscados um dentro do outro, ele perguntou você acredita
que uma obra de arte pode levar a pessoa à loucura? Não sei, talvez, respondi,
já pensei sobre isso, conheci um homem que atribuía a um filme espanhol a razão
de sua infelicidade, depois que o viu nunca mais foi o mesmo, acho que você
conseguiu fazer isso comigo, mas no sentido inverso, suas carícias foram um
tipo de arte que me deixou louquinha, acrescentei falando devagar. Ele riu, compreendeu
o que eu quis dizer. Mas percebi que, como sou professora de artes, não era
essa a resposta que ele queria. O corpo e os movimentos não deixam de ser obras
de arte, tentei concluir. Sentei na beira da cama e cruzei as pernas. Olhei sorrateira
para ele como uma modelo nua que espera o trabalho do artista sobre o mármore.
Só sei que numa das noites que se seguiram perdi a cabeça de novo e me
esqueci de pedir a ele que não perdesse a sua. Quando fui à minha
ginecologista, levei uma tremenda bronca. Ela disse que não se pode deixar um estranho gozar dentro da gente. Falou que eu me portei de
modo mais irresponsável do que muitas das minhas alunas adolescentes. Contei-lhe
então sobre a obra de arte e o enlouquecimento, mas ela não me deu ouvido.
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